Konsalik b de atalhão Mulheres



Baixar 2,15 Mb.
Página20/38
Encontro11.09.2017
Tamanho2,15 Mb.
1   ...   16   17   18   19   20   21   22   23   ...   38

Depois ajeitou Schanna cuidadosamente na palha e a cobriu novamente. Ploetzerenke retirou mantimentos de seu saco de pão: chocolate, um pedaço de marmelada de quatro frutas embrulhado em papel de pergaminho, um pe­daço de pão, um pedaço de queijo e duas latas de cerveja. Com um sorriso ani­mador mostrou seu tesouro, mas Schanna sacudiu a cabeça e fechou os olhos.

— Ela não pode comer. Tem dificuldade em engolir — explicou Ursbach.

— Amanhã cedo arranjarei uma sopa de trigo. Isto vai, não?

— E como o senhor vai conseguir isso?

— Só preciso de pó de leite. Ainda tenho trigo. Cozinho no abrigo. O pó de leite eu arranjo na cozinha da campanha. . . para isso, contarei três anedo­tas sujas ao pessoal!

— Antes de mais nada, Ploetzerenke, o senhor não pode mais amarrar a moça. Isto é uma verdadeira tortura!

— E se ela fugir?

— Para onde? Atravessando o rio? Ela está tão fraca, que nem chega até a margem.

Ploetzerenke olhou para Schanna. Seu rosto, emoldurado pelos cabelos negros, ficara ainda mais magro, mais infantil. Como ela é linda, pensou. Esta bosta de guerra! Sem ela, está claro, eu não a teria conhecido — mas agora a guerra podia acabar! Schanna, por você eu me mataria de trabalhar, dia e noi­te. Você teria uma vida boa comigo, nada lhe faltaria; verdade, eu posso traba­lhar como um touro, nada é demasiado pesado ou sujo para mim; eu tenho mãos que podem pegar no pesado. Isto poderia ser uma boa vida, com uma casinha e um jardim. Sim, esta eu vou construir para nós e os outros vão ficar espantados e embranquecer de tanta inveja! E você aprende alemão ou eu rus­so, veremos o que é mais fácil, isto não oferecerá obstáculos, Schanna. Só esta merda de guerra nos impede, só ela. . .

— O senhor tem razão — disse ele para Ursbach. — Para onde ela pode ir? Não a amarrarei mais. . .

Curvou-se sobre ela, beijou-lhe os olhos e a testa e apagou a lâmpada de querosene. Já lá fora, junto à parede do celeiro, Ursbach subitamente segurou Ploetzerenke.

— O senhor já se deu conta de que, se a descobrirem lá dentro, o senhor será condenado à morte?

— Se o senhor calar a boca, ninguém vai descobri-la. . .

— E se eu não puder ajudá-la mais?

Ploetzerenke fitou o céu noturno pálido. Era uma dessas noites de verão, quentes como veludo, de um preto suave, nas quais a pessoa não quer dormir e sim passear.



— Então a matarei com um tiro — respondeu Ploetzerenke baixinho. — Eu a amo. Não quero que sofra, que morra uma morte lenta cheia de dores.

O melhor seria que ela amanhã cedo já tivesse desaparecido, pensou Urs­bach. Eu o percebi no seu olhar. Ela não pertence ao tipo de moça que se re­signa ao seu destino. Ela luta por cada hora, que ela mesmo pode comandar. Ploetzerenke a ama — mas o que dela possui é apenas seu corpo indefeso. A ternura que ele possui não penetra na pele dela, nem um milímetro. Mas isto ele não compreende.

Ela deveria realmente fugir. . . nem que seja para morrer, feito cachorro, em um canto isolado.

Voltaram lentamente para a posição. Quando uma sentinela, agachada junto a um muro, os interpelou: “Senha!”, Ploetzerenke respondeu: “Buraco de merda ao quadrado!”, o que era absolutamente suficiente, porque todos sabiam quem dava esse tipo de resposta. Depois alcançaram a entrada do abrigo.

— Quando é que o senhor vai voltar para lá? — perguntou Ursbach.

— De manhã cedo. Se eu não tiver arranjado a sopa de trigo, levarei chá e pão com mel artificial.

— E ninguém ainda suspeitou de nada? O senhor vive se esgueirando por aí!

— Não. Só tenho medo de Hesslich e Dallmann, estes dois ouvem e vêem tudo. Mas até agora não a descobriram. Além disso, eu tenho aí fora um jardinzinho de que cuido, todos sabem disto.

— E se alguém da companhia o visitar?

— Então estou por aí e determino o que acontece. E se eu não estiver, também ninguém vai me visitar.

Esta lógica era irrefutável, e até então funcionara. Ursbach apertou a mão de Ploetzerenke, prometeu voltar no dia seguinte com instrumentos cirúrgicos e tudo o mais de que necessitaria, e voltou para a companhia.

O Tenente Bauer III, o sargento-mor Pfiaume e o Alferes Lorenz von Stattstetten, o “portador dos seis Ts”, como o chamavam, estavam sentados em volta de uma mesa e jogavam skat. Também para eles aquela noite aveludada era boa demais para desperdiçar dormindo. Stattstetten só viera jogar skat a contragosto, depois que uma ordenança o viera buscar, a mando de Bauer III. Enquanto isto, dava uma de poeta e escrevia poemas para sua pequena ucraniana da companhia de propaganda. Até o presente momento só havia recebi­do uma carta lacônica. O grupo de alto-falantes a que ela pertencia estava a serviço, sem cessar, e ia de lugar para lugar na frente. Mal começava o traba­lho, os soviéticos respondiam com bombas e granadas, fazendo mortos e feri­dos nas tropas alemãs. Em função disto, o grupo da propaganda era malvisto; os chefes das companhias protestavam contra sua presença, mas todos os ar­gumentos eram em vão. A resposta bem imponente era: esta missão especial foi abençoada pelos poderes divinos. Todos nós sabemos que, quando eles sur­gem, começa o tiroteio, mas não o podemos impedir. Guerra psicológica — existe uma repartição de peso para isso, em Berlim.

“Tenho pouco tempo para escrever”, desenhara a pequena ucraniana em sua carta. “Mas você escreve tão bonito. Eu o amo, meu querido. Oh Deus, se conseguirmos sobreviver a esta guerra...”

Lorenz von Stattstetten encomendou um pacote de papel do escritório e ficou a fazer longos versos, em estilo de ode ou soneto, de acordo com modelos gregos ou ritmo livre.



Tu, que és Sol e Estrela,

Imutável na mutação da noite e do dia,

Infinita na pulsação de toda a vida,

Tu és para mim átomo e espaço sideral. . .

Isto soava bonito, apesar de Bauer III, que lera alguns desses poemas, dizer:

— Lorenz, para que isto? Você não verá nunca mais esta moça, e versejar, isto Hoelderlin fazia melhor! Venha para um skat decente. . .

Ursbach tirou o boné e o casaco e sentou-se à mesa. Bauer III tinha nas mãos um naipe valioso e ganhava vaza após vaza.

— Finalmente o senhor chegou, seu quebrador de ossos! — exclamou, rindo. — Onde é que o senhor estava? Procuramo-lo por toda parte. O senhor precisa render nosso alferes, ele joga skat como um chinês com hepatite!

— Eu estava no Donez — disse Ursbach, arregaçando as mangas. — Esta amplidão e este silêncio! Mal podemos acreditar que estamos em guerra, tão lindo é. . .

— Oh, José e Maria, este também está começando a ficar lírico! — gritou Bauer III. Jogou as cartas na direção de Ursbach e esfregou as mãos. — Mistu­re para começar, médico auxiliar! O seu sentimentalismo vai descer lindo para as calças, quando o Ivan apertar de novo o botão!

Naquela noite Schanna Ivanovna conseguiu um feito ímpar.

Queimando de febre e sacudida por calafrios, ela engatinhou, apoiando-se nos joelhos e nas mãos, para fora do celeiro. Arrastava a lâmpada de queresene nos dentes. Enfiara-os a fundo na alça, e a cada movimento o querosene se sacudia e pingava em seus lábios. O gosto era nauseante mas ela o suportou, assim como também suportava a dor diabólica que exauria seu corpo.

Para fora, pensava. Para fora! Só postar-se diante da porta. E depois, acender a lâmpada e dar um sinal. Elas o verão, elas precisam vê-lo, elas não podem simplesmente ter esquecido de mim. Nome: Schanna Ivanovna Babajeva. Riscado. Não existe mais! Minhas queridas camaradas, eu ainda estou aqui!

As lágrimas corriam de seus olhos, mas ela conseguiu deixar o celeiro, engatinhou para fora, com a lâmpada entre os dentes, e depois deitou-se, chorando e tremendo, nas pedras do quintal. Conseguiu rolar de costas e fitou o céu estrelado.

Passou-se meia hora antes que ela tivesse forças para se erguer e pegar os fósforos, que Ploetzerenke colocara ao lado da lanterna.

Se me avistarem, virão amanhã, pensava Schanna Ivanovna. Stella, Marianka, Lida e as outras. . . e não conhecem piedade. Elas o matarão, Fritz! Eu vou ficar triste. Você me cuidou, me deu de comer e beber, você tocou e can­tou para mim. Mas depois você sempre caiu em cima de mim como um animal e arrastou minha honra pela lama. E eu sempre jurei: Vingança! Vingança! Vingança! Eu sei que você me ama mas você é um lobo, que primeiro lambe as feridas de suas vítimas e depois acaba por esmigalhá-las. Eu vou ficar um pouco triste, quando você morrer, Fritz, certo, ficarei triste. Mas com pensa­mentos de tristeza não podemos salvar a Rússia, só se conseguirmos liquidar vocês, seus alemães! Eu recebi uma missão, isso vocês precisam compreender, uma missão do Camarada Stalin, que disse: “Todo o Exército Vermelho preci­sa estar a postos para as batalhas decisivas com os ocupantes alemães fascistas. Ele precisa vingar o sangue e as lágrimas de nossas mulheres e nossos filhos, de nossos pais e de nossas mães, de nossos irmãos e irmãs, uma vingança sem pie­dade, morte aos invasores alemães!”

Veja, Fritz, esta é a nossa missão. Onde há então lugar para o seu amor?

Também eu sangro por um tiro de uma carabina alemã, também eu chorei quando você me estuprou. Sangue e lágrimas, precisamos nos vingar. Existe uma Rússia eterna. O que representa você em comparação, Fritz. . .

Ela acendeu um fósforo, encostou-o no pavio e deixou brilhar o lampião de querosene. Gemendo de dor, ergueu-se, conseguiu ajoelhar-se e começou a balançar o lampião, de um lado para o outro, na direção da margem, sem cessar. E soluçava, escancarava a boca, respirava o ar da noite e chorava alto. Não era apenas a dor que lhe queimava o corpo.

Do lado soviético um lampejar curto. Mais nada. Um clarão de luz, por um segundo. Schanna Ivanovna apagou o lampião, colocou-o a seu lado e se deixou cair novamente por terra.

Elas me viram. Elas virão amanhã e me buscarão. Agora sabem que Schanna Ivanovna Babajeva ainda existe! Minhas queridas amigas, deixem-me morrer junto de vocês. . .

Já era quase madrugada, quando engatinhou de volta para o celeiro, novamente com o lampião entre os dentes. Depois se deitou de novo na palha e se cobriu, tremia de frio, apesar do seu corpo arder.

Por volta das 7:00 Ploetzerenke apareceu com o café da manhã: chá, biscoitos e mel artificial. Como sempre, sentou-se ao lado de Schanna, a beijou e riu. Ela sorriu fracamente. Sua vida é tão curta, Fritz, e você nem o imagina. . .

—Esta noite. . . doutor vem — disse ele e fez com os dedos o movimen­to de cortar com uma tesoura, como se quisesse lhe fazer entender: Ele vai rasgar o ferimento. Ele ajuda você.

Ela acenou, concordando, comeu um biscoito com mel e bebeu o chá. Ploetzerenke teve de sustentar-lhe a cabeça, tão fraca ela já estava.

— Ele é um bom médico — continuou Ploetzerenke. — Doktor dobro. . . entende. . . dobro. . . Merda! A partir de amanhã eu aprenderei russo, Schanna. . . Amanhã a febre passou. . . neca de febre! Nix aua. . .

Schanna Ivanovna sorriu novamente. Em verdade, você é um homem bom, pensou. Mas é um fascista alemão, e não existe alemão bom, isto nós aprendemos.

Ela mastigava o segundo biscoito com dificuldade e Ploetzerenke a fitava com os olhos brilhando de felicidade.

Não sabiam que Ugarov, do outro lado do rio, já tinha observado a luz, com seu telescópio aguçado, e que agora os soviéticos sabiam onde se encontrava Schanna. Os sinais luminosos que partiam do lado alemão foram primeiro vistos pela sentinela Vanda Alexandrovna. Pelo telefone de campa­nha, que ligava a posição dianteira com a trincheira principal, ela logo alar­mou Soja Valentinovna Bajda, que vestiu, às pressas, o uniforme, tirou Ugarov da cama e com ele foi correndo para o lugar de onde se podia observar a luz oscilante.

Aí já tinham chegado, entrementes, 10 soldados russos e discutiam quem é que poderia estar fazendo aqueles sinais, lá do outro lado. Também a médica Galina Ruslanovna saíra do seu abrigo e mirava a orftra margem com um binóculo noturno potente.

— É possível ver algo? — perguntou Bajda ofegante, tirando o binóculo das mãos de Galina.



— Muito pouco! É uma lâmpada e alguém a balança perto do chão. Mas de quem se trata, isto não é possível ver, com a melhor das boas vontades!

— Vocês acreditam que possa ser Schanna? — Bajda agora tinha a lâm­pada no seu campo de visão. A luz oscilante passava, de vez em quando, por uma mancha mais clara, que se assemelhava a uma blusa, a um pano. Depois mais uma mancha, bem rápido, ainda mais clara que a primeira, talvez uma ca­beça, um rosto. — Por que razão ela não deixa de ser boba e não levanta a lâmpada à altura do rosto?! Saberíamos então quem está por detrás dos sinais. — Deixou cair o binóculo. — Também pode ser uma armadilha, uma armadi­lha simples e infame. O diabo da boina de tricô seria capaz de fazer uma coisa dessas. Ele nos faz um sinal, nós atravessamos o rio e bumba, diretamente no fogo!

— E se for realmente Schanna Ivanovna? —perguntou Ugarov, observan­do por sua vez a margem alemã através do binóculo.

— Depois de seis dias? — A expressão do rosto de Bajda endureceu nova­mente. — Onde estava há tanto tempo?

— Prisioneira. . .

— Impossível! Nenhuma das minhas moças sobrevive um só dia aprisio­nada!

— E lá sabemos em que circunstâncias conseguiram prender Schanna?

— Não existe circunstância alguma que me possa impedir de escapar de um inquérito alemão! — disse Soja Valentinovna duramente. — Nada, Victor Ivanovitsch! Não consigo acreditar que Schanna ainda esteja viva e consiga transmitir sinais luminosos depois de seis dias na prisão! É isto que me deixa perplexa!

— Ao menos, deveríamos responder — sugeriu Ugarov. — Não nos pode prejudicar em nada. Se se tratar de uma armadilha, então eles ficarão a nossa espera!

Ligou sua forte lanterna de mão e iluminou a noite, contou até três e depois a desligou de novo. Pouco depois a luz do outro lado também sumia.

— Ela nos compreendeu! — disse Ugarov, quase feliz.

Bajda o fitou, de relance.

— Para você, é Schanna, não?

— Pode ser.

— E quem irá buscá-la? Eu só deixo ir voluntárias. E não mais de três! Já tivemos suficientes baixas por causa da boina de tricô!

— Eu vou! — gritou Marianka Stepanovna Dudovskaja. — Schanna é a minha melhor amiga.



— Eu também vou! — Lida Djanovna Selenko levantou a mão. — Eu. . . eu tenho pena dela. . .

— Covardes não merecem piedade! — Bajda passou ambas as mãos pe­los cabelos pretos. — O que quer que tenha acontecido lá, se realmente for Schanna, nós teremos de lhe perguntar: Por que você ainda está viva depois de seis dias prisioneira dos fascistas? Também se trata da honra de vocês, camara­das! Ela pertenceu à nossa unidade! Uma unidade de elite! Não o esqueçam!. . . Mais uma voluntária?

— Sim. Eu! — Galina Ruslanovna levantou a mão. Bajda sacudiu energicamente a cabeça.

— Negativo! Nós ainda precisamos muito de você, Galinanka! Estou fe­liz por termos um médico aqui! Também Stella fica! Aliás, por onde anda?

— Há dias ela dorme no povoado e espera o seu inimigo pessoal. — Ugarov deu de ombros.

Haviam tentado dissuadi-la mas desde que Stella vira o diabo da boina de tricô subir na margem como um nadador satisfeito, refrescado por um banho, ela só vivia pela esperança de um dia defrontar-se de novo com ele.

— Vocês não quiseram acreditar! — repetia incessantemente. — Mas eu o sei: ele volta! E desta vez voltará novamente e agora ele não me escapa. Até aí não descansarei...

— Então deixem Stella ficar onde está! — Bajda afastou-se da parede da trincheira e fitou o rosto de todas as moças que estavam em volta. — Refli­tam! Ainda permito uma voluntária. Mas antes de vocês trazerem Schanna de volta, perguntem como foi que ela atravessou o rio com um alemão! Se ela não conseguir responder, é melhor que fique por lá. Onde, aparentemente, se sente mais à vontade do que entre nós! — Fitou Marianka, que imediatamente abaixou a cabeça. — Aliás, existe ainda outra possibilidade. . .

Todas sabiam o que Soja Valentinovna queria dizer. O castigo do fracas­so e da covardia diante do inimigo era conhecido. Em uma unidade de elite, como a das fuzileiras, não havia mais o que perguntar.

— Vamos primeiro escutar o que Schanna tem a dizer —falou Ugarov, procurando ser mediador. — Nem sempre podemos mandar no destino, mesmo quando o imaginamos. . .

— Amanhã de noite. — Soja Valentinovna devolveu o binóculo à sentinela Vanda Alexandrovna. — Isto não é uma ordem, camaradas, apenas uma constatação.

Afastou-se com passos ligeiros e percebeu, irritada, que Ugarov ficara para trás. Tem de ser, pensou. Eu tenho de ser assim. Disciplina é tudo na vida que nós agora levamos. Só a coragem não basta, nem o amor à pátria. Para que possamos ganhar esta guerra, temos de nos rodear de uma forte couraça de aço, que impeça tudo de alcançar nosso coração. Temos de ser duras, mais duras que pedra, pois até pedras podem quebrar. Naturalmente tenho pena de Schanna. . . mas ninguém pode percebê-lo!

— Se for Schanna — disse Ugarov baixinho, antes de seguir a Bajda —tragam-na com vocês. Ela é uma pessoa. . . e ninguém pode transformar uma pessoa em máquina! Ha tem sangue nas veias e não óleo lubrificante. . . Tra­gam-na para cá, camaradas!

É sempre assim: quando precisamos de alguém, é justamente quando está fora do nosso alcance. Nesta noite Uwe Dallmann estava só em seu esconderijo. O regimento solicitara a presença de Peter Hesslich. Expressando-o mais clara­mente: pediram-lhe que falasse a respeito de sua saída solitária. O comandan­te do regimento mandara preparar uma refeição e Hesslich se viu sentado no meio dos oficiais, contando como eliminara as sentinelas femininas.

— Mas o que está acontecendo com essas moças? — perguntou um major da Flak. — É preciso visualizá-lo: aí está uma coisa jovem, bonita, à espreita, vê uma cabeça humana no reticulado e nem treme ao curvar o dedo sabendo: agora eu o mato! Não, ela atira. . . De onde arranjam tal frieza?! Mas isto é contrário a tudo que é feminino!

— Elas vivem do ódio! — Hesslich pegou o charuto, que o comandante do regimento lhe oferecia. Até isto ainda havia nos domínios da retaguarda: ciganos, charutos, conhaque, licor e carne assada em abundância. — Outra coisa é impossível pensar. E também não ouvimos outra coisa delas. As poucas fuzileiras que conseguimos prender até hoje mantiveram um silêncio de ferro, até que nós as matamos a tiros ou as enforcamos. A única coisa que gritaram, quando o laço já estava em torno de seus pescoços, foi: “Viva a União Soviética. Viva a Pátria! Viva o Camarada Stalin! Morte aos invasores!” E es­tes somos nós!

Hesslich deixou que um tenente lhe acendesse o charuto, fumou com gosto e olhou para a fumaça azul-branca. Os oficiais o fitavam em silêncio. Pa­ra eles esse sargento era uma espécie de monstro, uma máquina de matar com corpo humano. Apesar da guerra e das mortes diárias ele era um estranho em seu meio. Ninguém gosta de sentar na mesma mesa que a morte — mesmo no calor do verão acredita-se sentir um sopro gélido. Todos consideravam legíti­mo matar ao atacar e para se defender. Mas liquidar, calma e concentradamente, a partir de um esconderijo, uma pessoa solitária, com um tiro na cabeça de­cididamente artístico, era coisa completamente diferente. Isto era uma morte premeditada, para isso necessitava-se de nervos mais fortes que a consciência.

Ele se recostou na cadeira. Não sabia por que o tinham convidado para um almoço com seis pratos, a começar com uma sopa fria de morangos até um pudim de chocolate delicioso, com creme de baunilha; não sabia o que poderiam querer dele. Não era mais possível recomendá-lo para uma condecora­ção. Já possuía a EK I, não fazia jus à Cruz Alemã”, e a Cruz de Cavaleiro exi­gia algo mais do que a liquidação de algumas sentinelas. No máximo poderiam promovê-lo a sargento-mor. Pensar, porém, que um corpo de oficiais do regi­mento o convidasse para almoçar por um motivo desses era pelo menos muito insólito.

— Poderíamos perguntar da mesma maneira: Por que somos fuzileiros? — continuou Hesslich. Acreditava poder ler esta pergunta nos olhos dos oficiais. — Somos combatentes solitários. Os combatentes solitários porém, jamais podem decidir uma guerra, a não ser que liquidem os políticos, que meteram a todos na guerra. Uma coisa dir-lhes-ei, meus senhores: eu odeio a minha missão! Eu sou guarda-florestal, e agora preferiria mil vezes passear por uma floresta no verão e observar os animais, o esquilo, que faz ginástica nas árvores, um abelhão, que zumbe, de flor em flor, um inseto, que se arras­ta penosamente pela grama ou um pássaro, que cuida de suas crias. Tudo seria melhor do que ficar aqui no Donez, à espreita, para matar moças. Julgo que os senhores pensam e sentem da mesma forma. Mas aí existe um fenômeno que nós só poderemos analisar se sobrevivermos a esta guerra: puseram-nos em um uniforme e nos deram ordens, e veja. . . nossos cérebros se desligam e só fazem aquilo que lhes impuseram. E eles o fazem de forma rápida e precisa, maquinalmente, pois uma máquina não conhece nem escrúpulo nem lógica. . . Estamos sentados aqui no meio da Rússia e nos espantamos de que os russos querem se ver livres de nós! Conquistamos e incendiamos sua terra, caçamos, matamos ou transferimos seu povo e fingimos não saber o motivo de seu ódio contra nós. Milhões foram mortos, centenas de milhares aprisionados; em cada família houve perdas, as cidades estão em ruínas, a terra foi revolvida por bombas e granadas. . . e ficamos atônitos diante do fato de que os russos não nos querem mais! De certa forma, meus senhores, isto é verdadeiramente fenomenal! Nós só reconheceremos esta contradição em toda sua grandeza quando tivermos despido novamente o uniforme. Enquanto usar­mos este casaco cinza, qualquer argumentação lógica escorre de nós como água de uma toalha de cera.

— Sargento, o que o senhor acabou de dizer é suficiente para mandar matá-lo, a tiros, três vezes! — exclamou o comandante do regimento, bonachão. — O senhor por acaso acredita que entre nós, filhos de pastores, pode falar desta forma insolente! Não obstante, uma coisa o senhor provou: o senhor não sabe o que é medo! Não tem medo de nada e de ninguém!

— Eu só queria explicar por que sou fuzileiro. Primeiro, veio a ordem. Decerto, eu poderia tentar escapar dela, errando todos os tiros. Mas ninguém acreditaria em mim, pois em todas as tropas a minha fama de guarda-florestal que nunca erra um tiro chegava antes de mim. Existe uma carta de recomendação de meu chefe, o Forstrat, ao comandante do Wehrbereichkommando, que circula, em cópia, por toda parte. Ainda assim. .. eu poderia ter tentado inventar uma doença misteriosa dos olhos, que os médicos não saberiam curar. Um piscar, que impede qualquer tiro certeiro. Mas aí fizeram comigo a mesma coisa que eles lá fazem com as moças: mostraram-me fotografias de camara­das com tiros na cabeça, limpos, colocados exatamente com uma precisão de milímetros. Tiros exatamente sob a beira do capacete de aço. Tiros certei­ros no coração. “Isto foi obra dos fuzileiros siberianos!”, disseram para nós. “Olhem bem para as fotografias, assim os siberianos atiram! Nossas baixas já se contam pelos milhares. Só poderemos enfrentá-los se tivermos fuzileiros igualmente bons! Homem contra homem, não existe outra solução! Isto é uma forma de guerra especial!” Bem, nós o compreendemos e assim eu me tornei fuzileiro. E depois soubemos que aqui, na área do Sétimo Exército russo, uma divisão de mulheres tinha tomado a si a missão de matar solitariamente, e que o faziam melhor e de forma ainda mais precisa do que os homens. Acreditem em mim, internamente eu resisti à idéia! Desejei nunca ter uma dessas moças no visor. Atirar em uma mulher. . . nem cogitar! Mas depois, ali estavam novamente as fotografias, que me eram mostradas em cada divisão. . . tiros na cabeça! E cada um desses tiros era obra dessas moças! Eu nunca acreditaria que a gente poderia pensar apenas: um inimigo! Nada mais! E: seja melhor e mais rápido do que ele! Mas desde que 10 camaradas da nossa divisão de metralhadoras foram liquidados só penso assim.



1   ...   16   17   18   19   20   21   22   23   ...   38


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal