Konsalik b de atalhão Mulheres



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PARTE

QUATRO


Uma vez mais, por uma única noite, um pequeno grupo de soldados alemães teve êxito e conseguiu penetrar na ofensiva soviética.

Quatro Tigre, cinco Pantera, e um Ferdinando, apoiados pela artilharia de campo e principalmente pela temida Flak quádrupla, acompanhados pela infantaria e pelos pioneiros, atacaram as pontas de assalto soviéticas, com o objetivo de manter livre a linha férrea para Charkov e libertar uma unidade encurralada perto de Casatschja Lopan.

Esse assalto foi tão súbito que chegou a confundir os russos durante uma noite. Ninguém mais contava que os soldados alemães, miseráveis e exauridos, ainda tivessem forças para avançar e conquistar terreno. Agora, de súbito, estavam ali com um brio quase enigmático; sua artilharia castigava com um fogo preciso os batalhões soviéticos da vanguarda, as pesadas granadas do Ferdinando fizeram voar pelos ares duas divisões de artilharia. Depois vieram os Tigre e Pantera, cuspindo fogo por todos os canos, seguidos da Flak quá­drupla, que imediatamente entrava em ação quando as massas russas a acossavam. Os soviéticos só tiveram uma única saída: recuar um bom pedaço nessa noite, para, na manhã seguinte, descobrir o que os alemães realmente estavam querendo.

O golpe atingiu em cheio a Divisão Bajda, os T-34 ao seu redor, a Divisão de Pak e as leves peças de artilharia de campo. Também o grupo de lançadores de granadas foi alvo do fogo alemão e quase totalmente aniquilado.

Depois desse primeiro golpe, que deixou atrás de si nove mortos e 12 feridos entre as moças, Lida Iljanovna correu para o abrigo de comando da Korolenkaja. Lá encontrou Sibirzev, agachado ao lado de um aparelho transmissor de rádio.

— Onde está Stella? — berrou Lida, enquanto se protegia. Uma granada do Ferdinando caiu perto deles, abrindo uma enorme cratera. A terra tremia e parecia levantar-se sob seus pés.

— Foi embora! — gritou Sibirzev. — Para a companhia vizinha!

— Ela tem de voltar imediatamente!

— E eu lá sou mágico? — Sibirzev cuspiu no rádio. — Não consigo mais ligação. Quem sabe como as coisas andam por lá!

— Os tanques alemães vêm vindo!

— Não posso fazê-los desaparecer urinando! — Sibirzev deu um pontapé no rádio e pegou sua metralhadora. — Nós também temos tanques, Lidotschka!

— Já é possível vê-los na ala direita. Param e limpam a tiros o terreno à sua frente!

— Eu assumirei o comando, enquanto Stella não estiver aqui. — Sibirzev deixou escapar um riso sardônico. — Mesmo que ela o desejasse, não conseguiria passar. Saiu com um jipe. Mas quem é que iria pensar que esses malditos fascistas ficassem selvagens novamente. — Olhou para o relógio e para as três moças, do grupo de estafetas de Stella e que aguardavam agachadas no funil. — Nós vamos recuar! — berrou Sibirzev. — A todos os grupos: sair isoladamente e se reunir novamente em Lunovo. Esta escaramuça, que os tanques resolvam entre si.

— Soja Valentinovna nunca teria dado uma ordem dessas! — berrou Lida, retrucando a Sibirzev.

— E onde está ela, hein? Por acaso os Tigre fogem se você cuspir neles?

— E Stella? Não podemos deixar Stella para trás.

— Você sabe onde ela está? Então. Agora a responsabilidade por vocês todas, por suas vidas e pela vitória é minha. E eu estou mandando: recuar! Depois se reunir. E amanhã avançaremos novamente com nossos tanques!

A Divisão Bajda recuou sob o fogo da artilharia alemã. Passou correndo por três T-34 incendiados e parou para recobrar fôlego ao lado da Pak à espera. Ali, Sibirzev conseguiu finalmente entrar em contato com a companhia vizinha. O radiotelegrafista, deitado, sem fôlego, em um buraco, afirmou que nenhuma Tenente Korolenkaja chegara.

— Ela não está aqui — disse Sibirzev a Lida e às outras moças. Os tanques alemães tinham dado uma pequena volta, viraram-se para a ala direita e atiravam em uma coluna de caminhões, cujo guia se atrevera a ir bem para a frente, convencido de que nada mais havia a temer por parte dos alemães. Agora, em questão de segundos, nove caminhões tinham-se incendiado e iluminavam a noite com o clarão vacilante do fogo. Os depósitos de gasolina e dois caminhões carregados de munição explodiram com um barulho ensurdecedor; grossas nuvens de fumaça espalharam-se por todos os lados, homens feito tochas vivas revolviam-se aos gritos, na terra.

Sobre o rosto de Lida correu um forte espasmo. Segurou a cabeça com ambas as mãos e fitou aquele inferno. A Pak, à sua volta, começou a atirar de modo selvagem. Dois tanques Pantera alemães surgiram. Protegidos por eles, soldados alemães, agachados, correram na sua direção.

Tudo se transformou em uma carnificina. Os dois tanques foram imobilizados pelo fogo concentrado da Pak soviética, a infantaria presa na estepe. Sibirzev fitou Lida Djanovna. Depois acenou. Empurrou o braço direito com o punho para cima e foi o primeiro a sair do esconderijo.

As moças o seguiram, sem hesitar, como delas se esperava: combatentes, que não conheciam a palavra medo. Atacaram em pequenos grupos, enquanto, inicialmente a Pak e depois algumas das pesadas metralhadoras que tinham levado consigo, mantiveram a distância os agressores alemães. Mas, depois, apareceram, primeiro isoladamente, depois muito rápidas e por toda parte, as moças de uniformes cor de terra, o paralisante “Urraa!” ecoou, saído das gargantas das fuzileiras e elas caíram sobre os soldados alemães feito gatas selvagens, espetando com as baionetas, com punhais e facas, atirando com pistolas ou com tiros na cabeça bem calculados, quando a distância o permitia.

A Quarta Companhia foi literalmente esmagada. O Suboficial Pflanzl, deitado ao lado do Sargento-Mor Pflaume, ainda conseguiu exclamar:

— Diacho, eu e merda. . . as malditas mulheres!

As moças em fúria selvagem assassinavam o que podiam na companhia bem espalhada.

Pflanzl cerrou os dentes e atirou em uma das moças que apareceu diante dele. Procurou acertar sua perna esquerda —era-lhe impossível visar os seios. Podia ser a morte que avançava em sua direção mas tratava-se de mulheres e ainda havia um resíduo de inibição.

Os suboficiais Hellersen, Fritske e Pinter morreram a golpes de baioneta. O susto, a hesitação ao ver as mulheres que avançavam em sua direção, este segundo de paralisia dera às moças a vantagem decisiva.

O Sargento-Mor Pflaume guardava com Pflanzl um pequeno ninho de metralhadoras. Conseguiram subjugar ao seu redor tudo que tentava deles se aproximar. Sibirzev posicionou-se diante deles com uma metralhadora pesada mas agora se via que Pflaume, além de ser exímio em berros e sacanagens, também sabia atirar. Ao lado de Sibirzev duas moças tombaram com tiros na cabeça.

— Comigo não! — disse Pflaume, quase amistosamente e piscou para Pflanzl. — Se uma mulher quiser me pegar, certamente não será na cabeça.

Girou a metralhadora e disparou uma salva de tiros sobre um grupo de moças que estava correndo, feito louco, através da estepe. Uma forma cambaleou, foi puxada pelas outras, depois a noite as engoliu. Mas a estepe ainda estava iluminada pelos tanques e veículos incendiados, uma luz, cuja rápida oscilação entre sombra e claridade momentânea às vezes até fazia com que os mortos, deitados, retorcidos, parecessem voltar à vida.

— Aí vem um! — disse Pflanzl e apontou com o polegar para uma forma que se aproximava engatinhando. Tratava-se de um alemão, que se movimentava sobre a grama da estepe, apertado contra o chão. Via-se nitidamente seu capacete de aço. Ainda não era possível discernir se o homem estava feri­do. Pflanzl acenou.

— Cuidado, rapaz, lá do outro lado há uma metralhadora! — gritou. —Fique deitado! Você está ferido?

O outro não respondeu. Só levantou a cabeça, empurrou a carabina mais para a frente e olhou para o Suboficial Pflanzl. A pesada metralhadora soviética calou-se, até quando ele levantou ainda mais a cabeça e formou um alvo que poderia ser considerado clássico. Sibirzev, que o observava, não curvou o dedo. Fascinado, aguardava o que iria acontecer.

— Seu buraco de merda! — berrou Pflanzl no seu esconderijo seguro. — Baixe a cabeça! Enlouqueceu?

Ele levantou o braço para fazer um aceno. Com isto metade do seu rosto surgiu sobre a beira do funil. . . Mas ele atira!, quis pensar mas não o conseguiu mais. O golpe, como se fosse desferido por um martelo, o jogou para trás; na sua testa surgiu um buraco e ele caiu contra Pflaume. O olhar atônito permaneceu.

O Sargento-Mor Pflaume engasgou quando tentou gritar. Ao seu redor via agora cinco moças, que pareciam ter nascido nesse momento da estepe, e também o homem com o capacete de aço alemão pulou, jogou fora o capacete e sacudiu os cabelos.

— Bravo, Lida Iljanovna! — disse Sibirzev, atrás de sua metralhadora, e aplaudiu. — Isto Soitschka deveria ter visto; que alegria sentiria!

O Sargento-Mor Pflaume foi sacudido pelo terror. Levantou os braços, ergueu-os retos contra o céu e permaneceu assim rígido de susto, sentado no fundo do funil. Lida chegou perto dele com três passos e apontou a arma.

— Não. . . — gaguejou Pflaume. — Eu me rendo. Eu prisioneiro de guerra! Vojennoplenni. Vojennoplenni. Plenni. . . Não!. . .

Com uma calma impiedosa Lida apontava para a cabeça de Pflaume. Ele arrancou o capacete, jogou-o longe, levantou novamente os braços e começou, então, a chorar. Fitava o cano da carabina, que apontava direto entre seus olhos; as lágrimas corriam pelas bochechas gordas, seu coração ardia, angustiado; os músculos se relaxaram, as fezes encheram-lhe as calças, a urina escorreu por suas pernas e incessantemente gaguejava:

— Eu. . . Vojennoplenni. . . Vojennoplenni. . .

Aí o tiro ecoou. Com grossas lágrimas nos olhos, entre os quais agora surgiu um buraco, Pflaume caiu contra a parede do funil.

Ao seu redor as moças da Divisão Bajda limpavam a estepe dos alemães ainda sobreviventes — impiedosas, como lhes ensinaram, não conhecendo outra maneira de agir.

Ao raiar a madrugada, a Quarta Companhia já não existia mais.

Mas também não acharam Stella Antonovna. Só encontraram o seu jipe, perfurado por balas. E 10 metros mais adiante descobriram, em um buraco de granada, o seu livro de tiros. Sujo de sangue. A última marca datava do dia anterior. Acertos de 344 a 349.

Até Sibirzev sentiu as lágrimas subirem aos olhos enviesados, quando lhe entregaram o livro de tiros. Comprimiu-o contra os lábios, Lida Iljanovna soluçava, histérica, e gritava sem cessar:

— Não acredito! Ela tem de estar viva! Não acredito! Ela está viva!

Sibirzev disse com a voz embargada de emoção:

— Sim, ela viverá. Permanecerá sempre conosco. Para todos os tempos, enquanto houver russos. Será lembrada para sempre, como heroína. Stella Antonovna Korolenkaja tornou-se imortal.

Procuraram-na durante dois dias, enquanto as unidades de tanques soviéticos novamente avançavam na direção de Charkov e empurravam diante de si as tropas alemãs. Tinham alguns dias de descanso. A Divisão Bajda sofrera muito com esse contra-ataque, quase um terço morrera ou fora ferido. Mas o comandante superior, o General Conjev, honrou a Divisão Bajda com uma menção elogiosa na ordem do dia. Até o chefe da divisão de operações, o Marechal Shukov, enviou um telegrama e falou de “ato heróico ímpar”.

— Nós não a encontraremos jamais — disse Sibirzev no terceiro dia da busca. — Como poderíamos fazê-lo?! Os fascistas devem ter maltratado seu corpo morto e tê-lo jogado no lixo, esses cachorros! Olhem, eu lhes digo: para mim não existe mais um alemão vivo!

No dia seguinte a Divisão Bajda foi retirada da frente e enviada para a cidade reconquistada de Bjelgorod, para descansar. Ali havia como que uma atmosfera de paz. O povo iniciara a reconstrução, as ruas estavam sendo limpas, os escombros dinamitados, as ruínas afastadas. Dos porões saíram milhares e começaram vida nova.



Para Charkov avançavam, vindo de três lados, nove exércitos soviéticos.

A estepe do Donez foi adubada com sangue.

O ataque repentino das unidades alemãs pareceu a Stella como a resposta a uma prece. Ela estaria disposta a recitá-la ainda a posteriori, apesar de estar convencida de que o Deus, que seus pais ainda tinham adorado às escondidas, de há muito já fora desmascarado como espantalho pelo marxismo-leninismo. Com a cabeça de Piotr no colo, estava sentada entre o carro estraçalhado e os alemães mortos e acariciava o rosto dele; tinha plena consciência da situação. Levá-lo para sua tropa — impossível. Não havia motivo algum para se deixar vivo exatamente esse prisioneiro. Passar para o lado alemão também era algo fora de questão. Sabia perfeitamente que teriam de entregá-la à SS. Isto significava maus-tratos, torturas e morte por enforcamento. O serviço de comunicações dos grupos de guerrilheiros era excelente; sabia-se perfeitamente como a SS e a SD lidavam com fuzileiras aprisionadas. Se as matassem a tiros, isto ainda seria um ato humano. Havia fotografias suficientes de moças enforcadas.

Hesslich acordou do seu desmaio quando as primeiras granadas alemãs passavam chispando. Não se orientou imediatamente, golpeou em torno de si com os braços, tentou levantar-se com um salto mas logo veio a dor louca na coxa, o que o trouxe de volta à realidade.

Stella Antonovna manteve-o abraçado.

— Ficca deittado quieto. . . deittado quieto. . . Piotr. . . nadda de se mexxer!

— Meu Deus! Stella! — A cabeça de Piotr caiu contra os seios da moça. Ele permaneceu mudo enquanto as granadas passavam por cima deles e explodiam nas posições soviéticas. Em uma pausa, entre dois tiroteios, falou: — Stella, você tem de fugir! Você não pode ficar aqui!

— Vvocê emborra. . . nadda de eu! Vvocê podde correr?

— Não. . . vou morrer aqui.

— Vvocê nadda, se eu esttou aqui! — Pousou a cabeça de Piotr na grama, com cuidado. Levantou-se, dirigiu-se ao jipe e voltou com a carabina.

— Isto é bom — disse Hesslich e fechou os olhos. — Termine com isto. O tiro de misericórdia. Ele é sempre uma bênção, eu conheço isto, afinal de contas eu era guarda-florestal. É uma liberação. Eu. . . eu lho agradeço, Stella.

— Eu segurar. Vvocê anddar com arma. Como com bengala.

— Não adianta, Stella. Ir para onde?

— Para pazz. Vvocê e eu. Só pazz, agora. Nadda de Voina. Voina para nós passou.

— Incrível! — Ele a fitou atônito. — Você quer desertar? Desertar comigo? Esconder-se comigo?

— Sim!


— A Korolenkaja?! Você desertar? A heroína?!

— Eu ammo vvocê. Mais nadda no munndo. Só vvocê.

Ela lhe entregou a carabina; depois dirigiu-se aos escombros do carro de cuba, pegou duas carabinas dos soldados mortos, foi para o jipe e começou a perfurá-lo com tiros. Como agora os tiros das peças de artilharia alemãs caíam, como granizo, sobre as posições de Pak e os tanques em prontidão, seus tiros afogavam-se no meio das constantes explosões. Quando ela voltou, Hesslich já se levantara apoiando-se na arma de Stella e agora estava ereto, apoiado em uma só perna. Todo o seu corpo tremia, rangia os dentes de tanta dor; apoiava-se, curvado para a frente, na comprida carabina de Stella. Sua perna esquerda ferida caía ao longo do corpo, como se fosse totalmente inútil, um apêndice sem sentido.

— Vem! — chamou ela e engoliu em seco várias vezes. — Vem!



Pôs o braço dele em torno do próprio ombro. Ele se apoiava na carabina e assim foi pulando com a perna sadia até o jipe; cada vez que a outra tocava o chão, ele gemia; até que a dor se tornou tão insuportável que não conseguia mais pular e encostou a cabeça no ombro de Stella. Ela ouviu como os dentes de Hesslich batiam uns contra os outros.

— Mais cinco metros — disse baixinho. — Piotr, eu carreggar vvocê.

Ele sacudiu a cabeça e gemeu; achando ser impossível pular os restantes cinco metros. Quão longos podem ser cinco metros, quão infinitos, quando é necessário pagar cada centímetro com uma explosão de dor.

Finalmente o conseguiu. Deixou-se cair sobre o assento, pegou a perna inútil com ambas as mãos e a puxou para dentro do jipe. Encostou a testa contra a moldura da baixa vidraça da frente.

— Para onde? — perguntou, sem entonação. — Stella, meu Deus, para onde?

— Os seus camarradas estão atacando de novvo.

— Stella, você não pode ser aprisionada. Eu não posso proteger você. Fuja! Rápido!

— Eu ficarr com vvocê.

— Mas isto é loucura!

— Nadda de loucura. . . é amorr.

Ela deu partida no jipe, andou lentamente pela estepe até um povoado destruído, sobre o qual agora as granadas alemãs passavam, a fim de explodir, mais adiante, nas posições soviéticas. Era o tiroteio preparatório, que também atingiu a Divisão Bajda de forma tão fulminante, enquanto Sibirzev procurava entrar em contato com Stella na companhia vizinha.

O povoado estava abandonado; a primeira onda de artilharia o atingira e as sentinelas e os observadores lá instalados tinham-se retirado. Quando Stella olhou em torno de si viu, na escuridão pálida, o lampejar de tiros. Os tanques alemães avançavam.

Ela parou, em algum lugar, diante de uma casa destruída, entrou e procurou um esconderijo. Somente na quarta casa examinada encontrou uma espécie de porão, uma cavidade, toscamente coberta com tijolos, com algumas coberturas de madeira, na qual. antes haviam estocado batatas. Ficaram por lá alguns quilos, podres, no chão escorregadio. Era um esconderijo onde poderiam permanecer durante algum tempo.

Com uma das botas Stella empurrou a massa podre de batatas para um canto, correu de volta e viu Piotr, ao lado do jipe, segurando-se na moldura da vidraça dianteira.

— Você tem de ir embora! — ele gritou. — Nossos Tigre estão chegando!

— Vvocê nadda sozinho, Piotr. Vvocê comigo!

Ela o apoiou, e novamente começou a tortura interminável do pular em uma perna só. Para dentro da casa e depois, engatinhando, no porão raso. O fedor das batatas apodrecidas quase impedia Hesslich de respirar, mas ali pelo menos ele podia se deitar e se esticar. Ajeitou a carabina de Stella sob a coxa, para se apoiar. Depois respirou fundo várias vezes e a dor cedeu um pouco.

Stella correu novamente para fora. Enquanto os tanques se aproximavam, disparando, ela levou o jipe para a margem do povoado, furou os pneus com um rifle alemão e, protegida pelas ruínas, voltou correndo para o esconderijo. Lá amontoou coisas estragadas e lixo sobre a cobertura de madeira do porão, abriu-a com cuidado, e fechou-a sobre si. Engatinhou para junto de Hesslich, tateou-lhe o corpo e o rosto e compreendeu, na escuridão impenetrável, que os cegos são capazes de ver com as pontas dos dedos. Sabia que Piotr estava de olhos abertos e a fitava, que seus lábios tremiam, que seu corpo ainda era sacudido por espasmos, que se esticara no chão fedorento, escorregadio, cheirando a decomposição e a álcool fermentado, com sua carabina sob a coxa estraçalhada, para servir de apoio.

A terra tremia. Começara a batalha. Os tanques alemães avançavam, continuamente; os T-34 soviéticos e o Pak mantiveram seu fogo cerrado, a artilharia russa meteu-se no meio do tiroteio e agora também atingia o povoado, que estava entre as linhas. As ruínas explodiam; cinco casas se incendiaram, e aquela em cujo porão Stella e Hesslich estavam abrigados foi derrubada sobre suas cabeças.

Estavam deitados em seu esconderijo, bem juntos, e esperavam que um tiro certeiro os atingisse, solucionando todos seus problemas. Quando a terra debaixo deles tremia e as explosões berravam sobre suas cabeças, Stella apertava seu rosto contra o peito de Piotr e o abraçava com mais força. Queria morrer assim, com ele, apertada em seus braços, uma unidade que não poderia mais ser separada.

O combate durou toda a noite. Eles ouviram quando os tanques — impossível saber se eram alemães ou soviéticos — passaram pelo povoado em chamas, os tiros ecoavam diretamente sobre eles, como se um tanque estivesse dentro dos escombros da casa; depois as correntes rangeram, as granadas explodiram, até que por fim se seguiu um silêncio horripilante, enquanto a terra ainda tremia, em conseqüência de explosões mais longínquas. Agora a guerra passara por eles, mas não sabiam se estavam do lado alemão ou do lado soviético.

Veio a manhã, manhã terrificante, na qual a Divisão Bajda patrulhava o campo de batalha à procura de Stella. Lida Iljanovna gritava sem cessar:

— Não acredito! Onde está ela? Só vou acreditar quando a vir. . .

E depois que souberam que a Korolenkaja não voltaria, que os alemães a tinham arrastado consigo, quando descobriram o jipe todo esburacado e o livro de tiros, ensangüentado, Sibirzev afirmou:

— Eu matarei todo alemão, onde for que o encontre, até o fim da minha vida!

A história do livro de tiros foi recordada por Stella Antonovna quando o povoado já não era mais palco da batalha. Afastou-se, engatinhando, de Hesslich, e cuidadosamente levantou a tampa de madeira.

— Fique aqui — pediu Hesslich, em voz baixa. — A guerra ainda não terminou. Para nós, ainda durará 100 anos. . .

— Eu ttenho de ppôr rastro errado.

— Mais tarde, Stella!

— Nadda mais tarrde! Agorra. — Ela empurrou a tampa de madeira para o lado, puxou o corpo para cima e ficou deitada no chão de madeira, com o tórax sobre a beirada. A casa não se incendiara, só o que restava do telhado caíra, e na direção do jardim faltava toda uma parede. — Eu preciso joggar fora livro de tirros. Nadda mais Korolenkaja.

— O seu livro de tiros? Quantos. . . quantos acertos você tem?

Ela hesitou, aguçou o ouvido para captar os ruídos em torno de si e respondeu:

— 349.

— Tudo tiros na cabeça?



— Só conttamm tirros na cabeça. E você?

— Em relação a você sou um fracasso. Só 169.

— São 169 demais! Erram meus irrmãos.

— E 349 camaradas meus, Stella.



— Guerra de vocês! Nadda nós! — Com um impulso, ela ergueu-se para fora do buraco do porão, engatinhou por sobre as ruínas e viu que os tanques alemães se tinham retirado. Três deles ainda ardiam. No raiar da madrugada, com uma luz pálida que banhava a estepe, viu como a Pak soviética avançava, e à beira do povoado, uma divisão da cavalaria passava a pleno galope.

Retirou o livro de tiros da bolsa, folheou as páginas mais uma vez e leu os registros. Cada data representava um destino alemão apagado, cada data representava para ela, como russa, um algarismo de que se orgulhava, uma prova da sua coragem e da sua capacidade, do seu amor à pátria.

Rasgou as páginas com os olhos fechados e as jogou em uma cratera fei­ta por uma granada, apenas alguns metros afastada do jipe, que uma metralhadora alemã, nesse ínterim, esburacara ainda mais. Ao rasgar o livro de tiros, era como se estivesse arrancando, pedaço por pedaço, a sua vida pregressa. Ninguém poderia compreender o que este livrinho representara para ela; era seu mundo, que ela destruía, o grande mundo patriótico da heroína Korolen­kaja.

Após alguns minutos engatinhou de volta para Hesslich, achegou-se a ele como uma gatinha assustada e começou a chorar baixinho. Ele o ouviu espantado, e na madrugada que começava a raiar, viu que o rosto de Stella estava molhado de lágrimas.

— O que aconteceu. . .? — perguntou. — Você está com dores?

— Não. — Ela olhou para o rosto de Piotr, quase irreconhecível em virtude do sangue e da poeira, e cobriu-o com as duas mãos, pois não se assemelhava ao Piotr que ela amava mais que a pátria e o céu. — Eu esttou morrta. — E quando ele acariciou-lhe os olhos úmidos e ia dizer algo de bem tolo, como, por exemplo: Mas você ainda respira, ela acrescentou: — Nadda mais Korolenkaja. Nadda mais de nomme.

Ele compreendeu subitamente que ela destruíra o livro de tiros e deixara de ser a moça que ainda ontem era a comandante da divisão mais temida do batalhão de mulheres do Exército Vermelho. Encostou a cabeça de Stella contra si e a beijou; movimentou-se com tal infelicidade, que a dor passou por sua perna como aço em brasa. Perdeu a consciência.



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