Konsalik b de atalhão Mulheres



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PARTE

UM
Cada comandante, cada homem deve estar convencido da importância decisiva deste ataque. A vitória de Cursk deve ser um final para o mundo. . .

Hitler, ordem do dia nº 6 para a Operação Cidadela.

Os jornais americanos calculam as perdas da União Soviética, incluindo as baixas da população civil, ocasionadas pela fome, em cerca de 30 milhões de pessoas. Podem-se estimar as perdas dos combatentes, na União Soviética, em 12 a 14 milhões. Considerando tal quantidade de baixas e também as dificuldades de alimentação, o adversário terá de desmoronar um dia ou - como a China - morrer em agonia lenta. Mas é preciso dizer ao soldado alemão aquilo por que luta: pelo espaço de vida para seus filhos e netos! Este foi o grande erro da Primeira Guerra Mundial: não tínhamos um objetivo!

Hitler, na Conferência como Fuehrer, dia 1º de julho de 1943, diante dos comandantes supremos e dos generais-chefes dos grupos militares do Exército e da Força Aérea designados para a Operação Cidadela.



Estado da frente:

No dia 5 de julho, no Exército Kempf no Quarto Exército Blindado e no Nono Exército a Operação Cidadela começou de acordo com o plano, de amanhã cedo. . .

No diário de guerra do OKW.

O primeiro impacto de fogo foi terrível.

Sob uma salva de granadas, embaixo do gemido dos Stukas e dos aviões de combate que passavam, rápidos como raios, em vôos baixos, sob o trojevar dos pesados morteiros e o fogo direto do temido Flak 8.8 os pioneiros ale­mães construíam a primeira ponte sobre o Donez. O Corpo do 11º Exército sob o comando do General Rauss, atuando como asa direita da Divisão Kempf, avançava com um incrível elan na direção de Corotscha. O Corpo Blindado nº 48 do General von Knobelsdorff rasgou as posições soviéticas na dire­ção de Obojon e passou por cima do primeiro e do segundo sistemas de trincheiras dos russos. 0 2º Corpo Blindado SS, sob o comando de Hauser cor­ria, qual torrente, depois de superar a resistência de uma forte fronteira de PAK na terra livre diante do importante ponto Prochorovka.

Também a frente de ataque do Grupo do Exército do Meio, no Nono Exército, em pleno ataque, conseguiu invadir as posições das tropas soviéticas. O tão temido cadeado PAK, que tinham construído para deter o avanço dos tanques Tigre alemães, desmoronou neste primeiro dia sob o impacto de uma nova arma da Força Aérea alemã. No caso das bombas SD1 e SD2 se tratava de recipientes repletos de bombas de um ou dois quilos, 180 bombas no pri­meiro caso e 360 no segundo, que se abriam rente ao chão. Estas pequenas bombas, altamente explosivas, caíam sobre os russos como chuva. Pratica­mente nenhuma posição conseguiu resistir a esse temporal de fogo.

Mas nem Rokossovskij, nem Vatutin, nem Conjev nem os outros generais entraram em pânico por esse motivo. Eles tinham feito cálculos diversos dos dos alemães. Tinham levado em consideração, desde o início, a possibilidade de grandes perdas. Afinal de contas já tinham suficiente experiência com esse tipo de ataque, conheciam o ímpeto inicial das tropas alemãs. Mas sabiam também que elas cedo ou tarde paralisariam seus esforços, que todos estavam cansados neste quinto ano da guerra, que a ofensiva e a retirada os tinha exau­rido. A auréola gloriosa da invencibilidade dos tanques alemães e da obstina­ção do soldado raso alemão desaparecera em Stalingrado, e no que se referia à Força Aérea de Goering, que outrora fora considerada imbatível, só se con­tavam piadas.

— Deixem-nos vir. . . — disse o General Conjev calmamente, quando as notícias alarmantes chegaram. O Donez fora ultrapassado, o Terceiro Corpo Blindado, sob o comando do General Breith, tinha sobrepujado as trincheiras em um assalto sangrento, derrubara as posições PAK e agora corria, com seus Tigres e Panteras, de cada lado de Bjelgorod na direção de Corotscha e Procho­rovka, onde deveria se reunir ao Segundo Corpo Blindado SS para formar um alicate mortífero. Com isso o destino do Quinto Exército e do 60º Exército soviéticos estaria selado. Especialmente horripilante era a situação da região do Sétimo Exército, onde a Divisão Kempf marchava na direção de Belovskaja e tentava dar a volta por trás das forças soviéticas.

O ataque alemão atingiu em cheio entre a frente Voronesch de Vatutin e a frente da estepe de Conjev. A cunha para Cursk, o grande objetivo, o novo fanal da guerra, fora plantada. Mas Conjev disse tranqüilo:

— Apenas começou. Não se afobem, camaradas! Já nos primeiros quilô­metros os alemães tiveram de engolir grandes perdas. Não agüentarão até Cursk. Esperem...

A Divisão Bajda se achava em plena retirada. O fogo da artilharia alemã só a atingia parcialmente, já que a maioria das granadas caía nas posições PAK. A infantaria não era tão importante para os alemães; eles temiam mais as rápidas armas destruidores de tanques.

No entanto, só o primeiro golpe custou nove moças a Bajda. Um tiro certeiro atingiu o abrigo VIII, estilhaços feriram as sentinelas junto às pesadas metralhadoras.

O abrigo da Dra. Galina Ruslanovna se encheu. Agora ela podia demons­trar que tipo de médica era. Operava ao mesmo tempo em três mesas. En­quanto os feridos eram preparados em dois catres de madeira por auxiliares, ela retirava os estilhaços do corpo do primeiro, passava para a segunda mesa, cortava carne estraçalhada, ia para a número três e limpava uma ferida na coxa superior. Depois voltava para a primeira mesa, para dar mais uma inje­ção, enquanto as enfermeiras pensavam as feridas. E tudo isto acontecia sem muitas palavras, sem estardalhaço, sem agitação.

Às 5:25 da manhã as primeiras tropas alemãs atravessaram essa parte do Donez. A Quarta Companhia atacava as trincheiras soviéticas, atrás de qua­tro tanques Pantera, que rolaram imediatamente sobre a ponte construída sob o abrigo da salva de tiros. O Tenente Bauer III corria com o primeiro grupo, o Alferes von Stattstetten tinha a seu cargo o segundo. A eles se seguiam dois sargentos-mores com os grupos III e IV. Richard Pflaume permaneceu na trincheira — a mãe da companhia tem de ficar sempre na retaguarda, na admi­nistração, na tropa da companhia. Como é que as coisas podem funcionar na frente, se já na retaguarda as coisas não andam em ordem?

Para chegar à primeira trincheira da Divisão Bajda levaram mais de qua­tro horas! Esse intervalo de tempo, tão incrivelmente comprido, e a resistên­cia feroz com que se depararam, foi até mencionado em uma conferência do General Breith. Os quatro tanques Pantera, que tinham sido colocados por so­bre o Donez, junto com a Quarta Companhia e a Divisão dos Pioneiros, foram alvo de uma saraivada de balas entre as ruínas do primeiro povoado, como se se tratasse de alvos em um campo de exercícios. Três tanques Pantera incen­diaram-se sob o fogo concentrado de Paks escondidos; o quarto voou pelos ares, ao passar por sobre um pequeno buraco de granada, no qual as fuzileiras Marina, Tamara e Veronika estavam escondidas. No mesmo instante em que o chão do monstro de aço estava sobre suas cabeças, levantaram as cargas de dinamite e tocaram fogo na espoleta.

O ataque parou; a Quarta Companhia colocou-se a salvo atrás dos destroços dos tanques e das ruínas do povoado. Bauer III deu a notícia pelo rádio: parem com o fogo da artilharia, senão vocês acabam atingindo os próprios compatriotas. . . necessitamos urgente de novos tanques! De preferência um Ferdinando gordo e vagaroso. Um destes ninguém destroçaria com tanta facilidade, de modo que poderia abrir caminho para a Quarta Companhia.

O grupo de lançadores apareceu e jogou minas sobre as posições da Bajda, sem êxito. Em compensação, vindos do outro lado, surgiram, oscilantes, aquelas coisas gordas que podiam ser vistas e calculadas mas das quais não se podia escapar em função de sua incrível capacidade explosiva: as granadas dos lançadores de granadas de 12cm dos soviéticos.

Este “canhão da infantaria soviética” era temido. Os lançadores, altos feito homens, mais semelhantes a um grosso cano de fogão, montados em uma armação dobrável, existiam em grande número em todas as companhias de infantaria. Por isso, a propaganda soviética afirmava: “Cada segundo solda­do alemão possui a EK. . . cada segundo soldado russo um lançador de granadas.”

Isto, naturalmente, era exagero, mas já aqui no Donez se percebia quão forte era o poderio bélico dos soviéticos. O ataque alemão parou por algumas horas.

Enquanto a Quarta Companhia e as suas unidades de FLAK, após a travessia do rio, estavam presas na estepe, em meio da fumaça de seus tanques destroçados, sob o ataque de metralhadoras, granadas, PAKs leves e os tiros certeiros das fuzileiras, a Divisão Bajda tinha tempo suficiente para recuar em direção às trincheiras da retaguarda, seguindo ordens do regimento.

Primeiro retiraram os mortos e os feridos, depois desmontaram as metralhadoras e esvaziaram os abrigos cheios de dinamite. Por último as moças retornaram em pequenos grupos, enquanto as armas soviéticas leves manti­nham sob fogo cerrado a terra entre o Donez e a própria primeira linha.

Soja Valentinovna, Ugarov e Stella foram os últimos a deixar as trincheiras. Controlaram mais uma vez as cargas de dinamite e as espoletas, en­quanto Sibirzev permanecia no sistema de trincheiras à espera dos alemães. Mesmo que fazer explodir pelos ares o abrigo principal trouxesse poucas perdas para os alemães, tinham esperança quanto ao efeito do choque: ele paralisava, tornava o adversário mais cauteloso — e esperar, apalpar e tomar cuidados, olhando para todas as direções, era algo que já não tinha mais nada a ver com um ataque impetuoso.

Na realidade, a Quarta Companhia recebeu ainda mais um Pantera e um tanque Tigre. Mas aí já não encontraram mais resistência, pois o cadeado de PAK fora retirado. Só a artilharia afastada ainda perturbava, e alguns T-34 so­viéticos se aproximaram, com uma coragem acima da própria morte, dos ale­mães.

Os abrigos voaram pelos ares. Sete homens da Quarta Companhia subiram aos céus, junto com os esguichos de terra...

— Estas malditas mulheres traiçoeiras! — berrou Bauer III e bateu com o punho no chão da estepe. Hesslich estava a seu lado e se sentia alegre e feliz pelo fato de as moças terem escapado em tempo.

O ataque continuou, impetuosamente, nesse dia. As cunhas de tanques alemães demonstraram sua eficácia, quebraram as posições soviéticas, rasga­ram o sistema de defesa em camadas e procuravam avançar pelo terreno não consolidado, para a ampla estepe, na terra ora plana ora ondulada diante de Prochorovka. Depois — esta era a esperança do Grupo do Exército Sul — o caminho para Cursk estaria livre. Afinal de contas, as reservas dos soviéticos não poderiam ser trazidas para a frente com a mesma rapidez com que os tanques alemães avançavam.

O fanal Cursk já estava no céu.

Uma asa do Terceiro Corpo de Tanques se desviou para Corotscha. Entre essas unidades também estava a Quarta Companhia, que acompanhava os tanques.

No seu quartel-general o General Conjev desenhava em um mapa, com um pincel de guache espesso, setas que simbolizavam o avanço dos tanques alemães. Os telefones tilintavam sem cessar, assim como os aparelhos de rádio. A situação era séria. Na noite do primeiro dia as tropas inimigas tinham supera­do o sistema de trincheiras em quase todas as partes da frente de ataque e es­tavam marchando para diante. O cadeado de Flak soviético fora despedaçado. Por outro lado os alemães tiveram de pagar seu sucesso com a perda de nume­rosos Tigres e Panteras. E cada Tigre pesava mais que 10 T-34, dos quais cen­tenas, bem camuflados, aguardavam na curva de Cursk o momento da contra-ofensiva. E poderiam trazer mais alguns milhares das terras após o Don e Volga. Um Tigre destroçado, por outro lado, não poderia mais ser substituído, já que o material usado nesta ofensiva era considerado a última reserva que Hitler ainda conseguira mobilizar. No flanco brando do Sul, na Itália, esperava-se que os Aliados desembarcassem. Todas as notícias o indicavam. . . A Sicília era um excelente trampolim nas costas dos alemães. A situação nos Bálcãs e na Itália do Sul era semelhante. Para proteger esse flanco seria necessário mo­bilizar novos exércitos. Mas de onde poderiam vir? Só havia um lugar de onde retirá-los e este era a frente do Este! Ela teria de ceder tropas e substituir as perdas pela coragem e força moral. Exatamente a frente entre Leningrado e o Mar Negro! E exatamente nos dias em que a bat lha de Cursk deveria relegar ao esquecimento a catástrofe de Stalingrado.

Considerados sob esse ponto de vista, todos os ataques que o Exército soviético tinha de suportar, tanto no Donez como na Divisão Norte perto de Olchovatka, eram apenas arranhões, que cedo sarariam. A tática dos russos tornou-se transparente já no primeiro dia da ofensiva alemã. . . Deixem-nos avançar! Deixem-nos vir pela imensidão do país adentro — eles nem sabem o que os espera! Seus caminhos estão regados de sangue. . . mas os levarão diretamente nos braços da derrota. Isto compensa todos os nossos sacrifícios. . .

Conjev continuou tranqüilo e sereno, mesmo quando as notícias de sua

frente da estepe se atropelavam. Com Vatutin a coisa não era diferente e com Rokossovskij também não. As cunhas de tanques avançavam.

— Como estão jubilantes agora. . . — disse Conjev a seus oficiais na noite de 6 de julho. Tinha feito uma lauta refeição e se relaxava sentado em uma ca­deira, de madeira. — Exatamente o que necessitamos! A partir de amanhã vão quebrar os dentes nas pedras, e em uma semana desejarão não ter nascido! Deixemos que Manstein e Kluge se sintam orgulhosos, pelo fato de terem tido êxito pelo menos por um dia. . .

No entanto, Conjev se enganava nesse ponto. No Grupo do Exército Sul, comandado por von Manstein, ninguém estava jubilante. Os primeiros relató­rios completos do que ocorrera no dia 5 de julho chegaram. As perdas eram relativamente altas, mais altas do que as esperadas. A resistência soviética, es­pecialmente na região ao lado de Bjelgorod e no domínio do Segundo Corpo de Tanques SS só permitia um avanço lento. As baixas de tanques já eram ameaçadoras. Uma hipoteca especialmente pesada era, não obstante, o fracas­so da Força Aérea. A Força Aérea soviética, da qual só tinham rido até então, começou a dominar o espaço aéreo. Por onde os aviões alemães voassem, apa­recia, também um enxame de caças soviéticos. Surgiam como moscardos, em bandos. E a sua superioridade numérica determinava o desenlace da batalha. Era como no caso dos tanques: um avião alemão abatido não podia mais ser substituído, ao passo que do lado dos soviéticos as lacunas eram imediatamen­te preenchidas.

A situação no Exército do Meio era a mesma. O Marechal-de-Campo von Kluge, que só tinha a sua disposição o seu Nono Exército, com o objetivo de avançar sobre Cursk, já no primeiro dia conseguira levar o seu corpo es­querdo e o do meio a cerca de 10 quilômetros adentro do sistema soviético, mas a resistência, como se zombasse de todos os cálculos, era extremamente forte. A Divisão de Infantaria nº 102 já fora paralisada, a Divisão de Infantaria nº 31 só conseguia marchar para a frente sob uma chuva de tiros, a Quar­ta Divisão de Tanques tivera tantas perdas que se chegava a duvidar se ela ain­da poderia ser capaz de combater quando aparecessem as novas reservas soviéticas. Além disso a extensão da linha de ataque, fiel à tática do assalto de choque, só media 10 quilômetros — e nos flancos os exércitos russos se dilatavam.

Portanto, não havia mesmo razão para qualquer manifestação de júbilo. Já o primeiro dia mostrara que a Operação Cidadela, provavelmente a maior batalha de tanques na história militar, também era um combate nascido do desespero.

A Divisão Bajda se retirara em boa ordem e, quando o dia 6 de julho amanheceu, estava a oeste do povoado Melechovo na margem do pequeno afluente do Donez, o Rosumnaja. Lá tinha sido instalado, em uma espécie de cabeça-de-ponte, um ferrolho diante do alvo tão desejado pelos alemães, Prochorovka. Cavaram trincheiras rodeadas de Flaks e Paks, na margem do rio. No terreno ondulado aguardavam uma divisão de tanques e outras peças de artilharia.

Soja Valentinovna andava de cara fechada e estava extremamente lacônica. Nesse dia perdera 33 moças, das quais 19 mortas. O ataque alemão para­lisara diante de sua posição. Tinha todos os motivos para se orgulhar, ainda mais que do regimento lhe disseram que a sua posição era a única, em uma largura de nove quilômetros, que os fascistas não conseguiram romper imediatamente. Mas este elevado elogio não reprimia sua tristeza pela morte entre as camaradas. Estava sentada, à luz de vela, em uma barraca armada numa concavidade e escrevia o “quadro de honra” de suas heroínas mortas. Ugarov, que tinha a lista na mão, lia os nomes em voz alta, e cada vez Bajda olhava, por um instante, para a frente, perdida em devaneios, fazia com que a morta mais uma vez estivesse diante dos olhos de sua alma e dela se despedia.

— Cedo os alemães também vão estar aqui — disse ela a Ugarov. — Te­mos ordens de mantê-los a distância, até que a nossa brigada de tanques tenha-se reunido. Ainda morrerão muitas de nós, Victor Ivanovitsch. . .

— Não fale a esse respeito, Soitschka. . .

— Pode atingir a mim também.

— A mim da mesma forma. Qualquer um de nós. . .

— De qualquer maneira você deve saber que eu o amei muito. E que muitas vezes pensei como a coisa continuaria depois de ter terminado a guerra. Permaneceremos juntos? Bem, você é seis anos mais jovem do que eu mas a guerra nos modificou a todos, os anos se diluem, e só fica a certeza de que pertencemos um ao outro para sempre. Eu gostei de pensar nisso sonhei a res­peito. . . imaginei uma vida completamente diferente em sua companhia. Vo­cê sabe o que faríamos em tempos de paz?

— Você seria comandante de uma brigada feminina. . .

— Não! Depois da guerra eu tiraria o uniforme. Não o jogaria fora, não, não. Seria colocado em um armário de vidro como uma relíquia. Mas eu vol­taria para o lugar de onde vim.

— Para Cyzyk?

— Sim, para o meu Mar Cáspio. Para as margens quentes. . . — Encostou a cabeça no ombro de Ugarov e fechou os olhos. — Meu pai tinha três mil car­neiros, meu irmão possuía três barcos de pescaria. Nossa casa era de pedra e coberta de tijolos. E no jardim tínhamos um poço artesanal que sempre nos dava água, mesmo nos meses mais quentes. Os vizinhos nos consideravam ri­cos. — Ela esfregou a cabeça no ombro de Ugarov. — Meu irmão faleceu em Orei, meu pai não retornou de uma tropa de espionagem em Taganrog. Tudo em Cyzyk me pertence, se eu sobreviver à guerra. Victor Ivanovitsch, tenho o suficiente para viver uma vida sem preocupações. Em torno de nós estará o paraíso. Ninguém em Cyzyk iria perturbar a nossa paz. — Ela fez uma pausa. — Sim era realmente lindo sonhar com isso. . .

Falava de forma tão diferente, a selvagem Bajda, quase poeticamente, e a sua voz era meiga, acariciando as palavras. Ugarov sentiu uma pressão incô­moda no estômago. Tudo isso soava como pressentimento, volta ao passado, despedida e medo profundo. Soja Valentinovna, a corajosa comandante, pen­sava na morte.

— Naturalmente nós nos preocuparemos com os carneiros e consertaremos os botes em Cyzyk — respondeu Ugarov. — Gosto de viver perto da água.

— Permaneceremos juntos para sempre, não é, meu amor? — perguntou ela e a sua voz tremia de alegria.

— Quem pode duvidar disso? Soitschka, onde existe outra mulher como você? Com você, não sou um homem abençoado? Mais não é possível pedir da vida. . .

Duas horas depois escutaram a chegada dos alemães. Os postos avançados vinham, às pressas, de motocicleta, os obuses de campo soviéticos come­çaram a atirar. Os T-34 percorriam o campo em uma semicircunferência e ati­ravam em tudo que se movimentasse do outro lado do Riacho Rosumnaja.

A cabeça-de-ponte de Melechovo assumiu sua missão fatídica: desacele­rar o avanço alemão, mesmo que só por poucas horas. As perdas dos alemães aumentavam a cada hora que passava. . .

A Quarta Companhia alcançou Melechovo por volta das 5:00 e se escondeu nas ruínas das poucas casas que lá havia, até que os dois Tigres e os três Panteras tivessem alcançado a margem do rio e começassem a batalha a dois com os T-34. Lentamente também se aproximou, mais tarde, um Ferdinando, um dos novos abrigos de artilharia, sobre rodas, recém-inventados, que fora batizado em honra de seu genial construtor, Ferdinando Porsche. A par­tir de uma distância de 2.000 metros visava um tanque soviético após o outro, a ótica do alvo mostrava ao condutor do tanque exatamente o ângulo neces­sário e depois o cartucho de 8,8cm saía e acertava, uma mira mortífera. Co­lunas de fogo explodiam dos colossos de aço, bandeiras de fumaça escureciam os céus, e passavam pela estepe e pelos arbustos.

Protegida pelos próprios tanques a Quarta Companhia conseguiu avançar até a margem. Um Pantera lá estava, com as correias partidas, mas a tripu­lação não o abandonara, usando-o como posição de artilharia fixa.

— Nós temos de atravessá-lo! - disse Bauer III, apontando para o riacho estreito. — Aposto que se pode atravessá-lo a pé.

— Deixe os blindados ir na frente. — Hesslich abaixou a cabeça. Do lado de lá as pesadas granadas começaram a riscar o céu.

— Um Tigre de 55 toneladas. . . mas estas afundarão na lama! — Bauer III bateu várias vezes com o punho, erguendo-o depois para o ar. Cada solda­do da infantaria conhece este sinal. . . prontos para atacar. — Vamos, Peter, diante de nós está apenas uma pequena divisão já partida!

A Quarta Companhia saiu da sua proteção, correndo para o rio e rio adentro. Os tanques despejavam fogo, uma bateria de Flak surgiu da retaguarda, adiantou-se a eles, tomou posição e imediatamente perdeu a primeira pe­ça por um tiro certeiro, da artilharia.

E depois, aconteceu o horripilante: enquanto os homens da Quarta Com­panhia atravessavam o rio com água até o peito, segurando as armas bem alto sobre os capacetes de aço, para as protegerem da umidade, um atrás do outro caiu, simplesmente desapareceu, afundando silenciosamente no Rosumnaja. A primeira série desapareceu, antes de atingir metade do rio.

— Protejam-se! — berrou Bauer III. Jogou-se n’água, mergulhou e nadou por baixo da água até a margem oposta. Não havia mais outro caminho. Hess­lich o imitou — quatro vezes levantou o nariz para fora d’água, respirou fundo e mergulhou de novo.

Tranqüilas, como no campo de exercícios de tiro ao alvo, as moças da Divisão Bajda estavam em seus buracos, aprontavam os fuzis, miravam e atira­vam. Nada era mais fácil para elas: os alemães atravessavam o rio, de cabeça erguida, a face virada para a margem dianteira. Desta forma cada tiro acertava exatamente na testa, segundo o código de honra das fuzileiras.

As granadas dos Tigres e Panteras agora também atingiam a posição de Soja. Os homens da Quarta Companhia estavam alguns no rio, outros já em terra firme, bem apertados contra o chão. Quem quer que fosse que levantasse a cabeça, caía logo para trás, com um buraco na testa. Era impossível avançar um só metro. Não se podia nem rastejar. Uma vez que alguém deixasse a pro­teção da margem do rio, transformava-se apenas em um alvo.

Soja Valentinovna estava deitada em um funil, ao lado de Lida e Vanda e esperava que aparecessem novas cabeças alemãs na superfície da água, pa­ra respirar. A uma distância de 30 metros estavam Stella e Marianka, à esquer­da dela Sibirzev espreitava, com mais três moças. Três ninhos de metralhado­rãs ainda estavam calados — projetariam morte e destruição, caso os alemães voltassem ao ataque. Exatamente 206 moças estavam dispersas na cabeça-de-ponte de Melechovo e mantinham os alemães em xeque.

Bauer III alcançara incólume a margem, apertava-se contra a areia e tre­mia de excitação e raiva. Minha Quarta Companhia pensava incessantemente. Minha linda Quarta Companhia, minha Quarta Companhia, este pensamento se repetia como um disco quebrado.



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