Konsalik b de atalhão Mulheres



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— Falarei imediatamente com ele — disse Ugarov, com olhar sombrio.

— Nem deveria vir! — berrou Bajda. — Quem sabe que tipo é? Talvez um espião? Um miserável fofoqueiro? Ouvidos e olhos dos estados-maiores da re­taguarda?! A primeira coisa que irá fazer é dar a notícia: Capitoa Bajda e o Tenente Ugarov vivem e dormem juntos, no mesmo abrigo, como se fossem um casal. . .

— Eu o matarei! — rosnou Ugarov. — Sim, é isso, liquidá-lo-ei. Vou matá-lo, se descobrir que é um espião do Estado-Maior! Que bom, que a gente tenha o homem de boina de tricô. . . podemos fazê-lo de bode expiatório de tudo!

Naturalmente tudo isso não passava de reflexões teóricas, que não conduziam a nada de concreto. Ugarov tentou novamente com o estado-maior do batalhão, mas de lá lhe disseram, friamente, que se tratava de uma decisão do general, e se ele, o Tenente Ugarov, por acaso quisesse criticá-la, se fosse esse seu desejo. . . muito bem, notificariam o Exército.

Ugarov desistiu de discutir com o camarada do Sétimo Exército. O que poderia conseguir, a não ser uma chuva de palavrões e uma pergunta do batalhão: quem é este idiota Ugarov? Tem coragem de criticar o general? Camara­das, fiquem de olho nele. . .

E era exatamente isso que Ugarov queria evitar a todo custo. Não criar sensação, não chamar a atenção de alguém superior, manter-se um grão de areia em um monte de outros grãos — aí a gente vive tranqüilo, mesmo que, uma, vez ou outra, se sinta o peso de uma bota. É assim que se precisa pensar. Chamar a atenção dos poderosos, ao contrário, pode ser nocivo.

— Temos de aceitá-lo! — disse Ugarov a Soja Valentinovna. — Mas dei­xe-o chegar! Vou dar-lhe uma recepção, que sentirá nas entranhas!

Mas isto não foi tudo que aconteceu nesse dia. Juntamente com a notícia da chegada do novo camarada, Stella Antonovna recebeu ordens de voltar com o carro de provisões que iria trazer o homem já malvisto antes de chegar.

— E por acaso isto será uma troca? — berrou Bajda no telefone e franziu o cenho. — Então querem tirar Stella de mim? A melhor que existe?! Camara­das, protesto! Sim, irei até a presença do General Conjev! Eu mesma! O que pretendem fazer conosco? Somos uma unidade de elite ou uma estação de trem onde se trocam os comboios?!

Soja Valentinovna jogou-se de corpo e alma no protesto e não havia mais como fazê-la parar. O comandante do batalhão desligou o telefone, suspiran­do, e quando o telefone, logo após, voltou a tocar, disse a seu ajudante com um olhar de súplica:

— Se for novamente Soja. . . caro amigo, liquide-a com os palavrões mais brabos que conhece. Isto é a única coisa que ela entende! Eu capitulo diante desta fúria! Como é que o Ugarov a agüenta! Só por isto merecia uma condecoração. . .

Stella Antonovna aceitou a ordem sem se perturbar. Modificara-se nestes últimos dias, ficara mais quieta, pensava muito e dava poucas respostas. Muitas vezes ficava sozinha entre as ruínas do povoado, arava a terra ou ficava deitada às margens do Donez e observava o lado alemão.

A gente se modifica quando o diabo nos cumprimenta, isto é compreensível. Fica-se mais pensativa e internamente aceita que pode sair perdedora no conflito. E neste caso perder era o equivalente a morrer — uma morte honrosa depois de um combate impiedoso, a dois, mas afinal de contas não era muito importante como se morria.

Stella Antonovna jamais pensara tanto e tão intensivamente na morte como nestes dias. Nunca tivera medo de morrer. Quando tais idéias surgiam em sua mente, costumava reprimi-las com otimismo: Eu sou mais rápida do que os meus adversários. Eu sempre venço! A mim jamais pegarão!

Mas isto tudo agora se modificara. O homem com a boina de tricô a cumprimentara. Sorrira para ela, e ela não conseguia esquecer aquele sorriso. Fizesse o que fizesse, onde estivesse, tinha de pensar nele. Era como uma febre que dela se tivesse apoderado, dominava sua vida com uma compulsão esmagadora e a punha em tal estado de inquietação interna, que ameaçava paralisar sua respiração. Quer estivesse deitada na grama e fitasse o céu azul, amplo, estival, quer trabalhasse no jardim ou estivesse almoçando com as outras moças, quer cantasse, feliz, em ronda, quer dançasse ao som da bajan, ou ficasse acordada de noite, e tentasse captar os ruídos da estepe — sempre o homem do outro lado estava com ela, ela o via acenar, seu riso a iluminava. Ela não conseguia liberar-se da imagem de seus braços abertos, que a chamavam: Venha! Atravesse o rio! Aqui estou à sua espera. . .

Ele se tornara parte de seu destino, sentia. Sua vida só conduzia em sua direção, passava por ele, o trespassava ou terminava por ele ou com ele. Este discernimento a tornou quieta e pensativa.

De noite Stella vestiu o uniforme, pôs a sua Moisin-Nagant nas costas e esperou pelo carro de provisões. Ugarov, Bajda e um grupo de camaradas esta­vam em volta, para observar o homem novo, que viera, a comando do general, participar da vida na gaiola de gatas selvagens.

Soja Valentinovna se tranqüilizara um pouco. Aparentemente não se tratava de enviar Stella para outra divisão. Ugarov conseguira falar com o aju­dante do batalhão.

— Como, com bagagem? — o primeiro-tenente devolvera a pergunta, atônito. — Mas quem foi que ordenou que Stella Antonovna viesse com equi­pamento completo? O que está acontecendo com vocês aí fora? Por acaso o sol está ressecando o líquido de seus cérebros? Dissemos apenas: Stella deve se apresentar aqui. Mais nada! Se devesse vir com equipamento completo, tê-lo-íamos dito. Victor Ivanovitsch, não se deixe paralisar por Soja Valentinov­na. . .

Esta notícia tranqüilizara um pouco Bajda, mesmo que ela continuasse a berrar, feito louca, que o ajudante era um bode fedorento. Portanto, só faltava a vinda do novo camarada, o melhor fuzileiro masculino do Sétimo Exér­cito. Ugarov jurara dar-lhe uma forte bronca logo que chegasse, para que ele percebesse, imediatamente, o que o esperava nessa unidade. Antes de mais nada, queria humilhá-lo com a pergunta: “Antes de arrumar sua cama, cama­rada, primeiro me explique por que Lenin usava uma barba pontuda!”

Era impossível responder a isto. Esta pergunta iria confundir quem quer que fosse. Ele se sentiria pouco culto, até idiota, e nada prejudica mais a repu­tação de um homem, se dele se diz: “Vejam como é burro! Um verdadeiro oligofrênico!” Com toda a certeza o novato não iria suportar tal choque.

Na hora dó crepúsculo o carro com as provisões chegou, um caminhão velho, barulhento, pintado com cor de terra da estepe, cujo motor berrava, cuspia e gemia. Provavelmente era o veículo mais antigo que conseguiram arranjar na frente. Freou com guinchos e resfolegando. Ugarov deu um tapinha nas costas de Bajda, para tranqüilizá-la, e se dirigiu para o caminhão.

Da cabine do motorista desceu um homem, fez três mesuras e depois cumprimentou o tenente em posição de sentido.

— Sargento Bairam Vadimovitsch Sibirzev, a serviço!

Pois é, ali estava ele. Não só vinha da Sibéria, o que imediatamente se percebia pelos olhos verde-acinzentados, oblíquos, ardilosos, e maxilares proeminentes, mas até se chamava assim. Era de estatura mediana e forte, com ombros largos, pernas grossas e coxas redondas, um verdadeiro corre­dor das florestas da taiga, um caçador de renas e linces, que pernoitava em buracos de terra e se podia nutrir de raízes cruas. Sorriu brejeiramente e pis­cou o olho para as moças. Seus cabelos pretos estavam cobertos de poeira, pela viagem através da estepe, sua carabina estava jogada nas costas, como a de Stella Antonovna, que aguardava ao lado de Soja Valentinovna. Como Ugarov não respondera ainda à sua apresentação, Sibirzev permaneceu em posição de sentido.

Ugarov respirou aliviado. Constatou satisfeito: não representa nenhum perigo para mim e para Soitschka. Claro, é um homem, mas parece-se mais com um macaco. Esta apreciação era excepcionalmente agressiva, pois Sibirzev era um homem da taiga, de boa aparência, infatigável, inatingível por tem­pestades de neve, por ventos quentes, por enchentes e por pântanos ardilosos. Na realidade, ninguém conseguia dobrá-lo. Isso já havia sido constatado por ocasião do seu treinamento especial em Ulan-Ude. Passara por um bordel como um incêndio desproporcional: ao sair, estava assobiando uma cançãozinha alegre, ao passo que todas as piranhas descansavam, exaustas, em suas ca­mas e gemiam, solicitando panos frescos.

Quem olhasse mais de perto para Sibirzev, poderia adivinhar algo parecido — suas pernas fortes, as coxas, o tórax grande, os músculos nos braços e nas costas, o pescoço gordo. . . Era da estirpe daqueles caçadores que perseguem um urso ferido durante dias, até que possam lhe arrancar a pele.

Ugarov, já mais brando, pois convencera-se de que Bairam Vadimovitsch não fazia o gênero da Soitschlca, perguntou em tom seco de comando:



— Descansar! Sargento, isto aqui é uma tropa especial! Antes de ir ocu­par seu catre, me explique primeiro por que Lenin usava uma barba pontuda...

Sibirzev relaxou, abriu a boca num riso largo e respondeu:

— Ele percebeu que uma barba comprida fazia com que a metade da so­pa ficasse presa nos fios. . .

Ugarov ficou sem saber o que dizer. Atrás dele Bajda bateu palmas, gritou: “Bravo, sargento!”, aproximou-se e lhe estendeu a mão. Bairam Vadimovitsch novamente bateu com os calcanhares —afinal de contas Bajda era capitoa e com isto superior ao tenente — enfiou a cabeça nos ombros e parecia uma estátua para a praça do mercado de Novoselitsa: O Combatente.

Ugarov fungou. Nada adiantara — ele teria de odiar Sibirzev e mantê-lo subjugado. Tem uma lábia maldita e também pensa rápido. O próprio Ugarov jamais conseguiria responder àquela pergunta maluca que fizera. Pelo menos não tão bem nem com tanta malícia.

— Pegue sua bagagem! — berrou Ugarov, quando a mão de Bajda deixou a larga garra de Sibirzev. — De que povoado vem o senhor?

— Eu sou de Evenke — respondeu Sibirzev e novamente piscou para as moças que estavam em volta, em pequenos grupos, rindo às escondidas. — Mas fui criado em Ulan-Ude com meu tio. Ele era padeiro-confeiteiro. Com 16 anos fui para a taiga, me juntar aos caçadores. . . não me dava bem venden­do biscoitos amanteigados e doces de mel.

— Eu já imaginava isso! — exclamou Ugarov, olhando de soslaio, zanga­do, para Soja, que se torcia de rir e empinava os seios para a frente, como se quisesse jogá-los, como minas, na direção de Sibirzev. — Que tarefa lhe de­ram? O senhor recebeu ordens especiais?

— Devo apoiá-lo, camarada tenente.

— A mim? Em quê? — Ugarov ficou vermelho de raiva. — Eu não neces­sito de apoio!

— O senhor tem problemas com os alemães.

— Nenhum que a gente não possa solucionar sem ajuda. Temos, entre nós, a melhor fuzileira da União Soviética.

— Eu sei. Stella Antonovna Korolenkaja. Ela está aqui?

— Presente. — Stella deu um passo à frente e fitou Sibirzev friamente.

— Você tem uma excelente reputação, camarada. — Sibirzev estendeu-lhe a mão mas Stella fez de conta que não a viu. Ela não podia explicá-lo, mas Bairam Vadimovítsch despertara imediatamente sua antipatia. Não sua aparência, não sua maneira de falar — apenas a sua presença bastava para alarmar a sua disposição de se defender. O seu instinto lhe sinalizava: ele quer tirar de mim o homem da boina de tricô! Só por isto veio, só esta pode ser a verdadeira ordem que recebeu. Ele deve me ajudar. O General Conjev não confia em mim, não acredita que eu possa liquidar sozinha esse diabo.

— Quantas marcas você tem em seu livro de tiros? — perguntou gelidamente.

Sibirzev retirou a mão. Sentiu sua animosidade, pois suas palavras pare­ciam golpes de chicote.

— Trinta e três. . .

— Miserável! — Stella Antonovna virou a cabeça e fitou Bajda. — Com 33 as piores entre nós se esconderiam de tanta vergonha.

Sibirzev lançou um rápido olhar para Ugarov, cujo sorriso aberto constatou seu temor: aqui, Bairam Vadimovitsch, você é uma visita indesejada. Vão infernizar sua vida quanto puderem. E,. você não vai ter paz. . .

Com um só movimento arrancou a carabina das costas e a segurou nas mãos. Com a mesma rapidez estava diante de seus olhos e o tiro ecoou. A cabeça de um girassol ainda diminuto voou, pelos ares, despedaçada.

Mas no mesmo instante em que Sibirzev apoiara a arma contra o queixo já o cano longo da carabina de Stella se ergueu. Seu tiro ecoou apenas um se­gundo depois, e acertou a maior parte do girassol despedaçado ainda no vôo.

Sibirzev baixou a cabeça, pousou a arma na grama da estepe, diante de seus pés e esticou as mãos espalmadas na direção de Stella. Um gesto de submissão incondicional. As moças, na retaguarda, bateram palmas, entusiasmadas. A nossa Korolenkaja! Quem poderá igualá-la?

— Bairam Vadimovitsch, metade da sopa ainda está colada em sua barba — disse Stella Antonovna quieta e dominadoramente. — Tente outra dispu­ta comigo, quando conseguir levar a sopa até a sua boca...

Ugarov sentiu-se no sétimo céu. Poderia abraçar e beijar Stella. Isto fora uma lição para esse megalomaníaco; com toda certeza, ele o sentiu! Vem para cá como se se tratasse de atirar em coelhos de neve! Vai ficar ale­gre e feliz quando lhe permitirem voltar para onde quer que estivesse antes de vir. Irá fazer sete cruzes, de tanto alívio.

— Vamos descarregar as provisões! — ordenou Ugarov acidamente. — O senhor, camarada sargento, irá começar a ajudar desde já! E depois o senhor irá assinar um relatório, que redigirei: uso indevido de arma e esbanjamento de munição para fins alheios à guerra! Vamos, mexa-se. . .

Sibirzev acenou e começou a trabalhar calado.

Esperem, pensava raivoso. Vocês ainda não me conhecem! Dão um pon­tapé na minha bunda, mas esta é mole e agüenta os golpes. Sua corja de safa­dos vaidosos, morarei em seus pêlos como milhares de piolhos! Por detrás de uma caixa de papelão, que retirara do caminhão de carga, fitou Stella An­tonovna. Ela estava um pouco afastada, aguardando a partida do veículo.

O que tem ela?, pensou Sibirzev. Por que me enfrenta com um ódio tão patente? O que foi que eu fiz? Mal a conheço, só uns minutos, disse que a admirava, e o que faz ela? Me cospe no rosto com palavras! É possível pergun­tar qual o motivo disso tudo? Eles todos são pessoas esquisitas aqui, o senti logo. Uma unidade de conspiradores! Bairam Vadimovitsch, aqui você será sempre um estranho.

Duas horas mais tarde o velho caminhão, em estado lastimável, voltou ao batalhão. Stella estava sentada na frente, ao lado do motorista, lá onde no caminho de ida ficara Sibirzev. Bajda se despedira dela, como se Stella fosse fazer uma viagem sem retomo.

— Sibirzev informou por que foi enviado para a nossa unidade? - perguntou ela ao motorista, um jovem soldado do Exército Vermelho, com o rosto coberto de acne.

— Nenhuma sílaba, camarada.

— Então falou de quê?

— Contou histórias a respeito da taiga.

— Mais nada?

— Só a respeito das putas de Ulan-Ude. . .

O rapaz enrubesceu. Stella Antonovna pôs-lhe a mão sobre o braço.

— Está bem — falou quase maternalmente; no entanto, ela própria só tinha 20 anos. — Homens desse tipo costumam viver essa espécie de aventuras.

No batalhão foi recebido pelo próprio comandante, que a ajudou a descer do veículo.

— Você vai ficar espantada! — exclamou ele, muito alegre. — Você per­tence ao grupo dos escolhidos. Não. Não faça perguntas, Stella! Eu não vou lhe contar nada. Nós levaremos você. . . todos estamos orgulhosos de poder lhe oferecer.. .

A mesa parecia um altar.

Estava coberta com uma toalha branca, flores em redor, no fundo um retrato do Generalíssimo Stalin. Sobre a toalha estava um fuzil novo.

Stella Antonovna ficou atônita, sem saber o que pensar ou dizer, dian­te da mesa enfeitada. Ouvia atrás de si o pigarro, cheio de expectativa, do comandante. Depois de uma insinuação tão grandiloqüente ela esperara algo equivalente — uma comenda importante, uma distinção do próprio Stalin, qualquer coisa fora do cumum. E o que via agora! Uma arma! Realmente, era uma arma nova, com um modelo de telescópio de mira novo, não-familiar, com um cano relativamente reduzido, embutido em uma coronha de madei­ra fendida, com um depósito para a munição e um abafador de som, com duas fendas grandes. Stella fitou tudo isso e ficou calada. O que poderia dizer?

— Amanhã virá o Coronel Starostin da Central de Pesquisas de Armas e falará com você — disse, atrás dela, o comandante do batalhão, em tom quase solene. — E até o Camarada General Kitajev avisou que viria ver você. Que honra, hein? Estamos todos orgulhosos de você!

Stella Antonovna acenou.

— Que devo fazer? — perguntou.

— O que ela deve fazer? — O comandante aproximou-se dela e a abraçou. Vejam como está emocionada a nossa corajosa camarada. Podemos compreen­dê-lo! Venha, pegue a arma. . .

Ela curvou-se, retirou a arma de cima da toalha de mesa branca e a pesou nas mãos. Não era mais leve do que a sua velha Moisin-Nagant, mas o peso era mais bem distribuído. A arma se ajeitava logo na mão, como uma mola. Ao erguê-la, ganhar-se-iam frações de segundo, um intervalo de tempo mínimo, infinitamente pequeno, uma diferença ridícula, mas que em circunstâncias reais poderia decidir a favor da vida ou da morte.

— Esta é a nova Tokarev SVT, fabricada especialmente para fuzileiros de primeira categoria — informou o comandante do batalhão, como se estives­se explicando o valor de uma obra de arte rara em uma exposição. —O Coro­nel Starostin explicar-lhe-á tudo amanhã, e depois você pode treinar com a ar­ma e ficar com ela. Você é a única, em toda a divisão, que possui esta Toka­rev. Você vai ficar espantada com as coisas que ela pode fazer. Como já expli­quei, trata-se de uma fabricação especial!

Stella Antonovna levou a arma nova para o seu alojamento. Depois de um bom jantar com os camaradas oficiais e uma garrafa de vinho da Criméia, ela se fechou no quarto e pôs a arma em cima da cama. Agora, a sós com a no­va arma, todos os pensamentos, que a dominavam há dias, voltaram.

Você está frito, sua boina de tricô lá do outro lado, pensou, e fechou os olhos. Lá estava ele de nova no Donez, rindo, de braços abertos. Frito, seu diabo! Agora eu possuo a melhor arma do mundo. . .

Treinou duas horas seguidas com a sua nova Tokarev. Deixou-a cair, fê-la rolar pelo chão, jogou-se atrás da mesa, da cama, das cadeiras, protegida, e sempre, em todas as posições, acertava no alvo visado, escutava interiormente o estalido semelhante a um chicote e via cair o adversário.

Mais tarde estava deitada, com a arma a seu lado, qual amante. Adormeceu profundamente e sonhou com o rio, em cuja margem ela ia e voltava, ficava à espreita do homem com a boina de tricô. Mas ele não vinha, ela até o chamava, incessantemente. . . No sonho o terreno estava vazio, o rio pesado como chumbo, a estepe cinzento-acobreada e seca, o céu sombrio e ameaçador. Não conseguia perceber nenhum sinal de vida a seu redor, apenas ela mesma vivia ainda e clamava em um isolamento, um silêncio ilimitado.

Não era um sonho bonito mas ela não gemia. Dormia apertando a arma contra a coxa, o seu seio direito sobre o cano, o telescópio de niira se aconchegava em seu colo. . . e seus nervos o percebiam como tranqüilizador.

Por volta de meio-dia o Coronel Leonid Nicolajevitsch Starostin apareceu em companhia de três oficiais. Stella Antonovna estava à espera deles no gabinete do comandante. A arma fora posta em cima de uma mesa, diante dela, agora já com o depósito de munição repleto e pronta para atirar.

Starostin, que Stella via pela primeira vez, a fitou entusiasmado. Que cisne, pensou. Já a fotografia, que o General Kitajev me mostrou, era impressionante, apesar do fotógrafo dever ter sido um cego. Uma foto miseravelmen­te malfeita — dever-se-ia obrigar o filho da puta a engolir o negativo e todas as cópias! Ela é uma verdadeira beleza! Decerto! Cachos louros, olhos azuis, um corpo forte mas não aparentando gordura. E pernas esguias ela tem, isto a gente até adivinha, apesar destas botas pesadas! E o que a blusa esconde, pois sim, camaradas, será permitido estalar a língua em segredo? Então esta é Stella Antonovna Korolenkaja. A moça no roteiro íngreme para o posto de Heroína da União Soviética! Com seu centésimo acerto o Camarada Stalin dar-lhe-á essa honraria máxima. E no entanto parece uma filhinha que faria bater mais forte, de alegria, o coração de qualquer pai. . .

Starostin rapidamente alterou esta sua idéia um tanto burguesa a respeito de Stella. Inicialmente deu-lhe uma explicação pormenorizada acerca do trabalho de elaboração dessa arma de precisão e de todas as minúcias relevantes. Agora ela o sabia: uma Tokarev SVT, dotada de um carregador a gás, que punha os cartuchos automaticamente no cano, não precisava mais de trabalho com a alavanca da fechadura; o depósito tinha espaço para 10 tiros, o número de tiros, 30 por minuto, era três vezes maior do que a da sua antiga Moisin-Nagant; a rapidez da boca alcançava 829 metros por segundo, o visor alcançava até 1.500 metros e a distância necessária para um tiro absolutamente certeiro era de 500 metros. O novo telescópio de mira possuía um dispositivo para visar à noite, um campo de visão maior, e abrangia, de forma cristalina, qualquer objeto a uma distância de 1.400 metros. Era a melhor arma que jamais fora preparada para fuzileiros na União Soviética.

Depois dessas indicações Starostin desmontou a arma e montou-a nova­mente. Após fazê-lo, empurrou-a na direção de Stella e disse suavemente:

— Agora você também experimente, Camarada Korolenkaja.

Stella pegou a arma, desmontou-a com seus dedos ágeis, mirou desafiadoramente o atônito Starostin e com a mesma rapidez a montou novamente. Isto ela também treinara na noite anterior. Só se pode dominar uma arma, quando se a conhece até o último parafuso. Assim como sói acontecer com as pessoas, cujo bem-estar é nossa responsabilidade, é preciso conhecer a anatomia para reconhecer a doença.

A segunda surpresa de Starostin ocorreu no campo de tiro ao alvo.

Stella Antonovna atirou 10 vezes; ficou, então, sabendo como reagia a arma, que perfídias ocultava, quais eram seus defeitos. De modo geral, a nova Tokarev era uma ferramenta de mestre. Acertava em cheio e não insegura pela dispersão. Tudo que se visava, era atingido — o êxito dependia exclusivamente da qualidade da mira e de mão tranqüila.

Quaisquer que fossem os alvos apresentados a Stella — ela acertava bem no centro. Garrafas atiradas ao ar quebravam. Alvos móveis, como flores balouçando ao vento, espirravam para o céu. Starostin, em admiração silente, acolhia em si o quadro com que se deparava: uma moça loura, de pé, as per­nas um pouco afastadas, no chão da estepe, encostava uma arma contra o queixo e atirava, e cada tiro representava um acerto.

Ao final Stella Antonovna mostrou aquilo com que, já na escola especial de Veschnjaki, deixara atônita de espanto a Coronel Olga Petrovna Rabutina: rapidamente, um atrás do outro, disparou cinco tiros na direção de uma trave de madeira, apoiada em um teto de palha, a uma distância de 200 metros. Quando foram verificar, só acharam um buraco. Starostin ficou encabulado, e disse em tom de desculpa:

— Qualquer pessoa pode ficar cansada, Stella Antonovna. Não fique amargurada!

Stella, no entanto, riu alto, mostrou o buraco e respondeu:

— Fure com uma faca, Camarada Coronel! O senhor realmente acha que eu iria desperdiçar um só tiro?!

Starostin sentia que seus cabelos se arrepiavam. Mandou alargar o bura­co e foram achados cinco projéteis, um em cima do outro.

— Isto ninguém vai acreditar, se eu contar! — exclamou com a voz em­bargada de emoção e deixou as cinco balas, rolarem, de lá para cá, na mão. — Como se pode explicar isto? É inacreditável! É contrário à lei da natureza, uma coisa ser exatamente igual à outra, mesmo que pareça igual. Stella An­tonovna, a senhora está virando para baixo as leis da física! Como pode ser?! A senhora é mágica?



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