Konsalik b de atalhão Mulheres



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E depois: essas malditas mulheres! Essas feras frias como gelo! Então não existe uma centelha de medo em seus corações? Como é possível uma coisa dessas? Mulheres mantêm uma cabeça-de-ponte e já no segundo dia fazem parar uma cunha de choque!. . . Mulheres!

Também Peter Hesslich alcançara a outra margem. Tivera mais sorte que os outros, saindo da água sob um arbusto, cuja folhagem ramificada se es­tendia até a água. Saiu do rio sob essa proteção, rastejou margem acima e esgueirou-se entre os arbustos.

De repente seu coração começou a bater descompassadamente. Como em uma fotografia via os buracos e os funis ocupados pelas moças. Estavam agachadas, sozinhas ou duas a duas, atrás de pequenos montes de terra, e observavam, com as armas especiais apertadas contra os ombros, os movimentos no rio. Os Tigres e Panteras agora atacavam essas posições, enquanto que o gordo Ferdinando continuava a semear o pânico entre os T-34. Também o Flak desencadeara uma salva de tiros e atirava diretamente em pontos críticos. Uma das granadas atingiu um buraco. Hesslich viu como duas moças foram dilaceradas pela explosão e seus membros foram atirados para o alto, jun­to com esguichos de terra.

Stella, onde está você agora, pensou ele e engoliu em seco. Por acaso vo­cê estava lá? Com os dedos a tremer enxugou o cadeado de sua arma, trocou o cartucho molhado e esperou que o fuzil não tivesse se danificado pela água que nele se infiltrara. Depois começou a observar o terreno com o telescópio de mira e se deteve em um declive, atrás do qual cinco formas se agachavam. Uma por acaso olhava na direção de Peter. Ele viu um rosto com ossos largos, sério, olhos um pouco enviesados e sobrancelhas pretas carregadas. A boca gri­tava algo e os lábios cheios se arrojavam para a frente. Hesslich parou de respi­rar e lentamente puxou o gatilho com o dedo indicador.

Bajda foi atirada para trás como golpeada por um punho invisível. Abaixo da raiz dos cabelos repentinamente havia um buraco, do qual o sangue jorrava feito fonte.

Ugarov lançou-se sobre ela com um grito selvagem, desesperado, abraçou-a e apertou contra si a cabeça sangrenta.

— Soitschka! — gritou e sua voz soava esganiçada. — Soitschka. — E de­pois uivou como um lobo: — Não. . . oh não. . . nãaao. . .

Ugarov abriu o casaco do uniforme de um só golpe, rasgou a camisa e apertou contra o peito a cabeça da morta. Não parecia ainda compreender que ela não estava mais viva, que apertava contra si um cadáver. Incessante­mente gritava seu nome, beijava seu rosto sangrento, sacudia o corpo, como se ela pudesse acordar, rir para ele e dizer com sua voz profunda: “Meu pequeno, não é nada. Apenas um arranhão! Não fique tão excitado, meu amor! Onde está a minha arma? Quem é o cachorro sarnento que atirou em mim?! Veja só, como estou bem. . .” Seus olhos pretos faiscariam, seus lábios cheios se projetariam para a frente. . . E Ugarov pensava como esses lábios tinham acari­ciado o seu corpo e como cada vez ele quase desmaiava de tanto gozo.

Deitou o corpo na terra, novamente puxou a camisa sobre o rosto e a fitou com um olhar insano. Uma moça correu, às pressas, para o grupo de Stella e se jogou no funil.

— Soja morreu! —gritou a moça e as lágrimas corriam pelo seu rosto suado. — Neste instante. Ao meu lado. Tiro na cabeça! Os fascistas atravessa­ram o rio. . . Soja caiu. . .

Ela se agachou porque os Tigres alemães visavam, de novo, diretamente a cabeça-de-ponte soviética e as granadas espocavam à sua volta. Por detrás, em alta velocidade, apareceram três T-34, levantando nuvens de poeira. Co­meçaram a atacar os tanques alemães. Na outra margem o vagaroso Ferdinan­do, gorducho, rolava tranqüilamente. Era praticamente invencível, a não ser que uma granada de calibre 10,5 o atingisse em cheio na torre larga, fortemen­te blindada. A nova ótica dava a seus tiros uma precisão quase perfeita. Os tanques soviéticos que agora se acercavam para sustentar o batalhão de mu­lheres entraram em um combate desigual.

Ugarov compreendeu afinal que Soja Valentinovna tinha sido morta. Como não conseguia explicar de onde viera o tiro, afastou-se, rastejando, do cadáver, olhou em torno, à espreita, mas não viu nada a não ser esguichos de terra a jorrar, lançadores de granadas em ação e algumas formas que passavam rápidas pelo terreno procurando ocupar novas posições.

Hesslich, ao contrário, via claramente o jovem tenente soviético em seu telescópio de mira. Peter ainda estava bem protegido nos densos arbustos, à margem do rio, e observou durante dois segundos o rosto de Ugarov, que o encarava de frente. Enquanto isto, os sobreviventes da Quarta Companhia se agachavam no ângulo morto do declive plano da margem do rio e aguardavam que os Flaks e os Tigres dessem cabo das posições soviéticas. Bauer III, adver­tido pelas severas perdas sofridas ao atravessarem o rio, não ousava ordenar novo ataque — afinal de contas, essas malditas mulheres matariam imediata­mente qualquer um que apenas ousasse levantar a cabeça.

Minha linda Quarta Companhia, pensou novamente e sentiu dificuldades em sufocar os soluços. O que restou de você. Provavelmente nem mesmo a força de um trem. . . E foram mulheres que a aniquilaram.

Mulheres!

Peter Hesslich tinha os olhos de Ugarov no reticulado. Quando o golpe mortal atingiu seu olho esquerdo, Victor Ivanovitsch ergueu os braços para o ar, sentindo um cartucho quente invadir seu cérebro, extinguindo assim sua vida. Já estava morto quando caiu sobre Soja Valentinovna, como se quisesse, com seu corpo, protegê-la de uma ulterior agonia. Ficaram estirados na concavidade, uma cabeça encostada na outra, assim como se tinham deitado fre­qüentemente em tempos mais felizes.

Com uma extraordinária precisão, tiro após tiro, Hesslich matava uma moça do Exército Vermelho após outra. Na totalidade, matou 12 moças e não sentiu nem remorsos nem náuseas de si mesmo. Só conseguia pensar no que acabara de vivenciar, há pouco, quando seus camaradas atravessavam o rio. In­defesos, com as armas levantadas sobre a cabeça, tinham sido estraçalhados por aquelas moças, como animais em uma feroz caçada.

Esse pensamento à parte, só um outro ocupava sua mente: a palavra primordial: vida! Tanto já se escreveu e se falou a respeito dos pensamentos de um soldado que ataca. . . mas, infelizmente, na maioria das vezes, não corres­ponde à realidade. Um soldado que ataca não pensa em nada, a não ser: Con­tinuar! Continuar! Temos de passar. . . passar. Quanto ao resto, os pensamen­tos são obliterados, as pernas correm, as mãos atiram e apunhalam e golpeiam, as gargantas berram Hurra, e aí está o inimigo, aí está a posição do adversário, é necessário ultrapassá-la, é necessário rompê-la e quando se o conseguiu, en­tão por enquanto se sobreviveu, agacha-se em um buraco ou se deita atrás de uma parede em ruínas ou se joga no chão protegido por um tanque já destruí­do. E só então recomeça o pensar, e se constata com imensa alegria: hoje você conseguiu superar. Mais uma vez você conseguiu sair da merda. Quantos mor­tos tivemos? 29 homens só na nossa companhia? O que, o Fritz também está entre eles e o mesmo temos a dizer do Walther? Eta gente boa! E tiveram que pifar aqui no Donez. O Walther, este até chegou a casar na última vez que saiu de férias e imediatamente gerou um filho. Na última carta vinda pelo Correio estava escrito: “Vou ter um filho. . . como estou satisfeita. . . Mas agora tenho ainda mais medo por você. . .” Walther com “th”. Tiro na cabeça bem no meio do Riacho Rosumnaja. Assassinado por uma moça. . .

Sim, agora já se é capaz de pensar novamente — mas na hora do assalto, do visar, do apertar o gatilho, não. Não, quando a única coisa que domina é o instinto de autopreservação.

O heroísmo é mais uma propriedade animal que humana.

Stella e Sibirzev recebiam as novas notícias. Ugarov morto, a Tenente Marina Antonovna Obuschova, que deveria substituir Bajda em caso de neces­sidade, morta. A sargenta Katja Semjonovna morta. Também mortas as sub-oficiais Olga, Jekaterina e Vera. A ala direita da divisão sob forte bombardeio dos Tigres. Os alemães estão trazendo artilharia de campo leve, puxada por cavalos, unidades ligeiras sob a proteção do maldito gorducho Ferdinando. E: 14 mortos por tiro na cabeça, entre eles Soja e Ugarov e Vera e. . . e. . .

Stella Antonovna e Sibirzev agora eram os únicos subcomandantes da Divisão Bajda. Sibirzev veio correndo, feito um louco, em ziguezague, para o buraco construído por Stella e se deixou cair por sobre a borda. Sangrava na testa. Mas não se tratava de um tiro raspante ou uma ferida causada por estilhaços, ele simplesmente se machucara ao se atirar ao chão.

— Você tem de passar a comandar a unidade! — gritou para Stella. — Não sobrou mais ninguém! Todas as comunicações foram cortadas! Estamos como em uma ilha. Os alemães se encontram na nossa direita e na esquerda! Stella, você tem de agir! Aqui morreremos como cachorros. . .

— E você? — Stella gritou, retrucando. — Você também é sargento! E você é um homem!

— Como se isto jamais tivesse tido qualquer importância para vocês! — respondeu Sibirzev amargamente. — Vocês são as grandes heroínas! O que vo­cê acha que se espera de uma Korolenkaja, hem?

Quatorze tiros na cabeça. . . é ele, pensou Stella e estremeceu. Só pode ser ele, só Piotr pode ter vindo até aqui. Deve estar deitado em algum lugar e atira, sem sentimentos, como uma máquina. Visa com aqueles olhos que podem ser tão ternos, atira com aquelas mãos, que podem acariciar de modo tão estonteante. . . Que jamais poderá compreender o Homem?

— Notícia para os grupos! — gritou Stella, com voz dura. Ela fitava as três moças, que estavam agachadas no buraco, prontas para agir, a seu lado. — Stella Antonovna assume o comando da divisão. Retirar-nos-emos em meia hora. Aguardar meu sinal! Direção da retirada: Corjen. Aquelas que se desgar­rarem nos encontrem no povoado de Voljno-Larinskij. — Acenou para as três moças. — Vamos, camaradas!

O Ferdinando agora estava ao alcance dos três T-34, que imediatamente combateram com fogo cerrado o monstro de aço e arrebentaram suas corren­tes. Com isto ficou imobilizado, um abrigo de artilharia de aço, aprisionado, mas que disparava tiro após tiro.

O T-34 dianteiro dissolveu-se no fogo, na fumaça e nos estilhaços de aço que voavam pelos ares. Não obstante, os dois outros conseguiram liquidar dois Panteras, o que fez com que os alemães ficassem muito cautelosos. A artilha­ria de campo leve passou a um fogo de barragem — e o restante da Quarta Companhia ainda estava entre os arbustos da beira do riacho, sem qualquer possibilidade de iniciar um novo ataque.

A cabeça-de-ponte de Melechovo entrou na história da guerra.

As três moças correram, ágeis, para os grupos. Stella as acompanhou com o olhar, até que um novo tapete de granadas a obrigou a encolher a cabeça. Sibirzev, a seu lado, fitava o relógio de pulso, que amarrara com um peda­ço de barbante.

— Mais nove minutos. . . — disse ele em voz alta, quando o trator de fo­go passou para mais adiante. Tiros de carabinas fustigavam os ares, saídos de vários buracos. Na beira do riacho, três capacetes de aço alemães voram pelos ares. Os alemães os tinham levantado com o cano dos fuzis para observar a si­tuação.

— Ainda merda! — berrou o sargento Dumske para Bauer III. — As mu­lheres ainda estão lá!

— Alguém viu Hesslich? — o tenente gritou, por sua vez.

— Não! Ninguém. Estava no rio. . . não deu mais notícias. . .

Então ele também, pensou Bauer III, com amargura. As mulheres também o pegaram, afinal de contas. De maneira completamente diferente do que imaginara. Atravessa o rio e é liquidado como um castor d’água. O que lhe ser­viu aí todo o seu treinamento especial, Peter? Em uma coisa destas vocês em Posen não pensaram, hem? Merda de guerra. . .

Permaneceu com o que restava da sua companhia, sob proteção dos arbustos da margem do rio, mesmo correndo o risco de ser obrigado, mais tarde, a dar longas explicações a seu comandante. Perguntar-lhe-iam por que a Quar­ta Companhia não lograra tomar de assalto a cabeça-de-ponte parva. E ele res­ponderia simplesmente: “Atrás de nós estavam três Panteras, dois Tigres e três Flaks. . . destruídos! Eu recebi ordens de assaltar protegido pelos blindados. Mas aí não havia mais proteção. . .”

Teria de contar com o fato de que uma tal fala não seria bem recebida pelos oficiais superiores. Mas os três buracos nos capacetes de aço, levantados sobre a cabeça, eram mais imperiosos para Bauer III do que um aperto de mão vigoroso por parte do comandante da divisão ou até ser proposto para receber a Cruz de Cavaleiro.

Veículos trazendo novas reservas humanas apareceram e novos soldados da infantaria alcançaram assim a linha de frente. Saíram dos veículos e se colocaram sob a proteção dos tanques que ainda estavam disparando e de outros já liquidados. Até o gigante Ferdinando fora paralisado — um golpe certeiro atingira o seu cano de tiro. Agora ali estava ele, o colosso de aço, imóvel, com as correias despedaçadas, inútil e sem canhão. . . só a tripulação estava razoavelmente segura atrás das grossas chapas de aço. À sua sombra se reunia agora uma unidade de pioneiros com quatro lançadores de chamas. Um barco de assalto blindado com um motor de popa foi trazido, em uma corrida frené­tica, amarrado a um cano, como um reboque.

Eles iriam mostrar do que eram capazes a essas malditas mulheres!

Hesslich, a quem ninguém observava, em seu esconderijo, matou duas moças que mantinham a margem dianteira sob fogo com uma metralhadora. No inferno de nuvens de fumaça, explosões, terra a voar pelos ares e tiros, era impossível detectar de onde vinham esses golpes de mestre. Também o tempo não o permitia mais — a retirada iria começar logo.

Sibirzev acenou para Stella Antonovna. A meia hora passara. Os T-34 remanescentes deram meia-volta e retiraram-se, ainda atirando. Tinham cumprido sua missão. Os alemães estavam parados e não podiam mais correr riscos em virtude de suas elevadas perdas. Antes que pudessem assaltar com novas unidades, primeiro teriam de conquistar essa maldita cabeça-de-ponte. Os pio­neiros de assalto estavam a postos. . .

Stella, do fundo do abrigo, levantou o punho. Quase ao mesmo tempo Sibirzev jogou a primeira granada de neblina, que estourou com um ruído seco. Uma neblina branco-amarelada subiu aos ares, se dispersou, rastejou pelo chão, espalhava-se cada vez mais e construiu uma parede opaca e oscilante.

O sinal fora dado. Em nove lugares da Divisão Bajda outras granadas de neblina estouraram e transformaram a margem do rio, a estepe, o terreno on­dulado e os arbustos em uma só massa branca, semelhante a um mingau, Não havia mais alvos, era impossível reconhecer o que fosse. Uma neblina grossa, preguiçosa, espalhou-se por toda parte.

Os pioneiros correram adoidados para o rio, com seu bote de assalto;

a neblina os protegia. O Tenente Bauer III ainda hesitava. Isto pode ser um truque feio, pensou. Elas se envolvem na neblina, nós caímos na armadilha, nos erguemos e. . . peng. . . elas nos liquidam.

As moças abandonaram suas posições em pequenos grupos e se retiraram. Levavam consigo o que podiam carregar, armas e feridos. Stella, Sibirzev e quatro moças correram, protegidas pela neblina, para o buraco onde esta­vam Soja Valentinovna e Ugarov, ainda abraçados intimamente, na hora da morte.

— Nós não podemos levá-los conosco! — berrou Sibirzev. — Isto é loucu­ra! Dois mortos, só porque se chamam Bajda e Ugarov! Vamos Stella Anto­novna. . .

— Você acha que eu devo deixá-los aqui? — berrou Stella para Sibirzev.

— E as outras? Estes dois valem mais que as outras, hem?! Ninguém vai lhe agradecer por causa disto!

— Agradecerei a mim mesma!

— Com isto você não pode comprar nada! — Deu um empurrão em Stel­la e continuou correndo para dentro da neblina oscilante, em direção à segu­rança. Os dois T-34 esperavam para deixar entrar os sobreviventes.

Da neblina emergiu Marianka Stepanovna Dudovskaja, a moça alegre, de cachos castanhos, que uma vez fora aprendiz de padeiro e já com 17 anos, em apenas três meses, pusera nos fornos o que deveria ter feito em um semestre. Ela perdera a boina e mancava um pouco porque torcera o pé esquerdo ao correr. Com lágrimas nos olhos ficou de pé, ao lado de Stella, e olhou para a Bajda morta.

— Nós teremos de deixá-la aqui — disse Stella, duramente. — Mas eu me recordarei do lugar onde ficou. Após o término da guerra colocaremos uma lá­pide comemorativa. Vou me encarregar disso! Vamos. . .

As moças corriam, um pouco inclinadas para a frente, em direção aos blindados que a esperavam. Marianka e Stella e mais uma terceira moça se diri­giram para o T-34 no flanco esquerdo. Correram exatamente na direção de Peter Hesslich.

Hesslich trocara sua posição quando as primeiras granadas de neblina es­touraram. Como os grossos rolos de névoa o impediam de ver o que quer que fosse, no lugar em que estava, entre os arbustos, ousou abandonar a prote­ção dos ramos e se colocar diante do grupo. Queria esperar aí, até que os ho­mens da Quarta Companhia viessem da margem do rio ou até que moças ba­tendo em retirada cruzassem seu caminho. E olhem, lá vinham elas, através da neblina, só formas esquemáticas —três vultos a se esgueirar, com as armas nas costas, e caixas de munição nas mãos. Passaram por ele, correndo, uma após a outra, da esquerda para a direita, exatamente como as figuras de papelão no campo de exercícios de tiro em Posen.

Hesslich atirou. Marianka Stepanovna saltou e caiu de rosto no chão. A moça atrás dela continuou a correr, mas a terceira parou, se debruçou, virou Marianka e observou o buraco do tiro na testa.

Hesslich sentiu-se como que atingido por um raio. Embora os rolos de neblina só permitissem reconhecer vagamente os contornos de uma figura humana, que só assumiam forma concreta através do telescópio de mira, ele sabia que a mulher lá do outro lado olhava a seu redor e esperava. Não se sentia capaz nem de levantar a arma, nem de olhar-lhe a cabeça pelo telescópio. Na realidade, já não era mais capaz de fazer movimento algum; ficou paralisado, sem força nem vontade, e só pensava em uma coisa: corra, vamos, corra, por favor, fuja. . . O que você ainda está aguardando? Logo estarão aqui os pioneiros com lançadores de chamas, esta é a maneira mais horrenda de morrer. . . o homem se dissolve em óleo em chamas. . . Corra, portanto, sua puta idiota que quer bancar a heroína, corra, corra.. . Meu Deus, diga-lhe que corra. . .

Stella Antonovna ergueu-se lentamente. Olhou em torno de si, continuava de pé ao lado do cadáver, virou-se para todos os lados e esperou.

Você está aqui, pensou. Este tiro é seu. Ninguém mais é capaz de acertar nesta posição. Eu sei que todas as nossas baixas anteriores correm por sua conta. Onde está você? Por que hesita? Piotr, estamos em guerra. Eu sou sua inimiga, da mesma maneira que Marianka, que Soja, que Ugarov. Veja, estou esperando. . . será que não sou um alvo suficientemente bom?

Andou lentamente para a frente, passo a passo; caminhava de cabeça er­guida e a nuca rígida pelos rolos de neblina. Hesslich a observava. O rosto dele estremecia, queria gritar, mas ainda estava como paralisado, e somente possuí­do por um único pensamento: corra, Stella. . . por favor, por favor, corra. . .! Lá atrás o T-34 está esperando. Suba! Suma. . . por favor. . . por favor. . . Os lançadores de chamas estão chegando. . .

Stella Antonovna caminhou pela neblina como se suas pernas fossem feitas de madeira. Suas mãos agarravam a caixa de munição. Olhava diretamente em frente.

Por que você não atira, Piotr?, pensou. Porque sou mulher? No meu livro de tiros estão registrados 147 alemães! Por acaso este não é um número do qual a gente se deve orgulhar? 147 da sua laia! Você também teve sucesso hoje. Com certeza irão condecorá-lo! E agora você está parado, em algum lugar que não sei qual é, e não atira! Por que não? Por que uma vez dormimos juntos? Por que dissemos um ao outro: Eu te amo?! Isto é motivo para agora fracassar? Impera a guerra, Piotr! Eu sou um inimigo. . . Que diferença faz se este inimigo um dia abriu as coxas para você? Nenhuma. . . ou? Nós temos de nos liquidar, isto é tudo que é exigido de nós, e não amor. . . Piotr, atire. . .! Você não devia hesitar. . .

Hesslich observou imóvel como o vulto de Stella se dissolvia no nevoeiro. O barco de choque atracara a 40 metros do lado dele. Os pioneiros correram para a terra, o primeiro lançador de chamas iluminou a névoa artificial.

Corra, Stella, corra. . . pensou Hesslich e se deixou cair entre os arbustos. Oh, meu Deus, por favor, corra. . .

Ouviu as correntes dos blindados sacolejarem. O T-34 que estava à espera já recolhera as últimas moças da Divisão Bajda e partiu trovejando. Hesslich sentou-se, prendeu a arma entre as pernas e esperou, até que os primeiros ho­mens da Quarta Companhia passaram por ele a correr. Juntou-se então, a eles, como se durante esse tempo todo estivesse deitado entre os arbustos, junto com o grupo. Só quando romperam a parede de neblina, os homens pararam.

Os tanques tinham desaparecido. Apenas uma nuvem de poeira mostrava o caminho pelo qual se tinham afastado. Também Flak e Pak se tinham re­tirado. Sete armamentos atingidos, ao lado dos quais estavam cadáveres retor­cidos, permaneceram.

A cabeça-de-ponte de Melechovo atingira seu objetivo: a ofensiva alemã fora detida no segundo dia e não apenas nesta região mas sim em todas. Ao norte, no Nono Exército, no flanco sul ao lado do Quarto Exército Blindado e no Segundo Corpo Blindado SS. Até o Corpo Blindado nº 48, no flanco esquerdo mais extremo da cunha de ataque, só conseguira vencer alguns par­cos quilômetros, torturando-se. A Divisão Kempf conquistara Belovskaja — a uma distância de 11 quilômetros das posições de partida. O milagre de Cursk não ocorreu; o fanal, pelo qual Hitler esperara e que deveria paralisar a Rússia, não ardeu em labaredas. . . Assim como acontecera em Melechovo os bata­lhões soviéticos tinham oferecido uma resistência encarniçada, em todos os lugares, e depois, exatamente de acordo com a tática da cerca de borracha, recuaram. As cunhas alemãs dizimadas só os seguiram hesitantemente. Sua força interna já fora quebrada.

Bauer III contou quantos homens restavam da sua companhia. Eram apenas 43. Lorenz von Stattstetten fora ferido — um tiro de raspão na raiz dos cabelos. Parecia muito atraente com a cabeça enfaixada, sangrenta. Ele se adaptava a uma fotografia de herói da companhia de propaganda, sob a qual poder-se-ia ler, nos jornais alemães: “O soldado alemão ataca, indômito, o Leste. Até os feridos são arrastados pela corrida vitoriosa.” No entanto, os homens da PK não eram responsáveis pelo texto. Ele seria, como a maio­ria deles, elaborado e enviado diretamente pelo Ministério da Propaganda em Berlim, dirigido, centralizadoramente, de acordo com as conferências semanais de Goebbels.

A tropa de Stattstetten só se compunha, agora, de soldados feridos. A maioria deles apresentava ferimentos devidos a estilhaços, 11 homens que, apoiando-se uns nos outros, se apresentaram mancando. E, saindo dos rolos de neblina, que um leve vento agora desmanchava lentamente e perfurava, também Peter Hesslich veio em direção ao grupo. Bauer III o fitou como se visse um fantasma.

— Você. . .? — perguntou, esticando cada sílaba.

— Como está vendo. — Hesslich sentou-se na grama. Enquanto isso os enfermeiros também tinham atravessado o rio e saíam em busca dos feridos. Dois Pantera passaram, céleres, à sua esquerda e direita. Tinham ousado atravessar o rio pouco profundo e conseguiram não se atolar na lama. — Já deve­riam ter feito isso antes, e nós não estaríamos tão mal como agora ficamos.

— Onde você andou? — perguntou Bauer III duramente.

— Por aí.

— Ninguém viu você. Mandei chamá-lo. Você não se apresentou.

— Porque não era possível, até por simples razões espaciais.

— Como assim?



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