Konsalik b de atalhão Mulheres



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A apresentação de Stella Antonovna à Capitoa Bajda foi curta e — nesta carac­terística feminina nem o uniforme alterava coisa alguma — cheia de curiosida­de cética. Mesmo a primeira crítica não faltou. Deram-se as mãos, nomearam-se mutuamente, e Stella entregou seus documentos, que Soja Valentinovna imediatamente colocou em cima de uma mesa de madeira, sem lê-los. Ela sa­bia o que neles estava escrito. O regimento já havia transmitido as informa­ções essenciais pelo telefone de campanha. Só não tinham mencionado que Stella se apresentaria à LPC. Só esta exceção tornava Soja amarga. Porque ti­nha ela direitos especiais? Qual era o camarada poderoso de Moscou que a apoiava? E por que era tão mimada? Apenas porque já matara mais de 40 ale­mães? Porque cada um de seus tiros acertava no alvo? De onde viera? Tinha aprendido o ofício de tecelã, com seu pai, que tinha um pequeno negócio em Fastov, perto de Kiew. A Ucrânia ainda estava nas mãos dos alemães, mas Stella ouvira, pelo serviço de informações dos guerrilheiros, o que acontecera entrementes no seu povoado natal: a casa com a tecelagem fora incendiada, o pai sumira; provavelmente os alemães o tinham morto a tiros e enterrado. A mãe fugira para a floresta e lá desaparecera. Apenas a respeito do irmão de Stella, Constantin, se sabia alguma coisa mais definitiva: tinha sido enforcado, em uma forca erigida às pressas na praça da feira de Fastov, porque numa reação impotente jogara pedras no suboficial que estava incendiando a tecelagem do pai.

Fora pura sorte de Stella se encontrar em Kiew para um treinamento em tecelagem quando as tropas alemãs assaltaram sua pátria. Fugiu para Go­mei e juntou-se a um grupo de defesa de mulheres. Lá cedo chamou a atenção porque seus olhos desenvolviam a capacidade de uma águia, ao olhar por um telescópio de mira. Já na sua primeira ação contra as divisões alemãs, que pareciam avançar inexoravelmente, pois na fase inicial da guerra estraçalhavam, com movimentos de pinça gigantescos, o Exército soviético em todas as frentes, Stella Antonovna matou 19 alemães, com sua carabina M-91/30, com tiros limpos na cabeça, feito raios. No pantanal perto de Ogorodnje ela ficou deitada durante seis semanas com três outras moças, totalmente sozinhas contra um batalhão alemão, que fora deixado na retaguarda exatamente para limpar a região. As divisões alemãs conquistaram Roslavl e Kiew, Brjansk e Orel. Os seus tanques blindados dirigiam-se para Moscou; era uma campanha vito­riosa ímpar. E no meio dessas batalhas, que muitas vezes se desenrolavam pa­ralelamente às ruas e estradas nas quais as divisões e a retaguarda alemãs avan­çavam, Stella Antonovna e suas três camaradas marchavam para o oeste, de volta àquelas partes do Exército Vermelho, que tentavam incessantemente se arrochar à terra natal, apesar de serem sempre alcançadas pelos alemães.

Caminharam durante quatro meses por regiões ocupadas; dormiam nas florestas, em cavernas, em casas incendiadas e nos buracos das granadas, onde se cobriam com terra e punham sobre as cabeças um toldo, novamente cober­to de terra. Se alguém olhasse para dentro do funil, elas estavam invisíveis — mas atrás da linha de frente ninguém se preocupava com um buraco de granada.

Quatro vezes foram surpreendidas por patrulhas alemãs e quatro vezes. Stella Antonovna resolvera o problema com sangue-frio. Antes dos alemães sa­berem o que tinham descoberto no meio das árvores derrubadas — eram mo­ças jovens, bonitas, isto chegaram a perceber, já tinham sido alcançados pelas balas mortíferas. A tática das moças era sempre a mesma: duas iam lentamen­te, de mãos e braços levantados, em direção aos soldados alemães. Fazia calor, elas tinham desabotoado as blusas até a altura da saia, e a sua visão alegrava o coração de qualquer soldado raso, mesmo em se tratando de russas, as quais deveriam ser enfrentadas com cuidado, especialmente nas florestas. A distra­ção demorava alguns instantes, que eram suficientes para dar a Stella e às ou­tras moças escondidas por detrás das árvores um bom alvo.



Stella Antonovna registrava conscienciosamente seus tiros no livro apro­priado. Os soldados alemães desapareciam. Para não deixar rastros, especial­mente para não delatar aos alemães, pelos certeiros tiros na cabeça, que guer­rilheiros estavam operando atrás de suas costas — o que sem dúvida alguma te­ria provocado um grande alarma — as moças enterravam imediatamente os cadáveres e à guisa de camuflagem arrastavam ramos de árvores sobre as covas.

Quando o inverno surgiu de repente e impediu o avanço dos alemães; quando o frio fazia mais vítimas do que as armas; quando tempestades de neve e um frio de 30 graus negativos literalmente paralisavam as divisões alemãs, não preparadas para um tal inverno; e quando as autoridades soviéticas come­çaram a acreditar em um novo milagre, Stella e suas companheiras romperam as posições alemãs e conseguiram alcançar as próprias tropas. Duas moças fo­ram feridas. Haviam entrado de cheio em um fogo cruzado da artilharia sovié­tica. Atingidas pelos estilhaços das próprias granadas, ainda foram cuidadas por Stella e pelas outras moças e carregadas para um celeiro de feno vazio. Le­vá-las consigo era impossível.

Stella estava sentada entre as duas moças gravemente feridas e fitava, rí­gida, a imensa parede do celeiro. Pelos grandes buracos das tábuas curvas de madeira, pregadas nos postes, a tempestade fazia entrar o frio gélido.

Morrerão duas vezes, pensou Stella, em função dos ferimentos e pelo frio. Ninguém mais pode ajudá-las. Mas nós temos de ir adiante, para nossos irmãos. Aceitamos uma missão e esta será cumprida até o último tremor de nossas mãos: Morte aos alemães!

O que será de vocês, irmãs!

Olhou para baixo, para a moça ferida que jazia a sua esquerda. Ela abrira os olhos. Só a cabeça saía da palha com a qual a tinham coberto e que só oferecia uma proteção precária contra o frio.

— Você precisa prosseguir. . . — disse ela ofegante. A cada palavra, saía um estertor de sua boca. Provavelmente o pulmão também fora atingido.

— Sim. Precisamos prosseguir imediatamente.

A moça fechou os olhos e virou a cabeça para o lado.

— Faça-o — pediu em um sussurro.

— O quê?

— Você sabe! Por favor, faça-o. . . Pela Mãe de Cristo, a Misericordiosa, eu lhe imploro, faça!

— Você acredita em Deus? — perguntou Stella, com voz abafada. — Ain­da agora você acredita em Deus?

— Sim. Exatamente agora...

— Onde está o seu Deus? Ele permite que a Rússia seja devastada, que seja incendiada, que o sangue corra por ruas, atalhos, campos e florestas! Então deve haver um Deus? Um do qual ainda dizem que é justo? O que fizemos nós, para que o seu Deus nos castigue assim?! Katjuscha, diga-me, você tam­bém acredita em uma vida após a morte?

— Acredito — murmurou a moça ferida. — Você só mata o corpo estra­çalhado, não a mim. Nós nos veremos novamente, Stellanka. Não seja tão in­fantil. O que é morrer, afinal de contas? Você mesmo sabe que pode morrer a qualquer instante. E você tem medo? Seja honesta...

— Tenho medo. — Stella Antonovna juntou os dedos endurecidos em forma de punho. Temos de prosseguir, pensou ela. Só nas verstas a mais. Já podemos ouvir a frente. O trovejar incessante dos canhões. Já percebemos quão perto estamos! A nossa própria artilharia nos acertou! E nós ficamos aqui sentadas, falando a respeito de Deus. Uma conversa totalmente sem sentido. Mas parece tranqüilizar Katjuscha.

— Eu não sinto mais medo — disse Katja, quase inaudivelmente. Stella teve de se abaixar para poder ouvi-la. Uma espuma sangrenta apareceu nos lá­bios da moça ferida e aumentava a cada palavra proferida. — Então já não es­tou morta? Me dê a mão, Stellinka.

Stella vasculhou a palha, até achar a mão gelada de Katja e a segurou. De fora veio a outra moça, Tamara Fjodorevna. Sua vestimenta estava coberta de cristais de gelo, diante da boca uma nuvem branca espessa. Ela se encostou na porta e apertou ambas as mãos contra o peito. Correra, como se o diabo a perseguisse.

— Tanques. . . — gritou, interrrompida por quentes soluços. — A rua es­tá repleta de tanques alemães! Temos de partir! Partir imediatamente!

— Você realmente continuará vivendo? — perguntou Stella. Curvou-se sobre Katja, enxugou-lhe a espuma da boca e acariciou-lhe o rosto. A moça fe­rida fez um esgar com os lábios; deveria representar um sorriso.

— Sim, Stellinka.

— Você jura?

— Sim, eu juro. . . Nós. . . nós nos veremos de novo. . . com certeza. . . eu. . . eu estarei esperando por você...

Stella se levantou, em um silêncio respeitoso. Cobriu Katja novamente com a palha, uma última vez acariciou, com indizível ternura, o rosto e bei­jou os olhos cerrados; depois destravou a mola de segurança da carabina. Ta­Mara Fjodorevna, encostada na porta, juntou as mãos em um gesto de prece e virou a cabeça para a parede de madeira congelada.

Dois tiros ecoaram. Depois Stella empurrou a soluçante Tamara e abriu a porta. O vento gelado bateu-lhe no rosto; ela se agachou, encolheu a cabeça entre os ombros e escapuliu para fora. Tamara a seguiu imediatamente, alcançou-a e puxou-a pelo antebraço.

— Por que você fez isto?! — berrou, contra o vento uivante.

— Olga já estava morta. . . foi só pela segurança! — berrou Stella de vol­ta. Seu rosto parecia dissolver-se.

— E Katja?!

— Ela continuará vivendo. Tem seu Deus! Isto ela me jurou! — Stella puxou Tamara para si e berrou junto a seu rosto. — Deveria tê-la deixado mor­rer como um cachorro vagabundo?! O que eu deveria ter feito? Diga-me, o que eu deveria ter feito?

Tamara não respondeu. Da rua vinha o ruído dos tanques alemães a se aproximar. Agacharam-se e continuaram correndo sob a proteção da floresta.

Quatro dias depois caíram de joelhos e choraram de alegria quando, repentinamente, ouviram ruídos russos vindo de um terreno montanhoso. Uma patrulha atrasada da Segunda Companhia de Fuzileiros estava examinando a região.

Foi a primeira vez que o nome Stella Antonovna Korolenkaja foi mencionado em um relatório do Estado-Maior.

Mais do que com a chegada de Stella na frente, Soja Valentinovna preocupava-se com a colaboração inusitada que levara o Tenente Ugarov para o lado da nova médica.

Inicialmente, fitara, com espanto, as trazedoras de comida, ao saber da ação de busca de Ugarov. Vira Victor Ivanovitsch pela última vez ao lado da pesada MG, e acreditava que ele ainda estava lá, quando a pequena tropa de recebimento de víveres apresentou-se. Apenas depois de ter cumprimentado Stella Antonovna e tê-la apresentado às outras fuzileiras do comboio II, no qual Stella seria admitida, soube da saída não acompanhada de seu amante. Ficou rubra de raiva e preocupação até a raiz dos cabelos, deixou as moças estarrecidas em pé, a sós, e correu pela trincheira até o abrigo do Comissário Miranski. Foma Igorevitsch estava ocupado em banhar os pés em água quente com sabão. Há anos sofria de comichão nos pés, como se suas artérias estives­sem povoadas por um exército de formigas. Contra isso o único remédio era um banho em água quente com sabão. Miranski chegara a essa conclusão depois que todos os conselhos e terapias médicas se revelaram ineficazes.

— Nunca devemos esquecer os velhos remédios caseiros! — dizia ele, a partir de então, quando outras pessoas sofredoras lhe explicavam seus sintomas. — Toda a merda da medicina moderna nada vale contra uma erva caseira bem cozinhada!

— Onde está Victor? — gritou Soja Valentinovna, ao aparecer repentinamente no abrigo. Miranski patinhou no balde de zinco e colocou uma toalha sobre as coxas, já que estava vestido apenas com uma cueca aberta no meio. Fitou a Bajda espantado.

— Você está me perguntando? — respondeu pausadamente. — Mas até o melhor galo necessita de um canto para descansar!

— O que é que Victor está fazendo lá fora na estepe?

— Deixei claro para ele que deveria ir ver o que havia acontecido com as trazedoras de comida.

— As trazedoras de comida voltaram.

— Que sorte! — Miranski olhou para as pernas. Como é que vou enx gá-las agora, pensou. Se eu levantar a toalha, a Bajda verá minha cueca aberta. O melhor é não deixar que tal confiança se instale. — O que elas trouxeram? So­ja Valentinovna, leia o cardápio para mim!

— Victor não voltou com elas!

— Deus do Céu! — Miranski tirou as pernas da infusão de sabão. —Aconteceu alguma coisa?!

— Quem sabe? Victor foi para o lugar onde os feridos são cuidados, acompanhando uma moça que foi atingida. Uma médica o obrigou.

— Obrigou? — Foma Igorevitsch não acreditou no que ouvia. Empurrou os dedos indicadores no buraco dos ouvidos e se sacudiu. — Alguém obrigou Victor?

— Dizem que ela é muito bonita. Grande e dominadora! As moças contam que xingou Victor de idiota!

— Com certeza é uma psicóloga! — exclamou Miranski e sorriu como um macaco satisfeito. — O que a preocupa tanto, Camarada Capitão?

— Ele a acompanhou sem discussão.

— É, é coisa para pensar. — Miranski, este diabo, estalou a língua e revirou os olhos como um veado, pronto a pular. — Essa camarada médica deve ser uma verdadeira mulher-maravilha, se Victor Ivanovtsch pula de seus bra­ços, Soitschka...

A Bajda estraçalhou Miranski com o olhar, empurrou para a frente os lá­bios cheios, deu um forte pontapé na porta do abrigo e foi embora. Miranski finalmente pôde enxugar os pés. Salpicou-os com um pó amarelo, que fedia a enxofre, e calçou novamente suas grossas meias de lã.

Uma nova médica vem juntar-se a nós, pensava, em devaneio. E como estou ouvindo, uma diabolicamente linda. Quando tivemos a última médica própria da unidade? Vejamos, era na estepe do Don, quando o cerco de Stalingrado se fechou e o Sexto Exército alemão foi isolado. Naquela época a médica Marfa Vadimovna viajava conosco, uma verdadeira puta, meu Deus, com um rosto sério, seios que pareciam tetas de vaca e uma bunda na qual se poderia rachar lenha. E ela não temia nada, operava em pleno campo, sob ataque de tanques, bem no meio da estepe, tendo ao lado uma bandeira com a Cruz Vermelha Alemã, que fora conquistada e que pendia de um poste de madeira. Qualquer um que só visse a bandeira de longe desistia logo de atirar naquele pedaço de terra. E então lá estava fincada a mulher diabólica que extraía balas a bisturi, fazia curativos, costurava pedaços de carne e com três sar­gentos ajudava a levar os feridos para um lugar seguro. No dia 27 de setembro de 1942 ela morreu na linha férrea entre Olchovka-Kamuschin, ao norte de Stalingrado, quando, ao balançar a bandeira da Cruz Vermelha sobre a cabeça, procurava feridos na estepe. Uma bomba de um Stuka alemão, que atacava a linha do trem, a atingiu em cheio. Nem dela nem das cinco enfermeiras ficou um só pedaço.



Pouco após retiraram a divisão e a colocaram, fazendo um grande desvio sobre o Volga, na direção do Don médio, na frente sudoeste do General Vatutin. Lá ela ajudou a rebater as tentativas alemãs de salvar Stalingrado. Uma médica própria à divisão já não tinha mais. Só agora vem uma nova médica para a frente, e isto só pode significar que a ofensiva esperada não demorará a acontecer.

Miranski calçou as botas de pele, enfiou-se no grosso casaco de pele e foi para o abrigo II. As moças estavam acocoradas em seus catres, comiam a ração recém-distribuída e mordiam pão duro. Havia um cheiro ácido, desagra­dável, de repolho. Miranski franziu o cenho. Essa gente da cozinha não pensa em mais nada de novo, cogitou amargo. Então a Rússia só é feita de repolho azedo? Bem, esquenta o estômago, tem-se a sensação de estar aumentado, os intestinos incham como depois de uma orgia, e na realidade saem fezes baru­lhentas, que fazem lembrar dos bons tempos em que se comiam cebolas, lin­das, rosas, grossas e suculentas, e pepinos apimentados. Mas, com todos os diabos, mesmo depois de dois anos de guerra, deve haver ainda outra coisa além do repolho. Quem está se empanturrando com os milhares de vacas, carneiros, os incontáveis porcos, as galinhas, os patos e os gansos? E os cavalos? Camaradas, a Rússia sufoca de carne, basta pensar sobriamente, mas onde — ao diabo com a administração — onde fica toda essa carne? Certamente aqui na frente, na linha dianteira, aqui ela não chega, ou, para ser sincero e justo, só muito raramente. Uns poucos nacos, que nadam solitariamente na sopa e se envergonham por ser tão miseráveis. Então, quem está comendo toda essa carne? Quem consome montanhas inteiras de bifes suculentos?

Miranski suspirou e estremeceu assustado, quando uma moça se postou diante dele e se apresentou militarmente lacônica, com voz clara.

— Camarada Stella Antonovna Korolenkaja, presente!

— Muito prazer! — respondeu Miranski um pouco confuso e de forma nenhuma como deveria se comportar um oficial superior. Deu a mão a Stella e a achou bem simpática, mas nada tão imponente, como lhe tinham dito. Depois ele se sentou ao lado das moças, sobre um catre. No fundo do coração es­tava ofendido porque nenhuma repartição superior lhe comunicara a vinda da nova médica. Ela simplesmente estava ali, xingava o Tenente Ugarov, fazia a Bajda entrar em um delírio de ciúme e tinha a desfaçatez de enviar Ugarov pa­ra a retaguarda, ajudando a transportar um ferido.

Um tal estado de coisas Miranski não ia tolerar assim tão facilmente.

— Como foi essa história do Tenente Ugarov? — perguntou. — Eu quero saber de tudo, certinho.

— Tínhamos uma companheira ferida — respondeu Stella Antonovna. — Exatamente quando a Camarada Opalinskaja estava colocando gaze nos feri­mentos, o Tenente Ugarov caiu no nosso buraco de granada. Ele estava nos procurando.

— Continue — instou Miranski. — Isso eu já sei há muito tempo.

— Não há mais nada a dizer. Galina Ruslanovna e o Tenente Ugarov transportaram a companheira ferida para a retaguarda. Nós fomos para a frente.

— Por que nenhuma de vocês foi para a retaguarda?

— Então o Tenente ia carregar as latas e as panelas? — perguntou Stella e fitou Miranski com um olhar de censura.

É uma boa explicação, pensou Miranski, sim, é até um argumento lógi­co, irrefutável. Com isto pode-se até consolar Soja Valentinovna. Olhou agradecido para Stella, deu-lhe umas palmadinhas nas costas estreitas e saiu de no­vo para o frio cortante.

Contudo, percebeu que Soja Valentinovna não podia nem desejava ser consolada; com as mulheres, aliás, é impossível fazer tais distinções sutis. Ela apenas fitou Miranski com olhos zangados, faiscantes, quando ele lhe explicou que correr pela estepe com caçarolas às costas era algo abaixo da honra de um oficial de ligação.

— Tudo se descobrirá, Foma Igorevitsch! — exclamou a Bajda sombria. — Amarre suas calças, se o medo lhe abrir a braguilha! Tenho bons olhos. Logo ficará claro para mim o que aconteceu com o Victor.

— Permita uma só pergunta! — berrou Miranski em um ataque repentino de desespero. — Isto aqui é um bordel ou uma divisão do Batalhão de Mulheres?!

— Ambos, seu bode fedorento, ambos, para que você o saiba! — berrou ela de volta. — Nós usamos um uniforme, podemos sofrer, sangrar e morrer. Lutamos pela nossa pátria como homens e nenhuma de nós jamais se queixou, nenhuma jamais fraquejou. Mas, e o que está por debaixo da saia, hem? Então estamos costuradas, só porque usamos um uniforme? Imprensar a carabina en­tre as pernas, isto é um substituto?! E aí ele ainda pergunta se somos um bor­del! Oh céus, um dia só gostaríamos de não ser mais nada do que putas!

Miranski percebeu que era impossível frear agora a Bajda. Tinha uma pena enorme do Tenente Ugarov; em segredo lhe reiterou sua piedade e achava que o melhor que podia fazer era sumir o mais rápido possível.

Soja Valentinovna cuspiu atrás dele, mas isto ele não chegou mais a ver.

De madrugada, ainda sob proteção da escuridão, a médica Opalinskaja e Ugarov retornaram. Cansados, tropeçavam nas trincheiras e esbarraram na Baj­da que, quase congelada, feito um pedaço de gelo, esperava os dois na trin­cheira principal.

— Bem-vindos! — sibilou ela venenosamente, fitando Ugarov, como se o quisesse retalhar com o olhar. — Eu sou a Capitoa Bajda.

— Eu sei, minha querida — respondeu a Opalinskaja com uma confiança diabólica, que apenas expressava o fato de que se considerava igual à outra. Uma médica não permite que lhe dêem ordens. — Victor Ivanovitsch me falou a seu respeito.

— Ah, é? — A voz de Soja Valentinovna assemelhava-se a um soluço. — O bom Victor. Ele tem um bom papo, não?

— Nós nos entendemos bem! — respondeu a Opalinskaja simplesmente. — Onde é que eu posso instalar minha posição hospitalar? A senhora tem um abrigo livre?

— Nós não sofremos baixas!

Pela primeira vez na vida Ugarov viu a Badja ficar sem resposta.

— Ainda não. — Galina Ruslonovna mirou as posições alemãs. — Isto vai mudar em breve. Lá atrás, na estepe, esperam sete mil tanques blindados, dez mil armas e mais de um milhão de soldados. A senhora não tem nenhum abri­go livre? Então me instalarei no seu, minha querida Soja Valentinovna. ..

Pela primeira vez na vida Ugarov viu a Bajda ficar sem resposta.

Ainda mais agitada ficou, quando os dois se viram a sós. Como Galina Ruslanovna na realidade tomou conta do abrigo de comando e o demonstrou retirando as coisas de sua mala de enfermagem e esparramando pela mesa pacotes de ampolas, recipientes de aparelhos de injeção, um fogãozinho de este­rilização com chama de querosene, os bisturis em uma sacola de pano de vela e uma porção de ataduras de gaze, Soja Valentinovna não teve receio em transformar o abrigo de Miranski em palco para uma grande dramatização.

— Seu filho da puta desgraçado! — berrou, sacudindo os punhos. — Sua titica de diabo, seu. . .! Oh, como o odeio, seu diabo de nove rabos! Bas­ta que venha aí uma sirigaita com pernas compridas, revirando os olhos e pei­tos pontudos, e já os botões da sua calça voam! Então você acha que eu vou ficar quietinha vendo isso! Devo me esconder em um buraco de ratos e escu­tar como vocês gemem tão alto que até o céu os ouve?! O que você pensou, seu rabo de Satã?! He, você não me conhece bem, seu anão de boca torta! Quer que eu lhe corte alguns centímetros, que fazem com que você se sinta tão superior? O que será então você, hem? Segurem-me. . . vou fazê-lo! Cor­tarei o seu peru! Ele não merece ter uma coisa dessas!

Miranski permaneceu quieto em seu catre e deixou que ela tivesse o seu ataque de fúria. Uma mulher de sangue quente, pensou, enquanto um calafrio quase sagrado lhe passou pelas costas. O bom Ugarov nunca sobreviverá a isso. No máximo pode ter a esperança de que os alemães matem essa fúria. Enquanto ela viver, o Ugarov não passará de um capacho.

Soja Valentinovna vociferou durante quase uma hora. Durante todo esse tempo Ugarov não disse uma só palavra, mui inteligentemente; só quando de repente a respiração de Soja falhou e ela se encostou, ofegante, contra a parede de terra, ele se virou para Miranski e lhe perguntou:

— O senhor é meu amigo, Foma Igorevitsch, não?

— Mas você sabe disso, Victor Ivanovitsch. Que pergunta!

— O senhor pode nos deixar seu abrigo por uma hora? Seria, na mais verdadeira acepção da palavra, um ato de amor.. .

Miranski fitou Ugarov abobalhado; compreendeu, jogou o casaco de pele sobre os ombros e saiu do abrigo. Que costumes são esses, pensou, chocado. Oh, aonde chegamos?! Lá do outro lado a morte nos espreita e eu preciso pas­sear no gelo, porque um bom amigo necessita da cama. Só espero que ninguém tome conhecimento disto!

Ugarov esperou até que Miranski tivesse saído do abrigo. Deixou.cair as calças, sem dizer uma palavra, e com o polegar acenou para o catre.

— Venha! — disse singelamente. — Então, venha logo.. .

Com um suspiro abafado Soja Valentinovna se jogou nos seus braços e o mordeu na curva do pescoço.

Na noite seguinte aconteceu algo de desagradável: as quatro moças do comboio I, que se haviam esgueirado para seqüestrar sentinelas na terra de ninguém, esbarraram numa resistência com que não tinham contado. Ao aparecerem diante da posição dos observadores e abrirem as blusas, não foi um espanto incomensurável que as esperou — fogo as atingiu, partindo de três carabinas.



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