Konsalik b de atalhão Mulheres



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Onde existe uma boina, também deve haver um homem! Se a gente o pegar, era um homem. Novamente Stella se viu presa de um estado de vazio interior completo. Ela e sua arma formavam uma unidade, ela mesma era a ar­ma e a linha de tiro para o outro lado. Ela mesma se jogava na direção do ad­versário.

Dallmann riu para Hesslich e piscou o olho.

— Estou enganado ou na realidade algo aqui está fedendo?! Três passos adiante, onde alguém fez cocô nas calças! Peter, onde estão eles, os seus Ivans?

— Nós recuaremos. — Hesslich puxou a arma para seu lado. — Para trás, até o início da vegetação. E depois darei um tapa nessa sua cara de fedelho, disso pode ter certeza!

— Para isso são necessários dois. — Dallmann rebuscou sua bolsa e levan­tou a mão direita. Stella logo a percebeu no reticulado, como uma mancha que brilhava fracamente. — Mais um pedaço de chocolate?

— Não!


— Um negrinho estava na beira da floresta e segurava algo de preto na mão. Oh, disse então a jovem, por acaso é feito de chocolate. . .? — Dallmann quebrou um pedaço grande do tablete, gritou alto e alegre “Upa” e o atirou na direção de Hesslich. Para poder lançar melhor o chocolate, empertigou-se um pouco. Durante uma fração de segundo sua cabeça surgiu da grama.

Stella Antonovna curvou o dedo totalmente tranqüila.

O tiro era mais baixo do que o usual, recordava o estalido de um chicote, sacudido por um cocheiro feliz. O pedaço de chocolate caiu na areia ao lado de Hesslich, Uwe Dallmann desabou, silenciosamente, de costas e lá ficou estatelado, reto, como antes estivera deitado de bruços. Só que agora parara de rir. Um dardo incandescente perfurara seu cérebro.

No mesmo segundo em que o pedaço de chocolate e Uwe Dallmann, quase ao mesmo tempo, caíram no chão, Hesslich sentiu-se paralisado. Depois, porém, algo explodiu nele, que nunca adivinhara dentro de si e que nem sabia que poderia existir. Teve a impressão de que se desintegrava nas chamas.

Num instante estava pronto e atirou na direção do banco de areia. Lá, exatamente diante da proteção de Stella, a areia e o cascalho voaram pelos ares. Ela imediatamente encolheu a cabeça, esgueirou-se de volta atrás da ligei­ra elevação e aguardou. E depois ouviu a voz dele. Soou através da escuridão, vindo em sua direção, um pouco dispersa pelo leve vento noturno.

— Sua peste! — berrou Hesslich, a plenos pulmões. — Sua puta maldita! Sua cria de Satanás! Eu vou pegar você! Juro diante de Deus: eu pego você! Canalha! Patife!

A voz de Hesslich repentinamente trouxe de volta todas as sensações de Stella. Ela começou a sentir frio, um tremor a percorreu desde a raiz dos ca­belos até a ponta dos pés. Enfiou-se ainda mais fundo dentro do buraco e fe­chou os olhos, quando novos tiros ecoaram e a areia se levantou diante dela. Três. . . quatro. . . cinco. . . troca de munição. . . seis. . . sete vezes. . .

Ele enlouqueceu, pensou tremendo. Não vê nada, mas atira. . . Esgueirou-se vagarosamente encosta abaixo, levantou a arma acima da cabeça e andou, com a água até os ombros, através do rio, não muito profundo, em busca da margem salvadora. O banco de areia a protegia, subiu para a terra em um ângulo morto; lá correu pela noite escura adentro e se jogou no chão em uma das primeiras ruínas do povoado. Apertou a Tokarev entre os seios.

Hesslich atirou e atirou. Era-lhe totalmente indiferente se dessa forma também servia de alvo. Rolava de um lado para o outro e sempre que se achava em uma nova posição atirava no banco de areia. Via agora várias sombras correndo em sua direção, vindas do povoado. Elas caíram por terra e o alcan­çaram, quando acabara de disparar o sétimo tiro.

— Você está louco? — berrou o suboficial dos pioneiros, ao se deixar cair ao lado de Hesslich. — Mas o que foi que aconteceu?

— Ela matou Dallmann! —berrou Hesslich e realmente parecia um lou­co. — Ela deve estar deitada lá no banco de areia! Foguetes! Vocês têm fo­guetes? Vamos, um fogaréu! Assim a pegamos! Ela não poderá voltar se esti­ver tudo iluminado! Seus idiotas, seus filhos da puta, onde estão as balas lumi­nosas?

Duas balas espocaram no céu, banharam o Donez e as duas margens em uma claridade fria e brilhante e esvoaçaram, presas a pequenos pára-quedas, em ritmo lento. Todos agora atiravam, concentrados, no banco de areia. Eram 15 homens ao todo, o dorso da tartaruga foi estralhaçado, esmigalhando-se em pequenos esguichos de areia. Quando a terceira bala luminosa surgiu no céu, Hesslich se jogou no rio e nadou, com braçadas vigorosas, para a outra margem. Seu Gauleiter teria gritado, com júbilo: Finalmente este camarada preguiçoso, que esportivamente era um tal expoente, agora coloca seus talentos a serviço da pátria!

Hesslich se jogou como uma fera selvagem sobre o banco de areia e rolou sobre o mesmo. A outra parte do treinamento da luta corpo a corpo ago­ra aflorou: agrediu com a faca afiada, de duas lâminas, na mão. Em volta dele a areia espirrava — era a proteção de seus camaradas, que atiravam para afas­tar dele qualquer perigo.

Rangendo os dentes Hesslich achou duas coisas: a concavidade na qual estivera deitada Stella Antonovna e o cartucho vazio do qual surgira a morte de Dallmann. Colocou-o no bolso, jogou-se na concavidade, de costas, o uniforme ainda molhado, e fitou a noite ainda rasgada pela bala luminosa que se afastava, flutuante.

Juro, sua piranha, pensava Hesslich, que eu não quero mais sobreviver se não conseguir agarrar você! Deus do céu, me escute: eu tenho de matá-la! Eu tenho de fazer isto!

Ainda estava deitado na concavidade em que Stella estivera antes e lhe parecia que uma corrente invisível, misteriosa, passava dela para dentro de si mesmo. Era como se o contato com o lugar em que o corpo dela estivera deitado o carregasse com uma energia nova, estranha, inexplicável, cujo similar só poderia ser encontrado no espaço sideral.

Do lado de lá não atiravam mais. Não conseguiam mais ver Hesslich e es­tavam desorientados. Só quando ele se levantou, atravessou, de pé, o banco de areia, entrou na água e nadou de volta, souberam que a operação malograra.

— Nada! — disse Hesslich, ao sair da água. — Ela já tinha ido embora! — Andou em passos lentos até o corpo de Dallmann, que ninguém tocara e ain­da jazia como no momento em que morrera, e se ajoelhou a seu lado. A água que empapava, seus cabelos e seu uniforme escorria sobre o peito de Dallmann, quando Peter se curvou sobre o amigo e o fitou demoradamente.

O tiro exatamente na testa, acima da raiz do nariz, era quase óbvio. Os olhos de Dallmann espelhavam um espanto ilimitado, tinham parado como um relógio que subitamente estaca em um segundo. Na palma da mão ainda estava colado um pedaço amassado e amolecido de chocolate. Nos cantos da boca percebia-se ainda o riso juvenil — a vida ainda estava presa nele, tão rápi­do sobreviera a morte.

Hesslich pegou a mão de Dallmann e a virou. Era intolerável ver o chocolate colado nos dedos. Não poderei nunca mais comer chocolate, pensou Hesslich. Não vou poder cheirá-lo. Eu vomitaria, vomitaria imediatamente. . .

Fechou os olhos de Dallmann com infinita ternura e se levantou.

Uwe Dallmann voltou para a Quarta Companhia em um carrinho de mão. Todos estavam a postos para recebê-lo e o cumprimentaram silenciosamente, quando o colocavam na maça. Bauer III olhou assustadíssimo para Hesslich: o rapaz jovem, enérgico, se transformara em um homem velho e sério. O batalhão já enviara uma ordem: Dallmann deve ser trazido de volta e não será enterrado no cemitério comum dos heróis.

— Eu vou junto! — falou Hesslich, com voz sombria. — Ele espera que eu fique a seu lado até o último momento. Teria feito o mesmo por mim. Afi­nal de contas, vocês poderão se safar um dia sem a minha presença. . .

Pelo meio da tarde Dallmann passara por todas as etapas. Um caminhão transportou-o em um caixão fúnebre até a divisão, pois, e como isto soava estranho, o regimento possuía 14 desses, porque o estado-maior se instalara na melhor casa do lugarejo, uma carpintaria. O general recebeu Hesslich e escutou seu relatório.

— As mulheres são melhores e mais rápidas que vocês — disse, amarga­mente. — Isto eu já lhe disse por ocasião da sua última visita, primeiro-sargento. São crias do diabo, aquelas lá. Se eu pudesse, as estraçalharia com a arti­lharia. Mas todos nós estamos plantados, com as armas ao lado das pernas, aguardando o grande dia que o Fuehrer determinou. E esse dia está próximo! Aí o senhor verá como essas saias aprenderão a correr. . .

— Sr. General, peço permissão para me retirar — disse Hesslich.

O general mirou Hesslich sem nada entender.

— O que o senhor quer dizer com isso?

— Deixarei a tropa, a Quarta Companhia.

— Mas o senhor pirou? Homem! De que é que está falando?

— Com licença, General, gostaria de lembrar que eu recebi uma carta branca especial do OKH.

— Mediante integração na tropa que lhe foi designada!

— Não vejo mais sentido em ficar no Donez e esperar. Eu preciso agir.

— E como é que vai ser isso?

— Eu vou para o lado dos soviéticos...

— Hesslich! — o general respirou fundo. — A morte do seu amigo rou­bou-lhe a razão!

— Viverei diante, dentro, entre e atrás das linhas russas e cumprirei a tarefa que devo me impor. É possível que nunca mais ouçam nada a meu respeito. Solicito ao Sr. General, caso isto ocorra, que me declare morto. Outra coisa não posso mais aceitar. Retorno ou morte.

— O senhor está ficando cada vez mais doido, Hesslich! — O general o fitou rigidamente. — Mas não tenho poderes para impedi-lo.

— Não! Trata-se de uma disposição militar especial. . . — Hesslich esta­va em posição de sentido. — Com licença, Sr. General, quero me despedir.

— Que Deus o acompanhe! — A voz do seu interlocutor tornara-se sua­ve. — Hesslich, volte.

Deu-lhe a mio e acenou brevemente. Hesslich deu meia-volta volver e deixou o recinto.

Ao cair da tarde Dallmann recebeu a EK I, que colaram no caixão e que foi enterrada com ele. O pastor evangélico da divisão pronunciou uma prece. Um trombeteiro tocou uma canção de despedida.

Dois dias mais tarde, em uma noite escura feito breu, sem luar, Hesslich atravessou o Donez em uma pequena jangada. Não levou nada consigo, exceto uma bolsa de pão, repleta de munição, a caixa da máscara contra gases, tam­bém repleta de munição, um segundo saco de pão e todos os bolsos cheios de munição. E a sua boina de tricô.

Metade da companhia estava na margem, quando Hesslich afastou a jan­gada e se deixou levar pela correnteza. O Tenente Bauer III levantou a mão, saudando-o.

— Este não veremos mais — disse, quando Hesslich desapareceu na escu­ridão. — Este nome podemos riscar.

Sibirzev manteve-se calado; não chamava a atenção e não perturbava as moças, mas também não angariou nenhuma simpatia.

Quando as moças se lavavam, geralmente em grandes baldes de madeira, ou quando tomavam banho, e para isso foram trazidas grandes cubas de madeira, da retaguarda, as moças, naturalmente, patinhavam na água, bem à vontade. . . sem tecidos incômodos.

Já se tinham acostumado com Ugarov, Miranski morrera e o suboficial das armas já capitulara após apenas quatro meses de serviço e solicitara, quase chorando, ser removido, o que lhe foi concedido por ocasião da ofensiva do Donez em março de 1943. Foi para uma tropa de conservação da divisão, agradeceu intimamente a Deus pela bênção que lhe fora outorgada, e beijou a fo­tografia de sua mulher com os sete filhos. Mais tarde escreveu, emocionado, à sua gorda Marfusja: “Consegui me safar daquelas diabinhas. Em segredo, acen­da uma vela e a devote a São Demétrio! Mais alguns dias com aquelas crias de Satanás e eu voltaria — caso sobrevivesse à guerra — com a alma aleijada. 239 mulheres em fúria — assim nunca ninguém descreveu o verdadeiro inferno...” Em substituição a ele Bajda recebeu um suboficial feminino que se responsabilizou pela seção de armas e ferramentas. O inspetor do batalhão, es­te patife covarde, pérfido, evitava quaisquer encontros pessoais e só falava com Bajda pelo telefone de campanha. Apenas quando lhe ordenava que viesse ao seu quartel, conversava pessoalmente com ela. Lá na frente, nas trin­cheiras, voltou apenas três vezes, para cada vez retornar pálido ao estado-maior do batalhão. Quando anunciou novas restrições, as moças lhe cuspiram na cara, sem qualquer constrangimento e agarraram o seu pênis. O cúmulo dos cúmulos, porém, aconteceu na ocasião em que perguntou por que cada uma das moças queria ter dois sutiãs: de repente viu-se rodeado de 123 moças em fúria, que abriam à força as blusas e lhe mostravam os seios nus. E Bajda disse, triunfalmente:

— Então um defensor da pátria tem de andar assim por aí, se a sua única guarnição é a roupa?! Nós somos pessoas limpas, faz favor de tomar nota disso! Não fedemos feito cabras e não queremos matar os alemães com nossos odores!

O inspetor, portanto, fugia cada vez, em pânico, e concedia tudo que lhe era exigido por meio de tais demonstrações.

Ao lado de Ugarov, Sibirzev era, pois, o único homem obrigado a viver entre as 230 moças. . . o número exato das fuzileiras oscilava constantemente, em função de doenças, férias ou casos de morte. . . Elas nem cogitavam de modificar seu modo de vida por causa de um único portador de peru, e portanto se comportavam como se Sibirzev não existisse. Podia, pois, ocorrer que Bairam Vadimovitsch, ao entrar em um abrigo, se deparasse com um grupo de mulheres nuas, que se lavavam, estavam deitadas, liam, faziam trabalhos ma­nuais ou tocavam música. . . Afinal de contas, os dias eram quentes, e só as moças que estavam de serviço, na ocasião, usavam uniforme.

Podiam se dar ao luxo de viver neste estilo não-militar, podiam tomar banho de sol, porque já era sobejamente conhecido que os alemães não iriam iniciar um ataque.

Os preparativos para a grande ofensiva alemã do verão ainda não tinham terminado.

Sibirzev se via obrigado a fazer um imenso esforço para não esticar a mão, de vez em quando, ao ver passar perto de si alguma forma feminina sedutora, mas sabia muito bem que Bajda só estava esperando que algo de semelhante acontecesse para enviar um relatório dramático. E o Tenente Ugarov? Qualquer conversa com ele era uma tortura para Sibirzev. Nunca conseguiam trocar uma só palavra razoável. Só alfinetadas, olhares malévolos e lábios crispados. Por que isto?, pensava Sibirzev, perplexo. O que foi que eu fiz? Fui enviado, como soldado bem comportado, para ajudá-los; por ocasião da minha chegada imediatamente lhes dou de presente dois alemães, e como mo agradecem? Ignoram-me totalmente.

— Escute, Sr. Tenente — dissera Sibirzev, cautelosamente, a Ugarov — se o senhor pensa que eu vejo demasiado, isto é um engano! Não vejo nada! Nós formamos uma unidade, só isto conta! Eu não sou um espião da divisão ou outra coisa que o senhor possa estar pensando. . .

Mas até isto fora um erro! Ugarov foi correndo dizer, com muita amargura, a Soja Valentinovna:

— Ele não passa de um cão gosmento! Diz que não vê nada. . . portanto, vê algo! Maldito seja!

Mas nesse dia Sibirzev observou algo de muito importante. Viu um homem na fronteira do povoado destruído! E se alguma coisa era certa, então era isto: além de Ugarov e de si mesmo não havia mais homens ali! O estranho tinha uma aparência muito insólita: era como se no lugar da cabeça usasse uma meia recheada em cima do pescoço. Sibirzev não hesitou, preparou-se lo­go para atirar. Mas aí o estranho desapareceu novamente. Sibirzev aproximou-se sorrateiramente do lugar onde o vira, rebuscou cuidadosamente as ruínas, tomou a posição de um gato que, paciente e imóvel, fica à espreita diante do buraco onde o rato se meteu — tudo em vão: o homem não se mostrou mais.

— Colocaremos patrulhas! — disse Bajda, quando Sibirzev comunicou-lhe o observado. — O senhor tem certeza de que se tratava de um ser humano, Bairam Vadimovitsch?

— E eu lá sou um idiota? — retrucou Sibirzev indignado.

— E quem terá coragem de julgá-lo? — perguntou Ugarov, cinicamente. — Bem, veremos o que as próximas horas trarão. Aqui entre nós ninguém po­de ficar, sem ser visto. E ele não usava uniforme?

— Não! Eu. . . pelo menos não reconheci nenhum. . .

— Aha! — Ugarov deu uma risada. — Camarada Sibirzev, mandarei vir para o senhor um bom par de óculos com a próxima remessa de provisões.

Sibirzev afastou-se rangendo os dentes e xingando Ugarov de nojento fi­lho da puta que ainda molha a cama.

Apenas três horas se passaram e tudo se transformou.

Em plena tarde Maria Petrovna e Amalja Fedorovna foram mortas a tiros em um jardinzinho do povoado. Os que se encontravam nos abrigos puderam ouvir os dois tiros secos, mas quando as patrulhas chegaram ao local, qualquer ajuda já não adiantava de nada. As duas moças jaziam nos canteiros recém-limpos com ancinhos, com dois tiros bem no meio da testa.

Soja Valentinovna observou as mortas, rígida de espanto. Sibirzev olhou de esguelha para Ugarov, que mordia nervosamente o lábio inferior. Então, eu estou precisando de um par de óculos, ha, pensou, triunfante. Seu macaco de oficial cheio de empáfia! Agora você sabe que tipo de pessoa é esse estranho! Não, uniforme não usava não, mas algo como um casaco em forma de camisa, marrom ou talvez azul, tudo se passou tão rápido. . . O que chamava a aten­ção era que ele não possuía uma cabeça de verdade. À distância, pelo menos, eu não pude percebê-la. Mas como é que se conta uma coisa dessas a um ca­marada como Ugarov? Um homem sem cabeça! Ugarov seria capaz de solicitar que fizessem uma perícia no sargento Sibirzev, para ver se estava sofrendo de doença mental. Portanto, calar a boca, Bairam Vadimovitsch. O silêncio é si­nal de inteligência. Pode ser que o acaso te ame e te ponha novamente o ho­mem diante do cano de tua arma. Aí mostrarás o que és, a essas toupeiras cegas, que falam com tanta empáfia!

De noite acharam Lydia Ivanovna em um celeiro. Estava deitada como se dormisse, apenas o pequeno buraco, cercado de sangue, na testa, não se adequava ao quadro que apresentava. O celeiro ficava do outro lado do terreno que era controlado pela Divisão Bajda, com o que ficou provado que o fuzileiro alemão andara tranqüilamente diante das trincheiras e das sentinelas, da esquerda para a direita. E ninguém o percebera.

— Vocês estão levando uma vida demasiado folgada! — berrou Soja Va­lentinovna para suas subordinadas, às suboficiais e ás chefes dos grupos. — Esta­mos em guerra, mas vocês ficam à toa, sonhando com camas e pintos! Agora esta vida mansa acabou! Alarma e ataque! Reforçar as patrulhas até o Donez!

Ela berrou de raiva durante 20 minutos, durante os quais comprovou publicamente, para quem estivesse ali para ouvi-la, seus conhecimentos insuperáveis dos mais grosseiros palavrões e xingamentos. Depois foi para o terre­no, armada como as moças. O Tenente Ugarov ficou a sós com uma moça en­carregada das transmissões pelo rádio e com a médica Galina Ruslanovna, nas trincheiras.

E Galina enunciou o que Ugarov não queria extenuar:

— Você acha que se trata do alemão com a boina de tricô?

— Não sei. E se for: nada de pânico! Stella Antonovna e 40 outras fuzileiras do Exército Vermelho são tão boas quanto ele, talvez até melhores! Além disso seria loucura! Um único homem! O que deseja ele fazer?

— Ele pode pavimentar as ruas com cadáveres. . . isto não basta? Já temos três mortes! — E reina a intranqüilidade.. .

— Ele contou com o elemento surpresa a seu favor! Agora estamos à es­pera dele! Nós o encontraremos e o liquidaremos...

Tão simples, como julgava Ugarov, a ameaça não podia ser afastada.

De noite aconteceu algo inacreditável: entre a Divisão Bajda e o batalhão, portanto, atrás das linhas, cinco soldados do Exército Vermelho, que estavam em via de transportar material, em um pequeno caminhão, para uma posição de artilharia, foram mortos a tiros. Quatro horas depois, em lugares totalmente diferentes, dois soviéticos morreram com tiros limpos na cabeça. Voltavam de uma visita a camaradas, de uma bateria ligeira de Flak. De madrugada finalmente a cabeça de outra vítima, por enquanto a última delas, caiu. Tratava-se de um primeiro-tenente, que se dirigia de motocicleta, através da estepe, para o estado-maior do batalhão.

Bajda ficou sentada em um banquinho, diante de Ugarov, fitando, com o rosto retorcido, a parede de terra do abrigo. Victor Ivanovitsch tentou consolá-la.

— Ele já não está mais entre nós. Caminha de lá para cá como um lobo faminto e ataca a quem encontra...

— Mas ele veio daqui! - exclamou Bajda, sombriamente. — Conseguiu se esgueirar pelo sistema de trincheiras para a retaguarda das nossas linhas e ninguém o viu! Nós o deixamos escapulir. . . como posso suportar isto? Diga- mo! Está me rebentando! Você ouviu o que disse o comandante do batalhão? “A senhora deveria se preocupar mais com o inimigo e menos com seus sutiãs!” Posso sobreviver a tanta humilhação? Por acaso ainda somos uma tropa de eli­te?! Ha, estão rindo de nós! Fazem piadas! Pergunta à estação de rádio Erivan: As mulheres são boas combatentes na luta corpo a corpo? Resposta: Em princípio sim. . . depende sempre do parceiro masculino. . . Victor Ivanovitsch eu terei de me suicidar!

Por volta de meio-dia, da manhã seguinte, um soldado do grupo de lançadores de minas foi morto a tiros, quando colhia morangos. Estava em uma clareira da floresta, atrás da Divisão Bajda. Um camarada, que ao seu lado estava fazendo o mesmo, ainda viu quando o fuzileiro desapareceu, rápido, como um gato. Dele, que tremia com todo o corpo e não conseguia compreender como pudera escapar com vida, ficaram sabendo: o homem portava, puxada bem para a frente do rosto, uma boina de tricô cinzenta.

Soja Valentinovna só ouviu de noite, em uma conversa com o batalhão, por telefone, o que o sobrevivente dissera. Tomou conhecimento do ocorri­do sem proferir uma só palavra e depois disse apenas:

— Isto é muito importante, camarada. Tomarei nota! — Depois desligou o telefone. De acordo com o seu gesto poder-se-ia acreditar que o aparelho pesasse mais de vários quilos. Com olhos tristes fitou Ugarov. — É ele. . .

— Quem?


— O homem da boina, esse diabo! E realmente está sozinho! Ugarov, tenho certeza: é o próprio Satã! Agora o desafio é nosso, Victor. Ele nos pertence! Junte as melhores, especialmente Stella. . . e Sibirzev. Seria milagre se ele conseguisse sobreviver a isso. . .

Ainda nessa noite saíram, em grupos, para percorrer o terreno, palmo a palmo. Marianka Stepanovna e Lida Djanovna chefiavam, cada uma, duas tro­pas maiores de 10 moças; as outras estavam a caminho em grupos de quatro. Só dois foram sozinhos: Stella e Sibirzev. Eram individualistas, cada um deles equivalia por si só ao inimigo.

— Uma coisa lhe peço — disse Stella a Bairam Vadimovitsch.

— O que é.Stellinka?

— Quando o vir, apenas o fira. . .

Sibirzev olhou atônito para Stella.

— Por quê?

— Eu quero falar com ele. . .

— Falar?

— Ele não deve morrer de um segundo para outro, não, ele deve sentir a morte, conviver com ela, segundo por segundo, minuto por minuto. . . E antes de morrer, o medo deve tê-lo dilacerado. Bairam Vadimovitsch, traga-mo vivo . .. por favor... prometa...

— Se... se for possível — respondeu Sibirzev com a voz estrangulada.

— Obrigada!

Ela acenou para Bairam, pegou sua nova arma de precisão, ajeitou-a sob o braço e desapareceu na noite. Era como se tivesse farejado uma fera na flo­resta. Sibirzev ficou olhando para ela, levantou os ombros, como se sentisse frio, e juntou as mãos. Oh céus, que ódio! Quem tem Stella como inimiga já está com um.pé no inferno.

Pensou e depois caminhou em outra direção. Para ele era lógico que o diabo da boina já deixara, há muito tempo, a antiga devesa. Após alguns minutos Sibirzev estava só, em volta dele a estepe, na escuridão da noite, com os povoados isolados incendiados, com montes planos e declives, pequenos gru­pos de árvores e riachos estreitos, borbulhantes, que desembocavam no Donez.



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