Konsalik b de atalhão Mulheres



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Hesslich colocou o charuto apagado em um cinzeiro de vidro e olhou em redor.

— Esta então é a resposta à sua pergunta, meus senhores; o que se passa com estas moças. E só necessário saber o que se passa conosco, e aí a gente sabe!

— Eu recomendei sua promoção a sargento-mor, Hesslich — disse o comandante do regimento e se levantou. Hesslich pôs-se de pé, rápido.

— Mil agradecimentos, Sr. Tenente-Coronel.

— A assinatura do general é questão só de burocracia. O senhor já pode ir encomendando as estrelas.

— Sim, Sr. Tenente-Coronel.

— O senhor tem folga até amanhã de manhã, Hesslich. Dê uma volta por aí. Temos um carro de cinema. Hoje à noite apresentam O Homem que Lê os Medidores de Gás, com Heinz Ruehmann e Anny Ondra. Uma vez algo alegre com toda esta merda! Divirta-se!

Com isto Peter Hesslich foi despedido. Bateu os calcanhares e deixou a casa do comandante.

— Uma sorte que hoje não tínhamos nenhuma visita da SS — disse um capitão e tomou um gole de seu conhaque. — Aí ninguém mais poderia salvá-lo! Mas talvez esses homens tenham que ser insolentes, para poder visar com tranqüilidade. Eu o digo sem rodeios: esses camaradas me assustam.

De noite Peter Hesslich estava sentado no chão diante da tela e viu o fil­me O Homem que Lê os Medidores de Gás. Trezentos soldados, entre eles também alguns com ferimentos leves, dobravam-se de rir com as peripécias de Heinz Ruebmann. O sentido mais profundo da comédia, o combate do homem pequeno contra os monstros do mundo, não os tocava. Para eles o filme representava uma distração bem-vinda, que os fazia esquecer, durante duas horas, a guerra, toda essa merda, da qual tinham vindo e para a qual retorna­riam. . . O mundo se transformava ao rirem.

Mais tarde, Hesslich estava sentado no quartel de uma tropa de construção e se embebedava com aguardente russa de bolbo. Na frente, tudo era cal­ma; a tropa de combate estava diretamente ligada à divisão de pioneiros, que ficava ao lado da Quarta Companhia.

— Vocês são sortudos — disse um dos suboficiais, que sentara na mesma mesa que Hesslich. — As mulheres tão perto. . . é só esticar a mão! Por que vocês não buscam algumas?

— Tente. — Hesslich fitava sombrio a mesa. - Elas têm opinião diferente.

— Ataque com as calças abertas, isto faz até elas capitularem!

— Vocês não passam de buracos de merda! — respondeu Hesslich, grosseiro, levantando-se. — Venham para a frente e busquem o seu buraco na tes­ta. . .

Ele se deitou em um saco de palha e pensou na moça soviética, com os cabelos louros, que tivera em sua mira mas não matara. Da mesma forma, na época em que era guarda-florestal, ao invés de matar, muitas vezes observara um veado, cuja beleza o fascinava.

A loura era um animal lindo, selvagem. Tivera uma trégua, mas ele sabia que a mataria se a encontrasse novamente.

Com esses pensamentos, adormeceu. Em sonhos, ela estava nos seus bra­ços, tremendo de paixão; mas quando ele dera tudo que pudera, ela relaxou, e ele viu que abraçava um cadáver, que se desfazia em uma poça de água.

Escondidas atrás de uma jangada camuflada em ilha flutuante Marianka, Lida e Vanda atravessaram o Donez em uma posição plana, ao norte das ruínas, nas quais acreditavam estar Schanna. Uma vez chegadas na margem só vestiram as blusas e as calcinhas, e nos pés grossas meias de lã. Era uma visão doi­da: as longas pernas nuas, sobre elas as calcinhas, a blusa do uniforme, no cin­to a bolsa de munição; nos cabelos molhados, dos quais a água escorria, o gor­ro em forma de barquinho cor de terra, os rostos empretecidos com carvão. Assim esgueiraram-se pela margem acima e desapareceram na grama da este­pe. Suas carabinas de precisão, de cano longo, as Moisin-Nagant 1891/30, com os pesados cartuchos, estavam atravessadas em seus braços. Seguiram silenciosamente, em direção ao povoado destruído, do qual viera o sinal luminoso, que acreditavam ter sido feito por Schanna.

O Tenente Ugarov fizera um esquema do povoado e marcara com preci­são a casa da qual tinham visto Ploetzerenke entrar. Fora possível observá-lo nitidamente pelo binóculo.

— É ele, meu rabo de boi! — exclamara Marianka, em júbilo. — Minhas queridas, vocês me prometeram que ele me pertence. Lembrem-se disso! Ho­je de noite irei buscá-lo!

Aproximaram-se da casa, de lado, e perceberam a luz fraca que se irradiava de algumas frestas.

Marianka, que engatinhava na frente das outras, levantou a mão. Elas permaneceram deitadas, destravaram as armas e fitaram a parede. A porta, a uma distância de apenas 10 pulos, estava encostada.

Da casa ouviam-se acordes melodiosos. Alguém estava tocando bandolim. Tocava alto e cantava com voz rouca. Poderiam ter vindo, sem pestanejar, de carro, sem que fossem ouvidas.

Marianka se levantou e acenou. Também Lida e Vanda deixaram a grama que as protegia e se dirigiram eretas, as carabinas ao lado, prontas para atirar, para a porta encostada. Andavam bem próximas, quase tocando umas nas outras; a água do Donez ainda escorria pelos seus cabelos e pelos seus ros­tos tensos.

— Eu sei o que ele está cantando — murmurou Lida. Ela fora estudante, já completara quatro semestres de odontologia e se teria tornado uma boa dentista em Gorki, se no círculo esportivo estudantil não tivessem descober­to sua extraordinária capacidade de acertar no alvo. A grande guerra patrióti­ca a chamou imediatamente; dentistas não eram tão importantes nesse mo­mento, mas fuzileiros, estes sim, eram necessários em todas as frentes. Desta forma veio ela, como todas as moças, indicada para a escola especial de Veschnjaki, para Moscou e para a férula do Coronel Nikiforova e Olga Petrovna Rabutina. Depois de quatro meses de treinamento ela era uma das melho­res fuzileiras. Hoje em dia tinha 37 marcas em seu livro de tiros. Todos se or­gulhavam dela.

Marianka pousou o dedo sobre os lábios. Lida sorria, satisfeita.

— A canção se chama: A Lorelei. . . — continuou, ainda murmurando. — A primeira estrofe é: “Eu não sei o que isto significa...”

— Ele vai descobrir logo! — disse Marianka e devolveu o sorriso.

Ainda estavam afastadas três passos da porta encostada.

Dentro do celeiro, Ursbach ajoelhara-se ao lado de Schanna e espalhara, diante dela, sobre uma toalha, o seu instrumento cirúrgico. Já limpara a feri­da do ombro, em estado lastimável. Agora preparava a operação. Já colocara a ampola, com o anestésico, na seringa. Schanna estava sentada, apoiada em um barril de madeira vazio, no chão do celeiro; tinha um pedaço de madeira entre os dentes e o mordia com força, quando as ondas de dor ameaçavam sobrepujá-la.

Diante dos dois, com as costas para a porta, Ploetzerenke estava agachado em um toco de madeira, tocava o bandolim e cantava a sua Lorelei.

— Isto irá distraí-la — dissera ele. —Senhor médico auxiliar, eu conheço isto: a música anestesia como um comprimido! Uma vez li a respeito: música no estábulo. As vacas dão mais leite, os porcos engordam mais, as galinhas põem um ovo cada dia. Eu lhe digo: quando eu canto, Schanna fica mais tranqüila e não sente mais medo. . . Posso?

— Para mim, tanto faz! — rosnara Ursbach. — Mas se eu sentir náuseas, lhe dou um pontapé na bunda!

Portanto, Ploetzerenke cantava a Lorelei e até que não soava tão mal. Schanna mordia o pedaço de madeira e fitava a porta. O seu instinto, treina­do como pastora no Lago Baikal, aquele formigamento, que lhe indicava o perigo e lhe permitia pressentir, com muita antecipação, uma águia que que­ria derrubar uma ovelha, ou um urso à espreita, atrás de um rochedo, lhe dizia que o momento chegara.

— . . . e tranqüilo flui o Rio Reno. . . — cantava Ploetzerenke e fitava Schanna amorosamente.

Marianka, Lida e Vanda estavam diante da porta.

Agora, só um toque. . .

— . . . ao sol do crepúsculo. . . — berrava Ploetzerenke e puxava as cor­das com força.

Schanna arregalou os olhos. Ursbach, que acabara de se curvar e preparava a injeção com a anestesia, não o percebeu. E Ploetzerenke iniciou a segunda estrofe.

— Lá em cima está sentada, maravilhosa, a mais linda das virgens. . .

Quando Marianka empurrou a porta, Schanna reagiu de uma forma completamente diferente da que planejara. Empurrou, com toda as forças possíveis, usando as duas mãos, o médico que estava ajoelhado à sua frente, fazendo com que ele caísse para trás, agitando os braços, ainda com a seringa na mão. Ao mesmo tempo Schanna gritou, e a sua voz irradiava terror.

— Fritz!

Ploetzerenke reagiu imediatamente. Na mesma fração de segundo, em que Marianka e Lida atiraram, ele se jogou para o lado. Vanda, que só agora entrava correndo no celeiro — pois só duas pessoas podiam passar ao mesmo tempo pela porta — atirou dois segundos depois.

O tiro, que visara Ursbach, passou raspando pela coxa de Schanna e bateu na palha. Ploetzerenke, contudo, foi atingido duas vezes. Empinou-se, seu corpo se curvou, durante um instante formou uma ponte trêmula; depois caiu e começou a tremer convulsivamente. No silêncio súbito ainda se ouviam as cordas do bandolim, que o tiro de Lida raspara, antes de atingir Ploetzerenke.

Marianka, Lida e Vanda se protegeram logo depois da primeira salva de tiros, atrás de uma carroça quebrada, já que ainda não sabiam se os dois ale­mães eram os únicos inimigos que se encontravam no celeiro. Diante delas Schanna estava sentada no chão, com as mãos tapando o rosto. O soldado, que ela empurrara, se esforçava para se erguer. Agora era visível que usava uma faixa da Cruz Vermelha, enquanto o “touro”, como o denominara Marianka, estava deitado de costas e gemia de fazer dó.

— Um enfermeiro. . . — murmurou Lida e não se mexeu, quando Ursbach se levantou e mostrou a seringa. — Ele está aqui para ajudar Schanna.

— Liquide-o! — disse Vanda duramente, empurrando Marianka. — Va­mos! Médico ou não. . . o inimigo é sempre o inimigo!

Marianka sacudiu a cabeça e fitou Lida.

— Fale com ele. Você sabe alemão. Pergunte se estão sozinhos.

Lida respirou fundo. Fitou, com olhos arregalados, Ursbach, cujos cabelos louros estavam cheios de palha. Agora ele abria os braços e dava de om­bros. Era um gesto cheio de resignação, como se quisesse dizer: olhem, não estou armado; só tenho a seringa na mão, e lá, ao lado de Schanna, estão os instrumentos cirúrgicos. Vocês podem atirar em mim como um alvo, estou à disposição de vocês. Conheço bem os tiros que vocês plantam no meio da testa.

Ouviu Ploetzerenke gemer atrás de si e se virou. Bem, então atirem na minha nuca. Eu preciso cuidar dos feridos. ..

Stoj! — chamou Lida grosseiramente e saiu de detrás da carroça que a protegia. Marianka e Vanda, assustadas com esta manobra perigosa, cerraram os dentes e curvaram os dedos indicadores nos gatilhos de suas armas.

Ursbach virou-se lentamente, ainda com os braços esticados. Quando Lida apareceu e deu dois passos em sua direção, ele a fitou como se fosse um ser de outro mundo. A blusa do uniforme, as pernas nuas, compridas, a calcinha fina e as meias de lã — esta visão era demasiado fantástica, impossível de ser compreendida imediatamente.

— Não tem mais ninguém aí? — perguntou Lida.

Ursbach sacudiu a cabeça.

— Você é enfermeiro?

— Médico. — Ursbach ouvia a própria voz como um ruído oco, estranho. — Você fala alemão?

— Um pouco. — Lida Djanovna deu mais um passo à frente e agora esta­va em plena luz. Sua beleza era arrebatadora. Só o olhar duro não combina­va com o corpo esguio, o rosto oval e os cabelos castanhos.

Marianka e Vanda também se ergueram. Com as armas apontadas para Ursbach, gritaram para Schanna algo que o médico não compreendeu. Mas Schanna não reagiu. Estava sentada, imóvel, as mãos escondendo o rosto.

— Venha cá! — chamara Marianka. — Ou será que você não pode se mexer?!

— Eu estou aqui para ajudar sua camarada ferida — disse Ursbach com voz rouca. — A ferida é feia. Está cheia de pus. Eu ia começar a operar. —Deixou cair os braços e fitou Lida com o cenho franzido. — Agora vocês atiraram em meu camarada e eu preciso me ocupar dele. Schanna pode esperar. Você compreende?

Ele tentou se voltar para Ploetzerenke, mas a voz de Lida o imobilizou.

— Você fica! Você não pode mais ajudá-lo.

— Isto decido eu!

— Você não tem mais nada a decidir aqui. — O cano da arma de Lida se ergueu mais um pouco e agora visava diretamente o peito de Ursbach.

— Eu sou médico!

— E é só por este motivo que ainda está vivo! Só por ser médico, você ainda nos pode ver.

— Isto quer dizer, então, que ainda não ficou decidido, se vocês também vão me matar a tiros?

— É, pode-se dizer isso.. .

— Então seria bom se vocês conseguissem chegar a um acordo com certa rapidez.

Ursbach olhou para sua mão direita, como se só agora percebesse que ainda estava com a seringa de injeção na mão. — Eu tenho um dever a cumprir. Você cumpra o seu. . .

Virou-se, aproximou-se de Ploetzerenke que gemia e ajoelhou-se diante dele. Os dois tiros tinham-lhe atingido o peito e penetrado num pulmão. A espuma sangrenta, que saía dos lábios de Ploetzerenke em cada respiração ofegante e escorria pelo queixo e pelo pescoço, tornava fácil o diagnóstico.

O ferido estava plenamente consciente e fitava Ursbach com olhos arregalados. Queria dizer alguma coisa mas não conseguia emitir uma só palavra. Apenas a espuma vermelha que saía de sua boca se avolumava. Ursbach arran­cou-lhe a camisa do corpo e tentou, inutilmente, virá-lo de bruços, para examinar os dois buracos de bala nas costas. Mas Ploetzerenke era pesado demais. Elas não atiram, pensou Ursbach, sentindo como os pêlos da nuca se eriçavam e sua pele tremia como se atingida por um jato de gelo. Talvez porque eu lhes tenha virado as costas? Era esse o maldito código de honra dos fu­zileiros de que lhe falara Peter Hesslich? Nas costas, não! O inimigo deve fitar você! Você deve poder ver seus olhos. Ursbach percebera isto como uma deci­dida perversão do matar, para uma desumanidade fria e uma arrogância ímpar: só um tiro entre os olhos é um tiro do qual possa alguém se orgulhar! Deus do céu, estas moças pensam realmente assim?

Ploetzerenke parecia decair em cada respiração. Seu rosto empalideceu e se tornou amarelado. Era como se literalmente se encolhesse com cada movimento do peito, como se o ar o deixasse, como se dos dois buracos no peito toda sua força se esvaísse. O pulmão dilacerado trabalhava, desesperado, assobiando, borbulhantes, e transformava em espuma o sangue que por ele corria.

Fritz Ploetzerenke morria de hemorragia interna. Ursbach fitou-o sério e acariciou-lhe o rosto trêmulo.

Ploetzerenke compreendeu. Ele, o homem forte, que até ali resolvera todos os problemas com os punhos, cuja boa vida fora marcada por sua força corporal, agora estava totalmente impotente. Nem mesmo o médico podia ainda fazer algo.. Ele o acariciava, como se acaricia um cachorro que já recebeu a injeção mortífera e continua a fitar leal e amoroso o seu dono.

A ternura da despedida final.

Ploetzerenke queria falar e seus lábios se movimentaram sob a espuma sangrenta. Acreditou até ouvir a sua voz, embora, na realidade, fosse incapaz de articular qualquer som.

— Onde está Schanna? — perguntou. — Elas mataram Schanna? Senhor médico auxiliar, cuide de Schanna, não de mim. . . As moças o deixam viver, não? Uma braçadeira com a Cruz Vermelha faz uma diferença! Vá ver Schan­na. O senhor não precisa ficar aí sentado do meu lado. Eu não sinto dores, não sinto dor nenhuma. Só frio. Que coisa louca! Um frio desgraçado. Espe­cialmente nas pernas. . .

Ele gemia e Ursbach sacudiu a cabeça, acariciou-lhe novamente o rosto, refletindo se devia dar-lhe o narcótico que destinara a Schanna.

Atrás de si escutava as vozes, não muito altas, mas excitadas, das moças. Lida, Marianka e Vanda tinham cercado Schanna. Babajeva encostara a cabeça no ombro de Marianka e chorava baixinho.

— Você consegue andar? — perguntou Lida. — Nada de muitas palavras, Schanna. . . para isto teremos tempo depois! Nada de explicações. . . Nós a carregaremos. . .

— Soja Valentinovna mandou vocês? — perguntou a doente, soluçando.

— Não. Somos voluntárias. Soja nunca a teria mandado buscar, nem mesmo depois de seu sinal luminoso!

— Fui expulsa, não?

— Você tem muito a explicar, Schanninka.

— Eu. . . eu tenho de matar 10 alemães, para poder pertencer novamente ao grupo de vocês.

Quando Ploetzerenke gritou, gemendo, ela apertou as mãos contra os ouvidos.

— Um. . . um eu entreguei a vocês. — E agora ela também gritava e seus olhos negros pareciam querer saltar das órbitas. — Matem-no! — berrou. - Por que vocês não o matam?! Ele vive ainda, suas gralhas cegas, suas mise­ráveis trapalhonas! O que vão pensar de vocês?! Ele ainda vive. . .

— Levem-na para fora — ordenou Lida Iljanova e acenou para Marian­ka e Vanda. — Segui-las-ei logo. O que ainda tem de ser feito, eu assumo.



Marianka e Vanda ajudaram Schanna a se erguei e a apoiaram. Ela esta­va muito fraca, mal podia andar; no entanto, suficientemente forte para dar dois passos em direção a Ploetzerenke. Fitou-o silenciosamente — o rosto amarelo, que se tornava cada vez menor, a espuma de sangue na boca e no pescoço, o peito manchado de sangue, com os dois buracos das balas que o tinham atingido. Os pés de Ploetzerenke tremiam, os calcanhares batiam no chão. Ele sentia que internamente queimava e morria gelado. Agora o seu olhar havia deixado Ursbach e descobriu Schanna. Fitaram-se durante segundos e depois o rosto de Ploetzerenke abriu-se em uma careta grotesca, que não era outra coisa senão um sorriso feliz, com o qual Fritz se despedia de Schanna.

Ela está de pé. . . ela vive. . . ela veio para mim! Schanna, isto é lindo. . . você me advertiu um instante tarde demais. Mas você também não sabia que elas viriam. Obrigado, Schanna. . . O que irão fazer com você agora?

Ela o fitou em silêncio. Seus olhos o cumprimentavam, até pediam perdão. Depois apoiou-se em Marianka e se virou.

— Vamos... — chamou. — Foi você que o atingiu?

— Um tiro foi de Lida, o outro meu.

— Você sempre o quis ter, o “touro”! Agora você o pegou...

Elas arrastaram Schanna para a porta, pararam um instante, espiaram para fora, para detectar algum perigo, e depois saíram do celeiro. A noite era quente e calma, ninguém aparentemente ouvira os dois tiros. Vanda se apoiou na parede. Em uma construção vizinha os gansos grasnavam.

— Vamos esperar Lida?

— Ela virá logo.

— Ela irá liquidar o médico?

— Nós o ouviremos. — Marianka segurou Schanna, cujas pernas cediam. — Você não consegue mais andar, Schanna?

— Não.

— Nós iremos arrastar você para o rio em um cobertor. . . — Marianka deixou que Schanna escorregasse para o chão. Schanna começou a bater com os dentes de tanta dor. — O alemão ia operar você?



— Ia, sim.

— Isto Galina Ruslanovna também sabe fazer! Fique tranqüila, Schannanka, agora você está salva.

No celeiro, Lida estava ao lado de Ursbach e observava-o aplicar uma in­jeção em Ploetzerenke. Nesse instante o médico percebeu as longas pernas nuas, até a calcinha estreita, sobre as quais começava a blusa do uniforme. O triângulo preto de Lida aparecia nitidamente através da calça fina e estreita. Segurava a carabina apertada de encontro às coxas brancas.

— Você ainda pode ajudá-lo? — perguntou Lida. Djanovna.

— Não. Aliás, sim. . . Eu agora posso ajudá-lo a morrer sem dores.

— Você o dopará?

— Farei com que seu coração ensangüentado adormeça. — Ursbach retirou a agulha da injeção da veia do braço de Ploetzerenke e colocou a seringa ao lado. — Só mais alguns minutos. . .

— E depois?

— Depois? Depois você pode me matar! Vocês matam qualquer um que esteja na frente de vocês!

Ploetzerenke se tranqüilizava. A injeção surtia efeito. Já não sentia dores, o frio gélido passara, tudo se tornou leve e maravilhosamente em paz. Virou a cabeça para Ursbach e o fitou agradecido. Depois seu olhar caiu sobre as pernas nuas de Lida Djanova e novamente um esgar passou pelo seu rosto, através da espuma sangrenta. Antes de ficar inconsciente e passar para a eternidade, ainda percebeu a estreita calcinha de Lida — esta foi a última impressão que se gravou em seu cérebro, antes de cair na maciez da escuridão.

Lida se ajoelhou ao lado de Ursbach, comprimiu um monte de palha com as mãos e limpou a espuma da boca de Ploetzerenke. As bolhas vermelhas não voltaram, não se sentia mais a respiração.

— Ele está morto — disse ela e com a palma da mão fechou as pálpebras de Ploetzerenke. — Ele prendeu Schanna?

— Sim. E cuidou dela. Escondeu-a, porque sabia que não sobreviveria se a SD se apoderasse dela.

— E você ainda diz que nós todas matamos? —Pôs a carabina no chão, a seu lado, e olhou em redor. Onde Schanna estivera sentada, os instrumentos cirúrgicos se encontravam ainda sobre a toalha branca. Ursbach olhou de esguelha para a carabina. Poderia segurá-la com um só movimento. Provocadoramente, esticou a mão e a pôs sobre o fecho da espingarda, Lida não o impediu. Não se mexeu, apenas o mirou com um olhar longo, inquisitivo.

— Você não tem medo? — perguntou ele.

— De você, não. Quanto ao resto. . . Oh, sim, tenho medo. Nós não seríamos seres humanos, se não tivéssemos medo.

— E que tipo de seres humanos vocês são?

— Moças que amam sua pátria. Que odeiam vocês, fascistas, porque in­vadiram nosso país. O que vocês querem aqui? Por que você está aqui, em um povoado do Donez e não em algum hospital na Alemanha? O que faria você, se eu estivesse diante de você em Berlim?

— Tentarei imaginar. Estamos em paz. . .

— Não! Em guerra!

— Estamos em tempos de paz e você entra. . . Um verão como este. O vento quente ainda agita os seus cabelos. Você usa um vestido fino, florido e sorri; está na minha frente e diz: “Aqui estou eu! E agora?!” E eu não respondo, mas a acolho em meus braços e a beijo. . .

— Paz! — O rosto lindo, oval, não demonstrava emoção alguma; o seu olhar desviou-se dele. — Mas estamos em guerra! Nós nos odiamos! Nós temos de nos matar! — Ela retirou a mão do médico da carabina e puxou-a para si. — Dentro de um ano eu seria dentista, mas aí vocês vieram. . .

Ursbach curvou-se sobre Ploetzerenke, pôs a camisa rasgada, ensangüen­tada, sobre a cabeça de Fritz e se levantou. Também Lida se ergueu; ela tinha quase a mesma altura de Ursbach. Andou diante dele silenciosamente, com suas meias grossas, um andar leve e quase a voar, e ele a fitou como se fosse um milagre que se tivesse tornado um corpo. Na porta ela parou e se virou novamente.

— Entre vocês existe algum que usa uma boina de tricô, quando vai caçar pessoas?

Ursbach hesitou. Devia tratar-se de Hesslich, pensou. Uma boina de tricô pertence a seu equipamento, eu a vi.

— Sim — respondeu cautelosamente. — O que há com ele?

— Você pode adverti-lo. Todas nós o odiamos, especialmente Stella Antonovna!

— Quem é Stella Antonovna? Você?

— Não, eu sou Lida Djanovna.

— Lida. — Ursbach curvou-se ligeiramente. — Meu nome é Helge Urs­bach.

— E a quem isto interessa? — respondeu Lida, fria e defensivamente, mas seus olhos azuis demonstravam que, na realidade, ela queria dizer coisa bem diferente.

— O que há com essa Stella?

— Ela é a melhor fuzileira da União Soviética. E jurou vencer essa boina de tricô.

— Eu darei o recado a ele. — Ursbach aproximou-se um pouco de Lida. — Cara linda colega da medicina dentária.. .



— Pare! — a voz de Lida, apesar da dureza, soava insegura e trêmula. Ela levantou a carabina e visou a barriga de Ursbach. — Pare imediatamente! Stoj!

— Você não vai atirar.



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