Konsalik b de atalhão Mulheres



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Ela ainda não alterara sua posição e o olhou tranqüila.

— Vvocê mmatar com minha arrma. . . bomm! — disse com a voz embargada. — Grrande honra!

— Vamos deixar esta honra de lado, minha mocinha. . . você me pôs em uma situação dificílima. Eu não sei o que vocês pensam mas eu, por meu lado, não consigo simplesmente atirar e matar uma moça indefesa. Nem você, meu lindo diabo! Afinal de contas, quantos de meus camaradas você já matou? Bem, isto é fácil de descobrir. Você deve ter ai seu livro de tiros, ou não? On­de está? No bolso de trás das calças? Para pegá-lo vou ter de virar você e meter a mão na sua bunda. Claro que uma coisa destas você não fará voluntariamen­te. Bem, vamos ter outra luta corpo a corpo. — Colocou a arma de Stella no chão, junto ao seu pé; fora do alcance dela, e a fitou interrogativamente. Ela revidou seu olhar e aguardou. Em seus olhos não havia traços de medo ou sub­missão. — Você entendeu?

Njet. Não ttudo. . .

— Vamos tornar as coisas mais fáceis. — Apontou para si mesmo. — Eu, Piotr. . .

— Oh! — ela levantou a cabeça e cuspiu em suas botas. — Eu Stella Antonovna.

— Stella, a estrela! Aí há algo de verdade: quem vê você, afunda-se na noite. . . para sempre. A estrela da morte. Até este momento esta estrela nunca existiu, Stella. . . Tem a estrela do crepúsculo, a estrela da manhã, a estrela de Betlehem. . . e agora você, a estrela da morte! Está diante de mim como caída do céu. Uma coisa dessas é preciso primeiro digerir! Isto você compreende, não, mesmo que não entenda todas as minhas palavras? — Sentou-se a seu lado, imprensou a nova e linda arma de precisão entre os joelhos e encostou a cabeça contra o cano.

Stella fechou novamente os olhos. Esta visão a incomodava profundamente. Minha arma nas mãos de um alemão! A morte não é o pior, existem coisas ainda mais amargas.

— Ffavor. . . mmatar. . . — falou sombriamente.

— Agora pare de falar besteira, Stella. — Hesslich inclinou-se. Afastou os pedaços rasgados da blusa e imediatamente Stella estremeceu e o golpeou com os punhos. Depois permaneceu sentada, deixou os braços cair e o fitou; não compreendia por que ele ainda não levantara a arma e a matara. As partes de seu corpo que ele atingira com a coronha ou a pontapés ainda estavam entor­pecidas e como que paralisadas. Ele é forte, pensou, e deixou o seu olhar per­corrê-lo. Possui muita força e ombros largos. Seu cabelo tem um colorido cas­tanho. Com certeza tem um rosto bom; agora, com as manchas de terra, só se pode adivinhá-lo. Mas quando fala, seus olhos brilham, poder-se-ia confiar ne­le de verdade, e sua voz tem um tom agradável, romântico, que não se adapta a um assassino perigoso.

Hesslich aceitara os golpes de Stella, sem se defender. Agora apontava para o ombro da moça com o indicador.

— Você está sangrando. . .

— Estou. . .

— A pele rebentou. — Ele retirou o cartucho da arma e o jogou, com um lance impetuoso, para dentro da floresta escura. Depois colocou a arma a seu lado, mas ficou atento, para que ela não pudesse alcançá-la com um pulo rá­pido e largo. — Você sente outras dores? Você. . . bolit?. . .

Ela respirou fundo e sacudiu a cabeça.

— Você sabe russo?.

Njet. Algumas palavras. O seu alemão é melhor.

Desamarrou o saco de pão, abriu-o e dele retirou dois pacotes de gaze, uma tira de esparadrapo, uma tesoura e uma caixinha cheia de comprimidos. Isto era tudo que aceitara do médico auxiliar Ursbach. “Para que preciso disto?”, dissera. “Nunca ficarei ferido, sempre só morto! Ali para onde vou, não existem feridos, em lugar nenhum, nem no nosso lado nem no deles...” Ago­ra estava satisfeito por ter aceito o oferecimento de Ursbach; sim, ele até o convencera a trazer alguns pacotes de material para tratar de ferimentos. Os comprimidos eram bons para combater a dor — Tobak forte, como dissera Ursbach. Quase como um martelo para anestesiar a pessoa. Tão fortes que o centro de dor do cérebro quase ficava paralisado.

— Você. . . ajuda? — perguntou Stella Antonovna completamente atordoada. — Você ajuda eu?



— Me ajuda! — Hesslich sorriu para ela. — De onde você sabe alemão?

— Escola. . . quatro anos. . . — ela sorriu de volta, fugazmente. — Eu. . . não boa aluna. . . boa atiradora. . .

— E é exatamente isto que agora vai nos derrotar. Mas o que vou fazer com você? Afinal de contas não posso carregá-la comigo, pelo meio das linhas de vocês, e atravessar o Donez. . . E simplesmente deixar você livre? Stella, quan­tos de nós você já liquidou? E quantos ainda você vai liquidar? Eu sei, eu sei, estamos em guerra, recompensam quem mata, quem não mata é um covarde e às vezes é morto ele mesmo, até por seus próprios camaradas, tão loucos são os homens. . . É isto que você pensa, não, quando olha para mim com seus olhos azuis-esverdeados? Com esses maravilhosos olhos-claros, que sabem acertar tão bem no alvo! Aí está sentado ele, o alemão. Quantas de nós ele matou? O que está registrado em seu livro de tiros? Ele continuará vivendo, depois de me matar, e ainda irá assassinar muitos soldados do Exército Ver­melho. Maldito seja! Nem posso ficar ofendido porque você pensa assim. Mal­dito filho da puta! Então agora você me diga, o que vou fazer com você?! Afi­nal de contas, não posso simplesmente meter uma bala na sua cabeça como se você fosse uma ovelha indefesa! Uma coisa dessas só a fazem as tropas na re­taguarda das nossas posições, os membros do SD. Sabe o que fariam com vo­cê? Você ficaria azul e verde de tanta pancada, submeteriam você a um inqué­rito com métodos animalescos e depois a enforcariam na próxima árvore ou a matariam a tiros. Até hoje nenhuma mulher fuzileira, como vocês se denomi­nam, conseguiu sobreviver a um inquérito do SD. Lá existe até uma ordem es­pecial, você sabe?. . . Stella, como é que a coisa vai continuar conosco?

Ela o mirava; só compreendera algumas palavras e aguardava o que vinha por aí, o que viria depois de tanto palavrório. Esta conversa longa deveria ter um sentido — ninguém fala tanto sem uma razão para isso.

— Se você me bater de novo, quando eu a enfaixar — disse Hesslich vee­mentemente — vou lhe dar uma bofetada, a título de narcose. Está claro? Eu ajudar você, coroscho?

Stella assentiu com a cabeça; depois jogou-a para a nuca e fechou os olhos.

Quando a mão dele a tocou e retirou a blusa, ela começou a tremer interiormente e seus músculos enrijeceram. Ele abriu um pacote de gaze, cortou um pedaço e com cuidado limpou a pele ferida. Como não dispunha de água, molhou a gaze com saliva e depois retirou o sangue, suavemente. Ela abriu os olhos, só um pouquinho, uma fresta, e olhou para ele. Observou seus cabelos, sua testa, seus olhos, seu nariz, sua boca, seu queixo, seu pescoço e não conse­guiu encontrar explicação para o fato de que repentinamente se sentia prote­gida, não pensava mais na morte e também não estava mais disposta a morrer através da mão que limpava o sangue de seu seio.

— Assim não vai — disse Hesslich, e a sua voz repentinamente parecia encabulada, não tão clara quanto antes. — O sutiã atrapalha. Você tem de ti­rar o sutiã. . . — Ele apontou para a tira de pano, que apertava os seios redondos, e novamente a fitou, envergonhado. — Tem de sair. . . — Fez um movimento correspondente com a mão. — Você compreende. . . Tirar. . .

— Sim. . .

Ela abaixou a outra alça e puxou o sutiã até a cintura. Hesslich trincou os dentes, novamente cuspiu no pedaço de gaze e limpou o sangue do seio de Stella. Ao tocar, por acaso, o bico do seio, ela estremeceu, como se um choque elétrico a tivesse atingido.

Prostite. . . — desculpe! — disse ele, gaguejando.

Ela lhe deu um leve sorriso e sacudiu a cabeça.

— Tem de ser. . .

Hesslich logo percebeu que os ferimentos causados por seus pontapés não eram tão graves como pensara inicialmente. Um pouco de gaze e esparadrapo era suficiente. As feridas sarariam rapidamente. Talvez ficassem algumas cicatrizes finas, claras, mas que só seriam vistas por quem se defrontasse com Stella Antonovna despida.

O que sobrava? Ainda sobrava alguma coisa aqui? Jogou fora um pedaço de gaze, recortou um pedaço de esparadrapo e com isso ganhou algum tem­po, para perceber que não conseguia ver nenhuma saída. O que vou fazer com Stella? Só existem três possibilidades: deixá-la escapulir — isto significa a mor­te de vários camaradas. Matá-la — não sou capaz disto, assim como está senta­da na minha frente com os seios à mostra, jovem e linda, os cachos louros de­sarrumados, os reflexos violeta do sol poente nos olhos azuis-esverdeados. Só resta levá-la para a outra margem do rio e isto é totalmente impossível. Nós ja­mais conseguiríamos passar pelas linhas soviéticas, e o que vai acontecer com ela, se eu a entregar como prisioneira — isto eu já lhe descrevi com cores bem vivas. Na realidade não é da minha conta, não sou responsável por isso, mas só saber o que vão fazer com ela, isto me devoraria como uma cicatriz que nunca sara.

O que vou fazer com ela? Stella Antonovna, levante-se, pegue uma segunda pistola escondida, me obrigue a me defender, meu Deus, alguma coisa tem de acontecer! Mas no mesmo instante em que tais pensamentos passavam pela sua cabeça desejava poder ficar sentado diante dela durante todo o tem­po possível e fitá-la.

Isto era maluco, completamente doido!

Retirou o papel de proteção da embalagem, curvou-se novamente e pregou o esparadrapo em uma ferida ao lado do seu seio.

— Obbrigaado — disse ela.

— Stella. . .

— Sim?


— Você. . . me mata?

— Não pode. . .

— Se eu lhe devolver a arma. . .? — Ele apontou para a arma que estava ao lado dele. Ela compreendeu, acenou e sorriu para ele como se dissesse algo muito lindo.

— Sim. . . você não?

— Não. . .

— Por que njet?

— Por quê? Por quê?! — Ele se levantou, bateu um punho contra o outro e correu de um lado para outro, diante dela. Já escurecera, uma meia-lua brilhava tênue entre as nuvens de verão acumuladas e que se moviam lentamente, banhando a terra com uma luz suave. — O que posso responder a isto? Se eu tivesse visto você antes, à distância, no reticulado da minha arma, você já não existiria mais, isto é certo! Eu nem queria ver você de perto, sim, tinha medo de que isso acontecesse! Confesso, tinha medo de chegar mais perto de você, a uma distância inferior a 30 metros. Tinha medo de ver você, assim co­mo acontece agora, porque eu sabia que, indubitavelmente, você não vai con­seguir. . . dizia para mim mesmo. . . você não vai conseguir tocá-la e depois matá-la a tiros! Isto você não compreende, não é? Você é capaz de abraçar um homem e lhe empurrar uma faca nas costelas por detrás! Você realmente é uma destas? Com esses olhos? Com esta boca? Com este corpo? Você é real­mente uma fera selvagem, Stella? Se pelo menos você compreendesse algo do que lhe estou dizendo. . .

— Compreendo. . . — disse ela, tranqüilamente. — Você. . . fim com as feridas. . .?

— Não.

Ele se ajoelhou diante dela, colou mais quatro pedaços grandes de esparadrapo nos talhos e hematomas no início dos seios e nos ombros e apontou para o sutiã que Stella baixara.



— Está bem. Pronto. Pode vestir de novo.

Ela sacudiu a cabeça; de repente se recostou de novo e levantou os braços sobre a cabeça.

— Pronto nada. . . — Sua voz era suave e feminina, não estridente como antes, ao pedir: me mate! — Dores. . . Perna. . .

— Está certo. Aí eu também dei um pontapé. — Ele observou-a com a cabeça inclinada para o lado e aguardou. — Isto agora é um truque, Stella? — perguntou. — Se eu pudesse saber o que você está pensando agora! Eu vou ad­verti-la: eu sou mais forte e mais rápido que você! E estou contando com a possibilidade de você se jogar sobre mim, por trás. Talvez você tenha razão. Talvez esta seja a única solução para nós. — Ele a fitou longamente, desde as botas sujas até os cachos louros, e sacudiu a cabeça. — Eu não posso matar vo­cê, e você, sua filha da puta, sabe muito bem que não posso. . .

Curvou-se novamente, apalpou-lhe as coxas e quadris o teve a impressão de que a fazenda do uniforme estava molhada. Sangue? Isto significaria tirar sua calça, e tê-la diante de si em toda sua nudez.

Ela parecia pensar o mesmo mas não se moveu; só o olhava muda.

Hesslich levantou-se abruptamente e deu um passo para o lado. A cabeça de Stella o seguia, mas não se ergueu da grama alta.

— A precaução é a mãe da sobrevivência! — exclamou Hesslich. — Mais um dos ditados sábios de M.M. O Major Molle. . . você não o conhece, mas com toda certeza vocês também têm um tipo igual para o treinamento. — Curvou-se, pegou a pequena pistola Tokarev e a lançou para bem longe, na floresta, na direção oposta à que atirara o cartucho de munição. Depois pegou a linda e nova arma soviética de precisão com o fantástico telescópio de mira, foi em direção a um grosso tronco de bétula, ergueu a arma para o alto e colo­cou todo o peso do corpo no golpe.

— Njet! — berrou Stella. Sua voz era clara; parecia querer quebrar vidros. — Piotr. . . njet! Tschjort! Tschjort! — (Diabo! Diabo!)

Em meio deste berro a arma bateu contra o tronco e se espatifou. A coronha se separou da bainha. No segundo golpe o cabo quebrou, e o cano oculto saiu, rangendo, do trilho. Cadeado e telescópio caíram na grama. Aca­bara- se a arma maravilhosa.

Stella Antonovna acercou-se de Hesslich com dois grandes pulos, caiu em cima dele qual gata raivosa e agarrou-se em seus ombros. Mas já não era um ataque que poderia servir de ensejo para que Peter a matasse. Ela se dependurou nele, chorou em voz alta, a boca aberta, e os ruídos que saíam de sua garganta assemelhavam-se aos gemidos de um cachorrinho abandonado.

— Piotr. . . — gritou, depois, com uma voz clara, que parecia a ponto de se quebrar. — Eu odeio você! Morra, seu cachorro! Morra! Minha arma! Vo­cê destruiu minha arma! Por que me deixa viver? Você pode fazer tudo o que quiser comigo. . . tudo. . . por que você não deixou minha arma viver. . .?! Eu o amaldiçôo, amaldiçôo. . .

Ele retirou de seus ombros as mãos de Stella, dobrou-lhe os braços para trás e novamente a imprensou contra o chão. Ela caiu na grama, bem ao lado do cadeado e do telescópio que Peter arrancara da arma, estirou-se e fitou o rosto dele, bem diante do seu.

— Stella. . .

— Você. . . diabo. . .



— Eu amo você. . . — Ele engoliu em seco, convulsivamente. Não queria dizê-lo, mas simplesmente deixara-o escapar. Meu Deus, mas isto é pura loucu­ra! Segurou a cabeça de Stella com as duas mãos, curvou-se, beijou seus olhos grandes e flamejantes, contando com a possibilidade dela bater nele com os punhos. Mas Stella permaneceu quieta, como paralisada, e quando os lábios dele tocaram os seus, não o mordeu. — Eu amo você. . . — repetiu Peter.

Ela permaneceu muda e imóvel, ainda quando ele voltou a beijar sua bo­ca, os cabelos e o rosto, acariciando-a com uma ternura que passou por ela como uma corrente tépida. E com cada uma das batidas do seu coração, cada vez mais rápidas, o calor deslizante apoderava-se dela com um sentimento indizível de felicidade. Sentia-o nas pontas dos dedos do pé, na barriga das pernas, no interior das coxas, sob os seios, nas axilas, na curva do pescoço, nas têmporas e sob a raiz dos cabelos. Mas o mais intenso era o sentimento maravilhoso de calor no seu colo. Ele começou a vibrar, introjetou uma saudade infinita no seu coração e a preencheu com um único desejo: nada mais ser, apenas entrega total.

— Você ainda sente dores? — perguntou ele.

Ela acenou, afirmativamente.

— Sim. . .

Quando Peter puxou-lhe as calças e se curvou sobre a coxa que pisara, quando as mãos dele abaixaram a calcinha fina e colaram um esparadrapo sobre a única e pequena ferida que suas botas tinham feito, ela soluçou, colocou os braços em torno da cabeça dele e puxou-a contra seu corpo. Os de­dos de Hesslich passavam, suavemente, sobre ela. Stella julgava que iria reben­tar com seu toque, como se o sangue tivesse começado a fervilhar e não encontrasse um caminho de saída. Suas coxas se abriram. Puxou-o contra si, pelos ombros, suas pernas o prenderam e aí estava de novo, este borbulhar do sangue, que queimava qualquer resquício de razão, este sentimento vulcâ­nico, sufocando qualquer pensamento, esta saudade inebriante que a fazia sentir-se isolada, liberta do céu e da terra, completamente afastada de tudo que é terreno. . . Ela suspirou fundo, enterrou os dentes, com um soturno gemido, no peito dele, e gritou internamente “Estou morrendo!” quando ele a penetrou. Sua consciência então se afundou em levas e mais levas de ondas quentes.

Não era um amor normal. . . era o desejo abrangente de morrer aqui e agora, juntos. Só isto era um alvo: nunca mais acordar deste abraço, não mais viver em um mundo que os obrigava a se matar mutuamente, nunca mais ficar diante da terrível questão: e agora, o que vai acontecer? Nunca mais a realida­de impiedosa, sufocante: estamos em guerra, você é um inimigo, você matou meus camaradas, você liquidou Uwe Dallmann, você liquidou quatro moças do Exército Vermelho.

Nunca mais!

O desespero de seu amor apoderou-se totalmente deles quando, bem abraçados, com a respiração ofegante e o coração a bater, estavam deitados na grama, imóveis, um só corpo com a pele soldada, atados um ao outro por todos os membros. A consciência voltava. As unhas dos dedos de Stella passa­vam, suavemente, pelo dorso coberto de suor de Peter, e ele apalpava, com os lábios, o rosto dela, beijava as pérolas de suor de seu nariz, dos cantos da boca e dos olhos e por detrás das orelhas.

Como poderemos continuar a viver agora?, pensava ele. Quem vai poder me dar uma resposta satisfatória?

E ela pensava: Nunca mais poderei ser Stella Antonovna. . . O que vai ser agora? Eu me queimei. . . que é que faço com as minhas cinzas?! Oh! Piotr, não existe mais mundo para nós.

Não se desligaram um do outro; sentiam, com a respiração mais calma, que novas forças voltavam a seus corpos. Os beijos se tornaram mais longos e intensos, seus corpos mais ávidos, as mãos procuravam novos caminhos, e mudos deixaram-se envolver de novo por aquele calor que tudo perpassa, um calor idílico, que os fazia esquecer todos os medos e interrogações.

Quando Piotr espalhou seu sêmen pela segunda vez dentro dela, Stella sentiu como se um golpe de vento derrubasse uma parede de neblina, atrás da qual até então caminhara, desorientada. Ela viu a cabeça dele, molhada de suor, a boca entreaberta, sentiu as mãos dele nos seios, seu corpo a estremecer, que lhe dava sua vida. Fitou-o com os olhos arregalados, cheios de terror, introjetou este quadro da reunião como se fosse uma marca a ferro e fogo, o momento em que os traços do rosto dele se suavizavam na felicidade de uma realização não-suspeitada, e prendeu a respiração, retirou os braços de seus ombros e subitamente agarrou-o pelo pescoço.

Ela começara a gritar, gritar, atingindo o rosto atônito de Peter, entre os olhos dele, que se dilatavam sob sua pressão e com a crescente falta de ar, gritou e gritou e gritou, apenas o seu nome: Piotr! Piotr! Piotr! E seus dedos o agarravam pelo pescoço, apertavam o pomo-de-adão, os músculos dos seus antebraços começaram a tremer, os ombros doíam, sentia a tensão dos seus músculos até no colo, este colo do qual ele não podia escapar, pois as pernas de Stella, dobradas em suas costas, o prendiam. E ela gritava e gritava, e seus músculos mobilizavam todas as forças que lhe restavam, e o sufocava; quando finalmente, o liberou, ele deslizou inconsciente, com a cabeça batendo forte no solo.

Mecanicamente, sem qualquer emoção visível, ela se levantou, vestiu as calças, colocou o sutiã, puxou a blusa rasgada sobre a cabeça, empurrou a boina nos cabelos e amarrou o cinto.

Levantou a arma de Hesslich, viu que estava sem trave de segurança e pronta para disparar, voltou para seu lado e, a partir de sua coxa, encostou o cano na testa dele.

Ele estava deitado de lado, as mãos crispadas, com a boca aberta e os olhos vidrados. Seu corpo, jovem e robusto, nu, brilhava ao clarão da lua. Ela se curvou, para vê-lo uma vez mais, este corpo, que agora lhe pertencia e cuja continuação agora tinha em seu ventre. Viu as unhadas, orladas de san­gue, feitas por seus dedos, viu as mordidas a incharem no pescoço, no peito e no corpo entre seus dedos, um punhado de cachos louros, que ele arrancara dela no auge de seu êxatase amoroso.

— Oh! Piotr. . . — disse ela, baixinho. — Nós vivemos e já morremos há muito tempo. Estamos como que liquidados, reduzidos a cinzas. . .

Foi em direção da mesma árvore, na qual Hesslich espatifara sua arma, fez um gesto amplo e também quebrou o fuzil dele contra o grosso tronco. Golpeou cinco vezes, com toda a força, e a arma se partiu em três pedaços. Jogou os escombros para junto dos restos de sua; própria arma e sentiu também isto como uma espécie de reunião. Depois voltou para o lado de Peter Hesslich e ajoelhou-se.

Ele jazia ainda em profundo estado inconsciente. Respirava fracamen­te. Cobriu o corpo nu com as roupas, colocou o saco de pão embaixo da cabe­ça, como se fosse um travesseiro, beijou a boca aberta de Piotr e seus olhos rígidos e acariciou-lhe o rosto, sobre cuja maquilagem de terra o suor cavara sulcos profundos.

Do svidanija. . . — disse baixinho e beijou-o novamente. — Vsevo choroschevo — (Até logo. Tudo de bom.)

Entrou lentamente pela floresta, parou várias vezes, voltando-se para olhar a forma plana, deitada por terra. Depois, quando a escuridão a afastou para sempre, começou a correr; corria como se quisesse salvar-se, pela floresta, sempre para a frente, em qualquer direção, para pessoas que fossem diferentes de Piotr, para um mundo onde pudesse se esconder do céu que estava dentro dela e que nunca esqueceria.

Depois de. cerca de meia hora um grito agudo interrompeu sua caminhada.

Stoj!

Veio da escuridão, de algum buraco de sentinela bem próximo.

Ela levantou ambos os braços, respirou fundo, levantou a cabeça e fi­tou o céu. Acima da sua cabeça grossas nuvens passavam, empurradas pelo vento, a lua, em forma de foice, irradiava uma luz interrompida, e lá onde as nuvens deixavam a descoberto um buraco negro no infinito, piscavam algumas estrelas isoladas.

— Eu sou Stella Antonovna Korolenkaja! — gritou ela, com voz clara, acostumada a dar ordens. — Sargento da Divisão Bajda! De volta de uma missão especial! Obrigada, camaradas!

Mas, em direção ao céu, pensava: Obrigada, você lá em cima. Obrigada! Amá-lo-ei para sempre.

Baixou os braços, dirigiu-se às sentinelas e depois apertou seis mãos.

— Desejo falar com o comandante! — falou Stella Antonovna duramen­te. — Aconteceu algo de inacreditável! A língua quase que se me parte, quando sou obrigada a contá-lo! Quem é o comandante de vocês?

— Major Samjutin. Segundo batalhão de lançadores. Nós a levaremos à presença dele, de imediato, camarada!

O Major Samjutin foi o primeiro a saber do evento inacreditável, do qual, não obstante, ficava difícil de duvidar. A blusa rasgada de Stella Antonovna era uma prova suficiente:

— Quatro soldados do Exército Vermelho me atacaram, sorrateiramente, pelas costas, na floresta! — exclamou Stella, fechando as mãos em punhos e fervendo de raiva. — Eles me jogaram no chão! Defendi-me com todas as for­ças, mas como é que alguém pode se sustentar contra quatro homens?!

— Mas. . . mas o que lhe aconteceu, Camarada Korolenkaja? — O Major Samjutin olhou discretamente para a blusa estraçalhada, que só ocultava par­cialmente o sutiã, e para alguns rasgões nos ombros. — Eles. . . me desculpe, se o pergunto. . . mas eles. . . eles lhe fizeram algum mal?

— Como mulher. . . é isto que quer saber?

— É isso sim. . . — Samjutin estava embaraçado.

— Não!

— Camarada, respiro aliviado!



— Eu não. Roubaram minha arma. . .

— O que foi que fizeram? — Samjutin curvou-se, ligeiramente, para a frente. A coisa ficava cada vez mais incrível.

— O meu novo fuzil. Uma arma especial. Só existem seis do mesmo tipo na União Soviética, e eu tive a honra de poder usar um deles. E soldados do Exército Vermelho me atacaram e ma roubaram. . .

O Major Samjutin adivinhava a avalanche de inquéritos que iria começar a rolar e dificultar a vida de todo mundo nesta frente.

— O que pode se dizer diante de uma coisa destas, camarada? — pergun­tou um tanto impotente.

— Nada! Irei até o General Conjev. . .

— É disto que tenho receio. . .

— Só a sua divisão está estacionada aqui?



— Não. Também a artilharia, Flak, uma tropa de notícias, uma padaria. . . e o Terceiro Esquadrão de Encouraçados. . .

— Bastante escolha! Major Samjutin, nós temos de achar os quatro ladrões. Eu preciso ter de volta o meu fuzil. . .

Gente, que escarcéu, quando o Major Samjutin telefonou, nesta noite, para Soja Valentinovna. A famosa Stella Antonovna, relatou o Major Samjutin, estava em seu alojamento e parecia bastante baratinada. Haviam rouba­do o seu fuzil, e, além disso, encontrava-se em tal estado de mau humor, que era preferível deixá-la sozinha, porque neste momento abrigava um ódio fervilhante contra todo ser humano do sexo masculino. . .

Com um jipe que emitia guinchos — um veículo das provisões de ajuda dos americanos — Bajda e o Tenente Ugarov apareceram no quartel de Samjutin.

— Meu passarinho! — berrou Soja, ao ver Stella e a apertou contra os magníficos seios. — Meu pobre cisne, todo depenado! Quatro homens! Quem pode agüentar uma coisa destas?! Porcos fedorentos! E abafaram o fuzil! Ha, isto vai dar um inquérito! Não cederei! E se for obrigada, escreverei pessoal­mente ao Camarada Generalíssimo Stalin.

O Major Samjutin evitou qualquer comentário. As palavras de Soja o abalavam, mas de onde o pobre coitado, que comandava uma tropa normal, poderia saber que tipo de linguajar era usado no grupo da Camarada Bajda? Ugarov também soltou uns palavrões de arrepiar os cabelos, xingou os quatro desconhecidos filhos da mãe desgraçados, que deveriam ser castrados, e a pró­pria Stella berrava que poderiam tê-la desonrado como mulher quatro ou oito ou 16 vezes, tranqüilamente, desde que lhe deixassem o fuzil. . . Se Samjutin não fosse ateu, teria feito três grandes sinais-da-cruz, quando Bajda, Stella Antonovna e o Tenente Ugarov finalmente voltaram para suas posições.

A notícia já chegara aos ouvidos da divisão.

— A Korolenkaja assaltada por quatro soldados do Exército Vermelho! Roubada a nova arma especial! Esta é de virar o estômago!

Uma coisa dessas nunca poderia ter acontecido — e olhem, o General Conjev não pode, em hipótese nenhuma, tomar conhecimento do ocorrido.

A divisão ligou para Soja Valentinovna. De um lado do fio estava um coronel, que dizia, com voz melodiosa:

— Minha querida, boa Soitschka. . .

Neste momento Bajda percebeu, repentinamente, que tinha muito poder nas mãos.

— Não! — disse, antes que o coronel pudesse continuar. — Eu não vou desmentir nada, camarada, e eu lhe peço, preste atenção a uma coisa: Soja Valentinovna só pensa na verdade, e é totalmente inútil tentar afastá-la disto.

— Minha cara. — O coronel pigarreou dramaticamente. — Nós enviare­mos uma nova arma, de igual valor, para a Korolenkaja. . .

— Mas com isto a velha não reaparece, e os culpados escapam incólumes.

— Trata-se da moral da tropa.

— Exatamente a minha opinião.

— Da moral que tem de ser boa. . . pelo menos no que se refere ao General Sonjev! Nós estamos diante de uma batalha que irá decidir a guerra! Quatro homens não constituem um exército inteiro! Sempre haverá alguns canalhas. . .

— A serem açoitados na Banja! Eu exijo um inquérito!

— Está bem! — O coronel da divisão suspirou como um avô, acostuma­do com preocupações. — Camarada Soja Valentinovna. Aguardaremos, então, inicialmente, o seu relatório por escrito e depois discutiremos as acusações de Stella. . .

Enquanto Bajda telefonava, no abrigo de comando, Stella Antonovna estava sentada em uma cuba de madeira do abrigo sanitário, brincava na água quente e se ensaboava. Diante dela, em um banquinho de madeira, estava sen­tada Galina Ruslanovna e a observava.

— Você é imprudente. . . — falou a médica, subitamente. Stella, o rosto cheio de espuma de sabão, piscou os olhos.

— O que você quer dizer com isto?

— Então quatro soldados do Exército Vermelho a assaltaram?

— Sim. Você já deve ter sabido disso. . .

— Estranho, o que deve ter acontecido nesta noite — disse Opalinskaja calmamente. — Em seus seios e no ombro estão colados pedaços de esparadrapo alemães. . .

Com movimentos tranqüilos Stella Antonovna jogou água sobre o corpo, por meio de um pequeno balde de zinco; retirou o sabão, mergulhou na cuba de madeira até o queixo e a partir desta posição fitou pensativamente Galina Ruslanovna. A médica revidou seu olhar sem dizer nada e com paciente espera.

— Os pedaços de esparadrapo, eu os encontrei — respondeu Stella final­mente.

Opalinskaja sacudiu a cabeça várias vezes.

— Eu sei! Os alemães, além das bombas, também jogam sobre nós reci­pientes com material de enfermagem. Foi um destes que você encontrou na floresta, não? Quanta coincidência! E machucou-se nos espinhos dos ramos, pobre passarinho, a pele rebentou. . . e tantas manchas azuis, sim, o chão da estepe é duro no verão, as hastes da grama podem ser afiadas feito facas. Quanto sofrimento um corpo humano tem de agüentar, quando a gente se esgueira para perto do inimigo. . .

— Que quer você? — perguntou Stella e permaneceu imersa na água até o queixo.

— Nada. Só estou afirmando que você é imprudente. Talvez Soja Valen­tinovna também possa descobrir que os esparadrapos são alemães.

— Obrigada, Galja. . .

— Por quê? — Opalinskaja curvou-se para a frente. — Então você realmente o encontrou?

— Quem?

— Não banque a tola, Stella. Aquele em que você pensa dia e noite. A morte com a boina de tricô.



— Sim.

— E ele ainda vive?

— Sim.

— Mas agora não é mais o inimigo, não é?. . . Agora todo o seu corpo anseia pelo dele! Com que tipo de bacilo trabalham esses alemães! Primeiro Schanna Ivanovna e agora você. . . você, o grande modelo, a heroína, cujo nome um dia será esculpido em mármore; Stella Antonovna Korolenkaja, que dará nome a ruas, praças e estações de metrô, escolas e campos para adolescentes. . . Quem pode compreender uma coisa destas?



— Você não?

— Não.


— Se lhe der prazer, me delate a Soja Valentinovna! — Stella emergiu parcialmente da água, levantou-se, apoiando-se nas bordas da cuba, ergueu-se em toda sua linda nudez, delicada, inteiramente molhada, diante de Gali­na, pegou uma toalha e começou a se enxugar. Passou a toalha cuidadosamen­te sobre as partes com hematomas, tocou de leve os seios, e manteve-se quie­ta, quando Galina lhe tirou a toalha das mãos, enxugou suas costas e também os lugares onde estavam colados os esparadrapos.

— Então você me julga capaz de fazer isso? — perguntou Galina, como se não estivesse dando importância ao assunto.

— Seria seu dever. Você é patriota, comunista, soldado. O que eu fiz é algo que quase deveria ser punido com a morte, não?

— Você não deveria falar assim, Stella. . .

Opalinskaja retirou os esparadrapos de um só golpe, como costumam fazer os médicos, já que a dor súbita, de poucos segundos, é mais fácil de suportar do que uma retirada cuidadosa e lenta. Stella Antonovna estremeceu e depois olhou para os próprios seios. Em cima das feridas, no lugar em que os seios começavam, havia alguns lugares que não se pareciam nem de longe com marcas de pontapés. Galina Ruslanovna acenou com a cabeça e sorriu.

— É, aqui também vamos ter de colocar um esparadrapo, com toda certeza. . . Tais ferimentos são os que Soja conhece melhor. Eles denunciariam tudo! Diga-me, Stella, ele tem lábios e dentes bonitos, a sua boina de tricô. . .?

— O nome dele é Piotr — disse Stella, um pouco mais baixo. — Devo envergonhar-me, Galina?

— De acordo com o nosso código de honra você deveria se suicidar!

— Eu o amo. . .

— Ele matou muitos de nossos soldados! E você por acaso também se lembra das nossas amigas?

— Eu também matei muitos de seus camaradas. Até agora, 123.

— Estamos lutando pela liberdade da nossa pátria! E ele. . .?

— Ele também! Disseram aos alemães que nós queríamos invadir a Ale­manha e Hitler conseguiu atacar mais rápido que nós. E eles acreditaram! A maioria acredita em tudo que ouve, lê ou que lhe é dito. Engole a propagan­da como vitaminas. Isto é assim em toda parte, também aqui, Galina. O homem é um animal gregário, que caminha, obediente, atrás da fera que o conduz. Montanha para cima, montanha para baixo, sobre a planície e para o abismo. . . ele segue. E quando descobre a verdade e muge e se opõe... acaba seguindo, porque atrás dele estão milhões, a pressionar, que o derrubam e aba­fam sua voz, e seguem o chefe. . .

— E você agora quer sair? Pelo menos está tentando?

— Cumprirei o meu dever, Galina! — Ela estava diante da cuba, deixou os braços pendurados ao longo do corpo nu e esperou, até que Galina tivesse posto esparadrapos novos, soviéticos, sobre as feridas e as marcas de amor que poderiam denunciá-la.

— Você é linda. . . — disse Galina, de permeio. — Você sabe disso?

— Tenho um corpo bom, sim. Talvez muito musculoso. . . existem outras mais bonitas que eu. Por exemplo, Schanna Ivanovna era mais bonita. . .

— Ela era uma gata preta. Você é como o símbolo da terra fértil. Quem vê você pensa nos jardins de girassóis, nos campos de trigo infindáveis, na alta grama ondulante da estepe, os riachos cheios de água, que brilham prateados ao luar. . .

— Isto quem deveria dizer seria um amante, não você. . . — Enxugou com a toalha mais alguns lugares, onde ainda havia água, sob as axilas, sob o queixo, entre as coxas; depois passou as mãos pelo cabelo e o desenredou, até que os cachos louros novamente lhe caíssem sobre a testa. Só então foi em direção ao uniforme, que jogara sobre um banquinho. — Então, você colocou esparadrapo em tudo?

— Onde é que você ainda tem lugares que poderiam causar suspeitas?

Opalinskaja observou o corpo nu de Stella e deixou o olhar descer para o colo. Stella o percebeu, sacudiu a cabeça e sentiu que o sangue subia até o rosto.

— Não é provável que Soja Valentinovna expresse o desejo de se informar aí. . . — respondeu, com voz engasgada. — Posso me vestir?

— Agora sim. — Opalinskaja colocou as tiras de esparadrapo de volta em uma caixa cromada e fechou a tampa. Quando se ouvia o estalido do fecho, perguntou. — O que você vai fazer, se encontrá-lo de novo?

— Não sei. Tenho medo de que isso aconteça.

— Você seria capaz de matá-lo?

— Não sei, realmente não sei. Talvez, se ele atirar primeiro. . .

— Se ele atirar primeiro, você não tem mais chance alguma de acertar. Pois aí você já não existe mais. Você sabe disso.

— E não seria esta a melhor solução?

— E com essa paralisia no coração e no cérebro você quer continuar lutando? — Opalinskaja jogou os esparadrapos alemães, que retirara do corpo de Stella, em um saco de linho, onde era recolhido o lixo do abrigo de enfema­gem, e esperou até que Stella Antonovna tivesse vestido o sutiã e a calcinha fina. Você vai ficar feito cobaia diante da serpente, quando vir a boina de tricô na sua frente. . .

— Ele nunca mais vai usá-la — respondeu Stella e respirou fundo.

— Ele prometeu isto a você?

— Não! Mas não poderá usá-la mais. — Ela pôs a mão no bolso esquerdo da calça do uniforme, puxou a boina de tricô cinzenta de Hesslich e a sacudiu no ar como uma bandeirinha. — Eu a tenho. . .

— Ele lha deu de presente?

— Eu a abafei.

Galina Ruslanovna tocou a boina com a ponta dos dedos, como se se tratasse de um objeto frágil, de alto valor e insubstituível. Sim, ela era médica, esclarecida, para quem tudo que é místico lhe parecia estranho, até ridículo, mas até nela a visão desta boina mortífera causava um certo receio.

— Abafou. . .? — repetiu.

— Ele estava inconsciente, quando o deixei. Eu quase o estrangulei. . . senão não teria conseguido me desvencilhar dele. Ele foi o vencedor, mas não sabia como poderíamos continuar. Aí eu tive de ajudá-lo, você compreende?

— Agora tenho de compreender uma porção de coisas que nunca deveriam ter ocorrido! Meu Deus, que coisa é esta que de repente põe de cabeça para baixo o sentido da nossa Grande Guerra Patriótica! Você ama o seu inimigo mortal. . . aqui cessa qualquer possibilidade de compreensão. Aí só resta sentir calafrios. . .

— É. . . é isso mesmo. — Stella vestiu a calça do uniforme, calçou as bo­tas e pôs a blusa nova, que tinham buscado para ela no depósito. — Mas como vou matar agora este amor, sem também morrer junto? Explique-mo, Cama­rada Galina Ruslanovna. Você é inteligente, estudou, é médica e conhece a alma humana! Como viver com este amor?

— Só existem duas possibilidades, Stellinka. . .

— Diga-me quais são, por favor.

— A primeira é: você pede transferência para outra frente. Você tem condições de fazê-lo, exatamente você, com as boas relações que mantém com Moscou e pela reputação que possui diante do General Conjev. Diga sim­plesmente que não consegue mais conviver bem com a Camarada Bajda.

— Isto seria uma péssima solução. O General Conjev iria imediatamente instaurar um inquérito contra Soja Valentinovna! Não, isto é impossível!

— Então resta a segunda solução: deveríamos rezar para que esse Piotr. . . como você o chama. . . seja assassinado o mais rápido possível.

— Você é cruel, Galina Ruslanovna.

Stella voltou a guardar a boina de tricô no bolso da calça do uniforme, refletiu um momento, retirou-a novamente, meteu-a no decote e fechou to­dos os botões da blusa, enquanto Opalinskaja torcia a boca bonita.

— O seu coração nunca mais vai ser totalmente russo. . . — disse baixinho. — Agora você está doente para toda a vida, incuravelmente doente! Jo­gue a boina na tremonha mais próxima, queime-a, rasgue-a. . . o que quiser fa­zer, mas não deixe de destruí-la! Não viva com essa boina! Que coisa mais horrorosa: você aperta a morte contra o seio e ainda se sente feliz. . .

— Tremo de felicidade, Galina. . .

— Você é desumana, um monstro!

— Pela primeira vez na vida me sinto realmente mulher.

— Por causa de um alemão! Um agressor fascista. . .

— Por causa de um homem, a quem amo. Não sei de onde vem! Mas agora sei o que significa o amor. . . e onde então ficam as fronteiras?

— Ele vem da Alemanha nazista!

— E eu da Rússia soviética! Galina, pergunto a você: será que não passam de nomes? Nós nos abraçamos e somos humanos. . . isto não basta? Será que o verdadeiro sentido da vida não é este?

— Vida! — Opalinskaja abriu os braços. — Como é que você pode pronunciar esta palavra com tanta naturalidade! Nós estamos aqui para matar!

— Você não! Como médica, você deve salvar a vida.

— A vida de vocês. . . para que possam continuar matando! — deixou cair os braços e observou Stella Antonovna fechar o cinturão. — Como foi que você perdeu seu fuzil?

— Ele o estraçalhou, golpeando-o contra um tronco de árvore.

— E a pistola?

— Ele a jogou para longe, para dentro da floresta.

— E a faca?

— Esta ainda tenho. — Stella hesitou e virou-se lentamente para a médi­ca Galina Ruslanovna. — Eu sei o que você está querendo me dizer. Eu deveria tê-lo apunhalado! Você o faria? Ele está deitado a seu lado, você sente o calor de seu corpo, a sua pele empapa-se com o suor da dele, você escuta sua voz, você o fita nos olhos, a sua respiração passa pelo seu rosto, você o sente em todo o lugar e apenas ele, nada mais existe à sua volta, só ele, ele é o tempo, o mundo, o todo. . . e aí você vai pegar uma faca e sorrateiramente apunha­lá-lo no coração? Você seria capaz disso, Galina Ruslanovna?

— Nunca existiu homem algum que me dominasse a tal ponto — respondeu Opalinskaja, hesitante. — E nunca existirá.

— Você nunca amou?

— Talvez. — Ela fitou rigidamente a parede de terra do abrigo. — Não assim como você o descreve, Stellinka. Muitas vezes me apaixonei, e quando um homem me agradava, quando me interessava, quando queria tê-lo na cama, simplesmente o tomava. Muitas vezes tratava-se de uma competição: “Você está vendo esse aí? Sim, aquele com os cachos morenos. Chama-se Abdulchan, vem da região de Aserbeidschan, estuda técnica de alta freqüência, um dia quer construir foguetes. . . aguarde, hoje à noite vai dormir comigo.” E ele o fazia, eu cuidava disso, nem que fosse apenas pela ambição de não perder a aposta e ter de agüentar o vexame e ser ridicularizada pelas outras. Ou então. . . “aí, o rapazinho jovem, frágil, que deseja ser químico um dia. Chama-se Constantin. Seus membros parecem de boneca, um rostinho como uma pintura, olhos melancólicos e musicais. Vocês sabem que os pequenos, sensíveis, são os melhores amantes, os mais perseverantes, os mais fortes? Os touros gigantes nos derrubam e suam de encher baldes, mas os pequenos, frágeis, são como hélices, que ainda giram quando desde muito se des­ligou o motor. Olhem para este lindo Constantin. . . permanecerá comigo duas noites e dois dias!” Ficou dois dias e três noites, o frágil Constantin, e só de­sistiu quando eu auscultei e lhe disse: “Chega, meu querido bodezinho, o seu coração está começando a fibrilar!” . . . Sempre foi assim: aquele que eu que­ria conseguia ter. E quem queria me possuir, me possuía, desde que eu tam­bém estivesse disposta. — Olhou para Stella, que se apoiava na parede e ajei­tava o gorro em forma de navio sobre os cabelos louros. — Isto é amor?

— Não! — respondeu Stella Antonovna duramente.

— Você deve sabê-lo.

— Sim, agora sei — respondeu, afastando-se da parede. — Você vai noti­ficar Soja Valentinovna de que eu voltei com esparadrapos alemães no cor­po. . .

— Esparadrapos alemães? Por aqui? — Opalinskaja olhou em torno de si, com um gesto inquiridor. — Onde?!

— Como posso agradecer-lhe um dia, Galja?

— Não necessito de agradecimentos. Mas estou preocupada com você. A cada alemão, que você verá no visor, pensará daqui por diante: será que este pode ser Piotr? E você hesitará, sua mão tremerá, os olhos piscarão. Onde ficou a grande Korolenkaja?

— Eu o sei! - Stella Antonovna abriu a porta do abrigo. — Será que não basta eu sabê-lo?

Opalinskaja deu de ombros e amassou a toalha molhada com que Stella se enxugara.

— Esse tipo de vida eu não invejo. — A voz saiu rouca. — Jamais quero viver algo assim!

Esperou até que Stella tivesse saído do abrigo, jogou a toalha para um canto, deu um forte pontapé na cuba de banho e decidiu, apesar de todas as considerações racionais e da amizade superficial com Soja Valentinovna, ainda conseguir que o bonito Tenente Ugarov se deitasse com ela em seu bom colchão de palha. Também se trata de acertos, pensou. Este é o meu livro de tiros! Por que deveria eu poupar Ugarov?

No abrigo de comando, Stella Antonovna encontrou Soja e Ugarov, que a fita­vam com os rostos rubros de raiva e vergonha. Ugarov aparentemente conse­guira, à custa de muito tempo e energia, tranqüilizar Bajda a ponto de ela vol­tar a falar razoavelmente e deixar de proferir palavrões horríveis, totalmente não-femininos.

— Querem abafar o assunto, minha pombinha! — Soja berrou logo que viu Stella. — O pessoal da divisão está molhando as calças! Pelo amor de Deus, nada pode chegar aos ouvidos do General Conjev, que o céu o impeça, imagi­ne o que vai acontecer se a divisão política em Moscou tomar ciência do ocor­rido, é preciso tratar desse assunto com o máximo de cuidado. . . Quatro soldados russos, que atacam a Korolenkaja e lhe roubam a arma. . . isto é algo sobre o que só se pode discutir secretamente, no escuro! Ha! Como se vangloriaram primeiro, esta gente do batalhão e do regimento. “Estes porcos vou pegar, Camarada Bajda”, gritou o Coronel Coscanjan, “e quando os tiver na mão. . . arrebentar-lhes-ei o cu! Sim, eu pessoalmente! Eu mesmo irei devolver a honra a Stella!” E o que diz agora, depois que a divisão foge, covardemente? O que diz, este vaidoso Coscanjan? “Minha querida camarada. . .” Basta ouvir esta merda. “Minha querida camarada!” Ele não passa de um paspalhão, é um babaca impotente!

— Soitschka. . . — Ugarov a interrompeu, com um tom de suave censu­ra, mas Bajda já estava de novo a pleno vapor.

— Todos querem ficar mudos! Ainda agora veio um novo telefonema da divisão. O seu fuzil novo chega depois de amanhã! Como se isto resolvesse alguma coisa! Então a gente pode retransformar uma moça deflorada, consturando-a simplesmente?!

— Soja! — falou Ugarov, em um tom mais cortante. — Você prometeu ser mais tolerante!

— Quero justiça! — berrou Bajda, fechando os punhos. — Justiça para o meu cisne, Stella! Estamos lutando para quê? Não é por Liberdade e Justiça? Ou por outra coisa? Ha, farei vir aqui o general da divisão, este galo que rola na lama! Ele vai ter de se postar diante de Stella e pedir desculpas em no­me de todo o Exército! Isto é o mínimo que vou exigir dele, se é que não que­rem que eu vá até Conjev!

— Realmente deveríamos resolvê-lo entre nós, sem que nada chegue aos ouvidos de ninguém — disse Stella calmamente, mirando a parede, por sobre a cabeça de Bajda. — Também se pode relatar o ocorrido de outra forma: Stel­la sai à procura de um alemão perigoso, que se esgueira pelas nossas linhas, e então é assaltada por quatro soldados do Exército Vermelho, sem perceber sua aproximação! Gente, que coisa! Será que a superestimamos? Como é que ela quer vencer o inimigo, se é meio surda?! Esta interpretação também vale, Soja Valentinovna. . .

— Cuspirei na cara de quem disser isto!

— Mas ela tem razão! — Ugarov piscou para Stella, agradecido. — O no­vo fuzil vem aí e nós aprendemos, com o que aconteceu, que é necessário des­confiar de tudo e de todos. A guerra continua, até que entremos marchando em Berlim, e isto é a única coisa importante. Só isto merece ser tomado em consideração, penso eu. . .

— Com lógica a pessoa pode revirar tudo! — disse Bajda, com amargura. — Mas está bem. . . eu vou me submeter ao grande objetivo! Mas não imedia­tamente. . . ainda vou deixá-los ficar um pouco com a cabeça cheia. É bom que todos da divisão saibam quão perigoso é lidar com Soja Valentinovna. . .

Duas horas após voltou Sibirzev, desapontado, mal-humorado e rabugento. Não apenas porque não conseguira achar rastro do alemão. . . mas também porque se deparara com uma jovem camponesa, que trabalhava em seu jardim, e quando, com a precisão que o caracterizava, ele a pegou por baixo da saia, ela não estremecera de gozo e revirara os olhos, mas lhe dera um for­te pontapé na tíbia e lhe empurrara, contra o peito, o seu ancinho. Isto nunca acontecera com Sibirzev, já que até então o seu gesto sorrateiro, no sentido literal da palavra, nunca errara o alvo. Portanto: só azar! Voltou ao sistema de trincheira da frente e relatou:

— Interrompi a busca. Nenhum evento. O inimigo deve ter deixado a nossa região.

Bajda murmurou algo incompreensível, despachou Sibirzev e anotou no livro da companhia:

— A última patrulha retornou, sem ter obtido qualquer êxito.

— Também de volta? — perguntou Sibirzev, ao encontrar Stella no abrigo de comida. — Infelizmente não me foi possível fazer o que você queria e empurrá-lo em sua direção como um veado. Ele desapareceu. . . Um fantasma. . .

— Acabaremos por reencontrá-lo em algum sítio — retrucou Stella e o fitou com indiferença. — Ele tem sua missão, nós temos a nossa. . . isto fará com que, mais cedo ou mais tarde, nos encontremos novamente.

Afaste-se, Piotr, pensava, enquanto proferia estas palavras. Talvez você possa pedir transferência ou bancar o doente ou levantar a mão esquerda e atirar nela, aí você foi ferido, é transportado para a Alemanha e por enquanto a guerra continua sem você. Passar-se-ão meses. . . e quem sabe o que pode acontecer neste ínterim? Pode ser que tenhamos ganho a guerra e expulsado os alemães. E você sobreviveu, que bom, não?! E quero que você viva por muito tempo, por muito tempo ainda. . .



Piotr, não seja mais herói. Para quê? Vocês já perderam a guerra há muito tempo, só que ainda não o perceberam. Queira Deus que você não precise, como outros, centenas de milhares, morrer ainda em prol de uma mentira. . .

Ela recebeu as provisões para a noite, passou por Sibirzev de cabeça erguida e sentou-se em um recanto do abrigo, no quente crespúsculo de verão, para comer. A ela se acercaram Lida Djanovna, Marianka Stepanovna e a pe­sada Naila Tahirovna, de quadris bem largos. Mais tarde veio ainda a peque­na Antonina, o frágil pássaro de Ulan-Ude, e as moças mastigavam o pão co­berto de marmelada e bebiam limonada doce. A limonada russa é um prazer! Em tempos de paz os vendedores de limonada passavam pelas ruas da cidade com seus recipientes ou competiam nas grandes praças com os vendedores de sorvetes e os confeiteiros que fabricavam biscoitos.

— Há pouco ouvi uma fofoca lá adiante — disse Lida Djanovna e olhou ao seu redor, como se estivesse revelando um grande segredo. — Ugarov e So­ja Valentinovna estavam falando a respeito. A calma passou! A nossa artilha­ria está a postos, a Força Aérea também. Estamos diante de coisa grossa. Uga­rov o soube pelo regimento. Prestem atenção. . . o alarme virá.

O que você vai dizer ao seu pessoal, quando retornar, Piotr?, pensava Stella e mordia um pão úmido. Onde ficou seu fuzil? Você conseguirá dar uma explicação convincente? E a sua boina de tricô? Você encomendará uma nova?

Respirou fundo, sentindo a lã entre seus seios e apertando os lábios. Era como se sua mãe a acariciasse.

Suma, Piotr, pensou. Suma. . . desapareça. . . salve-se. . . Os nossos exér­citos atacarão, Piotr, desista de ser herói. . .

Quando Peter Hesslich finalmente acordou do seu estado de inconsciência, já era tarde demais para voltar. No horizonte já surgiam as primeiras faixas claras, a noite havia-se tingido de cinza pálido, em menos de meia hora reinaria a claridade. As noites de verão eram curtas e o sol cedo se levantava.

Voltar agora para o Donez seria perigoso. Apesar da noite ter sido quen­te, agora que ela findava Peter sentia frio. Levantou-se com um salto, fez alguns movimentos de relaxamento e vestiu as roupas. Depois dirigiu-se àquela árvore grossa, em que ambos tinham destroçado as armas, observou os restos das mesmas e jogou algumas peças isoladas para dentro da floresta. Lembrou-se então de que retirara sua boina de tricô e a colocara na grama, ao cuidar dos ferimentos de Stella.

Mas por mais que revirasse cuidadosamente toda a redondeza não achou o que buscava. Aí percebeu que Stella certamente a levara consigo.

Hesslich sentou-se na orla da floresta, observando o nascer do sol de um branco aleitado que só se avermelhou quando ultrapassou completamente a linha do horizonte. No entanto, faltou um verdadeiro rubro da madrugada. A névoa se levantava da estepe, a partir do Donez surgia a neblina matutina, porque o sol começou imediatamente a sugar o orvalho noturno e a água do riacho. O céu se afogava em um infinito azul-branco.

Vivo, pensou Hesslich. A rigor, já não contava mais com isto, pelo menos não mais a partir do instante em que ela começou a me esganar e a aper­tar com os dois polegares meu pomo-de-adão, tornando impossível qualquer gesto de defesa. Quando compreendi o que ela queria fazer, já era tarde demais. Pois bem, continuo vivendo. Mas, deixando de lado o fato de que gosto de viver, você cometeu um erro, Stella Antonovna. Pensando friamente, eu não deveria continuar vivo! O que podemos ganhar com esta sobrevivência? Os problemas permaneceram. Continuaremos, exatamente como o estive­mos fazendo até agora, a nos defrontar e ter a missão de um matar o outro. Será que ainda poderemos fazê-lo? Para ser sincero, Stella, eu não o consigo mais! Nesta noite aconteceu algo horripilante: eu não estou mais sozinho! Você está comigo, dentro de mim. . . Isto soa bombástico, sentimentalóide, romântico, pode-se chamar isto do que quer que seja, mas o fato permanece: a cada inspiração e expiração, você respira comigo. . .

Levantou-se, voltou ao lugar onde ela estivera deitada, olhou para o chão e viu os rastros deixados pelos saltos de suas próprias botas. Viu punhados de grama soltos, que Stella arrancara, no auge de sua paixão, e também achou um pedacinho de esparadrapo, que ela perdera no abraço selvagem.

No pequenino pedaço de gaze amarela ainda estava colado o sangue dela. Fitou longamente a mancha de sangue, depois ergueu o esparadrapo, comprimindo-o contra os lábios, beijou-o e o pôs em sua sacola de couro, junto ao retrato de seus pais. Era uma fotografia que já estava se tomando marrom, amarrotada, que mostrava o professor de geografia e francês, Friedrich Wilhelm Hesslich e sua mulher Wilhelmine na praia cheia de cascalhos de Nice, e no fundo as maravilhosas construções dos hotéis no Bulevard d’Anglais. Nessa época, isto fora algo de muito especial: um professor efetivo, que ti­nha condições financeiras para passar duas semanas em Nice, duas semanas no país do seu arquiinimigo: a França. E, pasmem, ele sorria feliz para o fotógra­fo, ao invés de apresentar um olhar alemão de raiva e ódio.

Hesslich viu-se obrigado a permanecer o dia todo em seu esconderijo na floresta. A atividade ao seu redor, e em especial, o ar, tornavam-no ao mesmo tempo pensativo e inquieto. Jamais vira tantos aviões soviéticos nesta parte da frente como hoje. Em geral, permaneciam sobre o próprio domínio e a uma grande elevação, mas mesmo deste ponto era possível ter uma boa visão das posições alemãs. Por volta do meio-dia uma esquadrilha de caça alemã so­brevoou o Donez e atacou os aviões soviéticos, a Flak disparou durante meia hora, mas não houve perda de nenhum dos dois lados. Os observadores sovié­ticos desistiram e os caças alemães voltaram ao seu refúgio.

Estes últimos devem estar felizes da vida, pensou Hesslich, ao fitar os aviões em retirada. A Força Aérea do “Gordo”, como chamavam Goering, estava entrando em colapso, por toda parte. Falta de combustível, perdas imensas e insuficiência de reposição, esquadrilhas aéreas inimigas, que, embo­ra menos capazes tecnicamente, eram muito mais fortes em termos de quantidade. . . aí sempre se ficava feliz, quando por ocasião de um ataque as perdas eram limitadas.

Do outro lado da floresta marchavam grossas colunas de tanques. O ven­to trazia os ruídos para o ouvido de Peter Hesslich. . . Barulho dos motores, chocalhar das correntes, incessantemente, até a tarde. Três vezes se viu obri­gado a esconder-se de verdade no seu refúgio, quando primeiro passaram duas baterias de artilharia leve, depois uma coluna com veículos encouraçados de transporte de soldados e finalmente ainda três divisões de Flak, puxadas por cavalos, todos passando pela orla da floresta. A poeira levantada permaneceu por muito tempo no ar quente, foi levada pelo vento para a floresta, salpicou as folhas e dificultava a respiração.

Onde está você agora, Stella?, pensou Hesslich. O que está pensando neste momento? Você está novamente deitada na margem do Donez, aguardando os soldados alemães? Eu não posso pensar nisso, Stella, senão enlouqueço. Nós nos amamos. . . e alguns dias depois você está à espreita, para ma­tar. . .

A nossa situação é sem esperança, você sabe disso, Stella? Não poderemos ludibriar o destino. . . simplesmente não dá.

Ora, vejam, quão grande é a terra e no entanto não existe nela um úni­co lugar para nós dois! Como se pode compreender uma coisa destas! A superfície terrestre é de 510 milhões de quilômetros quadrados, dos quais 149 mi­lhões de terra firme. Para nós dois, não obstante, não há um único metro quadrado livre. Não podemos nos amar, não podemos viver, porque Hitler e Stalin não o querem. Por que é que a humanidade não solta um grito de revolta com toda esta loucura?!

Stella Antonovna, meu novo coração, não valemos nem o que vale a poeira, que agora desce sobre mim, porque a poeira tem um lugar onde pode permanecer, e nós não temos nenhum. . .

Com a chegada da escuridão começou o caminho de retorno. Utilizou o terreno ondulado, passou sorrateiramente por posições de artilharia leve e baterias de lançadores, oficinas e unidades de reserva, depósitos de material, posições de comando, tropas de radiofonia e tanques camuflados. A óbvia concentração de tropas o espantou. Há poucos dias, quando ali chegara, a situação não parecia tão ameaçadora. No meio da noite atingiu o ponto mais crítico: a estepe plana diante da margem do Donez, com os casebres de camponeses destruídos, celeiros e choupanas incendiados. Aqui a terra estava cheia de buracos de granadas, rasgada por trincheiras, e as sentinelas nas posições dianteiras eram mais numerosas do que no dia de sua chegada. Além do mais, a quarta e a quinta posições de amortecimento, as trincheiras de retaguarda da linha principal de combate estavam mais bem construídas do que todos os outros sistemas de trincheiras que Hesslich já vira. As notícias trazidas por desertores e prisioneiros, que o pessoal do lado alemão sempre recebia com um certo ceticismo, pareciam realmente corresponder à realidade: As trincheiras soviéticas eram dispostas, em profundidade, em sete camadas! Mesmo que fosse possível, portanto, vencer as primeiras três ou quatro posições — no máximo na sexta a gente se esboroava! E só depois é que vinha o verdadeiro potencial dos soviéticos, as brigadas de artilharia e o corpo dos blindados, as unidades de reserva, prontas, da infantaria. A tudo isso se somava a imensa amplidão do país, no qual os homens eram absorvidos como go­tas de água por uma esponja. Ali estava a estepe entre o Donez, o Don e o Volga, que novamente estaria diante dos alemães, como por ocasião do assalto a Stalingrado, e do outro lado do Volga mais estepe, infinita, inconcebível, deslizando para as regiões asiáticas, desembocando no sul da Sibéria, na terra dos mongóis e dos asiáticos, na imensa bacia do Casaquistão. Quem deseja­ria conquistar tudo isso, quem desejaria ocupar tudo isso? Quem queria ter a audácia de esticar as mãos para se apoderar do inalcançável?

Mas o que mais o assustava era a investida incrível de canhões de tanques de defesa atrás das linhas soviéticas. Poder-se-ia até falar de um cadea­do de Paks. Também essas posições estavam dispostas em camadas. Tão logo os tanques alemães iniciassem o assalto, estariam acossados, por todos os lados, por um fogo destruidor.

Hesslich levou três horas para conseguir se esgueirar entre as linhas dianteiras dos soviéticos. Protegido pelas casas incendiadas e depois engatinhando, alcançou o Donez, deixou-se deslizar dentro d’água e nadou com for­tes braçadas para a margem alemã.

Permaneceu ainda alguns minutos na água, antes de sair para a margem e transpor a rala vegetação. Queria se sacudir como um cão molhado e retirar a água dos cabelos, quando alguém gritou, na escuridão:

Stoj! Mãos ao alto, Ivan!

— Não atire, seu filho da puta! — respondeu. — Onde estou?

— No bordel da Lola preta! — a voz mantinha-se dura. — Parar! Levantar as mãos sobre a cabeça! Assim está bem. Nome? De onde vem?

— Primeíro-Sargento Hesslich. Comando especial I. De onde venho? Mas dá para perceber, não? Estou morrendo de tanto suar, pela forma com que as mulheres me esgotaram. . . — Deu três passos para a frente e parou nova­mente. — Olhe, camaradas, não precisam mijar nas calças de medo, eu estava em missão especial.

— Na água? Torpedo-homem solitário no Donez, hein?

— Quero falar com o comandante de vocês, imediatamente! Eu estava atrás das linhas soviéticas! Merda, seus cagões, é urgente. . .

Meia hora depois estava sentado no abrigo de comando do regimento e falava ao telefone com a divisão. Depois de ter feito um curto relato, foram tirar o general da cama, tão importantes foram consideradas as informações que Hesslich trazia.

O general recordou-se imediatamente. Um homem como Hesslich ninguém esquece tão depressa.

— Fico satisfeito! — disse em tom quase familiar. — O senhor o conse­guiu e voltou incólume! Na realidade, ninguém acreditava mais nisso. . .

— Nem eu mesmo, general. — Hesslich fechou os olhos e logo viu dian­te de si o imenso aparato bélico dos soviéticos. — Tenho de notificá-lo de que os soviéticos reuniram grandes conjuntos de Pak na nossa região. Um sistema de trincheiras, disposto em sete camadas, está totalmente ocupado.

— Isso nós sabemos e também o comando supremo do Exército. E o Quartel-General do Fuehrer também.

— Posso dirigir uma pergunta ao senhor, general?

— Diga, Hesslich. . .

— Como é que iremos romper isto?!

— Com coragem e moral de combate. . .

— Contra blindados, Pak e Flak?

— Cabe ao senhor preocupar-se com isto, Hesslich?!

— Não, Sr. General.

— Então primeiro conte, em ordem, o que viu. E amanhã o senhor se apresente à divisão e me procure. Eu quero ter o seu relatório por escrito.

Hesslich apresentou um relatório abrangente, omitindo apenas o encontro com Stella Antonovna. Não o considerava mais um ato bélico, e na realidade também não representava algo de que o combatente solitário Peter Hesslich pudesse se orgulhar.

Na divisão ligaram um segundo aparelho de escuta. Um estenógrafo anotava tudo. Quando Hesslich terminou, o general o interpelou de novo.

— O senhor observou bem, Hesslich. Amanhã iremos estudar isto mais detidamente. Nosso serviço de observação aérea também constatou algo de semelhante. Obrigado.

Desligou o telefone; com a mão ainda pousada no aparelho, olhou para o seu auxiliar. O Coronel von Foubelais fitou o comandante rigidamente.

— Na nossa divisão estão a postos 1.081 blindados — disse von Foube­lais com a voz embargada pela emoção. — Estão distribuídos pelo Quar­to Exército Blindado do Coronel-GeneTal Hoth e o Grupo Kempf. Entre eles temos 200 Pantera e 90 Tigre novos e pesados. Além disso seis blindados de caça Ferdinando estão distribuídos na região Bjelgorod-Tomarovka e Bjelgorod-Voltschansk. Esta “artilharia rolante”, pesando quase 70 toneladas, é quase indestrutível, mas pesada demais para o combate a curta distância. Além disto, também preparados para iniciar o ataque, temos cerca de 100 blindados menores, com controle remoto, os Goliath e os pesados blindados de caça calibre 12,8cm. Segundo o plano de ataque os blindados deveriam, após preparação maciça por parte da artilharia e com o apoio da Flotilha Aé­rea nº 4 assaltar e romper o sistema de trincheiras soviético. A eles se associa­rem a infantaria e os conjuntos leves de Flak e de artilharia. Sob o sino de fogo os pioneiros constroem as pontes sobre o Donez — von Foubelais deteve-se e respirou fundo. — No entanto, tudo indica que os soviéticos estão pre­parando uma defesa de borracha. Vão deixar-nos penetrar um pouco e depois rebater. Deixar-nos-ão abrir cunhas em suas linhas, para depois eliminá-las por todos os lados. Desejam seduzir-nos com êxitos aparentes.

— O senhor que tente convencer o Fuehrer disto — disse o general, em tom de amargura. — Na última reunião de comando, Manstein nos contou o que Hitler, por ocasião de sua recente visita, dissera a ele e a von Kluge. Como ele vê os russos, como estima os russos, o que pensa da moral deles. Audaz, eu lhe digo, Foubelais. Audaz mas fascinante! É isto que torna Hitler tão soberano. Tudo pode acontecer como ele o prevê, está no domínio do alcançável e compreensível. Mas também pode não passar de loucura completa! — O general tirou o telefone do gancho. A posição de radiofonia da divisão se apresentou. — Um recado rápido como um raio para o Grupo do Exército! — ordenou ele. — O generalíssimo marechal-de-campo em pessoa. Diga que ne­cessito falar urgentemente com o Sr. von Manstein. . .

Aguardou durante três minutos, depois o telefone tilintou. O general desligou após pronunciar algumas poucas palavras.

— Manstein viajou para Bucareste. Irá entregar solenemente o escudo do Kremlin! Tudo isto pretende ser uma cortina de fumaça. Querem que os soviéticos pensem que no momento não cogitamos de nenhuma ofensiva. O próprio chefe do Estado-Maior estava no telefone. Aliás, Manstein volta ainda hoje, secretamente. O dia X será, como planejado, depois de amanha. . . Não podemos mudar mais nada. A última ordem do Fuehrer. — O general se levantou e endireitou o casaco do uniforme. — Então, vá com Deus, Foubelais! Nós seremos os primeiros a sermos atingidos. Somos a ponta da lança. . . A todas as partes da tropa: Prontidão total!

Depois de amanha — tratava-se do dia 5 de julho de 1943.

A Operação Cidadela, a batalha de blindados de Cursk, a maior batalha de blindados de todos os tempos, começara a rolar.

O relógio da morte fazia tique-taque.

3,2 milhões de soldados soviéticos esperavam, ansiosamente, a fim de oferecer aos alemães uma derrota fragorosa.

Peter Hesslich voltou para a Quarta Companhia em plena madrugada. Uma pe­sada motocicleta com um cabo ao volante o trouxe para a frente.

O Tenente Bauer III abraçou Hesslich, bateu-lhe nas costas, e o sargento-mor Pflaume deu ordens para que se trouxesse, imediatamente, um pedaço de carne assada com macarrão, da cozinha da companhia. E aguardente!

— Você é um mágico! — exclamou Bauer III, entusiasticamente. — Nin­guém daria nem um tostão pela sua vida! Homem, como foi que conseguiu isto? Você realmente esteve atrás das linhas?

— O suficiente. A situação está preta para nós. . .

— Ordens mais recentes: a ofensiva começa amanhã de manhã. . .

— Eu ouvi isto. Franz, eles nos rebentarão o cu até o pinto! Deixar-nos-ão penetrar um pedacinho e depois cairão sobre nós por todos os lados. É in­crível o que conseguiram juntar! Montanhas de material. . .

— Daremos um jeito nisso tudo. . .

Hesslich olhou espantado para o Tenente Bauer III.

— Você não pode estar acreditando numa coisa dessas!

— Ora, Peter, sim. — Bauer III torceu a boca, em um riso sardônico. —Com a moral nas calças não se pode atacar. E teremos de atacar. . . seja como for.

Quaisquer comentários adicionais eram desnecessários. Afinal de contas, não tinham escolha.

A perda da arma preocupou Hesslich menos do que o que fizera com Stella Antonovna. Solicitou uma nova por escrito e explicou a perda da antiga com um relato breve:

“Ao atravessar o Donez durante a noite, em pleno campo de observação do inimigo fui arrastado por uma forte corrente submarina. Não foi possível segurar a arma, já que necessitava das duas mãos, para conseguir me livrar da correnteza. A arma caiu no fundo do rio.”

— Eta, rapaz, você teve uma sorte! — exclamou o sargento-mor Pflaume, ao entregar o relatório ao pessoal do escritório para que o encaminhassem às autoridades competentes. — Você também viu as mulheres de lá?

— Vi, sim. Em número suficiente. Mais que suficiente. . .

— Piranhas incríveis, não?

— Terrivelmente perigosas, Richard. Fanáticas até a autodestruição.



— Uma coisas dessas na cama. . . deve ser uma aventura. — Pflaume esta­lou os beiços. — Aí a gente deveria poder guerrear com uma arma de ataque que cresceu no próprio corpo. . . Carabina pronta para um fogo incessante. . .

— Você as vivenciará amanhã de manhã, gorducho! — disse Hesslich, en­rolando um cigarro com a porção de fumo de Pflaume, que parecia não se es­gotar; soprou-lhe a fumaça no rosto e fitou o teto do abrigo. — Você vai ficar estarrecido — continuou calmamente. — Todos vocês vão ficar estarrecidos. Nós depositamos todas as esperanças nos nossos novos Tigres, mas os do lado de lá estão preparados.

No dia 4 de julho centenas de bombardeiros soviéticos, acompanhados de caças Rata e aviões de combate bem armados, passaram trovejando pelas li­nhas alemãs. Ao mesmo tempo a artilharia pesada abriu um fogo maciço con­tra as posições alemãs da retaguarda. Antes que pudessem reagir, antes que os caças da Quarta Esquadrilha Aérea — composta de ridículos três grupos de Stuka, duas flotilhas de combate e quatro grupos de batalha — pudessem le­vantar vôo, já as bombas caíam, feito granizo, nos espaços destinados às uni­dades de entrada de ação alemãs. As divisões, em estado de prontidão, agacharam-se sob a cortina de granadas das pesadas armas soviéticas, todo o arcabou­ço da ofensiva alemã foi desbaratado.

A central de espionagem “Luzy”, na Suíça, fizera um trabalho ímpar. A Central de Comando no Kremlim, os Marechais Rokossovskij e Vatutin e o General Conjev, com suas frentes, não se deixaram iludir pela viagem de Manstein a Bucareste. Todos sabiam: a ofensiva alemã começaria no dia 5 de julho. Falava-se de cerca 1.500 tanques blindados e armas de ataque que deveriam apertar a curva de Cursk. Tigres, Panteras e Ferdinandos. . . estes nomes até os russos respeitavam, mas não tinham medo deles. Estavam à sua espera. . .

Quando o raio e os trovões da Força Aérea soviética e sua artilharia caiu sobre o adversário no dia 4 de julho, o Marechal Vatutin, comandante da frente do Voronesch, a quem se dirigiria primordialmente o ataque alemão, estava sentado tomando chá e lendo as últimas notícias de suas divisões.

— Eles virão apesar de tudo — comentou ele. — O que devemos admirar mais: a sua coragem ou a sua idiotice?

No seu pelotão, em uma pequena floresta bem atrás dos exércitos reunidos para o ataque, o Marechal-de-Campo von Manstein recebia as notícias enviadas, uma atrás da outra, pelo carro de radiofonia. O primeiro auxiliar do Grupo do Exército Sul e o segundo estavam debruçados sobre um grande mapa.

—Aqui algo deu errado — disse o segundo auxiliar, de um modo que Manstein não o ouvisse, para o primeiro. — Os soviéticos já sabem a respeito do nosso 5 de julho. . .

— Isto o senhor pensa! — O primeiro auxiliar indicou um ponto do mapa. Neste momento exato viera a notícia: tiros certeiros no espaço de preparação do Terceiro Corpo Blindado. 29 máquinas soviéticas derrubadas. Os ataques continuam. . . Na região do Segundo Corpo de Blindados SS grande atividade de artilharia. . . A Divisão de Infantaria n? 320 sob ataque cerrado. . .

— Por que motivo então este ataque preventivo?

— Pode ser pura coincidência. . .

— Com os russos não acredito mais em coincidências. Aqui algo está fe­dendo. . . na traseira. . . no subterrâneo. . . — disse o segundo auxiliar.

— Mas isto já não interessa mais! — O primeiro auxiliar voltou a exami­nar o mapa. — Amanhã de manhã cedo o mundo terá uma aparência comple­tamente diferente. . .

Também no Donez, na região da Quarta Companhia, granadas e bombas caíam como granizo. Nas trincheiras da Divisão Bajda, como em todos os lugares desta frente, os soldados vermelhos estavam a postos e observavam, através do rio, o inferno de fogo e esguichos de terra, nuvens de fumaça e explosões. O segredo fora finalmente revelado em uma ordem do dia do Gene­ral Conjev: Amanhã, dia 5 de julho, dizia, os fascistas irão atacar com as últimas reservas que ainda possuem. Com tanques blindados e armas de combate, com divisões de infantaria novamente completas. Camaradas, aniquilem os fascistas, onde os encontrem! Esta batalha irá decidir o destino de nosso povo.

— Nós estamos lhes apresentando uma isca! — exclamou Soja Valentinovna satisfeita, observando com o binóculo, os golpes sobre o lado alemão. — Deveria ser uma advertência para eles mas são demasiado cegos! Ha, amanhã correrão direto para a derrota!

Stella Antonovna, o Tenente Ugarov e o sargento Sibirzev apoiavam-se na parede da trincheira, ao seu lado. As posições estavam repletas de munição, granadas de mão, granadas de armas, granadas de blindados e lançadores de minas. Pilhas de dinamite estavam preparadas. Em buracos de terra há muito construídos jaziam armas de defesa contra tanques, também prontas para ati­rar. Os próprios tanques aguardavam, camuflados, a contra-ofensiva.

Onde está você agora, Piotr, pensava Stella Antonovna, olhando para o outro lado, para a parede de fogo, fumaça e terra revolta. No outro lado? Como todos estão jubilantes à minha volta... Eu queria chorar. . .

No abrigo da companhia, Bauer III, Hesslich e quatro radiotelegrafistas se apoiavam contra a parede de terra. O chão oscilava com os impactos, estilhaços atingiam as traves do teto, cobertas de terra. Todos contavam com um impacto certeiro e no entanto esperavam, ansiosamente, que não viesse. Esperavam e esperavam, condenados a não fazer nada. Nunca um homem sente tanto a sua impotência como sob o fogo cerrado das armas bélicas.

— Amanha às 3:30 será a nossa vez! — disse Bauer III e encolheu a cabe­ça, ao ouvir um golpe próximo. — Os pioneiros construirão duas pontes. E de­pois, avançar!

Peter Hesslich manteve-se calado. Pensava em Stella Antonovna e maldizia a época em que viviam.





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