Konsalik b de atalhão Mulheres



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— Mas já que a gente tem de ser engolida, então o lugar mais lindo é Novo Calga.

— Esse filósofo é um idiota!

— Nós queremos viver aqui. — disse Piotr, com voz firme. A sua decisão visivelmente impressionava Caschlev. — Em alguns anos tudo isto vai mudar. O progresso nos atingirá também.

— Aha! Você é um bom comunista?

— Sou.


— Um crente? Um que está pendurado nos lábios de Lenin?

— Naturalmente.

— Então vir para Novo Calga foi uma boa idéia — disse Caschlev, sarcástico. — Escolha um pedaço de taiga e a cultive com as palavras de Lenin. Estou curioso em saber como você vai conseguir batatas assim.

O bom Caschlev ainda viveu dois anos e observou a família Salnikov. Não conseguia parar de admirá-los. Continuava a respeitá-los, quando estava à morte e ninguém conseguia salvá-lo do câncer da próstata. Pois o hospital mais próximo com um cirurgião ficava em Jakutsk, e quem poderia pagar o transporte até lá? O Dr. Semaschko aliviava-lhe as dores o quanto podia. Nessa ocasião Caschlev disse a Piotr:

— Isto aqui é assim, como você pode ver. É proibido adoecer, porque aí você fica como uma árvore carcomida, que tomba. Quero dizer, não adoecer seriamente. Viljam Matvejevitsch pode abrandar algumas dorezinhas e também filhos a gente pode ter aqui sem complicações. Mas quando no seu corpo cresce algo estranho e estrangula sua vida, um tumor desgraçado desses, você está perdido aqui. Afinal de contas, tive sorte, cheguei aos 79 anos. Isto é alguma coisa. — Olhou para Salnikov e sorriu. — Nunca me arrependi de ter dado terras a vocês. O que vocês delas fizeram nestes dois anos! Era um prazer observá-los. Agora Stella está grávida. Não me desaponte, Piotr. Tem de ser um menino!

Assim transcorrera tudo que naquele dia de maio de 1946 ainda não parecia tão esperançoso. Certo, a guerra fora ganha, a Alemanha de Hitler inteiramente destroçada, as tropas soviéticas faziam paradas militares em Berlim. Para Piotr foi uma época horrível. Cada dia ficava diante do rádio, acompanhado de Stella, e escutava as últimas notícias da emissora de Jakutsk, ouvia os comentários, no cinema via os filmes da marcha triunfal sobre Ber­lim, as imensas filas de prisioneiros, os inimagináveis campos em ruínas, que tinham sido outrora as cidades alemãs, centenas de milhares de pessoas famintas. E depois as fotografias dos campos de concentração, que paralisavam seu coração, as montanhas de cadáveres, os libertados — esqueletos cobertos de pele — as câmaras de gás, os fornos onde tinham sido queimadas as vítimas. Escutou números quase inacreditáveis, mas ao ver as montanhas de cabelos cortados e de dentes de ouro arrancados, o pavor se apoderou dele e podia compreender que o mundo estremecia de horror.

— Ninguém vai acreditar que o povo, em sua maioria, não sabia disso — dissera Piotr, certa vez. — Como é possível explicar isso, depois dessas fotografias? Ninguém mais vai dar crédito aos alemães.

— Você não é alemão — respondera Stella. — Você é Piotr Herrmanno­vitsch Salnikov. Ajudante de guarda-florestal da Brigada de Agronomia Lena I. — E ela procurava música no rádio e sempre desligava o alto-falante, quando Piotr ficava sentado diante da pequena caixa e escutava as notícias.

— Por quê? — defendeu-se algumas vezes. — Eu quero saber o que está acontecendo na Alemanha.

— Para você o importante é o que está acontecendo aqui na Sibéria. Você vive aqui, não em Berlim!



Aí foi bom terem ouvido falar de Novo Calga, e assim decidiram, depois de três anos de peregrinação pela terra imensa, lá cultivar seu próprio jardim.

Inicialmente Nikita Djitsch Caschlev ainda hesitara. Mas aí Salnikov fez algo que sempre o ajudara, com todas as autoridades, em todas as negociações. Algo que era mais convincente que palavras e argumentos. Sob o olhar horrorizado de Caschlev deixou cair as calças, puxou a cueca para cima e mostrou-lhe a coxa esquerda.

O buraco de carne impressionava, as grossas cicatrizes imediatamente evocavam forte simpatia. Que ferida fora essa! Como devia ter sofrido!

— Os fascistas! — exclamou Stella Antonovna, enquanto Piotr punha sua perna na posição certa, para que pudessem vê-la bem. — Até nisso é necessário pensar, ao falar com Piotr Herrmannovitsch.

Caschlev ficou impressionado. Apertou a mão do corajoso veterano e assinou um contrato de arrendamento de um lindo pedaço da taiga, que agora se transformava na pátria dos Salnikovs.

Quando Nikita Djitsch morreu, Piotr já era caçador do serviço público. Controlava a criação de castores e cuidava para que os iacutos não depredassem excessivamente a reserva de martas, zibelinas, raposas e coelhos de neve. Os ursos eram poupados, mas os lobos eram caçados, onde quer que fossem vistos, porque não tinham piedade de nenhuma rena, o bicho domesticado da taiga.

Como sovjet do povoado foi nomeado Sinovjej Tofikovitsch Ivinin, um homem magérrimo, do qual o Dr. Semaschko afirmava que aproveitava triplamente tudo e poderia até, se fosse possível prepará-lo a gosto, comer a sua própria merda.

Ivinin viera da cidade sede do município, Mirny, onde a administração da região do Viljui superior se instalara, que já afirmava há muito tempo ser necessário, depois de cem anos de incesto, Novo Calga receber finalmente um Starosta estranho. A sua posição era difícil. Ainda era considerado um estrangeiro — mas conseguiu a simpatia de Stella Antonovna por meio de uma boa ação: cuidou de que ela recebesse um tear de Jakutsk e pudesse fundar uma tecelagem própria.

O filho de Piotr, Gamsat, nascera, um menino forte, e ele fora, imediatamente após o parto, supervisionado pelo Dr. Semaschko, para o túmulo do velho Caschlev e lhe dissera:

— Nikita Iljitsch, é um menino!

Depois disso não choveu na região durante uma semana, o sol brilhava, a névoa se levantava dos pântanos e Stella disse:

— Olhem só como Nikita no céu se alegra...

Também fora Ivinin quem, 1950, procurara Stella Antonovna na tecelagem e lhe dissera:

— Tenho uma boa encomenda para você. Minhas relações com o Partido, hein? É preciso ter boas relações, senão a vida não passa de um eterno dar voltas. Tais encomendas são distribuídas às escondidas! Você é capaz de tecer suspensórios?

— Tiras das quais se podem fazer suspensórios.

— Foi isso que eu quis dizer. Você fornece as tiras e eles fabricarão os suspensórios para os trabalhadores. Suspensórios de luxo! Já recebi três máquinas de costura. E mais quatro estão por chegar.

— Isto é uma tarefa gigantesca, Sinovjej Tofikovitsch! — Stella o fitou atônita. — De quantos metros de tiras o senhor necessita?

— Mil. 10mil, eu sei lá?

- Então tenho de empregar moças, construir uma fábrica. Também vou precisar de novos teares. E antes de mais nada, a matéria-prima!

— Disto eu cuidarei! — exclamou Ivinin em tom de convicção. — Temos aí nove alfaiates e eu pensei que seria melhor empregá-los assim do que para cortar lenha e fabricar tábuas.

— Quem?

Ivinin fez um ar de mistério, curvou-se sobre Stella, olhou fundo no decote dela e mais uma vez apreciou suas belas formas femininas. Desde o nascimento de Gamsat, ela possuía um belo par de seios, em virtude dos quais todos invejavam Piotr, porque ele era o único que podia desfrutá-lo.



— Você conhece Dhanuga? — perguntou Ivinin baixinho, como se estivesse revelando um segredo.

— Não.


— Nem poderia! Dhanuga não figura em mapa algum. Na realidade, não passa de um número de registro. Dhanuga é constituída de 24 barracas com uma alta cerca em volta e nove torres de observação. Prisioneiros alemães, ou, melhor dizendo, criminosos fascistas. Todos condenados à prisão perpétua ou pelo menos a 15 anos. Construíram uma serralheria própria. E sim, têm alfaiates no campo, que não estão suficientemente ocupados. Mas também possuem o Major Meteljev. Ha, um camarada brioso. E o que faz Meteljev? Cria a idéia dos suspensórios, obtém licença do comando central e este lhe diz: “Tudo bem, pode fazer, mas você se vira para ver onde arranja a matéria-prima.” E agora tudo cai sobre mim.

— Como, sobre o senhor? — perguntou Stella Antonovna. Mas pensou em Piotr. Um campo de prisioneiros alemães próximo de nós? Por que o passado nos alcança de novo? Será que a própria Sibéria não é suficientemente grande?

— O Major Meteljev viu uma de suas tiras, Stella. Dei-lha de presente para enfeitar a parede. É preciso agradar aos amigos! E o que diz Meteljev? “Mas isto é lindo! Este motivo de Jakutsk. Esta beleza. E coisas assim vocês fabricam? Ha, é possível fazer algo com isto. Isto não pode mofar na floresta.” Assim chegamos aos suspensórios, que Meteljev quer enviar às metrópoles. Os alfaiates alemães os costurarão!

Stella Antonovna julgou ser prudente não contar nada a Piotr. Por enquanto tudo não passava de um plano do Major Meteljev e do magérrimo Ivinin. Mas falou com o Dr. Semaschko e lhe perguntou se conhecia o campo de prisioneiros.

— Não! — respondeu Viljam Matyejevitsch, espantado. — Um campo de prisioneiros? Mas isto os iacutos deveriam saber. Uma coisa assim acaba de boca em boca. E se possuem uma serralheria própria, então o campo já deve existir há alguns anos. Isto é interessante.

O inverno chegou, as novas máquinas foram fornecidas, o grande salão de produção, construído com troncos redondos, ao estilo das cabanas, ficara pronto, até a matéria-prima — linho e lã em muitas cores — viera, o que todos consideraram um milagre e aumentou o respeito que tinham por Ivinin. A produção começou. A mercadoria pronta foi empilhada até a primavera, para ter um estoque e manter ocupados os alfaiates alemães.

Depois do degelo viajaram, em um caminhão cheio de pacotes de tecidos, inicialmente para Mirny, onde o Major Meteljev os esperava. Piotr Herrmannovitsch viera junto. Só agora soubera para que finalidade as tiras tinham sido tecidas. Ficou completamente tranqüilo ao saber da história.

— Uma vez você me disse: Você tem de ser Salnikov. Stella, eu o sou. Você ainda sente medo?

— Sim, sinto.

— Quase oito anos após? Depois que nasceu nosso Gamsat?

— Quem ama sempre tem medo — respondeu ela, singelamente.

Não falaram mais a respeito. E ninguém percebeu o quanto Piotr pensava nesse acampamento. A guerra já terminara há cinco anos, e ainda havia prisioneiros de guerra. Eram denominados “criminosos de guerra condenados em juízo”. Piotr não conseguia entender por que não podiam cumprir pena em prisões normais e sim aqui na Sibéria, em um campo de que ninguém jamais ouvira falar.

O Major Meteljev cumprimentou-os amistosamente; estava cheio de elogios pelo trabalho de Stella e, à guisa de surpresa, contou que dariam um almoço festivo no acampamento, em homenagem a ela. Ele lá reinava como um pequeno rei: dono irrestrito de mais de 1.100 prisioneiros alemães e 200 soldados do Exército Vermelho como guardas.

— Ele é um soldado humano! — murmurou Ivinin, ao ouvido de Piotr, quando viajavam para o acampamento. — Esses fascistas são todos uns criminosos mas ele os trata humanamente. Um campo-modelo! Você vai ver: teremos um serviço como em um hotel. Os garçons até estão vestidos de paletós brancos. Sim, sim, a Central em Sverdlovsk está muito longe.

Salnikov movimentou a cabeça, mudo. Mas o seu sangue cada vez ficava mais inquieto.

Viram o acampamento só por fora: altas paliçadas de madeira, as torres das sentinelas, o grande portão. Estava fechado. Nenhum comando externo trabalhava fora da parede de madeira — só se escutava a música incessante, que trovejava o dia todo sobre as barracas, saída de grandes alto-falantes.

A sede do comando ficava diante do acampamento, tinha uma base de pedra e fora pintada de marrom-claro. Um jovem tenente os cumprimentou brioso, e depois o Major Meteljev, galante, conduziu Stella, levando-a para dentro da casa. Piotr estava colado nela; sentia necessidade da presença de Stella para poder resistir bem a esse dia.

Em uma sala ampla a mesa estava coberta com uma toalha branca, em cima se via louça de porcelana, os copos de vinho brilhavam; chegaram a colocar flores no centro.

Realmente, uma mesa festiva.

Piotr não levantou os olhos. Junto às paredes estavam, de pé, os serviçais — como dissera Ivinin, em paletós de linho branco. Prisioneiros de guerra alemães. Os que ali estavam não pareciam famintos nem amargurados, mas afinal de contas eram os privilegiados, os que tiveram sorte. Que aparência teriam os condenados atrás da parede de madeira?

Nove oficiais soviéticos se puseram em posição de sentido, quando o Major Meteljev entrou no recinto. Tinham-se postado atrás das respectivas cadeiras.

E também três alemães estavam diante da mesa, em uniformes limpos, mas sem insígnias.

Piotr e Stella o viram quase no mesmo instante e também ele os reconheceu logo que entraram. No seu rosto nenhum músculo se moveu, o seu olhar manteve-se curioso mas neutro. Estava quase na extremidade da mesa, alto, esbelto, um pouco mais magro que dantes. Mas o seu lindo cabelo continuava louro.

O Major Meteljev era um anfitrião exemplar. Apresentou Stella aos outros convidados. Foram de um para outro e se cumprimentaram. Também os alemães foram apresentados e fizeram uma curta mesura.

Médico do Estado-Maior, Dr. Schmude. Médico-Superior, Dr. Heilkamp, médico auxiliar Ursbach. . .

— São os melhores médicos que jamais encontrei na minha vida! — exclamou Meteljev satisfeito. — Tenho orgulho do hospital do meu acampamento. Por favor, sentem-se.

Piotr ficou sentado, durante o jantar, diante de Ursbach. Algumas vezes se entreolharam, longamente, falando com os olhos; depois continuaram a comer, beber, brindaram o Exército Vermelho e Stalin e ouviram um conjunto musical, composto de russos e alemães e dirigido por um professor de música alemão.

— Um dia maravilhoso — disse Stella, mais tarde, ao Major Meteljev. — Podemos ver todo o acampamento?

— Infelizmente não. Mas eu posso lhes mostrar a cozinha, o depósito, o quartel dos soldados.

Piotr não os seguiu. Dirigiu-se para o caminhão com as peças de tecelagem e lá encontrou Ursbach, que tivera a mesma ide’ia. Postaram-se um diante do outro, com os braços caídos, apesar de tanto quererem se abraçar.

— Peter. . . — disse Ursbach, rouco. — Meu Deus, é você mesmo!

— Sim, Helge. Sou eu.

— Você fugiu da prisão e agora vive ilegalmente?

— Não. — Ele quase se envergonhou pelo que teria a dizer. — Fui ferido, os russos me pegaram, junto com Stella.

— Eu também a reconheci logo. Stella Antonovna! A estrela do batalhão de mulheres. Isto é incrível.

— E você? O que aconteceu com você?

— Tudo normal. — Helge esboçou um sorriso. — Lida Djanovna, você sabe, a estudante de odontologia, me deixou fugir. Mas eu não consegui passar. As nossas tropas recuavam excessivamente depressa, eu não pude acompanhá-las. Depois me pegaram. Até 1945 foi horrível. Mas depois passei por quatro acampamentos como médico e terminei aqui, já faz um ano.

— Eu vivo perto daqui há quatro anos. Temos uma casa, um bom pedaço de terra, um menino. Chama-se Gamsat. Meu nome é Piotr Herrmannovitsch Salnikov. Meu Deus, é assim que nós nos revemos. O que aconteceu com Li­da, você sabe?

— Ela deve ter entrado em uma selvageria depois da minha partida. Também foi nomeada Heroína da União Soviética e o seu livro registrava 317 tiros, quando a mataram no dia 20 de setembro de 1943 em Crasnogrado. Mais tarde todos os jornais o noticiaram. Eu vi o retrato dela. — Bateu contra o bolso da blusa. — Carrego-o comigo. Sua fotografia, em um envelope. . .

— Você a amou muito, não?

— Sim.

— Então você pode compreender que eu me tornei Salnikov e vivo com Stella?



— Talvez eu não tivesse feito outra coisa, Peter. — Ursbach olhou em volta. Ninguém reparava neles. Estavam inspecionando a cozinha. — Você pretende voltar para a Alemanha. . . algum dia?

— Não. Mas por que você não é libertado? Você foi condenado?

— A 15 anos de prisão. Porque como médico ajudei a manter saudáveis os soldados fascistas invasores. Literalmente. Assim é possível alguém tornar-se um criminoso. Mas o Major Meteljev me disse que no verão irei para Moscou. Este é o trampolim para a pátria. Se eu tiver sorte, no Natal estarei sob uma árvore cristã alemã. Com bolas coloridas, nozes, amêndoas, biscoitos. . . Oh, meu Deus, como se pode sonhar aqui!

— E quando chegar em casa. . . você vai falar a nosso respeito? Do batalhão de mulheres?

— Não sei.

— Ninguém vai acreditar nisso, Helge. Na realidade, é incrível.

— Vou tentar. — Ursbach olhou em direção da cozinha. Stella Antonovna, ao lado do Major Meteljev, caminhava para ver as oficinas. Ela usava uma saia curta, que balançava pelas suas pernas esguias. Seu cabelo louro brilhava feito cobre, ao sol. Era tão linda que Ursbach engoliu em seco. — Mas será que alguém ainda vai se interessar por isso, Peter? O tempo continua passando. Quando eu voltar para casa, a guerra já estará longe, já se tornou história. Quem vai se interessar pelo que aconteceu na estepe, perto de Charkov? Batalhão de mulheres. . . Quem pode conceber uma coisa assim, quando a gente o relata? Quem pode entender que naquela época existiram mulheres que ensinaram a nós, homens, a ter medo, que só de vê-las os cabelos se eriçavam? E como iria descrevê-las? Como heroínas? Ou como uma perversão da guerra? Nunca chegarão a um acordo; e para todos uma carne assada com repolho roxo e batatas será muito mais importante! — Olhou pensativamente para Piotr. — O que você diria?

— Eram moças com os desejos e saudades de todas as moças do mundo. E matavam, cumprindo ordens, para salvaguardar sua pátria. . . como nós, para o Fuehrer e a Alemanha. Tão simples é isto tudo.

— É, tão simples. — Ursbach sacudiu a cabeça, assentindo. — Olhe, estão voltando da inspeção. Não me dê a mão. Adeus, Peter. Boa sorte.

— Para você também. — Piotr engoliu em seco várias vezes. — E se você voltar para casa. . . cumprimente a Alemanha por mim. E. . . deixe-me estar morto. Eu sou o caçador da taiga, Salnikov. Deus o proteja!

— Que você me diga isto é mais que uma bênção! — Ursbach respirou fundo. — Seja sempre feliz, Peter, com Stella Antonovna...

Ele se afastou, deu a volta pelo caminhão, retornando ao comando, e Piotr foi para o outro lado, acenou para Stella e sorriu. Mas quando ela fitou seus olhos, sabia que ele estava chorando por dentro.

Nessa noite conceberam Nani.

Era já manhã clara quando o Dr. Semaschko deixou cair na mesa os apontamentos de Salnikov.

Seus olhos ardiam, seu coração batia forte há horas; várias vezes interrompera a leitura e colocara algumas gotas de água em um copo e as bebera. Stella Antonovna estava sentada no banco do fogão, onde se agachara à noite. Não parecia ter-se mexido. Só agora ele viu que ela havia tirado as botas, não o percebera antes. Ela abrira sobre o peito a veste de montaria de couro, como se tivesse necessitado de ar, de muito ar, nesta noite longa e silenciosa.

Semaschko bateu com o punho no manuscrito grosso, embrulhado em papelão e encostou-se na velha cadeira de vime.

— Quem conhece isto? - perguntou.

— Ninguém. Só você, Viljam Matvejevitsch.

— Por que logo eu?

— Você trouxe Gamsat, você trouxe Nani, você viu Gamsat morrer, você viu Nani morrer, você segurou a mão de Piotr, quando ele morria. Você sempre esteve conosco, em todos os momentos, de felicidade e de sofrimento, não só como médico, mas como amigo e nosso paizinho. Você ficou comigo, à medida que, pouco a pouco, a minha família, o meu pequeno paraíso, foi destroçado. Uma vingança do destino? Quem sabe? Não quero pensar nisso. Mas me diga, agora que leu tudo: foi uma vida bonita ou terrível? Eu fui tão feliz com Piotr. Isso foi um crime? Se foi, então eu era a criminosa mais feliz, que nunca, nunca, nunca, se arrependerá do que fez! Por Deus. . . nunca! Eu o faria uma segunda vez, cem vezes. . . se eu tivesse cem vidas!



— Assim é, minha filhinha. — Semaschko levantou-se da cadeira de vime, foi ao fogão, abriu a portinhola e jogou o grosso manuscrito nas chamas.

Com os olhos arregalados, paralisada de espanto, Stella permaneceu sentada.

— O que você está fazendo? — gaguejou ela.

— Ninguém deve saber o que aconteceu.

— Você está queimando Piotr!

— Mantenho Salnikov vivo! — Semaschko veio para junto de Stella, sentou-se a seu lado no banco e puxou-a para si. — Permanecerá para nós como uma grande figura, nós homens de Novo Calga e no Viljui. Os iacutos, quem sabe?, talvez o cantarão em dias distantes, cantarão a canção do caçador da taiga, Salnikov, que sucumbiu em uma luta honesta contra o maior urso das florestas. Sim, também se lerá, nos livros escolares, como já há 30 anos, a respeito da heroína Korolenkaja e todos se orgulharão, pela sua vida e luta. Por que lhes roubar esta felicidade? A verdade é tão importante?

A cabeça de Stella caiu contra o peito de Semaschko.

— Está tudo tão perto — respondeu baixinho e com voz infantil. — Papaizinho, tenho medo novamente.

Ele a acariciou, puxou-lhe a cabeça para junto da sua, beijou-lhe os cabelos louros, agora já permeados de mechas grisalhas, e a ninou como uma criança, que se deseja que durma.

— Não precisa ter medo, filhinha — disse, com voz de consolo. — Você ainda tem um pedaço de caminho pela frente. Ande ereta, Stella. O que aconteceu. . . bem, esta vida é da conta de alguém? E ainda: ninguém vai acreditar nesta história.


***


* Medida russa antiga, que eqüivale a 1,067km. (N. do T.)

* Equivalente a padre na religião ortodoxa russa. (N. do T.)

* Expletivo russo. (N. do T.)

* “Hesslich” em alemão soa como “Haesslich”, que significa feio. (N. da T.)

* Sinal de advertência no Antigo Testamento. (N. da T.)

* Significa ameixa e serve também para designar o órgão sexual feminino. (N. da T.)

* Verso infantil alemão. (N. da T.)



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