Konsalik b de atalhão Mulheres



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Dallmann, que procurava seu amigo Hesslich, achou-o junto ao túmulo de Ploetzerenke. Hesslich se postara diante do capacete de aço pendurado na cruz de bétula e fitava o pequeno monte de terra.

— Peter, venha! — exclamou Dallmann um tanto grosseiramente. — Afi­nal de contas, ele não foi um grande amigo seu.

— Descobri que encontraram nele balas soviéticas.

— E daí? — Dallmann mordia o lábio inferior.



— Portanto, elas estiveram aqui e ninguém as viu! — Fitava o túmulo ri­gidamente. — Se pudéssemos perguntar a ele. . . Afinal de contas, não estava sozinho no celeiro! De noite! Ploetzerenke, sozinho? Não, ele era um homem gregário, sempre necessitava de gente a sua volta. Não era do tipo que se isola. Para quê? Para que dormir sozinho em um celeiro, se nos abrigos os jogadores de skat o aguardam? Isto não casa. E se ele não estava sozinho, onde estão os outros? Por que se escondem? Não falta ninguém. Ninguém foi seqüestrado pelas mulheres, como naquela vez em Tschjertkovo. E se as moças estiveram aqui, é absolutamente fora de questão que só tenham matado Ploetzerenke e deixado os outros fugir! Seus livros de marcas de tiros são bíblias. . . — Hess­lich fitou Dallmann pensativamente. — O que realmente aconteceu, Uwe?

— Por acaso eu sou Hanussen, o profeta? Além disso ninguém exige de você que deslinde este enigma. . .

— A mim preocupa o silêncio horripilante em que tudo aconteceu. Isto mostra que elas também podem nos surpreender.

— Olhe, agora nós vamos primeiro à cozinha de campanha e comeremos até ficarmos redondos como uma bola! — convidou Dallmann, com uma ale­gria forçada. — Tem Gulasch com massa. E depois um pudim Wackelpter. Quando uma coisa redonda dessas está diante de mim, no prato, a tremer, sempre penso em uma teta de vaca. . .

Hesslich deixou Dallmann plantado diante do túmulo e foi embora. Dall­mann encheu as bochechas de ar, disse, baixinho: “Uff!” e o seguiu manten­do certa distância.

Schanna foi operada. Galina Ruslanovna fizera exatamente o que Ursbach pretendera fazer — aumentar o canal da ferida, retalhá-lo, e limpá-lo cuidado­samente com uma solução que deveria combater a infecção. Dera a Schanna uma injeção contra a febre alta e o tétano. Mais não era possível fazer agora — pelo menos não ali, na frente, na trincheira.

Nos Estados Unidos da América estavam fabricando um remédio milagroso, do qual se esperava que, por força do auxilio militar americano, cedo também chegaria à Rússia. Seu nome era penicilina. Parecia que se fundamen­tava em um cogumelo mofado, com a propriedade de devorar e digerir, sem problemas, as bactérias. Em algumas conferências esse medicamento milagro­so fora apresentado, dessa forma simplificada, a médicos do Exército. Galina também recebera, entrementes, um relatório científico, que prometia curas realmente miraculosas. Mas a penicilina ainda não chegara ao Donez e, portan­to, não poderia salvar Schanna.

De manhã cedo.Bajda apareceu, totalmente uniformizada, no abrigo da enfermagem. Schanna ainda estava profundamente anestesiada. Opalinskaja acabara de lavar as mãos e os braços e estava vestindo o avental branco. O rosto de Schanna estava magro e parecia assustadoramente infantil — uma cabecinha de boneca rodeada de cabelos pretos. Sua expressão já era de um desligamento sereno da terra.

Bajda aproximou-se do leito, curvou-se sobre o corpo magro e o fitou longamente. Galina Ruslanovna, que, no fundo do abrigo, fazia chocalhar uma chaleira e cozinhava um chá depois da noite trabalhosa, não a interrompeu, Lida Iljanovna, que ajudara a médica com a operação, caíra, fatigada, em um catre; dormia e nem acordou com o aparecimento súbito e barulhento de Soja Valentinovna. Uma enfermeira estava ocupada em esterilizar os instrumentos cirúrgicos que tinham sido usados na operação.

— Ela disse alguma coisa? — perguntou Bajda, repentinamente e com voz dura.

Galina esmigalhava um pedaço de chá compacto e o jogava na chaleira.

— Não. Está fraca demais para isso.

— Como está ela?

— Péssima. Precisa ir, urgentemente, para o hospital.

— Você sabe que isto é impossível! — A Bajda endireitou o corpo, sen­tou-se em um canto do catre, no qual Lida dormia, e apertou as mãos entre os joelhos. — Não temos, entre nós, uma ferida chamada Schanna Ivanovna.

— Poderíamos dar uma explicação. . .

— Eu não dou explicações, só faço relatórios claros! — Olhou novamen­te para Schanna e empurrou o lábio inferior para a frente. — Será que agora já sabem algo de mais seguro desse seu aprisionamento maldito?

— O soldado fascita, que Marianka apelida de “touro”, manteve Schanna escondida durante seis dias. Lida e Marianka o liquidaram.

— Ela. . . ela foi sua puta? Mal consigo pronunciar isto. . .

— Isso não sabemos. — Galina jogou água fervendo sobre o chá. Este ti­nha de ser preparado da forma mais simples possível. Na linha da frente não existia um samovar, como era de uso geral nos estados-maiores. — Não acredi­taria que ela fizesse algo desse tipo.

— Mas ficou seis dias com ele. . .?

— Ficava mais fraca a cada dia que passava.

— Tão fraca que não poderia dar um jeito sozinha?

— Ela estava esperando que a buscássemos. Afinal de contas, não nos deu um sinal? Em função dessa esperança agüentou tudo. Recebera a ordem de matar 10 alemães. Quando finalmente se deparou com uma oportunidade, conseguiu transmitir sinais. Deveríamos registrar o “touro” em seu livro de tiro, isto seria justo.

— Justo seria formular uma centena de perguntas e emitir uma centena de julgamentos.

— Por quê? — Galina encheu uma xícara com o chá. Apoiou-se na pare­de do abrigo e bebeu em goles pequenos e cuidadosos. — Soja Valentinovna, por que você é tão inflexível? Eu sei, ouvi-o por toda parte. . . você é mais te­mida do que qualquer outro comandante. . .

— Isto me alegra! — Bajda não modificou sua atitude. — Nem pode ser diferente. Afinal de contas, somos a melhor unidade do Exército Vermelho! Graças à nossa disciplina! E ela — Bajda fez um movimento com a cabeça na direção de Schanna — ela me difamou! Era uma das melhores. Ter-se-ia transformado numa Heroína da União Soviética, eu sei disso! Assim, co­mo Stella e Lida se tornarão heroínas. E talvez Marianka e Vanda também. A maioria das heroínas são da minha unidade! Por acaso isto não é um compro­misso, Galina Ruslanovna?

— Por que diz você que Schanna “ter-se-ia” tornado heroína? Ela ainda vive. . . e continuará vivendo, se a levarmos imediatamente a um hospital! Ela não difamou você. Ela não foi covarde, não humilhou você, mas agüentou to­dos os sofrimentos, para nos dar um sinal luminoso! Que mais poderia ter feito?

— Não se deixar aprisionar pelos alemães!

— Isto pode acontecer com qualquer uma de nós. Até com você. . .

— Vocês têm medo de mim. . . e me conhecem tão pouco! Na escola mi­litar de Frunse aprendemos muitas coisas. Lemos poetas alemães, estudamos os melhores estrategistas militares alemães, discutimos a ciência militar alemã. Na época dos czares havia muitos estadistas e generais alemães. E foi aí que encontrei uma frase, de um poeta alemão, que atingiu a minha alma como um raio. Compreendi subitamente por que os alemães sempre venciam, por que eles, apesar de sempre serem inferiores no que diz respeito a recursos mate­riais e humanos, ainda atacavam, mesmo quando uma ofensiva era pura loucu­ra? Atrás de seus oficiais, corriam diretamente para os braços da morte. Por quê? Agora eu o sei. Este poeta alemão. . . seu nome é Walter Flex; natural­mente você não o conhece; afinal de contas quase ninguém o conhece, pois morreu em 1917, na Primeira Guerra Mundial, no combate pela Ilha Oesel. . . dele é a frase: “Ser oficial significava viver e ser um modelo para seus homens . . . morrer diante deles é apenas uma parte deste modelo.” Isto ficou gravado na minha memória, e também me diz respeito. E eu exijo de todas vocês: sa­ber morrer, para que possamos viver! — Olhou novamente Schanna, imóvel, deitada. — Foi por isso que ela me traiu, Galina Ruslanovna: Ela não soube morrer no momento certo. Permaneceu seis dias com um alemão. O que ela ainda vai querer me explicar?

Bajda se levantou, puxou o casaco do uniforme, para que ficasse, bem reto, e saiu do abrigo com o mesmo barulho com que nele entrara. Suas botas ressoavam nas tábuas de madeira e a porta se fechou com estrondo.

— E agora? — perguntou a enfermeira, junto do aparelho esterilizador, com voz de lamúria.

— Ainda não sei. —Opalinskaja bebericava o chá quente, que lhe parecia um verdadeiro elixir de vida depois da noite tão repleta de emoções. — Vamos ter uma briga feia! Mas ela não pode me dar ordens. Eu sou médica! O que vai acontecer com Schanna determino eu! Vai ser duro, muito duro. Aqui a conversa não é de poetas alemães, e sim a vida de uma das nossas camaradas. Isto eu vou ter de deixar bem claro para Bajda!

Schanna permaneceu anestesiada, inconsciente, até o cair da tarde. Pelo menos, assim parecia. Na realidade já acordara durante a visita de Bajda e ouvira esta manifestar seu desprezo. O desmaio fingido parecia a Schanna a me­lhor proteção para a ocasião. Queria ganhar tempo, um bocadinho só, sem perguntas, inquéritos, palavrões e humilhações. Uma pequena pausa para respirar, para readquirir forças e poder refletir como as coisas iriam se desenrolar daí em diante.

Como poderia ela responder a todas as perguntas que a atingiriam como golpes? Sim, fiz o papel de puta do alemão, ele me forçou, várias vezes duran­te o dia e de noite também, e eu tentei arrebentar-lhe a veia jugular com os dentes, mas falhei, assim como falhei em tudo nestes últimos meses. E sim, depois eu realmente estava fraca demais para me defender, só pude ficar dei­tada como um pedaço de carne, que ele moía, quase me rebentava cada vez; afinal de contas vocês o conheciam, o “touro”. Mas me digam, o que eu pode­ria ter feito, com a minha ferida no ombro, com a febre, com os calafrios? Ele sempre me amarrou e depois sentou-se ao meu lado, me deu de comer e de be­ber, cantou canções, tocou gaita e bandolim. . . Aí ele já não era mais um pa­tife, e sim apenas um rapaz.

Afinal de contas não consegui transmitir-lhes um sinal, para que vocês o pudessem matar? Ele não morreu? De que me acusam? Que ele me penetrou seis dias e seis noites, como um pau de gelo fervente, do qual eu não podia es­capar? Que eu não me suicidei? Mas me digam: com quê? Meus pés e minhas mãos estavam amarrados. Pode-se morrer, simplesmente parando de respirar? Mo demonstrem! Não dá, eu experimentei! Os pulmões são mais fortes, eles abrem a boca da gente. Precisamos respirar, quando se vive de oxigênio. Não é possível dar a si mesma uma ordem simples: pare de respirar! Isto não dá. É possível a gente se enforcar, se afogar, se asfixiar — quando as mãos estão li­vres! Mas de que me acusam? O que eu deveria ter feito? O que deixei de fa­zer? Soja Valentinovna, você, com a sua frase alemã do “morrer servindo de modelo”: como é que você se teria matado?! Explique isto!

As horas passavam. Galina Ruslanovna vinha de vez em quando, sentia o pulso de Schanna, auscultava seu coração, media a febre. E depois Schanna ficava novamente só.

Galina, ao deixar Schanna cada vez, pensava: o que ela pretende fazer? Galina já sabia há muito tempo que a paciente não estava mais inconsciente mas deixou que ela acreditasse estar iludindo todo mundo e não lhe dirigiu a pala­vra. Mas por que esse ardil? Ela estava esperando o quê? Será que desejava es­capar dos interrogatórios e salvar algumas miseráveis poucas horas?

Por volta do meio-dia lhe aplicou mais uma injeção contra a febre e sor­riu silenciosamente quando Schanna estremeceu com a picada. Uma pessoa in­consciente não sente uma coisa dessas...

Depois Schanna estava novamente sozinha e perguntava e não achava respostas. Quando a injeção fez efeito, deslizou para um estado crespuscular, o presente se ampliou para o infinito, e ela percebeu, emocionada, que voltara ao Lago Baikal. Estava sentada à beira do lago, com seu grande rebanho de ovelhas; os cachorros cercavam o rebanho, nuvens brancas, volumosas, passa­vam lentamente pelo céu azul profundo. Deitava-se, as pernas nuas cruzadas, na grama alta. Sobre ela circulavam três açores e Schanna os ameaçou com o punho, mostrando-lhes sua arma. Era uma espingarda velha, com cano com­prido, que só podia ser carregada com um só cartucho e com a qual sempre se corria o risco de que o próximo tiro a desmanchasse. Mas Schanna conseguia, com ela, acertar qualquer ave no ar, qualquer rato à beira do lago, qualquer raposa ardilosa e qualquer lobo uivante no inverno.

Epa, o que estou vendo? Não vem aí Gamsat Vadimovitsch, o filho do pescador? Ei, Gamsat, estou deitada aqui! Você está me procurando? Como foi a pescaria hoje de manhã? Eu vi você no bote, daqui de cima. A rede pare­cia boa, metade cheia! Você pode estar satisfeito, não? Ora, venha, sente-se a meu lado, Gamsat! Mas o que você está fitando com ar de idiota?! Minhas pernas nuas? Mas estas você já conhece! Os meus seios sob a blusa fina? Olhe para o lado, se estão incomodando você! Mas o que quer dizer esta mão sobre a minha barriga? Pare com isto, Gamsat Vadimovitsch! Pare de mexer nos meus seios! Dar-lhe-ei um tapa, ouviu?! Não sou um peixe, a debater-se na sua rede! Afaste-se, seu pilantra atrevido! O que você está dizendo? O que você quer? Que eu tenho 15 anos e deveria saber o que pensa um homem ao ver uma moça tão bonita deitada na grama?! Gamsat, pare com isso! Não resfolegue tanto! Nenhum cão rasteja como você! Gamsat! Olhe, lhe dou um pon­tapé! Sua salamandra besta, de boca torta! Então você está querendo rasgar minha blusa! Levantar minha saia? Eu devo ser uma pedra? Eu? Uma pedra? Olhe, você vai é levar uma pedrada na cabeça! Gamsat! Seu idiota. . .



Ora veja, agora você está deitado na grama e sangrando. Eu adverti você, .Gamsat. Fique com seus peixes e me deixe em paz. Você pode vir me visitar, todos os dias, se quiser, mas deixe sua calça no cinto! Por acaso sou uma cade­la?! Sim, está bem, vá embora, me xingue de buraco fechado. . . volte amanhã, quando estiver mais calmo. Provavelmente foi a alegria pela boa pescaria. Você pensa que pode ter tudo, hein? Os peixes e a pastora! Vá embora, Gamsat Vadimovitsch, eu não preciso disso. Posso viver muito bem sem o seu pau! Quando eu precisar de um homem, procurá-lo-ei sozinha. Será você? Talvez...

O lago. Como brilha ao sol do crepúsculo. Primeiro dourado, depois ver­melho, depois violeta e o céu se divide em camadas flamejantes, e entre as camadas pode-se ver a eternidade. O vento quente. Agora os rochedos estão fi­cando escuros, as árvores se transformam em projeções de recortes, que a gen­te segura contra a luz do céu. Como você é lindo, meu lago. Quão incompreensível. Sibéria. Não quero sair daqui nunca, quero morrer aqui na beira do lago, quero cair no lago. Eu te amo, eu só amo a ti, minha Sibéria. . . mais nada na vida!

Agora está escuro, mas o lago continua a brilhar. Brilha a partir das pro­fundezas, de dentro para fora, um cintilar de uma profundidade misteriosa. Sua pele ligeiramente ondulada é prateada. Os rochedos se espelham em seu brilho. Oh, Baikal, eu te adoro. . .

De tarde, totalmente só no abrigo de enfermagem, Schanna se levantou e cambaleou, à procura de algo. Finalmente encontrou, sob diversos capotes, o estojo de couro com a pistola Tokarev 7,62 de Galina. Retirou a arma, fi­tou a estrela vermelha soviética gravada na coronha, viu que a pistola estava carregada e segura, e voltou para a cama com a arma.

Deitou-se, tentou colocar o cano na boca, mas isto a incomodou e fê-la ter vontade de vomitar. Retirou a pistola e encostou o cano na têmpora direita. Teve de tentar várias vezes, até achar a posição correta; fechou os olhos e disparou. Só sentiu um impacto abafado. Depois seu cérebro deixou de sentir o que quer que fosse.

— Realmente ela merecia ser uma de nós! — disse Bajda, a quem chama­ram logo. Curvou-se sobre Schanna, acariciou-lhe a cabeça sangrenta e depois limpou as próprias mãos no jaleco branco de Galina. Fingiu não ouvir os soluços das moças e das outras pessoas ao redor. — Eu teria ficado muito ma­goada se ela me tivesse desapontado. . .

O Tenente Ugarov pegou um lençol de Unho e o desdobrou, colocando-o sobre a falecida.

Dois dias depois Soja Valentinovna deu a notícia da morte de Schanna Ivanovna Babajeva. Morta a tiros por um fuzileiro fascista durante uma ronda. Sabia-se, até, quem fora o fuzileiro — aquele maldito alemão com a boina de tricô!

Ninguém teve ensejo de duvidar disso. Schanna foi enterrada ao lado de Darja e de Miranski. O enterro foi muito cerimonioso, similar ao que ocorrera com Fritz Ploetzerenke. Não houve, naturalmente, salva de tiros, mas um coro de moças cantou uma canção do Lago Baikal. E muitas chora­ram, até Soja Valentinovna, a durona, o que todos acharam ser milagre, pois até este momento só Ugarov a vira chorar. E nesse caso sempre fora lágrimas de um ciúme violento. Que Bajda pudesse realmente sentir luto, isto era novidade, e só em si já representava um evento emocionante.

Dois dias após receberam, do Sétimo Exército, a Ordem de Bronze Suvorov, há tanto tempo prometida a Schanna Ivanovna. O próprio General Conjev, comandante-em-chefe da Frente da Estepe, escrevera a carta que acompanhava a comenda.

— Valente Camarada Schanna. . .

Bajda leu a carta diante do túmulo e pendurou a medalha na pedra rasa do rio com que tinham decorado o jazigo.

Com a mesma remessa do correio Stella Antonovna Korolenkaja foi promovida a sargento e elogiada publicamente. Todas a abraçaram e beijaram, e Bajda disse, esperançosamente:

— Esperemos, minhas queridas. Stella ainda irá liquidar esse maldito ho­mem da boina! Aí a unidade receberá a Ordem da Bandeira Vermelha e sere­mos singulares entre os batalhões de mulheres!

Como Hesslich diante do túmulo de Ploetzerenke, assim Stella também ficou só, diante do jazigo da camarada morta. O segredo, que esta levara consigo, não deixava Stella em paz. A notificação oficial de Soja, que o homem com a boina de tricô fora o assassino de Schanna, ou melhor, o seu adversário vitorioso, fora uma mentira estratégica, por todas compreendida. Mas que exatamente esse diabo alemão tivesse de ser o responsável, era alarmante. Mostrava quão profundamente enraizado estava, em Bajda, o medo desse adversário.

Somente Stella adivinhava a verdade. Sabia exatamente aquilo que Lida lhe confiara. Também ouvira falar do médico alemão, o homem com um no­me quase impossível de pronunciar, Helge Ursbach, e sabia que ele beijara Lida e que esta devolvera o beijo. Isto era um horror. Stella ficara rígida de tanto espanto, enquanto os olhos de Lida começaram a brilhar, com a recordação do fato, como se estivesse falando de seu amante.

— E o que foi que ele respondeu, quando você lhe disse o meu nome e informou que eu quero liquidar esse cachorro com a boina de tricô? — perguntou, com a voz embargada.

— Disse que lhe daria o recado. Agora o diabo já sabe disso. . .

— E você não se envergonha de ter beijado um fascista?!

— Não! Penso nele constantemente.

— Se é que eu conheço. Soja Valentinovna, ela mandaria açoitar você, se soubesse disso! Liduschka, você endoideceu?

— Sim. . . — respondeu Lida, simplesmente.

— Céus! Você realmente o ama?!

— Não sei. Não consigo esquecê-lo. . .

— E se você o encontrar novamente?

— Ele é médico, não posso matá-lo. Portanto, o amarei. . .

Realmente, isto já era demasiado! Stella Antonovna torceu as mãos.

— Lida, peça que a enviem para outro lugar — disse, enfaticamente —Para outra divisão. Bem longe daqui. Tenho certeza de que você será capaz de achar um motivo. Aqui acabará se tornando uma carga para nós! Diabo, o que está acontecendo com a gente? Por acaso os de lá nos atacam com bacilos, que nos endoidecem? — De noite Stella Antonovna estava de pé, diante dos últimos jardins do povoado em ruínas, e fitava a outra margem do rio. Era fá­cil ver as ruínas do lado alemão. Mas atirar não. Com aquela distância acertar um tiro seria pura sorte. E nenhum fuzileiro se mete numa destas.

— Aí está ela! — exclamou Peter Hesslich. — Minha loura linda! — Ele estava deitado na margem do rio, ao lado de Dallmann. Podiam ver Stella através dos binóculos. — Sem arma. — continuou Hesslich. — Portanto, uma visita. Agora, preste atenção. . .

Ele tentou levantar-se, mas Dallmann o agarrou pelas calças e o puxou de volta para a grama.

— Ficou pirado?! O que vai fazer?!

— Como pessoa cortês farei uma contravisita. . .

— Peter! Deixe de besteira!. . .

Já era tarde. Hesslich se livrou de Uwe com um golpe;levantou-se, deu um passo à frente, pôs a mão no bolso das calças e retirou a boina de tricô, colocando-a sobre os cabelos. Assim ficou na margem do Donez e abriu os braços. Ao lado dele Dallmann, deitado na grama, tremia de medo e mantinha Stella no visor.

Quando o homem do lado de lá se levantou, colocou a boina de tricô e abriu os braços, Stella sentiu como um golpe que abalasse todo o seu corpo. Seu coração batia, parecia estar já na garganta, seu sangue se assemelhava a uma corrente efervescente, na cabeça os nervos zuniam e sobrepujavam todos os outros ruídos.

Durante um momento estavam um diante do outro, separados pelo rio, desprovidos de armas, inalcançáveis e no entanto tão próximos como se pudessem se tocar, no claro ar da noite.

E depois se cumprimentaram.

Stella Antonovna levantou o punho contra o céu.

Peter Hesslich acenou-lhe como se fosse um amigo.

Você ou eu — não existe mais outra possibilidade!

Dois dias mais tarde um novo membro apareceu na Divisão Bajda, junto com o carro de víveres do batalhão. Tinham comunicado o fato a Soja Valentinovna, pouco antes, por telefone, e ela foi correndo procurar Ugarov, o qual, apenas vestido de calção de banho, estava sentado ao sol e de tanto tédio fabricava pequenas figuras ridículas de madeira — coelhos, veados, camundongos, raposas, muito toscas, anatomicamente não muito corretas, mas reconhecíveis.

— Que história é esta?! — berrou Bajda, tremendamente excitada. —Imagine só! O pessoal do batalhão telefona: “Vêm substitutos!” Digo eu: “Bem, obrigada, camaradas. Podemos precisar deles. Afinal de contas, esta guerra singular também faz vítimas, vocês bem o sabem. De quantas moças se trata?” E o que escuto? Lá vem o camarada comandante: “Minha querida Soitschka, o que espera? Nada de moças. . . nós lhe mandamos um homem. Um bom homem! Depois da morte do nosso caro Miranski a senhora precisa de um apoio forte. O camarada que chegará hoje é um dos melhores fuzileiros do Sétimo Exército!” — Bajda parou, resfolegando. Como se quisesse dividir o mundo em dois, Ugarov jogou o canivete no chão. Bajda continuou: — E ele fala desse jeito, tão levianamente! Vem um homem! E nenhuma opor­tunidade de protesto. O camarada general ordenou e basta! Ponto final! Vic­tor Ivanovitsch, o que vou fazer aqui com um novo homem? Miranski. . . que descanse em paz. . . já era uma carga com as suas eternas recriminações tolas. E isto agora vai se repetir?



Ugarov percebia acercarem-se problemas muito diferentes. Um novo ho­mem — quem é que podia saber como se comportava, qual era a sua aparência, como agia sobre as mulheres — mais um homem representava, antes de tudo, um perigo para a paz doméstica que Ugarov agora usufruía. A vinda de uma nova mulher, Galina Ruslanovna, só não terminara em tragédia porque Soja e Galina tinham chegado a um acordo, o de que o caro, lindo e diligente Uga­rov teria ficado sobrecarregado, se lhe exigissem satisfazer duas mulheres do seu tipo. Cederam a esse discernimento inteligente, e a paz não fora rompida.

E agora será que sabiam de antemão se o novo homem seria igualmente perspicaz e se deixaria de dar a Soja sinais evidentes de favore cimento? Ugarov imaginava como dever-se-ia sentir um homem desses, que, subitamente, seria obrigado a conviver com 69 mulheres, mais ou menos bonitas, mas com toda certeza sedentas de amor. Isto era como cair em um formigueiro —picavam, beliscavam e cocavam por todos os lados. E se esse novo homem ain­da tiver um belo corpo, for jovem, forte e capaz de um bom desempenho, Victor Ivanovitsch também via surgirem certos perigos para a própria Soja Valentinovna.



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