Konsalik b de atalhão Mulheres



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— E como é que você tem tanta certeza disso, hein?

— Os seus olhos mo dizem. . .

O rosto de Lida ficou rígido e sem expressão. Só os lábios se moviam, quase imperceptivelmente.

— Você me ameaça. Também. . . Nós também matamos médicos, quando estes nos ameaçam. . .

Ursbach sentou-se próximo a ela, empurrou o cano da carabina para o lado, com uma mão, e com a outra acariciou-lhe os cabelos e a face. Sentiu como os músculos dela se retesavam. Ela parecia enrijecer. Os lábios estavam fortemente comprimidos mas seus olhos brilhavam. A mão espalmada de Urs­bach passeava novamente sobre o rosto, desenhava os contornos de seus olhos, nariz, boca e queixo. Parou à altura do pescoço; não teve coragem de palmilhar o caminho até os seios. Quando ele retirou a mão, ela expirou o ar, que sustara, em golpes sucessivos. Suas narinas tremiam.

— Fritz Ploetzerenke — Ursbach apontou para trás com o polegar, por cima do ombro. — Fritz Ploetzerenke realmente amou Schanna. A seu modo, naturalmente. Fez por ela tudo que era humanamente possível, e agora até deu sua vida por ela. Schanna deve ter pensado de forma totalmente diferente. Era uma prisioneira que ele maltratou. O mundo que nos cerca está totalmente maluco e desequilibrado. Nós todos somos só vítimas, nada mais. Mas por que nos queixamos? Afinal de contas, compartilhamos esta loucura. Vemos sangue e ruínas, fogo e caos, e milhões de pessoas, do seu lado e do meu, morreram e ainda irão morrer, sem que perguntemos: por quê?!

— Nós sabemos por quê! Nós morremos para salvar nossa pátria! — A voz de Lida saiu abafada, os lábios mal se moviam.

— Fechemos os olhos por um único minuto e sejamos apenas nós mesmos. . . duas pessoas singulares, afastadas de qualquer realidade.

— Por quê? O que é um minuto?

— Feche os olhos, Lida. . .

— Não!

— Por favor. . .



— O que você quer? Eu não confio em você. . .

— Feche os olhos e pense: é verão em Moscou. Eu estou deitado às mar­gens da Moskva, o sol está quente, a água bate de leve na beira do rio, um bo­te branco de turismo passa ao longe, ouve-se música, canções alegres, e nos avassala uma imensa saudade, de abraços, de amor, de realização, de felici­dade. . . E eu também fecho os olhos e penso: estou deitado na areia azul-dourada, fina como poeira, do Lago Ost. . . O mar brilha azul sob o céu sem nu­vens. Sobre os castelos de areia e as cestas oscilam bandeirinhas, as crianças brincam na água rasa. E aí estendo a mão e sinto você, seus cabelos, a pele lisa, as curvas do seu corpo e a felicidade me empolga de tal maneira que eu não quero mais abrir os olhos e sim permanecer neste estado flutuante. Va­mos tentá-lo, Lida?

Lida ficou rígida, como uma estátua talhada em pedra, toda defesa, do topo da cabeça até as plantas dos pés. Mas fechou os olhos e era linda de se ver. Apenas as narinas vibravam no rosto rígido. Ursbach segurou a cabeça de Lida com ambas as mãos e a beijou. Ainda assim ela não se moveu, os lábios continuaram comprimidos, as mãos segurando a carabina.

Foi um beijo longo, Ursbach sentia o calor dos lábios de Lida, a proximidade de seu corpo, a respiração ofegante, que tocava seu rosto. Depois a soltou e baixou os braços.

Neste mesmo momento Lida encostou a carabina contra si com uma das mãos e com a outra bateu na cabeça de Ursbach. Soava como uma toalha mo­lhada, que era golpeada contra um pedaço de madeira.

— Fascista! — exclamou quase inaudivelmente. — Oh, seu maldito fas­cista! Você quer ser feliz?! Você merece ir para o inferno, como todos os ou­tros alemães! Maldito seja!

Virou-se bruscamente, abriu a porta de sopetão e atirou-se para fora. Lá esbarrou com Vanda, que protegia a porta e observava o terreno. Marianka co­locara o braço em volta da nuca de Schanna e assim a protegia, para que não caísse.

— Eu não ouvi nada — disse Vanda baixinho. — Ele ainda vive?

— Um médico. . .

— Um alemão. Espere, eu dou um jeito nisso. . .

Vanda tentou voltar ao celeiro mas Lida a segurou pela blusa. Seus olhos brilhavam, seu corpo tremia de excitação.

— Eu decidi que ele viverá. . . pelo menos por hoje! — respondeu aspera­mente. — Não se oponha! Quem está no comando hoje à noite?! Ele quis ou não ajudar Schanna? Vamos para o rio! Nós temos de atravessar depressa

— Soja Valentinovna ordenou que qualquer pessoa que nos visse teria de morrer!

— Eu assumo a responsabilidade! — Empurrou Vanda para o lado e diri­giu-se para onde estavam Marianka e Schanna. — Voltaremos pelo mesmo ca­minho. Rápido.

— Schanninka não consegue andar — disse Marianka, amparando a mo­ça quase inconsciente.

— Bem, colocá-la-emos em um cobertor! Vanda. . . vá na frente para o rio e nos proteja. Eu vou buscar um saco.

Lida voltou correndo para o celeiro, bateu a porta atrás de si e levan­tou a carabina. Ursbach estava ajoelhado ao lado do morto, procurando ves­ti-lo com o paletó do uniforme.

— Preciso de um cobertor ou de um saco. Qualquer coisa sobre a qual possamos colocar Schanna — disse ela asperamente. Com três passos estavam juntos ao local onde Schanna estivera deitada e pegou um dos cobertores que Ploetzerenke trouxera. — Por que você não deu nenhum alarme?

— Vocês estão transportando um ferido. Isto é um ato de humanidade.

— Eu matei este aí. — Ela apontou para Ploetzerenke. — Um dos tiros foi meu.

— Estamos em guerra. Algum dia um de nós matará você também!

— E você vai ficar feliz com isso, não?

— Ficarei muito triste. — Ele se manteve ajoelhado, quando ela se apro­ximou e se plantou na sua frente. As longas pernas nuas, a calcinha estreita, o triângulo escuro que transparecia sob o tecido fino, em cima a blusa do uni­forme cor de terra, o cinturão com as bolsas de cartuchos e o fuzil com o telescópio de mira ao lado da coxa direita branca. . . Ursbach novamente tomou consciência do absurdo da situação.

Ela o empurrou, duramente, com a coronha e ordenou:

— Levante-se!

Ele obedeceu. Mas mal se punha de pé diante dela, Lida o agarrou com a mão esquerda pelos cabelos e apertou seus lábios contra a boca de Ursbach. Foram só alguns segundos, mas o momento era suficiente para que ele pudesse perceber que ela abrira os lábios e empurrava a ponta da língua contra seus dentes. Com um golpe o empurrou, então, de encontro a uma viga.

— Seu cachorro! — disse rouca. — Seu porco fascista! Por causa disto cinco de seu grupo terão de morrer, não o esqueça!

Jogou o cobertor no ombro e correu novamente para fora.

Lá, Vanda já correra para o rio e protegia a retirada. Marianka e Lida puseram Schanna sobre o cobertor e a puxaram pela estepe, em direção à mar­gem. Quando passava sobre qualquer aspereza do terreno Schanna gemia, con­trolada, ou rangia os dentes de causar pena.

Na metade do caminho Lida se virou e olhou para trás.

Na porta do celeiro distinguia, com dificuldade, uma sombra alta e esguia. Levantou o braço por um momento e acenou. Ela não queria fazê-lo mas o impulso interno, que dominava qualquer vontade, era mais forte. Para Ma­rianka, parecia apenas que Lida tinha mudado a mão com que segurava a pon­ta do cobertor.

Helge Ursbach, pensava Lida Djanovna. Um médico alemão. Adeus. . . não, morra em paz. . . Você é do tipo que a guerra não poupa. Foi um minuto lindo, a minha margem do Moskva e o seu Lago Ost no verão. Como você po­deria saber que eu nunca havia tocado um homem com minha língua. . .

Arrastaram Schanna para a água e a puseram na ilha artificial entre os arbustos lá colocados. Depois se despiram novamente, entraram no rio como grandes peixes brancos, cintilantes, e nadando empurraram a jangada para a outra margem.

A correnteza estava fraca. O rio, que se transformara em uma torrente arrebatadora, borbulhante, que mordia a vegetação das margens, depois da neve se desfazer, agora corria lentamente em seu leito de areia. A jangada só derivou um pouco e parou em uma enseada, um pouco abaixo do povoado destruído, onde a água já era tão rasa, que as moças tocavam o fundo com suas barrigas. Mas só à sombra da pequena encosta saíram da água.

Mesmo assim foram observadas por Uwe Dallmann, bem seguro no seu esconderijo. Ele estava sozinho — Hesslich fora convocado pelo regimento — e observara a margem soviética até a meia-noite. Depois de ter telefonado para o Alferes Stattstetten e de ter obtido dele a notícia de que três sentinelas da Quarta Companhia estavam lá fora, no terreno, foi dormir.

Acordou por volta das 3:00, impelido pela sua bexiga cheia. Fazer pipi a essa hora fazia parte do seu ritmo de vida. Saiu para o jardim, encostou-se em uma cerejeira estropiada e bocejou alto, ao urinar.

Nesse lugar, perto da cerejeira, era fácil observar a margem soviética. Ali a estepe era plana como uma mesa, sem proteção alguma. Dallmann espiou a jangada-ilha, que descia pelo rio em direção à margem oposta. E, com imenso espanto, viu, subitamente, três moças nuas, assim como Afrodite, gerada pela espuma do mar, subirem as margens do Donez.

Segurando entre o polegar e o indicador o pênis ainda molhado de urina, ele deu um passo em volta da cerejeira e fitou as mulheres nuas. A luz era demasiado fraca e a distância excessivamente grande para permitir perceber todas as minúcias, mas seios, abdomens, coxas eram perfeitamente reconhecíveis. . . Agora duas das moças se curvaram, mostrando-lhe as bundas, e puxaram seus uniformes e carabinas da ilha. Dallmann via exatamente quatro nádegas brancas, aprazíveis.

— Oh, minha vovozinha! — exclamou, emocionado. — Isto depois de meio ano sem folga! Deus do céu, que mulheres!

Ele deu meia-volta, correu para a casa, buscou o binóculo e a carabina e correu, sem ao menos fechar as calças, em direção à cerejeira. Com o binóculo viu-as mais de perto. . . duas das moças já tinham posto o uniforme e arrastavam um vulto encosta acima. A terceira moça — tratava-se de Vanda Alexandrovna — ainda mexia, nua, na ilha, amarrando-a depois à margem e pulando várias vezes de um lado para o outro. Os seus seios cheios, redondos, balançavam como sinos laqueados de branco.

Dallmann suspirou fundo e manteve Vanda à vista, até que ela também se vestiu, pegou a carabina do chão e olhou na direção de Uwe, naturalmente sem poder vê-lo. Era um olhar de espreita. Dallmann podia reconhecê-lo perfeitamente.

Só neste momento percebeu que fora testemunha de uma ação soviéti­ca contra seus camaradas. Quatro fuzileiras retornavam de uma emboscada no lado alemão, exatamente como Peter Hesslich com suas saídas em uma jangada camuflada de ilha. Deveria ter havido, apesar de ele não ter escutado nada, um encontro com o inimigo, pois uma das moças estava ferida e era car­regada.

Dallmann pegou novamente a carabina. Sua respiração quase parava com a idéia de que deveria ter havido mortes. Agora já conheciam esse adversário implacável: se três fuzileiras conseguiam atravessar o rio impunemente, transportando uma ferida, então deveriam ter deixado mortos atrás de si.

Os cabelos da nuca de Dallmann arrepiaram-se como os de um cachorro que levou um pontapé. Puxou a carabina para cima, visou Vanda Alexandrov­na, mas nesse exato momento a moça desapareceu entre os arbustos da mar­gem. Suas costas eram como uma mancha que se dissolve nos ramos.

Dallmann deixou cair a arma, voltou cabisbaixo para a casa e hesitou muito antes de ligar para o abrigo de comando. Um suboficial sonolento apre­sentou-se.

— Seu buraco de cu! — berrou, ao reconhecer o nome de Dallmann. — Não assuste a gente assim. O que é que há?

— Nada. E com vocês?

— Houve explosões no abrigo VI. . .

— Como? — disse Dallmann, sustando a respiração.

— O cabo Putlang peidou quatro vezes! Só especialistas conseguem dis­tinguir isto de um lançador de granadas.

— Idiota! Nenhum evento?

— Dezenove homens estão ocupados em sustentar o teto com um cabo de tenda. . . sonham com Eeerika. . .

Dallmann desligou. Tudo calmo, tudo tranqüilo, nada de luta, nenhum morto. De onde tinham vindo as moças? E a ferida, onde fora atingida? Pegou novamente a carabina, saiu e se esgueirou para a margem do Donez. Lá ele se jogou entre os arbustos e passou a perscrutar o lado soviético com o binóculo.

Nada havia para ver, nada se movia na escuridão. Dallmann sabia que as sentinelas das fuzileiras estavam nas ruínas do povoado.

Decidiu não comentar suas observações. Calar a boca é uma das melhores medidas de autodefesa do soldado. Quem nada sabe não pode responder a pergunta alguma. A burrice é plenamente reconhecida mas a inteligência provoca desconfiança; no Exército é assim mesmo. A sabedoria dos três macacos — não falar, não escutar, não ver — deve ser sempre seguida por um soldado.

Dallmann engatinhou de volta para a casa. Não conseguiu adormecer novamente. O que teria feito Hesslich em meu lugar, pensava, incessantemen­te. Teria atirado nas lindas nádegas nuas? Poderia ter visado os seios maravi­lhosos? Merda, eu gostaria de saber se ele realmente é um filho da puta tão gélido!

Peter Hesslich só retornou ao povoado por volta do meio-dia. Aí Dall­mann já tomara conhecimento do que ocorrera. A companhia telefonara para ele, e Dallmann, obedecendo ao que se determinara fazer, bancou o bobo. Bauer III o xingou de maior dorminhoco do Exército e Uwe engoliu a ofen­sa. Poderia ter sido pior.

— Ploetzerenke morreu! — exclamou Hesslich, jogando uma garrafa de conhaque, que trouxera do regimento, para Dallmann.

— Eu sei. — Dallmann não levantou os olhos. Não lhe era possível, nes­te momento, fitar Hesslich. — Mas ninguém percebeu ou ouviu coisa nenhu­ma. Por volta das 3:00 eu telefonei para o oficial de plantão mas ele só conse­guiu me dizer porcarias!

— Dois tiros num pulmão! Acharam-no em um celeiro na área dos pio­neiros.

— Ah! Então foi por causa disso. . .

— Mesmo lá não escutaram nada! — Hesslich sentou-se em uma c dei­ra remendada e acendeu o cachimbo. — Tudo isso é muito estranho.

— O quê? — Dallmann pegou a garrafa e engoliu o conhaque como se fosse limonada.

— O que será que Ploetzerenke estava fazendo no domínio dos pioneiros? O que queria ele na casa? Ainda mais, no meio da noite. Encontraram restos de comida, só isso. Mas os restos demonstram que Ploetzerenke costumava ir lá freqüentemente. Por quê?! E mais um enigma: o médico auxiliar Ursbach, que o examinou imediatamente, afirma que Ploetzerenke recebeu, antes de morrer, uma injeção. Mas isto é delírio: alguém o mata e ainda lhe dá uma injeção para minorar as dores! Absolutamente inacreditável! Mas Ursbach des­cobriu uma marca fresca de injeção na veia do braço.

— E. . . quem encontrou Ploetzerenke?

— Os pioneiros. Ele estava deitado na palha, vestido com o casaco do uniforme e a camisa rasgada sobre o rosto. Mais maluca a coisa não pode ser . . . Levaram-no imediatamente para a Quarta Companhia e acordaram o médico, que por acaso estava na trincheira.

Dallmann tomou mais um gole prolongado e fechou a garrafa.

— Eu sei em que você está pensando, Peter — disse com voz rouca. — Nas fuzileiras. . .

— Só em uma! Só uma é capaz de uma coisa destas. — Hesslich fitava o chão de madeira. — Eu a vi. . .

— O quê? — Dallmann curvou-se para a frente. — Quando?. . .

— Ela é loura, muito bonita, estatura mediana, olhos redondos, nariz reto, boca estreita, queixo redondo. Eu tinha o seu olhar no reticulado.

— E aí você fraquejou e a deixou escapulir. . .

— Não, eu cheguei dois segundos atrasado.

— Porque ficou tempo demais olhando para ela.

— É possível que tenha sido isso. . . — Hesslich bateu com um punho contra a outro. — Acredito que ela possa ter surpreendido Ploetzerenke e depois ainda cuidado dele. Gostaria de me encontrar uma vez com ela, a sós.

— E se você de novo chegar dois segundos atrasado?

— Isto é risco e azar meu.

— Mas você a mataria?!

— Sim!

O sim foi duro e claro e tornara desnecessárias quaisquer outras pergun­tas. Dallmann levantou os ombros, como se sentisse calafrios. Agora sei, pensou. Teria atirado até nas mulheres nuas. Nem teria visto seus seios e coxas, mas apenas o alvo a atingir. Ele é uma fera fria, totalmente diferente do tem­po de treinamento em Posen. Lá todos pensávamos que iria começar a chorar depois de cada tiro que acertava em uma cabeça. E, no entanto, tratava-se so­mente de camaradas de papelão e bonecas de palha.



— Amanhã Ploetzerenke será enterrado — falou Hesslich, com voz abafada. — Estaremos presentes quando derem a salva de tiros.

— Isto é necessário? — Dallmann olhava para a parede em frente.

— Sim. Precisamos finalmente aprender a esquecer nossos sentimentos ao atirar. E isto será mais fácil se virmos as sepulturas abertas de nossos cama­radas.

Na posição soviética Galina Ruslanovna recebeu a pequena tropa. Reco­nheceu o estado alarmante da ferida no ombro de Schanna e imediatamente mandou transportá-la para o abrigo de enfermagem. Como o fizera Ursbach, preparou, sem hesitar, a operação.

Entrementes Marianka foi ver Bajda para dar-lhe a noticia de que tinham retornado. Quando Marianka bateu discretamente, Soja Valentinovna veio à porta, vestida em um roupão cor de vinho, que pertencia a Ugarov.

— Êxito completo, camarada! — exclamou Marianka, rindo gostosamen­te. — O touro morreu!

— E Schanna Ivanovna?

— Estava prisioneira dos alemães! Nós a trouxemos de volta.

— Prisioneira? — Bajda parecia cuspir a palavra. — Trazer de volta! Por que vocês não a perderam no meio do caminho? Teria sido melhor para ela.

Bateu a porta e voltou para a cama. Ugarov levantou a cabeça. Bajda tirou o roupão e se deitou nua sobre a colcha.

— O que há, minha pombinha? — perguntou Victor Ivanovitsch.

— Schanna está de volta! Ela viveu entre os fascistas! — Soja Valentinov­na encolheu as pernas, como se estivesse sofrendo de cólicas violentas. — Me diga como é que posso continuar vivendo com tal desonra. . .

A morte de Ploetzerenke permaneceu oculta em denso mistério. Ninguém conseguia explicá-la — e Dallmann continuou calado. Especulações estranhas circulavam no batalhão. Por exemplo, diziam que Ploetzerenke e um camara­da ainda incógnito costumavam encontrar-se às escondidas, no celeiro em ruí­nas, para poder entregar-se, sem serem perturbados, a jogos de azar. Só agora descobriram que Ploetzerenke era um artista no jogo de cartas, um daqueles tipos que em tempos d’antanho seria enforcado ou morto a tiros no Faroeste; portanto, um trapaceador altamente hábil, que conseguia arranjar seis ases, sem que ninguém o percebesse. Poderia ter sido possível — esse era o boato — que subitamente eclodira uma luta entre Ploetzerenke e seu parceiro, com um desfecho mortal. Ploetzerenke deveria ter sido surpreendido, já que não havia sinais de defesa. E neste momento o artilheiro vira Ploetzerenke, banhado em sangue, deitado no chão, e se deu conta do que fizera em um ataque de raiva. Procurou ajudá-lo e, ao ver que todas as tentativas de salvação eram inefica­zes, lhe deu uma injeção para proporcionar-lhe uma morte sem dor.

Pelo menos aqui essa versão se transformava novamente em uma farsa: quem possui uma seringa de injeção?! Afinal de contas, nem mesmo os enfer­meiros, só os médicos nos abrigos de feridos e nos hospitais de campanha. Que o jogador e homicida tivesse vindo de lá, era totalmente inverossímil.

O médico auxiliar Ursbach, que chefiava a investigação por ordem do batalhão e posteriormente na presença do médico do regimento, fora forçado a ouvir, em particular, que ele ainda era muito jovem e teria de aprender muito para poder lidar com situações críticas dessa natureza.

— Cale a boca e constate morte heróica! — ordenou o médico-chefe do regimento. — É assim que a gente faz, jovem colega! De que lhe adianta agora a sua honestidade? Só trabalho e aborrecimentos e uma papelada idio­ta! O pobre Ploetzerenke não vai para o túmulo dos heróis, um grupo de pes­soas se ocupa do problema, e cada um pensa, sem expressá-lo abertamente: mas se esse médico pelo menos tivesse calado a boca! Milhares podem mor­rer em um dia, isto é normal e a gente registra. Mas com um caso de morte não-explicada o diabo da burocracia está à solta. Diga-me, Ursbach, o senhor não poderia ter deixado de ver essa injeção?

— Eu pensei. . . — Ursbach engoliu várias vezes em seco, o que o médico do regimento interpretou como embaraço — a verdade. . .

- A verdade é: o cabo Ploetzerenke, Fritz, morreu pela pátria e pelo Fuehrer, com dois tiros no pulmão! Por acaso isto não corresponde à verda­de? Então! E agora, o que fazemos com ele?

— Enterramo-lo com todas as honras militares.

— E quem o matou, afinal de contas?

— Uma tropa de choque soviética. . .?

— Que ninguém viu nem ouviu? Isto nenhum chefe de companhia acei­ta. Isto arranha a honra do Exército. E como é que o senhor irá explicar que uma tropa de choque aplica uma injeção em Ploetzerenke e lhe põe a camisa sobre o rosto?!

— Como podemos explicar uma coisa assim, Sr. médico-chefe?

— Pois é! Agora temos uma linda merda na sola do sapato. . . Uwe Dallmann escutava tudo — e não dizia nada.

Algumas vezes começava a revelar o segredo a Hesslich, com um aperto de mão para obrigá-lo a nada dizer, por seu lado; mas depois desistia de fazê-lo. Simplesmente estava com medo. Não tinha certeza absoluta da reação de Hesslich, quando soubesse a verdade. Apesar de se conhecerem há tanto tempo, Hesslich ainda era, para Uwe, um enigma. Um homem que vai ao tea­tro e assiste a óperas, ao invés de freqüentar um bordel, mesmo sabendo que será enviado a um comando suicida; um homem que não é capaz de dar um golpe na nuca de um coelho mas faz a tiros, com absoluta precisão, buracos em testas humanas. Tudo isto, Dallmann o sentia obscuramente, não combi­nava.

Ploetzerenke foi enterrado em um jardim ao lado do posto de comando do batalhão. Uma cruz de bétula, com o capacete de aço nela pendurado, for­mava uma lápide singela mas bonita. Bauer III pronunciou a oração fúnebre. Doze homens, entre eles quatro artilheiros, deram a última salva de tiros. Um pouco afastado, com as mãos em forma de prece e um rosto muito sério, estava o médico auxiliar Ursbach.

Isto foi tudo que eu pude fazer por você, Ploetzerenke, pensava. Jamais alguém irá saber que filho da mãe você era. E. . . apesar de tudo. . . quão humano. O seu segredo ficará no túmulo com você para sempre, porque ficarei calado. Como eles teriam reagido, se tivessem descoberto a verdade nua e crua? Com toda certeza não com um enterro destes. Jamais com toda a honra, que fez de você, agora, um herói.

Depois do enterro o médico-chefe do regimento chamou o seu jovem colega Ursbach.



— Isto conseguimos — disse secamente. — O comandante queria virar a mesa. Uma salva de tiros para um trapaceador no jogo! Quase teve um ataque histérico. Mas depois eu lhe mostrei algo que o senhor não percebeu, caro Urs­bach: as balas mortíferas. Eu as retirei do pulmão, mediante uma operação.

— Elas estavam no corpo? — Ursbach fitava o médico-chefe, com uma sur­presa que revelava sua incapacidade de acreditar no que estava ouvindo. — Co­mo foi possível? Afinal de contas, nós vimos os horríveis buracos de saída, do tamanho de punhos. . .

— Aí aconteceu uma coisa de louco! — O médico do regimento ria, comedidamente. — Os dois tiros devem ter sido dados quase à queima-roupa. Pe­netraram no tórax de Ploetzerenke, saíram por trás, provavelmente ricochetearam no chão e feito um bumerangue novamente penetraram no corpo de Ploetzerenke. Afinal de contas, balas podem ricochetear. Os dois grandes buracos eram ao mesmo tempo entrada das balas que tocaram o chão e retornaram. Fenomenal, não?! Portanto, pude mostrar as balas. Indubitavelmente trata-se de projéteis soviéticos! O que o senhor me diz agora?

— Nada.


— Pois é, o comandante também não sabia o que dizer, e por isso aceitou que fizéssemos de Ploetzerenke um herói. Contudo, a coisa ficou preta para os chefes de companhia, lá na frente: Ploetzerenke foi morto a tiros pelos soviéticos, e ninguém viu ou ouviu coisa alguma! Isto ainda vai dar um lin­do carnaval.

Ursbach acenou, calado, e voltou para o cassino do batalhão, onde o esperavam com vinho e charutos. Nesses dias vivia-se bem na frente. . . Em Charkov, um oficial o contara, houvera um jantar com 26 pratos, com conhaque do Cáucaso, champanha francês, vinho doce da Grusinia e um bale de voluntários em uniformes da Tscherkessia. A coisa era absolutamente verossí­mil, pois o oficial até trouxera fotografias desse “jantar”.



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