Konsalik b de atalhão Mulheres



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Stella Antonovna só o percebeu quando o braço sobre o seu ombro se tornou pesado como chumbo.

Vegetaram cinco dias no pequeno porão de batatas, sempre com medo de serem descobertos. Depois da nova retirada das tropas alemãs e do avanço dos batalhões soviéticos, o povoado destruído foi ocupado, durante um dia, por uma unidade militar. Mas ela só permanecia ao ar livre; afinal de contas, as ruínas, que ainda fumegavam e fediam, eram excessivamente incômodas. Tratava-se de uma companhia de oficina e um depósito móvel, que seguiam as tropas de combatentes para fins de aprovisionamento. Também vinculada a ela estava uma divisão de feridos leves, que começou a limpar a estepe dos cadáveres, e a enterrar, com honras militares, os soldados soviéticos que tinham perecido. Mas não acharam as moças. Sibirzev levara consigo todas as que sucumbiram, na ocasião em que a Divisão Bajda recebeu ordens de recuar para descansar. Nos caminhões, que efetuavam o transporte das moças, também estavam os cadáveres. O comandante local de Stara Saltov, onde repousariam alguns dias, abriu os olhos espantado, quando as moças saíram dos caminhões, retiraram suas camaradas mortas e depois, em formação militar e passo de luto, as levaram consigo. Esta visão era tão deprimente, que ele não fez pergunta alguma e ainda ficou mudo, quando a Divisão Bajda começou, sem ao menos consultá-lo, a instalar um cemitério de heróis, próprio, em Stara Saltov.

De noite Stella Antonovna conseguiu roubar um caixote com legumes em conserva e a caixa de material de enfermagem de um suboficial. O mais importante, porém, foi descobrir que em uma casa vizinha um armário de madeira maciça resistira às granadas e à ruína. Nesse armário estavam dois vestidos, lenços de cabeça e roupa de baixo, e até uma calça de homem estava dependurada em um cabide, assim como uma blusa larga de camponês e um cinto, feito de três cordões de cânhamo enrolados.

Stella levou tudo para o porão e o mostrou a Hesslich.

— Nós muita sortte — disse ela. — Nós camponeses. . . vvocê entende? Nós, por fascistas — ela fez um movimento com a mão — como se diz?

— Fomos esmagados.

— Sim. Esmagados. Você por fascistas batido, ferrido. Você patriota! Grrande dopros. . . O que é dopros? Perrguntas com batter.. .

— Inquérito? — perguntou Hesslich.

— Sim. Inquérrito! Você loggo quebrado. Eu achei vvocê, ccuidar suas ferridas, eu sou sua mulherr. Nós não temos mais casas, temos de ir cidade. Mais segguro cidade. Na cidade, vidda nova. E guerra acabou. . .

— Isto tudo soa muito simples, Stella. Talvez eu fique inválido.

— O que é invaliddo?

— Não ter mais perna, Stella...

— Mesmo com umma perna só vvocê Piotr. . . ou não? — Ela examinou a caixa de enfermagem que roubara. Era uma caixa que o enfermeiro levava para o campo de batalha e continha tudo que ela necessitava agora urgentemente: gaze, esparadrapo, analgésicos, antipiréticos, pomada anti-séptica, pó para feridas, uma tesoura, erinas, alfinetes de segurança, uma faixa para artérias, uma pequena tala dobrável, pinças, compressas e ataduras para queimaduras. — Se eu semm perna. . . eu não mais Stella para você?

— Eu a amo, mesmo que de você só restem os olhos. Ou um dedo. Ou o cabelo. . .

— Por que então perguntar? Quando Charkov livre, nós irremos para lá. Em Charkov nós nadda mais perguntar. Nós pobres Tovarischtschi.

Stella reenfaixou a ferida, sob grandes torturas para Piotr. O ferimento tinha uma aparência horrível; grandes cicatrizes, talvez até um buraco na coxa permaneceriam. Não obstante, Stella gostaria de poder beijar a ferida; pois ela representava a vida para Piotr, o fim da guerra, lho presenteava para toda a vida pela frente, salvara-o do aniquilamento.

Enquanto ela tentava limpar a ferida com algodão e uma pinça, e cortava restos de carne presos só por fios de pele, antes que estes morressem completamente e ocasionassem uma septicemia, Hesslich desmaiou novamente. Ela aproveitou a oportunidade e separou, com uma tesoura, mais restos de carne da ferida, enquanto ele não sentia dor. Perguntava a si mesma como é que isto poderia sarar sem costuras. Piotr deveria ir para uma clinica — mais um motivo para ir a Charkov, logo que o Exército Vermelho expulsasse os alemães da cidade.

Caso houvesse ainda Charkov. . . Qual é a cidade que agüenta ser conquistada três vezes?

Ela pôs um curativo grosso sobre a ferida, que deveria durar por muito tempo e deitou, carinhosamente, a cabeça de Hesslich sobre a bolsa e saiu do esconderijo para fazer o reconhecimento da situação.

A coluna já se fora.

No quarto dia passaram longas filas de veículos, com soldados, munição e material. A artilharia os seguiu, depois vieram unidades de tanques, carroças puxadas por cavalos — e repentinamente a estepe estava ocupada por uma pequena cidade cheia de tendas, um estado-maior se instalou, surgiram carros com rádios. A guerra já se dirigira tanto para o oeste que os comandantes se sentiam suficientemente seguros para instalar ali uma divisão.

Stella Antonovna ousou mostrar-se. De há muito enterrara o uniforme; agora usava vestes camponesas, um lenço de cabeça desbotado sobre os cabelos, botas rasgadas nos pés e não lavava o rosto, para não chamar a atenção. Mesmo assim, a primeira vez que apareceu os soldados a cercaram. Teve de ouvir convites sujos, fizeram-lhe gestos obscenos. Mas isto cedo terminou, pois Stella Antonovna deu um pontapé entre as pernas de um soboficial especialmente atrevido e depois se apresentou ao intendente da divisão, um coronel.

— Camarada — gritou ela sem nenhum preâmbulo — meu marido e eu fomos esmagados pelos alemães, conseguimos resistir na nossa casa, os fascistas nos submeteram a inquéritos, nos torturaram e quase rasgaram o meu pobre Piotr em pedaços. Mas nós ficamos! Pensamos, este é o nosso chão. Não cederemos um metro! E como mo agradecem? Lá fora fazem fila para se deitar sobre mim! Então isto é a libertação?! Nem mesmo os fascistas me tocaram!

Fez um tal escândalo que o coronel saiu, berrou com um oficial ordenança e proibiu, sob pena de um castigo severo, incomodar a camarada camponesa — nem teve tempo de perguntar seu nome.

Stella Antonovna vencera o primeiro obstáculo. Podia se movimentar livremente, reunia provisões, pão e manteiga, até talheres e louça e sapatos novos, ou melhor dizendo, usáveis, para si e Piotr. Recebeu do depósito da divisão camisas e cuecas, também um casaco de lã, que servia mais ou menos e até arranjou material para fazer novos curativos em Piotr.

A divisão permaneceu ali durante quatro dias. No dia 20 de agosto avançou novamente. Stella foi correndo excitada para Hesslich, que estava deitado ao sol. Desde a véspera ele também estava com a cabeça toda enfaixada, incluindo o nariz e a boca. Mas o pano estava frouxo, de modo que podia respirar bem.

— Tem de serr — Stella Antonovna lhe explicara. —Se alguém Cheggar você russo não fala. Boca fechada. . . comprrende? Boca quebrada, nadda di­zer. Torturas dos fascistas. . .

A faixa grande, dramática, na cabeça, junto com as histórias horripilantes contadas por Stella — tudo isso impressionava. Alguns oficiais soviéticos visitaram o pobre Piotr, vítima de torturas; falaram com ele, procurando animá-lo. Hesslich de vez em quando acenava com a cabeça, os oficiais fizeram continência diante dessa vítima da brutalidade alemã, como se ele fosse um herói, e depois levaram Stella consigo. Após três horas, durante as quais Hess­lich sofreu as torturas do inferno diante da incerteza, ela voltou com um carrinho de mão, cujas rodas chiavam, repleto de víveres. Até vinho, vodca, e cigarros estavam lá, e, para o pobre Piotr machucado, até um par de meias. Meias novas, não meias cerzidas. A melhor das mercadorias.

— Vitória diante de Charcov! — gritou Stella, levantando os braços de alegria. — Tanques, de todos os laddos! Exércitos alemães liquiddados. Piotr, Piotr, nós semanna que vem também em Charkov! Vidda nova!

Hesslich possuía uma capacidade de recuperação fora do comum. Mesmo nesses seis dias decorridos o seu ferimento não apresentou maiores problemas. A ferida não se inflamara, não produzia pus, não houve infecção. Só tivera febre durante dois dias, depois o corpo aparentemente não viu mais nenhuma necessidade de se defender. A ferida se cobriu de escaras, permaneceu um buraco na coxa, mas como o osso não fora atingido, Hesslich já andava, mancando, no quinto dia. Não se apoiava mais na arma de Stella — esta havia sido escondida debaixo dos escombros. Agora se segurava, a cada passo, em um pedaço de lança, que ele achara entre as ruínas. Era mais comprido que ele próprio, e ao vê-lo andar assim, um cristão talvez pensasse no barbudo São Cristóvão, que também se apoiava em um grande pedaço de pau. Era uma visão impressionante para aqueles que sabiam quanto mal os alemães tinham feito a Piotr. Arrebentaram-lhe a perna, reduziram a boca a frangalhos! Tudo ao inquiri-lo! Quando Stella o relatava, com voz acusadora e gestos selvagens, todos fitavam o pobre homem e o admiravam. Um patriota. Um herói.

E Hesslich, que nada compreendia do que falavam, só acenava e deixava que lhe apertassem a mão.

As colunas passavam por eles, noite e dia, incessantemente. Estavam sentados nos escombros de sua casa destruída; um casal de camponeses, que só pudera salvar da guerra a vida e nada mais, e esperavam, pacientes, uma nova era.

As divisões alemãs, em desespero, procuravam retirar-se, continuando o combate com os russos. As tropas soviéticas, em um avanço fenomenal, chegaram até Cotelva e Qalki e ameaçavam abrir toda a frente sul alemã. Cinco exércitos empurravam para a frente o Quarto Exército Blindado, até que ao sul da linha férrea, de vital importância, Charkov-Poltava, divisões de tanques da SS puderam deter o Quinto e o Sexto Exércitos de Guarda, que naturalmente, logo deram uma volta e avançaram em cunha, no oeste, para Char­kov. O Oitavo Exército alemão, que estava diretamente na linha de avanço do Sétimo Exército de Guarda e foi pego pelas costas pelo Quadragésimo Sétimo Exército, ocupara as posições de Charkov. Mas não havia dúvida de que não poderiam resistir à Frente da Estepe de Conjev.

Von Manstein clamou inutilmente por reforços. Hitler respondeu: não! Mas, também, de onde retirá-los? Nas costas das tropas alemãs começaram a construir febrilmente. Segundo a vontade de Hitler deveria surgir uma “parede oriental”, a chamada “linha Pantera”, uma posição singular de abrigos desde o Mar do Este até o Mar de Asov. A exigência urgente de von Manstein — evacuar a região do Donez, para evitar mais perdas graves — desta forma só suscitou em Hitler um silêncio obstinado. Era necessário manter a frente do Donez até que a “parede oriental” estivesse pronta.

Era loucura sacrificar centenas de milhares para construir novas fortalezas e posições na retaguarda. Novamente estava em vigor o princípio da decadência lenta — que o mundo vira pela primeira vez em Stalingrado.

Charkov foi evacuada no dia 22 de agosto. Manstein não viu outra possibilidade de salvar seus exércitos. Os soldados vermelhos da frente da estepe de Conjev entraram jubilantes na cidade, sendo cumprimentados com bandeiras, guirlandas, flores, abraços e beijos pela população que saía de porões e buracos. O grande cinturão de segurança, no meio da cidade, fora abandonado. Os soldados vermelhos o ocuparam e festejaram a vitória como se a guerra já estivesse ganha.

Stella Antonovna ouviu a notícia da conquista de Charkov pelo rádio. Também foram lidas ordens do dia do General Conjev e do Marechal Shukov, agradecendo a todos os heróis. Stella soube de tudo que ocorria na frente por intermédio de uma unidade de comunicações que se instalara na estepe, ao lado do povoado.

— Charkov está livre, Piotr! — exclamou ela certa noite. — Hoje grrande dia para nós! Vem conosco! Vvocê ddeve festejar conosco. Afinal de contas vvocê é pobre, ferrido, patriota.

E assim Hesslich ficou sentado, feito múmia, entre os soldados que cantavam e tomavam um porre, chupando vinho por meio de um canudo feito de junco, que fora colocado, por entre sua pesada faixa, na boca, e mexia o tórax ao ritmo da música. Esta era a única maneira pela qual um homem cruelmente torturado, que não pode mais falar e mal pode andar, podia expressar seu entusiasmo.

Os soldados vermelhos tinham pena dele; deram-lhe de presente toucinho, cebolas e torradas e até um saquinho de feijão branco. E se dispuseram a levá-los, a ele e sua mulher, na direção de Charkov, um pedaço do caminho, se é que realmente queriam ir para lá.

— É necessário, caros camaradas — disse Stella Antonovna, acariciando a cabeça de Hesslich. — Só lá poderão curar novamente Piotr, em uma clínica especializada. Ele necessita de bons médicos, senão nunca mais poderá falar.

No dia 25 de agosto viajaram em um carro cheio de caixotes contendo granadas de mão, para Charkov. Os exércitos alemães, depois de terem evacuado a cidade e, em Cotelva, mediante uma desesperada contra-ofensiva, terem jogado para trás o Vigésimo Sétimo Exército soviético, enterraram-se obstinados em uma ampla frente. O Quadragésimo Exército soviético tinha avançado mais do que os outros; já estava em Gadjatsch no Psiol, arrombara a asa esquerda do Grupo do Exército Sul e preocupava muito von Manstein. O marechal ainda aguardava, com o Psiol nas costas, formando uma espécie de fronteira natural, a licença de Hitler, de, em retirada organizada, construir uma nova linha no Dnieper. Com isto seria possível salvar os exércitos, teriam tempo para preenchê-los com homens descansados e reconvalescentes vindos da pátria. A imensa bacia do Donez já não tinha importância para a guerra, fora perdida. Por que então ainda segurar um pedacinho ao custo de tão grandes baixas?

Mas Hitler manteve o seu não. A própria palavra retirada soava para ele como provocação. E se fosse necessário recuar, então somente para poder ganhar novas forças, em uma posição segura, a fim de novamente fazer os russos voltarem para o interior. Mas esta “linha Pantera”, esta nova parede oriental, ainda não fora erigida. É preciso manter a bacia do Donez!

Charkov se tornara o lugar principal de reunião das divisões soviéticas. Ali tudo se detinha, para ali eram dirigidos pessoas e material, com o objetivo de um dia rebentar o flanco sul de Manstein e arrombar suas linhas. Colunas sem fim de caminhões e trens de carga, vieram à cidade, depois que a linha férrea para Bjelgorod fora novamente posta em funcionamento.

Esses transportes podiam operar, sem serem perturbados, dia e noite, já que a Força Aérea alemã praticamente deixara de existir. O que no Kremlim nunca se acreditou ser possível, ocorrera, para espanto geral: A Força Aérea soviética, até então sem importância, dominava o espaço aéreo em toda a divisão do meio e no sul. Isto era uma prova de quão completamente os alemães tinham sido vencidos.

Stella e Piotr chegaram a Charkov de noite. O caminhão em que viajaram foi descarregado diante de uma loja destruída. Estavam sós, abandonados, na rua. Civis e soldados, que por eles passavam rapidamente, não lhes prestavam atenção. E por que o fariam? Aí estava uma mulher camponesa e um homem enfaixado, um pobre camarada, que dava a impressão de que metade da cabeça lhe tinha s,ido arrancada — mas havia muitos feridos em Char­kov, os carros de enfermagem vinham constantemente da frente e descarregavam novos corpos estraçalhados, todas as salas e escolas possíveis estavam lotadas; então por que alguém se deveria preocupar especialmente com Piotr?

O que Stella esperara, acontecera mesmo: tinham afundado na massa humana. A cidade os absorveria, esta cidade da frente, sempre funcionando ou agora funcionando novamente, na qual os alemães há 10 dias ainda encenavam operetas, e onde agora cantavam coros dos exércitos soviéticos, grupos folclóricos do Volga e do Don e até de Alma Ata, entusiasmando os soldados com suas danças populares desinibidas.

— Nós buscar cassa. . . — disse Stella baixinho para Hesslich. — Em porrão ou rruínas. E vvocê aprender russo. Dia e noite!

— De noite também? — perguntou Hesslich. Só os seus olhos apareciam por entre a grossa faixa, e riam.

Stella o mirou com a cabeça ligeiramente inclinada e acenou.

— Noite também. Nadda de amor. Primmeiro vvocê em russo dizerr: Eu a amo. Eu quero com vvocê amor fazzer. Depois amor. . .

— Nunca ninguém aprendeu russo tão depressa como eu — respondeu Hesslich, com a voz abafada. — Rápido, Stella. Como se diz isto?

— Aqui nadda! — Ela segurou Hesslich; afinal de contas ele devia manter a aparência de um inválido. Foi com ele, devagar, através dos bairros destroçados, perguntando, aqui e ali, o caminho, a mulheres que já estavam empenhadas em retirar os escombros, abrir os porões, varrer as escadas, limpar quartos habitáveis, ou pregar tábuas em janelas sem vidraças. Nas bicas de água as filas cresciam, pois os canos em grande parte ficaram danificados. Em muitos quarteirões, especialmente naqueles em que os oficiais alemães e todo o aparato da retaguarda tinham ficado domiciliados, a água saía limpa das tubulações; havia até banheiros com fogões de carvão e ventiladores. Todas admiravam um banheiro que o anterior ocupante alemão mandara decorar com azulejos pintados a mão, representando cenas eróticas.

Stella e Hesslich encontraram uma residência só parcialmente destruída perto da estação de trens de carga. Não era exatamente um bairro elegante, mas admiravelmente bem situado, para poderem, se houvesse necessidade, esconder-se no terreno entre os vagões e os trilhos ou até fugir de Charkov em um trem de carga. A residência só tinha uma única janela mas a água saía dos canos, e em toda parte ainda havia garrafas com velas. Uma mulher, que ocupara o domicílio vizinho, contou que ali morara um batalhão de transporte alemão. As pessoas que originalmente tinham residido nesse lugar tinham sumido: um casal, que recuara com as tropas soviéticas por ocasião da primeira ocupação de Charkov por uma divisão SS. Quem sabe onde estariam morando agora? Talvez tivessem sido vítimas dos Stukas alemães.

Hesslich examinou a moradia e encontrou, no quarto de banho, onde também havia uma privada, um dito, escrito com giz vermelho na parede pintada:



E o piolho sentado escuta

Como a urina escorre e borbulha.

— Ficaremos aqui! - disse Hesslich e abraçou Stella. — Isto soa até como se eu estivesse em casa.

— Por causa da escrita na parede?

— Também.

Ela leu o dito, seus lábios se movimentavam ao tentar traduzir, mas depois deu de ombros.

— É poesia?

— Mais ou menos.

— Poesia bonitta? O que é piolho?

— Sacanagem.

— Não bom?!



— Questão de gosto. Para um soldado raso metido na lama pode ser uma poesia que o anime. Aí muitas coisas mudam de valor. Stella, ficaremos aqui!

— Sim.


Mais uma vez passaram, de mãos dadas, pelos dois quartos; alegraram-se com as três cadeiras e a mesa, o armário e as quatro camas de madeira, que os soldados alemães tinham deixado; em um armário sobre o fogão de ferro, alimentado a carvão, acharam quatro pratos, quatro xícaras e quatro talheres, quatro canecas e seis copos, e sobre os estrados das camas havia colchões verdadeiros com cobertores.

— Isto é mais do que se poderia esperar! — exclamou Hesslich. — Stella, a vida nova já nos presenteia. Agora só preciso me livrar das faixas para poder trabalhar. Aqui ninguém nos dará um pedaço de pão de graça como os soldados lá fora na estepe.

— Prrimeiro vvocê aprender russo. Depois trabalho.

— Eu nunca poderei falar como um russo, Stella — ponderou ele, pesaroso. — Sempre perceberão: este não pertence a nós.

— Vvocê dizer, eu venho de longe, Sibéria. Taiga. . . Casaquistão. . . Sim, Casaquistão. Lá muitos alemão são russos. Começamos amanhã.

— E depois, Stella?

— Ah! Por causa noite.

— Você consegue dizer isto de modo tão maravilhosamente simples.

— Devo! Sei poucco alemão. — Ela se sentou, em uma das cadeiras, perto da janela, e olhou para a rua, que terminava na estação de trens de carga, e para os numerosos caminhões, que recebiam o material dos vagões e o levavam para a cidade. Esta moradia é boa, pensou. Ajudarei na estação de trem. Arranjarei trabalho, onde quer que necessitem de mim. Meus documentos se incendiaram com a minha casa, e se alguém duvidar disso, mostrarei Piotr. A sua aparência os convencerá. Para que tenho boca? Não é para falar?

— O que há, Stella? — perguntou Hesslich. Chegou-se para perto dela e também olhou para a rua.

— Nadda, Piotr. Vidda será bonitta. — Ela procurou a mão de Hesslich, segurou-a e encostou a cabeça na coxa dele. Seus dedos pareciam frios, apesar dos dois terem suado, antes, no calor abafado da noite. — Se Voina termina, nadda de mattar. Paz em todo lugar. Vvocê volta pátria?

Hesslich esperara e temera esta pergunta. Ela exigia que decidisse, agora, a respeito de toda a sua vida futura. Ficar na Rússia? Tornar-se russo? Esquecer de onde se veio em algum lugar deste país imenso e nele morar? Seria possível? Ou esperar, observar o desenrolar dos acontecimentos políticos e depois voltar para a Alemanha? Talvez fosse possível levar Stella consigo; por que o proibiriam?, então já seria tempo de paz, e os povos deveriam ter aprendido, com esta guerra, a pior de todas que já existiu, o que significa amizade, irmandade e colaboração para o bem da humanidade.

— Ficarei com você, Stella — respondeu, em tom brusco. — Você salvou a minha vida.

— Só por causa disso?

— Não. Eu a amo.

— Mais que pátria?

— Sim.

— Vvocê nadda de mentir?



— Não, não estou mentindo. Mas eu não sei se poderei me tornar um verdadeiro russo.

— Vvocê meu homem, isto basta. — Ela beijou-lhe a mão, antes que Piotr a pudesse retirar, embaraçado, e esfregou o rosto no lugar do beijo. — Obrigada, Piotr, obrigada.

Apesar de terem à disposição quatro camas, dormiram juntos em uma só. Pela primeira vez estavam deitados um ao lado do outro, completamente nus. Era uma sensação divina.

— Vvocê tem de apprender russo — murmurou Stella, apoiada no peito de Hesslich. — Foi condição. Escutta: Eu te amo, se diz. . .

Ja ljublju tebja. . . — disse ele e a acariciou. — Ty prekrasnaja. . . pozelui menja. — (Você é linda. Me beije.)

Stella mordeu-lhe o peito e aplicou-lhe um golpe no ombro com o punho.

— De onde vvocê sabbe? Seu diabbo? Vvocê sabbe russo!

Ele riu, apertou-a contra si e ao mesmo tempo teve de sufocar a dor; a ferida da coxa ainda incomodava.

— Isto é praticamente tudo que sei em russo — respondeu. - Em Posen, no treinamento especial, tínhamos um sargento no grupo que falava russo perfeitamente. “Quando vocês chegarem à Rússia” nos aconselhou, “então bastam alguns conhecimentos básicos, algumas frases serão suficientes. Com estas vocês se viram por toda a parte.” E o que eu acabei de falar também fazia parte do que ele ensinou. — Beijou os olhos de Stella. — Falei direito? Ja ljublju tebja. . .

Ela não respondeu; escorregou em cima dele cuidadosamente, para não machucar-lhe a perna ferida, e só emitiu um soluço profundo, abafado, ao senti-lo dentro de si, quando sua cabeça caiu sobre o pescoço dele e tempo e espaço perderam o significado. De bem longe, só um ruído leve, o vento da noite trouxe o troar da guerra pela sua janela sem vidros. A respiração dos dois era mais forte e os envolvia como música.

Após três semanas a coxa de Hesslich sarara tão bem que ele já podia andar normalmente, sem bengala ou apoio e sem ataques de fraqueza. A sua “saúde de ferro” vencera. Claro, um buraco rodeado de feias cicatrizes ficou na coxa, com uma nova pele ainda cor-de-rosa, mas com isto podia-se viver, era um cartão de visitas da guerra.

Mas com a língua russa Hesslich ainda tinha dificuldades. Por isso, teve de continuar usando a faixa na cabeça e bancar o mudo, mas já acompanhava Stella até a estação dos trens de carga, divisão contabilidade, onde a tinham empregado como funcionária.



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