Konsalik b de atalhão Mulheres



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— Eu estava aqui.

— O que significa isto?

— Enquanto vocês todos, agachados na margem, desceram o cu e enfiaram a boca na areia, eu estava sentado no meio das moças e cuidei para que elas ouvissem a voz da razão. . .

— Você. . . — Bauer III fitou Hesslich, com enorme espanto. — Você es­tava aqui?. . . Totalmente só? Enquanto nós todos. . . E lá do outro lado os tanques, sim, aí você estava totalmente sozinho?. . . Homem, ninguém vai acreditar em você. . .

— Ora, recolha os mortos com tiros na cabeça e os conte — respondeu Hesslich calmamente. — Quanto ao resto, não dou nem pelota para o fato de vocês acreditarem em mim ou não.

— Se isto for verdade. . . — Bauer III falou com voz rouca — então você faz jus à Cruz de Cavaleiro, Peter. . .

— Mais merda. — Hesslich deu de ombros e se deixou cair para trás, na grama. — Estou estourado como um cavalo de campo à noitinha. . .

Mal se passaram duas horas e já estavam novamente a caminho, em cima de dois Tigre. Os feridos tinham sido recolhidos e transportados para o acampamento central, os mortos os seguiram, dispostos em camadas e cobertos com grandes toldos, em cima de um caminhão. O trem os levaria para a sepultura. Cemitério de Heróis Melechovo. E os dois pastores militares rezariam uma oração fúnebre e os abençoariam. Caídos no campo de batalha, em prol da pátria.

O que o Donez tem a ver com a nossa pátria. . .

— Conseguimos capturar nove mulheres. . . — disse Bauer III, quando Hesslich subiu na plataforma do Tigre. — Todas gravemente feridas.

— Coitadas das moças — respondeu Hesslich.

— Coitadas? — Bauer III sacudiu a cabeça. — Mas elas agora já escaparam da guerra.

— Certo! — Hesslich fechou os olhos, cansado. — Serão enforcadas.

Rodeados por uma grande nuvem de poeira, matraquearam pela estepe, em direção ao grande alvo Corotscha. Lá se lhes exigia que formassem uma espécie de alicate com o Corpo Blindado III e o Corpo Blindado SS II e aniquilassem e desmantelassem dois exércitos soviéticos.

— Deixei por escrito uma ordem para observarem e contarem o número de moças com tiros na cabeça. — Bauer III estendeu um cigarro que ele mesmo enrolara para Hesslich. Com uma das mãos eles se seguravam na torre. Não era tão simples, andar de tanque.

— Por quê? — perguntou Hesslich, asperamente.

— Por quê?! Homem, você sozinho limpa toda uma cabeça-de-ponte. . . completamente sozinho. . .! E isto não vale nada?!

— Você está exagerando. — Hesslich soltou uma baforada e observou a fumaça. Será que ela conseguiu escapar?, pensava. Tomara que agora retirem as moças da linha de frente. Suas perdas foram suficientemente grandes. É uma enorme porcaria colocar moças como soldados comuns da infantaria. E elas ainda o vêem como uma grande honra. . . — Simplesmente tive sorte, porque saí do rio em um lugar onde havia um grupo de arbustos. Isto foi tudo...

— Você não passa de um cachorro frio como gelo! — respondeu Bauer III, com a voz abafada. — Onde e como trocaram seu coração por um pedaço de aço? Nada, absolutamente nada, consegue abalar você. . .

— Você deve saber o que está dizendo. — Hesslich olhou a estepe ampla, pensativamente. O sol da tarde despejava ouro sobre a terra. — A gente mesmo nunca pode julgar tão bem. . .

E pensava nos olhos azuis-esverdeados de Stella, via seus lábios entreabertos e sentia sua pele lisa: Se vocês soubessem. . . se vocês todos soubessem o que eu penso. . . Amanhã de manhã estaria dependurado na árvore mais próxima. . .

No dia 10 de julho de 1943 a Quarta Companhia estava presa diante do pequeno povoado de Novo Sloboda, no Corjen superior.

A ofensiva parara em todos os lugares. No norte, onde o Nono Exército deveria empurrar uma forte cunha sobre Cursk, só se tinha conseguido chegar até Olchovatka e Ponyri —comparado com toda a curva de Cursk, que se desejara limpar, não tinham avançado mais do que a largura de uma unha. O exército do Coronel-General Model estava preso, sem saída. O Segundo Exército Blindado e o 13º Exército russos tinham formado cadeados insuperáveis. O seu sistema de posições, em várias camadas, assim como a força de seus tanques e a artilharia, combinadas com a total superioridade da Força Aérea, eram, efetivamente, algo que não se podia romper.

Model estava diante de uma catástrofe.

No Grupo do Exército Sul o Quarto Exército Blindado alcançara o Rio Psiol, mas Prochorovka não fora conquistada. O alvo principal, a cidade de Obojan, cuja tomada teria significado o rompimento de quatro exércitos soviéticos, podia ser vista com bom tempo e excelentes binóculos, mais todo o resto permanecia um sonho.

Também a Divisão Kempf estava presa, sem qualquer esperança. . . A afirmação de Conjev, “Deixem-nos vir.”, transformara-se em oráculo. Aí estavam eles, os alemães, e se viam presos em uma pinça da qual não havia mais como escapar.

Em Novo Sloboda o Alferes von Stattstetten viu novamente sua ucraniana, para a qual escrevera, horas a fio, longos poemas. O grupo de propaganda os acompanhara com uma unidade de tanques, para noticiar a triunfante corrida da Operação Cidadela e aliciar, por meio de alto-falantes, soldados soviéticos desgarrados, convidando-os a jogar fora suas armas e a deixar os esconderijos com os braços para o alto.

Pouco de bom se podia dizer do “Fanal” que Hitler queria ver. A ação dos alto-falantes era mais bem-sucedida. Na realidade conseguiram seduzir soldados do Exército Vermelho, desgarrados, que saíram do terreno ondulado, de buracos cavados na terra e outros esconderijos. Mais de 2.000 rus­sos marcharam para a prisão, apenas nesta divisão; foram recolhidos e depois transportados para longe. Em toda a região do Grupo do Exército Sul já tinham capturado, assim, 24 mil soldados soviéticos. Mas este número de prisioneiros também ocasionava grandes problemas.

Como poderiam encher 24 mil novas barrigas? O próprio aprovisionamento das divisões alemãs já era suficientemente difícil. O intendente-geral do Nono Exército estava com as cifras diante de si, sobre a mesa, e era realmente necessário um coração muito forte para não perder a calma ao observá-las.

O aprovisionamento dos 266 mil homens do Nono Exército exigia, para 10 dias apenas, 5.320 toneladas de víveres — o que correspondia a 266 caminhões repletos! A isso se somavam 12.300 toneladas de munição, para as quais se necessitava de 615 caminhões. Mais de 50 mil cavalos estavam em campo, no Flak, na artilharia, nos canhões, nas tropas de notícias, nas reservas, nas unidades rápidas de espionagem. . . Para 50 mil cavalos eram necessárias 6 mil toneladas de ração. Uma guerra de blindados, isto é,uma guerra que necessitava de uma enorme disponibilidade de máquinas, exige, para que uma ofensiva possa ser bem-sucedida, combustível, óleo lubrificante, óleo para os motores. . . neste caso trata-se de 82 trens de carga, enormes serpentes de caminhões carregados de combustível, que precisavam transportar as 11.182 toneladas de material.

Então, o que sobrava ainda para alimentar 24 mil prisioneiros?

O comandante especial da unidade de propaganda estava, em todo caso, muito orgulhoso pelo fato de que os seus alto-falantes tinham sido tão bem-sucedidos em convencer os soldados soviéticos a saírem de seus esconderijos. O seu carro blindado percorria o terreno logo atrás das tropas de assalto. A propaganda ecoava de longe pela estepe e pelas ruínas dos povoados, pedaços de florestas e baixadas de rios.

— Para vocês, camaradas soviéticos, a guerra terminou! Vocês podem continuar vivendo! Vocês podem nos ajudar a criar uma nova Rússia, mais fe­liz! Sem fome nem opressão, sem escravidão e sem abusar de seu trabalho. Saiam, com os braços erguidos sobre a cabeça, para que possamos ver que vocês estão dispostos a terminar esta guerra sem sentido! Camaradas soviéticos, vocês o conseguiram! Vocês podem viver!

Estas palavras não erraram o alvo. Sobreviver! A guerra terminou!

Uma Rússia nova! Paz. . .

O Alferes von Stattstetten trouxera um grupo de feridos para o hospital de campo e agora estava sentado lá, esperando condução que o levaria de volta à sua Quarta Companhia. Fumava um Papirossa, mercadoria roubada de uma companhia de transporte soviética, que os alemães tinham conquistado. O seu ferimento na cabeça cicatrizara e apenas ardia ainda um pouco; ele ainda usava a atrativa faixa mas já não se sentia como alguém que fora ferido. O médico do estado-maior, que armara uma mesa de operações sob um toldo e que operava, incessantemente, com o auxilio de um médico auxiliar e três enfermeiros, propusera amarrar-lhe uma papeleta de transporte em volta do pescoço e levá-lo para longe, mas Stattstetten recusara.

— Naturalmente que o enviarão de volta — disse o médico. — Mas antes que consigam catapultá-lo do hospital de campanha de volta para a frente, oito dias podem ter-se passado. Quem sabe, como estaremos dentro de oito dias? Isto pode significar seu seguro de vida. . .

O médico auxiliar Helge Ursbach ficara na frente, com as tropas, para prestar socorro imediato. Com dois enfermeiros, reunia os feridos, cuidava deles e providenciava para que fossem transportados para a retaguarda. Cuidava dos feridos soviéticos tão bem quanto dos próprios camaradas, o que naturalmente levou um dispêndio notável de gaze e medicamentos. Aquele que voltava do hospital de campanha deveria trazer novo material de enfermagem e von Stattstetten agora também esperava que o médico do estado-maior lhe entregasse os dois caixotes prometidos.

— Assim não poderemos continuar — disse o médico, no entanto, enquanto fazia uma pausa entre as operações. — Por favor, dê o seguinte recado a meu jovem colega lá fora: Se ele quiser enfaixar metade do Exército Vermelho, cedo não terei nem mais um pedacinho de esparadrapo aqui, para até cobrir uma mínima picada de agulha! Eu sei, eu sei, um médico deve atender a todos! Mas também não é possível tirar qualquer coisa dos bolsos de um homem nu! O reaprovisionamento aqui também engasgou. . .

Como a ofensiva fora detida, já que as tropas soviéticas se aferraram ao terreno diante de Prochorovka e Corotscha e não cediam nem mais um metro, a tropa de propaganda também recuou. Não havia mais soldados desgarrados. . . e solicitar a um grupo de combatentes que jogassem suas armas fora isto até o comandante especial da companhia PK julgava tolo demais.

Stattstetten estremeceu, como atingido por um tiro, quando, de súbi­to, ouviu atrás de si um grito claro e uma voz de moça o chamou pelo nome.

— Lorenz! Deus, Lorenz. . . é você.. .?!

Ele estava tio estonteado de surpresa e felicidade que se sentia incapaz de levantar os braços e correr na sua direção. Tão grande fora o choque de alegria que não conseguiu articular nem uma só palavra. Apenas os seus olhos reconheceram o vulto que corria para ele, com saia e blusa cinzentas, o cabelo louro-platinado, que esvoaçava em torno da cabeça, as mãos, que já se estendiam para ele durante a corrida.

Neste instante ela já chegara para junto dele, jogou os braços em torno de sua nuca e o beijou. Só agora a sua paralisia se relaxava; ele a abraçou, apertou-a contra o peito e acreditou que iria morrer de tanta felicidade.

— Olga Fedorovna. . . — gaguejou, ao liberar sua boca um instante. — Olitschka. . . De-de onde vem você? Oh, você. . . você. . . — Apertou-a contra si novamente, cobriu seu rosto de beijos e nem dava pelota para os gritos dos que os rodeavam, dos quais “Mais fundo! Mais fundo!” e “Atravessando a saia não dá. . .!” ainda eram os mais brandos.

Mais tarde estavam sentados entre armas pesadas e oficinas montadas sobre veículos, na grama, direto sobre a terra, e seguravam as mãos, apoiavam a cabeça um no outro, e quase não conseguiam mais respirar tranqüilamente, porque seus corações bancavam os doidos e o sangue corria pelas artérias tão rapidamente que estas mal podiam contê-lo.

— Você foi ferido? — perguntava Olga, já pela quinta vez, e ele respondia:

— Só um arranhão. Já sarou. Na realidade nem precisaria mais andar enfaixado.

— Meu pobre querido. Meu pobre, pobre querido! — Novamente ela o acariciou, o beijou, e ele pôs as mãos sobre seus seios fartos e sentia, impregnado de profunda felicidade, o latejar excitado de seu coração. Seus dedos desabotoaram a blusa, passavam por sua nudez e ela o fitou com grandes olhos redondos e azuis, de criança.

— Eu a amo. . . — disse ele. Simplesmente “Eu a amo. . .” Isto era tão simples e tão abrangente, tão natural e tão claro como as estrelas.

E ela inclinou a cabeça, concordando, apertando a mão livre contra o colo, e gemeu, quando os dedos dele, inquietos, começaram a tatear.

— Eu escrevi para você todos os dias, Olga — disse Stattstetten com a garganta seca. — Você sabe quantas cartas dá isto? Uma montanha inteira! Costumava carregar todas numa sacola de lona. No mínimo, enviei-lhe 10 cartas. . .

— Nenhuma chegou, querido. . .

— No seu endereço de campo. . .

— Nada. . . absolutamente nada. . . — Ela suspirava e ao mesmo tempo curtia a mão que a acariciava. — O que foi que você escreveu?

— A respeito do céu e da terra, de Deus e do mundo. . . e a nosso respeito. Escrevi contos, poemas, versos. . . você sempre estava comigo. . . sempre. . . Quantas vezes, em pensamento, recitei poesias para você. . .

— Agora estou aqui. — Ela escondeu o rosto no pescoço dele e começou a tremer. — Recite uma poesia. . .

Ele levantou a cabeça e fitou o céu. Suas mãos ainda estavam sobre os seios e o colo de Olga.

E ele falou do verão e dos girassóis, da esperança de um reencontro. Ela pôs a mão sobre a boca de Lorenz e o interrompeu com um beijo.

— Não continue a falar — murmurou. — Não fale mais. . . venha. . .

Levantaram-se, foram de mãos dadas para um dos veículos-oficina deixados de lado, subiram nele e fecharam a porta atrás de si. Podia-se sentir o cheiro de óleo diesel e de gordura rançosa. Encontraram-se em cima de um cobertor de lã sujo.

— O mundo está cheio de girassóis — murmurou ela, uma só vez, nestes minutos que passavam tão rápido. — A terra e o céu estão repletos de girassóis. . .

E ele respondeu, o rosto escondido nos cabelos louros, molhados de suor:

— Não vejo nem escuto nada. . . só sinto você, só você. . . você é tudo. . .

Na calada da noite o Alferes von Stattstetten voltou para a Quarta Companhia com um balde, dois caixões de material de enfermagem, um pequeno saco com a correspondência e uma provisão especial de conhaque, sendo re­cebido pelo médico auxiliar Ursbach, que já o aguardava ansiosamente. Tropas de espionagem, que iam à frente, farejando o caminho, se tinham defrontado com grupos inimigos e houve troca de tiros. Ao norte de Novo Sloboda, no curso superior do Corjen, os soviéticos tinham ocupado uma posição de captura. Portanto, era impossível prosseguir nesta direção, sem um forte apoio da artilharia. Os comandantes das tropas alemãs destacadas para essa região sabiam muito bem, e havia consenso geral acerca disto, que qualquer assalto traria perdas volumosas. E eles não podiam mais arriscar perder tantos homens, já que nenhum mais vinha da reserva. O OKH não mandava mais ninguém. O pedido urgente do Marechal-de-Campo von Manstein no Quartel-General do Fuehrer, de jogar na batalha a Divisão SS Viking e o 24º Corpo Blindado, junto com o 17º Corpo Blindado, que estavam na re­serva, fora recusado pelo Fuehrer. Na manhã desse dia 10 de julho de 1943 a catástrofe já prenunciada ocorrera no sul: as tropas dos Aliados — depois que o resto do Exército de Rommel, em posição militar de retirada, deixou a África — tinham desembarcado na Sicília, para abrir a frente de baixo para cima. A situação lá era trágica. Os italianos não ofereciam qualquer resistência, jogavam logo as armas fora, e se entregavam ou desapareciam nas montanhas da Sicília. Hitler já incluíra em seus cálculos a perda total da ilha, mas queria impedir a todo custo que a invasão também se apoderasse do continente! Ao invés de reforçar as tropas na frente do Leste, o Fuehrer deu ordem de destacar divisões para formar um novo exército italiano!

Portanto, agora dependia de cada homem: qualquer risco, que ameaçava trazer baixas maiores, era impensável. Só restava esperar. Só que ninguém sabia o que poderiam esperar. Tinham certeza de uma só coisa: depois de um êxito parcial inicial com a conquista de 35 quilômetros de terreno, agora começava a luta por cada metro.

E Cursk ainda estava muito distante. . .

Por outro lado, a partir dos fundos da Rússia, pela ampla estepe, as reservas soviéticas começavam a chegar. Somente o General Conjev trouxe para a região de Prochorovka o Quinto Exército Blindado e o Segundo Exér­cito Blindado. Tropas novas, com as melhores munições do mundo.

— Lá por Novo Sloboda ainda deve haver feridos pelo chão! — disse Ursbach, abraçando Stattstetten. — Só dois caixotes?

— São os últimos. . .

— Não fique cagando assim, Lorenz. . .

— Eles não têm mais nada! Há algo de podre nessa história.. . o médico do estado-maior já chegou ao ponto de mandar lavar toalhas higiênicas usadas.

— Mais algo de novo? Grafitos de banheiro? Cinqüenta por cento deles geralmente estão com a razão. . .

— Eu revi Olga Fedorovna — disse Stattstetten, com ar de quem sonha. Seus olhos de rapaz tinham um brilho febril. Ursbach o fitou, sem nada compreender.

— Quem foi que você viu?

— Olga Fedorovna Nasarova, da Equipe Especial de Propaganda III. Mas eu já lhe falei a respeito dela!

— A moça a quem você escreve cartas e poemas?

— Sim.


— Homem, Lorenz, então ela existe de verdade?!

Stattstetten fitou Ursbach, atônito.

— Mas o que foi que você pensou?

— Desculpe, mas eu sempre me dizia: deixe-o sonhar. . .! Talvez ele precise disso, está procurando apoio nestes tempos horríveis e aí inventou uma pequena ucraniana. A amada distante, inalcançável, o vulto do sonho, que fornece força e segurança. Existem pessoas que precisam de algo assim, só agüentam quando podem se relacionar com uma figura ideal. . .

— Então você pensou que eu estava maluco?

— Não, achei que era um rapaz muito sensato! E agora, vejam, essa Olga existe de verdade! E ela estava na retaguarda?

— Voltou do campo. Missão: recolher soldados soviéticos desgarrados. — Stattstetten baixou a cabeça. — Quando a guerra terminar — disse em voz baixa — casarei com ela. Depois de Olga nunca mais haverá outra mulher para mim, você pode compreender isto, Helge? Um amor como esse só existe uma única vez. . .

O médico auxiliar Ursbach abraçou Stattstetten.

— Claro que compreendo, rapaz. Foi bom?

— Nós. . . nós estivemos em um caminhão carregado de material, até que alguém bateu na porta e berrou: “Agora chega de foder! Eu preciso de um pote de óleo lubrificante. . .” Helge, eu nunca fui tão feliz...

— Mas a guerra continua, querido Alferes Lorenz. — Ursbach deu-lhe uma palmadinha amistosa nas costas. — Eu tenho de sair e recolher feridos. . .

— Agora? No meio da noite?

— Um tiro nos pulmões não pode esperar até de madrugada. . . Eu já falei com o comandante. Iremos soltar bolas de fogo com pára-quedas e devassar o terreno com a luz que fornecerem. Talvez o Ivan faça o mesmo e até nos agradeça.

— Humanidade no açougue!

— Fique satisfeito com isto. . . afinal de contas, é um resto de sentimento humano em nós!

Ursbach e von Stattstetten se apresentaram com três enfermeiros à ponta dos tanques. A Quarta Companhia também ficara presa ali e se dividira pelo terreno ondulado. O povoado de Novo Sloboda era bem espaçado. Havia um núcleo central e, bem distribuídos pelo terreno, numerosos sítios. Entre eles havia jardins e campos, pastos para o gado, recintos cercados com arame farpado para carneiros e porcos. Tudo estava abandonado, incendiado, destruído por tiros. Uma metade do povoado fora conquistada pelos alemães, a outra parte, até o rio, ainda estava nas mãos dos soviéticos. Aqui cada ruína fora transformada em uma pequena fortaleza. Mais atrás, no imenso semicírculo de Obojan até Corotscha, as divisões de tanques russos tinham aceito uma proposta que — vejam que audácia ímpar — ia de encontro à ordem expressa de Stalin, segundo a qual todos os tanques deveriam ficar na ofensiva.



O Major-General Nikita Cruschtschev, na função de general-conselheiro político, a qual já exercera na frente de Stalingrado, mandou enterrar todos os tanques disponíveis no terreno ondulado, na floresta e na estepe livre! Desta forma surgiu uma imensa barragem de fogo, um cadeado de abrigos de aço, da artilharia, diante do qual o ataque alemão se esboroava. Com os recursos de que ainda dispunham os exércitos alemães, não era mais possível romper essa linha. A decisão de Cruschtschev entrou para a história da guerra.

Bauer III, que instalara o posto de comando da companhia em um celeiro, recebeu seu alferes com cara azeda. Estava ocupado em escrever cartas.

“Cara Sra. Schneider, caro Sr. Schneider, o seu filho Franz, um dos nossos melhores soldados e um camarada estimado por todos nós, morreu hoje, ao meu lado, no ataque ao povoado de Novo Sloboda, cumprindo, corajosamente, o seu juramento ao Fuehrer e á pátria, dando a vida pela Grande Alemanha. Os senhores podem se orgulhar dele. Ele morreu para que nós, a pátria, nossos filhos e netos possam viver em paz. . .”

Já tivera de escrever muitas cartas semelhantes a esta, sempre com o mesmo texto. Só se alteravam o nome e o lugar do combate. E às vezes, quando a morte fora excepcionalmente terrífica, Bauer III acrescentava: “Ele não sofreu. Morreu imediatamente. Hoje o enterramos com honras militares. Na primeira oportunidade enviar-lhes-ei uma fotografia do seu túmulo de herói. . .”

Para dizer a verdade, Bauer III nem possuía máquina fotográfica. Mas os pais ou a esposa não sabiam disso e ansiavam pela foto, a aguardavam e, mesmo que nunca chegasse, diziam: Ele não sofreu. Foi-lhe dado um lindo túmulo. Com uma cruz e flores. Talvez a gente possa visitá-lo depois da guer­ra. . .

Ainda não se sabia que os soldados soviéticos, cumprindo ordens de Stalin, aplainavam todos os túmulos alemães nos campos reconquistados, para não criar heróis alemães em terra russa. Os exércitos de mortos desapareciam no nada. . .

— Isto dá para vomitar!. . . — exclamou Bauer III e interrompeu a carta aos pais de Schneider. — Novamente dois mortos. E novamente tiros na cabeça! Hesslich tinha razão. . . elas estão novamente por aí, diante de nós. . .

— O batalhão de mulheres? — perguntou Ursbach com voz abafada e pensou imediatamente em Lida Djanovna, a estudante de odontologia, que matara Ploetzerenke. E, no entanto, ele, Ursbach, a beijara. Agora, recordando-se do fato, considerou-o uma loucura e se desculpou por ter sofrido um choque com o assalto das mulheres. Não conseguia encontrar outra explicação, apesar de pensar muitas vezes em Lida Djanovna.

— Sim. As nossas diabólicas mulherezinhas! Estão agachadas nas ruínas do povoado e liquidam tudo que se movimenta entre nós! Como já dizia o velho Ben Akiba: Tudo se repete! Isto já se tornou quase um jogo familiar conhecido! Quem é que vai ter um buraco na testa em primeiro lugar?

— E onde está Hesslich?



— Novamente em campo! — Bauer III esboçou um ligeiro sorriso. — Mal ouviu, lá estão as tetas das heroínas. . . mandou-se logo! Com uma sacola de pão cheia de munição, meia dúzia de granadas de mão e um punhal! Impossível detê-lo em uma situação dessas! Comporta-se como um garanhão que fareja a égua em cio. — Fitou Ursbach. — O senhor realmente ainda quer sair?

— É necessário.

— Com as suas bolas de fogo o senhor vai atrapalhar todo o esquema de Hesslich. Imagine só, o senhor ilumina o terreno e bem no meio, em um jardinzinho, Hesslich está deitado. Ao alcance de qualquer tiro, como um cama­rada de papelão!

— Quantos ainda não foram recolhidos, Franz? — perguntou Ursbach com calma.



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