Konsalik b de atalhão Mulheres



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Encontro11.09.2017
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— E o quarto? — perguntou a forma à esquerda.

— Dou 30 tiros em um minuto. . . — respondeu a da direita.

— Fanfarronice! Você só tem cinco no arsenal.

— Em Frunse atirei com seis espingardas, uma atrás da outra. Trinta em um minuto. Está nos meus papéis.

— E quantos acertaste?

— Vinte e quatro. . . no meio. . .

— Artista! — A forma do meio colocou o dedo indicador, vestido com a luva branca tricotada, no gatilho da carabina. As duas outras a imitaram. Esta­vam deitadas na neve, planas, como uma leiva sobre a qual passara um trator, invisíveis, mesmo que alguém estivesse um metro diante delas.

— Conto... Dez... nove... oito... sete...

Na cruz reticulada dos telescópios de mira rostos pálidos com binóculos luziam foscamente. Sob os capuzes de camuflagem as beiradas dos capacetes de aço. Depois um queixo livre, um pescoço, a gola do uniforme. Não eram al­vos bons, os binóculos atrapalhavam, descartavam os olhos como alvo. Só res­tava um pedacinho mínimo sobre a raiz do nariz, o lugar entre o binóculo e a beirada do capacete de aço, ou talvez pelo pescoço, mas isto já era menos se­guro. . . muitos já tinham sobrevivido com um tiro no pescoço; aí seria neces­sário usar um cartucho explosivo. Mas isto elas desdenhavam. . . bastava-lhes o cartucho M-30 com a ponta amarela, o cartucho que apelidavam a “pomba gorda”. Quando a M-30 acertava, podia-se fazer nova marca no livro de tiros. E acertavam sempre.

Elas miraram pelo telescópio. . . a pequena mancha branca sobre a raiz do nariz estava em linha reta. Conheciam suas carabinas como o próprio cor­po; não havia desvio, estavam familiarizadas com cada palmo. . . se não acer­tassem no alvo, não fora a arma que fracassara, mas o atirador.

— . . . seis. . . cinco. . . quatro. . . três. . .

O indicador curvou-se para o disparo. Os rostos no reticulado, brilhando à luz obscura da neve, quase cresceram para elas. Aumentavam, saíam mais da terra. . . os canos das espingardas os acompanharam, o campo de visão melho­rou, os binóculos desapareceram dos rostos, os olhos ficaram livres, um alvo quase ideal. . . olhos que fitavam em sua direção, sem as ver.

— . . . dois. . . um. . . zero.

Ecoou como um só tiro. Dois segundos após soou o quarto. Mais rápido ninguém podia atirar. Abrir a trave, colocar o cartucho, fechar a trave, disparar. . . em dois segundos.

— Tarde demais! — A forma do meio virou a cabeça para o lado. — Isto também não era possível. O reflexo de agachar-se ser mais rápido do que o seu de carregar a arma.

Soava sombrio como o julgamento no campo de treino de tiro. Novamente olharam pelos telescópios de mira e viram como o quarto adversário, acossado, meio engatinhando, meio correndo para a frente, fugia em direção às posições alemãs. Já não era mais um alvo. Seria desonroso acertar talvez na sua bunda.

As três formas quase invisíveis viraram-se para o lado e se entreolharam. Sorriram uma para a outra e puxaram as carabinas para si.

— Parabéns — disse a do meio. — Parabéns, Schanna.

— Parabéns, Lida.

— Parabéns, Darja.

Elas ainda esperaram alguns minutos, mas do lado dos alemães tudo era silêncio. Depois rastejaram, em fila, até uma trincheira onde se deixaram cair. Lá se abraçaram, beijaram-se na face e correram, abaixadas, para as posi­coes construídas, bem camufladas. Só no abrigo de terra arrancaram as boi­nas das cabeças.

Elas tinham cachos marrons, pretos e castanho-avermelhados e rostos bonitos, quase infantis, de mulher. . .

O Tenente-Coronel Von Rahden descobrira o mistério dos desertores. Pelo me­nos, acreditava nisto. Mirava, encarniçado, os vultos femininos ao lado do abrigo de terra soviético.

— Mais perguntas? — Olhou rapidamente para o Capitão Langhesi. —Sinto muito ter de dizê-lo, mas isto só pode acontecer a italianos. Vêem lá do outro lado algumas bundas espetaculares de putas. . . e pronto, lá estão! Que merda é esta! Onde está uma saia, para eles abre-se a dobradiça. O senhor sabia que os Ivans recebiam visitas de mulheres?

— Não. . . — respondeu o Capitão Langhesi, rouco de raiva. — E protes­to! Não admito que difamem a minha nação!

— Sr. Capitão. . .! — disse rispidamente o Tenente-Coronel Von Rahden. Ora vejam! Um oficial subalterno protestando contra a verdade?! — O que eu vejo, vejo! E eu sei pensar logicamente! E terceiro: Eu estive meio ano na frente italiana nos Bálcãs. Como observador. Cruz credo, o que vivi! De espan­to o boné pairava nas pontas dos cabelos! — Von Rahden virou-se novamente para as linhas soviéticas a fim de observar as mulheres. Elas haviam desapareci­do. A ampla estepe estava abandonada, sob a luz difusa da noite de neve. — Agora, não estoure logo por orgulho nacional ferido! Nem todos podemos ser prussianos! As mulheres sumiram! Meus senhores, a meu ver, a questão dos desertores está esclarecida.

Baixou o binóculo e pestanejou, olhando para a amplidão. Também o Major Schlimbach e o Major Halbermann baixaram os seus. Neste instante, ecoou um tiro. O Capitão Langhesi, instintivamente, jogou-se no buraco, de lado. Quase simultaneamente, soou um segundo tiro. Langhesi ouviu a bala chispar sobre sua cabeça, agachou-se, levantou os ombros e encolheu-se como um ouriço. Se agora viessem também atiradores de granadas, a situação pode­ria ficar mais crítica.

— Sumam! — sibilou para os três oficiais alemães. — Eles estão começan­do a atirar de verdade!

Mas os oficiais não se moveram. Estavam deitados à beira do buraco, com as cabeças abaixadas e pareciam aguardar. Só era estranho que estivessem deitados com as cabeças em cima da beirada.

Quando tudo permaneceu em silêncio, o Capitão Langhesi esticou a ca­beça para fora, a fim de fazer uma pergunta. Neste momento, chamou sua atenção a postura espasmódica do Major HaJbermann. Ele estava deitado na beirada, a perna esquerda encolhida e os braços abertos, como se quisesse alçar vôo, à guisa de pássaro. Ao lado dele estava deitado o Tenente-Coronel von Rahden, com a cabeça virada para o lado, parecendo dormir. O Major Schlimbach estava na ponta mais longe. . . deitado com o tórax sobre a beirada e com o rosto na neve. Só então o Capitão Langhesi compreendeu. Engoliu em seco várias vezes; depois arrastou-se de barriga para fora do bura­co na trincheira plana e correu, acossado, de volta para as posições alemãs.

O Major Vinzenzo estava agachado no abrigo da companhia, ao telefone de campanha, e falava com o regimento. O seu plano, acompanhar os oficiais alemães aos postos avançados, fora desbaratado por um chamado de Bartollini. Ele queria ir logo depois atrás deles.

— Por um acaso soube onde o senhor está! — berrou Bartollini. — O senhor endoideceu, Vinzenzo?! Já não basta que o senhor se deixou pirar com essa história dos desertores, não, agora o senhor também arrasta os três camaradas alemães para essa idiotice! Se nesse piquenique sem sentido alguma coisa acontecer. . .

O que poderia acontecer, coronel? — respondeu Vinzenzo, confiante. — Os senhores alemães decerto não irão desertar.

— Coloco a responsabilidade nos seus ombros, Vinzenzo!

— Esta parte da frente está calma como um cemitério. Seguirei logo os alemães. Não existe perigo algum.

— O senhor é responsável por tudo, Vinzenzo! — O Coronel Bartollini continuava cético. Estes jovens oficiais de estado-maior! Lá vem um fedelho de Milão, entupido de conhecimentos acadêmicos e teoria sagrada; ficou alguns meses na Grécia, na frente de batalha, e pouco tempo na África do Norte, mas quanto à Rússia, não tem idéia alguma do que seja. Pensa que a guerra é igual por toda parte. Onde se atira, agachar-se e atirar de volta, e quando a gente percebe que é o mais fraco, ver como se sai do aperto. Tão simples é a guerra. . . — A delegação alemã veio para uma conferência de esta­do-maior e não para observar as trincheiras.

— Foi decisão própria dos senhores, coronel.

— Sim, depois que o senhor lhes acenou com um bombom! Naturalmen­te iriam mordê-lo! Vinzenzo, a responsabilidade é sua!

O Major Vinzenzo não teve oportunidade de seguir os camaradas alemães. Depois da do regimento ainda recebeu uma chamada da divisão. Em ou­tro local uma tropa de choque tinha feito alguns prisioneiros. Seu interrogató­rio pintava um quadro dantesco da situação da frente. Já que Stalingrado não representava mais um grande problema para os soviéticos e não prendia mais suas tropas, exércitos repousados, descansados, marchavam na estepe do Don para tomar de assalto as linhas alemãs já dizimadas. Poderia tratar-se apenas de alguns dias até que fosse solto o rolo compressor de fogo. As perspectivas eram desesperançadas.

Vinzenzo levantou o olhar ao ver o Capitão Langhesi tropeçar para den­tro do abrigo e se apoiar contra a parede de terra, reforçada, respirando com dificuldade, os pulmões sibilantes. Lá fora se ouviam passos rápidos e uma gritaria louca. Engoliu espasmodicamente.

— Obrigado — disse ao telefone. — Fim. — Depois colocou o fone no gan­cho e respirou fundo. — O que aconteceu, Langhesi? Meu Deus, não o diga...

— Artilharia. — Langhesi escorregou da parede e sentou-se em um banco. — Soou como um tiro.

— Soou. . .

— Mas foram três.

O coração de Vinzenzo gelou, como se tivesse virado picolé. A figura do Capitão Langhesi dissolveu-se diante de seus olhos, esfumaçou-se como um vulto refletido na água.

— O que quer dizer com isto. . . — murmurou.

— Sim. Tiros na cabeça. Todos três.

— E por que motivo o senhor ainda está vivo? De onde tirou a petulância de ainda estar aqui sentado?!

O Capitão Langhesi enxugou o rosto. Suas mãos tremiam. Estava completamente nauseado.

— Talvez eu estivesse deitado no ângulo errado. . . não sei. Rolei logo para o lado. . . o quarto tiro quase me acertou. . . Foi questão de um segundo.

— O senhor deveria ter esperado durante este segundo! — disse Vinzen­zo cansado. — Meu Deus, o que fazemos agora?

— Mandarei buscar os mortos. Dar notícia. . . o senhor comunicará este acontecimento às autoridades? Ou devo fazê-lo eu?

— Falarei com o comando geral. — Vinzenzo levantou-se, passou por Langhesi e saiu para o ar livre. Alguns soldados da tropa, empenhados em rachar lenha, empertigaram-se e se colocaram em posição de sentido. Sob um telhado de madeira fumegava a cozinha de campanha. Cheirava a sopa de lentilhas. O sargento-mor da companhia discutia com quatro soldados envolvi­dos em mantas, diante do escritório, a nova situação: três oficiais do Estado-Maior, simplesmente despachados! Como se fosse nada, em uma posição abso­lutamente tranqüila. Madonna mia, este espetáculo ainda vai continuar! O chefe da companhia já se pusera em marcha, com uma tropa e três trenós planos, para buscar os mortos.

Ao perceber o Major Vinzenzo, o sargento-mor calou imediatamente a boca e escondeu-se no abrigo do escritório.

O senhor é responsável. O senhor responderá por tudo!

Vinzenzo fechou os olhos e não sentiu o frio, que imediatamente encheu sua cabeça desprotegida de mínimos cristais de gelo. Então é isso aí, Mamma, pensou, com amargura no coração. Em Milão, na estação do trem, você disse: “Meu pequeno Angelino, volte são. Agora você pertence ao Estado-Maior, não precisa mais ir para a frente. Fique sempre perto do seu general. . . a grande maioria dos generais sobrevive â guerra. Pense que você precisa assu­mir o negócio de papai. Você não quer ser soldado para sempre, quer? Um negócio de ferro tão grande não existe outro em Milão. Pense nisto, Angeli­no. . . sempre ficar perto do general, aí você está seguro!” E então ela segu­rou sua mão, correu ao seu lado, na janela do trem, até que suas pernas cederam, acenou com os dois braços e chorou, e ele levou este retrato para a Rússia — o retrato da pequena Amélia Vinzenzo, tão corajosa, que acenava para seu filho único e estava tão feliz, porque ele não precisava mais deitar-se nas trincheiras, mas podia sempre andar ao lado do general.

Você chorará um pouco, mas depois a vida continuará, minha linda Loretta, e você aprenderá a amar outro homem. Quão lindo fora, quando estávamos deitados, perto da casa da Tia Rosa, sob as oliveiras, cansados de fazer amor, suados e apenas esperávamos que novas forças voltassem, para nos devorar mutuamente, mais uma vez. “Eu quero um filho seu!”, disse você. “Não me importo com o que os outros digam. Afinal de contas, casaremos depois. Mas agora eu quero um filho! Quem sabe quanto tempo a guerra ainda vai durar, então quero algo seu. Não apenas uma fotografia, não apenas o medalhão, não só as cartas. . . eu quero um pedaço de você mesmo.” Não o fiz, tomei precauções e você ficou realmente zangada, Loretta. Está vendo como fiz bem? O que você teria agora, se estivesse grávida? Uma mulher solteira com uma criança — isto é sempre um problema na Itália. Então, desse jeito, você é uma moça jovem, livre. Esqueça Ângelo Vinzenzo depressa, Loretta, por favor o esqueça. Continue vivendo. Eu a amo. . .

Vinzenzo afastou-se, foi para o abrigo da companhia e viu Langhesi, que ainda estava sentado, apoiado na parede. O seu rosto estava todo enrugado. Parecia um ancião.



— Trarei os camaradas alemães de volta ainda esta noite — disse o Major Vinzenzo. — Isto é melhor do que transmitir a notícia agora por telefone. O senhor pode entregar o seu relatório mais tarde. E esqueça o que eu falei antes.

— Não sei o que o senhor quer dizer, major.

— Perguntei-lhe por que não foi o quarto. — Vinzenzo enxugou com ambas as mãos o rosto, no abrigo aquecido, procurando tirar os cristais de gelo semidissolvidos dos cabelos e da face. — Deveria ter dito: por que não sou eu o quarto?

Uma hora mais tarde o Tenente-Coronel von Rahden, o Major Schlimbach e o Major Halbermann estavam deitados, lado a lado, diante do abrigo da companhia, em cima de trenós planos. Fora possível resgatar os cadáveres sem troca de tiros. Os russos não deram um pio. Mas todos tinham certeza de que olhos atentos observavam todos os detalhes do transporte.

Vinzenzo retirou as cobertas que haviam sido estendidas sobre os mortos. Como todos os outros que tinham visto aquelas cabeças, sentiu um choque lancinante.

Todos os três tinham morrido da mesma maneira: um tiro exatamente no olho esquerdo. Exato como um ponto, quase inacreditável. No lugar do olho agora só havia um buraco no crânio. Nem demasiado perto do nariz, nem demasiado perto das têmporas, não, os olhos tinham sido arrancados com pre­cisão, como se se desejasse colocar novos no lugar.

— Inacreditável! — exclamou o Capitão Langhesi rouco. — Devem ser ti­pos da Sibéria. A maioria dos artilheiros provém da taiga.

Vinzenzo cobriu novamente os mortos. Caíram pelo Fuehrer e pela pátria, dirão a seus pais e a suas mães, às esposas e filhos. Combateram corajosamente pela vitória final, para a manutenção do Reich. E na realidade tinham sido apenas curiosos e levantaram demasiado as cabeças, porque tinham avis­tado mulheres. E a isso se chama uma morte de herói. . .



De madrugada a pequena coluna alcançou o posto de saúde de emergên­cia do regimento. Lá os três oficiais alemães foram levados para um caminhão e transportados para o Estado-Maior do Exército. Vinzenzo declinara sentar-se na frente, ao lado do motorista, e agachara-se perto dos cadáveres, sob o toldo.

Era uma viagem aos solavancos sobre a estrada congelada para Staro-belsk. O caminhão sacolejava, o motor berrava angustiado, várias vezes as ro­das derraparam, chiando. Com este barulho é impossível escutar um tiro lá na frente, onde está sentado o motorista, ao volante.

O próprio Coronel Bartollini saiu ao relento, para vigiar o descarrega-mento dos três cadáveres.

Eram quatro mortos.

Com um gesto pétreo o Coronel Bartollini colocou a mão no boné, quando transportaram, por último, Vinzenzo, em maça.

Na carta que ele escreveu a Amélia Vinzenzo, a mãe, disse: “Ângelo cumpriu seu dever. Isto é o máximo que se pode relatar de um homem. A senhora pode orgulhar-se dele.”

Amélia Vinzenzo jamais compreendeu como seu filho poderia ter caí­do morto ao lado de um general. Foi para ela um enigma, que lentamente obscureceu seu espírito.

Todos que tiveram ciência de que tipo de comando fora entregue a Foma Igo-revitsch Miranski, estalavam gostosamente com a língua, fitavam-no brejeiramente, e o invejavam.

— Um sortudo! — diziam. — Logo ele acerta em cheio! Prestem atenção, quanto tempo ele o agüentará! Já não é dos mais fortes, e agora isto! Nos pri­meiros tempos irá correr por aí com a braguilha aberta, o filho da puta imun­do, mas depois terá dificuldade até em achar a sua espada orgulhosa! Como é que um tipo da laia de Foma Igorevitsch ganha um comando desses?! Sempre escolhem os errados. . .

Durante algum tempo Miranski perambulou como um galo premiado, deixou-se admirar, cuidou do bigode, graças ao qual tinha uma certa semelhança com o Camarada Stalin, mandou cortar os cabelos já pintados de cinza, e arranjou no mercado negro botas altas, macias, que nem um marechal usava.

Seis semanas após voltou de férias por três dias e tinha uma aparência completamente diferente. Ficava sentado mudo, quando caíam em cima dele e o atormentavam com perguntas. Com olhos murchos fitava os amigos, que ainda estalavam bobamente com a língua.

Seu vizinho Tichon Ignatjevitsch gritou, intencionalmente:

— Camaradas, deixem-no em paz, o pobre coitado. Vocês não estão vendo que lhe chuparam todo o tutano dos ossos. . .

Só então Foma deixou escapar uma observação:

— Oh, seus idiotas chapados! Por acaso vocês sabem o que significam 239 mulheres em um montão?! Preferiria o inferno com um número igual de diabos! Se eu tivesse tido alguma suspeita a respeito do que iria fazer teria me escondido no buraco mais fundo, junto com os esquilos. . .

Na realidade, não estava exatamente animado com sua nova missão. Era difícil entender o que aí havia para que se queixasse. Afinal de contas, rece­bera a incumbência honrosa de cuidar espiritualmente, como comissário po­lítico, de uma tropa especial, composto só de mulheres. Atenção, só mulheres jovens, moças de famílias escolhidas, camaradas bonitas, corajosas, empolga­das pela guerra, que tinham sido recolhidas de todas as direções da rosa-dos-ventos. Uma verdadeira unidade de elite, e Foma Igorevitsch se queixava amargamente e desejava até estar no inferno!

Era-lhe demasiado difícil e penoso explicar aos camaradas tudo que se vivenciava entre 239 mulheres, maravilhosamente treinadas, rigidamente disci­plinadas e totalmente isentas de medo. O pior nem era o fato de que ele era, ao lado de um tenente-instrutor, um subofícial das armas e um inspetor que só aparecia esporadicamente, o único homem que precisava viver constantemente entre essas moças. O tenente, Victor Ivanovitsch Ugarov, um rapazinho de 25 anos com olhos marrons protuberantes, logo cativara a comandan­te das tropas, a Capitoa Soja Valentinovna Bajda. Apesar de ser seis anos mais velha que Victor e estar dois graus acima dele na hierarquia militar, eles rapidamente dividiram o colchão e fizeram construir uma porta bonita, grossa, que sempre era levada junto no carro-bagageiro, para onde fosse que os comandas­sem. Mal tinham assumido uma nova posição e construído o abrigo, a porta era colocada na entrada e pronto estava o esconderijo dos chefes, inexpugná­vel. Por detrás da porta maciça ouvia-se, de quando em vez, a fogosa Soja Valentinovna suspirar e arfar, mas todos lhe outorgavam esse prazer. Seu marido fora morto em 1941, bem no início da guerra, e a uma viúva, que sabe o que vale um homem no momento certo, não se pode proibir seu pão de cada dia.

Portanto, o tenente foi rapidamente aprovisionado.

O subofícial de armas era um homem mais velho, carrancudo, que ti­nhá ao lado de seu catre a fotografia de uma mulher gorda com sete filhos, e que dizia a todos ter saudades de Marusja. Um dia até fugiu, rubro de ver­gonha, quando um grupo de moças o seduziu para a Banja, onde 10 corpos nus sacanas o rodearam, dançando. Só uma única vez tentou aproximar-se da gorducha Dusja. Escondeu-se com ela em um celeiro, chegou a abaixar as calças, mas depois a sua excitação e culpa psíquica foi tão grande que co­locou abalado as mãos sobre o seu penduricalho destituído de vontade. Dus­ja quase morreu de rir, sacudiu os peitos diante do nariz dele e berrou: — Até uma pulga tem um ferrão mais forte!

E deixou o pobre coitado sozinho no feno. Foma Igorevitsch teve um trabalho desgraçado para evitar que o suboficial se castrasse, com uma faca.

O inspetor era um covarde. Como todos os outros homens perambulava atrás na retaguarda, e administrava as moças como se fossem caixas de sapatos. Se alguma vez se acercava das tropas, ficava arrogante e convencido, reclamava de tudo, lamentava o gasto, na sua opinião excessivo, de calcinhas e sutiãs, e obrigava as moças a calcular exatamente quantos absorventes higiênicos necessitavam por mês.

É compreensível, portanto, que de um tal sujeito nojento nenhuma atração se irradiasse. Foma Igorevitsch afirmava que o motivo para o comportamento repelente desse camarada sequérrimo era o medo puro. De uma uni­dade de elite similar vinha uma fofoca de que um comissário era de tal modo aberto a todos os prazeres, que fora necessário transportá-lo para um hospi­tal, senão teria simplesmente ressecado.

Com Foma Igorevitsch acontecia coisa diferente. Era respeitado como comissário político, aparentemente era considerado assexuado e o utilizavam como padre confessor, e isto era o pior de tudo!

Além disso, a unidade da Capitoa Bajda era uma unidade muito especial — a elite das elites, a melhor das melhores, as mais corajosas das corajosas: artilheiras que eram capazes de acertar, de uma distância de 100 metros, uma moeda de um kopek no topo de uma garrafa.

Quando Foma Igorevitsch viu esse feito pela primeira vez, desejou jamais brigar com uma daquelas moças. Nem conseguia pensar em ciúme. Como único homem ainda disponível, tinha a sensação de que constantemente 239 canos de carabinas estivessem dirigidos contra si.

Camaradas, confessem, um homem precisa de nervos para agüentar tais coisas!

Quando Foma Igorevitsch contou tais episódios em suas férias, em todos os cantos dominou um grande espanto. E para dramatizar ainda mais, acrescentou, como se fosse uma bagatela:

— Ah, queridos irmãos, preciso me calar. Tudo é um grande segredo. Se vocês soubessem. . . — pestanejou e fez um ar de recato. — Acontecem coi­sas que preciso guardar no fundo do meu coração. Talvez depois da vitória ouvir-se-á mais de nós. . . talvez não. Mas é uma tarefa especial, que eu preciso dominar.

Há três semanas voltara para a frente, estava agachado no abrigo de terra molhada e esperava a mobilização. As moças se exercitavam, construíam bonecas e estrelas e outras figuras para a festa de Natal ou para o dia de Papaizinho do Gelo, com madeira e palha, pedaços de fazenda coloridos e papel pintado, entediavam-se ou escutavam rádio. Vibravam com cada notícia de vitória de Stalingrado, acompanhavam os progressos do Exército Vermelho em um enorme mapa e Foma Igorevitsch — responsável, na qualidade de comissário político — aproveitou a oportunidade, fez conferências sobre a cora­gem dos soldados e o caráter diabólico dos alemães e vaticinava que ainda este inverno os agressores seriam expulsos da Rússia, como coelhos assustados.

Finalmente veio a liberação do serviço de retaguarda. Durante a noite foram levados para a linha mais avançada, por meio de trenós. Ocuparam uma trincheira comprida e vários abrigos de terra e observavam os alemães até que o Tenente Ugarov deu a notícia de que os do outro lado não eram Njemtsi e sim italianos.

Isto levantou consideravelmente os ânimos. Pela primeira vez em suas vidas as moças tinham oportunidade de conhecer italianos! Quem é que vai a Roma ou Veneza, saindo de Ust-Balaisk ou Karangada, de Tschemlaki ou Tassken? Quem tinha dinheiro para isso? Todas só conheciam a Itália das revistas, com suas fotografias coloridas; deveria ser uma terra maravilhosa, na qual viviam pessoas alegres e especialmente muitos homens bonitos.



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