Konsalik b de atalhão Mulheres



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Depois de uma hora Stella Antonovna alcançou a floresta. Quando já era possível reconhecer nitidamente as árvores, deitou-se na grama da estepe e percorreu a última parte engatinhando. Pouco antes de chegar diretamente à floresta, ouviu tiros a sua esquerda.

Oh não, pensou, e o pensamento quase lhe doía. Não! Não o deixe estar lá! Vocês não sabem como rezei secretamente, sim, rezei, para o Deus estranho, que minha mãe pendurou no lindo canto, onde estava um ícone e diante dele a luz eterna, o Deus que ela ainda adorava e ao qual pedia misericórdia. Sim, eu perguntei a ele se realmente existia. E Deus, se você existe, então mo prove, deixando esse homem por minha conta! Deus, eu disse, Deus, escute: se você conseguir isto, se me deixar ver esse diabo, ficar na frente dele e puder aniquilá-lo, então acredito em você, como Mamitscka acreditou em você e o tio Ivan e a tia Sofia e todos os outros, que eu uma vez surpreendi em uma ce­rimônia religiosa secreta no estábulo, onde se ajoelhavam e rezavam entre as ovelhas. Eles acreditavam que eu estava em um encontro do Komsomol, mas a conferência gorou, o conferencista, o camarada que deveria falar, Fiodor Semionovitsch Cubelkov, este era seu nome, estava, segundo diziam, com um ataque de diarréia e assim eu voltei para casa mais cedo. Naquela ocasião ri desses tolos, que ali estavam a rezar e cantar. . . agora lhe prometo, Deus, se você existe, que eu também me ajoelharei entre as ovelhas e rezarei. Tudo o que você tem a fazer é mandar esse diabo para as minhas mãos...

Permaneceu deitada na beira da floresta, à escuta de novos ruídos, mas, além do vento nas árvores e o gemido dos ramos, nada havia em seu redor que perturbasse o silêncio da noite.

Arrastou-se para baixo de um arbusto de jovens bétulas, onde a grama ainda era alta; conseguiu sumir inteiramente dentro dela e se sentiu imensamente segura.

Agora só me resta aguardar, pensou. Aguardar e não contar as horas. Se Sibirzev ou as outras não o pegarem, mais cedo ou mais tarde ele irá passar sorrateiramente por aqui. Virá para mim!

O coração disparava e o sangue fervia em sua cabeça. Ao assustar-se com um barulho estranho, estremeceu.

Assustou-se com o próprio ranger dos dentes.

O rastro de sangue, que Hesslich deixara atrás de si, punha-o em grande perigo. Mas ele deixara tal rastro completamente consciente, na esperança de que a terrível loura o farejasse e o seguisse — até que finalmente aparecesse exata­mente no reticulado de seu telescópio de mira.

O apanhador de morangos fora a última vítima. Hesslich desdenhara todos os outros alvos que se lhe apresentaram ainda durante o dia. No entanto, tinham sido alvos fáceis, bons, soldados que passeavam tranqüilamente pela floresta, se agachavam na beira dos arbustos, se deitavam na grama e fumavam cigarros de Machorka por eles mesmo enrolados ou um cachimbo. Por que não deveriam fazê-lo? Aqui já não havia nenhuma frente imediata. Natural­mente, a artilharia alemã poderia estralhaçar a terra, mas não o fazia para pou­par municão. Visto sob esse ângulo, aqui se tratava de retaguarda, terra de re­cuo tranqüila, quase que como um pedacinho de paz, que se deveria aprovei­tar, antes que sobreviesse o quente verão da ofensiva.

Hesslich, bem escondido sob um grupo de arbustos enredados, olhava para tudo com muita calma. Um dos soldados estava quase ao alcance de suas mãos, sentado em um pedaço de raiz de árvore, esculpindo, em um grande pe­daço de madeira, um casebre russo. Hesslich percebia claramente que nessa es­cultura se espelhava uma imensa saudade de um pedaço de terra familiar.



Então aí está você, pensou Hesslich, com suas recordações de casa, e os seus dedos guiam o pequeno canivete e transmitem todo o seu amor a esse pe­dacinho de madeira, no qual se desenvolve sua casa, entortada pelo vento, co­berta de palha. Seus pensamentos estão muito longe, e atrás de você a morte . . . Posso matar você, apenas porque usa um uniforme diferente do meu! Isto não é piração?! Você é um ser humano e eu sou um ser humano. . . e nós deveríamos ser irmãos, em todo lugar e em toda ocasião! Deveríamos, ombro a ombro, tentar transformar nossas vidas em algo mais lindo! Mas o que fazemos, na realidade? Se eu gritar, você se virará e só o mais rápido dentre nós sobreviverá! Ou então, levanto bem devagar, silenciosamente, minha arma, mi­ro sua nuca e puxo o gatilho. E ninguém irá dizer: isto foi homicídio! Ninguém berrará na minha cara: seu assassino! Oh não, congratular-me-ão, condecorar-me-ão e me darão os parabéns, assim como o farão com você, irmão so­viético, caso você tenha mais sorte que eu. E tudo isso apenas por que existem idéias políticas distintas, objetivos nacionais, sonhos de conquista de algumas pessoas isoladas, anseio pelo poderio econômico e desejo pessoal de poder.

Quando a idéia da humanidade irá se impor? Quando é que o homem compreenderá que só poderá sobreviver se tratar o seu próximo como irmão?

Duas horas depois o jovem escultor voltou para sua tropa. Hesslich levantou-se, fez algumas rápidas flexões de joelhos, movimentou braços e pernas nas articulações e depois novamente se esgueirou cuidadosamente pela flo­resta, passando rápido de árvore em árvore.

No entanto, ruídos sibilantes estranhos cedo o levaram a voltar para a beira da floresta. Atrás de uma bétula grossa, protegido pela profunda sombra da noite, observava, divertido, como um suboficial soviético se ocupava, incansavelmente, de uma gorducha mulher campesina. Ela levantara a saia, ele abaixara a calça do uniforme e juntos, um agarrado ao outro, batiam no chão coberto de grama, até que ela, a gorducha, gemeu, relaxada:

Prekrasnij. . . prekrasnij. . . — o que significava: que bom. . . que lindo. . .

Peter Hesslich esgueirou-se novamente e voltou para o seu bom esconde­rijo. Deitou-se de costas, apertou a arma contra o lado e fitou as folhagens dos arbustos e das árvores. A noite caíra, o vento farfalhava nas ramagens, e ele começou a prestar atenção a cada ruído e a interpretá-lo.

Uma floresta silenciosa, pensou. A guerra afugentou os animais. Só exis­tem ainda alguns corvos. Surgiu-lhe a recordação da sua reserva florestal, os veados, que saíam na neblina da madrugada e passavam pelos campos selva­gens, as ventoinhas de pernas curtas, que remexiam o campo; os hussardos, que traçavam, silenciosamente e com largas asas, seus círculos de caça; a rapo­sa, que percorria a grama molhada pelo orvalho, e a doninha sentada em uma pedra, a se limpar.

Que mundo maravilhoso! Lá o jovem guarda-florestal devaneava, longe da realidade. Se, naquela época, alguém lhe dissesse: um dia você irá matar, impiedosamente, homem após homem, mulher após mulher, como combaten­te solitário e fuzileiro, só porque lhe dizem que deve fazê-lo para salvar a Ale­manha. . . então você teria, não apenas rido em resposta mas também teria ba­tido em sua própria testa e dito: mas a sua cabeça está cheia de merda! E ago­ra estava deitado aqui no Donez, bem no meio da terra russa, que nunca qui­sera conhecer, e se o desejasse, não seria desta maneira; estava de arma na mão em uma floresta tranqüila, que parecia morta, e esperava pelo segundo em que poderia atirar na cabeça loura de uma moça, sem que suas mãos tremessem, sem que o coração se estreitasse, sem remorso. A visão do falecido Uwe Dallmann, que estava à sua frente, com o riso jovem paralisado nos lábios, os olhos arregalados de espanto, o pequeno buraco circular bem na raiz do nariz — esta visão não saía da sua memória. Persegui-lo-ia incessantemente e iria re­calcar a eterna pergunta: por quê?

Hesslich caiu em um sono leve, intranqüilo. Qualquer ruído nas árvores o acordava, qualquer rumorejar mais forte do vento o assustava. Seus nervos reagiam a cada ruído, por menor que fosse, como o mais fino dos receptores de som eletrônico. Seu corpo dormia, protegido por antenas supersensíveis.

A uma distância inferior a 300 metros de Hesslich, Stella Antonovna al­cançara, nesta noite, a beira da floresta e se sentara encostada em uma árvore. A arma estava em seu colo, pronta para disparar. Cruzara as mãos em cima dela.

Aguardemos agora, pensava. Aguardar! Ele virá! Está aqui. . . em algum lugar, bem perto. . .

Ficaram dois dias à espreita, sem se ver. Afinal de contas, é difícil imaginar quão grande pode ser uma floresta relativamente pequena! Aliás, as visitas dos soldados soviéticos tinham cessado, já que toda a região fora declarada zona interdita, enquanto o alemão misterioso, com a boina de tricô, por lá se esgueirasse.

Mas a terra parecia ter engolido o alemão. Ou voltara, pelo mesmo cami­nho pelo qual viera, para as suas linhas, e isto era sentido como humilhação. Para poder fazê-lo, teria de ter cruzado novamente as linhas de combate sovié­ticas e nadado através do Donez! E nenhuma patrulha o teria observado? Capitoa Bajda, o que está acontecendo com sua unidade de elite?

— Ele ainda está aqui! — exclamou Soja Valentinovna, desesperada, para Ugarov, para o batalhão e para o regimento, de onde vinham questionamentos diários pelo telefone. — Eu não posso explicar como o sei! Quando eu lhe di­go que Stella Antonovna ainda não voltou e que só isto me dá esta certeza, o senhor vai me considerar pirada, não, camarada?!

Isto eles não confirmaram, mas como também não a contestavam, Soja Valentinovna sabia que suas afirmações tinham sido recebidas com imenso es­panto pelas autoridades superiores.

A tudo isso devia ser acrescentado que Sibirzev se enganara, e isto era o pior de tudo! Em um povoado deserto viu repentinamente uma forma a se esgueirar. Atirou logo.

O tiro de mestre atingiu a inocente campesina Natalija Fillipovna Schmelchova. Ela voltava secretamente para sua ex-residência, a fim de desencavar um saco de milho miúdo que escondera sob umas das tábuas do assoalho, e trazê-lo de volta.

A história toda era terrivelmente desagradável mas, considerando que o povoado era zona interdita e ninguém tinha nada que fazer lá, especialmente de modo sorrateiro e com imenso cuidado para não ser visto, Sibirzev podia declarar, com toda razão, que era seu dever atirar logo em qualquer vulto que despertasse sua desconfiança.

No fundo do seu coração, no entanto, Sibirzev sentia-se profundamente atingido. Especialmente quando o Tenente Ugarov lhe mandou dizer, alto e em bom som, que no povoado também andavam cobaias e que por favor prestasse atenção na casa com as persianas azuis, pois lá havia um estábulo com dois porcos, a ração secreta especial da Divisão Bajda, ainda organizada pelo bom Miranski.

Sibirzev rangeu os dentes, xingou em voz alta o alemão da boina, que fazia de tolos a todos eles, e desapareceu novamente no terreno.

Do outro lado do rio, na margem alemã, começara uma atividade suspeita. O sistema de trincheiras se encheu de tropas novas. Reforços vinham em longos trens de carga e colunas de caminhões, os tanques blindados se reuniam, e os observadores soviéticos, as “máquinas de costura”, agora eram alvo dos Flaks e desistiram de levantar vôo, depois que três deles rebentaram no ar. Mesmo sem eles se sabia o suficiente: a ofensiva alemã iria começar imediatamente. As posições soviéticas, profundamente escalonadas, foram mais uma vez con­troladas e reforçadas com recursos humanos de reserva, as brigadas de coura­çados continuavam escondidas, a artilharia se preparava para uma nova torren­te de fogo. Bem atrás na estepe, inalcançável para as armas alemãs, entre o Rio Oskol e a cidadezihha de Corotscha, mantinha-se preparada a maioria das divisões de ataque, que o General Conjev desejava poupar até quando pudesse. Já conheciam há muito tempo a tática dos alemães: o Nono Exército, a partir do norte e o Quarto Exército Blindado, em conjunto com a Divisão Kempf, a partir do sul, deveriam atacar Cursk em amplas cunhas e dessa forma limpar a curva de Cursk e dividir, encurralar e liquidar os exércitos soviéticos, situados mais para oeste.

Os chefes soviéticos olhavam, fora de si, esse plano louco dos alemães.

Se conseguissem romper as linhas soviéticas, poderiam dividir o Setuagésimo Exército, o Sexagésimo Quinto, o Sexagésimo, o Trigésimo Oitavo, o Quadragésimo e o Vigésimo Sétimo. Do outro lado da cunha estariam: o Segun­do Exército Blindado, o Décimo Terceiro, o Sexto Exército de Guarda, o Quinto Exército Blindado de Guarda, o Quadragésimo Terceiro, o Sexagésimo Nono, o Sétimo Exército de Guarda e todas as reservas da retaguarda.

Mesmo os que não tivessem facilidade de fazer cálculos de cabeça deve­riam começar a duvidar: três exércitos alemães teriam de lutar contra 14 exér­citos soviéticos e suas reservas. Quem dá ordens deste quilate deve ter perdido toda a capacidade de se mancar. No Kremlin no Estado-Maior Superior, onde todos estavam exatamente informados por meio da organização de espiona­gem suíça “Luzy”, reinava total perplexidade. Isto já não era mais coragem ou valentia, era pura loucura.

— Deixe-os vir! —exclamou o comandante da frente central, o Tenente-General Rokossovskij, que fora a Moscou prestar contas. — Ninguém jamais conseguiu passar 100 verstas por um rochedo!

O tempo em que temiam os ataques alemães já passara. Stalingrado atin­gira os alemães no coração. Estavam morrendo de hemorragia, sem o compreender. O Nono Exército, chefiado pelo Tenente-General Model, estava a pos­tos nas trincheiras — era ridículo: três corpos blindados com seis divisões de encouraçados, duas divisões de granadeiros e sete divisões de infantaria, para servir de cunhas! No sul o Quarto Exército Blindado, comandado pelo Tenen­te-General Hoth, aguardava o grande sinal — com dois corpos blindados, dos quais um era um corpo SS, e uma única divisão de infantaria como tropa de choque! Mais ao sul, na região de Charkov, estavam três divisões blindadas e três divisões de infantaria do Grupo Kempf, a postos, em seus buracos. Seu grande alvo: conseguir romper a frente do Donez, Voltschansk-Bjelgorod e atacar Corotscha.

Isto significa: penetrar diretamente no Sétimo Exército de Guarda e contra as reservas soviéticas, escondidas, a oeste de Oskol.

Portanto, o ataque alemão iria atingir, com pleno ímpeto, inicialmente, exatamente a Divisão Bajda. O General Kitajev, a quem cabia o comando-controle do batalhão de mulheres, não via nenhuma possibilidade de modificar a situação. Aqui cada um era soldado, mais nada. Cada um defendia a pátria, só isso contava e não o sexo! Todos aqueles que portavam um uniforme soviéti­co só tinham uma tarefa: deter o avanço dos fascistas! Liquidá-los! Expulsá-los da nossa Rússia. . .

Enquanto Stella Antonovna estava deitada na floresta à espera de que Deus satisfizesse seu desejo, uma vez mais as trincheiras dianteiras recebiam material novo e montanhas de munições. Metralhadoras, lançadores de minas e granadas foram reforçados, Paks e Flaks leves avançavam no terreno ondula­do da estepe, as brigadas blindadas se dispersavam, a artilharia média e pesada foi quase esmagada pelo peso das munições. Três milhões (mais exatamente três milhões e cem) de soldados soviéticos, de todas as tropas, estavam a pos­tos, dispostos a deter a ofensiva alemã de verão.

Os chefes dos exércitos alemães nada sabiam a esse respeito, ou, no má­ximo, sabiam pouquíssimo. Apenas um advertia constantemente, mas este Hitler via como querelante — Admiral Canaris. Suas informações secretas eram retiradas das mesas e consideradas papéis de idiota. Além disso, todos ainda se guiavam pela afirmação de Hitler, segundo o qual um alemão era capaz de der­rotar 10 russos.

A batalha de Cursk, a Operação Cidadela, podia começar.

A última grande aventura militar da guerra russa. O jogo sangrento do ou tudo ou nada.

Peter Hesslich andava, sorrateiramente, pela floresta e se perguntava se ainda havia algum sentido em esperar. O rastro que deixara não parecia ter sido visto como o desejara. Refletia, se deveria, uma vez mais, deixar atrás de si uma série de soldados e moças mortas a tiros, para marcar sua presença. Afastou este pensamento, porém, assustado com a frieza com que se defronta­va com a idéia de matar. Tentava tranqüilizar-se: afinal de contas, eles não agem diferentemente. Exatamente essas mulheres foram treinadas para matar, orgulham-se de poder registrar em seus livros de tiros as marcas de cabeças atingidas, são os combatentes mais fanáticos e impiedosos de todo o Exército Soviético e têm um só pensamento na cabeça: Morte ao inimigo!

Deitara-se novamente em seu esconderijo, saboreava o ar apimentado da floresta e o silêncio, observava os insetos a se arrastarem pela floresta de ca­pim, e uma aranha pequena, marrom, que tecia uma rede maravilhosa entre dois ramos. Descobriu até um faisão, que marchava, imponente; depois parou, fitou Peter sem receio algum e continuou seu caminho pela estepe. Tudo era tão pacífico que a idéia dos mais de seis mil tanques blindados, reunidos para a maior batalha da história da guerra, parecia totalmente absurda.

Ao cair da noite Peter Hessüch decidira abandonar a floresta um pouco mais tarde e voltar para o Donez. Seus cálculos não tinham dado certo. Bem, pensou, recuemos. Esperemos que o acaso traga essa mulher diabólica para diante de nosso fuzil. Eu poderia jurar que nos encontraríamos. . .

Esperou a hora do crepúsculo e deixou seu esconderijo, no momento em que o vermelho do pôr-do-sol se espalhava pela estepe e pela floresta e ba­nhava a terra em ouro. Com a arma, pronta para disparar, sob o braço, esgueirou-se pela orla da floresta, a fim de atingir o terreno ondulado à sua frente, atrás do qual se estendia uma paisagem de estepe plana até as trincheiras mais afastadas da linha dianteira. Como sempre, a boina de tricô cinzenta estava empurrada para a frente, quase lhe tocando as sobrancelhas, o rosto sujo de terra molhada. Andava silenciosamente para a frente, alcançou um grupo de arbustos e decidiu dar a volta em torno dele. Mas, ao dar um forte impulso ao corpo, para poder, se necessário, sair disparado, esbarrou com uma pessoa que, tão ignorante e silenciosamente como ele próprio, também estava dando a volta ao grupo de arbustos, vindo em sua direção.

Praticamente sem um segundo de susto Hesslich lançou suas mãos para a frente e agarrou o pescoço do outro. Mas seu adversário também não hesitou — seus dedos, feito ganas, pegaram o rosto de Hesslich e rasgaram suas fa­ces, ao mesmo tempo em que um joelho tentava atingi-lo entre as pernas, não o conseguindo, porém, porque a coronha da arma o defendeu contra o golpe.

Peter Hesslich sentiu um abalo, como que um raio incandescente, e Stel­la Antonovna sentiu que sua respiração quase parava. Afastaram-se um do ou­tro, às tontas, deram um passo para trás e agarraram suas armas. Atirar não era possível, o espaço entre os dois era por demais estreito, o que fez ambos, movidos pela mesma idéia, virar a carabina e atacar com a coronha.

O golpe de Stella atingiu a coronha de Hesslich e deslizou. Antes dela poder levantar a arma uma vez mais, seu adversário atacou. Para não estraçalhar-lhe o crânio, ele só bateu, com metade da força, no ombro de Stella e logo após no antebraço da mão que segurava a arma. Imediatamente o braço de Stella ficou entorpecido, os dedos não sentiam mais nada, a arma escapuliu-lhe da mão e caiu na grama. Stella Antonovna agachou-se, rápida como um raio, para levantar a arma com a outra mão. Neste momento, porém, Hesslich lhe deu um pontapé na coxa; ela caiu de joelhos, deixou-se desabar, afastou-se rolando pelo chão e ainda tentou puxar a arma para si. Novamente Hesslich atacou, desta vez contra o ombro dela. Os duros golpes das botas rasgaram-lhe a blusa e feriram a pele. Stella emitiu um som abafado, encolheu-se, jogou-se célere para o lado e ao mesmo tempo retirou, veloz, uma pequena pistola, a delicada Tokarev TK, usada por oficiais do Estado-Maior e do KGB, do cinto de sua calça larga, cor de terra.Mas Hesslich já se jogara sobre ela, arrancou-lhe a pistola das mios e a prendeu contra o chão.

As mãos de Stella novamente tentaram pegá-lo pelo pescoço, ferir-lhe o rosto a unhadas. . . Ele agarrou seus braços e os empurrou contra a grama. Agora estava deitado sobre ela com toda a força do seu corpo. Ela ainda tentou várias vezes atingi-lo com as pernas e sair por debaixo dele, mas seu corpo ficava rígido e tudo era inútil. Ela tremia de raiva, transformava as mãos em punhos e agora só podia bater na cabeça dele, mas Hesslich também escapou desses golpes, levantando ao máximo a cabeça.

Durante este tempo todo não proferiram uma só palavra; fora uma luta silenciosa, que agora terminava em uma respiração quente e ofegante. Ela fechara os olhos, as narinas tremiam. Batia os dentes de cima com tanta força contra os de baixo que sentia a pressão dolorosa até nas articulações do maxilar.

Aí está ele. . . eu o sinto. . . eu o cheiro. . . seu corpo está sobre o meu, como se fosse meu amante. . . está com a boina, esta boina horrível, ridícula, esta boina mortífera! Oh Deus lá em cima, você não existe. . . sim, você mo trouxe, mas deixou-o vencer!

Ela parou de tentar golpear a cabeça de Hesslich, seus músculos se rela­xaram um pouco, as mãos se abriram. Levantou as pálpebras bem devagarzinho e olhou para seu adversário. Ali estava ele, deitado sobre ela, a cabeça le­vantada, o rosto untado de terra marrom, com a horrível boina sobre os cabe­los. Mas o pior de tudo era o vermelho do crepúsculo, que circundava sua cabeça com uma auréola de sangue. Parecia que este crânio estava nadando em sangue, sangue a jorrar do céu e afogando tudo na terra.

Pfoss! — disse ela, respirando com dificuldade e cheia de náuseas. — Pjoss! — E depois em alemão, duramente, cheia de ódio: — Morte a todos os fascistas. . .

— Aha! Você sabe alemão? — Hesslich curvou-se um pouco. Não estre­meceu, quando ela cuspiu-lhe na cara e arregalou os olhos. Que olhos, pensou ele apenas. Meu Deus, que olhos! Azuis-esverdeados, e o vermelho do crepúsculo passa por eles como um véu.

— Sim. . .

— Sim o quê? — perguntou Hesslich e desviou-se de seu olhar.

— Eu. . . alemão. . . um bocadinho. . . sei. . . mate eu. . .

— Por quê?

— Seu diabbo. . .

— Agora estamos de acordo. Você também é um Satã! Você vai ficar deitada quietinha?

— Quê?!


— Você. . . ficar bem quietinha. . .

Njet. . .

— Ora, seja sensata, mocinha. Afinal de contas não posso ficar deitado em cima de você até a guerra terminar! — Fitou-a, desejou deixar seus braços livres e afastar com a mão os cabelos louros do rosto. Mas não o ousava, pois sabia muito bem que seus dedos imediatamente iriam arranhá-lo. — Você ma­tou meu melhor amigo, você sabe disso?

— Mattou. . . você mme. . . Favvor. . .

Ela fechou os olhos e ele sentiu como seu corpo, embaixo do dele, relaxava quase totalmente. Meu Deus, pensou, ela poderia morrer como outros comem um pedaço de pão. É, é isso, um dia a gente morre, para que queixar-se, pedir, tremer, chorar, gritar? Aí ela está deitada e espera que eu a mate.

— Você matou meu amigo — disse mais uma vez. Moj drug. . .

— Sim! — Ela abriu novamente os olhos e agora estes tinham uma cor violeta, banhados pela luz do céu. — Vvocê wive! Por quê?

— A respeito desta pergunta deveríamos conversar mais. — Ele a soltou repentinamente, liberou os braços dela e se levantou, em um só pulo, para sair do alcance de Stella. Ao mesmo tempo puxou a faca da bainha e lha estendeu.

Ela permaneceu deitada, os braços sobre a cabeça, na grama, as pernas abertas. Ele viu seu corpo sem protuberâncias, a blusa rasgada no ombro, pelo pontapé que lhe dera, e embaixo da clavícula, entre pedaços de pano, o início dos seios.

— Com ffaca? — perguntou e levantou, por um instante, a cabeça.

— O que com a faca?

— Mmatar com ffaca? Bbem. . . ningem escuta. . .

Hesslich pôs a faca de volta na bainha e retirou a boina de tricô. Passou a mão esquerda pelos cabelos suados, levantou-se, olhou para a moça, ainda deitada, imóvel, e depois afastou-se, em direção à carabina dela. Levantou-a e examinou-a por todos os lados, olhou pelo telescópio de mira e ficou pasmo diante da clareza e luminosidade. Depois retornou para onde Stella estava dei­tada e se plantou diante dela, as pernas um pouco entreabertas.



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