Konsalik b de atalhão Mulheres



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Todos os funcionários superiores, inclusive o Forstrat, apareceram no lugar do delito, examinaram o cadáver no curral de porcos e admiraram o tiro.

— Bem no meio da testa — concluiu o regente florestal, o chefe imedia­to de Peter. — Imaginem. . . um tiro desses a partir de uma reação rápida como um raio! Legal, não?

— Uma vocação natural. — O Forstrat acenou várias vezes, elogiando o tiro. — Então, ninguém percebeu esse talento nos exercícios de tiro ao alvo?

— Os resultados foram normais, isto é, sempre os melhores! Mas quem é que ia pensar. . .

— A cegueira diante do que está na nossa frente é o que sempre prejudica o desenvolvimento do povo — disse sabiamente o Forstrat. — Meu Deus, quando se pensa quantos talentos inutilizados estão adormecidos nesse Hesslich! Ele é um bom rapaz mas no fundo um cachorro preguiçoso. O que não poderia vir a ser? Por que o fedelho não tem ambição nenhuma? Deve ser pos­sível fazer alguma coisa.. .

Na realidade, “fizeram alguma coisa”: a autoridade estadual florestal de­sistiu de solicitar, na época apropriada, novamente uma liberação do aluno Peter Hesslich do serviço militar em função da sua indispensabilidade e o libe­rou imediatamente para o Exército. O Forstrat escreveu confidencialmente ao comandante do comando militar da província: “Peter Hesslich é altamente dotado em todos os tipos de esportes e um atirador de primeira. Nossa repartição tem muito interesse em fomentar seus talentos também no Exército. Peter Hesslich justifica, em alto grau, as esperanças do Fuehrer de que uma sele­ção dos melhores homens alemães assegurará o futuro do Reich.

Uma carta infame, mas que ao mesmo tempo iria representar para Peter Hesslich uma espécie de passaporte protetor. O comando de defesa da provín­cia, em Muenster, levou a carta a sério. O próprio general pediu o comparecimento de Hesslich, mas não conseguiu ver nele nada de especial, a não ser os olhos românticos, cor de corça marrom.

Espantoso, pensou, então esses olhos suaves conseguem acertar infalivelmente no alvo. Bem, veremos, pois, o que uma educação militar rígida vai conseguir fazer nele!

Após um ano de serviço na Companhia de Infantaria em Wesel, sempre interrompidos por cursos desportivos, Peter alcançou o posto de cabo, o que seus superiores julgavam uma pura vergonha. O seu chefe de companhia o xin­gou, o seu tenente o atazanou (para que em você finalmente o cu arda na água e seu cérebro fique livre); das manobras sempre saía como o mais imundo, nas manobras em Muenster e no campo de Lueneburg era aquele que dava os re­cados e o acossavam até que ofegava feito um cão. Mas quando o seu capitão lhe perguntou:

— Então, Hesslich, como é que se sente? Como alferes e depois como oficial não precisará mais disto. . . então o senhor mandará os outros pular. . .

Respondeu desafiadoramente:

— Não sinto vocação para ser oficial, Sr. Capitão. Eu sou guarda-florestal.

Tudo se modificou quando Hitler, na sexta-feira, dia 1º de setembro de 1939, diante do Reichstag, onde comparecera pela primeira vez em unifor­me de campanha cinza, exclamou com voz de trovão:

“Decidi falar com os poloneses na mesma língua com que eles dialogam conosco há meses. . . A partir das 5:45 iremos revidar os tiros. . .”

A fala terminou com a notícia, impossível de interpretar erroneamente, do que seria a partir de então o destino de todos os alemães:

“Assim como eu mesmo estou pronto para sacrificar minha vida a qualquer instante — qualquer um ma pode roubá-la — para o meu povo e para a Alemanha, também exijo o mesmo de todos os outros. Mas quem acreditar puder resistir, direta ou indiretamente, a esta ordem nacional, cairá! Os trai­dores nada têm a esperar senão a morte! Todos acatamos apenas, com isto, o velho preceito: é totalmente desprezível se vivemos, mas é necessário que a nossa pátria, o nosso povo, a Alemanha viva!”

Ao ouvir esta fala do Fuehrer, no pequeno rádio de baquelite, Peter Hesslich já estava na posição de ofensiva em Neusalz no Oder. Pertencia à tro­pa da companhia, portanto estava com a cozinha da campanha, o escritório e os soldados atrás da linha dianteira e agüentava com uma paciência divina os comentários do sargento-mor de sua companhia, que culminavam com a frase:

— Você deve ter uma avó em comum com o Fuehrer, senão você não estaria aqui e sim na frente, com a primeira tropa de choque!

Em janeiro de 1943, depois da campanha contra a França e na ofensiva russa na divisão do meio do Nono Exército, Peter Hesslich ainda não tinha chegado a mais do que suboficial. Nos seus documentos militares encontrava-se a seguinte avaliação:

“Ele não tem ambição, cumpre seu dever conforme as ordens que recebe, não chama a atenção em nada, muitas vezes é displicente. Um bom camarada em qualquer frente, como chefe de grupo um pouco frouxo, mas o melhor fuzileiro da divisão. Ganhou todos os campeonatos de tiro ao alvo com o maior número possível de pontos positivos.”

Uma avaliação péssima, com exceção do final, que selou o destino de Hesslich.

Durante todo o ano de 1942 ele viajava pela frente com um comando especial. Por onde aparecesse, era recebido com espanto ou olhares malévolos. Em qualquer lugar em que do lado soviético fuzileiros da Sibéria transforma­vam a guerra de posição em um duelo mortífero, aparecia Peter Hesslich com sua unidade especial. Isto aconteceu em Demjansk, diante de Leningrado, no Lago de Peipus, em Smolensk, em Voronesch e na região de guerrilheiros nos pântanos de Pripjet e na via rodoviária peito de Orscha.

— Eles também só cozinham com água! — diziam os fuzileiros dos bata­lhões alemães, quando aparecia Hesslich, se instalava nos buracos da terra de ninguém e depois, com uma calma quase sinistra, ganhava os duelos com os adversários soviéticos. Denominavam isto de “Corta!”. Era uma tarefa inexo­rável, da qual Peter Hesslich não escapava mais. Depois de ter vivenciado algu­mas vezes quão precisamente os siberianos matavam os apanhadores de comida, os portadores de relatórios, as sentinelas de observações e até enfermeiros com o sinal da Cruz Vermelha, como a rapaziada da taiga e da tundra esgueiravam-se friamente e sempre acertavam seu alvo, a sua visão ética do mundo se modificou. O sentimento horripilante — ter matado conscientemente um homem — deu lugar a um princípio simples: você ou eu!

Em 1942 Peter Hesslich foi condecorado com a Cruz de Ferro I, com a medalha dourada do combate frente a frente e recebeu um aperto de mão do General von Kluge, o comandante principal do Grupo do Exército do Meio. Depois foi retirado da frente e deslocado para Posen. Lá então ficava sentado em um quarto quente, com cortinas nas janelas, muito tempo de lazer e tédio; durante seis horas diárias ficava diante do alvo ou “acertava” em alvos móveis; esgueirava-se pelo campo, onde de repente surgia um camarada de papelão, que ele imediatamente acertava com um tiro; passeava por florestas, onde nas copas das árvores alvos escondidos o aguardavam, atirava ao correr e ao cair, ao rolar para longe e enterrado na água até o pescoço; engatinhava, camuflado de arbusto, sobre estepes planas, e aguardava em troncos ocos de árvores os adversários de madeira, pintados, que lhe tinham sido designados.

Tudo isso fazia parte de um treinamento especial dado a um grupo pequeno. Ele vivia nos arrabaldes de Posen, em um velho edifício industrial; era comandado por um major e era anônimo. No portão de entrada da fábrica não havia nenhum signo tático, nenhuma indicação da unidade. Apenas uma tabuleta com a advertência: “Entrada expressamente proibida. Perigo de epidemia!”

— Coisa melhor não nos poderia acontecer — disse o pequeno e ágil suboficial Uwe Dallmann, satisfeito, quando chegou, junto com Peter Hesslich, a Posen e estava diante do portão da fábrica. Hesslich viera de Voronesch, Dallmann de Rostov. A caminho do quartel se encontraram e logo se tornaram amigos. Dallmann era um rapaz alegre, louro, de 22 anos, com claros olhos azuis e mãos delicadas. — Aqui ninguém nos controlará mais. Se conse­guirmos sorrateiramente deixar entrar mulheres, estamos a salvo. Temos bastante lugar para nos esconder.

O Major Molle não parecia ficar estranho a tais ponderações. Quando Hesslich e Dallmann se apresentaram, ele disse quase paternalmente:

— Nós somos aqui um pequeno grupo, que está ligado pela morte e pela destruição. Recebemos um estatuto especial do OKH, as armas mais novas e melhores e o equipamento mais perfeito, alvo de inveja de qualquer unidade SS. Vocês serão aprovisionados como touros de exposição, mas isto não signi­fica que devam agora pular em cima de cada saia! O serviço que os aguarda irá entrar em seus ossos e rebentá-los até o tutano. Vocês nem terão mais tesão de mulher, mas se tornarão os melhores fuzileiros da Wehrmacht! Melhor que o pessoal da Sibéria, isto eu prometo a vocês, e se não o fizerem, irão lamber o chão da fábrica, até que ele fique limpo! Trata-se aqui de um comando secreto, compreenderam? Se qualquer coisa transpirar lá fora, se eu descobrir uma única puta aqui, haverá uma corte marcial com todo o carnaval! Vocês entenderam o que quero dizer com carnaval?!

— Sim senhor, major! — berraram Hesslich e Dallmann.

— Um o tentou. Agora está no 999!

Novecentos e Noventa e Nove era um batalhão de punição da Wehrmacht, do qual se falava muito, embora ninguém soubesse nada de definitivo. Só uma coisa estava clara: quem ia para o 999 passava a ter o seu atestado de óbito em branco na bolsa.

Se Hesslich julgara, até então, ser um bom fuzileiro, o Major Molle, ali em Posen, lhe mostrou que em comparação com a sua própria habilidade Peter não passava de um enurético, um artista de urina. Só quando Hesslich em um campo encoberto conseguiu apagar um camarada de cartolina, com um uniforme soviético e o rosto de uma jovem linda, mediante um maravilho­so tiro na cabeça, o Major Molle se deu por satisfeito.

Nesta moça de cartolina todos os outros componentes do curso tinham fracassado. Ao ver o lindo rosto com os cachos pretos, que aparecia repentinamente, de lado, no terreno ondulado, hesitavam perplexos durante um segundo ou mais. Antes que pudessem atirar, o Major Molle já berrava no alto-falante. Tinha visão plena da situação através de seus binóculos.

— O senhor está morto, Dallmann! — trovejava. — Se fosse a sério, o se­nhor já teria um buraco no crânio! Por que o senhor ficou aí olhando feito uma besta? Só porque é uma mulher? Dallmann, a morte tem mil disfarces! Quantas vezes mais lhe devo dizer isto?!

Isto acontecia com todos, só Hesslich “atirava” sem hesitar. Como recompensa, pôde deixar a fábrica. Folga na cidade até a hora da chamada matinal.

Aonde vai um soldado depois de nove semanas de isolamento com boa alimentação?

— Agora o bordel de Posen necessita de baldes inteiros de água vegeto-mineral para esfriar — disse Dallmann, cheio de inveja. — Gente, este terá o que contar quando voltar para casa! Quem de vocês ainda sabe como é um bico de seio?!

Mas com Hesslich as coisas eram diferentes. Não correu para o bordel. Foi, porém, ao teatro estadual de Posen e assistiu a uma representação da peça Uma Briga Fraterna em Habsburg, de Franz Grillparzer.

— Totalmente pirado! — gemeu D”allmann abalado, quando Hesslich lho contou. — E uma coisa dessas recebe folga até a chamada matutina! Grillparzer...

No dia 10 de janeiro de 1943, o Major Molle mandou chamar Hesslich e Dallmann.

— Amanha” os senhores serão desligados, vinculados ao Grupo Don e de­vem se apresentar ao Oitavo Exército Italiano.

— Chê. . . — disse Dallmann, audacioso.

Molle o fitou com espanto.

— O que quer dizer isto, Sr. Suboficial?

— Para os itacos! Deveremos mostrar a eles como se carrega uma carabina?

— O seu preconceito contra os nossos aliados desaparecerá rápido, Dall­mann. Os italianos realizaram feitos heróicos. Quando o Primeiro Exército soviético atacou em massa na frente do Don, o Oitavo Exército italiano, qua­se congelado pelo frio mortífero, bateu em retirada com uma defesa a ser elogiada. Os italianos, acostumados com o sol, choraram de desespero nesta frente, mas conseguiram livrar-se do cerco. Bateram em retirada, finalmente assentaram posição na linha de trem Millerovo-Rossosch e deste modo forma­ram uma cunha entre o Sexto Exército soviético e o Primeiro. Apesar do Ge­neral Badanov, do Primeiro Exército afirmar: “Os italianos foram varridos pelo vento!”, isto não era verdade. Eles estão mantendo a posição! E é para lá que os senhores irão viajar amanhã. Os italianos têm preocupações na região de Tschjertkovo.

— Então é isso! — exclamou Uwe Dallmann.

O Major Molle olhou sério para Hesslich e Dallmann e depois abriu uma pasta.

— A ordem vem do próprio OKH. Notícias da defesa e da divisão de exércitos estrangeiros oeste confirmam as seguintes observações dos italianos: Em Tschjertkovo há um batalhão de mulheres na linha de frente. Fuzileiras. As perdas são alarmantes. Rapazes — Molle falou de modo amistoso e até re­laxado — eu espero que vocês não esqueçam no Don o que aprenderam aqui em Posen. Quer sejam lábios rubros ou tetas firmes, a morte está diante de vocês. Nada mais! Pensem sempre nisto: a morte tem mil disfarces!

Naquela noite os dois tomaram um porre para valer. Ao chegar a madrugada Dallmann começou a ficar melancólico e chorava incessantemente:

— Oh, merda! Oh, que merda! Temos de lutar contra mulheres. . . eu preciso matá-las, sem deitar-me sobre elas. . . Oh, merda de guerra! — Estava deitado de costas, fitava com olhos rígidos o teto e o seu rosto tremia como se estivesse preso de convulsões.

Mas dois dias após, em 12 de janeiro, eles acabaram por não partir.

No dia 12 de janeiro a frente do Don, a partir da grande curva do sul até 500 quilômetros para o norte, em Novosil, a oeste de Orei, estalou com o trovejar de 16 mil canhões.

A ofensiva de inverno soviético começara.

A frente de Brjansk, comandada pelo General Reiter, a frente de Voronesch, comandada pelo General Golikov, a frente sudeste, comandada pelo General Vatutin e a frente sul, comandada pelo Coronel-General Jeremenko flutuavam para este. Flutuavam no mais verdadeiro sentido da palavra: 13 exércitos soviéticos com 7.100 tanques e 2 milhões e 400 mil soldados correram contra seis exércitos alemães e aliados, contra divisões alemãs, muitas vezes só com a força de brigadas, contra companhias alemãs, que eram compostas de 40 ou 50 homens enervados pelo frio cortante e só pele e ossos, que de há muito tinham perdido todas as esperanças.

Um mar vermelho inundou a estepe do Don. O Primeiro Exército sovié­tico jogou com toda a força sobre o Oitavo Exército italiano e arrebentou as posições com uma corrida de choque de infantaria e tanques, depois que a ar­tilharia as tinha massacrado durante horas.

Toda a frente alemã cedeu diante do impacto. A retirada começou sob tempestades uivantes de gelo, os soldados se socorriam fugindo dos cercos soviéticos, ubíquos; em marchas violentas levavam o que ainda conseguiam carregar, fugiam das massas de soldados russos descansados e de sua superiori­dade material, contra a qual não havia defesa possível.

Um dia antes da grande rajada de artilharia, com a qual começou a ofen­siva, a unidade feminina especial da Capitoa Soja Valentinovna Bajda reti­rou-se da linha principal de combate; primeiro se afastou por meio de trenós e depois com caminhões, da região imediata da frente. Só em Bokovskaja no Teschir, ainda detrás das posições firmes da artilharia pesada, ela parou e recebeu um quartel em um edifício administrativo da sovchose Don Eterno.

Miranski respirou aliviado. Aqui a guerra estava suficientemente longe, de modo que podia dizer com convicção: mais uma vez tudo deu certo. Tinha temido que também sua divisão teria de entrar no combate como o fizeram — por exemplo em Leningrado e Stalingrado — outras companhias femininas. Mas o General Vatutin decidira de forma diferente. Um dia antes da ofensiva recebera a visita do General Ivan Rasulovitsch Kitajev, um camarada da central de ordens de Moscou. Kitajev tinha dado a entender que exatamente esta divisão feminina era valiosa demais para ser exposta a uma ofensiva de choque. Ela era especializada na guerra de trincheiras. Uma moça como Stella Antonovna era uma lutadora solitária invisível, não um membro a correr junto com a massa, que ao avistar o inimigo berrava, com uma voz capaz de estraça­lhar os nervos: “Hurra!”

Enquanto Peter Hesslich ainda permanecia em Posen, lia as notícias da Wehrmacht e acompanhava com um Atlas escolar o que se entendia por dimi­nuição tática da frente, Stella Antonovna era recebida pelo General Vatutin, o comandante da frente sudoeste. No turbilhão da ofensiva vitoriosa, na con­fusão de pessoas, carros, tanques, cavalos e canhões, Vatutin arranjou alguns minutos para vê-la. Apertou-lhe a mão, estudou seu livro de tiros e a abraçou carinhosamente.

— Quarenta e nove alemães! Nós estamos orgulhosos de seus feitos, ca­marada Korolenkaja!

Ela recebeu a sua segunda medalha pela coragem. No Exército Vermelho só existia uma fuzileira, uma única, que sobrepujava Stella Antonovna —a lendária Ludmüla Pavlitschenko, da 25a Divisão de Infantaria. Até o presen­te momento, tinha 105 acertos.

— Você ainda a alcançará, Stellanka — disse Miransld, quando ela voltou para Bokovskaja depois da visita ao General Vatutin. — Ludmilla tem mais tempo de serviço que você. Espere até que a gente volte de novo para a fren­te. Ou atrás das tinhas alemãs, de pára-quedas. Mostre sua nova medalha. Olhe, como cintila ao sol! É de ouro? Não, certamente só folheada a ouro, mas, que importa? É uma grande honra. . . todos podem ver como você é corajosa!

Os exércitos russos avançavam, sem que nada pudesse detê-los, na dire­ção de Rostov e Charkov. O Grupo B, comandado pelo Coronel-General von Weichs, praticamente deixara de existir.

Em Posen, Uwe Dallmann comentou, à vontade:

— Com essa merda no Don nossa posição junto com as mulheres já foi enfiada no cu! Graças a Deus, isto me metia um medo terrível!

Uwe Dallmann enganava-se redondamente.

No mês de abril o mundo se modificara. Não parecia estar melhor — como é que poderia? — mas pelo menos o futuro se delineava mais claramente. Isto nada tinha a ver com a primavera, nada com o degelo e com a camada de gelo a se quebrar nos rios, nada com as ruas totalmente enlameadas e com os primeiros raios do sol, esquentando a terra, que, como por milagre, durante a noite, deixavam a grama ficar verde, magicamente faziam surgir o açafrão da terra, tingiam de amarelo os bambuzais e deixavam cintilar, feito prata, os choupos. Por mais que a natureza se deixasse ficar presa ao ritmo anual ordenado por Deus, apesar de tanques e granadas continuarem a assolar a re­gião e os incêndios enegrecerem vastas extensões de terras — o que importa­va era que os quatro grupos dos exércitos soviéticos tinham empurrado to­da a frente alemã do sul, de modo que o Don novamente era um rio russo, no qual se podia pescar com anzóis e pequenas redes, depois do gelo estalar, e em cuja estepe, nos campos e nos jardins dos povoados, a pá novamente abria a terra, plantavam-se mudas e espalhavam-se sementes. Em primeiro lugar recuperaram Voronesch. Cursk ficava no ponto médio de uma cunha da frente soviética, que cindira as linhas alemãs entre Orei e Charkov. Rostov comemorou a volta dos irmãos russos e começou logo com a reconstrução, apesar das posições alemãs em Taganrog estarem quase ao alcance da mâo; isto, porém, não incomodava ninguém. . . Sabiam, tinham certeza de que os alemães nunca mais conseguiram chegar novamente ao Don.

No sul o Grupo A, sob o comando geral do Coronel-General von Kleist tivera de abandonar todo o Cáucaso e se dissolvera. O Primeiro Exército Blindado pudera alcançar o Donez, em marcha forçada, o Décimo Sétimo Exército recuou para a Península Taman, que se imiscui entre o Mar de Asov e o Mar Negro e lá foi cercado. Um destino, como aquele que sofrerá o Sexto Exército em Stalingrado, agora também se delineava para o Décimo Sétimo. Hitler ordenou que resistissem, sem qualquer condição. O apelo urgente de von Manstein, evacuar para o Krim, porque cinco exércitos soviéticos avançavam contra as tropas alemãs, cansadas e exangues, foi simplesmente varrido da mesa no Quartel-General do Fuehrer. „

A ofensiva vitoriosa das divisões russas só terminou no dia 26 de março. Tinham conquistado o grande alvo, Charkov, mas o perderam de novo em virtude de uma rápida ofensiva contrária de von Manstein. Com uma mobilização inacreditável, alimentada pelo desespero, o Primeiro Exército que acabara de chegar do Cáucaso, totalmente esgotado, o 30º Corpo do Quarto Exército Blindado e a Divisão Kempf conseguiram deter o avanço soviético, que alcançara até Crasnograd e a região próxima ao Dnjepropetrovsk e depois encurralaram, apoiados pelo Corpo Kraus e pelo Corpo Blindado SS II, o Terceiro Exército Blindado e o Quadragésimo Exército russos, que avançavam inexoravelmente.

Charkov, o símbolo desta ofensiva de inverno, foi novamente ocupada pelos alemães. A frente se estabilizou no Donez e no Mius — começava uma nova guerra de trincheiras.

Nesta primavera de 1943 a morte respirou mais uma vez, por assim dizer descansou algumas semanas, mas na realidade apenas afiava a foice com a qual costumava erradicar povos inteiros.

Tanto do lado russo como do alemão as posições foram estabelecidas. Atrás do Donez, na estepe até Oskol e ao norte de Cursk, em uma grande curva, que os soviéticos tinham conquistado, centenas de milhares construíam os sistemas de trincheiras mais fortes e melhores, os mais perfeitos, que nunca dantes tinham sido erigidos: sete linhas fortes uma atrás da outra, abrigos e posições de artilharia, grupos de tanques e reservas, depósitos de aprovisionamento e bases aéreas. A frente central sob o comando General Rokossovskij e a frente do Voronesch com o General Vatutin, esta cunha entre o Grupo do Meio e o Grupo Sul, transformaram-se em uma fortaleza terrestre ímpar. No sul, ao redor de Charkov, dois novos grupos militares soviéticos se entricheiraram: a Frente da Estepe sob o comando do General Conjev e a Frente Sudeste com o Coronel-General Malinovskij.

O descanso era urgentemente necessário. A batalha do inverno de 1942/43 tinha exaurido os alemães — mais de 100 mil mortos, 5 aviões abatidos, 9 mil tanques destruídos ou conquistados, milhares de outros veículos, mais de 20 mil fuzis e outras armas — como é que a Alemanha, totalmente isolada, poderia superar isto?

As perdas soviéticas eram ainda maiores - mas lá as contas eram feitas de outro modo. “Material humano” havia bastante. Material inerte,como caminhões, tanques, armas, canhões, munição, aço e petróleo, trigo e outros grãos vinham de enxurrada, da América, para os portos da Sibéria do Oeste e podiam ser levados para a frente sem que ninguém o impedisse. A amplidão da Sibéria, a perder de vista, um verdadeiro continente, invencível, se transformou toda em um arsenal. Enquanto as forjas de armas dos alemães desmoronavam sob o granizo das bombas das flotilhas aéreas dos aliados, as fábricas de aço soviéticas continuavam a fumegar, a uma distância de 12 mil quilôme­tros, na região de Chabarovsk e Vladivostok, inalcançáveis e seguras.

Sim, o mundo se modificara nessa primavera de 1943. A auréola dourada dos exércitos alemães empalidecera. Eles desmoronavam, pela amplidão da Rússia, pelo frio mortífero, pela lama, na qual todas as reservas atolavam; nas massas humanas, cada vez mais novas, que avançavam do interior, nas cunhas de tanques inesgotáveis, na floresta de canos de canhões, a cuspir fogo, aos combatentes invisíveis, agora já numerando mais de 49 mil, na retaguar­da das divisões alemãs, que faziam voar pelos ares pontes e trilhos, atacavam de surpresa as colunas e transformavam os quartéis em colunas de fogo.

Em um domingo, em fins de abril de 1943, o Grupo Bajda se organizou ao norte de Bjelgorod, aquém do Donez, na trincheira na linha de frente.



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