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Encontro09.09.2017
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O Sr. INOCÊNCIO OLIVEIRA (PR-PE pronuncia o seguinte discurso) – Sr. Presidente, Senhoras e Senhores Deputados: A busca de uma identidade nacional para o Brasil “europeizado” no advento do século 20, sua paixão pela realidade dos sertões e a exuberância da Amazônia, estas energias e este caldo de cultura levaram o escritor Euclides da Cunha a construir um cenário épico da literatura brasileira, através do clássico “Os Sertões”. Nascido no município fluminense de Cantagalo, com formação escolar e acadêmica urbana, de nome de batismo Euclydes Rodrigues Pimenta da Cunha, o autor traduziu a autenticidade da vida sertaneja e do Interior do Brasil.

Ao tomar posse em 1903 na Academia Brasileira de Letra, na vaga de Valentim Magalhães, Euclides da Cunha falou, referindo-se ao seu antecessor, que ele “entregou-se de corpo e alma ao turbilhão sonoro e fulgurante da existência. Foi o seu grande defeito, dizem”. E o próprio Euclides corrigiu: “Mas este defeito é a mais bela imperfeição de nossa vida: o defeito de viver demais”.

O dia 15 deste mês de agosto assinala o centenário da passagem de Euclides da Cunha do turbilhão fulgurante da existência terrena, depois de uma vida pródiga e criativa como precursor do realismo na literatura nacional, repórter jornalístico, engenheiro e idealista republicano desde os tempos cadentes da Monarquia.

O traço republicano merece ser mais assinalado na formação política e intelectual do autor de “Os Sertões”. Um episódio é ilustrativo a este respeito. Aluno da Escola Militar da Praia Vermelha, em 1886, antes da Proclamação da República, portanto, e discípulo do republicano Benjamin Constant, pratica um gesto de rebeldia contra a visita do então ministro da Guerra monarquista, o conselheiro Tomás Coelho. A rebeldia o fez perder a matrícula na escola. Proclamada a República em 1889, retorna à Escola Militar da Praia Vermelha por concessão do seu sogro, o general Sólon Ribeiro. O jovem cadete era reconhecido pelo seu ideário republicano nos tempos ainda dominantes da Monarquia.

O clássico “Os Sertões”, sua maior expressão artística, teve como inspiração de origem o conflito de visões entre a Monarquia e a República. Os chamados jagunços de Canudos, sob a liderança do beato Antônio Conselheiro, eram considerados por alguns setores como sendo revoltosos que se insurgiam contra a nascente República. Com essa visão o Governo republicano mobilizou tropas para combater os beatos de Canudos no Interior da Bahia.

Por ter escrito artigos de jornal descrevendo os revoltosos, o então engenheiro e intelectual Euclides é destacado pelo jornal “O Estado de S. Paulo” para cobrir uma campanha militar na última fase da “guerra” de Canudos, sendo também nomeado adido do Estado Maior do Ministério da Guerra.

Os relatos jornalísticos que se transformaram em livro revelam a saga do homem sertanejo, sua porção mística, a força da cultura, as lendas, a convivência com a natureza inóspita na luta pela sobrevivência, a austeridade da vida no Interior do Brasil, a autenticidade dos homens e mulheres rudes, a poesia, as artes, o misticismo, o apego telúrico à terra, aos bichos e as suas crenças. A frase síntese do livro – “O sertanejo é antes de tudo um forte” – revela a dimensão humana e o conteúdo sociólogo da obra euclideana.

Euclides da Cunha também foi pródigo em seu ofício como engenheiro. Primeiro-tenente de Artilharia do Exército e professor da Escola Militar, dedica-se à construção de pontes e trabalha na construção da Estrada de Ferro Central do Brasil. Voltado para os estudos, obtém, o grau de bacharel em Matemáticas, Ciências Físicas e Naturais. Era vocacionado para o estudo das ciências e das humanidades.

Desligado do Exército depois da Proclamação da República, trabalha como engenheiro civil em várias cidades no Interior de São Paulo.

A primeira publicação em livro de “Os Sertões” acontece em 1902, depois de sua participação na Campanha de Canudos em 1897, afora publicações esparsas em artigos de jornais. Falando em os Sertões Mário Vargas Llosa, escreveu “a guerra do fim do mundo”, obra romanceada de guerra de Canudos.

O livro, hoje reconhecido como um clássico da literatura nacional, é saudado pela crítica como precursor da Sociologia e da literatura modernista no Brasil, mesmo antes da Semana de Arte Moderna de São Paulo em 1922.

Em 1903, escritor consagrado, é eleito membro da Academia Brasileira de Letras. Também no mesmo ano toma posse no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Mais um acontecimento relevante em suas atividades intelectuais é a missão oficial da qual participa como chefe, para percorrer o Rio Purus, na Amazônia, para decidir sobre o litígio de fronteira entre o Brasil e o Peru, na condição de representante do Ministério das Relações Exteriores. Percorre cerca de 6 mil quilômetros para cumprir a missão. O seu relatório resulta na demarcação de fronteiras entre o Brasil e o Peru.

Órfão de pais aos quatro anos, criado pelas tias, Euclides da Cunha foi movido desde a infância pela criatividade, capacidade de trabalho e dinamismo. Deixou marcas construtivas em todos os campos em que atuou, na vida militar, na sociologia, na engenharia e sobretudo na literatura. Mesmo tendo uma vida pessoal muito atribulada, foi pródigo na existência.

O Brasil de Euclides da Cunha na transição da Monarquia para a República e na transição do século 19 para o século 20 vivia no artificialismo do litoral contaminado pela cultura européia urbanizada, a chamada “Síndrome da Rua do Ouvidor”, no Rio de Janeiro, em contraste com o realismo, a força e a exuberância dos sertões, do Interior e da Amazônia.

Euclides da Cunha começou a resgatar a identidade nacional brasileira ao construir o universo de “Os Sertões”. Este foi o seu grande mérito intelectual e humanístico.

Faleceu precocemente aos 43 anos de idade em 15 de agosto de 1909.

Reverencio a memória deste brasileiro eminente, um dos precursores da nossa emancipação cultural, cuja obra resgatou a nossa identidade sertaneja, amazônica e exuberante dos trópicos.

Muito obrigado!

Sala das Sessões em 06 de agosto de 2009.



Deputado Inocêncio Oliveira

2o.Secretário



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