Konsalik b de atalhão Mulheres



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— Sejam corajosos — exortou-os Lida Djanovna lenta e nitidamente. — Todos temos de morrer um dia.

Os cantos dos lábios de Uganti começaram a tremer.

— Morrer não — gaguejou. — Por favor, por que morrer?! Nós prisioneiros. . . a guerra terminou. . .

— A guerra não terminará nunca — respondeu Lida duramente. – Não enquanto um único soldado alemão estiver em solo russo!

— Nós somos italianos! — gritou Tarnozzi. Ele se contorceu. A gorda mão de Naila fazia-lhe massagens no pênis, como se quisesse torcê-lo. — Ita­lianos!

— Com uniformes alemães. . .

— Nos obrigaram. . .

— Isto dizem todos! — Lida se levantou. Uma outra moça debruçou-se sobre Uganti. Começou a rasgar-lhe a calça e depois, repentinamente, um redemoinho de cabeças femininas e mãos que atacavam os rodeou, as botas lhes foram arrancadas dos pés, as calças arrancadas, as cuecas dilaceradas — e um acordeão começou a tocar. Risos os circundavam como ondas. Estavam deitados de costas, retos, dedos frios mas ágeis como esquilos brincavam com eles e enquanto o terror, misturado com uma esperança inesgotável, neles permanecia e os paralisava, a sua masculinidade crescia, independente de qual­quer vontade, acompanhada de gritos entusiastas e aplausos verdadeiros.

A gorda Naila Tahirovna foi a primeira a usufruir da oferta.

— Ele não é um tourinho? — disse jubilosamente e se jogou sobre Tar-nozzi. — Sonhei semanas com isto! O diabo leve Foma Igorevitsch e suas prescrições! Ele não passa de um burro castrado! Ha! Isto vai fundo na minha alma. . .

Ela se debruçou sobre Tarnozzi estarrecido, jogou seus peitos gordos na sua cara e quase o sufocou entre sua carne maciça. As moças gritavam “Bra­vo” e batiam palmas ritmicamente. Marianka Stepanovna tocou uma melodia ligeira em sua bajan. Era um barulho dos diabos, que ainda aumentou quando Naila caiu numa fúria selvagem e mordeu Tarnozzi em todos os lugares que podia alcançar.

Uganti, preso por braços e pernas, não teve oportunidade de se admirar com este jogo infernal. Sobre ele voou, como um vento cataclísmico, a peque­na Antonina, um diabrete de quadris estreitos, peitos pontiagudos, de Ulan-Ude; tomou-o com um grito claro, com cada movimento emitia um tom agu­do e com dedos febris lhe arranhava o rosto. Uganti empinou-se debaixo dela; não sentia o sangue que lhe escorria sobre o rosto, saindo das feridas, nem mesmo a dor. Aí estava esse sentimento louco, doce em suas ancas, ele via o rosto magro, bonito, pele cor de oliva da moça, escutava seus gritos de êxtase e no fundo música e canto. Por momentos esquecia onde se encontrava e o que faziam com ele. Só sentia Antonina, seu corpo magro, em convulsões, e seu ventre estreito, mas quando quis levantar os braços e agarrar seus seios, percebeu que estava sendo preso no chão e que não era outra coisa senão um poste, no qual alguém se esfregava.

— Você não vai nos tocar! — disse uma voz clara atrás de sua cabeça. Ele não a compreendeu e também não lhe teria dado atenção, porque neste instante Antonina caiu para a frente e escondeu o rosto no ombro dele. — O que você pensa que é? Tocar-nos? Você quer ser um cavalo jovem? Isto vai passar rapidinho!

Tarnozzi gemeu baixinho, quando Naila escorregou de cima dele e uma outra mulher dele se apoderou. Levantou um pouco a cabeça, fitou ao seu redor com olhos rígidos e percebeu, à luz bruxuleante da lâmpada de querosene, que ainda havia muitas moças nuas no recinto, cantando e rindo. Algumas delas seguravam Uganti, sobre o qual uma mulher se mexia, como se o quises­se esmagar contra o chão.

Uma dor quente, lancinante o açoitou.

— Você, Satã! — ofegava a moça, cujas coxas agora o aprisionavam. — Olhe para mim. Quero cuspir entre os seus olhos!. . . E realmente, ela cuspiu nele, a saliva escorreu sobre seu nariz, em direção à boca, mas seu corpo queimava em cima dele e ela se comportava como se quisesse se despedaçar a si própria no espinho dele.

Meu Deus, pensou Tarnozzi e fechou os olhos. O que pretendem fazer conosco? Virão todas em cima de nós, uma depois da outra, eu não sei quantas são, talvez sempre serão mais, de todos os abrigos elas vêm, toda uma companhia de mulheres loucas no cio. Mas isto vai acabar, não poderemos mais, é bastante natural, não se pode evitar. O que farão então as outras que esperaram e se sentirão ludibriadas? Será que nos esconderão aqui? Será que ficaremos presos aqui, como putas masculinas para um batalhão de mulheres? Salvatore, que prisão é esta! Que guerra alegre será! Uganti e Tarnozzi, as facas de afiar do Don! Se pudermos sobreviver assim. . . venham então, pombinhas no cio. Vocês não ficarão desapontadas. Mas vocês têm de nos permitir respirar um pouco, só um pouquinho de ar, a natureza não funciona simplesmente mediante ordens.

A noite foi terrível. Algumas vezes as moças jogaram água nos seus pri­sioneiros cobertos de suor, quando eles, fatigados, já não eram capazes de fazer mais nada. Depois os esfregaram com panos grossos, lhes deram a be­ber um licor de mel doce e trabalharam seus corpos com tanta perseverança e ternura que — realmente é de estranhar — sempre uma torrente de força escor­reu em suas ancas.

Ao alvorecer a música do acordeão parou. As moças usavam novamente seus uniformes, os lindos corpos haviam desaparecido sob botas de feltro maçudas e casacos largos, sem forma. Uganti e Tarnozzi estavam deitados na ter­ra, agonizantes, com os olhos fechados. As pálpebras tremiam de exaustão. Seus corpos estavam deformados por pancadas, arranhões, mordidelas e belis­cões. Estavam deitados com as bocas semi-abertas, e só de pensar na aparên­cia da Maila Tigranovna nua, um medo impotente se apoderava deles.

— Amanhã. . . — disse Uganti pesadamente. — Por favor. . . amanhã. . .

Naila Tahirovna sacudiu a cabeça. Com passos surpreendentemente le­ves ela foi em direção a Uganti e Tarnozzi, deu um chute forte em cada um deles e depois mostrou a mão direita, que até então escondera atrás das cos­tas. Por mais fraco que estivesse, Uganti ainda tinha forças suficientes para rastejar até a parede do abrigo e lá levantar as mãos. A pistola que Naila apon­tava o seguiu. Ele rastejou para o outro lado, pôs as mãos no rosto e começou a soluçar alto.

— Mas por quê? — gaguejou Tarnozzi. — Em duas, três horas poderemos de novo. Vocês não podem simplesmente nos matar a tiros, agora. . . depois de tudo que aconteceu. . . por favor. . . — Levantou as mios suplicando, lá­grimas lhe escorriam pelo rosto.

Tischje!* — disse ela, duramente. — Estamos em guerra! Por que você quer viver ainda uma hora? Miranski fuzila você, com certeza! Você me fez bem, meu querido, meu jovem tourinho. . . mas agora tudo passou.

Tarnozzi ainda queria dizer algo, quando viu o fogo sair da arma. Um punho bateu contra sua testa mas ele não sentiu. Com a boca aberta escorregou da parede e caiu por terra. Uganti gritou, um grito agudo, de rebentar o coração. Em defesa sem sentido afastou-se da parede e se atirou contra o mostro de pele branca, nu, com os grandes seios em forma de pêra. Mas Nai-la Tahirovna foi mais rápida, a pistola na sua mão só pulou para cima uma vez, e Salvatore Uganti foi atirado de volta, abriu os braços e já estava morto ao tocar o chão.

Com toda a calma Naila se vestiu; no final pôs a boina de pele no seu cabelo preto crespo e saiu do abrigo. Acenou para algumas camaradas, que estavam na trincheira, e se dirigiu para o abrigo de comando, a fim de notificar a Capitoa Bajda de que tudo fora feito.

Luigi Tarnozzi e Salvatore Uganti foram arrastados para um buraco de granada já escolhido, lá jogados e cobertos com algumas pás de terra. Na realidade isto nem era necessário — no gelo crepitante os cadáveres nus imediatamente entravam em rigor mortis, ninguém olharia para dentro do bu­raco e quando a primavera chegasse e o sol novamente descongelasse os dois mortos, elas já estariam há muito tempo em outro local da frente, estariam acossando os alemães em direção ao oeste e poderiam deixar para as colunas de retaguarda o trabalho de enterrar os dois corpos nus.

Bem-humorado e repousado o Comissário Milanski fez a sua ronda de inspeção pela região da companhia de manhã. Encontrou tudo em perfeita ordem, as moças lhe acenavam amistosamente, e de duas sentinelas alemãs seqüestradas não se via nada.

— A minha advertência funcionou — disse ele mais tarde, à hora do chá, para o Tenente Ugarov. — Precisamos encontrar as palavras certas. . . é isto! Elas desistiram dessa besteira de seqüestrar sentinelas. Ha, como eu as teria tratado! Tê-las-ia cozinhado como ovos na frigideira! E como! Teria alarma­do o Camarada General Kitajev! Que bom que elas tomaram juízo!

— Mas o que elas iam fazer com as sentinelas? — respondeu Ugarov, hi­pocritamente. — Dois prisioneiros, de que valem para nós?

Pensou nas coisas que deveriam ter acontecido no abrigo II. Os cabelos da gente se arrepiavam. Colocou as mãos sob o catre e retirou o tabuleiro de xadrez.

— Uma partida, Foma Igorevitsch? Isto distrai. . . Miranski bebericava seu chá e acenou afirmativamente.

— O senhor ouviu música esta noite? — perguntou repentinamente. Uga­rov teve a impressão de que um pedaço de gelo estava escorregando por suas costas.

— Música? Não! Onde? Aqui? — Para não ser obrigado a fitar Mirans­ki, arrumava as peças no tabuleiro de xadrez com excessiva meticulosidade.

— Eu não sei. Senti como se a tivesse escutado. Pode ter vindo do lado de lá! Esses italianos. . . música para eles é o mesmo que um gole de vodca para nós! Deixe-os ficar alegres, sem preocupação; em alguns dias eles não existirão mais! Correremos por cima deles como minhocas. Victor Ivanovitsch, o primeiro lance é seu!

O bom Miranski foi, portanto, ludibriado pela astúcia feminina. Mais três ve­zes um comando seqüestrou as sentinelas avançadas italianas, mas de manhã cedo todas as pistas tinham sido obliteradas, os prisioneiros sumido. Apenas o Tenente Ugarov passeava de lá para cá com o rosto franzido. Estava pálido e com aparência doentia. Queixava-se de dores de cabeça e cada noite suplica­va, quase de joelhos, a Bajda, que desistisse daquela loucura. Respirou quase aliviado e ter-se-ia deixado arrebatar para uma dança de alegria quando Schanna, Lida e Darja deram notícia da morte bem-sucedida dos três oficiais ale­mães. Isto não poderia ficar sem conseqüências, isto os alemães não engoli­riam e pronto. . . e isto significava, também, que a operação “seqüestrar sen­tinelas” terminara.

Miranski fez uma conferência e testemunhou o êxito no livro de tiros.

Lida Djanovna Selenko — 24 acertos.

Schanna Ivanovna Eíabajeva — 29 acertos.

Darja Allanovna Klujeva — 29 acertos.

— Vocês ainda se tomarão todas Heroínas da União Soviética! - exclamou Miranski orgulhoso. — Vocês sabem que nós somos a melhor divisão? Cedo toda a Rússia nos conhecerá! Amanha ou depois de amanhã, não sei ao certo, vem, aliás, uma camarada famosa para nossas fileiras: Stella Antonovna Korolenkaja. Se isto não é uma honra! Vem diretamente da frente de Brjansk! Dizem que ela tem 41 acertos! Em tão pouco tempo! Veio recentemente de Moscou! Bem, veremos. Vocês estão percebendo alguma coisa, queridinhas? Se Stella Antonovna vem se reunir a nós, aqui, logo, logo acontecerão coisas espantosas.

— Eu a conheço. — Schanna Ivanovna franziu o cenho, como se lhe tivessem colocado vinagre na caneca de chá. — Dizem que é orgulhosa! Comporta-se como se fosse uma privilegiada! Uma mascote dos camaradas em postos elevados! Como era em Veschnjaki! Todos sabiam que ela, como nós, estava na escola, mas ninguém a viu jamais. Apenas ouvíamos cada semana que ela novamente acertara todos os tiros! Na área do tiro ao alvo batiam palmas! Stella Antonovna pode acertar a glândula de uma aranha, tão precisos são seus tiros! Sempre Stella Antonovna! Se isto continuar assim, cedo lhe erguerão uma estátua! E uma vez também a vi, quase por acaso. Lá vou eu ao serviço hospitalar, para pegar alguns comprimidos contra acidez. Ali estava uma mulher menor que eu, com cachos louros, olhos azuis-claros. . . uma boneca, penso, uma tal que o capitão médico guarda para as suas noites, um verdadeiro brinquedo, nada mais. E como está em pé, as mãos nas costas, os seios redon­dos apontando para diante, eu penso: mais do que isso você não sabe fazer, sua boboca, do que arregalar os olhos e empurrar os seios através da blusa, isto é do que os homens gostam. E ao esperar pelos meus cumprimentos, vem um sargento e diz: “Você pode entrar agora, Camarada Stella Antonovna. As chapas de raios X estão boas. Nada quebrado. Parabéns!” Senti como se me tivessem dado um golpe na cabeça e ela passa por mim, sorri e bum!, a porta fechou. Então essa era Stella! Mais tarde perguntei à camarada médica: “Ela está doente?” e ela me respondeu: “A camarada Korolenkaja ontem pulou de um avião de pára-quedas e este só se abriu quando já estava quase tocando o solo. Na queda todos os ossos devem ter sido fraturados, pensamos. Valha-nos Deus, Stella Antonovna, você não andará mais por aí. Mas o que fez ela? Deslizou, ao cair, como um gato que cai do telhado, se levantou, retirou as cordas, juntou o pára-quedas, veio em nossa direção e acenou alegremente.” Mais tarde soubemos que todo seu corpo estava coberto de hematomas. Mas ela anda por aí e sorri feito um coelhinho de Páscoa. — Schanna Ivanovna depositou a caneca na mesa e olhou ao redor. Todas a tinham escutado com atenção. — Então ela é uma dessas! Com ela ainda teremos muitas aventuras!

Duas noites após a fala de Schanna, Stella juntou-se à sua nova tropa. Evidentemente como vingança pela morte dos três oficiais alemães a artilha­ria italiana submeteu as posições soviéticas a uma verdadeira chuva de grani­zo, com granadas e mais granadas. Tratava-se apenas de duas armas leves, de 7,5cm, mas o fogo rasteiro bastava para manter todos alerta nas trincheiras. Os trenós, que costumavam trazer todas as noites víveres e novos soldados, fica­vam atrás do batalhão. Fora necessário colocar em campo pessoas que buscas­sem comida. Isto muitas vezes era um comando de morte — carregados com panelas ou com uma lata de zinco amarrada as costas os indicados, geralmente voluntários, corriam céleres pelas trincheiras ou pelo campo aberto, de volta para as cozinhas de campanha, a fim de buscar provisões para si e seus camara­das. Duas vezes pelo inferno, pulando de funil para funil. . . deitar-se. . . espe­rar o barulho surdo das granadas. . . a explosão. . . depois mais adiante, mais adiante. . . até que o barulho sobre si de novo escurecia e escurecia e só um pulo para o funil oferecia a última escapatória. Já tinham desenvolvido um sentido aguçado para isso e, pensando na velha sabedoria da frente, que num mesmo buraco jamais caía uma segunda granada, se jogavam nos buracos recém-abertos, ainda quentes.

Buscar comida era uma corrida com a morte. E algumas vezes essecam­peonato era perdido.

Quatro moças, que por volta das 3:00, com suas latas de provisões às costas, esgueiravam-se de volta para os abrigos, trouxeram consigo Stella An­tonovna. Quase uma hora ficaram presas na estepe porque a artilharia inimiga se tinha concentrado nessa região. As granadas, de novo e sempre de novo, atingiam a terra, os esguichos de terra irrompiam, os estilhaços quentes, a queimar, varavam a noite e durante segundos os impactos das granadas lampejavam, brilhantes.

Era um tiroteio idiota, um verdadeiro gasto inútil de munição. Além de uma série de buracos no chão a ofensiva nada adiantava. Sim, destruíram um pedaço de trincheira, mas estava desocupado. As moças se agachavam nos abrigos, fitavam as escoras de madeira e o teto e escutavam o ruído seco das granadas.

— Maluquice! — disse Soja Valentinovna Bajda no abrigo de comando. — Que ganham eles com isto? Querem nos mostrar quão fortes são? Ridículo!

Quando o fogo de artilharia diminuía, as moças saíam correndo dos abrigos e ocupavam as trincheiras. Como se fossem homens estavam deitadas atrás de suas metralhadoras, as granadas de mão a seu lado, prontas para atirar, as carabinas com os telescópios de mira empurradas pela murada protetora. Será que eles vêm agora? Atacam? Idiotas. . . a sua artilharia abriu fogo longe demais.

Depois das explosões trovejantes de repente reinou um silêncio total. Ficou tão silencioso, que se podia ouvir a própria respiração e sentir cada bater de dentes nas trincheiras, cada ranger das botas e cada grito como um novo estalo. Miranski corria pelas trincheiras e gritava sem cessar:

— Tudo em ordem? Nenhuma baixa? Tiveram sorte, queridinhas! Cora­gem, coragem!

As moças mal lhe prestavam atenção. Não necessitavam de palavras ani­madoras. Quando sentiam a coronha da espingarda na axila, quando fitavam pelo telescópio de mira, quando o seu dedo indicador, ligeiramente recurvado, pousava no gatilho, elas paravam de sentir.

— Você é a carabina e a carabina é você! — dissera a Coronel Olga Petrovna Rabutina em Veschnjaki. — A carabina é toda a vida de vocês! Vocês não têm coração e não têm sangue. Vocês são um só e único pensamento: morte ao inimigo! Quando a nossa pátria for de novo liberada, vocês serão mu­lheres novamente; então deverão ser mulheres, esta é a sua segunda tarefa! Mas, até então, durmam com sua carabina! Amem-na com todas as suas forças!

De que valiam ali as tolas falas de Miranski?

O Tenente Ugarov estava em sua saliência da trincheira, atrás de uma pesada MG (metralhadora) e fumava, nervosamente, para dentro da mão oca. Ao lado dele Darja Allanovna estava agachada diante da caixa aberta de muni­ções. Ela preparara os cintos com cartuchos, com três caixas de madeira ainda empilhadas, a seu lado. Os soviéticos não tinham falta de munição. Tinham de tudo o suficiente — armas suficientes e pessoas também em número suficien­te. Antes de mais nada, gente — e a amplidão inconcebível do país. Quem po­deria vencer a Rússia? Seria possível vencê-la? Mesmo se alguém atravessasse o Ural, só podia ajoelhar-se e rezar: diante de si estava a Sibéria, é aqui que realmente começa a inconcebilidade desta terra. Quem quer conquistar esta amplidão infinita?

Apesar de Darja Allanovna ter sido designada para manobrar a pesada metralhadora DS 1939, a sua carabina, a M 91/30, com o grande telescópio de mira PE, estava encostada, pronta para ser posta em ação, na parede da trin­cheira. Ela lhe pertencia. Onde estava ela, também estava sua carabina.

— Os apanhadores de comida ainda não estão aqui! — exclamou Miranski.

— Devem estar deitados na estepe.

— Espero que vivos.

— Deveríamos ir lá ver! — sugeriu Ugarov, inteligentemente.

— É exatamente isto que eu ia propor. — Miranski mordeu o lábio infe­rior, olhou para as posições inimigas e cocou o nariz. — O senhor acredita que os italianos atacarão?

— Não! Senão já estariam aqui! Ora, a tática é sempre a mesma. O trator de fogo se adianta, a artilharia mantém tudo em cheque e sob proteção da cortina de granadas a infantaria assalta. — Ugarov apontou para o outro lado. — Mas lá nada se mexe.

— Então o senhor não acredita, Victor Ivanovitsch, que ainda atirará ho­je com a MG? - perguntou Miranski cautelosamente. Era um homem astuto, que para espanto de todos sempre chegava ao alvo mediante rodeios. Também Ugarov caiu na armadilha, sem de nada suspeitar.

— Isto está fora de cogitação, Foma Igorevitsch. Se só agora saíssem das trincheiras, seria verdadeiro suicídio.

— Eu aqui não tenho ordens a dar, a não ser que se trate dos princípios básicos do comunismo. E da disciplina! E com este pensamento, meu caro Ugarov, veio-me à mente a idéia de que o senhor poderia ajudar a camarada Bajda, tão preocupada, ao ir ver o que está acontecendo.

— Isto o senhor poderia ter expressado mais claramente, Miranski. — Ugarov empurrou o capacete de aço, pintado de branco, para a nuca. Está bem. Eu me ocuparei dos apanhadores de comida.

Dez minutos mais tarde o Tenente Ugarov encontrou a tropa na estepe. Eram quatro moças do grupo Bajda, transportando panelas e com latas de zinco nas costas. Estavam agachadas em um grande buraco de granada e se ocu­pavam colocando ataduras em uma camarada ferida. Um estilhaço raspara seu ombro e atingira a lata. A moça estava sentada, com o dólmã aberto a tesoura­das e com um grande pedaço de gaze na ferida, mas mais do que pelos feri­mentos, ela se chateava porque a comida escorrera.

Ugarov deixou-se cair no funil, escorregou pela parede e caiu perto da moça, que não pertencia à unidade. Apesar da mulher usar um grosso casaco acolchoado, via-se que era alta e esguia. Tinha puxado a boina de pele e estava ocupada em retirar uma grossa atadura de sua capa protetora. Na raiz de seus cabelos negros o suor começava a congelar, formando pequenos cristais. Olhos grandes, escuros, fitaram Ugarov com desagrado.

— Seu hipopótamo! — exclamou a linda moça. — O que o senhor está fazendo aqui, chutando sujeira para todos os cantos? O senhor não está vendo que alguém se feriu?!

Ugarov não conseguiu responder nada. Fitava a moça e logo perdoou qualquer palavrão saído daquela boca maravilhosa. Sentia-se queimar diante do olhar daqueles olhos pretos reluzentes. Afastou-se sem proferir uma palavra, olhou em redor e descobriu um segundo rosto desconhecido. Estava cinza-sujo, a boina escorregara para trás, uma mecha de cabelos louros claros caía-lhe sobre a testa.

É ela, sobressaltou-se Ugarov. Esta é Stella Antonovna! É muito mais baixa do que acreditávamos. Sim, de estatura mediana. Quem a vê assim pensa: pois é, uma pessoa inexpressiva. Nem todo mundo pode ser um cisne orgulhoso.

Ugarov foi em sua direção, pousou a mão no capacete e disse com aque­la voz vibrante, de cujo efeito erótico, nas moças, ele estava seguro; mesmo com Soja Valentinovna, a mulher experiente, ela não tinha fracassado:

— Stella Antonovna? É você, não? Logo a reconheci! Que sem-vergonhi­ce do adversário, cumprimentando-a de modo tão pouco amistoso.

— Para o curarmos disto é que estamos aqui, Camarada Tenente! — Sua voz era nítida e clara. Soa como se tivéssemos tocado em uma jarra de prata, pensou Ugarov, encantado. Mas agora, quando uma segunda voz, mais profun­da e quente, começou a falar, atrás da sua nuca, Ugarov estremeceu.

— É difícil ganhar a guerra com homens cujo cérebro sumiu! Qual é a sua função, Camarada Tenente?

Ugarov virou-se. A linda moça de cabelos negros, cuja visão fazia parar a respiração, estava ocupada em limpar as mãos sangrentas em um pedaço de gaze. Também a sua roupa branca de camuflagem tinha manchas de sangue. A moça ferida estava agachada na beira do funil e bebia, aos goles, uma caneca de chá na qual fora dissolvido um medicamento analgésico.

— Eu sou o oficial de ligação entre a unidade feminina especial e o regimento — disse Ugarov. A voz estava pastosa, como se ele tivesse bebido água gelada em demasia.

— Então o senhor não nos tem de dar ordens?

— Antes de mais nada. . . aconselhar. . . — gaguejou Ugarov e sabia que o tinham posto em xeque-mate, inexoravelmente.



— Neste caso seria um bom conselho para o senhor, Camarada Tenente, se retirasse daqui a camarada ferida. — Ela levantou a cabeça e, como Ugarov podia observar, até segurava a respiração, ao espreitar. — O ataque de artilha­ria terminou. Traremos os feridos de volta para o hospital do batalhão! Se nos apressarmos, poderemos estar de novo nas posições de madrugada! — Fitou Ugarov com olhos fogosos. — O senhor gosta de comer peixe, camarada?. . .

— Apaixonadamente. . .

— Já imaginava isto! O senhor tem a mesma expressão estúpida de um badejo!

As moças riram à socapa. Ugarov ficou de rosto vermelho, engoliu tudo que lhe queimava a garganta, foi em direção à moça ferida e a ajudou a se le­vantar. Ela deu um gritinho feito pássaro, mas depois sorriu corajosamente.

Dessa forma Victor Ivanovitsch Ugarov havia conhecido a médica Gali-na Ruslanovna Opalinskaja, que fora convocada para a unidade especial. E na­turalmente não podia nem suspeitar de que com a Opalinskaja uma série de problemas agudos atingiriam as moças.



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