Konsalik b de atalhão Mulheres



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— Eu não sei. — Stella apertou contra o peito a nova arma. —Só às vezes é horripilante. Eu não faço mais nada do que muitos outros. . . viso o alvo e aperto o dedo no gatilho.

— Deveríamos elaborar um protocolo a respeito! — exclamou o Coronel Starostin, impressionado. — Isto deve ser registrado. Somos todos testemu­nhas, camaradas.

Olhou novamente para as cinco balas achatadas em sua mão, sacudiu a cabeça e se dirigiu à comandatura.

À tardinha Stella Antonovna voltou para o rio. Foi recebida com guirlandas de flores, abraços e beijos. De há muito se sabia, por telefone, o que ocorrera no estado-maior do batalhão. O ajudante transmitira a notícia. Bajda tremia de orgulho e emoção.

— Então, você lhes mostrou, hein, minha filhinha? — gritou e apertou Stella contra seus magníficos seios. — Como ficaram embasbacados. . . feito touros em noite de tempestade! Gostaria de ter estado lá. É assim que as coisas acontecem entre nós, eu diria aos camaradas superiores. Temos mais desta estirpe na tropa. Não exatamente como Stella, mas cada uma de nós é capaz de arrancar-lhes, a tiros, a meleca do nariz!

Sibirzev também veio cumprimentar Stella. Examinou a nova arma, ficou amarelo de inveja e fitou Stella maldosamente, com seus olhos oblíquos.

— Agora não há dúvida de que venceremos a Grande Guerra Patriótica — disse, cheio de ódio. — Nós o veremos, esperem só! Stella irá arrancar as bandeiras dos postes em Berlim e com uma bala escanhoar a barba de Hitler.



Riram disso, mas Ugarov, um pouco mais tarde, disse baixinho para Stella:

— Um homem antipático, esse Bairam Vadimovitsch! Eu sou patriota, um bom comunista, decerto, odeio os fascistas! Mas no caso de Sibifzev eu ficaria contente se os de lá rapidamente tivessem sua cabeça no visor. Ouvi o que ele disse de Sotischka: o úbere de pernas abertas! Poderia matá-lo a pancadas, cortar-lhe a cabeça com a espada!

Nessa noite Stella não sonhou. Dormiu como uma criança morta de cansaço, que segura nos braços sua boneca.

A boneca era a sua nova arma.

Poder-se-ia dizer de Sibirzev o que se quisesse, poder-se-ia odiá-lo e lhe dese­jar mil mortes; todos concordavam que era um tipo antipático — mas só uma coisa não se podia dizer dele: não era covarde!

Não, covarde Bairam Vadimovitsch não era. Nenhuma fera o assustava — e o inimigo do outro lado agora era a fera que devia caçar e liquidar.

Não se tinham passado nem dois dias na linha de frente e os alemães perceberam que algo se modificara, e que a vida tranqüila, idílica, do verão no Donez deixara de existir.

Sibirzev apanhou dois pioneiros alemães que se banhavam no rio. Esperou, sem pressa, que estivessem nadando no meio do Donez e se encontrassem ao alcance de sua arma. Estava deitado na margem, sob um arbusto, fechara os olhos oblíquos até formarem uma fenda estreita, respirava contidamente e visou tranqüilamente.

O primeiro tiro acertou exatamente na cabeça. O alemão não deu um ai, não se mexeu, simplesmente afundou feito uma pedra. O segundo tentava, desesperadamente, voltar para a margem alemã, em nado estilo crawl, mas es­se tem a característica fatídica de deixar a cabeça e a nuca acima da água e a cabeça cortando a água como um arado.

Isto foi o suficiente para permitir a Sibirzev acertar um tiro exato na nuca. Também o segundo alemão afundou e foi levado pela correnteza, rio abaixo, enquanto a água ao seu redor se tingia de sangue. Bairam Vadimo­vitsch retornou satisfeito para a posição, apresentou-se a Ugarov e solicitou permissão para registrar duas novas marcas em seu livro de tiros.

— O senhor tem testemunhas? — perguntou Ugarov, sabendo perfeitamente que sua indagação era infame. Qual é o fuzileiro, operando sozinho, que pode apresentar testemunhas? Acredita-se na sua palavra de honra, e isto basta. Sibirzev fitou Ugarov, sem acreditar no que ouvia, e engoliu em seco.

— Testemunhas? — repetiu.

— E eu lá o conheço tão bem, camarada?! Quando Vanda ou Marianka, Stella ou Lida ou alguma outra das minhas moças vêem, tudo bem, registro logo! Mas o senhor é novato, sai sozinho e depois volta e diz simplesmente: Por favor, duas marcas no livro. Favor registrar! E aí naturalmente eu me pergunto. . .?!

Sibirzev respirou fundo.

— Camarada tenente, eu possuo a minha honra — respondeu baixi­nho. — Uma honra de capital importância! Esta o senhor não vai estragar. . .

Ugarov sentiu que atingira o limite. Isto lhe bastava. Sibirzev internamente estava fervendo de raiva — e era exatamente este o propósito de Ugarov. Queria esmigalhá-lo, cansá-lo com inúmeras pequenas alfinetadas, até que os nervos rebentassem, até que fizesse a tolice de atacar Ugarov pessoalmente. Aí teriam um motivo para denunciá-lo e depois despachá-lo para a retaguarda.

— Ninguém está ferindo sua honra, Bairam Vadimovitsch. Dê-me o seu livro de tiros, farei o registro. Ugarov pegou o livrinho, folheou-o, viu em que lugares Sibirzev já fora posto a seiviço. Ele pertencia aos comandos volan­tes. Apareciam onde eram necessitados, para depois desaparecerem imediata­mente, uma vez solucionada a situação. Ugarov registrou cuidadosamente a data e o local e devolveu o livro a Sibirzev.

A morte dos dois pioneiros caiu como um raio no idílio que reinava há semanas nas posições alemãs. Começara com Hoetzerenke — e agora tinham quase certeza de que as moças do outro lado tinham iniciado uma espécie de miniofensiva.

Aumentaram o número de sentinelas. No povoado em ruínas, onde Hesslich e Dallmann se alojavam, foram colocadas duas pesadas metralhadoras. De noite cavaram na margem do rio e construíram uma série de buracos para um homem só. Dia e noite lá estavam os melhores artilheiros das compa­nhias. Na Quarta Companhia, chefiada pelo Tenente Bauer III, eram sete ho­mens, entre eles também o Alferes von Stattstetten, o sonhador, que ainda es­crevia poesias e elegias para a sua distante ucraniana da companhia de propa­ganda.

De certa maneira, Hesslich e Dallmann tinham liberdade para fazer o que lhes apetecesse. Estavam por toda parte, encontravam-se com os outros fuzileiros designados para as posições, nas divisões vizinhas, e trocavam expe­riências. Nas outras companhias tudo estava tranqüilo. Aqui se defrontavam com fuzileiros siberianos, que deixavam as coisas ao acaso. Só entre os pionei­ros, imediatamente a seu lado, sentia-se a presença das malditas mulheres. O Grupo de Soja era mais amplo, em sua dispersão, do que uma divisão de uma companhia alemã.

Do outro lado da margem do Donez os esforços dos alemães eram cuidadosamente observados e incluídos no planejamento. As “máquinas de fa­zer café”, aqueles aviões soviéticos de reconhecimento, lentos e barulhentos, também reapareceram. Matraqueavam, fortemente encouraçados, em vôos baixos pelas linhas alemãs e fotografavam metro por metro, sem serem perturbados pelos caças alemães, que tinham sido requisitados mas não levantavam vôo. Ordem: economizar combustível, falta de provisões! Não valia a pena investir algumas centenas de litros de combustível para liquidar uma máqui­na velha daquelas. O combustível teria de ser poupado para o dia X, que cada vez mais se aproximava, aquele dia em que deveria começar a grande ofensiva de verão, que o Fuehrer já adiara várias vezes, a limpeza da curva de Cursk, a liquidação da frente central soviética comandada pelo Coronel-General Rokossovskij e da frente do Voronesch, sob o comando do General Vatutin. Uma vez reconquistada Cursk, seria possível obrigar os russos a recuarem de todos os lados — então a frente de Brjansk, chefiada pelo General Popov, teria de iniciar a retirada; e para a Frente da Estepe, chefiada pelo General Conjev, também só haveria uma saída: retirada em fuga para o Oskol e para o Don, de volta para o interior da ampla estepe. Sonhavam até em alcançar novamente o Rio Volga — mais uma vez Stalingrado e isto para sempre!

O Nono Exército, comandado pelo Coronel-General Model e o Quarto Exército Blindado, chefiado pelo Coronel-General Hoth, deveriam formar as cunhas de ataque que eliminariam os adversários. Depois o Segundo Exérci­to seguiria, a partir do meio da curva de Cursk, um grupo que somente cons­tava de nove divisões de infantaria fracas, dizimadas e sem condições de tomar a iniciativa de uma ofensiva. Ele só poderia segurar. Não obstante, o ponto crítico era a região do Donez. Aqui a Seção Kempf teria a missão, conjuntamente com o Corpo Blindado SS 1, não somente de manter a defesa, mas também, em toda a região desde Bjelgorod até Tschugujev, ao sul de Charkov — caso a grande ofensiva se iniciasse —atacar o flanco dos russos especialmente na divisão do Qüinquagésimo Terceiro Exército, do Sexagésimo Nono Exército e do Sétimo Exército de Guarda.

Um plano de loucos, em face da verdadeira situação relativa das forças alemãs e russas, ou — então — um dos planos mais audazes da nova história bélica, se surtisse efeito em função da coragem ímpar das tropas alemãs.

Ele não poderia ter êxito. O que poderia ser posto em marcha do lado alemão, as cifras reais de encouraçados e artilharia, homens e material, a correspondência entre os estados-maiores dos generais, os planos do Quartel-General do Fuehrer. . . a chefia soviética sabia de tudo. O grupo de espionagem “Luzy”, situado na Suíça, transmitia notícias dos mínimos detalhes. A grande esperança de Hitler, ainda conseguir uma mudança do curso do conflito bélico, não só fracassava em função da desvantagem militar, mas especialmente pelo minucioso trabalho secreto de alguns poucos homens e mulheres na Suíça.

Naturalmente atiravam também nas “máquinas de fazer café”, mas só com pesadas metralhadoras ou com uma Flak-38 de 2cm, montada em um comboio de um só eixo, com rodas de borracha. Mas até isto era feito pela metade, sem muita convicção, pois a ordem de poupar munição, sempre que possível, era interpretada tão rigidamente, que cada tiro devia ser minuciosamente registrado. Havia formulários nos quais se devia assinalar o motivo, a data, a hora exata, a munição gasta, o êxito alcançado e uma avaliação porme­norizada do comandante. Atirar em uma “máquina de fazer café” não valia a pena, era trabalhoso demais.

Ugarov e Soja Valentinovna estudaram as fotografias aéreas, que recebiam em lindas ampliações. Também Stella Antonovna as estudava e por meio delas descobriu onde se escondia a boina de tricô, este maldito diabo. Na casa campesina, com o galinheiro e o lindo jardim. A última casa antes da estepe livre até o Donez.

Em uma das fotografias podia-se até perceber nitidamente um homem nu, deitado sob uma cerejeira ao sol e que aparentemente nem se deixava perturbar pelo avião de reconhecimento soviético.

— Posso ficar com este retrato? - perguntou Stella e sua voz parecia neutra. — Existem muitas fotografias do povoado, mas esta é especialmente nítida. Quero estudá-la com cuidado, cada cantinho.

— Fique com ele! — Bajda fez um gesto com a mão, espelhando genero­sidade. Ugarov observava Stella pelo canto do olho. Ela pegou a fotografia e a meteu em sua carteira. Seu rosto mantinha um ar de indiferença.

Quando elas, à noite, se encontraram a sós, na trincheira, Bajda disse:

— Você, hein! Quer a foto só porque ela mostra um homem nu? Então depois vai metê-la entre as pernas, né? Quem iria imaginar uma coisa dessas de você. . .

Stella esticou o lábio inferior para a frente em um gesto de desprezo.

— Em outra coisa você não pensa, não é?

— Então não é nisso que a gente vai pensar?

— Não! Ele estar nu é mero acaso! Mas é ele! Um retrato dele. Quero tê-lo sempre comigo. Desejo que esta fotografia me advirta constantemente: não terás paz, enquanto ele viver!

— Recorte a fotografia e a cole entre os seios — disse Bajda e riu gosto­samente. — Poder-se-ia acreditar que a guerra só existe entre vocês dois.

— É quase isso. — Stella Antonovna fitou o céu. Nuvens escuras de ve­rão passavam pela terra sombria. — Hoje de noite ficarei perto do rio. Quero experimentar o novo telescópio de mira noturno. Portanto, não me procurem. . .

— Você tem a esperança de que ele também esteja no rio... — Soja Va­lentinovna segurou Stella pelos ombros e a virou em sua direção. — Quem não a conhece pode até pensar que você está falando de um amante. . .

— Seria sorte, Soitschka. Mas nos novos buracos haverá decerto alguns homens.

— Tenha cuidado!

— Possuo uma arma melhor que a deles. — Ela sorriu e abraçou Soja Valentinovna como uma irmã”. — E eu sinto o inimigo. Farejo-o com todos os po­ros da minha pele. Não tenha medo, Soitschka. . .

Segurou a nova carabina sob o braço, saiu da trincheira e depois de al­guns metros desapareceu na noite escura.

Hesslich e Dallmann ficaram juntos essa noite e andavam ao longo do rio, pró­ximo à margem. Os dois pioneiros mortos a tiros tinham sido trazidos a terra alguns metros mais adiante. Seus cadáveres jaziam na tropa da companhia e aguardavam para ser enterrados. O comandante da divisão, um capitão, obser­vava os mortos, sacudindo a cabeça.

— Essas malditas mulheres! Por que diabo a nossa artilharia não bombardeia essas posições com uma salva intensa, durante uma hora? Poupar munição! Aqui vale a pena gastar umas centenas de granadas. Durante quan­to tempo esta liquidação de homens, um a um, ainda vai continuar? Dá von­tade de vomitar!

Hesslich imaginava qual seria o melhor posto de observação. O que esta­rão pensando lá do outro lado? Provavelmente a mesma coisa que nós pensa­ríamos, se estivéssemos no lugar deles: lá, onde foram liquidados os dois pio­neiros, não haverá outra ação. Isto vai de encontro a toda experiência. O pró­ximo golpe virá de direção completamente diferente. Portanto, é melhor pre­caver-se contra todos os lados.

Mas um pensamento de senso comum aqui estava fora de lugar e Hesslich sentia isso. Exatamente porque a experiência ensinava que um ataque raramente ocorre no mesmo lugar do anterior — é raro um gatuno entrar duas vezes na mesma loja — exatamente por isso havia muita coisa a favor da idéia de que, no caso dessas moças, elas poderiam esperar uma oportunidade no mesmo local.

Quando Hesslich afirmou que queria ir para o lugar exato do rio onde os pioneiros tinham morrido, Dallmann o fitou com espanto.

— Uma boa idéia! Ali hoje ficaremos em paz.

— Teremos de tomar muitíssimo cuidado, Uwe!

— Lá? — Dallmann riu. — Lá poderemos dançar ciranda na água. — Fez um gesto amplo com as mãos, como se quisesse abraçar a terra e o céu. — E depois a noite! Onde fica a luz das caixas? Afinal de contas, aquelas mulheres não podem embutir olhos de coruja!

— E se o fizerem?

— Peter, não pire! — Dallmann riu alto. — Desde que o coelhinho louro pula por lá, temos de pregar sua calça a golpes de martelo! Rapaz, se ela vier, não o fará para dar uma trepada com você! Se vier, você pode contar com um buraco na cabeça!

— É isto que espero!

— Como?


— Espero estar frente a frente com ela.

— O tigre e o caçador.

— Ou a caçadora e o urso. Depende do ponto de vista. Você viu como ela me ameaçou com os punhos? Aquilo foi uma promessa.

— Foi besteira! — Dallmann pôs a mão no bolso, tirou um pedaço de chocolate e ofereceu-o a Hesslich. — Você quer um pouco? Isto é Choco-Cola.

— Obrigado. . .

— Um comprimido de Pervitin?

Hesslich fitou Uwe com espanto.

— Uwe, você toma Pervitin?!

— Esta é a quarta noite em que eu mal posso dormir. Aí Pervitin é melhor do que colocar um fósforo para ajudar a manter os olhos abertos.

— Onde arranjou os comprimidos?

— Com um primo da Força Aérea. Caçador noturno. Eles se drogam com um troço destes e a noite fica com um tesão igual ao da Emma da Rua do Canal. Tenho toda uma caixinha deles. . .

— E há quanto tempo você já está tomando isso?

— Seu abelhudo! — Dallmann encostou-se em um arbusto. Estavam agora na margem do rio, mas bem protegidos pela densa vegetação. — Isto é um inquérito?

— Mais ou menos.

— Então escute, apóstolo: enquanto eu for obrigado a carregar um fuzil, engulo Pervitin! E agora não vá desmaiar de susto! Esta pequena pílula bran­ca representa minha mão segura, de causar arrepios. . .

— Então sem Pervitin você tremeria?

— É, mais ou menos. . .

— Então você está dependente desta droga, Uwe. Céus. . .

— Não diga bobagens! — Dallmann fitou a noite escura, desviando o olhar de Hesslich. Mal era possível distinguir a margem soviética. Quem iria atirar assim?! — Dependente de drogas! Eu uma vez ouvi a história de uma cantora, que antes de qualquer apresentação no palco precisava de um homem na cama. Senão, sua voz sumia! E a isto você chama de quê? Por acaso o meu problema é diferente? Uma pilulazinha destas. . . é mais um caso de psicologia!

— O Major Molle sabia disso?

— Uma pergunta mais besta você não consegue imaginar?! Posen já era suficientemente aborrecido. E depois ainda sendo observado?! Peter. . . — Dallmann afastou-se do arbusto. — Esquece! Eu nem precisaria ter contado is­to a você, mas você é o meu único amigo, realmente o meu único. E agora cale a boca, tá? Vamos continuar?

Foram em silêncio para o local onde Sibirzev surpreendera os dois pio­neiros. Alguns metros antes da beira do rio desapareceram na grama e engatinharam em direção à água. A margem era plana e arenosa, uma verdadeira en­seada, uma praia à beira do Donez. Provavelmente fora isto que os pioneiros pensaram, ao se jogarem na água.

Hesslich e Dallmann estavam estirados à beira desta praia tentadora. Ela não era larga, talvez tivesse cinco metros. Atrás fluía a água, lentamente. Na parte do rio mais próxima da margem soviética surgira, em função do baixo nível das águas, um banco de areia plano, comprido, que se assemelhava, na escuridão, a uma costa de tartaruga pálida e arqueada. Com as próximas chu­vas desapareceria novamente no Donez; se a seca continuasse, cresceria mais um pouco. Normalmente era inundado, nada crescia nele, nenhum fio de grama. Era uma areia fina, com alguns cascalhos, que incessantemente se formava e desaparecia.

Hesslich e Dallmann não prestaram atenção no banco de areia. Era demasiado plano e vazio, para oferecer qualquer perigo. A margem soviética jazia escura e inalcançável, na noite. Lá longe, no horizonte, uma luz pálida brilhava no escuro. Lá, nos estados-maiores soviéticos e nas bases de retaguar­da, as luzes ardiam, sem que ninguém se preocupasse com isso. Afinal de con­tas, quem os iria perturbar? A Força Aérea Alemã estava feliz por conservar seus aviões. As perdas nos combates aéreos sobre a Alemanha, sobre o Canal da Mancha e sobre a Inglaterra eram suficientemente grandes, e a saraivada de bombas impedia as substituições.

Stella Antonovna, ao alcançar, em plena escuridão, a posição que buscara, tinha cavado um buraco plano, estreito, no banco de areia, atrás do “dorso da tartaruga”. Assim como focas e pingüins se enfiam na areia, ela ali se aninhara.

O banco de areia lhe parecia o melhor lugar de onde poderia experimen­tar sua nova arma. Não muito longe dali Sibirzev surpreendera os dois nada­dores; agora os alemães poderiam acreditar que nessa noite nenhum russo sur­giria no mesmo local. Talvez tomassem menos cuidado nessa parte do terreno.

Os mesmos pensamentos que os de Hesslich! Um vínculo do destino começou a ligá-los indissoluvelmente.

Ainda não viam um ao outro. . . Hesslich estava deitado fora da praia arenosa, Stella plana em seu buraco de areia. Só o cano da carabina aparecia, qual linha fina, sobre o “dorso da tartaruga”. O novo telescópio de mira noturno, com uma luz poderosa, era invisível contra o fundo escuro. Esta era a grande vantagem de Stella: com sua ajuda ela via e percebia mais do que ocorria no lado alemão, do que Hesslich e Dallmann, com suas lentes comuns, podiam perceber no lado russo.

O Coronel Starostin não entoara cânticos de louvor exagerados. Tudo que dissera de positivo a respeito da nova arma era correto, a Tokarev SVT já existia desde 1940. Ela era um aperfeiçoamento da SVT 1938, uma arma que nunca pudera se impor, adequadamente, no Exército, já que a trave de segurança, que era cerrada por trás, se mostrara imperfeita. Grãos de areia, pedaços de gelo ou outros corpos estranhos muitas vezes impediam o carregamen­to normal da arma, razão pela qual as mais apreciadas eram, como sempre fo­ram, a velha Moisin-Nagant 1981/30, muito boa, e a carabina M 1938.

Isto naturalmente não deixou em paz os construtores da Tokarev; desta forma apresentaram uma arma que praticamente possuía tudo que se poderia desejar: precisão e robustez, como se necessita na Rússia, força de impulso e carga a gás, uma força de impacto violenta e, como ápice, um telescópio de mira, mediante o qual Stella, nessa noite escura, via a margem alemã como se estivesse iluminada por um clarão indireto e fraco.

Stella examinava a encosta arenosa da margem com o telescópio. Os ale­mães estavam próximos: percebia reflexos luminosos mínimos que passavam por frestas em diversas ruínas. Para reconhecer algo com mais minúcias, para isto a distância era grande demais. Mas, como um caçador, que sabe que só a paciência pode seduzir o êxito, que calculou certeiramente que a presa só po­de se achegar por um atalho determinado, Stella aguardava paciente e tranqüi­lamente um momento propício. O horror desta espreita, o diabólico desta morte a partir da escuridão, a frieza deste homicídio pela retaguarda não a mobilizavam. Era tempo de guerra, lá adiante estava o inimigo — e só isto con­tava, nada mais havia a pensar.

O que fora que Ugarov contara e provara com documentos na última noite de educação política? Na região ao sul de Borissov, onde operavam gran­des grupos de guerrilheiros, sabotando as linhas de aprovisionamento alemãs — uma tarefa honrosa e corajosa, já que a luta visava à libertação da pátria e à expulsão dos fascistas — lá tinham aprisionado um grupo de 134 corajosos guerrilheiros. Homens e mulheres, havia até crianças no grupo. Foram surpre­endidos em um acampamento florestal, onde viviam em cavernas subterrâ­neas. E aí veio a SS, um grupo da SD, e enforcaram tanto os homens como as mulheres. Despedaçaram as cabeças das criancinhas. Nenhuma delas sobrevi­veu. Esta história o Tenente Ugarov contou com a voz trêmula de emoção, e depois recitou um poema: “Nos olhos das crianças espelha-se a figura da mãe...”

Todas choravam e o ódio recrudesceu em suas almas. Não, ficar deitada aqui e espreitar os alemães não era assassinato a sangue-frio. Era uma pedrinha de patriotismo, e a nova Rússia, liberta, mais linda seria construída por uma porção dessas pedrinhas.

Uwe Dallmann cocou a testa e deu uma cotovelada em Hesslich.

— Então, quem é que está com a razão? Nos meus intestinos acontecem mais coisas que aqui!

— Cale a boca — sibilou Hesslich, baixinho.

— Oh cara, os Ivans ainda não estão a ponto de colocar em ação peixes que atiram! Homem, Peter, onde é que pode estar alguém? O rio está tão liso como a pele da bunda de uma moça, o banco de areia é como uma coxa comprida, linda, apetitosa, dá vontade de dar uma mordida. E a outra margem, não está vendo? Aí o pano caiu!

— Não confio nisto tudo. . .

— Tolice, Peter! Eles não conseguem nos ver, assim como nós também não o conseguimos. Preste atenção. . .

Antes que Hesslich pudesse interferir, Dallmann colocara a boina no pu­nho e a levantou bem alto. Hesslich o puxou pelo braço, mas Dallmann ape­nas ria, sem inibições; fez o punho dançar no ar e depois escorregou para o la­do, para que Hesslich não pudesse mais agarrá-lo.

— Seu idiota! — gaguejou Hesslich e sentia, como seus dentes estavam chocalhando. — Seu idiota completo! Venha cá, Uwe. . .

No banco de areia Stella estremeceu, ao perceber do outro lado um movimento que mais adivinhava do que via. Examinou os arbustos com o telescó­pio e de repente viu no reticulado uma boina alemã — uma boina que, fantasmagoricamente, dançava sozinha no meio da noite. Stella, lentamente, abriu o ferrolho de segurança com o polegar. A boina desapareceu na grama alta. Stella se enterrou ainda mais no buraco que cavara na terra, pondo-se à vonta­de; encostou a coronha firmemente contra o ombro e permaneceu deitada co­modamente, mas com os músculos tensos, atrás do telescópio de mira.



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