Konsalik b de atalhão Mulheres



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Na parede mais comprida, rodeados de coroas e bandeiras, iluminados por quatro holofotes, estavam pendurados os quadros dos heróis do Exército Vermelho. As fotografias dos homenageados com uma breve explicação de seus feitos.

Foi mais do que um golpe, o que atingiu Stella Antonovna. Seu coração parou, sua respiração falhou. . . Ela caiu contra Piotr, que estava atrás dela, e imediatamente a segurou e a manteve de pé, e com muita presença de espírito puxou mais para baixo o lenço de cabeça.

Também ele, no mesmo instante, vira a grande fotografia, com uma moldura dourada, rodeado de lauréis, de cartas e ordens do dia de generais:

“— Stella Antonovna Korolenkaja.

Heroína da União Soviética. Portadora da Ordem deSuvorov e da Ordem de Voroschilov. Heroina da Ordem da Bandeira Vermelha.

Ela foi a melhor fuzileiro da frente sul. Matou 349 fascistas; em muitos ataques era sempre a primeira. Participou, como comandante, no combate heróico da cabeça-de-ponte de Melechovo. O Camarada Generalissimo Stalin nomeou-a Heroína da União Soviética. Não pôde mais receber esta elevada distinção. Os fascistas a mataram em um contra-ataque no dia 11 de agosto de 1943 na linha férrea de Stara Slatino.

Para todos que vierem depois dela permanecerá para sempre um modelo. Os heróis do povo jamais serão esquecidos!”

Nas ordens do dia dos generais não constavam outros fatos, elas apenas eram mais explícitas. Apenas o General Conjev escrevera: “Gostava dela como se fosse minha filha.”

— Vem — chamou Piotr baixinho. — Vem. . .

Ela fez um sinal com a cabeça e deixou-se guiar para fora como uma cega. Nem conseguia compreender que ainda tivesse pernas que a sustentassem, que ainda tivesse ossos e músculos. Apenas lá fora, na rua, sob o sol quente, rodeada pelos ruídos e sons dos automóveis, dos bondes e ao ver as muitas pessoas que passeavam, tranqüilas, ela parou repentinamente, puxou o lenço de cabeça para cima e se apoiou contra a parede de uma casa.

— Eu estou morta — murmurou em voz quase inaudível. — Estive de pé diante da lápide de meu túmulo. . .

— Você é Stella Antonovna Salnikova, mais nada! Você nunca foi outra pessoa. — Ele se postou diante dela, bem perto, com um medo repentino de que todos os que saíssem da exposição a pudessem reconhecer imediatamente. Mas este receio era infundado, até mesmo a vizinha entusiasmada não reconhecera Stella. Como poderia tê-lo feito? A heroína da União Soviética fora morta, a tiros, pelos alemães, o seu retrato estava pendurado no museu — quem poderia então pensar que ela ainda vivia, passeava por Charkov, que a corajosa vizinha Salnikova com o seu maltratado marido Piotr na realidade era a Korolenkaja morta? Loucura, pensar uma coisa destas.

— Eu fui como uma filha para ele, Conjev escreveu. . . — gaguejou ela. — Piotr, você não conhece Conjev. Você não sabe o que significa Conjev ter escrito uma coisa assim.

— Ela nunca o soube, Stellinka. Foi morta no dia 11 de agosto.

— Eles. . . eles vão dar o meu nome a asilos para a juventude. Escolas do Komsomol. Meu nome vai figurar nos livros escolares. Em cada dia 11 de agosto haverá cerimônias, as crianças cantarão, as bandeiras tremerão. Heroína da União Soviética. . . Oh! Piotr! — A cabeça de Stella caiu contra o peito dele; ela chorava e ele a segurava, cruzando os braços em suas costas e sem proferir uma única palavra, porque era impossível achar palavras para expressar o que ela devia estar sentindo neste momento.

Só depois que ela se recompôs um pouco e enxugou com a mão as lágrimas que corriam por seu rosto, ele disse, com muito cuidado:

— Nós dois ainda não somos nada. Mas agora podemos fazer alguma coisa deste nada. Somos os Salnikovs. Temos até documentos, com minha fotografia. O que mais queremos? Existem milhares que possuem menos. Stella, a nossa vida está começando de forma maravilhosa!

Colocou o braço no ombro de Stella e assim continuaram a andar sob o sol, pelas ruas limpas e pelos parques cheios de gente; passearam por esta cidade linda, destruída e agora novamente florescente, sem rumo; sentaram-se em um resto de parede na beira de um parque e tomaram limonada doce, que era vendida por uma mulher, com uma lata nas costas, aos transeuntes.

Nesta noite não fizeram amor. Stella Antonovna chorou, quase inaudivelmente, até a madrugada. Só quando a luz pálida entrou pela janela sem vidros, ela se virou, procurou Piotr com a mão, adivinhou que ele ficara desperto durante toda a noite, ao lado dela, observando-a, e disse com uma voz comoventemente infantil:

— Desculpe, Piotr! Desculpe! Agora. . . agora tudo passou. O que uma Korolenkaja morta pode interessar a uma Salnikova? Por que motivo devia ela ficar enlutada? Nós dois temos muitas outras coisas a fazer.

Ele acariciou o corpo de Stella e sabia agora que era possível chorar de felicidade.

Durante o mês de outubro choveu quase uma semana, começou a fazer frio, frio demasiado para essa época do ano. Os buracos das janelas foram tampados com tábuas, pois para se conseguir vidraças havia longas filas de espera e cartões de requisição, e como em toda parte — aí não há diferença — os vidros eram distribuídos, em primeiro lugar, às autoridades, às moradias dos oficiais, às sedes do partido, às salas de cultura e às residências de camaradas merecedores. O comandante da estação de trens de carga, o major perneta, fora substituído, quando a administração civil novamente recuperou o governo de Charkov. Agora um funcionário gorducho estava sentado na cadeira do chefe, um Camarada Ivan Semjonovitsch Finupkov, que tinha uma mulher querelante e um filho que perdera um olho no combate de Kirov. Gostou de Stella Antonovna, nomeou-a chefe de grupo e dava todos os cartões de requisição que conseguia arranjar para ela. Tudo era possível obter, desde cuecas até paletós felpudos, bastava pertencer ao grupo dos privilegiados.

Agora, como hospital de repouso, Charkov se tornara um lugar de recuperação para todos os feridos, mais ou menos costurados, que podiam se divertir nesta cidade durante alguns dias ou até semanas, antes de serem novamente enviados para a morte.

Mas agora chovia, os trens de carga com as vitimas da hecatombe se empilhavam na estação, os acampamentos estavam repletos, a administração militar enviava milicianos para requisitar residências para convalescentes, havia uma balbúrdia geral, com xingamentos e maldições, os funcionários administrativos arrancavam os cabelos e berravam para os chefes dos transportes:

Camaradas, não mandem tudo para Charkov! Afinal de contas, ainda existem Voroschilovgrado e Rostov, e no Taganrog também é tão lindo, diretamente diante do mar, um oásis em flor. Por que tudo para Charkov? Tenham piedade!

Stella Antonovna recebeu ordens de ajudar na administração hospitalar, registrar os que necessitavam de repouso e indicar-lhes onde ficar. Diariamente ouvia queixas, palavras grosseiras e palavrões de arrepiar os cabelos, mas Stella retrucava no mesmo tom. Isto impressionava muito.

— A senhora está aqui no lugar certo, camarada! — disse-lhe, elogiosamente, um funcionário administrativo gorducho, com o uniforme de um primeiro-tenente. — Deveríamos cuspir na cara destes covardes!. Até podemos considerar um milagre que não exijam de nós que lhes indiquemos uma putazinha para fazer o serviço!

Na noite que se seguiu a um dia trabalhoso Stella estava na praça da estação e aguardava, sob a marquise, que a chuva diminuísse o suficiente para poder comer para casa, com um pano sobre os ombros e a cabeça. Os pingos grossos ainda bombardeavam o asfalto, o céu era cinzento e sem profundidade, a linda cidade de Charkov parecia deteriorada e sem vida.

Quando alguém a tocou por detrás, ela nem o percebeu direito, porque julgou que se tratava de uma pessoa com pressa, que queria passar por ela. Mas depois um braço encostou no seu ombro, uma mão escorregou pelo seu corpo e se apoiou sobre o seu seio esquerdo. E uma voz, que ela reconheceu imediatamente, disse, em tom zombeteiro:

— Ora vejam, o céu libera os mortos! Não é o que dizem: A Rússia está cheia de milagres? Seja cumprimentada, Stella Antonovna Korolenkaja, Heroína da União Soviética!

Stella se virou lentamente. Como sempre, quando o que importava era manter a calma, apenas sentia frieza. Nada de medo, nada de susto, nenhuma paralisia. A cabeça no reticulado — aí ela estava de novo. . .

O sorriso no rosto de Sibirzev era cruel, seus olhos enviesados faiscavam. Tinha emagrecido; o tiro no estômago não o poupara totalmente.



— Venha comigo, Bairam Vadimovitsch — disse Stella Antonovna, aparentemente sem emoção reconhecível na voz. — Tudo tem seu motivo. Vamos.

Se Sibirzev tivera a esperança de que o seu aparecimento pudesse desequilibrar Stella Antonovna, deve ter-se desapontado, mas ao mesmo tempo, a sua avaliação dessa mulher extraordinária ter-se-ia confirmado. Ele sabia que ela era capaz de se adaptar, com a rapidez de um raio, a qualquer situação, e fazer-lhe frente como se de há muito tempo tivesse se preparado para isso. Ele a admirava honestamente, mesmo que a bílis subisse à sua garganta ao perceber que a Heroína da União Soviética, honrada por todos, uma das mulheres russas com o maior número de condecorações, não morrera sob a trovoada de balas dos alemães, mas continuava vivendo, incógnita, em Charkov.

Quando ele julgou ter descoberto Stella na estação de trem, no meio da multidão, e a seguiu para fora, ainda não tinha certeza de que não se enganara. Bem, ela se parece com a Korolenkaja, tem a mesma postura, também a maneira de andar lembra a outra — diabo, que semelhança! Mas não pode ser mais do que isto. Stella Antonovna morreu, encontraram o seu jipe perfurado pelas balas, o seu livro de tiros, rasgado e sujo de sangue, mas a ela não acharam. Seu cadáver continuou desaparecido; afinal de contas tinham feito buscas durante três dias e chegaram à conclusão de que os alemães deveriam tê-la levado consigo, para enterrá-la feito um cão, em um lugar desconhecido.

Depois, porque queria ter certeza, Sibirzev simplesmente se postou atrás da mulher e falou com ela, chamando-a pelo nome: Stella Antonovna. O fato de que ela não hesitou nem um segundo, nem nada negou; o fato de ter dito calmamente “Vamos, Bairam Vadimovitsch!” o pegou de surpresa. Não havia mais como pedir explicações; ela correu na frente, pela chuva, o pano na cabeça, ele a seguiu, com passos compridos, e ao alcançá-la, fitou-a de lado.

Chegara a Charkov dois dias antes, para repousar por uma semana, depois do seu grave ferimento no estômago. Instalaram-no em uma escola abandonada; sentia-se bem, não ouviu mais nada a respeito da Divisão Bajda e esperava nunca mais ter que voltar àquele grupo de mulheres horríveis. Logo na primeira noite em Charkov procurou uma moça. Isto era fácil, havia um número suficiente de mulheres pobres, famintas, nesta grande cidade, que tinham perdido tudo, menos o seu corpo vistoso. E como Sibirzev acenava com um toucinho e uma latinha de marmelada, logo estava deitado em um colchão rasgado, em um porão sujo e imundo, e pôde se libertar de uma pressão que há muito vinha aumentando.

Em um terreno cheio de ruínas, que ainda não fora limpo, Stella parou e se encostou em uma parede quebrada. Sibirzev, resfolegando, postou-se ao lado dela e olhou em torno, interessado.

— Você mora aqui? — perguntou.

— No porão.

— Como um rato.

— Não posso aspirar a uma casa.

— Naturalmente! Como é que você poderia viver entre outros seres humanos? — ele abriu a boca em um sorriso. — Reconheceriam você por toda parte. Os seus retratos estão em tudo quanto é lugar. O modelo Korolenkaja! E o que é ela, na realidade? Uma desertora! Alguém que abandonou o campo de batalha! Uma miserável covarde! Nada mais do que um rato leproso, fedo­rento! — Bateu um punho contra o outro, a chuva lhe escorria em cascatas sobre o rosto largo. — Vou levar você para o posto de comando! Aqui está ela, direi. A heroína! Agora, sim, tenham orgulho dela! Que festa vai ser!

— É direito seu fazê-lo — respondeu Stella Antonovna bem calma.

— Eu poderia chorar de dor e vergonha! — Sibirzev agarrou-se aos ombros de Stella e puxou-a contra si. — Por que você fez isso, Stellinka? Nós, toda a divisão, a admirávamos! Como ficamos orgulhosos quando você foi nomeada heroína! Todos nós nos sentimos honrados. E quando a luta na frente se tornava dura, quando combatíamos por cada palmo do chão da nossa pátria, muitas vezes pensamos: Agora Stella deve estar conosco! Sim, foi assim que se passou. Você estava sempre conosco, ninguém a esquecia, e assim teria permanecido, se não a tivesse descoberto! Que humilhação para todos nós! O nosso modelo é um desertor!

— É uma longa história, Bairam Vadimovitsch.

— Só há uma coisa que conta: a lealdade à pátria! A libertação da nossa terra! A honra! Você cuspiu em tudo isso. Por quê?

— Nós estamos ficando ensopados — disse ela. — Venha para o porão.

— Você está sozinha?

— Quem poderia estar comigo? Só ratos. Eles pertencem a mim.

Ela foi na frente, alcançou um declive e parou. Por toda parte se viam escombros, tijolos, blocos de cimento e vigas chamuscadas. Um dia dragas e tratores viriam e aplainariam tudo, para construir um novo bloco de casas.

— Chegamos. Vá na frente, você é a visita. Lá embaixo é mais aconchegante que aqui. Tenho até um sofá de veludo vermelho.

Sibirzev concordou. Incrível, como não desconfiou de nada. Provavelmente pensava que Stella chegara à conclusão de que era inútil continuar a se esconder. Mas mal lhe virou as costas, ela puxou um bloco de cimento, cheio de arestas, da terra, levantou-o e arremessou-o com toda a força contra o crânio dele. Os gemidos fortes foram abafados pelo ruído da pedra que se despedaçava. Ele caiu, com o corpo sobre a escada;o sangue escorria-lhe do rosto.

Com os dentes fortemente cerrados e olhos vazios Stella se abaixou, pegou o bloco de cimento e deixou-o cair novamente sobre a cabeça de Sibirzev. Incessantemente se curvava, levantava o bloco e com ele golpeava, até que o rosto tornou-se irreconhecível, uma massa de ossos, miolos e sangue. Depois, com um selvagem tremor pelo corpo todo, puxou o cadáver pelas pernas e lhe deu um pontapé. O morto rolou escada abaixo para o porão e desapareceu na escuridão. Quando e se o encontrassem, não passaria de um esqueleto comido pelos ratos. Ao aplainar o terreno encontrariam tantos mortos desconhecidos nos escombros, que nem valeria a pena juntar os seus restos e enterrá-los. Seriam triturados junto com os remanescentes das casas destruídas.

Piotr Herrmannovitsch estava sentado em casa e à guisa de leitura didática percorria o Pravda de Charkov, que voltara a circular, quando Stella voltou. Ele retirara a faixa em volta da cabeça, e agora só tinha alguns esparadrapos em torno da boca, e isto mesmo para que desculpassem a sua pronúncia. Já compreendia o russo razoavelmente bem, até sabia falar muitas palavras; mas ao conversar com os vizinhos, limitava-se a algumas palavras curtas e grunhidos. Ninguém o levava a mal; compreendiam que teria de aprender a falar de novo. Todos gostavam dele. Na administração ferroviária chegaram a lhe solicitar que entrasse para o quadro. Um camarada inteligente e esforçado como ele, poderia até chegar a ser chefe de serviço. Piotr Herrmannovistch grunhiu um “Veremos!”, mas deixou transparecer que no fundo era um camponês e não um funcionário burocrático.

— Ser funcionário é uma boa vida — disse o chefe do serviço e ofereceu vodca e um Papirossa a Piotr. — Você trabalha sentado em um recinto quentinho, recebe seu salário pontualmente, não suja as mãos e se aposenta sadio! Por acaso um camponês tem tais perspectivas?

Mesmo por causa dos documentos de Stella não houvera muito rebuliço. A administração de Charkov carimbou o requerimento e compreendeu logo que um incêndio em um casebre de camponeses pode levar os ocupantes a perder tudo. Na realidade ainda não havia, em lugar nenhum, atas e registros oficiais, mas aí estava a carteira de identidade de Piotr, bem conservada, o seu rosto combinava com a fotografia — não havia motivo para ser mesquinho. Stella Antonovna recebeu novos documentos; chamava-se oficialmente Salnikova, casada há três anos, profissão: tecelã — isto correspondia à verdade — e por ora vivia em Charkov, perto da estação dos trens de carga. Quando os Salnikovs manifestaram o desejo de voltar para o campo, receberam um novo papel com um par de carimbos, que testemunhava terem obtido licença para residir em outra região.

— Agora somos oficiais! — dissera Piotr satisfeito, ao voltarem da repartição. — A Rússia nos está aberta. Agora só falta a paz.

Piotr levantou os olhos quando Stella Antonovna entrou em casa e se apoiou na porta, pálida e respirando com dificuldade, enquanto a água da chuva escorria pelo seu corpo, como se fosse uma fonte. O seu olhar estava vidrado, passava por Piotr, como se este não existisse, e ela não se mexia, enquanto aos seus pés se formava uma poça d’água.

Piotr deixou de lado o jornal, levantou-se de um salto e buscou uma toalha que estava perto do fogão.

— Deus do céu, como você está! Por que não se abrigou? Tire essas roupas molhadas, Stellinka. Você vai se resfriar!

— Nós temos de ir embora — respondeu ela, com voz soturna. — Logo, Piotr. Ainda hoje!

Ele parou e a fitou atônito.

— O que. . . o que aconteceu?

— Não faça perguntas, Piotr. Temos de ir embora logo.

— Descobriram quem eu sou?

— Não.

— Reconheceram você?



— Não. . . — Pegou a toalha e a amarrou na cabeça molhada. — Não pergunte mais nada! Nós temos de ir embora! Eu não posso mais ficar nesta cidade. Por favor, Piotr, se você me ama! Ainda hoje!

— Durante a noite?! — Ele respirou fundo, de repente mil perguntas lhe passaram pela cabeça, mas as engoliu, porque Stella apelara para o seu amor, a sua confiança.

— Agora mesmo, Piotr!

— Sem nos demitir das nossas posições?

— Sem tudo. Nós simplesmente fomos embora. Por favor, Piotr!

— Amanhã de manhã. . .

— Não posso dormir nem uma hora mais aqui. Oh! Piotr, eu lhe explicarei, prometo. Mas não agora, não aqui! Temos de ir. . .

— Para onde?

— Para o oeste. Sobre o Don, sobre o Volga, para o Ural. Bem longe daqui! — Ela apertou a toalha contra a cabeça, seus olhos imploravam. — A Rússia é tão grande, duas pessoas acharão onde ficar. Viajaremos de trem para Voronesch, e depois, continuando, para Stalinsk, Kuibyschev e Ufa. E depois pa­ra Sverdlovsk. Piotr, lá uma nova vida começará para nós. A Sibéria nos espera.

— Não gosto de pronunciar essa palavra — respondeu Piotr, rouco.

— A Sibéria pode ser maravilhosa.

— Pode! A maioria range os dentes só de ouvir esse nome.

— Isto era em tempos d’antanho, Piotr. A Sibéria é terra virgem. Toda a amplidão nos pertence. E lá ninguém nos conhece.

— Então é isto! — exclamou Piotr, sério. — Há problemas conosco. Você tem medo.

— Tenho — respondeu ela, subitamente muito cansada. Foi até uma cadeira e se sentou. — Precisamos viver onde não existe mais nenhuma Korolenkaja.

— E isto é possível? Quem sabe o que farão com você depois da guerra?

— Na Sibéria é tudo diferente, Piotr. Lá o passado se transforma em um conto de fadas. Lá só o futuro é que conta. Ninguém nos perguntará nada; olharão para as nossas mãos e dirão: Bem-vindos, meus amigos. Vocês têm mãos boas e fortes. E músculos rijos. Seremos bons amigos.

Embrulharam o essencial, não era muito, só dois pequenos sacos de linho repletos. Deixaram a casa, não olharam para trás e foram para a estação. O trem para Voronesch seguiria de madrugada. Sentaram-se em um canto da estação, rodeados de inúmeras pessoas que esperavam, soldados e civis. Quando o trem chegou foi tomado de assalto, com maldições e palavrões, patadas para todos os lados e pontapés; só assim era possível obter um lugar.

Só quando o trem deixou Charkov e passava pela estepe a cor voltou ao rosto de Stella, como se um vaso sangüíneo atrás do outro se abrisse, à medida que se afastavam da cidade. Piotr, sentado perto da janela, olhava para fora com um rosto pétreo. Era a estepe em que o Sargento Hesslich fora declarado desaparecido. E a Quarta Companhia esvaíra-se em sangue. . .

— Nós nos aproximamos cada vez mais do paraíso — disse ela, baixinho. — Nosso paraíso, meu amor.

— Na terra não há paraísos, Stellinka.

— Na Sibéria, sim. Nós construiremos um.

— Ainda teremos de correr muito — respondeu ele sério e afastou o olhar da estepe. À esquerda e à direita da linha do trem ainda estavam as testemunhas da ofensiva soviética: caminhões alemães incendiados, ruínas de tanques, veículos de transporte de tropas. Ainda não havia gente disponível para limpar tudo, o ataque à fronteira alemã era mais importante. — Teremos de correr para muito longe...

— A Sibéria é infinita — disse ela, pondo os braços em torno do pescoço dele. — E nós temos muito tempo, Piotr. Tempo que só pertence a nós.

Em maio de 1946, depois do grande degelo, quando a taiga começou a florescer e por toda parte o verde novo se dissolvia no grande céu azul, uma coluna de transportes, que desejava buscar madeira, surgiu no povoado de Novo Calga, em uma planície do Rio Yayetta. Entre os recém-chegados também estava o casal Salnikov.

Eles olharam em torno, passearam pelo povoado, cumprimentaram polidamente os residentes curiosos e depois se fizeram anunciar ao Sovjet do povoado, que aqui ainda era denominado Starosta, para uma entrevista. Nessa época ainda era o Nikita Djitsch Caschlev, de um cinzento gélido, pronto a agüentar todas as intempéries e sofrendo da próstata, um homem forte, que durante toda a vida nada conhecera além da luta contra a floresta e contra os troncos duros como ferro, um homem que tomava porres com os caçadores iacutos e os nômades, quando entregavam as peles no lugar de reunião, e que, ao mesmo tempo, gerara nove filhos, que também trabalhavam na floresta.

Caschlev inicialmente olhou para Stella Antonovna e achou-a muito bonita. Depois observou Piotr Herrmannovitsch e decidiu não considerá-lo antipático. Em seguida, estudou os documentos que lhe apresentaram. Segundo eles o casal morara quase um ano em Jakutsk; depois um mês em Sjuddjukar, a grande colônia de iacutos. Stella Antonovna trabalhara em uma tecelagem e Piotr na administração florestal. Isto era bom — mas o que significava em Novo Calga?

— E agora? — perguntou Nikita Iljitsch, carrancudo. — O que vocês desejam aqui?

— Nós viemos recomendados. — respondeu Salnikov.

— Uma recomendação do hospício, parece. Quem recomenda Novo Cal­ga só pode ser maluco.

— Nós queremos residir aqui.

— Aqui? Para sempre?

— Se for possível. . .

— Vocês vêm de Jakutsk, o paraíso, e querem mofar em Novo Calga! O que está acontecendo com vocês? Sofrem de alguma doença contagiosa? Vocês são uns patifes desgraçados? Ninguém vem livremente para Novo Calga.

— Mas o senhor também vive aqui, Nikita Iljitsch — ponderou Stella.

— Eu nasci aqui. Por quê? Culpa do meu avô, que o Czar baniu para este inferno. Mas vocês! O mundo é grande.

— Nós nos acostumaremos aqui, camarada.

— E o que desejam fazer?

— Se pudéssemos arrendar um pedaço de terra. . .

— Vocês podem pendurar toda a floresta no pescoço, a administração não vai piar. Céus — Caschlev fez um gesto amplo com a mão — existe uma planta, na qual vocês podem escolher a terra que querem arrendar. Mas antes que eu lhes entregue essa planta, permitam-me perguntar: Vocês têm certeza de que não estão pirados?

— Até agora, não — respondeu Stella Antonovna, sorrindo. — Disseram-nos: a taiga engole todo mundo. Não é possível escapar dela.

— Um filósofo de primeira, quem falou assim — rosnou Caschlev.



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