Konsalik b de atalhão Mulheres



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— Três homens da minha companhia. . .

— Na tropa de espionagem dos tanques uma tripulação inteira ainda não voltou. Ou estão presos no cofre, ou estão por aí, mortos ou feridos. Ninguém pode chegar lá. Só a mim o caminho está livre. . .

— Com bandeira branca e faixa da Cruz Vermelha?

— Sim. Por isso vou já.

— E Hesslich, o caçador solitário?

— Que empurre o cu na terra, quando a bola de fogo subir. Afinal de contas não é um novato. . .

Depois Ursbach desembrulhou os dois caixotes, examinou e arrumou o material, despediu-se de Bauer III, desenrolou a bandeira da Cruz Vermelha e marchou, ereto, com seus três enfermeiros, para a terra de ninguém. Entre si carregavam duas maças dobradiças e tinham amarrado nas costas largas tiras.

Na saída da posição, na última sentinela, encontraram Stattstetten, que os aguardava. Ele trocara a faixa da cabeça por um esparadrapo quase invisível.

— Você me leva junto? — perguntou. Ursbach parou abruptamente, atônito. — Afinal de contas, eu também posso carregar um dos nossos camaradas. . .

— Não tenho mais nenhuma faixa da Cruz Vermelha, Lorenz.

— Se eu estiver com vocês. . . Hoje eu tenho de fazer algo, você entende, eu não posso ficar a noite toda por aí sem nada para fazer. Não posso ficar sozinho agora, necessito de vocês, meus amigos. . . Tenho de ajudar também, procurar, carregar, enfaixar, tudo que ocorrer, tudo que me impeça de pensar em Olga. Você entende?

— Então venha! — Ursbach acenou, concordando. — Mas teria sido melhor se você tivesse conservado a faixa na cabeça. Aí todos perceberiam logo que você não está mais em condições de atacar. . .

Eles andaram, com a bandeira branca erguida, para a frente, até chegar, como acreditavam, na terra de ninguém. Ao seu redor estavam as ruínas de duas casas de camponeses, com os celeiros e forjas a elas pertencentes. E em algum lugar nesta paisagem em ruínas ouviam-se vozes, depois gemidos, lamentos, gritos abafados e choramingos prolongados.

Ursbach disparou a primeira bola de fogo. Uma claridade incandescente espalhou-se, pendurada em um pára-quedas sob o céu sombrio da noite e flutuando, lenta, sobre as ruínas. Pararam, ofuscados, pestanejando. À frente deles estava uma horta, na qual cresciam verduras e repolhos sob as árvores despedaçadas, pereiras e cerejeiras. E também diante deles estavam três moças do batalhão de mulheres em seus uniformes cor de terra. Quando a bola de fogo subiu, elas se ergueram rápido como um raio. Deixaram cair um objeto escuro, e agora esse objeto começou a gemer alto.

Ursbach sacudiu a bandeira. Os enfermeiros, com as maças, se postaram a seu lado. Também Stattstetten enfileirou-se, as mãos nas costas.

Lida Iljanovna fitava Ursbach com os olhos arregalados. Ela estava atrás de Galina Ruslanovna, que agora torcia as mãos e respirava pesadamente. Atrás dela espreitava Maja Semjonovna, a moça mais jovem da divisão, que hoje viera para cumprir a missão de enfermeira auxiliar.

A divisão, que ainda há pouco contava com 239 moças corajosas, tinha murchado, ficando com apenas 87 camaradas, agora lideradas por Stella Antonovna. Ela cedo seria promovida a tenente e então receberia oficialmente o comando da tropa. Também tinham proposto seu nome para “Heroína da União Soviética”. Conjev e Chruschtschev pessoalmente lhe entregariam a condecoração e a apertariam contra o peito. Logo depois de terem rechaçado a ofensiva alemã. . .

Sibirzev revelou-se um bom substituto. Nesse ínterim, tomara como amante a gorducha Gulnara Vatlimovna, ou melhor dizendo: Gulnara o surpreendera ao tomar um banho de chuveiro e imediatamente aproveitara a ocasião para esfregá-lo, amistosamente, em todos os lugares que ele apre­ciava especialmente. O que teve como conseqüência imediata o fato de que neste dia Sibirzev não precisou mais vestir suas calças. De certa forma, todas tinham esperado algo assim, e Gulnara até foi elogiada, por se ocupar do rapaz selvagem e assim poupar as outras de suas investidas.

Não obstante, como chefe da tropa Sibirzev manteve sempre a supervisão. Colocava seu grupo em ação nos lugares em que se podia colher muita honra, mas em que, na realidade, pouco acontecia. Desde as grandes perdas na cabeça-de-ponte de Melechovo tinham ficado mais cautelosos. Até Stella estava contente pelo fato de que estavam presas em Novo Sloboda e a divisão poder novamente se dedicar à sua verdadeira missão — o combate solitário e mortífero das fuzileiras. O Tenente Bauer III já percebera de que lado soprava o vento.

— Eu sou médico! — disse Ursbach em voz alta e deu um passo à frente. — Meu nome é Helge Ursbach. A senhora fala alemão?

— Sim! — A voz de Galina soava dura. Seus olhos pretos-castanhos pis­cavam na luz ofuscante.

— Ótimo!


— Não necessitamos de sua ajuda!

— A senhora também é médica?

— Sim. Galina Ruslanovna Opalinskaja. Vocês já perturbam aqui. . .

— Estou procurando nossos feridos.

— Por aqui não tem nenhum!

— Impossível!

— Já disse: não tem nenhum. . . portanto, não tem mesmo!

— Demos por falta de alguns homens.

— Devem estar mortos.

— E quem é que está gritando lá atrás? E estes gemidos. . .

— Nossos camaradas. . .

— Gostaria de investigar pessoalmente.

— Não! — Opalinskaja levantou a mão direita e apontou para a frente. — Volte! Aqui estamos em terra soviética!

— De acordo com a Convenção de Genebra. . .



— Esta convenção é ridícula! — Galina Ruslanovna sacudiu a cabeça. Seus cabelos pretos esvoaçavam em torno do rosto como um véu rasgado. Atrás dela Lida e Maja abriram a blusa do uniforme do ferido, que estertorava alto, até o cinto. Do peito rasgado, a cada respiração, saíam pedaços de tecido pulmonar. — Para que a União Soviética necessita de Genebra? Para que lhe digam o que fazer?! Precisamos de professores? O mundo pode aprender conosco. . .

— Deus do céu! — Ursbach acenou para o enfermeiro a seu lado, o que queria dizer: dispare mais uma bola luminosa. — Então ficaremos aqui discutindo a respeito do orgulho nacional, enquanto os feridos gritam em torno de nós?!

— Não preciso de lições! — berrou Galina cheia de ódio. — Também não preciso de ajuda! Aqui não há mais nenhum fascista vivo. . .

— Isto é outra coisa. — Ursbach apertou a cabeça na gola. Que mulher diabólica, e além disso médica, pensou, cheio de amargura. Sua beleza é de parar a respiração, a sua voz, apesar da dureza e asperidade, uma só sedu­ção. Mas ela deve ser como a mulher-aranha, que depois do jogo de amor mata, chupa e enreda o macho. — Então gostaríamos de levar conosco os mortos.

Galina fitou Ursbach com os olhos semicerrados. Os cabelos louros do jovem apareciam por debaixo do boné. Ele não tivera tempo para cortá-los nas últimas semanas. Além disso, detestava o corte militar curto, que na sua época de recruta muitas vezes era determinado pela profundidade de um prato de sopa, que o sargento colocava sobre a cabeça do jovem soldado. Agora, como médico, Ursbach tinha a regalia de certas liberdades. Ninguém o advertia porque seus cabelos não estavam curtos.

— Nada de mais luz! — disse Opalinskaja, duramente, quando o enfermeiro levantou a pistola luminosa. — Luz não!

— Temos de procurar. . .

— Ordem: Nenhuma luz!

— Quem é que dá ordens aqui? — perguntou Ursbach perplexo.

— Eu! Você é médico, não? Então! Médico dos fascistas! Você quer curar os homens para que possam continuar a assassinar homens, mulheres e crianças soviéticas! Procura os cadáveres para enterrá-los no sagrado solo russo! Você quer espalhar a peste na terra russa com seus cadáveres alemães! Você está vendo quão ridícula é a Convenção de Genebra?!

Neste momento Lida Djanovna se levantou e olhou para o rosto de Ursbach. Ele a reconheceu imediatamente; seu coração deu um pulo. Sentia a secura na boca e ficou ardendo dos pés à cabeça.

— Meu Deus, Lida. . . — disse roucamente. — Lida, você está aí. . . Nós. . . nós nos revemos. . .

Galina Ruslanovna deu de ombros, olhou o ferido e percebeu que não era mais possível ajudá-lo. Poderiam levá-lo até o hospital de campo, mas ele não sobreviveria ao transporte. E aqui, nas linhas dianteiras, não era possível operar um ferimento como este, causado por estilhaços de granada.

Ursbach tentou ir em direção a Lida Djanovna, mas repentinamente a pequena Maja Senjonovna deu uma volta ao redor de Opalinskaja, postou-se diante de Ursbach e dirigiu a arma contra sua cabeça.

Stoj! — gritou com sua voz clara, ainda infantil. — Stoj!

Lida Djanovna ficou parada, o rosto pálido na luz proveniente da bola de fogo descendente, com os braços caídos. Ao lado dela o agonizante estertorava.

— Aha, você o conhece? — perguntou Galina, sem se virar. — O que a gente acaba vendo no final de contas! Onde foi que o encontrou? Vocês estiveram à procura de feridos e depois foderam em um funil de granada? Foi assim? A boa bandeira da Cruz Vermelha, a linda bandeira! Você depois se enxugou com ela?

— Cale a boca! — disse Lida em voz baixa. — Isto não passa de um repertório de obscenidades! Pare de falar. . .

— Ele tem cabelos louros. — A voz de Opalinskaja transmitia ódio. — Cabelos louros em todo corpo, hein? Eu nunca vi homem nenhum que tivesse cabelos louros por toda parte. Devo perguntar a ele?

— Você quer que eu a odeie, Galja?

Mas o que é que eles têm, pensou Opalinskaja, amarga. Eu já tive um pressentimento. Esses homens devem ter um bacilo especial. Primeiro a forte Schanna, depois Stella Antonovna, a grande heroína, e agora Lida Iljanov­na. . . olhem só, como ela revira os olhos. Mas o que é que deu nela?

Fitou novamente Ursbach, que dava uma cotovelada no enfermeiro ao seu lado. Então, dispare uma nova bola de fogo. . . a velha já está se apagando! Mas o enfermeiro não se mexeu. Estava com os olhos grudados na arma de Maja. Afinal de contas, não estou cansado de viver, pensou. Essa história de faixa é algo muito vago. Nunca sabemos com quem estamos lidando e se estão com vontade de se lembrar da Cruz Vermelha. Aquela lá, o urubu preto, a médica, é do tipo que depois é capaz de afirmar que eram todos daltônicos e o vermelho parecia azul.

A bola luminosa apagou-se lentamente e desceu para o chão com seu pá­ra-quedas. A luz tornou-se pálida e semeou longas sombras. Galina Ruslanov­na deu dois passos em direção a Ursbach e a pequena Maja logo a seguiu. Agora dirigia o cano da espingarda contra Stattstetten. Ela viu que era o único a não usar uma faixa e os seus olhos se arregalaram e ficaram rígidos.

Stattstetten não se mexeu. Olhava, mudo, fascinado, para Galina Ruslanovna e comparou a sua selvageria não domada com a ternura de Olga Fedorovna.

— Dá cá! — disse, com os pensamentos longe do local, ao cauteloso en­fermeiro; tirou-lhe a pistola luminosa da mão, levantou-a e deixou que a bola de luz riscasse o céu noturno. Neste mesmo momento a pequena Maja, com seus olhos de criança, apertou o gatilho, e o tiro, disparado a partir de uma distância de pouco mais de quatro metros, atingiu o alferes entre os olhos. Sim, isto ela aprendera, a suave Maja. Era o seu 17º tiro, seria elogiada e colo­cariam grandes esperanças no seu futuro como fuzileira.

Lorenz von Stattstetten foi derrubado pelo tiro. A força do golpe arrancou um pedaço da calota craniana dianteira. Caiu, virando-se um pouco, com a pistola ainda na mão.

Lida Djanovna pulou em cima de Maja como uma gata selvagem, arran­cou-lhe a arma das mãos e começou a bater nela com os punhos. A pequena Maja tentava proteger a cabeça com os braços, mas os golpes acertavam-na duramente na nuca. Ela começou a gritar, deixou-se cair por terra, deu pontapés em Lida Djanovna e, quando esta por sua vez chutou-a com as pesadas botas, começou a choramingar alto.

Os enfermeiros não se mexeram. Ursbach virara-se rapidamente depois de ouvir o tiro e estava ajoelhado ao lado de Stattstetten, já morto. Fitava Galina Ruslanovna com o rosto a tremer. Ela estava imóvel entre ele e Lida, que parecia possuída por um demônio. A médica pusera as mãos nos bolsos do uniforme e empurrava os lábios para a frente, como se desejasse cuspir.

— Sua assassina! — berrava Lida e batia em Maja, que choramingava. — Sua maldita assassina! Eu vou matá-la a pancada! Vou matar você, toma aqui!

— Eu dei ordem para que não disparassem bolas luminosas! — falou Opalinskaja, calma. — Majanka não fez nada mais do que cumprir seu dever. Um inimigo de pistola na mão estava na sua frente. Pare de bater nela, Lida! Pare com isso!

— Ele estava indefeso e sob a bandeira da Cruz Vermelha! — exclamou Ursbach, se levantando e se dirigindo para Galina. — De que adianta agora protestar? Mas quero lhe dizer que eu a desprezo. Como médico. . .

— Isto é bom. — Opalinskaja riu. — Isto nos poupa muita coisa. — Indicou o vulto de Stattstetten com a cabeça. — Ele não usava faixa. Por quê?

— Nós não tínhamos mais nenhuma.

— Ele também era médico?

— Não.


— Não pertencia ao grupo de enfermagem?

— Eu lhe havia pedido que nos ajudasse. A partir daí estava sob a proteção da Convenção de Genebra.

— De novo Genebra! Você trouxe um assassino fascista sob a proteção da Cruz Vermelha! Você a desonrou, aproveitou-se dela, feriu a imunidade de um médico. — Ela lançou um olhar para os três enfermeiros, que estavam de pé, ao lado de Ursbach, com os dentes firmemente apertados uns nos outros, feito pedra. — Vocês podem ir. Ouviram, podem ir embora! Já! Aqui não há trabalho para vocês. Nenhum alemão ferido. Sumam!

Os três hesitaram e olharam de soslaio para o médico auxiliar. Ursbach fitou Lida Djanovna, que deixara de bater em Maja, que ainda gemia, e agora, respirando com dificuldade e coberta de suor, enxugava o rosto com ambas as mãos, à luz da claridade da nova bola de fogo. O ferido russo estava quieto. Permanecia deitado no chão, em cima da grama, e não havia mais movimento algum na grande ferida aberta no peito.

A mão direita de Opalinskaja se adiantou feito uma lança e ela apontou para Ursbach.

— Você vem conosco! — falou em voz alta.

— Você não pode fazer uma coisa dessas! — Lida foi para a frente e se colocou entre Ursbach e Galina. — Ele tem trânsito livre.

— Quem lho concedeu? Talvez Genebra? — Opalinskaja baixou a cabeça e examinou Ursbach como um cavalo, que se deseja comprar em um mercado. — Por causa da sua bandeira branca? Não negociamos, entre nós não existe convenção alguma. Ele simplesmente veio! Isto não pode ser tão fácil? Então qualquer um pode vir, sacudir a bandeira branca e de repente não é mais nosso inimigo? Para que a guerra, se for possível resolver tudo com bandeiras brancas? — Seu braço continuava esticado. — Você vem conosco!

— Nem penso nisso. . . — respondeu Ursbach em voz alta. — Chamo a atenção. . .

— Ele chama a atenção! — riu Opalinskaja, um riso agudo, e acenou para Maja. A pequena, que já estava de pé, fitou Lida com um olhar faiscando de ódio, pegou a arma e andou, mancando, para o lado da médica. Ao passar por Lida, cuspiu-lhe no seio. Lida tentou bater nela com a mão espalmada, mas Maja desviou-se a tempo. — Você é um grandessíssimo idiota, seu médico alemão! Eu, Galina Ruslanovna, lhe digo no chão da minha pátria: você vem conosco, seu agressor! E você resiste? Que besteira.

Foi em direção aos enfermeiros, com alguns passos calmos, arrancou-lhes as faixas da Cruz Vermelha dos braços e as jogou para trás. Os enfermeiros nem pensaram em se defender. A arma da pequena Maja, que tremia de raiva, estava dirigida contra eles.

Galina Ruslanovna se virou para Ursbach. Do seu lado estava Lida. For­mavam um belo par, eretos, sob a luz pálida da bola de fogo, e orgulhosos, sem nenhum motivo aparente.

Opalinskaja riu, triste.

— Então, onde está ela agora, a sua Convenção de Genebra? Quem aqui está usando uma faixa? Eu não vejo nenhuma. Só vejo fascistas, que invadiram minha terra. Conquistadores, que ainda se orgulham de cada metro que conseguiram ocupar! Quão simples seria dizer agora: Maja Semjonovna, aqui estão quatro marcas para o seu livro de tiros!

— Isto seria homicídio! — berrou Ursbach. — Puro homicídio!

— E por acaso a guerca é diferente de assassinato? Mas sejamos benevolentes: estas três figuras miseráveis podem voltar para seus camaradas. . . afinal de contas acabaremos liquidando-os, onde quer que estejam. Mas você, você fica.

Os três enfermeiros olharam para o médico auxiliar. A vida deles agora dependia de Ursbach, sabiam disto. Mas não disseram nada; aguardavam, em silêncio, sua decisão.

— Dêem o fora, rapazes. . . — ordenou Ursbach, rouco, e tentou sorrir. — Eu sobreviverei. E peçam que lhes mandem outro médico. . .

— Sr. médico auxiliar. . . — o enfermeiro do meio gaguejava e começou a soluçar de repente. — Sr. médico auxiliar, não podemos. . . e o senhor?

— Virem-se e corram como se tivessem pimenta no cu! — falou Ursbach em voz alta. — Rapazes, é a última oportunidade que vocês têm. Vocês não têm mais faixas, será que não compreendem isto?

Os três enfermeiros, como se obedecessem a uma ordem, ficaram em posição de sentido e cumprimentaram Ursbach. Depois deram meia-volta como se estivessem em um exercício no pátio da caserna e marcharam, compassadamente, através do povoado em ruínas de volta para as posições alemãs, sem olhar para trás uma única vez.

—Muito dramático. . . — falou ironicamente Opalinskaja: acenou e Maja baixou a arma. — Só falta a música. Talvez uma marcha? Ou música heróica de Wagner?

— O que deseja de mim? — perguntou Ursbach rouco. — Aprisionar um médico. Realmente, que feito glorioso!

— Sim, o que você quer com ele? - berrou por sua vez Lida Djanovna em russo. — Você quer que depois o usem como alvo?

— Quanto barulho! — Opalinskaja aproximou-se de Ursbach, tocou seus cabelos louros e passou o indicador por seus olhos, descendo pelo nariz até chegar aos lábios. Depois ela sentiu seu gesto de defesa e torceu a boca. — Estou levando-o comigo por sua causa. Para que ele possa ficar deitado entre suas coxas. Ou você tem algo contra? Além disso, sempre se pode necessitar de um médico. . . até mesmo médicas às vezes precisam de um médico...

Ela se afastou e olhou significativamente para Maja. A moça esguia encostou o cano da espingarda contra as costas de Ursbach, cuspiu mais uma vez na frente de Lida e berrou com voz clara:

Davai! Davai!

— Venha — disse Lida, e isto soava como se não estivessem em guerra, mas como se fossem passear em algum lugar, à margem de algum rio ou por uma floresta com uma grande clareira. — Venha. . . não tenha medo. . . Eu estou ao seu lado. . .

Seguiram Opalinskaja, sob a luz pálida da segunda bola incandescente que se extinguia. Lida colocara o braço ao redor dos quadris de Ursbach, e atrás deles marchava, com o dedo no gatilho, a pequena Maja.

Antes que pudessem alcançar as sentinelas avançadas da Divisão Bajda, ainda examinaram três soldados soviéticos, da tripulação de tanques, gravemente feridos. Só era possível prestar socorro a um só; Lida e Maja o retiraram deitado em um toldo, e Ursbach as auxiliou, apoiando no meio o corpo que vergava o toldo.

Depois de algum tempo alcançaram o abrigo de comando de Stella, uma casa incendiada.

— Quem é? — perguntou Stella asperamente.

— Um médico. . . — Opalinskaja não evitou o olhar de Stella.

— Você enlouqueceu?

— Preciso dele. . .

Stella Antonovna examinou, longamente, o prisioneiro. Ele estava de pé e a mirava com atenção. Isto a incomodava. Na realidade este homem já está morto, pensou. Nós não capturamos prisioneiros. . . a antiga sentença de Bajda ainda valia.

— Você de onde vvem? — perguntou asperamente.

— Mas de que lhe adianta se eu lhe der o nome da unidade? Afinal de contas já a conhece.

— Você cconece um. . . Haasslich. . .

— Peter Hesslich?

— Sim! — Os olhos azuis-esverdeados de Stella adquiriram um brilho es­tranho.

— Peter é meu amigo. . . — Ursbach respirou fundo. Será possível uma coisa dessas?, pensou. — E a senhora é Stella Antonovna. . .

— Sim. . . sou.

— Eu quase gostaria de lhe dizer: Peter Hesslich lhe envia lembranças. . .

O rosto de Stella ficou vermelho feito sangue, os lábios estremeceram nos cantos da boca. Sentia os olhares de Galina, Lida e Maja e sabia que agora teria de fazer algo que não desejava.

— Para fora com ele! — disse grosseiramente apontando para a porta. — Galja, cuide bem dele!

— Ele não se afastará da unidade móvel dos feridos — disse Opalinskaja e piscou triunfalmente para a pálida Lida. — Cuidarei dele pessoalmente.

Depois deu um empurrão nas costas de Ursbach e quase jogou-o para fora do recinto. Lida Iljanovna os seguiu rapidamente.

— Anuncio um acerto, Stella Antonovna — disse a pequena Maja, em posição de sentido. — Número 17. Creio que era até um oficial. . .

Stella sentiu um calor intenso por todo o corpo. Olhou para Maja Semjonovna com os olhos arregalados. Não, pensou, não, não pode ser. Segure-se, Stella. . . não pode ser!

— Um sargento? — perguntou, com voz rouca.

— Não sei. Tinha insígnias prateadas. . .

— Como era?

— Jovem, até bonito. . . Como posso descrevê-lo?

— Cor dos cabelos? — gritou Stella, perdendo o domínio de si mesma. A insegurança quase a enlouquecia.

— Louros. . . — gaguejou Maja, perplexa.

— Realmente louros? Não tinha cachos castanhos?

— Não, cachos castanhos ele não tinha, Camarada Korolenkaja. . .

— Minhas felicitações pelo acerto! — retrucou Stella em voz alta. O peso deixou seu coração. Não é ele. Ele tem cachos castanhos. . . Oh, o que eu teria feito, se Maja o tivesse atingido. Eu teria de relatar o seu feito heróico, uma moça corajosa que liquidou o nosso principal adversário. E teria de abraçá-la. Beijá-la nas faces. A assassina de Piotr. . . beijar. . . como eu poderia agüentar isso?

— Você é uma moça corajosa, Maja Semjonovna! — disse Stella, laconicamente. — Eu enviarei um elogio à divisão. E agora vá dormir...

De manhã cedo começou a chover. Quando o dia cinzento afugentou a noite, chovia a cântaros. Agora até o tempo se virava, tempestuoso, contra os alemães. A terra se transformou em um só mar de lama. A Força Aérea não podia levantar vôo, os buracos das posições estavam cheios de água.

De madrugada Stella Antonovna apareceu na unidade móvel dos feridos, na realidade dois caminhões com tendas, maças e mesas e um gerador próprio, onde Galina Ruslanovna trabalhava. No volante dos caminhões estavam sentadas duas moças.

— Onde está o médico? — perguntou. Galina estava sentada na sua tenda e bebia chá quente com um pouco de aguardente grusiniana.

— Está dormindo. No segundo carro. — Ela levantou os olhos e piscou para Stella. — Este amigo de que ele falou. . . trata-se do seu Piotr?

— Sim. . .

— Você deveria me agradecer por tê-lo trazido.

— Os alemães vão tirar proveito disso para sua propaganda. Dirão: “Os monstros soviéticos chegam a atirar em médicos!”

— Deixe-os berrar! — Galina fez um gesto de desprezo. — Afinal de contas nós sabemos a verdade. — Examinou Stella. — Você vai entregá-lo como prisioneiro?

— Nós não capturamos prisioneiros, Galina, você sabe disso.

— E Sibirzev?

— Eu vou apresentá-lo a Bairam Vadimovitsch, quando ele estiver ajudando você em uma operação. Isto é possível? Você tem algum caso grave?

— Amalja Romanovna. Tiro nos pulmões; não está em condições de ser transportada. A bala ainda está nas costelas. . .

— É possível retirá-la?

— Possível é. — Opalinskaja olhou com ar de dúvida para Stella. — Mas com os meus meios. . .?

— E que tal usar coragem?

Galina Ruslanovna tomou mais um gole de chá e depois respondeu:

— Perguntarei a ele. Do jeito com que se apresenta, dá a impressão de poder até amputar o rabo do diabo!



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