Krupskaia: revolucionária e educadora



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KRUPSKAIA: REVOLUCIONÁRIA E EDUCADORA.

Samantha Lodi-Corrêa1


Mara Regina Martins Jacomeli2

Resumo: Nadezhda K. Krupskaia (1869-1939) constantemente é lembrada por ser a mulher de V. Lenin, porém poucas vezes encontramos uma pesquisa que coloque sua produção intelectual como centro de análise. A presente comunicação vincula-se a um projeto de doutorado que pretende conhecer melhor a obra produzida por algumas revolucionárias que também foram educadoras no final do século XIX e início do século XX. Krupskaia foi uma pedagoga marxista que desenvolveu uma preocupação com a educação para o trabalho vinculada à educação intelectual para o desenvolvimento integral do indivíduo. Sempre ativa no movimento comunista russo, Krupskaia teve importante papel na preparação da Revolução Russa e na consolidação do regime soviético. Apoiada na teoria marxista-leninista visava ampliar a atividade social como prática comum na nova sociedade que se desenvolvia, pós Revolução Russa, para converter a mentalidade humana individualista, posta pelo capitalismo, em mentalidade coletivista. Para Krupskaia, a educação deveria considerar os três aspectos essenciais apresentados por Marx: educação mental, educação física e educação tecnológica. Defendeu a politecnia e um ensino igual para todos, independente dos recursos financeiros ou do sexo. A presente comunicação traz alguns dados preliminares da atuação de Krupskaia, mas já aponta que enquanto revolucionária e educadora teve sua atuação própria na formação de um ideal e na ação prática que se efetivou.

Palavras-chave: Krupskaia; Educação Comunista; História da Educação.

KRUPSKAIA: REVOLUCIONÁRIA E EDUCADORA.


Biografia

Nadezhda Konstantínovna Krupskaia nasceu em Petersburgo em 26 de fevereiro de 1869, filha de um descendente de família nobre que empobrecera e de uma professora que havia ficado órfã na infância. Quando seus pais se casaram as dificuldades financeiras eram imensas e no decorrer dos anos simpatizaram-se cada vez mais com ideias revolucionárias. Krupskaia perde seu pai cedo e os problemas financeiros da família só aumentam.

Aos quatorze anos, Krupskaia começa seu trabalho como professora particular - recebendo muito pouco por isso-, graças às dificuldades financeiras e sua vontade de continuar os estudos. Vivendo com a mãe, que também trabalhava para completar sua miserável pensão, suas aulas noturnas eram significativas para a sobrevivência.

Porém, o espírito revolucionário já fazia parte da jovem Krupskaia, que abre mão de suas aulas, inclusive a aula fixa que tinha no ginásio, para trabalhar, sem remuneração, em uma escola de operários. Período em que Krupskaia fazia suas leituras de Marx com o grupo de operários e também sozinha durante a madrugada. Foi assim que se convenceu, antes de conhecer Lenin, que o marxismo era um guia para ação efetiva que levaria a transformação social.

No trabalho com os operários, a proposta era oferecer um ensino que não se limitava ao ler e escrever, mas também avançar em conhecimentos e na consciência política, motivo que causou o fechamento da escola.

Em 1893, Lenin muda-se para Petersburgo e torna-se líder do movimento marxista por seu conhecimento teórico e por sua capacidade de articular a teoria de Marx à realidade russa. Em Petersburgo, Lenin e Krupskaia se conhecem e trabalham juntos para a formação do futuro partido proletário russo. Dois anos depois, conseguem unir todos os círculos operários de Petersburgo e formam a União de Luta pela Emancipação da Classe Operária.

No final de 1895, Lenin foi preso por publicar folhetos ilegais, porém, não deixou de organizar o partido por intermédio de Krupskaia que fez um trabalho sistemático de propaganda comunista, que levou a limitar a jornada de trabalho no máximo em 11h30 por dia.

Em agosto de 1896, Krupskaia foi presa com alguns “tovarishi” e permaneceu sete meses na prisão, de onde saiu após o suicídio de uma estudante. Com medo de uma indignação geral a polícia soltou todas as mulheres presas por causas políticas e as encaminhou para a deportação. Condenada há ficar três anos na província de Ufá, solicitou e conseguiu ser transferida para a Sibéria, onde estava Lenin, alegando serem noivos. A transferência foi concedida, porém os noivos deveriam contrair matrimônio assim que ela chegasse à Sibéria. Assim o fizeram.

O exílio foi um momento produtivo para o casal que produziu ativamente. Krupskaia produziu um folheto, “A Mulher Operária”, com o pseudômino Sáblina, que auxiliou na incorporação das operárias de fábricas no movimento proletário.

Com o fim do exílio de Lenin, Krupskaia teve que terminar o seu em Ufá. Encontram-se novamente em 1901 na Alemanha, onde Lenin publicava há um ano o periódico “Iskra”, no qual Krupskaia toma parte desenvolvendo tarefas na edição, correspondendo-se com os operários e cuidando do transporte da publicação. “Iskra” será uma forma de organizador coletivo.

Ao voltar para Rússia em 1905 usa outro nome e vai separada de Lenin. A oposição entre bolcheviques e mencheviques era clara neste momento. Ao chegar a Petersburgo, começa uma atividade revolucionária nos subúrbios. Encontra também antigos alunos que agora eram revolucionários bolcheviques.

Krupskaia foi a secretária do Comitê Central que com a repressão aos acontecimentos de 1905 precisa reorganizar. Lenin corre perigo em Petersburgo, por isso fica na Finlândia, enquanto Krupskaia faz todas as relações entre ele e o Comitê Central. No final de 1907, Lenin transfere-se para Suíça, acompanhado por Krupskaia.

Em 1912, mudam-se para Cracóvia e ficam mais perto dos acontecimentos. Krupskaia continua com auxiliar de Lenin e desenvolve o trabalho de organização do Partido, ligando-o a Rússia. Krupskaia, nos anos seguintes, assume a criação, na Rússia, de uma publicação diária legalizada para mulheres operárias.

Com a volta de Lenin para Suíça, Krupskaia organiza reuniões e conferências para a fundação de Internacional Comunista. Em 1915 participou como delegada da Conferência Internacional de Mulheres, em Berna, organizada por Clara Zetkin. Nesse mesmo período retomava fortemente sua relação com a pedagogia e publica o folheto “A instrução popular e Democracia”.

De volta à Rússia, Krupskaia se aproxima das massas, afastando-se um pouco dos trabalhos burocráticos do Comitê Central do Partido. No bairro de Viborg, integra o Conselho de Instrução Pública e realiza um trabalho educativo e cultural, convidando todos que soubessem ler e escrever a trabalhar na instrução dos operários.

Antes de Revolução de Outubro, Krupskaia organizou o armamento dos operários e ensinou operárias a cuidar dos feridos. Na virada do ano, a comemoração de Lenin e Krupskaia foi no bairro de Viborg com os operários.



O governo soviético vai para Moscou e Krupskaia entre entra para o grupo de Instrução Pública do governo, com a finalidade de acabar com o analfabetismo – considerado legado da monarquia - em todo o país. Estabelecimentos par instrução de adultos foram criados, assim como creches e jardins de infância.

Os trabalhadores correspondiam-se constantemente com Krupskaia que não consegui responder a quantidade de cartas que recebia. Convivia com as mulheres operárias e participou ativamente de um navio de agitação “A Estrela Vermelha” para pronunciar discursos de propaganda do novo governo entre as massas. Mesmo com sua saúde abalada, foi difícil para Lenin convencer Krupskaia a voltar para Moscou.

Durante o péssimo estado de saúde de Lenin e até no período que seguiu a sua morte (seu luto), não abandonou seus pronunciamentos e sua ação.

Durante os planos quinquenais da União Soviética continuou seu trabalho e deu ênfase à educação, embora se interessasse por variados tipos de assuntos. Faleceu em 1939, um dia depois de completar setenta anos, sem se afastar do trabalho.

A educação em Krupskaia.
A educação esteve, desde a juventude, presente na vida de Krupskaia e é nesse aspecto que vamos nos deter por enquanto. Para ela Marx funcionou como uma guia de ação e apoiada na teoria marxista-leninista visava ampliar a atividade social como prática comum. Foi assim que agiu a educadora antes e durante o desenvolvimento da nova sociedade, pós Revolução Russa.

Ainda em 1910, escreve um texto justificando a necessidade de ensinar aos meninos trabalhos até então ensinados somente as meninas, como costurar, cozinhar, enfim, todos os afazeres domésticos. A divisão entre o que deveria ser de homem ou de mulher era vista como uma construção social preconceituosa que depreciava a mulher. Ensinar aos meninos “coisas de mulheres” é dar autonomia ao indivíduo, que deixa de ser impotente e de depender do trabalho do outro. O que poderia ser considerado ridículo para alguns é apresentado como parte geral da escola e que merecia a atenção.

A proposta de Krupskaia era converter a mentalidade humana individualista, posta pelo capitalismo, em uma mentalidade coletivista. Em uma sociedade de classes a educação se desenvolve de maneira classista, levando os pais a explorarem seus próprios filhos para sobreviver. Em uma sociedade alforriada do capitalismo “o livre desenvolvimento de cada um será a condição para o desenvolvimento de todos” 3.

O capitalismo tende a naturalizar diferenças socialmente criadas como a que existe entre classes dominantes e dominados, e até a criada no interior da família, onde o pai –homem- exerce o papel de dominador enquanto a mãe –mulher – e os filhos são os dominados. As defesas de igualdade propostas por Krupskaia estão vinculadas à ideia de acabar com qualquer tipo de dominação estabelecida e estão de acordo com o que propõe Marx no “Manifesto do Partido Comunista” 4.

Preocupada em por fim à exploração infantil faz referência a ideia apresentada por Marx de criar uma legislação que protegesse os filhos da exploração dos pais e assegurasse a educação. Por educação reforça três características que devem ser conjugadas: educação mental, educação física e educação tecnológica5.

Sobre a educação pública, deixa bem clara sua posição. O Estado deve financiar manter financeiramente as escolas públicas, mas não deve de maneira alguma se nomear o educador do povo. A escola deve estar livre da influência do governo assim como da influência da igreja. No estado burguês, a escola é um instrumento de subjugação espiritual e de adestramento das massas.

Na sociedade classista a educação não é a mesma para o filho do operário e para o filho do burguês. A divisão de classes se mantém no ensino, de forma que ao filho do operário cabe um ensinamento limitado, enquanto o filho do burguês se prepara para desfrutar da vida e para governar. A escola só chegou ao trabalhador de forma extremamente limitada, sendo suficiente para a leitura de instruções, necessária na sociedade que se industrializa, e para inculcar a moral burguesa junto com a consciência de classe, fazendo dos operários rebanho manso e fácil de governar.

Para Krupskaia fazia-se fundamental a construção de uma escola igual para todos, garantindo o que as escolas das classes dominantes já possuíam: local adequado com higiene, roupa apropriada, boa alimentação e ar puro, com o intuito de fortalecer a saúde e a força das novas gerações, independente das condições financeiras de seus pais. (Cf. KRÚPSKAYA, 1986, p.52)

Em seus escritos sobre educação demonstra conhecer a importância das fases de desenvolvimento infantil, considerando os aspectos da formação psicológica, sem esquecer-se da importância do bem coletivo.

A educadora conhecia plenamente as propostas educacionais em voga na Europa do final do século XIX e início do século XX, por isso em seus textos sugere nominalmente Pestalozzi, Fröbel e Maria Montessori.

Krupskaia, ao pensar o desenvolvimento integral do ser humano, conjuga a proposta socialista com o desenvolvimento de sentidos pela percepção, estudado pelos precursores da escola nova. Assim, a criatividade infantil deve ser estimulada ao máximo com vários materiais. Aí está a questão de oferecer a todos o que as classes dominantes já possuíam.

Krupskaia, no texto “Teoria e Prática”, declara estar consciente que na escola pré-revolucionária a teoria e a prática estavam apartadas. Na escola soviética a teoria seria o guia de ação, por isso novos métodos, que possibilitem o desenvolvimento da prática operária, deveriam ser trabalhados. A criação de uma escola politécnica como imaginava Marx, Engels e Lenin, permitiria a União Soviética criar seu próprio caminho. (Cf. KRÚPSKAYA, 1986, p.117)




Considerações.
A presente comunicação traz alguns dados preliminares da atuação de Krupskaia, mas já aponta que enquanto revolucionária e educadora teve sua atuação própria na formação de um ideal e na ação prática que se efetivou com a Revolução Russa. Mais do que a esposa de Lenin, Krupskaia foi uma bolchevique de ação.

Bibliografia.
BOBROVSKAIA, Tsetsiliia S. Nadezhda Krúpskaya: 1869-1939. Moscú: Editorial Progreso, 1940.

CAMBI, Franco. História da pedagogia. São Paulo: Unesp, 1999.

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

_______. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

KRÚPSKAYA, Nadezhda. La educación laboral e la enseñanza. Moscú: Editorial Progreso, 1986.

MARX,


PISTRAK, Moisey M.(org.) A escola-comuna. São Paulo: Expressão Popular, 2009.

REED, John. Dez dias que abalaram o mundo. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2010.


 

 



 



1 Doutoranda em Educação pela Universidade Estadual de Campinas, na área: História da Educação. (samantha_lodi@yahoo.com.br)

2 Pedagoga, doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente é professora da Universidade Estadual de Campinas na Faculdade de Educação.

3 Krupskaia, “Marx sobre la educacion comunista de la joven generacion”, in Krúpskaya (1986), p.25.

4 Não encontramos em Krupskaia a expressão de “abolir a família”, mas o tempo todo demonstra a proposta de abolir os moldes familiares preestabelecidos.

5 As características reforçadas por Krupskaia estão, mais uma vez, de acordo com a proposta de Marx para a educação. A educadora adota a definição e remete-se à Marx quando faz essa opção.






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