Konsalik b de atalhão Mulheres



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— Então me avise quando chegar a hora. — Stella olhou em torno. —Onde está Lida.

— Está dormindo ao lado do caminhão como um cão policial. . .

Quando ele estiver operando, eu virei e trarei Sibirzev comigo. Ele vai se convencer de que o prisioneiro não precisa ser condenado à morte. — Ela hesitou, passou a mão pelos cabelos louros e mordeu o lábio inferior. — Ele contou mais alguma coisa a respeito de Piotr?

— Nada. — Galina Ruslanovna levantou ambas as mãos, em um gesto de defesa. — Esqueça-o, Stellinka. Esqueça-o, finalmente. . .

— Estou tratando disso!

Ela saiu rapidamente da tenda e correu de volta a seu quartel debaixo de uma chuva torrencial. Esquecê-lo. . . Como seria possível isto? Cada vez que pensava nele, o seu colo ardia, era um sentimento indescritível.

Na parte da manhã, enquanto ecoavam tiros isolados da artilharia alemã, Ursbach começava a operação para extrair a bala do pulmão da fuzileira.

— Sua felizarda — disse ele a Galina Ruslanovna, quando esta arrumava os instrumentos. — A senhora tem tudo aqui! Todos os médicos das tropas soviéticas têm o mesmo instrumental?

— Não. Só eu. . .

— E por que exatamente a senhora?

— Talvez eu seja uma das que o destino favorece? — perguntou ela e riu. Seus olhos pretos brilhavam. — Além disso o general-médico era meu amigo, antes de me terem enviado para a frente.

— Aha!

— E por acaso todos nós não nos aproveitamos disso? — Ela praticamente o fitava irradiando felicidade. — O senhor agora está operando para salvar a sua própria vida, meu amigo...



Um agradável arrepio passou pela coluna vertebral de Ursbach, apesar de ele se defender desse sentimento pensando na morte do Alferes Stattstetten, que ele provocara com o disparo da segunda bola luminosa.

Dez minutos após Sibirzev entrou na tenda de cirurgia com suas pesadas botas e assoou alto o nariz, exatamente como o fazia na taiga: com o polegar fechou uma das narinas e soprou com toda a força, expulsando o muco da outra.

— Aha! — exclamou Ursbach, jogando um olhar sobre o casmurro Sibir­zev; depois voltou a se ocupar de Amalja Romanovna.

Ela entrou na narcose que Ursbach provocara com uma injeção.

Ele colocou uma pinça suavizada por camadas de gaze na boca da moça. Puxou a língua para fora, a fim de que não rolasse para trás, sufocando a paciente.

— A uma coisa destas ainda tenho de me acostumar — disse ele.

— Acostumar com quê? — perguntou Opalinskaja. Ela estava controlando, pela última vez, o instrumental cirúrgico.

— Com o fato de que na Rússia, aparentemente, também porcos podem entrar em salas de cirurgia.

Galina Ruslanovna fitou Ursbach atônita. Seus lábios tremiam.

— Você tem uma sorte louca por ele não saber alemão.

— Ponha-o para fora!

— Não pode ser.

— Por quê?

— Ele representa a vida para você. . . ele olha. . . você vive... Compreendeu?

— Mais ou menos. Eu agora estou operando para provar que eu não devo ser executado.

— Exato.


— Mesmo assim não aceito que ele me encha a sala de cirurgia com secreções nasais! Diga-lhe que se comporte como um ser humano!

Opalinskaja hesitou. Sibirzev chegara perto da mesa cirúrgica e examinava Ursbach com os olhos semicerrados; observou o tronco superior despido da Romanovna e empurrou o lábio inferior para a frente.

— Se ele se atrever a cuspir, dou-lhe uma bofetada! — disse Ursbach calmamente. — Mesmo que dê ordens para que me matem! Aliás, aqui diante de nós temos uma moça gravemente ferida e não uma mulher nua, para que se possa curtir um tesão! Também isto você pode lhe transmitir.

Opalinskaja deu um passo à frente, chegou perto da mesa e empurrou Sibirzev para o lado. Rosnando, ele recuou dois passos.

— Se ela morrer, você é o culpado! — exclamou ela, duramente.

Sibirzev a fitou atônito.

— Sou eu que a estou retalhando ou o maldito fascista?

— Você está espalhando bactérias! Stella Antonovna não lhe disse que você apenas deveria observar, no fundo da sala?! Volte para a parede!



— Vocês mulheres idiotas! — Sibirzev olhou para Ursbach e para a Opalinskaja, faiscando de ódio. Mas desistiu de continuar discutindo. Afastou-se da mesa cirúrgica, sentou-se em um banquinho e ficou observando Ursbach, que desinfetava a ferida causada pela bala com iodo. — Posso fumar?

— Não! - berrou Galina Ruslanovna.

— Por que não?

— O seu fedor já basta.

— Um dia destes eu vou foder você — murmurou Sibirzev com voz aba­fada. — Maldita seja, farei isto! Quer você queira quer não. E depois o meu fe­dor será seu para sempre!

— Você não sobreviveria a isso, Bairam Vadimovitsch!

— E daí? — Ele mostrou um riso sardônico. — Mas antes eu a enchi até que você explodisse! Afinal de contas, quem pensa que você é? Uma médica? Uma camarada superior? Uma privilegiada? Alguém diante do qual a gente deve tirar o chapéu? Em cujos seios se sacodem algumas condecorações? Uma pessoa que se faz respeitar, hem? Engano! Você não passa daquilo que todas as outras mulheres são: um buraco!

— O que está ele dizendo? — perguntou Ursbach. Já terminara de preparar Amalja Romanovna para a operação. A narcose era suficientemente profunda. — Falas do partido?

— Mais ou menos. A Opalinskaja postou-se ao lado de Ursbach e lhe en­tregou o escalpelo. Ela mesmo pegou chumaços de algodão e pinças e as endireitou. — Filosofia. A filosofia dele.

— Oh! Céus, ele tem uma?

— Afinal de contas, conversamos ou operamos? - perguntou com grosseria a Opalinskaja.

A operação durou quase uma hora, no decorrer da qual Ursbach conseguiu pinçar e retirar a bala, que estava aplastada na costela. Ele tinha de proceder com cautela, para não lesar a pleura e fazer com que se formasse um pneu­motórax. Galina Ruslanovna assistia, hábil, rápida e calada. Trabalhavam juntos como uma equipe bem entrosada em uma grande clínica.

Só depois de uma hora, após terem costurado a ferida e estendido um lençol macio sobre o corpo nu, ela fitou novamente Ursbach.

— Isto foi muito bom. Muito bom! — exclamou ela e respirou fundo.

Ursbach lavou as mãos na bacia com a solução antisséptica e enxugou-as com uma toalha.

— Obrigado. Mas você também trabalhou bem.

A Opalinskaja enrubesceu um pouco, envergonhou-se e se dirigiu para Sibirzev, que ainda estava agachado no fundo da sala.

— Ela vive! Ele a salvou!

— Por acaso sou cego? — Sibirzev levantou-se, dirigiu-se para Ursbach e olhou para ele. Tinha de levantar os olhos, pois sua estatura era bem menor que a de Ursbach, quase duas cabeças menor. — Vou deixar você viver. Mas desejo que você procure escapar, para que eu possa matá-lo!

— O que ele está dizendo? — perguntou Ursbach, olhando para Galina.

— Ele está dizendo que você pode viver.

— Muito magnânimo.

— É isto! — A Opalinskaja jogou os instrumentos sujos de sangue em um grande caixote de cromo. — Nós não fazemos prisioneiros. Nós não!

— Mas isto também contraria todo o direito bélico.

— Direito? Você se atreve a falar em direito?! Por acaso é direito vocês terem que enviar à SS todas as nossas moças? Para que depois morram?! Primeiro tortura, depois morte?! Onde está o direito?

— Isto é verdade. — Ursbach enxugou o rosto molhado. Lá fora ainda chovia a cântaros, os pingos grossos batiam na cobertura de lona; no fundo, onde não fora suficientemente esticada, ela cedia e vergava. — Seria perverso falar de direito humano em uma guerra. A guerra é desumana. . . deveríamos pelo menos pensar assim. No entanto, só os homens fazem a guerra. Nunca ouvi dizer que os elefantes, as zebras ou as andorinhas se exterminem mutuamente! Disto só o homem é capaz. E fala de humanidade! Então, que conceito é este: humanidade?!. . . Uma palavra horripilante! Uma ameaça mortal! A pior ofensa que se pode fazer diante da vida!. . . Se alguém nos diz: quero agir humanamente com você, isto já é um bom motivo para se fugir logo! — Urs­bach fitou Galina Ruslanovna por cima da cabeça de Sibirzev. — Você entendeu o que eu disse?

— Tudo não. Para mim o importante é: você vive!

Sibirzev bateu com o pé no chão. O efeito da anestesia parecia estar diminuindo e Amalja Romanovna começou a gemer, rouca.

— Que diz ele? — perguntou Sibirzev.

— Ele agradece por poder viver.

— Com tantas palavras?

— O alemão é uma língua curiosa, Bairam Vadimovitsch. — A Opalinskaja tentou sorrir. — Ela possui muitas palavras que não significam nada.

Sibirzev contentou-se com isto. Olhou mais uma vez, zangado, para Urs­bach, com seus olhos enviesados. Depois levantou a mão, deu-lhe uma rápida bofetada e saiu da tenda de cirurgia com passos marciais. A Opalinskaja respirou fundo, segurou o braço de Ursbach e encostou, como se estivesse esgotada, a cabeça no ombro dele.

Isvinite. . . — disse hesitando.

Ursbach acenou com a cabeça.

— Eu não sei o que quer dizer isto, mas julgo adivinhá-lo. A senhora não precisa se desculpar por nada. O que se pode fazer: isto é que é ser humano!

Duas enfermeiras vieram buscar Amalja Romanovna, que acordava lentamente. Puseram-na em uma maça, cobriram-na com um toldo, para protegê-la da chuva e levaram-na correndo para um dos caminhões, que serviam como estação para convalescentes. Lida Djanovna as encontrou lá fora. Na entrada da barraca ela sacudiu o uniforme molhado e seu rosto assumiu uma expressão dura, áspera, ao ver como a Opalinskaja se afastava de Ursbach e caminhava, as pernas rígidas, para o caixote com material para pensar feridas.

— Satisfeito? — perguntou maliciosamente e ficou zangada ao perceber que sua voz vibrava levemente.

— Sim. — Ursbach, completamente ingênuo, não percebeu as ligeiras oscilações na voz de Lida. — Ela viverá. . . se conseguirem transportá-la rapidamente para a retaguarda e cuidarem da septicemia pulmonar.

— E o que mais se faz? — Lida Djanovna fitava as costas de Galina Ruslanovna. Esta remexia nos montes de gaze, sem nenhum sentido, empurrava-os da esquerda para a direita ou os empilhava, para depois pô-los novamente de lado. — Muito trabalho, vocês dois, hem?

— Não sei. — Ursbach olhou em torno de si. — Onde é que o prisioneiro poupado pode se instalar?

— Você pode se movimentar por qualquer parte — respondeu Lida. — E acrescentou em russo: — Deixe-o em paz, Galina.

— Você tirou assinatura dele? — A Opalinskaja fechou a tampa do caixote com força e se endireitou. O primeiro golpe fora dado: Lida atacara, era preciso se defender.

— Stella Antonovna o ordenou.

— O que tem ela para ordenar?!

— Ele está livre!

— Ele está o quê?.

— Quando recuarmos, vamos deixá-lo aqui.

— Para que Sibirzev, ao comandar a retaguarda, possa liquidá-lo tranqüilamente! — Ela olhou para Ursbach, que não havia entendido uma só p lavra do debate acalorado e só esperava saber o que iriam decidir a seu respeito. — Eu o trouxe aqui, e eu cuidarei dele! Posso utilizá-lo no hospital.



— E em outro lugar também. Estarei decifrando certo seu olhar? — Lida Djanovna cerrou os punhos. — Eu lhe digo uma vez mais: deixe-o em paz!

— Você quer tê-lo para si, sua coelhinha? - A Opalinskaja riu, soturnamente, curvou-se para trás e projetou os seios cheios em direção a Ursbach, que a olhava confuso. A blusa fina de verão parecia não mais poder conter os seios. Galina dirigiu-se para a entrada da barraca, olhou para fora e acenou para Ursbach. Ele se aproximou hesitante. Ao passar por Lida, esta o segurou pela mão e o puxou para trás. Ursbach parou, sem saber o que fazer. Sentia como os dedos de Lida apertavam seu braço. — Venha cá!

— Você fica aqui! — ordenou Lida.

— Eu me sentiria melhor se vocês conseguissem chegar a um acordo — disse Ursbach, sentindo-se oprimido. Compreendeu repentinamente que os sentimentos das duas mulheres eram muito mais perigosos que Sibirzev e que se tornara objeto de um combate, que neste momento era mais importante para essas duas do que a Grande Guerra Patriótica. Malgrado uniformes, livros de tiros, condecorações e doutrinação política, apesar de tropa de elite e orgulho do Exército Vermelho, elas agora não passavam de duas mulheres que poderiam se dilacerar em luta por um homem.

A Opalinskaja voltou da porta de entrada. Orgulhosa, alta, esguia, com os cabelos pretos caindo até os ombros, consciente de sua beleza, desse jogo harmonioso entre forma equilibrada e temperamento selvagem: Europa e Ásia em uma fusão misteriosa. A seu lado Lida Djanovna ainda se assemelhava a uma moça inocente, ainda entre a fronteira que delimita a infância e a maturidade. Mas isto era ilusão. Com seus 23 anos ela pertencia ao grupo das mais idosas na Divisão Bajda; tinha três anos a mais que Stella Antonovna, cinco anos mais que a pobre Schanna Ivanovna. Quem visse Lida ao lado da médica Galina Ruslanovna, amadurecida, em plena florescência, a julgaria quase criança. Mas também ela era uma beleza. Seu corpo era bem formado e ágil, treinado pelos esportes e educado para o desempenho. Mas era o rosto o que mais atraía. Assemelhava-se a uma daquelas pinturas românticas nas galerias de arte de Moscou, aquelas cabeças, que nos olham com grandes olhos vazios, no olhar a pergunta exigente:não fomos criados para ser admirados?

Estavam, pois, uma diante da outra, como modelos clássicos, como Brunhilda e Criemhilda, como Elsa e Ortrud, como Maria Stuart e Elisabeth, e se fitavam, com olhares aguçados feito punhais.

— Eu o peguei. Me pertence! — gritou a Opalinskaja orgulhosa, para dirimir qualquer engano. — Trata-se de posse minha! Minha presa de guerra!

— Eu o conheço há mais tempo.

— Amanhã de manhã vou conhecê-lo melhor!

— Você não pode obrigá-lo a fazer isso, se ele me ama!

— Hoje ele operou para salvar a própria vida. — A Opalinskaja respirou fundo. — Também dormirá comigo para salvar a vida.

— Sua puta! Sua miserável puta!

— Oh, ratinho! Você quer se deitar embaixo de um garanhão? — A Opa­linskaja riu grosseiramente e piscou os olhos para Ursbach, que não sabia de que estavam falando. Embaraçado, ficou um pouco afastado das duas e curvou a cabeça, quando o olhar de Galina o atingiu. — O que você vai fazer? Está querendo pegá-lo pela mão e sair correndo com ele? Enfiar-se dentro do celeiro mais próximo, pendurar na porta um letreiro: Favor não incomodar!? — A sua ironia era pesada, escorria por Lida como um xarope. — Por acaso alguém já explicou para você quem é Galina Ruslanovna?

— Todos aqui o sabem! — berrou Lida. — Todos! A puta do general-médico, o colchão do chefe do Estado-Maior, o medicamento suadouro do co­mandante reumático da divisão! Todo homem que você quis você teve!

— E daí? Por acaso isto é motivo para sentir vergonha? — A Opalinskaja passou as mãos pelos longos cabelos pretos. — O que você tem a criticar? Nada! O que quer realmente? Me tirar o homem que eu quero ter? Isto não será loucura, minha pequena? Alguém jamais conseguiu isto? As esposas mais fiéis, as noivas mais frágeis não puderam impedir que seus homens viessem a mim, quando eu os queria. Bastava que eu acenasse. . . com o dedo, com a cabeça, com um olho, com a ponta do pé. . . e já estavam eles deitados diante de mim como cachorros remelosos!

— E nenhuma até hoje matou você a pancada?

— Você o fará, meu ratinho? Sim, está me olhando como se o desejasse fazer! Como você é corajosa! Ele vale tanto assim para você?

— Mais do que para você! Para você não passaria de mais um nome na sua lista!

— E isto é algo desprezível? Vocês registram os mortos em seus livros de tiros. No meu só há marcas de vivos! Isto não é mais bonito? Por acaso eu invejo os tiros na cabeça que vocês dão? Vocês estão aqui para isso, foram treinadas para isso, só isso deve ser o centro da vida de vocês; em troca vocês recebem condecorações e títulos e um dia os seus nomes estarão nos livros escolares, como modelo para as gerações vindouras! Tiros na cabeça! Fiquem com eles! Mas então também me permitam meus tiros no colo!

— Você é uma porca — disse Lida Djanovna cheia de desprezo. — Nada além de uma porca. Deviam cuspir em você!

— Isto tudo você pode fazer, minha ratinha que sonha com o grande garanhão! — A Opalinskaja tornou a rir e remexeu os quadris. — Mas isto não me impede de fazer o que eu quero! — Olhou novamente para Ursbach, que ainda aguardava o desenlace. A chuva batia forte no toldo. — O que você vai fazer se eu agora o tirar daqui comigo?

— Gritarei!

— Você quer gritar? Como?

— Gritar de verdade! Berrar, bem alto, para que todos o possam ouvir: Galina quer ir foder com ele!

— Com isto você iria matá-lo! — respondeu a Opalinskaja, rouca. Os seus olhos se fecharam pela metade.

— Tanto se me dá! — Lida Djanovna jogou a cabeça para cima. — Eu prefiro que ele morra, a que você o possua! Mil vezes a morte!

— Ainda falaremos a respeito! - Galina Ruslanovna acenou para Ursbach e apontou para a saída. — Lida, leve-o ao caminhão nº 3 e cuide que lhe

dêem algo para comer. — E para Ursbach disse: — Descanse! Você fez um bom trabalho. Eu aprendi muito.

De tarde, cerca das 14:00, as tropas soviéticas deixaram a região em torno de Novo Sloboda e recuaram em uma ampla curva. Apenas alguns quilômetros. Os Tigres e Panteras alemães atacavam apesar da chuva que caía torrencial-mente e das ruas e caminhos cheios de lama. A infantaria estava vigilante e entrava em combate, tão logo se formassem núcleos de resistência. Mas a artilharia e as novas reservas não conseguiam acompanhá-los ou ficavam presos, sem socorro possível, na terra enlameada. Os poucos quilômetros conquistados nada trouxeram para os alemães a não ser esforço, desgaste e novas perdas.

Os batalhões soviéticos retiraram-se para a direção de Corotscha e, mais ao sul, para Njecjudovo no Corjen. Os chefes do Exército os tinham instruído. Amanhã começa a nossa contra-ofensiva! A partir de amanhã a situação na curva de Cursk será diferente! A partir de amanhã os exércitos alemães começarão a correr de novo — para trás!

Imitem a borracha, camaradas. Recuem elasticamente. Apenas algumas verstas. Quando vocês puderem ricochetear, cedo estarão em Berlim!

Vitória pela pátria!

No caminhão nº 2, entre sete moças feridas, o médico auxiliar Ursbach estava acocorado, cuidando delas profissionalmente. O batalhão de mulheres viajou para Njecjudovo. Ele não sabia, quão próximo estava agora, novamente, de seus camaradas.

Seis grupos de exércitos soviéticos aguardavam, sempre reforçados, em uma distância de cerca de 500km — de Kirov até Charkov — a ordem decisiva para o ataque. Exércitos reforçados sextuplamente contra dois grupos alemães dizimados: A Frente Oeste sob o comando do Marechal Sokolovskij, a Frente de Brjansk com o General Popov, a Frente Central com o Marechal Rokossovskij, a Frente do Voronesch com o Marechal Vatutin, a Frente da Estepe com o General Conjev e ao sul, no Donez inferior, perto de Charkov, a Frente Su­doeste sob o comando do Marechal Malinovskij. 28 exércitos soviéticos, uma máquina de guerra tão maciça como nunca dantes houvera, estavam preparados nas suas posições, para arrasar cinco exércitos alemães, destituídos de reservas e que até se viram obrigados a ceder parte de suas tropas para a nova frente italiana. Cinco exércitos paupérrimos, exangues, fatigados, desmoralizados pelo calor e pela lama, pelo fogo da artilharia e de inúmeros blindados T-34, que no dia 11 de julho de 1943, mais uma vez, com o resto de suas forças, avançavam alguns quilômetros na curva de Cursk, alcançaram o objetivo imediato Prochorovka, ocuparam o Vale do Pssel a oeste de Obojan e que agora acreditavam que tinham conseguido vencer os russos cujas reservas também tinham acabado, em sua opinião. Até o próprio Marechal-de-Campo von Manstein compartilhava desta crença. Seria incrível que os soviéticos pudessem agüentar perdas no montante de 17 mil mortos, 24 mil prisioneiros, 1.800 blindados, 267 armas e 1.080 canhões de tanques sem sentir seus efeitos.

Não se podia deixar de constatar, não obstante, que o ataque alemão fora completamente detido, no norte com o Nono Exército do Coronel-General Model, paralisado pela idéia tão desesperada quanto genial de Chruschtschev, de enterrar os tanques como um cadeado de aço de artilharia, mas no Grupo do Exército Sul, na região de Bjelgorod, o ataque continuava, apesar de sempre retardado pelos contragolpes soviéticos e posições maravilhosamente instaladas. Manstein esperava conseguir, pelo menos, abrir a frente russa a partir do sul. Se ele recebesse o Corpo Blindado n° 24 com a 17ª Divisão de Tanques e a Divisão “Viking” da SS, que ainda estavam, seguros, na reserva, poderia ser possível lançar outro ataque contra Cursk e confundir os soviéticos com uma força bélica inesperada.

Manstein e o OKH estavam em feroz luta interna por causa dessas tropas. Apesar de estarem situados no meio da região do combate, essas tropas não eram subordinadas ao Grupo do Exército Sul e sim diretamente ao OKH. No Quartel-General do Fuehrer, no longínquo Rastenburg, na Prússia Oriental, o pensamento, contudo, era outro. Estavam felizes por cada homem que ainda tinham em mãos, que não era vinculado a nenhuma ataque e que se podia deslocar, para cá e para lá, conforme fosse necessário no momento. A exposição urgente de Manstein de que exatamente esse corpo era agora urgentemente necessário não conseguiu convencê-los. Aliás, no Quartel-General do Fuehrer, ainda não se tinha chegado a um consenso, no sentido de acreditar se a ofensiva, a Operação Cidadela, realmente não deixara marcas profundas nos soviéticos, de modo que bastaria dar um forte empurrão final, para conseguir fazer oscilar a frente. O ataque ao sul continuava, o Nono Exército no norte estava paralisado, o Segundo Exército no meio passava seus dias tranqüilos e no máximo se ocupava de algumas escaramuças locais.

E exatamente aí estava a posição mais vulnerável, mas isto era totalmente desinteressante para o comando soviético. Para que empurrar mais fundo a cunha e com isto aumentar perigosamente os flancos? Muito mais importante era limpar a cunha alemã em Orei e avançar em direção a Brjansk. E no sul tornara-se caso de honra reconquistar Charkov e também retirar este espinho da carne.

No norte desta região, diante do Grupo do Exército do Meio do Marechal-de-Campo von Kluge, as maiores massas de tanques, que jamais tinham sido vistas em uma guerra, e que provavelmente nunca mais seriam vistas, se reuniam. A isto poderia acrescentar-se que a arma predileta dos soviéticos, a artilharia, fora alargada a tal ponto que até as estimativas mais audazes foram superadas. Só de novos armamentos de mais de 10cm de calibre, chegaram 30 mil. Divisões inteiras de artilharia e corpos completos de artilharias surgiram da terra, como por milagre. Esta massa de artilharia era tão imensa, que muitas vezes 300 peças eram colocadas em um só quilômetro da frente.

Tudo isto, no Quartel-General do Fuehrer, só era conhecido de forma muito incompleta, ou talvez simplesmente não quisessem acreditar. Recusavam-se transferir para os soviéticos a imagem da lendária Hidra, a qual, mal lhe cortam uma cabeça, faz imediatamente crescer duas novas. Recusavam-se a fazê-lo, porque ultrapassava os limites da sua capacidade de compreensão.

Seis grupos de exércitos russos esperavam que chegasse o grande dia.

Era 12 de julho de 1943. De madrugada o fogo mortífero jorrou de milhares de armamentos e derrubou o Segundo Exército Blindado e o Nono Exército alemão. De acordo com uma tática antiga, os tanques soviéticos protegidos por esse sino de fogo, atacavam em quatro cunhas estreitas, mas maciças: as divisões dos Generais Bagramjan, Belov, Gorbatov e Puchov. Seu alvo principal: Orei. O segundo alvo: a linha férrea Brjansk-Orel. Era a única li­nha de trem existente, a única via para trazer reservas, em suma, uma artéria vital. Se conseguissem conquistar essa via férrea, os exércitos alemães não teriam mais provisões, munição, nada! Orei passaria a ser um novo Stalingrado.

Ao mesmo tempo em que ocorria o ataque à frente de Brjansk, Conjev também avançava com a sua frente da estepe. Sua tranqüilidade passara, o seu “Deixem-nos avançar” surtira efeito. Enquanto a Divisão Kempf ainda avançava lentamente para um vácuo, enquanto o Quarto Exército Blindado, feliz, alcançava Prochorovka, de todos os lados apareciam os tanques de Conjev e fechavam os alemães em uma pinça aniquiladora.

Vinham a partir da reserva segura da estepe do Don: o Corpo Blindado de Guarda V, o Quinto Exército de Guarda, o Quinto Exército de Guarda Blindado, o Corpo Blindado de Guarda II — tropas, de cuja existência ninguém suspeitava até então. Seu ataque atingiu em cheio o Corpo Blindado SS II. E também os Qüinquagésimo Terceiro e Sexagésimo Nono Exércitos marchavam novamente e apertavam as tropas alemãs. Perto de Bjelgorod, porém, entre Corotscha e Voltschansk, o Sétimo Exército de Guarda avançou em cheio sobre a marcha persistente do Terceiro Corpo Blindado alemão.

O Sétimo Exército de Guarda, com uma pequena unidade de elite a ele vinculada, da qual se falava com espanto e admiração: a Divisão Bajda. O batalhão de mulheres. Os anjos da morte.

Esta contra-ofensiva dos soviéticos no dia 12 de julho acabou, de uma vez por todas, com as ilusões alemãs. Os batalhões se enfronhavam na terra ou recuavam, massacrados pelos tanques em massa, destroçados por mil armamentos, desesperados, de volta às suas antigas posições, a partir das quais tinham iniciado, no dia 5 de julho, a ofensiva tão esperançosa, a Operação Cidadela.

Nem 10 dias tinham-se passado. Foram os últimos dias em que se podia ainda acreditar em um êxito que abrisse o caminho para a frente. O que vinha agora, era a morte, infinitamente lenta, corajosa, insensata, horripilante dos exércitos alemães, a morte de centenas de milhares, de volta à Alemanha. E o Exército Vermelho os seguia como uma tempestade marítima.

A Quarta Companhia do Tenente Bauer III estava paralisada entre Novo Sloboda e Corotscha. Depois que conseguira, ainda no dia 11 de julho, ocupar o povoado, depois de terem quebrado a resistência encarniçada do batalhão de mulheres, de três divisões de Pak e de 14 tanques, de repente, como nascidas da terra, fortes tropas soviéticas fechavam o avanço. Quando, no dia 12 de julho, começou o fogo de mais de 3 mil peças de artilharia e a estepe se transformou em um inferno de explosões, Bauer III, e sua tropa, com o sargento-mor Pflaume, Peter Hesslich e três outros fuzileiros, remanescentes das tropas de pioneiros e os homens desgarrados de dois leves Flaks, em pedaços, agacharam-se nas ruínas de Novo Sloboda e aguardaram o ataque soviético.

Tinham passado por maus bocados nesses dois últimos dias.

Tudo começara quando as malditas mulheres simplesmente levaram consigo o médico auxiliar Ursbach. Os três enfermeiros chegaram, suados e com falta de ar, entre eles o cadáver de von Stattstetten, ao abrigo da companhia e relataram as coisas extraordinárias que se tinham desenrolado quando foram procurar os feridos.

Uma médica soviética aprisiona um médico alemão — como se isto não fosse nada. Um homem — o Alferes von Stattsteíten — é simplesmente morto sob a bandeira da Cruz Vermelha. Assassinado — esta era a expressão adequada para Bauer III, pois a morte de Stattstetten já não tinha mais nada a ver com o conflito bélico.

Bauer III notificou imediatamente o regimento. Mas lá eles tinham agora outras preocupações. Ao invés de, como Bauer III o sugerira, aproveitar o incidente do ponto de vista da propaganda: Os soviéticos desprezam a imunidade dos médicos, pisoteiam a Convenção de Genebra! Na realidade, este teria sido um tema maravilhoso, a ser publicado em todos os lugares com alarido, com Ursbach e von Stattstetten apresentados como heróis silenciosos —mas não nesse momento. Os batalhões alemães estavam presos por toda a parte, a Operação Cidadela mancava. Com tantas coisas em que pensar, como é que um alferes morto e um médico seqüestrado poderiam ainda interessar a alguém? Portanto, a indignação espalhou-se apenas pela Quarta Companhia. Enquanto Bauer III maldizia as mulheres selvagens do outro lado, e jurava que a partir de então nunca mais pensaria no que as distinguia dos outros soldados pelo que tinham sob a blusa e as calças, Hesslich pensava em Stella Antonovna e na situação inextricável dos dois. Desejava nunca mais encontrá-la — e ao mesmo tempo sonhava em tê-la novamente nos braços e sentir o seu hálito quente no pescoço. Tinha saudades dela, mas ao mesmo tempo implorava que o destino a afastasse dele o mais longe possível.

A contra-ofensiva dos soviéticos no dia 12 de julho confundiu os alemães. Também a Quarta Companhia foi obrigada a desocupar Novo Sloboda e, sob os tiros dos blindados e perseguidos pela infantaria russa, caminhou rio abaixo, nas margens do Corjen, para se situar, com outros grupos, em torno de Bjelgorod, formando um anel protetor. Aproximavam-se, pois, cada vez mais, do pequeno povoado de Njekjudovo, onde a Divisão Bajda acabara de chegar. Tinham ido para o sul, quase um ao lado do outro, separados só pelo riacho. Toda a força do Sétimo Exército de Guarda agora se apoiava em várias cunhas de ataque. O General Conjev anunciara o novo alvo: primeiro Bjelgo­rod, depois Charkov.

O médico Ursbach auxiliava Galina Ruslanovna.

Ajudava-a no cuidado dos feridos, limpava feridas, carregava a comida para os convalescentes e vivenciou os últimos quilômetros da retirada e depois o novo avanço, como se fosse um soldado do Exército Vermelho. Tinha liberdade de movimentos, ninguém parecia admirar-se pelo fato de um fascista de repente andar de lá para cá na divisão e auxiliar, sempre que necessário. A própria Galina cuidara que as moças não vissem em Ursbach algo de extraordinário — o que na realidade era, já que o tinham deixado continuar a viver depois de ter sido feito prisioneiro. Rapidamente a operação que ele fizera em Amalja Romanovna foi comentada por toda a divisão. Stella Antonovna ainda durante a retirada do dia 11 de julho aparecera, durante um curto descanso, no veículo de enfermagem, e agradecera a Ursbach por ter salvo sua camarada.

— Você médico — disse, conscientemente rígida, para não demonstrar nem um vislumbre de sua emoção interior. — Era deverr de você ajudar. Você . . . ssempre inimiggo. . .

— Eu sei. — Ursbach finalmente tivera tempo para fitar melhor Stella Antonovna. Hesslich lhe dissera que ela era a pessoa mais corajosa e de mais sangue-frio que jamais encontrara. Uma moça que sozinha dizimara uma forte companhia combatente por meio de tiros na cabeça. Agora, vista assim de perto, o que fascinava nela era a total normalidade de sua aparência. Se em pensamentos, se deixasse de lado o uniforme com as comendas, e a imaginasse em um vestido de camponesa, com um lenço nos cabelos louros, era fácil visualizá-la no mercado, a vender cebolas e pepinos, ou encontrá-la em uma carroça de madeira, puxada por um raquítico cavalinho, com as latas de leite a sacolejar atrás. Sua maneira de olhar era aberta e o examinava, mas não transmitia a imagem de uma heroína selvagem ou de alguém cheio de ódio, que só pensava em matar a tiros. Ela se postara na sua frente, as pernas levemente arqueadas, sem nenhum sinal de sedução erótica, de maneira completamente contrária à de Galina Ruslanovna, cujo andar, assim como os gestos e o passar rapidamente a língua pelos lábios constituíam um convite inequívoco.

Certamente Ursbach perceberia Stella Antonovna de maneira completamente diferente, se ele soubesse que ela usava a boina cinzenta de Hesslich junto ao sutiã, a qual lhe transmitia, sem cessar, o sentimento de qué Piotr estava com ela, pele sobre pele.

— Conte! — disse Stella, aproximando-se de Ursbach, ao lado do carro nº 2, no abrigo ali improvisado a partir de toldos e encostado no veículo. Os feridos tinham recebido sua comida, agora podia-se descansar um pouco. Tinham recuado um pouco mais depressa do que os alemães poderiam acompanhar. Ainda chovia a cântaros, soldados portadores de notícias passavam por eles em motocicletas barulhentas, que levantavam nuvens de lama, a fim de manter a ligação com as outras partes das tropas. A frente dianteira agora se misturava com as reservas que tinham vindo da estepe. O Coronel Schementschuk, o novo comandante, apresentou-se pelo rádio à Divisão Bajda. A radiotelefonista trouxe a notícia a Stella, inclusive a ordem de que a divisão deveria se ligar à Terceira Companhia de Infantaria de Guarda, que ficava ao seu lado. Amanhã começaria o ataque contra Bjelgorod. Durante a noite chegariam 40 tanques. Além disso colocariam na frente um hospital de campanha bem equipado, com cinco médicos, 14 enfermeiras e suficientes barracas. A Camarada Opalinskaja deveria se apresentar neste novo hospital.

Com isto Ursbach passara a ser dispensável e poderia ser liquidado. Em qualquer outra parte ele seria mandado para adiante, para o acampamento de recolhimento de prisioneiros, para o acampamento de concentração, para o acampamento de transportes, para o local de guarda de prisioneiros, onde ele poderia cuidar dos camaradas alemães na qualidade de médico. Mas na Divisão Bajda não.

— Que devo contar? — perguntou Ursbach.

— Da sua vidda.

— Minha vida? Aí há pouco o que contar. Deveria estar começando, como a sua.

— Seus amigos. . .

Ursbach fitou Stella Antonovna, pensativo. Aha, refletiu. Isto é uma pergunta que visa Peter Hesslich. Durante alguns minutos fui padre confessor de Hesslich, mas mesmo assim ele só me transmitiu vagas indicações. A única coisa que se poderia extrair do que disse era: Hesslich deveria ter-se encontrado com este diabo, como Bauer III a denominava. O que ocorrera? Por que ele ainda estava vivo? Por que Stella Antonovna ainda existia? Hesslich se modificara, isto Ursbach sentira. Tornara-se ainda mais calado, recolheu-se para dentro de si mesmo, escondia algo interiormente. Poderia tratar-se desta moça, a mais odiada nesta parte da frente?

— Você quer ouvir alguma coisa a respeito de Peter Hesslich? — perguntou sem rodeios.

Stella Antonovna não demonstrou nenhuma emoção. Seu rosto não tremeu, os olhos não faiscaram. Que o seu coração batia contra a boina de tricô cinzenta, isto ninguém viu nem ouviu.

Njet! Qualquer coisa. . . — disse, asperamente.

— Peter é um homem maravilhoso — disse Ursbach, tranqüilo, como se falasse de coisas realmente destituídas de importância. — Ama as flores, os animais e os homens, detesta a violência, maldiz esta guerra e anseia voltar para suas florestas. Você sabe, ele é guarda-florestal, um homem que administra a floresta, protege os animais. . .

Lesnitschij — disse Stella, devaneando.

— Pode ser, eu não sei russo. Então, tudo bem, ele é um Lesnitschij.

— E agora profissão: Mattar.

— Você também mata. Uma moça!

— Para a páttria.

— Ele também pensa assim.

— A Rússia é sua páttria?

— Contaram-nos que os russos queriam ocupar a Alemanha, mas que nós fomos mais ligeiros. Nisso todos acreditaram. Nós todos!

— E a Polônia?

— Sim, tudo começou com a Polônia. Aí Hitler disse que nós estávamos nos defendendo. Ou seja: eles iniciaram o ataque! Ficamos indignados, todos nós. Afinal de contas, acreditamos no que nos contaram.

— E a França?

— A França e a Inglaterra declararam guerra contra nós e não nós a eles. Que podíamos fazer? Tínhamos de vencer.

— Tão fácil para vocês alemães — disse ela, com amargura. — Não ppensar. Só ddever. . .

— Mas quem de nós pensava no ano de 1939? Não fomos educados para pensar, só para marchar. “A nossa bandeira, a flutuar, na nossa frente...” E esta nos indicava o caminho! Para onde nos leva esse caminho? Que pergunta! Para onde vai a bandeira, essa via temos de seguir, cegos. Como é que nós cantávamos? “Para o futuro vamos, homem por homem” E: “Com a bandeira da juventude, pela liberdade e pelo pão. . .” Coisas como estas arrebatam, Stella Antonovna. Nós éramos jovens, capazes de nos entusiasmar por qualquer coisa! Vocês não têm canções como estas nos Komsomolzs? Vocês por acaso não marcham atrás de bandeiras vermelhas a flutuar? Nos festejos do Dia de Maio e da Revolução de Outubro por acaso vocês não carregam, em triunfo, cartazes gigantescos com as cabeças de Marx, Engels, Lenin e Stalin? Isto é diferente das canções dos nossos jovens: “. . . nossa bandeira representa a nova era, nossa bandeira nos leva à eternidade, sim, a bandeira ultrapassa até a morte!”? — Ursbach respirou fundo, enquanto Stella Antonovna o fitava em silêncio. — Aí o temos: nossa bandeira ultrapassa até a morte! Isto cantávamos a plenos pulmões, sem pensar no que significa a morte, o que quer dizer perecer em um estouro de granada, quão horrível é morrer assim, quando nós nos arrastamos com a barriga estraçalhada e intestinos a escapar do ventre, berrando por nossa mãe. Quem pensava nisso, quando nós cantávamos: “E a bandeira nos leva à eternidade. . .”?! Céus, como ficávamos orgulhosos, ao entoar esta canção — tão orgulhosos quanto ficavam vocês, por dedicar a sua vida ao partido ou ao Grande Camarada Lenin! Nem esta guerra vai mudar nada. Os políticos continuarão a abusar da juventude, facilmente arrebatada, sem vergonha e sem castigo, para idealizar seus fins egoístas! E sempre haverá moças e rapazes que cantarão, com vozes claras, entusiásticas, uma besteira criminosa, como nós:



Não olhamos para a esquerda, não olhamos para a direita,

Avançamos em linha reta, rodeados pela tempestade.

Somos herdeiros da raça diante da qual

O mundo inteiro estremece.

Só nós possuímos a força e a coragem

dos audazes e dos arrojados.

Iremos reparar por atos de coragem

o sangue dos nossos irmãos mortos.

“Isto nunca se alterará! Nunca! A política necessita do crime perpetrado contra a juventude como o pulmão de ar. Sem juventude não há futuro — isto é lógico. Portanto, temos de manipular a juventude de acordo com sua ideologia: Isto é o credo fundamental dos políticos. — Ursbach enxugou o rosto úmido. Não era suor; a chuva penetrava por um rasgão do toldo levantado so­bre eles. — Então, Stella Antonovna, foi isto que aconteceu conosco. Um dia. . . se sobrevivermos à guerra. . . uma nova juventude nos acusará, uma juventude que nem percebe que ela também já está corroída por slogans ocos. Mas três palavras serão sempre omitidas, pois os políticos as percebem como intoleravelmente revolucionárias: Irmão-Irmã-Homem! Nunca compreenderei por que tem de ser assim. Por que razão o homem nunca aprende a utilizar convenientemente esta bênção que lhe foi concedida: sua capacidade de pensar.

Stella Antonovna pôs a mão no bolso, retirou um pacote amarrotado de Papirossa e o estendeu para Ursbach.

— Toma — ofereceu ela. - Eu não ffumar. Você muitas palavras. Eu comprrender pouco, mas sei o que é. Onde está Piotr?

— Hesslich? Em algum canto da estepe. Se é que ainda está vivo.

— Ele não pode escappar?

— Você pode escapar, Stella?

Ela o fitou com os olhos azuis-esverdeados, mordeu os lábios e deu de ombros. Depois protegeu-se com um pequeno toldo e saiu a correr na chuva torrencial.

Subitamente apareceu Galina Ruslanovna. Ela deveria estar em algum lugar, à espreita, aguardando tal oportunidade.

— O que ela queria? — perguntou sem fôlego. Seus seios arfavam. O olhar transmitia algo como medo.

— Nada.


— Ela esteve aqui por muito tempo!

— Nós ficamos conversando.

— Ela disse o que vai acontecer com você?

— Não! — O coração de Ursbach se contraiu. Isto é medo, pensou. Homem, Helge, nada mais do que um medo miserável. Agora, subitamente, você teme por sua vida! Sente-o até no cu. Medo. — Mas eu sou um prisioneiro de guerra, não? Médico! Enviar-me-ão para um acampamento.

— Isto nós não sabemos. — Os olhos de Galina se assemelhavam a frestas fervilhantes;ele percebia a intranqüilidade indomável, que fazia tremer seu corpo. — Sibirzev dirá: nada de prisioneiros.

— Ele não pode fazer isso!

— Dirá: morto a tiros ao tentar fugir.

— Sim, isto ele pode fazer. — Ursbach acenou várias vezes. Por que motivo os russos deveriam ser diferentes dos alemães? Recordava-se de um acontecimento no inverno de 1942. Uma tropa de ataque trouxera sete prisioneiros russos. O comandante da companhia ordenou a dois soldados que levassem os prisioneiros até o batalhão. Isto significava: quase nove quilômetros a pé, através da neve compacta, 35 graus abaixo de zero, sobre a estepe onde o vento gemia, e depois por uma floresta quase impenetrável. Nove quilômetros de ida, nove quilômetros de volta são 18, só para levar sete russos para um lugar seguro. Os dois soldados se puseram em marcha, com pedaços de gelo colados no nariz, e um xale sobre a boca, duro feito pedra após alguns minutos, pela respiração congelada. Após meia hora estavam de volta, sozinhos; puseram-se em posição de sentido e diante do comandante da companhia, que estava agachado, com o cenho franzido, no abrigo, deram a notícia: “Os prisioneiros tentaram escapar. Foram todos mortos nesta tentativa de fuga!” Ninguém mais comentou o assunto.

Por que deveria Sibirzev agir de forma diferente?

— Se tiver de ser. . . — disse Ursbach, rouco. - Não me ajoelharei diante dele.

— Eu vou esconder você — disse Galina Ruslanovna e levantou a mão, para acariciar-lhe os cabelos louros úmidos, molhados pela chuva. — Você me acompanhará, onde quer que eu esteja. . .

— Como você vai conseguir isto? — perguntou ele. Sentia o peito como que comprimido por uma faixa de aço. — 400 olhos nos observam!

— E não o verão mais! — Ela sorriu, tomou-lhe a mão, colocou-a sobre o seio esquerdo, suspirou fundo, com os olhos fechados; depois o empurrou para longe e saiu do abrigo.

Na noite de 12 para 13 de julho alguém acordou Ursbach, sacudindo-o. Estava sobre um cobertor, perto da porta do cano. Atrás dele dormiam as sete moças feridas, que ele há pouco pensara novamente e a quem dera comprimidos para minimizar a dor.

Na noite de 11 de julho tinham alcançado o pequeno povoado Njekjudovo, e agora aguardavam para onde seriam designados. De madrugada começara a contra-ofensiva soviética. O céu parecia ribombar com os berros dos canhões. Colunas após colunas de tanques passavam por eles, a caminho das pontas de ataque alemãs, que imediatamente se entrincheiraram ou recuaram para as ruínas do povoado, para lá formarem posições de ouriços. Durante o dia todo os caminhões com soldados da infantaria trovejaram pelo povoado, colunas de munições, divisões de artilharia, carros-oficina e sempre novas tropas. De todos os lados as peças de artilharia berravam e depois aceleravam, para mudar de posição. Ao redor de Njekjudovo neste dia bramia, em selvagem fúria, um caos de pessoas, máquinas e cavalos — parecia algo impossível de desenredar mas na realidade era dirigido por um plano preciso e processado com uma exatidão inacreditável.

A Divisão Bajda aguardava, em estado de prontidão, alerta para se deslocar em direção à frente dianteira. Mas ela não foi convocada. O novo Coronel Schementschuk parecia ser da opinião de que esse ataque velocíssimo não era algo adequado para mulheres. Na guerra das posições, isto sim, as fuzileiras eram insubstituíveis, mas em uma ofensiva só atrapalhariam. Quando a frente se tivesse novamente estabilizado, quando os adversários novamente se defrontassem em posições frente a frente, então poder-se-ia lançar mão novamente do batalhão de mulheres. Enquanto isso, que as moças lavassem roupa, ou, se quisessem, fossem foder com o contingente imenso que vinha da retarguarda. Estava mais do que claro que Schementschuk tinha uma opinião pouco lisonjeira a respeito das mulheres, quando se tratava de combate em campo aberto.

— Levantar! — murmurou uma voz ao ouvido de Ursbach. — Levante-se e venha! Rápido! Venha!

Ursbach saiu devagarinho do carro e fechou a porta silenciosamente. Do lado de fora estava Lida Djanovna; ela pegou-lhe a mão e o arrastou consigo. Correram, protegidos pela noite de uma escuridão profunda, ao longo das casas e alcançaram um pequeno celeiro na margem do povoado. Lida empurrou Ursbach para dentro. Um fósforo se acendeu; ela usou-o para fazer arder um toco de vela, colado em um pequeno pedaço de madeira. Ao lado, havia um pequeno monte de roupas e em cima um boné do tipo usado por operários ou camponeses.

Lida apertava ambas as mãos contra os seios; depois apontou para as coisas.

— Vestir! Rápido! Você deve ir em direção sudoeste, sempre à beira do rio. Depois para o Donez. Os seus camaradas estão em Crinovno, voltam para Bjelgorod. Ainda pode alcançá-los. . .

— Lida — Ursbach tentou puxá-la contra si, mas ela lhe bateu nas mãos e recuou.

— Tem tempo não! Vestir roupas! Rápido! É de operário!

— Eu amo você, Lida —disse Ursbach roucamente, comovido. — Só você, Lida. Não Galina! Nunca!

— Vestir! — Ela se curvou, estendeu-lhe a calça esfarrapada e quando ele viu nos seus olhos o intenso medo, porque cada minuto poderia significar o fim, não hesitou mais, arrancou o uniforme do corpo, vestiu as roupas de civil, meteu o boné na cabeça. As roupas lhe assentavam mais ou menos.

Lida embalou o uniforme e o escondeu sob um monte de escombros.

— Vai! — falou ela com voz surda. — Depressa!

— Lida. . . — Apesar de tudo, a puxou contra si e a beijou. Sentia como ela tremia, intensamente; suas mãos passavam, irrequietas, por suas costas. — Pensei muito sobre o problema. Se eu ficar aqui. . . se eu ficar com você. . .

— Sibirzev irá matá-lo! E Galina também, se você me ama!

— Vocês irão avançar, seguir as tropas alemãs. Eu fico aqui, ou em qualquer outro lugar, nesta parte do terreno, e espero por você. Agora pareço um russo. Irei para o oeste.

— Você pertence ao grupo dos seus camaradas.

— Lida, não quero ser um herói! Isto pode soar como covardia mas não é covardia. Os heróis mortos, na maioria, jamais quiseram ser heróis. Queriam continuar a viver! Se alguém perguntasse: o que você prefere: cada ano uma oração comemorativa dos seus atos heróicos com música marcial e coroa, ou uma casinha em um canto qualquer, com uma mulher querida e três filhos?. . . O que teriam eles respondido?

— Você falar, falar, falar. . . Você tem de correr! Embora! Vá!

— Lida! — Abraçaram-se e beijaram-se novamente. Mas, subitamente, Lida Iljanovna lhe deu um chute contra a perna e o empurrou para longe de si.

— Vá! — disse com grosseira e fechou as duas mãos em punhos. — Seu cachorro alemão! Corra!

Ela apagou o toco de vela, empurrou a porta do celeiro e saiu correndo. Ursbach tentou segui-la, mas não conseguiu mais vê-la na escuridão da noite. Correu várias vezes em torno das casas próximas, mas não ousava gritar.

Então ficou parado, passou as mãos pelo rosto e mordeu o próprio dedo, pois tinha uma vontade quase irresistível de gritar. Ainda esperou alguns minutos, na esperança louca de que Lida pudesse voltar. Depois, andou, sem pressa, pelo povoado, passou pelas colunas de transporte paradas e por estados-maiores instalados às pressas, oficinas e depósitos; caminhava entre as pessoas como um operário, que pertencesse ao lugar, e ninguém lhe perguntou o que estava fazendo ali.

Diante de uma casa roubou uma bicicleta, sentou-se nela e pedalou, entre as colunas de material que avançavam, na direção sudoeste. Também aqui, na escuridão, não chamou a atenção de ninguém, todos estavam com o pensamento ocupado pela ofensiva. Quem, numa hora dessas, iria se preocupar com uma camarada operário montado em uma bicicleta?

Com o raiar da pálida madrugada Ursbach já estava na região da artilharia. Aqui um civil realmente não tinha nada a procurar.

Ursbach escondeu-se, junto com a bicicleta, em um terreno cheio de arbustos e elevações, e esperou o raiar do dia.

Agora Galina irá perceber que eu sumi, pensou ele e repentinamente um medo atroz por Lida o invadiu. O que a Opalinskaja vai fazer agora, além de ter um acesso de raiva e berrar? Alarmar os comandos de busca? Será que agora, durante a grande ofensiva, procurarão um alemão foragido? Afinal de contas, tinham coisas mais importantes com que se preocupar!

Ursbach se esticou no esconderijo sob os arbustos e observou o nascer do sol, hoje quase incolor, de um amarelo aguado. O momento fora o mais adequado para a fuga, ele agora o percebia. Só estava aborrecido porque, agora, teria de ser o que nunca desejara ser. Mas teria de vir a sê-lo, para salvar sua vida: um herói.

Galina Ruslanovna levou uma hora para afinal compreender que em Njekjudovo não existia mais um Helge Ursbach.



Primeiro pensou que ele fora passear pelo povoado, para observar a marcha das tropas soviéticas, mas depois achou isto uma tolice, pois qualquer soldado vermelho, especialmente qualquer oficial, imediatamente prenderia Ursbach, que ainda usava uniforme alemão. Perguntariam: Mas o que é isto? Como é que um soldado alemão está passeando, bem na retaguarda das linhas soviéticas? E ainda usando a Cruz de Ferro! Camaradas, alguma coisa está errada.

Também Stella Antonovna não tinha explicação alguma. Disse apenas:

— Tome melhor conta dele, Galina! E agora, se ele tiver sumido?

— Para onde? — gaguejou a Opalinskaja. De repente a garganta parecia-lhe estrangulada, ela sentia frio. — Isto é impossível. . .

— O que é impossível?

— Que ele simplesmente tenha dado o fora! Por que motivo?

— Talvez ele tivesse medo de você.

— Como assim?

— Existem homens que são capazes de fugir de um tesão grande demais.

A Opalinskaja lançou um olhar rápido para Stella, não disse uma palavra sequer, virou-se e saiu correndo. Não foi procurar Sibirzev, isto era perigoso demais. Correu de um abrigo para outro, atravessou duas vezes o povoado e nas últimas casas destruídas esbarrou com Lida Iljanovna.

Isto lhe pareceu estranho. A Selenko estava sentada sozinha, apoiada na parede de uma casa, tão imóvel como se fosse uma imensa boneca abandonada e olhava para a margem do rio. Galina ficou parada, a certa distância, encostou-se na parede de um estábulo e a observou durante algum tempo. Subitamente Lida se levantou e desceu lentamente em direção ao rio. O caminho estava amolecido pela chuva forte, ela afundava na lama espessa até os tornozelos mas retirava os pés da massa empapada e colocava automaticamente um passo adiante do outro.

Após breve hesitação Opalinskaja a seguiu. A meio caminho entre as últimas casas de Njekjudovo e o rio, em uma ligeira concavidade, onde a água da chuva ainda formava uma poça na lama e as botas de Lida, a cada passo que dava, faziam espirrar a água até o cinto, Galina a chamou.

— Onde você vai, Lidotschka? — chamou. — Pare! Tenho algo a discutir com você!

Lida Djanovna parou, como se alguém tivesse desligado o motor. Era até de espantar que ainda tenha baixado a perna na poça de lama profunda e não parou em pleno movimento, com a perna meio no ar. Seu rosto estava pálido e pétreo, os olhos brilhavam feito vidro. Apenas as pontas dos dedos nas mãos abaixadas tremiam.

Galina Ruslanovna foi para o lado de Lida e por sua vez teve de ficar de pé na poça de lama; o chão todo formava uma só pasta.

— Você já ouviu? — perguntou Opalinskaja, sem fôlego.

— O que eu deveria ter ouvido? — A voz de Lida era tranqüila, mas sem modulação alguma. Não olhou para Galina, mas mirava, incessantemente, o rio à sua frente.

— Não consigo encontrar meu prisioneiro em lugar nenhum.

— Você o está procurando?

— Naturalmente!

— Você não vai encontrá-lo.

— O que você está dizendo? — Opalinskaja mirou Lida Djanovna como se a moça tivesse perdido o juízo. Depois uma onda de calor invadiu todo o seu corpo, agarrou a blusa de Lida com ambas as mãos, enterrou-as fundo e puxou Lida para si.

— Você não vai encontrá-lo — respondeu Lida, calmamente.

— Você o escondeu, hem? Sua putinha fodida! Onde está ele? Devolva-mo! Então você vai e esconde o meu prisioneiro! Devolva-mo, estou lhe dizendo!

Sacudiu Lida Djanovna. Esta não se defendeu; aguardou, deixou Opalinskaja dar vazão à sua raiva e depois disse, enquanto Galina parava para res­pirar:

— Eu não o escondi.

— Não minta! — berrou Opalinskaja.

— Juro pelos olhos da minha mãe. Isto basta?

— É fácil fazer um juramento desses, quando ela é cega! — gritou Galina. — Você sabe onde ele está! Lá embaixo no rio? Em uma cabana de pescadores? Um ninho de amor, não é? Vocês treparam a noite toda e agora ele está cansado e dorme, e você fica de vigia. Não é assim? Me responda! Por que você está aqui no rio? Andando pela lama? Ele se escondeu lá embaixo, não o negue! — Estendeu novamente as mãos, puxou Lida para junto de si e gritou diretamente nos olhos da moça: — Você vai me levar até ele! Imediatamente! Vá na frente e me mostre o caminho! Oh, sua piranha de merda, eu vou matar você, se não me atender!

— Você faria isto? — perguntou Lida Iljanovna com a voz desprovida de alma. —Matar-me?

— Rindo, com um grito de júbilo! — Puxou Lida pelos cabelos, empurrou a cabeça da moça, com força, de um lado para o outro e berrou: — Veja como sou forte! Arrancarei sua cabecinha de merda do pescoço! Atirarei fora os poucos miolos que tem! Leve-me a ele, sua gata no cio!

— Ele já está longe. . . — respondeu Lida, como se falasse em sonho. — Muito longe. . . Nunca mais retornará.

Com um soluço profundo, que mais se assemelhava a um grito estrangulado, Galina levantou o punho. Mas desta vez Lida não se submeteu. Acordou subitamente da sua rigidez, como se algo tivesse rebentado dentro dela — seu joelho se levantou e bateu contra o abdômen de Galina, causando-lhe tanta dor, que a mão que segurava convulsivamente o cabelo de Lida se abriu e largou a adversária.

Ficou parada, com os olhos arregalados, a boca aberta, quando o segundo golpe de Lida a atingiu nas têmporas. Não um soco com o punho, mas com a quina da mão, como aprendera em Veschnjaki e sempre recebera elogios da Coronel Olga Petrovna Rabutina. Um golpe, que paralisa o adversário, apaga todas as funções, assim como se apaga uma luz.

Opalinskaja se encolheu, caiu sobre os joelhos e bateu com o rosto na água lamacenta que ia até as coxas. Instintivamente, tentou se virar, para não cair de bruços, mas Lida Iljanovna ainda lhe deu, enquanto caía, um pontapé nas costas.

Não era mais possível escapar. Lida pulou, de olhos fechados, sobre o corpo de Galina, aterrissou sobre ele de pernas abertas, suas pesadas botas empurraram o corpo para dentro da lama, e enquanto Galina, tremendo, com selvagem fúria, tentava se erguer, a bota direita comprimia sua cabeça fundo dentro da pasta de lodo, e a esquerda a golpeava nas costas, na bacia e sobre as coxas, e logo a tremedeira e o espernear cessaram.

Lida Iljanovna de pé, com os olhos fechados, em cima do corpo de Opalinskaja, metade afundado na lama. A moça erguia a cabeça para o céu, seu rosto estava alagado em lágrimas, e, enquanto Galina Ruslanovna, sob suas botas, sufocava na lama, só pensava: Por você, meu amor! Por você. Corra! Corra! Que Deus o acompanhe.

Quando Opalinskaja não se mexeu mais e nem se podia cogitar de que ainda estivesse viva, Lida saiu de cima do corpo encolhido e foi, sem olhar para trás uma só vez, de volta para Njekjudovo.

Na margem do povoado ela lavou as botas em uma poça de água limpa, retirou as manchas de lama do uniforme e retornou, tranqüila, para seu abrigo. Verificou que não tinham dado por falta dela. As moças de seu grupo estavam ocupadas em descarregar um caminhão cheio de sacos com pepinos frescos. Ninguém sabia de onde ele viera; de repente aparecera. Sibirzev, que o descobriu, esperou durante duas horas, e quando não apareceu nenhum camarada, deu sinal de alarme:

— É preciso tomar o que o céu nos dá! — gritou, alegre. — Um caminhão cheio de pepinos! Camaradas, vamos, peguem os pepinos e os ponham no nosso depósito!

Lida Iljanovna entrou na fila, carregou, gemendo, o seu saco de pepinos e todos teriam jurado que ela já estava lá desde o início.

De noite Galina Ruslanovna foi achada na encosta do rio. Os feridos tinham começado a ficar irrequietos, porque ninguém cuidava deles, nem a Opalinskaja nem o médico alemão. Stella Antonovna, que imediatamente se lembrou da procura de Ursbach, que Galina mencionara, enviou cinco grupos para descobrir onde estava Opalinskaja. Foi Sibirzev quem a achou. Sufocada na lama. Como uma morte destas não poderia ser considerada nem normal nem natural e além disso o médico auxiliar Ursbach sumira, ninguém duvidou de que ali se tinha desenrolado um crime hediondo.

Inicialmente a levaram para o hospital.

— Então, o que foi que eu disse? — perguntou Sibirzev ironicamente, quando Stella Antonovna ficou a olhar o cadáver com um aspecto horrendo. — Liquidar! Liquidar imediatamente! Mas não, não, vocês reviraram os lhos e sibilaram: Mas ele é médico! E o que faz o médico, esse santo? Afoga Galina como um gato na lama! E agora, de que lhes valeu a sua humanidade?! Deveríamos cobrir de merda tudo que fede a consciência! Sempre disse isto, mas aos olhos de vocês eu não passo de um selvagem!

— Isto não nos ajuda muito agora, Bairam Vadimovitsch — respondeu Stella Antonovna, oprimida. — Por acaso você também quer berrar assim com o Camarada Coronel? O que vamos dizer a ele?

— Galina Ruslanovna foi assassinada!

— Por quem?

— E nós o sabemos? O assassino sempre assina seu nome? Naturalmente, se pudéssemos dizer: Foi o cachorro alemão! Médico afoga uma médica! Isto seria belíssima matéria-prima para a nossa propaganda! Nos beijariam, Stella Antonovna. Foi um filho da puta alemão! É de coisas como estas que precisamos para levantar nossa moral! Uma besta alemã! Mas infelizmente não pode­mos. Afinal de contas, nunca fizemos um prisioneiro! O peito se me arrebenta de amargura!

— E por que Galina foi assassinada?

— Somos nós os assassinos, que temos de prestar contas de tudo? Na realidade, nós somos os assassinos, portanto: bico fechado! Vamos insinuar: Com a Camarada Opalinskaja a razão vergava, cada vez que via um par de calças masculinas. Deveríamos procurar o autor do crime? Isto seria um trabalho sem sentido. Quantos oficiais passaram hoje por Njekjudovo, com os quais Galina Ruslanovna poderia ir atrás de um arbusto! E é isto que se deve ter passado, lá embaixo no rio. Afinal de contas o que tinha ela de fazer por lá? — Sibirzev piscou os olhos ardilosos de iacuta. — Isto eles vão ter de acreditar! Bênção e tranqüilidade para nós!

No dia seguinte Galina Ruslanovna Opalinskaja foi enterrada no cemitério de Njekjudovo, e 12 moças atiraram sobre seu túmulo a última salva de tiros.

Entre elas estava também Lida Iljanovna, e sua mão não tremeu.

A contra-ofensiva soviética avançava, sem poder ser detida, e reconquistava tudo que os alemães tinham ocupado nos dias anteriores. Os exércitos russos derrubavam as fracas posições da retaguarda alemã e assaltavam, em cunhas de tanques, dispostas em camadas, como ondas, das quais as últimas, com ajuda da infantaria, limpavam a região conquistada dos núcleos de resistência alemães, dirigindo-se para os grandes alvos: Orei, Bjelgorod, Charkov. As perdas em termos de tanques, peças de artilharia e soldados eram imensas mas as tropas alemãs foram dizimadas. Na realidade não houve excesso de mortos e fe­ridos: derrubados e separados pelas cunhas de tanques, desgarrados pelo louco fogo da artilharia, milhares foram feitos prisioneiros.

A maior batalha de tanques da história do mundo começara. Massas nunca vistas de artilharia cuspiam fogo e morte. Apenas na região de Bjelgorod 6.000 peças de artilharia atiravam nos batalhões alemães. O General Conjev jogara tudo que ainda havia de reservas na estepe do Don para a frente. O aprovisionamento das tropas alemãs foi completamente esfacelado. Charkov, até então retaguarda bem afastada, com teatros, cabarés, óperas e shows, bordéis para oficiais, suboficiais e tropas, sanatórios para soldados levemente feridos, um exército de enfermeiras, ajudantes radiotelefonistas, este alvo de todas as saudades. Charkov, onde ainda havia champanha, conha­que da Grusinia e porcos assados; onde, nos cassinos dos oficiais eram servidos jantares com 17 pratos por ordenanças vestindo smokings brancos e, à guisa de sobremesa, moças a tudo dispostas, de todas as cores, da anglo-saxônica loura até a asiática com seus olhos amendoados. Charkov, a cidade em que todas as provisões especiais ficavam presas, a respeito das quais o soldado raso, na frente, na lama, só sonhava, esse oásis da corrupção, das piranhas e das bajulações, porres e malandragens, mas, concomitantemente, também a cidade dos hospitais e campos de recolhimento magnificamente instalados, dos depósitos de munição e oficinas, essa Babel na forca dos Rios Uda, Casatschja Lopan e Charkov, aprontou-se pela terceira vez para trocar o paraíso por um inferno de chamas.

No meio das colunas soviéticas que avançavam Ursbach também marchava para o oeste, sempre na esperança de que o ataque pudesse parar mais tempo em algum lugar. Nesse caso ele conseguiria alcançar novamente as linhas alemãs.

Vivia uma vida de lobo nesses dias. De dia se escondia, de noite caminhava, roubava sua comida entre as tropas soviéticas que repousavam, e duas vezes até conseguiu viajar de caminhão. Sorrateiramente levantou-se pela traseira, escondeu-se sobre o toldo e pulou fora novamente ao perceber que a coluna de transportes alcançara seu objetivo.

Mas era uma corrida competindo com os acontecimentos. Sempre que julgava: agora os meus camaradas estão tão perto que os alcançarei, a frente cedia diante de si. Uma vez — era 23 de julho — foi absorvido por uma batalha de tanques. Estava deitado em um buraco de granada, atrás dele o Pak soviético atirava, diante dele avançavam quatro Tigres alemães, ao seu lado nove T-34 cuspiam fogo e; como era noite, ninguém o viu em seu buraco. Estava agachado e esperava que os alemães conseguissem, desta vez, avançar e passar por ele. Mas também esta esperança terminou com o fato de um dos Tigres se incendiar e os outros recuarem.

O avanço soviético continuava.

E o médico auxiliar Ursbach também continuava marchando. Foi pedalando uma bicicleta roubada — já era a quarta que surrupiava — pelas ruas incendiadas de Bjelgorod, que os russos tinham reconquistado. Seguiu o Quinto Exército Blindado de Guarda na sua corrida vitoriosa em direção a Slotschew, onde ele deveria formar uma cunha parcial dirigida para Charkov, que se reuniria, para formar um anel, em cujo ponto central estaria essa cidade, às cunhas parciais de Oitavo Exército de Guarda e as pontas blindadas no sul do Qüinquagésimo Sétimo Exército. Os tanques atacariam a cidade por três lados, e já avançavam por esses três lados. Quem ainda poderia sustá-los?

No dia 5 de agosto, sempre a uma proximidade da frente, que lhe permitia ouvir e às vezes até ver o que se passava, mas nunca tão perto que pudesse passar para o lado alemão, Ursbach estava deitado em uma clareira da floresta e tomara plena consciência do absurdo de sua situação: se as coisas continuassem do mesmo jeito, acabaria chegando até a Alemanha à sombra dos tanques soviéticos. Então tudo seria questão de tempo e de sorte.

Comida agora tinha o suficiente. Na última parada roubara um saco cheio de provisões e o amarrara na bicicleta. Afinal de contas, que mais se poderia desejar? liberdade, um saco cheio de comida, uma bicicleta, um lindo verão, quente, rios em que se podia nadar, celeiros em que se podia dormir. O que nunca o seduzira antes, a vida de um andarilho, a estrada a seus pés e a amplidão desconhecida diante de si, isto agora lhe parecia um pedaço que restara do paraíso.

Só o incomodavam as peças de artilharia, a cuspir fogo, os tanques trovejantes, as colunas de soldados e as grandes filas de prisioneiros exaustos suados e esvaziados. Prisioneiros alemães.

Algumas vezes deixou seus camaradas passarem por ele. Era impossível dar-se a conhecer. E assim viu, com o coração oprimido, como caminhavam, em filas de quatro ou seis, ao longo das estradas poeirentas, na direção oeste, para o próximo campo de recolhimento, onde seu destino futuro seria decidido. E lá estava ele de pé, na beira da estrada, um russo, com trajes amarrotados, remendados, na cabeça o boné, o rosto coberto por uma barba loura. Olhares o raspavam, um até gritou: “Chleb! Chleb!” mas ele não lhes deu nenhum pão, apenas sacudiu a cabeça, mudo, virou-se e saiu correndo, porque sentia que não iria agüentar aquilo por muito tempo e que acabaria por se denunciar.

Neste dia 5 de agosto ele dormia na clareira da floresta, ao lado da bicicleta, como tantas vezes o fizera nas últimas três semanas. Acordou quando sentiu que alguém o puxava pelo braço. Amarrara nele a bicicleta, com o cinto, para evitar que alguém lhe surrupiasse o veículo roubado. Agora via diante de si dois soldados do Exército Vermelho. Estavam menos interessados nele do que na bicicleta. Não tinham contado com o fato de que esta estaria amarrada no braço do dono. Que raposa esperta, este campesino!

Já que agora Ursbach acordara, os soldados assumiram uma pose bem militar, deram-lhe um pontapé no lado e ordenaram:

— Levante-se, sua cabeça de repolho! Isto é um inquérito! A serviço! E responda, senão o cobriremos de bofetadas, meu amigo.

Ursbach permaneceu sentado, já que não sabia falar russo. Não obstante, sorriu amigavelmente para os soldados.

— Tovaritschi. . . — disse polidamente, isto sempre soava bem: camaradas. Isto ele aprendera, além de algumas outras palavras.

Os dois soldados soviéticos se entreolharam admirados, deram mais um pontapé em Ursbach, para animá-lo e berraram:

— Levante-se! Onde você conseguiu esta bicicleta? Quem é que ainda tem uma bicicleta hoje em dia? Por que não foi confiscada para a Grande Guerra Patriótica? Escondeu-a, hein, seu patife? Mas agora isto terminou. Confiscaremos a bicicleta.

— Da, da — disse Ursbach sorrindo amistosamente. Deu um tapinha no seu saco de juta e acenou com a cabeça.

— Colbassa. . . Chleb. . . Mjasso. . . (Sim, sim. . .salsicha, pão, carne)

— Ele não tem mais cérebro — disse um dos soldados. Deu uma bofetada em Ursbach, desamarrou a correia do seu braço e levantou a bicicleta.

— O calor do verão! — O outro soldado riu grosseiramente. —Até a sua barba empalideceu! — Arrancou Ursbach do chão, cuspiu no seu rosto e gritou: — Você vem com a gente, irmãozinho! Você vai depor na presença do camarada tenente, pois a sua bicicleta tem importância bélica. E vai dizer que nós o tratamos amigavelmente, seu cachorro piolhento! Vamos, ande!

O “Davai! Davai!” Ursbach compreendia. Sempre esperara nunca mais ter de ouvir esta palavra, indefeso. Agora chegara a hora. Não era mais possível escapar.

Quatro horas mais tarde um jipe, pertencente à remessa de ajuda por parte dos Estados Unidos, que agora estava a pleno vapor, trouxe o médico auxiliar alemão Helge Ursbach ao comandante de um regimento de infantaria soviético. O coronel, um homem mais idoso, recebeu Ursbach polidamente e com um cumprimento militar. Chegava até a falar bem alemão.

— O senhor é médico? — perguntou e ofereceu-lhe um lugar para sentar e um Papirossa. — Em fuga, de volta à sua tropa? Estou certo? Há quanto tempo?

— Três semanas. — Ursbach fumava a plenos pulmões, apesar da nicotina arder como ácido. — Desde o dia 13 de julho.

— E ninguém percebeu que o senhor é alemão?

— Aparentemente meu vestuário é algo como um uniforme de civil. Especialmente a boina. Os que me viram me cumprimentaram amistosamente.

— O senhor vai ter de se lembrar disso, doutor — falou o coronel, espaçando bem as palavras e fitando Ursbach demoradamente. — O senhor agora vai ser enviado para um lugar onde a polidez já desapareceu.

Os exércitos soviéticos empurraram, sem que fosse possível detê-los, os regimentos alemães, dizimados, separados de suas reservas e torturados pela falta de munição, sempre para a frente.

Os Tigre e Pantera já não possuíam mais combustível e permaneceram na estepe como monstros de aço, indefesos. A infantaria tentava defender metro por metro, mas o que poderia fazer contra as ondas de tanques T-34? A artilharia soviética com milhares de peças quebrava tudo. Pak e Flak leves que agora atiravam diretamente, chegavam até a visar homens isolados, e os soldados do Exército Vermelho seguiam os tanques e tomavam de assalto os pontos de apoio alemães, que se defendiam desesperadamente.

O golpe principal do General Conjev acertou em cheio o ponto de corte entre o Quarto Exército Blindado e o Oitavo Exército, novo nome dado à Divisão Kempf. Três exércitos soviéticos, com todas as lacunas preenchidas por reservas da estepe do Don, irromperam nesse ponto e abriram um buraco de 55 quilômetros entre os dois exércitos alemães. Um corredor, pelo qual se podia virar para Charkov com força maciça.

Mas a tática dos soviéticos não se restringia à quebra das linhas alemãs. Também atacavam nas frentes amplas, para evitar que as tropas alemãs formassem um ponto de gravidade, e dessa forma dizimavam os alemães em todas as divisões. Isto custava vidas humanas, consumia material, transforma- va a ofensiva espalhada sobre um terreno amplo em um banho de sangue — mas os alvos eram atingidos. Só isso importava ao Kremlin. Quão pouca importância tem uma vida humana, quando se trata da Rússia. Durante séculos doutrinaram o povo para que tivesse esse discernimento.

O Coronel Schementschuk fora morto. Uma morte insensata: estava examinando um tanque Tigre, deixado para trás, e, ao subir na torre, uma carga interna de dinamite, já preparada, explodiu, pois deflagraria quando alguém sentasse no assento de comando. O coronel foi retirado em pedaços do Tigre.

Stella Antonovna fora promovida a tenente. Foi o último ato de serviço de Schementschuk. Ele entregou cerimoniosamente o documento a Stella, proferindo uma breve fala; ela beijou a bandeira vermelha e ele a beijou em ambas as faces. Foi tudo muito cerimonioso, apesar de Schementschuk, aparentemente misógino, expressar, na roda de oficiais, a opinião de que não compreendia por que se fazia tanto alarde no caso das mulheres. Bem, Stella Antonovna, nesse ínterim, registrara em seu livro de tiros 329 acertos reconhecidos, e a sua designação para “Heroína da União Soviética” era apenas questão de tempo. A petição já chegara ao Comando Superior, só faltava Stalin assinar. Mas, afinal de contas, só cumprira seu dever como fuzileira; por que então tanta celebração?.

Stella ficou só no comando da Divisão Bajda do batalhão de mulheres, até que Moscou enviasse um novo oficial superior. Quando começou o ataque a Charkov, quando o Sétimo Exército de Guarda, saindo da região de Bjelgorod, avançou em três cunhas e o General Conjev anunciou, em uma ordem do dia, que agora não iriam mais descansar até que a bandeira vermelha fosse carregada em triunfo pela cidade, a Divisão Bajda também fazia parte integrante da infantaria para lá designada. Ele estava sentado sobre tanques, viajou com eles para dentro das tropas alemãs e atacou os buracos de metralhadoras, as trincheiras e posições-ouriço rapidamente capturadas e limpou a região remanescente das tropas alemãs, que por aí vagavam, desgarradas.

Era uma batalha sádica, especialmente lá onde as moças apareciam. Seus tiros quase sempre acertavam no alvo; nenhum soldado alemão que entrasse no seu campo visual tinha chance de escapar.

Charkov foi abandonada. Os teatros e os cabarés da frente, os conjuntos de ópera e de espetáculos, as administrações e as intendências hipertrofiadas, os hospitais e os acampamentos foram recuados para Poltava ou até para Kiev. O paraíso do porre, da comilança e das putas explodiu e sobre as ruas e praças, nas quais até bem pouco tempo passeavam combatentes de reserva bem-nutridos, agora vagavam colunas dizimadas, de rostos encavados e cinzentos: os porcos da frente. Os soldados rasos, que vinham do sangue e da sujeira. Olhavam espantados para esse mundo parcialmente sadio, que fora construído atrás de seus corpos ensangüentados.

Cartazes nas paredes das casas e nas árvores. Hoje: O Barão Cigano, de Johan Strauss.

Cada dia: Granada de arrebentar tanques! Um cabaré para vocês, camaradas.

Teatro ao ar livre de Charkov: o Conjunto de Balé de Berlim apresenta danças de óperas e operetas.

Por que é tão lindo estar no Reno? — Noite do Reno, com Tuennes e Schael.

Camaradas, nosso ventríloquo voltará! Na grande sala da Mansão Cultural.

Sim, as moças da Waterkant estão aí! Grande Noite da Pátria no teatro da frente.

E nas casas abandonadas ainda se viam sofás e cadeiras, as camas feitas, garrafas vazias enfileiradas e montes de alimentos deteriorados enchiam o ar com seu fedor.

O cinturão de segurança construído em volta do interior de Charkov foi novamente reformado e ocupado. Ainda colunas inteiras saíam da cidade, na direção do ocidente, procurando a segurança. Os soldados da retaguarda, abençoados com barrigas cheias e gonorréia após gonorréia empurraram sua “bola tranqüila” o mais rápido possível para longe da região da frente. Ainda vigorava a regra empírica, de que para cada homem em combate com o inimigo deveria haver 10 homens na retaguarda, que cuidavam, não poupando esforços, para que esse um não deixe de atirar e morrer corajosamente. Se todos os homens que se haviam reunido em Charkov, se tivessem juntado para formar uma unidade, um novo exército poderia ter surgido. No entanto, esse exército bem-nutrido de homens indispensáveis e removidos flutuou, por trem ou pelas ruas, para Poltava e até o Dnieper. A retaguarda profunda, tranqüila de Tscherkassy e Kiev foi preenchida até quase arrebentar.

Mas o soldado raso lá na frente, afundado na sujeira, passava fome e contava sua munição, aguardava cada ração de combustível e se enfronhava em seu buraco, pronto a se defender das divisões soviéticas que avançavam, das massas de tanques e do bombardeio da artilharia.

O Tenente Bauer III foi ferido. Um tiro o atingiu na barriga e ele teve a sorte de ainda chegar até Charkov com um Sanka e depois com um comboio de feridos até Poltava. O Tenente von Bellinghoven recebeu a Quarta Companhia, para comandá-la. Acabara de ser liberado do Hospital Burgsteinfurt em Westfalen, onde gozara de quatro semanas de férias para convalescença, e foi imediatamente enviado de volta para a frente. Encontrou sua divisão em plena retirada, o seu regimento só tinha a força de um batalhão. Ao ser enviado para a Quarta Companhia, não teve de percorrer um longo caminho: a companhia veio ao seu encontro. Entrou de cheio com seu carro em um grupo de assalto soviético. O Tenente von Bellinghoven formou imediatamente um ninho de resistência com o grupo do Suboficial Pflanzl e mostrou como é possível quebrar um T-34 com uma carga presa: esperar até estar no ângulo mor­to, depois pular, colar na torre a carga explosiva dotada de um ímã, puxar, proteger-se e baixar a cabeça. Depois da explosão, não havia mais T-34.

De noite o ataque dos soviéticos estancou. Diante e entre os buracos estavam cinco tanques soviéticos fumegantes. As perdas da Quarta Companhia eram pequenas. Dois mortos e nove feridos. Mas cada homem posto fora de combate agora contava como 10.

Von Bellinghoven mandou reunir a companhia na escuridão. Apresentou-se como novo chefe, cumprimentou os comandantes de trem, ficou satisfeito ao ver que até o Sargento-Mor Pflaume estava equipado com uma metralhadora leve ao invés de ficar, obrigatoriamente, atrás de uma escrivaninha. Pois em uma escaramuça de retirada não havia mais tropas da companhia na retaguarda. Depois von Bellinghoven visitou Peter Hesslich em um buraco de granada, escolhido por ele para passar a noite.

— Esses lá do lado de lá são um grupo duro de roer! — exclamou o tenente, tirando o capacete de aço. — Estimo que as perdas deles sejam cinco vezes maiores do que as nossas. E no entanto continuam atacando!

— O senhor reconheceu o que vem do lado de lá? — perguntou Hesslich. — Aliás, baixe a cabeça, Sr. Tenente!

— Por quê? — Bellinghoven fitou Hesslich espantado. — Estão a pelo menos 200 metros de distância de nós.

— Isto basta.

— O senhor está vendo fantasmas. Então alguém pode acertar um tiro a essa distância? Por acaso estamos em um circo com artistas-fuzileiros?

— É exatamente onde estamos!

— O senhor pirou?

— Então o senhor não sabe realmente qual é o adversário com que nós nos defrontamos? Moças! O grupo de um batalhão de mulheres. Temo até que seja a Divisão Bajda.

— Um batalhão de mulheres? — O tenente olhou para Hesslich como se ele tivesse enlouquecido. — Mas isto existe? Não se trata de um dos truques . da nossa propaganda?

— Foi o que lhe disseram no batalhão?

— Mas eu vim diretamente para cá. Hesslich, isto não existe. Moças em uma tropa de assalto! O que estivemos atacando durante todo o dia. . . os mortos do lado de lá. . . tudo moças?

— Sim.

— Desde quando vocês estão tendo trabalho com elas?



— Desde março. É como se estivessem coladas em nós! O que perdemos até agora, a grande maioria, foi por conta delas. A Quarta Companhia recebeu substituições, em matéria de homens, para completá-la, já três vezes desde março! O pior foi na cabeça-de-ponte de Melechovo.

— E nós permitimos que essas mulheres façam isso conosco? Nos protegemos diante de uma saia?

— É melhor não experimentar ser herói, Sr. Tenente! — Hesslich apontou para cima com o polegar. — Elas são capazes de arrancar a ponta do rabo de um gato a uma distância de 200 metros.

— Não tenho a intenção de mostrar meu rabo —respondeu von Bellinghoven secamente. — Mas amanhã mostrarei a essas mulheres o que é um ancinho!

Não teve tempo para fazê-lo. De manhã cedo a artilharia soviética, que avançara durante a noite, abriu fogo. Novas ondas de tanques rolaram para a frente. A frente alemã recuou novamente. Até a Quarta Companhia teve de ceder, sendo inútil e insensato querer resistir diante de um tal amontoado de armamentos. Não viram mais as moças, pois elas estavam agachadas nos tanques da terceira onda, envolvidas em nuvens de poeira da altura de uma casa.

Charkov! Para diante, em direção a Charkov! Conjev aguardava o momento de voltar a essa linda cidade antiga, sob o júbilo da população que permanecia nos porões.

O Tenente von Bellinghoven foi morto no dia 10 de agosto de 1943, perto do povoado Mulnov. Alcançara uma pequena floresta de bétulas baixas, com quatro homens, quando de repente duas moças o enfrentaram. Como nascidas da terra, subitamente estavam ali e levantaram suas armas. Ainda antes de Bellinghoven poder esboçar qualquer movimento de reação, Lida Iljanovna e a pequena Maja atiraram. O ruído foi como se um tiro só tivesse sido disparado. O golpe de fogo estraçalhou a cabeça de Bellinghoven. No segundo em que morreu ele ainda percebeu que as moças não usavam capacetes, mas apenas boinas sob as quais apareciam os cabelos.

Os dois outros alemães, imediatamente levantaram os braços, ao ver o seu tenente cair. Não compreendiam que ali outras leis imperavam. Os dois tiros seguintes dos novos fuzis Tokarev, de autocarregamento, seguiram-se rápidos como raios e estraçalharam seus crânios, atingindo-os na testa, exatamente entre os olhos.

As moças ficaram à espreita, mas não vieram mais alemães. Depois se abraçaram e desapareceram na floresta. Era o tiro nº 268 de Lida Djanovna e o nº 121 da pequena Maja.

O Sétimo Exército de Guarda abria cada vez mais o rombo entre os dois exércitos alemães, o Quarto Exército Blindado e o Oitavo. A oeste da linha de trem Cursk-Charkov espalhou-se pela estepe e tocou os alemães para a frente. Todo o Grupo do Exército Sul do Marechal-de-Campo von Manstein estava agora em plena retirada, razoavelmente ordenada, em oposição ao Grupo do Exército do Meio, onde o Nono Exército e o Segundo Exército Blindado sofreram uma denota fragorosa. Tinham perdido Orei e procuravam agora a sua salvação em uma rápida retirada para a “linha de Hagen”, bem instalada e há anos considerada inexpugnável, uma verdadeira parede diante de Brjansk.

No dia 11 de agosto Peter Hesslich foi atingido por um estilhaço de granada. Um pedaço de aço incandescente penetrou na sua coxa superior, rebentou o grande músculo, arrancou um pedaço de carne mas poupou o osso. Não se tratava de um ferimento que o colocasse em risco de vida mas o imobilizava. A granada caíra diante do carro de cuba em que ele estava nesse momento, em companhia de cinco homens, tentando alcançar a linha férrea Cursk-Charkov, a fim de conseguir voltar à sua própria tropa nas imediações do povoado de Casatschja Lopan. Tinham-se desgarrado após um ataque dos tanques soviéticos e encontraram o carro abandonado; jubilosos, ao encontrar ainda dois reservatórios de combustível cheios nos assentos traseiros, puseram-se a caminho, em uma disparada louca, sem se preocuparem em saber por quem e por que o veículo fora abandonado. Corriam pela estepe e pelo terreno ondulado, em um ritmo infernal de velocidade, sempre conscientes do fato de que à esquerda e à direita as pontas dos tanques adversários avançavam. Era uma corrida para salvar a vida, e mais nada.

A granada explodiu diante deles. O carro de cuba ergueu-se do chão, virou no ar e caiu, estraçalhado, sobre o terreno. Quatro homens morreram instantaneamente. O quinto só viveu mais duas horas, só com metade da cabeça ilesa. Hesslich arrastou-se pelo chão, deixando atrás de si um largo rastro de sangue; sua perna palpitava e ardia infernalmente. Ele rebuscou as vestes dos mortos, retirou os pacotes de gaze e os colocou todos sobre sua enorme ferida. Ficou estirado, sozinho, entre o carro estraçalhado e os seus camaradas caídos, na estepe, de costas, olhando para o céu azul do verão e esperando pela morte. Talvez tivesse uma morte boa, um deslizar para a falta de peso, um singelo afastamento do mundo. Morrer por perda de sangue é quase agradável. A gente fica fraco e cansado e adormece, entrando assim na eternidade.

Stella Antonovna o encontrou de noite.

Foi obra do acaso, assim como muitas vezes os acasos na nossa vida determinam nosso futuro.



A Divisão Bajda, que agora tinha essa denominação oficialmente, em homenagem à corajosa Soja Valentinovna, recebera como tarefa, após a nova irrupção das cunhas de tanques até a linha férrea, limpar o terreno das unidades alemãs desgarradas. Em conjunto com três companhias de um batalhão de infantaria da reserva ela agora percorria todos os povoados e celeiros, todas as florestas e grupos de arbustos e recolhia os soldados alemães escondidos. Uma outra tropa recolhia os cadáveres, jogava-os sobre caminhões e transportava para grandes covas, pouco profundas, onde eram colocados uns sobre os outros e incinerados. Assim como na época de Stalingrado, onde depois da libertação montanhas de cadáveres fumegavam na estepe. Isto era mais simples do que cavar túmulos. E não deixava rastros.

Stella Antonovna divisou de longe o carro de cuba alemão destroçado, rodeado de mortos, ao passar pela estepe, dentro de um dos jipes americanos. Ela estava sozinha, a divisão permanecia em um povoado, jantando, enquanto os tanques da reserva avançavam. A artilharia disparava, em uma ampla curva, por sobre as próprias posições e destruía o plano alemão de instalar uma nova posição de recolhimento na linha férrea. Stella estava a caminho a fim de se encontrar com o chefe da companhia de infantaria, ao lado, para discutir os próximos procedimentos.

Freou em uma das elevações planas da estepe, levou o binóculo aos olhos e observou o carro destroçado. Lentamente examinou o grupo: o carro, os mortos, um depois do outro. Parou junto a um dos corpos. Parecia-lhe que ainda se movia. Esperou, manteve-o sob sua mira e de repente viu como esse corpo se apoiava nas mãos e nos joelhos e começava a engatinhar.

Stella Antonovna jogou o binóculo no assento, puxou a carabina para perto de si, acelerou e foi em direção aos escombros do carro. Freou no meio de uma nuvem de poeira, pulou para fora do jipe e atirou-se em direção ao soldado alemão, que agora estava caído de lado. Viu a calça rasgada do seu uniforme, ensopada de sangue, percebeu as tiras de gaze grossas e também ensangüentadas, entre os restos de pano. O homem colocara a cabeça entre os braços e respirava com dificuldade.

Stoj! — gritou Stella Antonovna em tom duro. O célebre Stoj!, cujo som nenhum prisioneiro de guerra alemão jamais esquecerá. Apontou o cano da carabina para a cabeça do soldado. Não iria contar esse tiro, era apenas um tiro de misericórdia.

O ferido levantou a cabeça. Dois olhos cansados a fitavam em meio a um rosto manchado de sangue e poeira. Mesmo que mal parecesse seu rosto ela o reconheceu imediatamente.

Jogou a carabina para longe com um grito histérico; caiu ao seu lado, puxou-o para si, apertou sua cabeça contra o peito e o abraçou com ambos os braços, como se pudesse comprimi-lo contra si.

— Piotr! — gaguejou. — Oh, Piotr! Você viwo. . . você viwo! Piotr, moj drug.. . moj ljubimij. .. moj njebo... moj bog,.. Você está aqui!

Beijou-lhe o rosto sujo de sangue, apalpou-o e ouviu que ele dizia, fracamente:

— Stella. . . É você mesmo. . . Ainda. . . ainda existem milagres. . . no último instante. . .

— Nadda últtimo. . . você vivvo. . . vivvo. . .

— Tarde demais.

— Nadda tarde demais! — Ela olhou para a horrível ferida de Piotr e começou a tremer; sentiu como suas lágrimas saltavam dos olhos e os soluços abalavam seu corpo. — Você vivvo. . . — repetiu e voltou a beijar-lhe a boca semi-aberta. — Vivvo comigo, Piotr. Wojna estragada, guerra acabada. Mmas nós estamos aqui. Piotr, eu rrezei, dia e noite. Agora você aqui. Sempre comigo. Piotr, mmorrer nnão.

— Oh, Stella — murmurou ele, respirando com dificuldade. A dor lancinante se espalhava da coxa para todo o corpo, até seus cabelos, e parecia querer dilacerar o couro cabeludo. Seu corpo entrou em convulsão, ele rangeu os dentes e segurou-se nela. — Stella. . . não dá mais.

O olhar de Piotr se apagou. Caiu em profundo desmaio.

Sozinha, entre cinco mortos, Stella ficou sentada na estepe, acolhendo a cabeça de Piotr no colo. O crepúsculo ficara mais profundo, a estepe lentamente afundava-se na noite. O trovejar da frente se aproximava. Os alemães tentavam mais uma vez avançar.

Amanhã tudo será diferente, pensou ela. Amanhã nós dois não existiremos mais. Piotr, meu querido, não tenha medo.



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