Konsalik b de atalhão Mulheres



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Este foi o grande momento do Tenente Giovanni Lambordi, mas também foi o último.

A morte dos três oficiais alemães produziu consternação e perplexidade no comando superior do Oitavo Exército italiano. O Coronel von Starcken, um dos oficiais de ligação com o grupo do Don, fez um relatório minucioso para o Marechal-de-Campo von Manstein, que o recebeu dois dias após, junta­mente com os três cadáveres. O que se desejava calar, de vergonha, agora se tornara público: na região de Tschjertkovo desapareciam sentinelas de van­guarda “sem influência estranha” — em bom jargão burocrático alemão — e do lado soviético tinham colocado fuzileiras. Os tiros, precisamente alojados nos olhos esquerdos dos três oficiais mortos, visíveis, sem dificuldade alguma nas fotografias anexas, receberam com isso um valor quase documentário.

Entre o Grupo do Don e o escritório do Coronel von Starcken, nos “Alpinis”, como chamavam os italianos, os fios de telefone esquentaram. Era me­nos a morte dos oficiais que alarmava o Estado-Maior, que se reuniu para uma conferência extraordinária. Já era bem desagradável que uma curiosidade sem propósito tivesse levado a tal tragédia. Não, eram especialmente as circunstâncias acessórias que davam motivo para preocupação.

Como desaparecem sentinelas avançadas, sem deixar rastro? Por que o Exército italiano não julga necessário informar tais acontecimentos? Será que aqui aparece uma desmoralização dos italianos que, com a ofensiva russa esperada, pode levar a um desastre semelhante ao que ocorreu, no ano passado, por ocasião do avanço soviético sobre o Terceiro Exército romeno, na curva do Don, entre Jelanskaja e Kletskaja? Foi assim que havia começado a tragédia de Stalingrado. Os russos conseguiram cercar o Sexto Exército e 60 divisões soviéticas empurraram suas pontas entre as tropas de Paulus e os outros exércitos alemães, bem distantes, na estepe.

Será que algo semelhante irá acontecer entre o Don e o Donez?

Começava com a negligência de não relatar os desertores e poderia terminar com uma eclosão da frente em uma extensão de 100 quilômetros.

Os chefes das companhias foram intimados a comparecer ao regimento. Lá estava um tenente-coronel puto de raiva; berrava, falava da honra italiana e recordava os feitos heróicos dos romanos, cuja moral e vontade de luta eram exemplares naquela época, que depois conquistaram o mundo e ensinaram aos germanos o que era um aqueduto, um banho quente e um aquecimento de chão — esses mesmos germanos, que agora duvidavam da ética militar de seus aliados com um sorriso sardônico.

— A partir de agora irá pelo menos um sargento lá para fora junto com os observadores! — berrou o comandante do regimento. — Não quero saber de mais nenhuma deserção! De agora em diante cada oficial será responsável por cada desertor! Falei claramente ou não, seus palermas?

Ora, um tal xingamento o Tenente Giovanni Lambordi não iria aceitar cabisbaixo. Durante três noites sucessivas ele saiu junto com o seu observador mais avançado, deitou-se no buraco bem construído e olhou fixamente para os soviéticos. Ao passo que as sentinelas foram revezadas, Lambordi não dei­xou o lugar antes da madrugada e da posição de observação ser abandonada.

Na quarta noite elas vieram. Quatro sombras percorreram a terra rasgada, coberta de neve e se aproximaram deles. Lambordi respirou fundo. Não somos covardes, pois. De alguma forma estava se sentindo feliz. Ninguém de­sertou. Elas vieram cada vez como agora, silenciosamente, flexíveis como co­bras, quase invisíveis em suas roupas brancas de camuflagem. Era necessário ter olhos excepcionalmente bons para divisá-las a tempo. A tempo — aqui es­tava a solução de todos os problemas. Nenhum dos pobres coitados viu o ini­migo a tempo e, ao reconhecê-lo, já tinham sido surpreendidos e conquista­dos. Só isto pode ter acontecido, meus camaradas alemães! Perdemos nossos homens em um combate honesto. Agora podemos prová-lo.

— Deixe-os chegar perto — murmurou para as duas sentinelas. — Perma­neçam bem tranqüilos, meus amici. Deixe-os aproximar-se o mais possível. E depois, com a voz do comando, fogo livre. Os mortos levaremos conosco. . . eles serão as nossas provas!

Estavam deitados no seu buraco, as carabinas prontas para atirar, agachados atrás da terra que os protegia e esperavam com os corações a bater for­temente.

As sombras brancas movimentaram-se na sua direção; depois desapareceram subitamente como num passe de mágica, para depois reaparecer em ou­tros lugares onde não eram esperadas. Acercaram-se em completo silêncio, co­mo se os quisessem torturar.

Deveríamos disparar uma bola de fogo, refletia Lambordi. O campo de tiro ficaria claro como a luz do dia e elas estariam diante de nós como alvos. Mas nós também, e lá do outro lado os fuzileiros só esperam que algo se movi­mente aqui, entre nós.

Desistiu da bola de fogo, acenou para as sentinelas, procurando tranqüilizá-las e fez que não com a cabeça. Ainda não, deixem que cheguem ainda mais perto. Eles pensam que podem nos surpreender, mas hoje, somos nós quem os surpreenderemos.

Mais 10 metros. . . talvez sete... O Tenente Lambordi encostou a carabina contra o ombro com mais força. A mão esquerda, ao lado de sua cabeça, atrás da parede protetora, estava pronta para dar o sinal.

Neste momento duas das formas brancas se levantaram diante deles, bem eretas, uma voz de moça, clara, lhes falou alguma coisa, e Lambordi viu nitidamente como abriram os uniformes. Na luz fosca da noite cintilavam seios brancos.

Madonna mia. . . — gaguejou uma das sentinelas.

Lambordi engoliu em seco. Tinha a sensação de que o estavam jogando em um fogaréu e as chamas o estavam incendiando. Então é isso, pensou. Foi por este motivo que nunca se disparou um tiro. Quem é capaz de atirar nestes seios?

— Fogo! — disse com voz rouca. — Fogo!

Ele atirou primeiro e as duas sentinelas seguiram seu exemplo. Mas atiraram mal. . . Suas mãos tremiam. Com um grande salto as duas moças desapareceram no campo de neve, deixaram-se rolar para o lado e deitaram-se, esticadas, sob a proteção de um pequeno monte. Ao mesmo tempo levantaram as carabinas e estavam prontas para atirar, no mesmo instante em que se deitaram por terra. Tinha sido ensaiado, isto elas sabiam fazer, precisão perfeita, como lhes tinha sido ensinado em Veschnjaki, e até o presente momento sempre lhes salvara a vida. Sabiam cair e rolar como gatos e se tornar invisíveis como raposas brancas na neve.

O Tenente Lambordi ainda teve tempo de colocar nova munição em sua arma. Para mais o seu destino não lhe deu oportunidade. À sua direita ecoou um tiro. A bala o atingiu com precisão na têmpora, ali, onde o capacete de aço, na pressa, escorregara um pouco para a esquerda. Um segundo mais tarde um tiro ecoou à esquerda. O cabo Paolo, que tentava virar de costas seu te­nente, foi empurrado para trás, pela força do impacto na cabeça. Abriu a bo­ca, da sua garganta saiu uma torrente de sangue, um segundo tiro alcançou seu pescoço. Mas este ele já não sentiu mais. Morreu tão depressa que não pôde mais pensar: você foi acertado.

O suboficial Fernando Bruzzi, o terceiro homem no buraco, fingiu-se de morto, na louca esperança de poder assim escapar. Antes, porém, ainda puxou a linha que os ligava às trincheiras.

Nos cavaletes de pau as latas de conserva vazias começaram a sacolejar. Um barulho ensurdecedor, que assustou a todos. Qualquer soldado da infanta­ria conhecia aquele barulho.

Alarme! Alarme!

Os homens pularam dos abrigos de terra, correram para suas posições, arrancaram as coberturas das metralhadoras, arrebentaram as fechaduras das caixas de munições, levantaram os canos dos lançadores de granadas, amontoaram as granadas de mão a seu lado na trincheira. No abrigo da companhia o sargento-mor, que dirigia a companhia na ausência do Tenente Lambordi, virava a manivela do telefone de campo chamando o batalhão e a tropa princi­pal da companhia, situada mais atrás, na reserva.

Alarme das sentinelas de vanguarda. Ainda não se pode ver nada. Eles devem estar se esgueirando.

Na área do regimento soavam as sinetas de alarme. As posições de artilharia foram ocupadas, os canhões colocados na terra, o melhor meio de defesa contra os tanques soviéticos T-34, estavam prontos para atirar em minutos. Na segunda linha foram carregados os pesados atiradores de minas. Mais atrás, entre o regimento e o estado-maior da brigada, esperavam cinco tanques Ti­gre, para, em caso de necessidade, fechar um avanço.

O suboficial Fernando Bruzzi teve uma sorte incrível. Estava deitado feito morto, ao lado do seu tenente caído, quando uma cabeça de moça se esgueirou pela margem do buraco de sentinela. Ele tinha deixado cair o queixo e revirado o corpo de forma bizarra, para surtir melhor efeito.

Os olhos femininos o examinaram friamente e pareciam estar convencidos, apesar de não se poder ver o buraco feito pela bala, porque o capacete de aço tinha escorregado, cobrindo os olhos. A cabeça desapareceu novamente. Depois a sombra branca escapuliu, misturando-se com a estepe cheia de neve, ainda antes que as bolas de fogo das trincheiras inimigas cruzassem o céu no­turno.

Fernando Bruzzi engatinhou, de volta, com o corpo a tremer. Caiu nos braços de dois camaradas, repentinamente perdeu o domínio de si, começou a esbravejar, dar socos em sua volta, pontapés, a cuspir e arranhar e só sossegou depois que alguém lhe deu dois tapas no rosto. Ficou sentado no abrigo, desanimado, olhando em redor com olhos rígidos e vazios e gaguejando:

— Mulheres! Mu. . . Mu. . . Mu. . . lheres. .. Sa. . . Sa. . . co. . . saco. . . sacodem os sei. . . sei. . . seios. . . Mu. . . mu. . . mulheres. . .

Levaram-no para o hospital de campanha em um trenó de transporte.

— Choque — disse o médico do Estado-Maior, que o examinou. — Este recebeu um choque para valer! Pode ser que fique meio pirado para sempre! — Deu uma injeção de morfina em Bruzzi, pois outra coisa não possuía, es­perando que o sono drogado o retirasse do estado de choque. — Então lá fora a penúria é tanta? O que ele quer dizer com tetas sacolejantes?!

— Sr. médico, existem mulheres lá fora, adversárias — informou o sar­gento que trouxera Bruzzi para o hospital de campanha. — Fuzileiras! E elas seqüestram as nossas sentinelas. Quem jamais teria acreditado nisto? Nem é possível.. .

Já na manhã seguinte a notícia chegara ao Grupo do Exército do Don. O Ib a entregou pessoalmente ao Marechal-de-Campo von Manstein. Com uma expressão imóvel, como era seu feitio, Manstein leu a notícia. Quando termi­nou, mesmo assim o seu rosto de traços agudos, com o nariz adunco, não de­monstrou qualquer sentimento. Deixou cair a folha de papel sobre a escriva­ninha recoberta de mapas e fitou friamente o seu Ib.

— Isto só pode ser uma piada, meu caro!

— Relacionando a notícia com a morte heróica do Coronel von Rahden, do Major Schlimbach e do Major Halbermann ela ganha em verossimilhança. Provavelmente eles também foram surpreendidos pelas mulheres. Não há dúvi­da de que o inimigo colocou um batalhão de mulheres nesta parte da frente. Pelo menos uma unidade especial.

— Transmita isto como curiosidade ao OKH! — ordenou von Manstein com ar contrariado. Ele tinha preocupações muito diferentes e um punhado de mulheres que, segundo diziam, seqüestravam sentinelas italianas mostrando o busto não o fariam perder a calma. As notícias, que recebia de todos os lugares, eram de molde a formar um quadro horripilante. O Exército Vermelho terminara a sua marcha ofensiva. Somente na sua divisão da frente, no Grupo do Exército do Don, havia cinco exércitos soviéticos contra suas tropas dizimadas, em parte só existentes no papel. Suas solicitações ao Quartel-Gene-ral do Fuehrer em Rastenberg eram respondidas com reservas e simples pro­messas. Todos os olhares se dirigiam para Stalingrado. Lá o Sexto Exército morria uma morte violenta. Trezentos e sessenta mil soldados alemães esta­vam prestes a morrer à mingua. Não obstante, com sua atividade heróica, sui­cida, paralisavam 60 divisões russas e davam tempo aos outros exércitos ale­mães para que pudessem se firmar em novas posições.

Mas as outras frentes alemãs também estavam estremecendo. O General Eisenhower desembarcara no Marrocos e na Algéria com 500 navios e agora avançava em direção ao Corpo da África alemão. Rommel entrara em um combate de duas frentes, teve de deixar a posição de El-Alamein no Egito pa­ra o Oitavo Exército britânico e recuava, diante das tropas do General Montgomery, passando pela Cirenaica, para a Líbia. Em todos os lados as linhas ale­mãs desmoronavam. A ofensiva vitoriosa de 1941 e 1942 já fazia parte da histó­ria e não se repetiria mais. A Alemanha se esvaía em sangue na ferida de Sta­lingrado.

E então a gente deveria ainda se preocupar com algumas mulheres que, de busto desnudo, provocavam a deserção de um punhado de homens?

O Ib do Grupo do Don tomou a notícia de volta e deixou seu chefe. Como o Marechal-de-Campo lhe sugerira, enviou-a para o OKH de Berlim. A tí­tulo de curiosidade.

No entanto, o OKH levou a coisa a sério. Não o fato de as sentinelas se­rem seqüestradas, mas o aparecimento de divisões de fuzileiros femininos. Tais notícias não provinham só do Don — também do Décimo Sétimo Exército no Cáucaso, no Primeiro Exército Blindado no Terek, no Segundo Exécito perto de Voronesch e especialmente na área do 18º Exército na frente de Volchov. Além disso, guerrilheiros presos, antes de serem mortos a tiros ou enforcados, tinham relatado que na área dos pântanos de Pripjet, nas cercanias de Bobruisk, nas florestas do Dnieper e até em Borisov, ou seja, bem na retaguarda do Grupo do Exército do Meio operavam aproximadamente 1.200 mulheres, pertencentes a um grupo de mais de 26 mil guerrilheiros. Estas mulheres tinham recebido um treinamento perfeito e eram corajosas até a morte, frias como gelo ao operar. As unidades especiais da SS e da SD, convocadas para combater os guerrilheiros, já o tinham vivenciado muitas vezes: as mulhe­res se punham com os punhos erguidos sob a forca ou contra a parede, despe­diam-se de Stalin e de sua Rússia soviética e morriam com um orgulho inacre­ditável.

No comando supremo do Exército em Berlim, o Coronel von Hoetzendorf colecionava os relatórios. Estes eram complementados por notícias de agentes da divisão “Exércitos Estrangeiros do Oeste” e da defesa do Admiral Canaris: praticamente ninguém mais duvidava de que os soviéticos tinham co­locado batalhões de mulheres no serviço da frente.

— Isto é o máximo! — exclamou o Coronel von Hoetzendorf, quando a notícia do Grupo do Don chegou a suas mãos. — Com o busto desnudo para as tropas de choque! Estas devem ser uma espécie insólita de mulheres! Se is­to fizer escola em todas as frentes, a tropa vai precisar de mais soda na comida do que munições. Espero que pelo menos tenhamos suficiente soda. . .

Um chiste amargo, atrás do qual se ocultava uma impotência mais amar­ga ainda.

Porque cada tiro que aquelas moças disparavam significava um soldado alemão a menos. Elas só raramente erravam um tiro, muito raramente.

Peter Hesslich*, com um e e dois s, como costumava frisar, era, apesar do som do seu nome, um homem mais para bonito do que feio.

Era um homem forte, não muito alto, talvez l,75m, mas seus ombros eram largos e bem proporcionados e nos quadris estreitos era ágil como um dançarino. Era algo quase óbvio que em uma época na qual um “rapaz alemão” deveria ser “rápido como um cão de caça, forte como couro e duro como aço de Krupp”, Peter Hesslich fosse instado por todos a se tornar um desportista. Ele poderia escolher o que desejasse. . . jogador de disco, corre­dor, salto de altura, malabarista, lutador ou nadador — com suas aptidões po­deria fazer qualquer uma destas coisas. Mas ele não desejava fazer nada.

— A única coisa de que me poderiam convencer seria tornar-me nadador, estilo nado de peito. . . mas com as moças! — dizia, rindo, sempre que o assunto vinha à baila, de que era uma vergonha e uma verdadeira perda para o grande Reich alemão, e também para o esporte em geral, quando uma tal apti­dão atlética deixava de ser utilizada.

Em 1936, quando a juventude do mundo — como o dizia a propaganda NS (nacionalsocialista) — se encontrava em Berlim, para os Jogos Olímpicos e diante dos olhos horrorizados do Fuehrer um negro, Jesse Owens, ganhou três medalhas de ouro, Hesslich chegou a receber a visita do Gauleiter substituto.

— Nem isto o faz despertar, Peter? — perguntou, horrorizado, o homem do partido, vestido com um traje amarelo-marrom e decorado com tiras de ouro. — Um preto degrada a raça branca! Que triunfo da inferioridade! E o senhor fica aí sentado, apesar de ter o tutano para bater todos esses homens de segunda categoria e provar o que é a raça germânica! Não fique aí sorrindo feito besta, Peter! Nós sabemos quão bem é capaz de correr e que altura é capaz de saltar! Nós sabemos que o senhor pode ser, no esporte, um ás, um malho, que irá jogar no lixo todos esses sujeitos moles da América! Peter, o seu coração não se despedaça, o seu coração de alemão, ao ver que um negro leva os três pequenos carvalhos que o Fuehrer doou?! Três carvalhos alemães em uma favela de negros! O senhor viu o jornal cinematográfico? O Fuehrer parecia petrificado. O Reichssportfuehrer estava prestes a chorar. Goering estava sentado, feito múmia. A alegria dos americanos e de seus amigos de­vem ter soado aos ouvidos do Fuehrer como um escárnio da raça branca! E o senhor o que faz, Peter Hesslich? O senhor não faz nada. . . e com isto trai a sua pátria! A sua consciência não se mexe?

Hesslich, na realidade, não sentia dores de consciência. Ao contrário, ninguém podia obrigá-lo a correr, pular, fazer malabarismos na barra, levantar halteres ou empurrar uma bola. Nem o Gauleiter nem o próprio Fuehrer. Não se pode dar ordens a músculos. Não se pode planejar os resultados em décimos de segundo, exatamente. Aí sempre está participando um homem, um corpo sujeito a acidentes, um fator de insegurança incontrolável.

Nesta época Peter Hesslich estava realizando seus exames de conclusão do curso de 2º grau. Seu pai era professor de geografia e francês e muito querido pelos seus alunos no Schlageter-Gymnasium em Wupppertal. Nas au­las de francês muitas vezes relatava seus anos de estudos em Paris e Grenoble, suas descidas de esqui nos Alpes cobertos de neve e umas férias aventureiras na Argélia, na cadeia dos Atlas e nas imensas dunas de areia do grande Erg. Com isso também fixava o tema para a próxima aula de geografia. Friedrich-Wilhelm Hesslich era, indubitavelmente, um grande pedagogo, que sabia despertar o interesse de seus alunos. Mas exatamente isso o fazia malvisto e sus­peito na sociedade de professores do Partido Nacionalsocialista e no colegiado de escolas da Província em Duesseldorf. Despertar saudades de países lon­gínquos não era do interesse da educação do povo. As noites do grupo jovem e da juventude de Hitler, aos sábados, e o domingo, que como dia da Juventu­de do Estado estava reservado para a prestação de serviços da JH (Juventude Hitlerista), eram decididamente objetivos mais elevados que as choças de lama imunda dos berberes. E, afinal de contas, um professor de francês precisa ser tão francófilo, a ponto de romantizar os Alpes de Savoy? Então já esquece­mos Versalhes? A paz vergonhosa de 1918? A desonra da Alemanha na sala de espelhos? As reparações? A ocupação da região do Reno pelos franceses? E Schlageter, cujo nome o ginásio recebera,, o patriota alemão digno, que fez voar pelos ares a retaguarda das tropas de ocupação e que fora por isso, como de direito, fuzilado pelos franceses no campo de Golzheim, nas cercanias de Duesseldorf, no dia 26 de maio de 1923? Sim, por tudo que é honra no mun­do, como é que um professor alemão pode simplesmente ignorar tudo isso?

Friedrich-Wilhelm Hesslich era observado cuidadosamente e secretamen­te também o censuravam pelo fato de seu filho Peter, que parecia ter nascido para o esporte, não querer fazer nada em prol da glória da Alemanha. Peter cresceu em uma atmosfera de desconfiança geral, que nunca o deixou. Colara-se nele como um sinal de nascença.

Depois de concluir o 2º grau ele não se tornou professor, como o desejava o pai, mas se ocupava da natureza, de plantas, árvores e animais. Queria ser guarda-florestal. De certa forma, isto se adaptava a ele: quem olhava para Peter, nos seus olhos ternos, compreendia repentinamente que Peter Hesslich podia ficar sentado durante horas em um banco alto ou atrás de um arbusto, para observar os animais. Para o esporte nacionalsocialista ele estava definitivamente perdido. Enquanto os outros treinavam com o suor a lhes escorrer das faces, ele andava pelas florestas, escutava o canto das aves nos carvalhos, alegrava-se com o batucar dos pica-paus, espreitava os galos silvestres e apren­dia, em uma clareira da floresta, deitado no musgo quente e perfumado, as artes do amor com uma mulher madura. Até então Peter Hesslich só conhe­cera moças da sua idade, que ficavam de costas, gemendo. Agora ele havia caí­do nas mãos experientes da mulher do residente florestal — e seu amor à na­tureza se potencializou.

Era aluno na classe preparatória para a academia de residentes florestais e seus amigos o interpelavam constantemente, tentando convencê-lo a entrar para a SA, para o grupo de esportes ou para o NSKK, o corpo de motoristas de veículos pesados do Partido Nacionalsocialista. Até o seu professor julgava que se Hesslich desejasse progredir na sua carreira era imprescindível ter qualquer distintivo do partido. Sem o emblema de zinco ele seria, como funcionário do governo, sempre o último na lista das promoções. Afinal de contas, um sentimento nacionalista patente era agora a melhor legitimação, cem vezes melhor do que todos os boletins escolares e desempenhos. Infelizmente o professor Friedrich-Wilhelm Hesslich morreu repentinamente. Melhor dizendo, sufocou-se com uma espinha de peixe encravada na laringe. Antes que um médico pudesse interceder, Hesslich ficara azul e deixara de respirar.

Com a morte insensata do marido, Wilhelmine Hesslich, a mãe de Peter, ficou muito deprimida, caindo em uma psicose da qual não se refez mais. Fi­cava horas sonolenta; finalmente tiveram de interná-la e nem mais reconhecia o próprio filho.

Só algumas semanas depois dessa tragédia doméstica seguiu-se uma pro­fissional. Há meses caçava-se furtivamente na região de Peter Hesslich; atirava-se, sem nenhuma seleção, em bodes e corças grávidas. Animais feridos morriam miseravelmente - era realmente uma merda incrível. Patrulhas rondavam dia e noite, não havia nenhum suspeito e também não havia rastro nenhum, exce­to os lugares cheios de manchas de suor e os animais feridos, agonizantes.

Em uma noite de lua clara Peter Hesslich repentinamente se viu diante do caçador ilícito desconhecido. Num atalho, exatamente na fronteira da região, o desconhecido saiu da floresta — um homem grande, pesado, com um traje de treinamento azul-escuro e botas de borracha.

Peter Hesslich o chamou, de acordo com as normas.

— Pare! Fique parado!

Mas o homem nem pensou em obedecer. Virou-se rápido como um raio, levantou a espingarda e mirou Hesslich, que estava totalmente indefeso.

Mais tarde Hesslich não sabia como explicá-lo: ele fora mais rápido. O seu tiro ecoou um pestanejar antes do tiro do seu adversário. Ao passo que a bala do caçador ilícito se perdeu alhures no céu noturno, o tiro de Peter acertou. Espantado Hesslich viu como o homem caiu, a espingarda escapou-lhe das mãos e o corpo se distendeu. Correu horrorizado em sua direção, ajoelhou-se a seu lado e levantou a cabeça do homem em que acertara. Era terrível, Ele matara um homem. Certo, tinha sido em defesa própria, mas ele o matara!

Na casa do residente florestal embriagou-se. Tinham colocado o cadáver numa cela vazia no curral dos porcos vizinho, até que chegasse a polícia e o transporte funerário.

— Matei um homem — disse Peter Hesslich, repetidas vezes, com voz monótona. — Vocês podem tentar me consolar como quiserem. . . eu o matei. Isto nenhum de vocês jamais fez! Vocês nem imaginam como me sinto.



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