Konsalik b de atalhão Mulheres



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Em Melechovo na Rosumnaja o Estado-Maior se instalou em duas casas de camponeses, reconstruídas. Ali também foram instalados o hospital de campanha, o acampamento de alimentação, as oficinas, as armas do batalhão, os escritórios e a estação de rádio. Também um carro especial apareceu em Melechovo — um veículo com uma imensa antena a sacolejar, cheio de fios, e um toldo removível.

O Comissário Miranski deu a notícia, orgulhoso, ao voltar para a trincheira da frente:

— É uma maravilha!

Ele estivera em Melechovo para lutar por sua posição com um membro da repartição para doutrinação política. A ordem de Stalin, retirar os comissários políticos das tropas e substituí-los por oficiais, desencadeara em Foma Igorevitsch um horror ímpar. Andava de cá para lá, feito galo depenado, de quem fora roubada a fantasia masculina e se queixava do Uka de Moscou, tão afastado da realidade; ou ficava sentado, deprimido, em um banquinho e ruminava argumentos e idéias para uma grande.solicitação à Central.

Voltou então com uma miragem de esperança para suas “moças”, como chamava as fuzileiras. O camarada de Moscou lhe prometera dar uma palavri­nha no sentido de lhe ser conferido o posto de major-oficial. Com isso pode­ria permanecer na sua unidade.

— Conseguiremos — o inspetor animou o Comissário Nliranski, que por dentro tremia. — A fama de sua tropa é excelente. Parabéns, Foma Igorevitsch. O senhor reuniu à sua volta as melhores fuzileiras do Exército. Naturalmente eles o sabem em Moscou. E também sabem que a moral interna, sem similar, das camaradas, é obra sua! Tenha esperança, camarada!

Quando alguém falava de moral na presença de Miranski, podia acontecer que ela começasse a morder nervosamente o lábio inferior. Na realidade Foma Igorevitsch se transformara no dia 3 de março. O Terceiro Exército Blindado capturara Charkov e estava em marcha tormentosa em direção a Poltova, quando o Grupo Bajda foi deslocado para a cidade liberada. Instalaram-se em uma linda casa perto do teatro e aguardaram ordens de entrar em combate.

Foi uma época tediosa. As moças bordavam, ouviam música, faziam bonecas ou escreviam. Algumas levavam rapazes jovens para o porão da casa, onde tinham estendido colchões, e extravasavam seu tesão acumulado. Tam­bém se ia ao teatro, que foi logo posto para funcionar, depois da conquista, e Miranski de vez em quando ia pescar no Rio Uda. Primeiro em um buraco de gelo, onde ele colocou quatro varas e esperava pacientemente, sentado em uma grossa pele de raposa, até que as cordas tremessem, e depois na água livre, onde se agachava em uma canoa velha, amarrada à margem por um cabo.

Na realidade foi por culpa dessa canoa que Miranski entrou em conflito com a moral. Um belo dia levara Darja Allanovna Klujeva para pescar. Ela mesma dissera que o desejava e prometara ficar quietinha, sem abrir a boca, sentada no barco, nada fazer que pudesse assustar os peixes e obedecer a todas as ordens de Foma Igorevitsch. Sempre se interessara por pescarias, disse ela, e peixes eram seu alimento preferido. E Miranski foi o suficientemente ingênuo, para aceitá-lo, e assim a levou para o Uda.

É preciso ter conhecido Darja Allanovna para entender em que Miranski se metera. Ela possuía cabelos vermelho-alourados, que cintilavam ao sol como cobre polido e em toda a parte, como se poderia esperar de uma jovem esbelta de 20 anos, seu corpinho fora beneficiado com curvas delicadas. Seus olhos verde-cinzentos faiscavam e, quando ria, apareciam duas covinhas em forma de estrela nas duas faces. Só mirá-la já era um prazer e quando começa­va a contar histórias, excitada, soava como um rouxinol. Miranski já a tinha observado várias vezes, quando acreditava que ninguém o via; tinha admirado seu andar flexível e o suave balouçar de seus quadris estreitos. No seu livro de tiros havia até o momento 32 marcas — deixando de lado as três vezes em que seqüestrara sentinelas. Depois de Schanna, a pastora do Lago Baikal, ela era a mais jovem da unidade. E além disto era a mais alegre.

Portanto, Darja estava sentada, neste dia ensolarado, fora do comum, na canoa ao lado de Miranski, que lançara o anzol e fitava a cortiça flutuante. Na realidade estava quente demais para um dia de início de março. No Rio Uda o gelo ainda flutuava em pedaços grandes e pesados, mas o lugar que Mi­ranski escolhera estava livre do gelo. Ficava em uma pequena enseada, na qual os peixes gostavam de procurar abrigo.

Seja como for, talvez Darja estivesse sentindo falta de ar, talvez o sol e o anúncio da primavera na atmosfera fizessem seu sangue ferver — de qualquer modo ela, para imenso espanto de Miranski, que a observava pelo canto do olho, primeiro puxou a saia para cima, até as coxas; depois desabotoou a blusa, esticou-se e espreguiçou-se, o que fazia ressaltar seus seios jovens e enrijecia as lindas pernas esguias.

Sob os cabelos de Foma Igorevitsch, já tingidos de cinza, começou uma comichão. A pele firme, branca, cintilante daquelas coxas, que pareciam ser talhadas em madrepérola, deixou sua garganta ficar seca. Quando o olhar caía nos seios de Darja, sua laringe se fechava como se estivesse tendo es­pasmos.

— Você vai se resfriar! — alertou com voz rouca, quando Darja afastou a blusa dos ombros. — Ainda não estamos na primavera!

— Mas eu a sinto! — Ela riu, cacarejando, e deu um empurrão no lado de Miranski, com a ponta dos pés — ou você acha que perturba os peixes, eu me mostrar assim?

— Os peixes não sentem. . . — rosnou Miranski.

— O gelo também não?

— Naturalmente que não!

— E a areia da margem. E também os bambuzais, os arbustos de avelãs, a grama, os seixos, o vime, a canoa e a água. . . o vento, o sol, o céu, as nu­vens. . . todos não sentem! Então a quem perturbo?

— A mim! — respondeu Miranski sombriamente. Ele se virou, na direção de Darja, fitou-a com os olhos umedecidos e lhe parecia que era torturado com milhares de pequenas pontadas no peito, ao ver a pele suave, branca e firme da moça. Empurrou para diante o lábio inferior, como se quisesse cuspir em Darja, e mexeu nervosamente no paletó.

— Como isto pode perturbar você? — perguntou ela e o olhou sardonicamente. — Foma Igorevitsch, não me diga que você sente alguma coisa!

— Eu sou um homem! — disse Miranski duramente.

— Se estiver escrito em seus documentos, deve ser verdade. Ah, é, uma vez, por acaso, vi como você estava em pé, diante da parede de um celeiro e urinou, com um lindo jato. Uma mulher não consegue fazer isso. . .

A ironia impregnou-se fundo na alma de Miranski, como ácido sulfúrico concentrado. Respirou profundamente pelo nariz, bateu com os dedos contra o peito e fitou, com olhos esbugalhados, o lugar onde se uniam as coxas de Darja. Até lá a saia tinha já escorregado.

— Até um garanhão cego fareja a égua — disse Miranski, com uma voz abafada.

— Se ainda for um garanhão. — Darja riu novamente, cacarejando, reco­meçou a se estirar, e a canoa começou a oscilar e balançar. — Você é casado, não, Foma Igorevitsch?! Há quanto tempo?. . . Oh, o que estou perguntando. Você ainda se lembra da aparência dela? Ela tem uma bunda redonda? Seios grandes? Quando foi que transou com ela pela última vez? Naturalmente, há mais de cinco meses, quando você teve férias. Bem, só foi uma semana. . . mas, todos os meus santos, o que não se pode fazer em uma semana inteira! Como é que ela se chama, a mulherzinha nas teias de aranha? Praskovja Ivanovna não é verdade? Como é que Foma Igorevitsch mereceu uma mulher­zinha tão abnegada como Praskovja?

— Cale a boca, sua puta fodida! — berrou Miranski. — Você já vai ver o que vai lhe acontecer! Eu lhe darei uma surra e depois ninguém poderá dizer que foi injusta! Sua gata quente! Vista-se, digo! Isto é uma ordem! Nós esta­mos em guerra, além disso na frente de batalha! Você está a serviço, sua sirigaita sacana. . . Você vai ou não se cobrir?!

Ele deu um pulo, para puxar a saia novamente sobre as coxas dela mas com isto fez um movimento tão impetuoso que a canoa começou a oscilar perigosamente. O comissário procurou apoio, já se via a cair na água gelada, tateou em sua volta, passou as mãos pelos seios de Darja, rígidos e firmes, e neles se segurou. O acaso quis que ele escorregasse no chão sujo da canoa. Caiu para a frente com todo seu peso e Darja também caiu. Ela imediatamente o abraçou, o aprisionou com as pernas e riu diretamente na cara dele, vermelha como púrpura, contorcida.

Como dissemos, a partir desse dia 3 de março Miranski evitava a palavra moral. Também não tinha para ela uso nenhum, já que Darja Allanovna passou a se esgueirar todas as noites para o quarto dele e só de madrugada vol­tava, às escondidas, para o domicílio que o Grupo Bajda usava como quartel. Miranski deveria ser, ao contrário de todas as fofocas até então circulantes, um excelente amante. Quando se perguntava a Darja, ela não respondia. Ape­nas os olhos verde-acinzentados, de gata, brilhavam. O Tenente Ugarov, que trabalhava duro no dormitório de Soja Valentinovna, mulheraça cheia de tesão, submeteu Miranski a um inquérito durante uma partida de xadrez.

— O pessoal comenta. . . — começou ele com um tom de censura. — O senhor e Darja Allanovna. . .

— Mas eu lhe dou liberdade de transar com a Bajda! — interrompeu Mi­ranski.

— Eu não sou casado.

— Isto é problema meu.



— Como é ela? — Ugarov inclinou-se para a frente. Sua voz era a de um conspirador. — Interesse de amigo, Foma Igorevitsch. Uma égua tão jovem. . .

— O que dizer? — Miranski sorriu, entre irônico e orgulhoso. — Ela é estudante de arquitetura. Bem, e sempre tem idéias novas, quando se trata de construir alguma coisa!



Era uma época alegre, quase isenta de preocupações, em Charkov. Mas depois os alemães reconquistaram a cidade e o Grupo Bajda foi novamente deslocado para Kupjansk no Oskol. Lá as moças esperaram, até que no dia 25 de março as frentes se fixaram e todos viam claramente: agora vem o gran­de descanso, o refazer das forças, a guerra de posições.

A grande época das fuzileiras.

O tempo do espreitar e esgueirar-se para junto dos homens, que já estavam mortos ao aparecer no reticulado do visor. Os poucos segundos de vida que ainda lhes restavam não eram contados. . .

Miranski voltara de Melechovo e trouxera a notícia de que como major continuaria a cuidar da unidade feminina. A Capitoa Bajda o abraçou, Ugarov deu-lhe uma palmadinha nas costas, Darja Allanovna esperava impacientemente a escuridão para se aconchegar junto dele.

Era uma verdadeira posição de luxo, a que fora ali instalada. O Sétimo Exército, que ocupara a região, pertencia à nova frente da estepe do General Conjev. Homens descansados, fortes, da reserva, regimentos que de tanta abundância de material quase deixavam abrir as costuras. O sistema de trincheiras, de sete etapas, que erigiram, era uma obra exemplar de engenharia. Havia trincheiras escoradas e abrigos com grossas tábuas de madeira, fortins de terra com vigas triplas, trincheiras de passagem, nas quais não era necessário correr agachado, com posições dianteiras, também ligadas com trincheiras profundas, nas quais se ficava sentado em buracos com toldos, bem protegidos contra estilhaços, invisíveis para os observadores aéreos, e totalmente seguros contra tiros diretos. E mais atrás eram transportados milhões de metros cúbicos de terra por soldados e pela população civil sobrevivente, para construir posições inexpugnáveis de acolhimento. Lá poderiam — já que tudo é possível em uma guerra — se refugiar as divisões soviéticas, caso os alemães realmente tivessem novamente êxito em uma ofensiva e conseguissem ultrapassar a linha sétupla.

As fuzileiras do Grupo Bajda ocuparam uma parte das trincheiras com abrigos de terra espaçosos e trincheiras de passagem direta para o batalhão. Não muito atrás delas, entre modestas elevações e pedaços de florestas, estavam as baterias de artilharia dianteiras, pesados lançadores de granadas, Paks e Flaks, canhões de defesa antiaérea. Perto de Melechovo já estavam os tanques e o que Miranski classificara de maravilha: um carro de escuta. Um veícu­lo especial com uma floresta de antenas. Captava todas as emissões radiofôni­cas alemãs no circuito da região. Especialistas em códigos decodificavam os informes cifrados.

Stella Antonovna examinara cuidadosamente a nova posição. Diante delas estava o Donez norte, aquele rio lento, arenoso, com margens ondula­das, muitas enseadas pequenas e as penínsulas criadas pelas correntezas e pelo movimento do gelo. Agora ele estava na terra de ninguém e formava uma fronteira, que deveria ser vencida por cada lado, se ocorresse novo ataque. Do outro lado estavam os alemães em um sistema de trincheiras cujas linhas em ziguezague se espraiavam especialmente na direção de Bjelgorod. Bjelgorod era um nome fatídico como Charkov, quatro vezes conquistada e quatro vezes perdida, e agora ponto de encontro entre o Quarto Exército Blindado alemão e da Divisão Kempf. Adolf Hitler começara a sonhar com Bjelgorod desde que acompanhara, em seu Quartel-General Wolfsschanze, perto de Rastenburg, a estabilização da frente, no dia 26 de março de 1943, em cima de um mapa. Bjelgorod, um punhal no flanco macio sul da frente Voronesch de Vatutin. Bjelgorod — assim sonhava o Fuehrer — aqui o destino mudaria, a partir dali começaria uma ofensiva vitoriosa e se iniciaria a liquidação total do Exército soviético. O povo alemão e o mundo deveriam esquecer, de uma vez por todas, Stalingrado, o sangrento Menetekel* desta guerra.

Do lado soviético todos já tinham tomado conhecimento da situação. Um círculo de espionagem, com o nome disfarçado “Luzy”, que operava a partir da Suíça neutra, transmitia informações excelentes. Suas ramificações iam, como uma rede de cogumelos, até os estados-maiores alemães e as repar­tições encarregadas do planejamento dos preparativos bélicos. Praticamente nenhum detalhe lhes escapava. A construção lenta mas precisa de uma ofensi­va alemã, a preparação das melhores armas e materiais, o rolar de tanques Ti­gre e o novo tanque blindado Pantera, com seu canhão de longo alcance de 7,5cm, sem concorrentes, o aparecimento do misterioso tanque-mirim, tele­guiado, Goliath, uma supergranada rolante — a respeito de tudo isso Mos­cou recebia notícias sóbrias e fidedignas da Suíça.

“Dora para o Diretor. . .”, “Diretor para Dora. . .”, assim começava cada noticiário radiofônico. A central de notícias do Exército soviético tinha um ouvido na fortaleza mais protegida do mundo, no Quartel-General do Fuehrer. Os generais soviéticos liam o segredo da ofensiva alemã planejada como se fosse uma comunicação matutina rotineira.

Stella Antonovna levou dois dias até saber qual era sua tarefa. Ficava deitada horas a fio na grama alta das margens do Donez e olhava, por cima do rio, para as posições alemãs. Só com o melhor dos binóculos era possível reconhecer, esfumaçadamente, as fortalezas alemãs. Entre o Donez e os batalhões inimigos ficavam algumas centenas de metros de estepe e terrenos cober­tos de pinhais baixos, pedaços dilacerados de floresta e habitações abandona­das, dos camponeses que tinham se retirado.

Stella tinha certeza de que lá do outro lado, na ampla terra de ninguém, tropas de reconhecimento alemãs — ou apenas homens a passeio — chegavam até o rio. Do lado soviético muitos tomavam banho à noite nas enseadas do Donez. Um lugar de recreio na proteção da calma ilusória e da letargia — um pedaço de terra livre, um rio que brilhava,cintilando,prateado, no sol, campos
verdejantes em margens arenosas. Como era lindo ficar deitado na terra quente, olhar o céu azul, contar as nuvens, ouvir o ruído das abelhas, o canto dos alcaravãos e o cricrilar dos grilos. O mundo está cheio de paraísos — e é impossí­vel compreender por que o homem, com uma obstinação profunda, só pensa em destruí-los.

— Amanhã de noite começaremos — disse Stella Antonovna para a Capi-toa Bajda. — Existem inúmeras possibilidades. Levarei comigo Marianka, Schanna, Lida e Darja.

Soja Valentinovna acenou com a cabeça. Nestas semanas de repouso ela engordara ainda mais. Seus seios se projetavam, amplos, sobre o cinto da blusa do uniforme. Quando Ugarov a via despir-se, gemia internamente e tinha me­do dessa abundância crescente.

A frente de certo modo adormecera, mas as ações isoladas não paravam. Eram como pontadas de agulha em um corpo que procurava o repouso — uma lembrança constante: Morte aos agressores! Morte aos fascistas! Enquanto um único pé alemão estiver no solo russo, lutaremos!

Durante a noite Stella e suas camaradas ultrapassaram a fronteira pela primeira vez. Usaram um pequeno bote de borracha, amarelo-acinzentado, que se movia a remo e passava quase inaudivelmente pela correnteza. Ao chegar na outra margem, descarregaram suas carabinas e subiram, sorrateiramente, a encosta. Lá, deitadas, se deram as mãos e se separaram.

Dezenove soldados, sete suboficiais e sargentos, um alferes e um tenente foram assassinados. Um grupo de quatro pioneiros, que queriam pescar no Donez, não voltou e foi considerado desaparecido. Dois cabos da companhia de comunicações, que cuidavam de dois suínos em um curral na terra de ninguém e que tinham neste momento arranjado 12 galinhas, foram achados ao lado dos baldes de ração, que se tinham entornado. Mais quatro homens de uma tropa encarregada de atravessar o Donez de noite, para observar o campo soviético dianteiro, estavam deitados nas margens arenosas, enfileirados como animais abatidos.

Trinta e nove mortos — e todos tinham morrido com um tiro na testa. Não havia outros sinais de combate, nenhum outro ferimento. Todos morreram, sem suspeitar de nada, a morte em segundos. Trinta e nove mortos em um combate isolado dentro de apenas 10 dias.

Miranski irradiava orgulho, a Bajda mandou vir vinho da Criméia da re­serva, que o camarada administrador do acampamento de víveres tinha secre­tamente entesourado, e Ugarov esperava, assim como todos os outros mem­bros do grupo, uma nova bênção, sob forma de medalhas, e um louvor do Ge­neral Conjev.

Fins de abril de 1943. Uma primavera como cetim e seda jazia sobre o leito do Donez. Em Charkov os soldados se douravam ao sol nos parques destruídos, banhavam-se nos rios, aplaudiam as representações dos teatros de arena da frente. Os homens da infantaria alemã caçavam os devotschki e tudo o mais que usasse saias. Enquanto isso os comandos especiais da SS e SD passa­vam pelos povoados e liquidavam os guerrilheiros, os traidores, os espiões e todos aqueles que suspeitavam de sê-lo. Na ópera de Charkov um conjunto re­presentava O Czar e o Carpinteiro.

No dia 13 de abril tinham sido descobertos, em Katyn, enterrados em massa, mais de 4.000 oficiais poloneses executados a tiros. A propaganda ale­mã entoou a tese dos selvagens asiáticos em todo o mundo. Uma comissão in­ternacional de médicos e especialistas em tiros constatou, sem que pudesse ha­ver sombra de dúvida, que esses oficiais tinham sido mortos antes do avanço alemão, isto é, por soviéticos. A indignação foi imensa, mas não conseguiu desviar a atenção dos campos de concentração alemães e do extermínio dos judeus pelos alemães.

Em Posen o Major Molle mandou vir os seus dois favoritos, Peter Hesslich e Uwe Dallmann. Sem uma palavra lhes mostrou documentos cheios de ca­rimbos por cima da mesa. Tratava-se de ordens de se pôr em marcha.

— Eu sabia — falou Dallmann com amargura — que nós não tínhamos aqui um posto vitalício. Onde é o incêndio? Tudo está tranqüilo! Os camaradas estão deitados ao sol e deixam esquentar as barrigas inchadas de sopa.

— Para o Donez! — O Major Molle fitou Hesslich e Dallmann pensativamente. As notícias que recebera eram terríveis, mesmo despidas de todo o sensacionalismo. — A noroeste de Bjelgorod houve 39 perdas na terra de nin­guém, por tiros na cabeça. Depois do décimo segundo uma equipe de médicos no hospital militar de Bjelgorod fez uma autópsia nos cadáveres dos outros. Especialistas em balística tinham constatado que das 27 vítimas examinadas pelo menos 14 tinham sido mortas pelo mesmo fuzileiro. As marcas das balas eram as mesmas. Isto significava: lá no Donez estamos às voltas com um mes­tre de sua arte, ou então uma mestra.

— As mulheres ainda estão por lá? — Uwe Dallmann dobrava a sua ordem de marcha.

— O senhor treinou durante meses, Dallmann.

— É coisa diferente, Sr. Major, atirar em um camarada de papelão ou em uma moça viva.

— Essa moça tem na consciência mais de várias dúzias de seus colegas, Dallmann! E ela também o matará, se o senhor não for mais rápido!. . . Como é mesmo o provérbio, Sr. Suboficial?

— A morte tem mil disfarces! — Dallmann fez uma continência. — Peço folga ao Sr. Major, até a chamada matutina.

— O seu trem parte amanhã cedo, Dallmann.

— Mesmo assim. — Dallmann encostou o queixo na gola. — Eu gostaria de ainda uma vez segurar uma moça de verdade, antes de atirar em outras moças.

— Concedido! — O Major Molle acenou, afirmativamente. — Eu avisarei o escritório. O senhor também, Hesslich?

— Por favor, sim, Sr. Major. No teatro da cidade estão representando O Primo de Dingsda.

— Seu sonhador! — disse Uwe Dallmann já lá fora e bateu com os dedos na testa. — Uma opereta ao invés de uma bunda fodida! Até os gladiadores da antiga Roma tinham seu bordel e ainda levantavam um, antes de marchar para a morte na arena, como nós agora! Venha comigo, Peter!

— Deixe-me ir ao teatro! — Hesslich sorriu levemente. — Pode ser que eu o siga depois. Afinal de contas sei onde você estará.

— Isto sim é que é palavra! — Dallmann lhe acenou, alegre. — Eu esquentarei uma para você e a terei preparado. Você só precisará pular em cima dela. . .

Cinco dias mais tarde eles se apresentaram, inicialmente, à divisão, depois ao regimento, depois ao batalhão e finalmente lá na frente junto ao comandante da Quarta Companhia, Tenente Franz Bauer III.

— Epa, aí estão os rapazes maravilhosos! — exclamou o Tenente Bauer III sarcasticamente e bateu com os dedos nos telescópios de mira das carabinas dos dois. — Então é com isto que vocês querem ganhar a guerra! Muito bem, vamos então! — Acenou para a terra de ninguém, lá longe. Na luz verme­lha do sol poente se via o Donez, as casas dispersas dos camponeses, as peque­nas florestas, a estepe. — Elas estão por aí, esgueirando-se! Desde ontem sabe­mos com quem estamos lidando! Dois pioneiros as observaram, durante a noite, quando remavam de volta em um barco de borracha. São fuzileiras!

— Aí temos a merda! — disse Dallmann, amargo. — Com Molle ainda era uma suposição, agora o sabemos! Com todos os diabos, se eu já tivesse dado o primeiro tiro! É como uma virgem: da primeira vez, ainda dói!

Já nessa noite Peter Hesslich entrou furtivamente na terra de ninguém e se deitou, à espreita, entre as casas dos camponeses e o rio. Um quilômetro mais para o norte Uwe Dallmann engatinhava pela estepe e aguardava em um terreno coberto de pinhais.

O lugar onde Stella Antonovna desceu ficava exatamente entre os dois. Observara durante três noites como os alemães, em uma pequena ponta de terra, sob a proteção da escuridão e de duas metralhadoras, tomavam banho. Essa audácia a espantou. Mas um soldado alemão, que sobrevivera à retirada do Volga para o Donez não se assustava mais com coisa alguma — nem mesmo com um fuzileiro soviético. Afinal de contas, tinham trazido duas metralhado­ras — então que o Ivan viesse!

Na manhã seguinte Stella Antonovna e Schanna Ivanovna noticiaram dois acertos.

Dois fuzileiros alemães com metralhadoras. ,

Soja Valentinovna Bajda as abraçou e beijou. Miranski ofereceu conhaque de sêmola, que recebera em Melechovo, do seu amigo do acampamento de víveres, o gordo camarada chefe. Miranski lhe prometera, em troca, enviar-lhe, na primeira ocasião propícia, a gorducha Nani, que se queixava incessan­temente de que necessitava de um homem, senão explodiria como uma mina. Peter Hesslich estava em pé, sob a proteção de uma casa de camponês, com os olhos semicerrados, fitando o Donez e as longínquas trincheiras sovié­ticas. Uwe Dallmann estava sentado, apoiado na parede e mastigava um peda­ço de pão dormido.



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