Konsalik b de atalhão Mulheres



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Contudo, tais pensamentos não as fazia esquecer a guerra. Schanna Ivanovna Babajeva foi a primeira que pôde registrar uma nova marca em seu livro de tiros: quando estava há apenas cinco horas da linha mais avançada, viu um inimigo, que estava ocupado em aumentar um buraco de sentinela avançada e agia sem muitas precauções. Era a hora do crepúsculo, os montões de terra voavam pelos ares, de vez em quando surgia uma pá, depois a cabeça, às vezes os ombros. Como uma minhoca o homem se embrenhava no solo congelado.

Schanna Ivanovna observava o rapaz ativo. Pôs a parte de trás de sua cabeça na mira e curvou o indicador no gatilho. Foi o primeiro morto por uma artilheira na região de Tschjertkovo.

Com uma caneca de chá fumegante o tiro certeiro foi registrado no livro. Schanna estava feliz e orgulhosa. Tinha só 18 anos, cachos pequenos e pretos como um carneiro do Karakul, olhos escuros redondos esbugalhados e um verdadeiro rosto de Madona. Nascera em Tompa, um lugarejo no Lago Baikal; lá cuidara de um rebanho de carneiros e teria permanecido pastora toda sua vida, se em Nishnij Angarsk não tivessem ouvido falar dela. Lá, na cidade mais próxima, falava-se de uma pastora de carneiros que atirava em. ursos e águias, raposas e coelhos de neve, de modo a que parecessem ter tido um infarte fulminante. Nenhum buraco no pêlo. . . cada tiro no olho ou no meio da testa; portanto lá, onde a bala não causa danos à pele. Só possuía, entretanto, uma espingarda velhíssima, que herdara do avô, uma arma de retrocesso que qualquer pessoa normal, temerosa de que a bala saísse por trás ao invés de pela frente, não teria segurado mais do que uma única vez.

Buscaram Schanna Ivanovna — nesta época tinha 14 anos e não sabia ler nem escrever — levando-a para Nishnij Angarsk. Observaram como atirava em um alvo e a enviaram a Irkutsk. Lá, ao perceberem seu incrível talento, puseram-na em um internato e em três anos fizeram dela uma pessoa excepcionalmente inteligente e a condecoraram com a Ordem dos Artilheiros de Komsomol. Schanna Ivanovna simplesmente acertava em tudo para o que dirigia o cano de sua espingarda. Com apenas 17 anos, enviaram-na finalmen­te para Moscou, para a escola central de artilheiros femininos em Veschnjaki — não havia honra maior.

Em Veschnjaki encontrou as outras moças — Marianka, Lida e Darja. Elas se exercitavam no pátio da caserna, carregavam pesadas mochilas de linho em marchas violentas, de quebrar os ossos, embaixo de sol ou de nevascas; aprenderam a se camuflar e se enfiar terra adentro, a se transformar em arbustos, a trepar em árvores e se tornar invisíveis nos ramos; aprenderam a afundar nos pantanais e só respirar por tubos de cana — nada lhes foi poupado. Assim como para os homens das unidades de elite foi-lhes exigida uma disciplina militar férrea; tornaram-se exímias em lutas corpo a corpo, e cumpriam missões solitárias com uma coragem fria como gelo, que superava qual­quer pensamento; transformaram-se em criaturas que esqueciam sua humani­dade no momento exato em que uma cabeça surgia na cruz reticulada de seu telescópio de mira.

Quando receberam seus uniformes de campo e iam ser enviadas para a frente, a comandante da escola central fez um breve discurso:

— Vocês chegaram aqui como mocinhas tolas e agora são verdadeiras guerreiras! — gritou a Coronel Olga Petrovna Rabutina com uma voz clara, semelhante a uma trombeta. — Guerreiras disciplinadas, entusiastas, tempera­das a aço, física e psiquicamente! Vocês estão preparadas para executar qual­quer ordem da pátria! A pátria deposita suas esperanças em vocês! À vitória!

Sim, elas estavam todas muito orgulhosas. Receberam os livros de tiros, pequenos livros de aparência inofensiva, que podiam ser guardados na bolsa, com muitas páginas em branco, que desafiavam a ambição das proprietárias.

Um livro da morte registrada. Um livro de bolso da ausência de piedade, do matar frio; um livro que era dedicado à arte de acertar a bala exatamente na raiz do nariz, fazendo um buraco.

Um registro de sangue e lágrimas e morte rápida em segundos.

Elas eram capazes de atirar de qualquer posição e com qualquer iluminação. Moças jovens, alegres, bonitas nos uniformes cor de terra, que agora eram enviadas para a frente. Eram amigas e juraram ficar juntas, se possível, e matar muitos alemães. As que tinham recebido as melhores avaliações cedo formaram um pequeno grupo e se apresentaram à Capitoa Soja Valentinovna Bajda e ao seu formoso Victor Ivanovitsch: Marianka Stepanovna Dudovska-ja, Schanna Ivanovna Babajeva, Darja Allanovna Klujeva, Dda Hjanovna Se-lenko.

Elas eram as melhores de sua turma. Mas já em Veschnjaki se murmura­va que ainda havia um verdadeiro gênio de artilharia, uma tecelã da Ucrânia, de 20 anos de idade, um verdadeiro diabinho, diziam. Quando os alemães in­vadiram a Ucrânia, tinha-se deitado em florestas e cavernas; junto com nove homens tinha feito voar pelos ares as ruas, assaltado caminhões da retaguar­da alemã, colocado minas, incendiado armazéns de provisões, aniquilado tro­pas de espia que procuravam guerrilheiros e transformado depósitos de gaso­lina em imensas tochas.

Era uma das poucas que possuía um livro de tiros ao chegar a Moscou. Com 24 tiros documentados. Também já tinha a condecoração pela coragem. Mas tudo isso eram boatos. Ninguém a tinha visto ou falado com ela, não fazia parte da última turma em Veschnjaki; muitas moças não levavam a sério essas histórias e julgavam que a mulher só fora inventada para animar a tropa. Mesmo quando se soube o seu nome, permaneceram céticas. Afinal de contas, o que é um nome?

Como se chamava a camarada da Ucrânia? Stella Antonovna Korolenkaja?

Se ela realmente existir, certamente logo ouviremos algo a seu respeito.

O nome foi rapidamente esquecido — o dia-a-dia da frente prendia a atenção das moças. A Capitoa Soja Valentinovna tivera uma idéia, a respeito da qual riram gostosamente, embora se tratasse de um jogo perigoso com a morte. Mas durante a tediosa espera pela grande ofensiva a vir, era uma distração que excitava os nervos.

— Escutem! — disse certo dia a normalmente tão severa Bajda. — Essa história de ficar rolando por aí, sem nada fazer, não funciona. . . Vocês fu­ram o céu com o olhar, pensam. . . bem, não vou dar nomes aos bois. . . e só por acaso vocês vêem um inimigo e podem demonstrar o que aprenderam. E isso vai continuar assim? Não, penso que devemos tomar alguma iniciativa. Não podemos atacar, as ordens são muito severas, mas podemos cuidar de organizar alguma confusão. — Ela olhou a seu redor, no círculo das moças, e pestanejou algumas vezes. Ficou realmente alegre, a Soja Valentinovna usual­mente tão dura. Sua idéia parecia entusiasmá-la. — Diante de nós, na terra de ninguém, jazem, como vocês sabem, nove observadores inimigos. Geralmente trata-se de dois soldados em um buraco. Eu podia pensar que até seria agradá­vel olhá-los mais de perto...

As moças riram às escondidas. O que a Bajda quer dizer com isso?

— Explique melhor, camarada. O que quer dizer “olhá-los mais de perto”? Devemos esgueirar-nos para junto das sentinelas e liquidá-las?

— Amanhã vem uma tropa com alto-falantes — disse Soja Valentinovna. — Camaradas da divisão de propaganda. E ao pensar nisso, tive repentinamen­te a idéia. Escutem. . .

Em outro abrigo o Tenente Ugarov e o Comissário Foma Igorevitsch Miranski estavam agachados perto de uma mesa fabricada com tábuas toscas e jogavam xadrez. Há quase uma hora fitavam as peças e não conseguiam ir adiante. Era de desesperar.

— Isto não me agrada nada — falou Ugarov repentinamente.

— Também sou desta opinião. Vamos interromper o jogo — concordou Miranski.

— Não estou falando deste jogo imbecil. — Ugarov apoiou-se na parede de terra. — Penso no plano maluco de Soja.

— Ela tem um plano? — perguntou Miranski perplexo. — Que plano? Eu sou o responsável pelos planejamentos!

— Ela quer seqüestrar homens. . . — respondeu Ugarov, sombrio. Miranski esqueceu que seus joelhos estavam por baixo da mesa, estre­meceu e virou o jogo de xadrez.

— Estou escutando direito? — gritou espantado. — Victor Ivanovitsch, o senhor andou bebendo demais?

— Ela quer furtar homens. Simplesmente surrupiá-los. . .

— Onde? — gaguejou Miranski fora de si. — Ela enlouqueceu?

— Lá fora. Na terra de ninguém.

— O senhor está febril, meu caro Ugarov — Miranski olhou com pieda­de para o tenente. — Deite-se, estire os membros e beba uma caneca de chá. E transpire bastante. Nada como os velhos remédios caseiros! A minha vovozinha foi curada de difteria em criança, quando a obrigaram a beber a sua pró­pria urina.

Ugarov fitou Miranski com um olhar torturado e sacudiu a cabeça.

Mas compreenda, Foma Igorevitsch: Soja quer seqüestrar as sentinelas avançadas do inimigo. . .

— Simplesmente levá-las consigo? — perguntou Miranski, como se falas­se com um doido varrido, perigoso, que só pudesse ser domado pela calma, para que não tivesse um ataque. — Colocar os homenzinhos no bolso, não é? Levar uma sacola e entulhá-los nela. É muito simples, né? O que o espanta nis­to, Victor Ivanovitsch?

— Entendo a sua ironia, Foma Igorevitsch. Mas Soja está levando esse plano a sério. Ela quer esvaziar os buracos de sentinelas. Silenciosamente e sem derramar sangue! Os homens devem ter simplesmente desaparecido, quando vierem outros para os render.

— Mas isto é pura idiotice! — berrou Miranski, indignado, batendo com os punhos nas coxas e tossindo excitado.

— Soja quer seduzir os homens.

— Com quê? Talvez queira untar suas calças com mel?

— É mais ou menos isto, Foma Igorevitsch. Seja sincero: o senhor também não ficaria chocado, se de repente surgissem duas moças na sua frente, abrissem a blusa, por um só momento informativo, e murmurassem ternamente: “mio caro”!

— Murmurar o quê? — perguntou Miranski ofegante, abalado com toda aquela história.

— Talvez também caro mio. . . eu lá sei! Os italianos estão na nossa fren­te. Soja pensa que este mio caro com um olhar para os peitos é suficiente para fazer sumir todas as idéias belicistas. Antes que os homens se tenham recupe­rado do espanto, receberão, pensa Soja, um golpe na cabeça e serão apanhados.

— Apanhados como? — perguntou Miranski. Seus olhos piscavam ner­vosos.

— Os surpreendidos serão trazidos para cá.

— Para cá? Aqui?

— É isto.

— Não, não é isto! — berrou Miranski, fora de si. — O que vamos fazer com italianos seduzidos pelas mamas?!

— Eles serão prisioneiros de guerra comuns, Foma Igorevitsch. Serão transportados para outro lugar. Segundo a opinião de Soja, a confusão do outro lado será imensa. Nenhum combate, nenhum tiro, nenhum rastro. . . serão considerados desertores! Isto vai causar desavenças e um imenso quebra-cabe­ça. A moral será minada.

Miranski sacudiu a cabeça. Uma puta doida varrida, esta Soja, pensou. Por que tenho de suportar isto, por que sou tão duramente castigado? O que fiz a Deus, que ele me faz cuidar de 239 fêmeas?

— Não existem prisioneiros — murmurou ele e suspirou fundo. — Não pode haver prisioneiros, Victor Ivanovitsch. Estou-lhe confiando, porque o se­nhor dorme na cama com Soja e com isto pode me ajudar muito: tenho or­dens de não fazer prisioneiros! Nenhum dos que encontrarem as nossas camaradas deve permanecer vivo! O Ukas é cristalino: uma divisão de artilharia não deixa atrás nenhum sobrevivente!

O Tenente Ugarov fitou Miranski, sério.

— Posso dizer isto a Soja Valentinovna?

— Aí não lhe dou nenhum conselho. Isto o senhor deve saber, Victor.

— Portanto nossa missão só reza matar!

— Pensei que o senhor soubesse disso. Estamos em guerra e devemos executar o que de nós esperam. Temos de eliminar o adversário e liberar a pátria. Todos podem fazer prisioneiros, Ugarov. . . só nós não! — Miranski abaixou-se e recolocou as peças no tabuleiro de xadrez. — Com isto o plano da Camarada Bajda é recusado.

Quase no mesmo instante Soja Valentinovna dizia, no abrigo vizinho, às moças escolhidas:

— Sempre irão quatro. Duas camufladas e com arma como defesa, duas de saia e blusa. Vocês sentirão frio, minhas caras, mas o êxito vale alguma tremedeira.

Nesta noite foram seqüestrados os dois segundos-cabos Luigj Tarnozzi e Salvatore Uganti.

Miranski dormia profundamente e sem de nada desconfiar no seu catre, depois de ter admoestado longamente Soja Valentinovna. Ela acenara com a cabeça e dissera:

— Isto faz sentido, camada comissário!

Miranski ficara tranqüilo e satisfeito.

O Tenente Ugarov estava sentado, contrito, no abrigo de comando, quando as quatro moças se esgueiraram para a terra de ninguém. Teve de suportar ser xingado pela sua querida Soitschka: um covarde, uma panela enferrujada, um galo envelhecido.

— Ele irá mandar puni-la! — lamentou-se. — Todos nós conhecemos Fo­ma Igorevitsch! É um imbecil vaidoso! Ele nunca a perdoará. . .

Por volta das 2:00 as quatro artilheiras arrastavam os dois prisioneiros italianos ao longo das trincheiras em direção ao abrigo de comando.

Fora tão fácil dominar os dois rapazes. Quando Darja abriu a blusa, ficaram petrificados em seu buraco e só a fitavam, sem nada compreender. Dei­xaram-se abater com um golpe na nuca feito bezerros idiotas.

O que se faz com dois prisioneiros que não se pode ter?

Foma Igorevitsch dormia o sono do satisfeito, mas ai!, quando ele acordasse e em sua ronda de todas as manhãs, pelas posições, se deparasse com os dois italianos! Naturalmente iria berrar, era seu pleno direito, mas o que viria depois? Responsável, naturalmente, era Soja Valentinovna Bajda; para ela o seqüestro de sentinelas não era apenas uma idéia maluca mas também uma medição de forças com o comissário. Entre os dois havia uma rivalidade secreta, desde há muito, exatamente falando, desde o momento em que Miranski tinha assumido a supervisão política da unidade especial feminina, se plantara diante das mulheres curiosas e proclamara em brados:

— A seção de escolarização política lhes dá as boas-vindas! Não basta encontrar a viseira e a ponta, mas cada tiro também deve ser acompanhado de amor à pátria! Coragem sem entusiasmo comunista é como limonada sem açúcar! E o que é isso? Água sem gosto! Vocês querem ser água insossa? Eu vim para entusiasmá-las ao combate!

— Ih! — chiou então a Capitoa Bajda. — O que foi que nos colaram na saia! Olhem para o homenzinho. E isto deve nos entusiasmar. . . um rato se-bento desses!

Já dissemos: Miranski teria preferido, mil vezes, trocar aquelas mulheres por um número igual de diabos e certamente ter-se-ia sentido melhor. Acontecesse o que acontecesse, onde quer que estivessem, na retaguarda, na frente, em Stalingrado ou agora na estepe perto do Don, sempre Miranski sentia que esbarrava contra uma parede de borracha, quando tinha de lidar com Soja Valentinovna. E sempre tinha de lidar com ela, diariamente, a cada hora, sempre. . . Bastava que Foma abrisse a boca e a Capitoa Bajda o fitava, como se ele estivesse cuspindo caroços de girassol contra o seu peito.

Mas hoje até Soja tinha sérias preocupações. Os dois prisioneiros foram levados para o abrigo do segundo trem e lá colocados no chão. Tiraram-lhe os capacetes e lhes abriram os uniformes sobre o peito. Ainda estavam incons­cientes e pareciam dormir — dois rapazes jovens com cachos negros e rostos infantis.

— Amanha” cedo, quando o camarada comissário acordar, eles já deverão ter desaparecido! — disse Soja Valentinovna com voz entrecortada. — Vocês foram corajosas, cumpriram maravilhosamente sua missão, provaram que nada pode impedi-las! Com isto o desafio terminou!

Ela acenou ligeiramente, ainda lançou um olhar para os dois vultos inconscientes e saiu do abrigo. Lá fora, no frio cortante, estava o Tenente Ugarov torcendo as mãos.

— Eles precisam ir para a retaguarda rápido! — disse excitado. — Imedia­tamente! Quanto mais depressa, melhor. Leve-os para o trem, aí então estare­mos livres deles.

— Hoje não vem mais nenhum trenó. — Soja esticou o pescoço e fitou a estepe ampla. — Só amanhã. . .

— Isto redundará numa catástrofe! Não podemos esconder os dois durante um dia inteiro!

— Não. Isto não é possível. — Bajda empurrou para a frente o lábio inferior. No boné de pele, que lhe emoldurava o rosto, brilhavam cristais pequeníssimos. O frio fizera o rosto avermelhar-se, os olhos ligeiramente enviesados miravam Ugarov. No seu olhar estavam ternura e frieza. Victor Ivanovitsch ter-se-ia deixado estraçalhar para agradar a essa mulher.

— O que será deles? — perguntou Ugarov, meio impotente.

— E eu lá sei? — Soja Valentinovna o abraçou e acenou para o seu abri­go. — Vamos, meu ursinho. . .

Ugarov fincou as pernas na neve congelada. Do abrigo do grupo II ecoa­vam risos alegres, nos quais repentinamente se misturaram os tons da bajan, um pequeno acordeão de botões. Era uma canção ligeira, que Ugarov conhecia por acaso. Era cantada nas longas noites frias de inverno, quando as pessoas se sentavam ao lado do fogão farfalhante de tijolos ou em redor de uma mesa no canto do quarto, onde o ar quente se acumulava. Uma canção que lembrava a primavera, as primeiras flores, a água fresca dos riachos, o calor desejado do sol. “Mocinha, levanta a tua sainha — dança com as pernas nuas — és alegre como um beija-flor — que beija os primeiros botões flori­dos. . .”

— O que é isto? — gaguejou Ugarov. — Elas endoideceram agora por completo?

— É Marianka — respondeu a Bajda, pondo a mão no ombro de Ugarov. — Venha logo. Está fazendo frio.

— Por acaso estão cantando uma cançãozinha para os prisioneiros?

— E o que me interessa isso?

— Amanhã cedo eles têm de estar longe! — berrou Ugarov e afastou bruscamente a mão de Soja. — Miranski vai dar parte de mim também!

Todos temiam essas notificações para o regimento e para a divisão. Os acusados eram chamados para se apresentar, muitas discussões não havia. Todas as infrações das normas eram consideradas atentados contra a moral de combate e eram registradas nos documentos. Também podia-se ser degradado ou enviado para regiões menos tranqüilas. Ou então recebia-se, como sanção, a missão de se juntar aos guerrilheiros atrás das linhas inimigas na região de Orscha-Mogjlev-Gomel e de sabotar os reforços alemães. Tudo isso agradava pouco a Ugarov. Ele não tinha ambição de se tornar herói. Estar na frente de batalha lhe bastava. Considerava-se um felizardo porque eram exatamente os italianos os seus adversários imediatos e não uma divisão totalmente alemã ou até uma brigada SS. Além disso a diversão diária nos braços macios de Soja era um favor que não poderia esperar ter em nenhuma outra frente. Tudo isso estava em jogo, quando Miranski acordasse e visse os dois prisioneiros. A sua boca fumegaria, espumante, de raiva; já tinham vivenciado isto várias vezes. Foma Igorevitsch podia ficar tão enfurecido, que todos pensavam: agora ele vai cair! Pode ter um colapso. Mas Miranski era um camarada duro, mesmo que não o parecesse.

— Amanhã cedo terão desaparecido — disse a Bajda quase consoladora.

— Como, se não vem mais nenhum trenó!

— Para que precisamos de um trenó? Venha logo, o frio me fura os ossos!

Ugarov vacilou, ficou á espreita e ainda escutava os tons da bajan. Durante um momento teve a idéia de dar uma olhadela no abrigo, para se convencer do estado dos dois prisioneiros. Mas Soja Valentinovna o acossava de­masiado, beijava-o nos olhos e puxava-o pelas calças, e contra tal argumento ele não tinha mais resposta. Afastou-se e a seguiu para o abrigo de comando com a pesada porta de madeira, à prova de som. O calor que o pequeno fogão redondo de ferro irradiava era como uma parede que se precisava quebrar. Soja retirou o boné de pele e o casaco, enxugou o rosto congelado com uma toalha e depois se livrou do restante de seu vestuário. Quando ela estava com­pletamente nua e o seu corpinho branco, maravilhoso, de formas bem arre­dondadas o seduziu, o sangue subiu à cabeça de Ugarov — e não só para este local — e por instantes esqueceu os dois italianos.

Isto foi o melhor que poderia ter acontecido a Ugarov, pois se ele quisesse executar conscienciosamente sua missão, teria de usar um chicote ou até puxar sua pistola. O que acontecia no abrigo do trem n° 2 já não era tolerável, mesmo com a interpretação mais liberal do espaço decisório que lhe pertencia na qualidade de oficial controlador da unidade feminina especial.

Luigi Tarnozzi e Salvatore Uganti eram amigos desde a infância”. Tinham nascido no mesmo povoado — Sorvanola, na Calábria — cresceram juntos em terrível miséria e aprenderam, depois dos primeiros passos independentes, que a vida era só uma luta amarga para encher a barriga, e que o direito de existir tinha de ser reconquistado eternamente em uma campanha incessante contra os ricos, os que tinham bens materiais, contra os funcionários e a polícia. Aos nove anos de idade foram presos pela primeira vez, porque tinham rouba­do toda a bagagem de turistas ingleses que acampavam na orla do povoado de Sorvanola. Com 12 anos desprezaram a escola e se mandaram para as mon­tanhas. Mais tarde trabalharam em uma pedreira; acreditaram depois que na cidade de Reggio estava a chave da felicidade, fundaram lá uma quadrilha de ladrões e desapareceram mais duas vezes atrás das portas da prisão; depois se filiaram — como sempre juntos — ao Partido Fascista e passaram a usar orgu­lhosos suas camisas pretas. Quando a guerra os chamou, tiveram a grande sor­te de ir para a mesma companhia e agora o destino quis que também fossem seqüestrados juntos no seu buraco de sentinela.

Acordaram porque a água fria, que lhes foi jogada sobre as cabeças, sus­citou um choque nos seus corpos. Levantaram-se de um golpe, olharam atôni­tos em redor e só compreenderam onde estavam ao ver os uniformes soviéti­cos. Instintivamente levantaram os braços para se render.

Risos alegres caíram sobre eles. Muitas mãos os seguraram, rasgaram os casacos dos uniformes, pegaram seus cabelos. Empurraram suas cabeças para trás e deixaram cair sobre seus rostos, em cheio, o clarão da lanterna de querosene. Tarnozzi e Uganti piscaram na luz. Moças! Diacho, eram moças! De repente apareceram diante do buraco de sentinela, abriram a blusa. . . mamma mia, tudo se podia esperar na linha de frente, mas não isto, ser acossado por peitos nus. Onde estavam agora? Prisioneiros das mulheres? Em um abrigo russo? Madonna, o que será de nós?

Fitaram as moças com os olhos arregalados de medo, essas moças que formavam um círculo ao redor deles e pairavam agitadas. Uma mulheraça gorducha ajoelhou-se diante deles, puxou, com força, as suas camisas do corpo e sorriu para eles, ironicamente, com seu rosto largo, asiático.

— Vejam só, como são bonitos! — gritou Naila Tahirovna, enquanto acariciava o rosto de Uganti. — Como são jovens e fortes! Devemos deixar uma coisa assim estragar-se? Desde criança me inculcaram: nenhum leite é tão azedo que não possa ser bebido! Olhem para isto! — Com dedos ágeis desabotoou a calça de Tarnozzi, puxou-a um pouco para baixo e colocou a mão larga e firme sobre seu abdômen. — Ha, aí bate como um moinho de martelos! O corpo de Tarnozzi entrou em convulsão. O terror surgiu dentro dele e o estrangulou. Uganti sentia algo parecido; de repente cruzou as mãos dian­te do peito nu.

— Por favor. . . — pediu em italiano. — Por favor. . . - E depois em ale­mão, pois ouvira dizer que muitos russos compreendiam alemão: — Por fa­vor. . . nós soldados coitados. . . não matar. . . nós felizes. . . a guerra mixou. . . por favor. . .

Schanna Ivanovna agachou-se diante dele e o mirou com olhos a queimar. Ao lado dela ajoelhava-se Lida. Ela havia estudado, cinco semestres de odondologia em Odessa, e sabia bem alemão. Estava no aperfeiçoamento da Osoaviachim, da Sociedade para Fomento da Defesa, quando os alemães conquistaram Odessa. Lida, como boa artilheira já condecorada com a medalha Artilheira Voroschilov, matara a tiros 19 alemães em luta corpo a corpo e foi, como todas suas camaradas, levada para a escola central em Veschnjaki. Não havia nada — desde pular de pára-quedas até lutar contra tanques blin­dados — que Lida não soubesse fazer.



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