Konsalik b de atalhão Mulheres



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Tivera uma sorte incrível. O chefe do escritório, um ex-major, que perdera uma perna e sofrera um dano num nervo, o que fazia com que ele, sempre que berrasse, tivesse um espasmo violento no coto, observou com grande empatia o pobre Piotr, com a cabeça enfaixada, que acompanhava a mulher quando esta se apresentou ao camarada chefe, e decidiu, de chofre, admitir Stella no escritório e não nos grupos de transporte de carga. Afinal de contas, a mulher de um camarada torturado merecia consideração especial.

Após a terceira semana, Hesslich também ajudava quando os vagões transportando feridos chegavam a Charkov. Estavam repletos de corpos ensangüentados, muitas vezes não cuidados durante dias; era como uma torrente de gemidos e lamentos, fedor de pus e de fezes.

O avanço dos exércitos soviéticos já não era mais tão impetuoso como alguns dias antes, mas isto foi proposital. Estavam buscando novas reservas do interior. Era necessário preencher as divisões que tinham sofrido baixas, para dar início â grande ofensiva até o Draieper. Desejavam alcançar o rio antes que a parede de Hitler, a “linha Pantera” se tornasse uma nova fortaleza. As notícias vindas dos grupos de guerrilheiros e dos espiões, que chegavam via Suíça, impeliam à pressa.

Os exércitos de von Manstein agora recuavam ordenadamente. O choque do Donez, a derrota da Operação Cidadela, fora superada. No dia 27 de agosto, cinco dias, portanto, após a evacuação de Charkov, Hitler voara para Viniza, sua antiga central de comando, saindo do seu quartel-general em Ras-tenburg. Em Viniza encontrou o Marechal-de-Campo von Manstein, que lhe esboçou a situação, sem nada poupar. Era de anepiar ter de escutar a resposta de Hitler: “Os senhores vão ter de agüentar em todas as frentes, até que o inimigo compreenda a inutilidade de seus ataques!”

A inutilidade? Conjev, atravessando Charkov, avançava; Malinovskij, com sua frente sudoeste e Tolbuchin com sua frente sul estavam de prontidão, com imensas massas de homens, para destroçar o Primeiro Exército Blindado e o Sexto Exército do Grupo A do Marechal-de-Campo von Kleist. A frente oeste com Sokolovskij e a frente de Brjansk, com Popov, tinham derrubado toda a cunha alemã de Orei e agora estavam, também com imensas mas­sas humanas, diante da lendária linha de Hagen, onde o Segundo Exército Blindado e o Nono Exército, sob o comando de Model novamente se tinham detido. A frente do centro de Rokossovskij e a frente do Voronesch de Vatu-tin aguardavam, para derrubar, com quatro exércitos, o miserável e fraco Segundo Exército alemão. Mas Hitler dizia que eles teriam de compreender quão inúteis eram seus ataques.

O que Hitler disse, nesse dia 27 de agosto, ao Marechal-de-Campo von Manstein, ocasionou o rompimento do comandante com aquele homem que se deixava intitular o maior general de todos os tempos. Nem o fato de Hitler lhe prometer novas divisões, que iria retirar da região do meio e do norte, alterou a situação. Manstein sabia que nunca receberia essas reservas.

Não conseguia mais compreender Hitler. A Operação Cidadela redundara em catástrofe. Somente o Grupo do Exército Sul perdera 133 mil homens! Milhares de prisioneiros caminhavam pela estepe em direção oeste.

Um dia mais tarde, em 28 de agosto, o Marechal-de-Campo von Kluge, Comandante do Grupo do Exército do Meio, visitou Hitler e ficou abalado com a notícia de que exatamente ele deveria ceder divisões a Manstein. Procurou mostrar, com a máxima clareza possível, ao seu comandante-em-chefe, a situação desesperada de seus dois exércitos: os soviéticos visavam Smolensk e Jelnja. Brjansk em perigo imediato. Mas o que era mais grave: do lado soviético estavam de prontidão 134 divisões e 187 brigadas de tanques, que ainda não tinham nem participado do conflito! Quando essas massas iniciassem a investida, onde ir com os dois exércitos alemães, nesta ocasião ainda mais enfraquecidos?

E ainda outra coisa importava: na retaguarda da frente alemã agora estavam operando grupos de guerrilheiros com força de divisões. Na região de Orscha-Smolensk eram em número de 11 mil, nos pântanos de Pripjet 26 mil, perto de Brjansk 7.000, entre Vitebsk e Polozk 12 mil. O envio de tropas de reserva era sensivelmente prejudicado, os movimentos das tropas se tornavam mais lentos, vagões com combustível explodiam pelos ares. Só para poder localizar e liquidar os guerrilheiros nas florestas, seriam necessárias algumas divisões; era uma segunda frente! Mas de onde retirá-las? As linhas férreas foram interrompidas ou destruídas 8.422 vezes, 1.478 assaltos a comboios, acampamentos de tropas, depósitos de aprovisionamento, depósitos de munições e até a hospitais mantinham em estado de perene insegurança toda a retaguarda e mobilizavam mais forças de segurança. Como é que Manstein queria mais tropas neste contexto?

Depois de uma pausa para respirar, os exércitos soviéticos voltaram ao ataque. Os alemães perderam Taganrog e Stalino, Brjansk foi recapturada pelos russos. Com o objetivo de salvar todo o flanco sul e poupar vidas humanas, Hitler finalmente evacuou toda a cabeça-de-ponte de Cuban, onde o Décimo Sétimo Exército, inteiro, estava encurralado em uma região mínima.

No dia 9 de setembro começou, com o nome Operação Kriemhild, uma manobra militar que raramente fora vista antes: a evacuação de um exército inteiro sobre o caminho marítimo de Kertsch para a Península Crim! Barcas, guiadas por pioneiros, detectadores de minas e barcos velozes, navios com provisões e outras unidades da Marinha de Guerra conduziram, sob o granizo das bombas dos aviões soviéticos e sob os ataques ininterruptos da frente soviética do Cáucaso Norte sob o comando do General Petrov, que jogava contra o Décimo Sétimo Exército mais de sete exércitos, imensas massas de homens sobre o estreito: 249.669 soldados, entre os quais 50.139 aliados romenos e 28.486 Hiwis, voluntários, isto é, russos que se tinham comprometido a ajudar os alemães, porque deles esperavam a libertação do bolchevismo. 16.311 feridos, 27.456 civis, que desejavam marchar para o ocidente com os alemães, 49.971 veículos de todos os tipos nadavam sobre o caminho de Kertsch, acrescidos de 74. 657 cavalos, 1.815 peças de artilharia, 74 tanques e 6.255 cabeças de gado — vacas, porcos, carneiros. 115.477 toneladas de material foram retiradas, 1.153,8 toneladas de ferramentas — tratava-se de uma retirada de amplitude nunca vista. Um desempenho de mestre, no que se refere à precisão e cooperação de todas as unidades.

Enquanto de dia os exércitos soviéticos acossavam as tropas alemãs, ao cair da noite, no Cuban, na Península Taman, iniciou-se uma ação destrutiva inacreditável: uma unidade de bombardeiros noturnos, o Regimento Aéreo de Guarda de Taman, com o número militar 588, alvejou as posições alemãs e a retirada com bombas. Esses bombardeiros alçavam vôo de 10 a 12 vezes por noite e jogavam a sua carga aniquiladora: três milhões de quilos de bombas destruíram 17 pontes, nove trens de transporte, 26 depósitos de munição e de combustível, 176 caminhões e 86 abrigos alemães.

Para isto foram necessárias 23.672 ações aéreas - e todas foram executadas por mulheres!

As mulheres do Regimento de Bombardeio Noturno n° 588, do Regimento Aéreo de Guarda Taman, receberam as Condecorações Suvorov, da Bandeira Vermelha, e 23 delas se tornaram Heroínas da União Soviética.

A Divisão Bajda recebera um novo comandante, a Capitoa Anaid Gregorjevna Vartanjan, uma moça armênia, calada, baixa, de cabelos pretos e olhos flamejantes, da qual Sibirzev disse logo que ela não queria saber nada de homens e que apenas cinco dias depois já havia tomado como amante a pesada Rusalka, o que Sibirzev qualificou de nauseante. A Divisão Bajda, o orgulho do batalhão de mulheres, fora tirado do seu descanso em Stara Saltov e novamente jogada na frente.

Ela poderia ser útil. Perto de Valki e mais tarde, em Novo Vodolaga o avanço foi detido. Tropas da SS ofereciam ali uma resistência astuciosa. A Di­visão Bajda estava no lugar certo. Com uma calma incrível e sem se impressionar com os contra-ataques da SS, ela apagava os alemães com seus tiros como se estivessem em um campo de exercícios.

— Se Stellinka agora estivesse conosco — disse Sibirzev, triste. — Ou até Soja Valentinovna. Que alegria seria isto para elas. Cabeças da SS! Como seus corações entoariam cantigas de júbilo!

— Pensemos nelas em cada tiro! — respondeu Lida Iljanovna, duramente. — Pensemos em todas nossas camaradas mortas!

Sibirzev concordou, mudo, com um aceno de cabeça, Lida se tornava mais atemorizante dia a dia. Transformara-se em um robô, um Moloch que atirava. Agora já tinha 291 acertos em seu livro de tiros, só contando os diretos. Não havia como determinar quantos ela acertara com sua metralhadora leve, por ocasião dos ataques alemães.

Com a Capitoa Vartanjan, que elevara sua amante ao posto de sargento e de tal modo desdenhava Sibirzev, o único homem da divisão, que nem olhava para ele, se cruzasse seu caminho, não era mais possível conviver. Sibirzev sentia-se inútil, especialmente porque as aulas de política, que eram sua tarefa, foram transformadas peia Vartanjan em alvo de sabotagem. Ela marcava, na mesma hora, outra coisa, por exemplo, uma chamada às armas e isto sempre era mais importante.

Sibirzev livrou-se dela involuntariamente. O destino fez com que fosse alvejado por uma bala alemã. Foi transportado com um buraco no estômago. Algumas das moças até’ chegaram a chorar mas a Vartanjan disse, grosseiramente:

— Ele não vai morrer disto! Um tiro no estômago! Para acertar em cheio em Sibirzev, é preciso visar mais embaixo. Mas temos de temer que uma bala iria ricochetear neste lugar.

Levaram Sibirzev para um hospital de campo, retiraram a bala, costuraram o buraco no estômago e o transportaram para outro lugar. Ele era um sujeito tão resistente, que apenas quatro dias depois da operação ficou à espreita de uma enfermeira no depósito de toalhas e lençóis, levantou-lhe a saia até a cabeça, encostou-a contra a parede e começou a cantar sua canção siberiana:

— A raposa pulou sobre a fêmea. . .

Naturalmente que se falou muito sobre isso e algumas das enfermeiras chegaram a brigar por essa raposa. O que restava a fazer, senão enviar Sibirzev de novo para suas viagens?

Tudo isto se soube em Charkov pelo rádio, pelas ordens do dia que eram afixadas, pelos relatos dos soldados que retornavam e pelos homens, fracos de tanto sangue que tinham perdido, transportados pelos trens de feridos, que chegavam um atrás do outro. O avanço continuou, Charkov se transformou na maior cidade-hospital do sul. Também recomeçaram as peças teatrais, uma orquestra sinfônica deu um concerto, em todos os lugares coros de soldados cantavam, mas, diferentemente da retaguarda alemã, onde empanturrar-se e foder eram as atividades preferidas das horas de lazer, a cidade permaneceu, sob os soviéticos, uma posição de comando militar, eixo da grande ofensiva.

Hesslich, respeitado por todos em vista do que sofrera, retirava os feridos e os transportava para os veículos que se dirigiam aos hospitais. Ele era forte, isto se percebia, e todos lamentavam profundamente que as feridas na cabeça ainda não tivessem sarado. Quando alguém falava com ele, só conseguia inclinar a cabeça. Todos se emocionavam, ele era abraçado, recebia de presente chocolate que fora achado em um depósito de víveres alemão e que na realidade — gente, ainda existiam milagres? — conseguira chegar em um vagão até Charkov.

Certa noite, quando Hesslich mais uma vez descarregava um transporte de feridos, ficou parado, atônito, diante de um oficial soviético. Tratava-se de um tenente, cujas pernas tinham sido arrancadas por uma granada. Ele sobrevivera ao transporte mas todos podiam ver que agora não havia mais salvação possível. Não valia mais a pena levá-lo ao hospital; como se fazia com muitos outros, ele foi colocado de lado, em sua maça, junto com os demais que também morreriam ali mesmo.

Mas não foi isto que fez Hesslich ficar perplexo. O homem que ele agora estava levando para morrer poderia ser, a julgar pelo rosto, o seu próprio irmão. O mesmo formato da cabeça, a mesma cor dos cabelos, o maxilar quase idêntico — até o nariz se assemelhava ao seu; só a boca parecia ser mais larga, mas estava retorcida pela dor.

Hesslich esperou até que os outros ajudantes tivessem voltado para o trem de feridos. Curvou-se sobre o moribundo, apalpou o casaco do uniforme e achou, no bolso interno esquerdo, a carteira de identidade e assustou-se, pois ao olhar a fotografia julgou ver a si mesmo. Depois é que leu o nome e mais uma vez espantou-se com os jogos estranhos do destino.

Piotr Herrmannovitsch Salnikov. Nascido no dia 17 de março de 1920 em. . .

Não conseguiu ler o lugar de nascimento. Estamos muito próximos, irmãozinho, pensou Hesslich, e guardou a identificação. Você é apenas um ano mais novo do que eu, que nasci em 1919. Mas acho que um ano só não vai fazer diferença.

Curvou-se novamente sobre Salnikov e viu que esperaria muito pouco tempo. Enquanto ao seu redor os feridos eram levados para o carro e mais sete maças foram colocadas junto do tenente, ele se agachou ao lado do moribundo e aguardou. Salnikov morreu com um profundo suspiro e olhos bem arregalados, quase espantados, que talvez neste minuto do desaparecimento ainda reconheceram, uma vez mais, nitidamente, o mundo que os cercava.

Hesslich fechou os olhos do falecido e puxou o cobertor sobre o rosto dele. Depois continuou a ajudar a retirar dos vagões os corpos a gemer. Uma outra coluna buscava os mortos e os levava para um caminhão. Se Salnikov não tivesse outros sinais de identificação, seria enterrado como um desconhecido. Um de centenas de milhares que depois seriam declarados desaparecidos.

Ele aguardou, tremendo de impaciência, até que Stella Antonovna tivesse terminado seu serviço. Como sempre, foi buscá-la, cumprimentou amistosamente as colegas dela e a acompanhou, no curto caminho para casa, apoiando-se nela, um hábito, a que se acostumara, como se ainda tivesse dificuldade em andar.

Em casa, depois de ter escutado atrás da porta e olhado algumas vezes para fora da janela, aproximou-se de Stella, na cozinha, onde ela cozinhava uma sopa de repolho, e a abraçou.

— Deixe disso, Piotr. . . — disse ela e continuou a mexer a sopa. — Aggora não. Pensar só niso?

— Tenho o direito. — Ele riu baixinho e beijou a nuca e a penugem, macia como seda, da sua pele. — Você tem um novo amante!

— Bobo.

— Peter Hesslich sumiu. Nunca houve um Peter Hesslich, você nunca o conheceu. Mas agora diante de você está o lindo, forte, querido Piotr Herrmannovitsch Salnikov, em cujos braços você dorme e é feliz.



— Vvocê bebbendo andou! — falou Stella, com um tom de censura. — Commo bebber com faixa?

— Eu sou Salnikov, Stella. — Ele tirou a carteira de identidade do tenente da bolsa e a mostrou a Stella. Ela deu um gritinho, arrancou a carteira das mãos de Piotr e a levantou, com as mãos a tremer, contra a luz das três velas que brilhava na cozinha. Depois virou-se impetuosamente, quase derrubou a panela de sopa do fogão, e fitou Hesslich, aparvalhada.



— De ondde? — gaguejou, fora de si. — Piotr! Quem ddeu pappel a vvocê? — Novamente levantou a carteira contra a luz das velas. — Pappel é real!

— Naturalmente que é verdadeiro, Stellinka!

— Fotto vvocê!

— Assim parece.

— Nasciddo no dia 17 de março de 1920 em Minsk. . .

Stella Antonovna balançou selvagemente a carteira de identidade.

— De ondde? — Podia-se ler o medo em seus olhos. Como é que Piotr arranjara uma carteira de identidade, não falsificada, com o seu próprio retrato? O que mais a confundia era a fotografia. Embaixo do pescoço ainda se via o início da gola do uniforme. — Fotto ondde feita?

— Provavelmente em Minsk. Pjotr Herrmannovitsch Salnikov foi retirado, há quatro horas, por um pobre e maltratado camponês, do vagão hospital na estação dos trens de carga de Charkov, colocado ao lado da plataforma, para aí morrer, e agora jaz, como um morto em campo de batalha, desconhecido, em algum lugar de recolhimento, para ser enterrado com honras militares.

— Isto... isto impossívvel. . . — gaguejou Stella, ainda atônita.

— Exatamente o que eu também pensei quando retirei Salnikov do vagão e olhei para o seu rosto. Meu irmão! Mais parecido não poderia ser! Eu sabia: aqui o destino pôs na minha mão uma vida nova. Então fiquei com sua carteira de identidade. — Retirou o papel dos dedos de Stella e o guardou novamente. — Stella, quem está diante de você é Piotr Herrmannovitsch Salnikov! Finalmente tenho um nome. E sua mulher se chama Stella Antonovna Salnikova. Ninguém irá duvidar disso! Ninguém mais irá fazer perguntas ou nos olhar atravessado. Nós existimos legalmente, Stellinka! Temos um carimbo para nossa nova vida, a coisa mais importante de tudo: um carimbo oficial!

— Mas, e eu?

— Iremos com este papel para a administração, juraremos que os fascistas destruíram tudo o que era nosso e eles fornecerão um novo papel. — Ele bateu com a mão contra o bolso da camisa. — Aqui, a minha identificação é prova suficiente!

— Nós não vvamos cassar então? — perguntou ela, hesitante.

— Nós estamos casados há três anos, Stella. . .

— Certto, Piotr.

— Também aí encontraremos uma saída! — Piotr puxou-a para junto de si, beijou-a, levantou-a e levou-a para a cama.

Ela ria e chorava ao mesmo tempo, cobrindo-o de beijos, apesar da sua boca só encostar na faixa, e dizia, incessantemente:

— Salnikov! Salnikov! Salnikov!

A sopa de repolho com alguns pedaços grandes de carne queimou. Eles só o perceberam quando da cozinha uma fumaça ardente invadiu o quarto. E a panela também se estragara.

Era um domingo de sol, em fins de setembro, e os exércitos soviéticos estavam de prontidão, para atacar Vitebsk, Gomei, Kiev, Dnjepropetrovsk e Saporoshje. Charkov se transformara agora em retaguarda bem afastada e se preparava para uma nova vida, em paz, com uma vontade nunca dantes vista de reconstrução. Stella Antonovna e Piotr Herrmannovitsch Salnikov — assim o chamaremos de agora em diante — foram passear pela cidade limpa. Em toda parte se viam construções, massas de escombros eram retiradas, as ruínas desfeitas, os porões desenterrados. As ruas já estavam livres há muito tempo. Desde uma semana um conjunto de ópera encenava O Príncipe Igor, três bales nacionais dançavam, dois grupos de teatro apresentavam peças de Gogol e Gorki, e do interior a população civil retomava e ocupava novamente a linda cidade. Os encanamentos de água funcionavam novamente, também havia eletricidade e 10 linhas de bonde ligavam uma parte da cidade à outra. Uma divisão do comando superior do Exército, o conselho de guerra da frente, instalara ali um serviço, fora inaugurada uma exposição militar chamada Heróis de Char­kov; ela mostrava fotografias de ataques de tanques Tigres alemães incendiados, bandeiras e estandartes alemães capturados, armas e uniformes. O que mais comovia eram fotografias de crianças, chorando, nas ruínas fumegantes de suas casas, diante das quais estavam estirados os pais mortos, e, à guisa de consolo, também havia um quadro de honra com fotografias dos Heróis da União Soviética, os modelos imortais para todas as gerações vindouras.

— Vamos ver essa exposição — disse Piotr, quando soube da mesma. A vizinha viera toda orgulhosa do Exército Vermelho, depois de visitar este museu da imortalidade, e falara dele a Stella durante quase uma hora.

Njet — respondeu Stella. Ela pegara o braço de Piotr e os dois estavam passeando pela Praça do Teatro. O sol esquentava, ela usava um vestido de algodão, leve, que comprara com os primeiros rublos de seu salário e uma requisição privilegiada, na nova loja central — recém-inaugurada. Também Piotr recebera calças novas e uma camisa azul-claro e finalmente pudera deixar de lado o seu vestuário remendado de camponês. Diminuíra a faixa em volta da cabeça, só tinha agora uma sobre a testa e naturalmente também em volta da boca e do maxilar, para não ter de falar. O seu russo progredia, a pronúncia não lhe causava dificuldade, mas a gramática muita. Até ler já conseguia razoavelmente bem. Stella era uma professora severa; agora só falava russo com ele, exceto quando havia algo importante a discutir, e o obrigava a responder em russo, o que aos ouvidos de Stella soava ainda mais engraçado que a sua própria pronúncia dura e as alterações de sintaxe, que fazia, aos ouvidos de Piotr.

— Por que não devemos ir â exposição? — perguntou Piotr.

— A guerra para nós terminou, meu querido. Você é Salnikov, um camponês.

— Um camponês de Minsk?

— Em torno de Minsk também há camponeses. — Ela falava lentamente, para que ele pudesse traduzir para o alemão. Ele respondia com igual lentidão. Quando não conhecia as palavras, misturava algumas do alemão, que Stella então traduzia e repetia em russo. Assim ele aprendia rápido, mas não deixava de ser algo que demandasse muito esforço.

— Está bem. O camponês Salnikov se interessa pela Grande Guerra Patriótica. Por isso ele quer visitar a exposição.

— Eu não quero nunca mais ouvir falar na guerra.

— Mas Stella, ainda estamos em guerra! E eu tenho medo de que ainda tenhamos guerra nos próximos 100 anos. Que esta guerra nunca termine! Que os homens tenham começado agora, deliberadamente, a se destruir uns aos outros. Que nunca mais teremos paz!

— Para nós sim, Piotr. — Ela se apertou contra ele ao andar e o puxou para a frente, quando ele parou diante da exposição. Bandeiras vermelhas e um grande emblema em ouro — Foice e Martelo — decoravam a entrada. Em cima estava escrito, em letras douradas: Nossos Heróis — lembrados para sempre.

— Stella, isto me atrai magicamente — disse ele com a garganta seca.Quão seguros da vitória vocês russos devem estar, se em Charkov já abrem um museu da guerra, enquanto a luta ainda se processa em torno de Smolensk.

— Você não deveria entrar. Você iria. . . rever os seus mortos. . .

— Todos os dias vejo os transportes de prisioneiros, quando passam por Charkov e param na estação de trens de carga e recebem água, pão e sopa. Milhares de camaradas meus. Meu coração dói quando vejo seus olhos, o seu riso, apesar da fome e da sede, a sua gana de viver: a guerra para nós acabou. Não pode mais ser pior. Um dia voltaremos à pátria. Para onde nos levam agora? Tanto faz! Para um campo qualquer. Se aqui ou no Don ou no Volga ou no Ural ou na Sibéria. Rapazes, isto a gente agüenta como ficar sentado numa fossa. E eu fico ali, olho para eles e não posso dizer-lhes nada. Levo água e sopa para eles e eles gritam para mim: “Ei, Ivan, venha cá. Mais um pouco. Você tem Papirossa? E eu me afasto, mudo. Afinal de contas, sou o camponês Sal­nikov. . . Olhe, Stella, tudo isto é terrivelmente difícil.

— O que é fossa? — perguntou ela.

— Oh, meu Deus. De tudo que falei só isto a impressionou?

— Que é?


— É um buraco no chão, em cima, sobre estacas, um pedaço de pau ou uma tábua fina, e, sentados, caindo no buraco, cus nus de homens. . .

— Você é um porco! — disse ela, ofendida, em russo. Largou o braço dele. — Vá passear sozinho.

— Você queria uma explicação! O que descrevi é uma fossa alemã! — Olhou novamente para a entrada do Museu dos Heróis. — Eu devo ser um bom russo e não entro aqui? Stella, o verdadeiro Salnikov teria agido de outra forma.

Ela hesitou, finalmente concordou e entrou no recinto antes dele. Diante da cabeça, feita de gesso, de um soldado do Exército Vermelho luzia a chama eterna. Embaixo estava escrito, em letras de ouro e bronze: Nós morremos para que vocês pudessem viver. Já essa ante-sala era impressionante. Das paredes, decoradas com bandeiras, os retratos de Lenin e Stalin miravam os visitantes, como para adverti-los.

A Sala dos Heróis era ampla, ordenada de acordo com temas: A batalha do Don. A conquista do Donez. Bjelgorod, o símbolo da advertência. A Operação Cidadela dos alemães. O ataque vitorioso do dia 12 de julho. Charkov libertada. Depois as bandeiras e emblemas capturados, o uniforme de um major-general alemão em uma boneca, metralhadoras e carabinas alemãs, uma Pak, volantes das companhias de propaganda, munições — desde a granada de mão até uma mina, um lançador de chamas alemão, condecorações alemãs, entre as quais havia até uma Cruz de Cavaleiro.



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