Konsalik b de atalhão Mulheres



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PARTE

UM

Do relatório do Comandante do Batalhão, Capitão Giovanni Langhesi, ao Estado-Maior do Oitavo Exército italiano na área Millerovo-Kantemirovka, com ligação do grupo militar alemão Don:



. . . também é necessário informar que quatro vezes ocorreram deser­ções misteriosas de postos avançados na área inimiga do Primeiro Exér­cito soviético. Todas essas ocorrências se desenrolaram na seção Tschjertkovo.

Os postos avançados, compostos de dois homens cada um, já não mais estavam em seus lugares de observação quando as tropas libertadoras lá chegaram. Nada deixaram para trás. Levaram suas armas e munição. Na seção de artilharia não houve ocorrências especiais, a situação estava tranqüila, exceção feita da atividade mais intensa, a partir de meados de dezembro de 1942, por parte de iniciativas soviéticas isoladas, como ar­tilheiros, ações de tropas de espionagem e propaganda por alto-falantes, que convida à deserção.

No caso dos homens desaparecidos trata-se — segundo o relatório dos chefes da companhia — de soldados sem mácula, alguns tendo recebido a Cruz de Ferro. Entre as pessoas sumidas também se acha um suboficial A partir das posições de nossas tropas não se pôde perceber nada que in­dique uma ofensiva inimiga contra os postos avançados. Portanto, te­mos de admitir que todas as oito sentinelas desertaram e se incorpora­ram às tropas soviéticas.

Peço conselhos a respeito das medidas defensivas a tomar. O moral da tropa é espetacular. Tanto mais estranhas são tais ocorrências. . .”

Este relatório levou seis dias até alcançar, passando de mesa em mesa de regimentos e divisões, cada vez com mais assinaturas, qualificando-o “urgen­te”, o Estado-Maior do Oitavo Exército italiano. Entremeptes, mais três senti­nelas desapareceram, o que foi motivo de queixa de um novo comunicado por parte do Capitão Langhesi, rotulado “muito urgente”, o qual terminava com uma frase totalmente não-militar: “Estou diante de um enigma!”

— Há algo de podre na cabeça de Langhesi! — disse o Coronel Bartolini, do Estado-Maior, e colocou os relatórios em uma pasta de cartolina vermelha. — Como pode falar do elevado moral de sua tropa, se esses sujeitos desertam em massa?! Essa propaganda soviética, transmitida pelos alto-falantes, é tão ri­dícula que ninguém se deixa tapear por ela! Meus senhores, podem imaginar que alguém irá acreditar nessa porcaria? Exatamente na área de Tschjertkovo e em nenhum outro lugar?! Cada um de nós sabe o que nos espera lá do outro lado como prisioneiros de guerra. O russo não faz nenhuma distinção entre os que aprisiona e os que desertam. . . tudo isso não passa de propaganda.

— Eles agora inventaram coisa diferente, Coronel — respondeu um jovem Major, que chegara de Milão há nove dias e tinha como missão preparar uma contrapropaganda. Há dois dias visitara as posições mais avançadas.

— E daí? Mentira é mentira.

— Uma frase especialmente marcante diz: “Larguem as armas! Venham para o nosso lado! Para vocês a guerra terminou. Vocês sobreviverão. Mil lá­bios femininos rubros esperam vocês em Moscou...”

— Mas isto é totalmente idiota! — O Coronel retirou a poeira da parte dianteira de sua farda com as mãos, como se a propaganda o tivesse sujado. — Loucura total!

— Sei que estão discutindo isso secretamente. Lábios femininos rubros . . . para um italiano esfomeado. . .

— Vinzenzo, isso é uma piada tola! — O Coronel Bertollini fitou o jovem Major meio perplexo e sem saber o que fazer. — As tropas devem estar morrendo de rir dessa idiotice contida na propaganda soviética! Em Moscou lábios femininos rubros os esperam. . . por causa disso ninguém se bandeia pa­ra o outro lado! E mesmo se ao ouvir a palavra mulher as calças lhe rebenta­rem. . . Vinzenzo, o senhor acha que o desaparecimento misterioso das sentinelas realmente tem relação com isso?

— Trata-se apenas de uma idéia entre muitas, Coronel.

— Então colocaríamos bordéis nas Unhas de frente? Para cada companhia uma fortaleza de fêmeas em cio! Isto forja uma nova palavra: puta especial das linhas de combate principais (PELCP)! Não! Há algo de podre na cabeça do Capitão Langhesi! Eu enviaria o batalhão para a retaguarda por uma sema­na e cozinharia o cu deles, se soubesse como preencher a lacuna. Mas não pos­so! Aqui só há um jeito: mostrar a essa gente que depois da vitória é mais lin­do viver na Toscana do que na Sibéria! Lutar e vencer. . . ou desertar e apo­drecer na taiga! Afinal de contas, esta é uma alternativa dura, mas claríssima.

Desta forma aconteceu que nada aconteceu — até que uma delegação de nove oficiais do Grupo do Don, do Quartel-General do Marechal-de-Campo .von Manstein, visitou o Oitavo Exército italiano, para discutir a situação à vis­ta de cartas que trouxeram consigo, informes coletados de prisioneiros de guerra soviéticos e de discernimentos oriundos das próprias observações.

Nos primeiros dias de janeiro de 1943 tudo era tranqüilidade na frente. Mas a calma era ilusória. Os ventos gélidos, que passavam céleres pela estepe do Don, a rigidez total da natureza em virtude da geada, o frio mortífero, que podia queimar as pessoas, não impediam os russos de construir, ao longo de uma linha de 550 quilômetros, uma frente de ataque que ainda não podia ser claramente discernida. Sabia-se apenas que 10 exércitos russos, muitíssimo bem armados e descansados, estavam diante de seis exércitos alemães dizima­dos. E nem isto era totalmente verdadeiro. . . entre os seis exércitos alemães havia três aliados: o Segundo Exército húngaro, o Oitavo Exército italiano e o Terceiro Exército romeno. Nos estados-maiores alemães essa frente combalida era vista com preocupação. Em Stalingrado o Sexto Exército, cercado, comba­tia desesperadamente por cada metro de terra, por cada ruína, por cada mon­te da estepe. Ele ainda podia ser provido de víveres e armas pelos aeroportos de Pitomnik e Gumrak. Ainda se tinha esperança de poder quebrar, de alguma forma, o cerco soviético, apesar de novos grupos de tropas russas se estabele­cerem a leste do Don, como se Stalingrado não passasse de uma bolha de sa­bão, que cedo estouraria. As novas tropas se agrupavam diante das posições alemãs, que puderam ser estabelecidas porque o Sexto Exército em Stalingra­do se sacrificava para isso, mantendo estacionados os exércitos soviéticos de elite. Todo o flanco direito do Grupo do Don era uma miséria... dois exérci­tos aliados contra cinco russos, e bem no sul, em Rostov, apenas o Quarto Exército Blindado contra toda a frente sul do Marechal Jeremenko.

A situação era a mesma de sempre: uma proporção de um a sete. Nos quartéis dos estados-maiores ninguém se iludia a respeito. Stalingrado estava perdida, mesmo que estivesse sendo defendida com uma coragem heróica, alu­cinada. Ao mais tardar em meados de janeiro, a ofensiva soviética de inverno se dirigiria, saindo da estepe, para Orei, Cursk, Charkov, Stalino e Rostov, com o objetivo de despedaçar a asa direita dos alemães e recuperar, mais ao sul, o Transcáucaso.

Quão desinteressantes eram, em tal situação, os informes a respeito do desaparecimento de algumas sentinelas na região de Tschjertkovo. O Coronel Bartollini nem os apresentou as camaradas alemães. . . a vizinhança do Tercei­ro Exército romeno preocupava-o muito mais. De lá, ouvira coisas imprová­veis: diziam que os soldados romenos trocavam suas metralhadoras e outras armas, em encontros secretos com o inimigo, na terra de ninguém, por cigar­ros de Machorka e vodea. Algo parecido também ocorrera com o Quarto Exército romeno diante de Stalingrado, antes de ser simplesmente esmagado pelas tropas do General Trufanov, com o que o destino do Sexto Exército tomara o seu rumo funesto.

Foi o Major Vinzenzo quem, depois de um bom jantar e uma rodada de conhaque, chamou, sub-repticiamente, a atenção dos convidados alemães para o caso dos desertores do Capitão Langhesi.

— Eu sei, meus senhores, o que estão pensando — disse ele e sorriu meio sem jeito. — Estes itacos, quando ouvem falar de mulheres! Basta que os Ivans acenem com uma calcinha e já eles desertam. Conheço as anedotas alemãs a respeito de nós italianos! Comunicado do Exército italiano: Uma companhia de tropas de assalto italianas conseguiu obrigar um inimigo, que passeava de bicicleta, a apear. Conquistaram a roda de trás, mas ainda houve um combate mortífero pelo guidom. . . — Vinzenzo pediu com um gesto para que paras­sem, quando os oficiais alemães quiseram protestar, mas sem muita convicção.

— Ao contrário do Coronel Bartollini, o desaparecimento das sentinelas des­perta em mim um sentimento estranho. Por que se trata sempre dos observa­dores nos postos avançados?

— Eles têm diante de si o caminho mais curto para a suposta liberdade — respondeu sobriamente um oficial alemão. — Está claro, não?. . . E além disso estão sozinhos durante a noite. Ninguém os observa quando se arrastam para os braços do Ivan. As coisas aconteceram sempre durante a noite, não é?

— Sim.


— Então, não há nada a questionar.

— Para mim, há. — O Major Vinzenzo esperou até que a ordenança tives­se terminado de encher novamente os copos de conhaque. Estavam sentados na sala de estar de uma fazenda perto de Starobelsk, onde quatro fogões de ferro chiavam de calor, o recinto cheirava a madeira úmida e peles molhadas, postas para secar. — Irei amanhã para a frente, observar atentamente a divisão.

— E o que o senhor espera ver? — Um dos oficiais alemães sorriu ironi­camente. Por que razão os italianos têm de fazer uma ópera a respeito de tu­do, lia-se no seu olhar. Então, alguns tipos covardes e cansados da guerra de­sertam. . . e daí? No máximo quando os Ivans lhes arrancarem os relógios do pulso e os roubarem de alto a baixo, perceberão que idiotas foram. . . Para que perder tempo falando disso?

— Alguma coisa deve estar transtornando esses homens!

— O senhor acredita que isto ainda esteja acontecendo nas tropas desse Capitão Langhesi?

— Ontem desapareceu o Segundo-Tenente Pietro Lucca. E ele tinha sido condecorado com a Cruz de Ferro I.

— Ora, até oficiais condecorados com a Cruz da Ordem dos Cavaleiros já fizeram cocô nas calças! — O Tenente-Coronel von Rahden, um dos convida­dos alemães, apagou o cigarro no cinzeiro de vidro, na mesa, a seu lado. — Confesso que é estranho que exatamente nesta divisão se acumulem os deser­tores. Nas outras divisões não?

— Não! Nem um único caso de deserção! Só na região de Tschjertkovo.

— Diacho, alguma coisa aí não está certa! — von Rahden olhou estupe­fato para os seus dois colegas. Tratava-se dos Majores de Estado-Maior Heinrich Schlimbach e Peter Halberbaum, oficiais de tropa experientes, com Cruz de Ferro, condecoração por combate corpo a corpo, medalhas por ferimentos em combate, “medalha da carne congelada” e com a Cruz Dourada alemã. — Como é? Vamos acompanhar nosso camarada italiano amanhã?

Os outros hesitaram. Suas ordens rezavam discutir com os oficiais do Oitavo Exército italiano com conceito tático contra a ofensiva russa, mas não, a título de pura curiosidade, ir para a linha principal de combate, com o objetivo de observar italianos cansados da guerra. Além do mais, seria totalmente descabido. Um soldado não pode — mesmo na guerra — deslocar-se para a frente de batalha, quando quiser. Qualquer ação militar pressupõe uma ordem. Qualquer ação ocupa uma série de repartições competentes. O Tenen­te-Coronel von Rahden descartou as objeções com um gesto manual eloqüente.

— Se a deserção crônica é tão fora do comum, também é do interesse do grupo que comanda o Exército. Afinal de contas é o nosso flanco direito que, sem que o saibamos, talvez esteja mole como manteiga! Se esta saudade da Si­béria se espalhar. . . ora, levante também a saia, vovó. . . então o caso é de arrepiar e nos agradecerão efusivamente que nós nos preocupamos com ele impulsivamente! — Mirou Vinzenzo com seus olhos claros. — Quando é que o senhor parte, Major?

— Amanhã cedo para o regimento. . . à hora do crepúsculo para a LPC (Linha Principal de Combate). A posição é visível para os soviéticos. . . estepe, chata como uma barriga raspada a gilete .. .

— Isto é, com pequenas ondulações.

— É isto mesmo.

— Merda de posição!

— Não tem outra. Toda a região é igual. Consolamo-nos com o fato de que o Ivan também pode ser visto por nós. Todo o tráfego público só pode acontecer de noite. E aí temos a catástrofe! Os soviéticos trazem víveres, mu­nição e reforços com trenós motorizados. . .

— E aí ninguém os afugenta com algumas baterias de artilharia?

— Ordem número 1: Poupar munição! Cedo necessitaremos de cada tiro. Esta maravilhosa notícia os senhores próprios trouxeram. A grande ofensiva de inverno ocorrerá dentro de pouco tempo.

— Nós o acompanharemos, Major Vinzenzo — falou von Rahden, ansio­so por agir. — Estaremos de volta depois de amanhã?

— Na noite seguinte? Sim. Os senhores receberão escolta para retornar. Eu permanecerei lá fora e me postarei dentro de um buraco de sentinela.

— Então virá o fantasma desconhecido e o comerá.. .

— Talvez...

O Tenente-Coronel von Rahden riu alto e esticou bem as pernas vestidas com botas reluzentes. — Meu querido Vinzenzo, agora compreendo, cada vez melhor, porque a Itália é o país dos grandes dramas teatrais! Bebamos mais um conhaque!

De manhã cedo viajaram de Starobelsk para a frente em um carro de cuba. Ti­nham-se enrolado em grossas mantas de carneiro. O frio era como uma faca — cortava qualquer fazenda, a pele, os músculos, os ossos e picava o corpo em pedacinhos. Os cobertores de pele de carneiro esquentavam um pouco, é ver­dade, mas a respiração logo formava um filme de gelo, colava nos cachos de pele, entupia as narinas, pendia, em pequenos bagos, das sobrancelhas.

O motorista, um pequeno cabo de Trapani, na Sicília, estava agachado atrás do volante como um torrão de gelo. O cano de descarga fumegava como um farol de neblina.

— Com este gelo os Ivans também não pegam em nada! — comentou von Rahden satisfeito. — Os dedos deles congelam nos gatilhos das carabinas como os nossos! Afinal de contas, os Ivans também curvam os joelhos ao ca­gar. . .

O regimento já tinha tomado conhecimento da chegada deles. O Major Vinzenzo tinha-se ocupado do aviso, às escondidas. Os camaradas alemães fo­ram recebidos com aguardente e manifestações de boas-vindas, a cozinha pre­parara macarrão com carne de boi e assara um imenso Panetone, um bolo que tinha até passas. J

À guisa de surpresa convocaram o Capitão Langhesi. Ele saudou a dele­gação meio constrangido e lacônico, pois suspeitava do que dele se pensava: nenhum ânimo na tropa, típica moral de espaguete. . . bastaria um único sar­gento alemão em cada companhia, e os italianos fariam continência antes de cada pipi.

— Agora deslocamos sempre quatro homens para a frente — disse Lan­ghesi amargamente. — Quatro não desertam tão facilmente como dois. Não chegam a um acordo. É uma bosta. . .

— E o que dizem os homens? — Vinzenzo fumava nervosamente e com precipitação. Langhesi lhe contara que os soviéticos estavam deslocando suas tropas na região de Tschjertkovo. Durante as noites podiam ser observados trenós chatos, velozes, deslizando pela estepe coberta de neve e desaparecen­do no terreno ligeiramente ondulado. Mesmo bolas luminosas disparadas, que inundavam a região com uma luz pálida mas intensa, penduradas em pára-que­das, não os perturbavam. Elas demonstravam sua superioridade. Algumas ve­zes atiraram nas posições soviéticas com lançadores de minas, sem conseguir nada de excepcional. Apenas significava: ainda estamos aqui, estamos vendo tudo. Venham. . . O que dissera Hitler? Um alemão vale por 12 russos!

Que importância tinha, realmente, para eles, esta frase louca? Eles eram italianos. . .

— O senhor os verá e falará com eles, Major — sugeriu o Capitão Langhe­si aflito. — O moral das tropas é bom. . . quero enfatizar isto expressamente! Todos xingam os desertores. . .

— A grande ária da condenação. — O Tenente-Coronel von Rahden riu, um tanto provocadoramente, quando Vinzenzo lhe fez a tradução. — Não me leve a mal, Vinzenzo. . . mas de alguma forma isto tem de estar vinculado à mentalidade sulista. O caráter mediterrâneo. . .

À hora do crepúsculo viajaram para a LPC. Até a tenda de combate do batalhão usaram os trenós motorizados, mas daí por diante só se podia an­dar a pé. Vinzenzo e os três oficiais alemães vestiram as roupas brancas de camuflagem sobre seus uniformes e se juntaram a uma tropa que levava para a linha de frente, em mochilas e latas de alumínio presas à cintura, novas provisões para as cozinhas da companhia.

Alcançaram, sem ser molestados, as posições avançadas, um sistema de trincheiras com pontos de gravidade nos abrigos de terra. Sulcos achatados pe­los quais podiam arrastar-se levavam para trás, em direção a um declive, onde ficava o abrigo da companhia. Um jovem tenente cumprimentou os convida­dos com o rosto franzido. No âmbito da Segunda Companhia, só nela, tinham desaparecido quatro homens.

— Nada de especial ocorreu — participou aos presentes e olhou para os alemães com olhos nada amistosos. — Somos visitados como se fôssemos uma ruína romana. Uma triste fama, a de ter o maior número de desertores.

— Quando iremos para os postos? — perguntou von Rahden decidido.

— O melhor será por volta de meia-noite. — O Major Langhesi olhou o relógio de pulso. — Dentro de três horas. O senhor poderá ver então como os soviéticos vão de lá para cá, sem se preocupar com coisa alguma. São como formigas. De dia pode-se dormir, pois do lado de lá tudo está morto e vazio. Só da terra sai fumaça. . . os fogões nos abrigos.

— Bem, então nos esquentemos um pouco primeiro — convidou o Major Schlimbach, enquanto tirava algumas coisas da sua sacola de linho. — O inten­dente do seu regimento nos doou uma garrafa de Grappa.

Mais tarde estavam deitados, bem temperados por dentro, no cume do monte achatado e olhavam com binóculos noturnos para as posições soviéti­cas. Um grupo de trenós motorizados deslizava pela estepe branca, dois carros blindados tropeçavam sobre o terreno cheio de buracos, indistintamente sur­giram três tanques T-34, movimentando-se como fantasmas pela noite e sendo depois engolidos pela escuridão.

— Isto é uma sem-vergonhice! — disse o Tenente-Coronel von Rahden, rouco de tanta irritação. — Se a gente pudesse ir lá!

— Se pudéssemos, verdadeiramente, nos locomover em toda a frente — retrucou Langhesi sarcasticamente. — Então já estaríamos no Ural. . .

— Erro seu! Então a Rússia já se chamaria Terra Oriental e no próximo ano seria o nosso celeiro de trigo! Mas estes ses determinam a história do mundo. Temos de nos conformar com o fato de que estamos deitados aqui e observamos o Ivan e que de tanta raiva a nossa bunda treme.

Pouco depois de meia-noite foram bem para a frente, receberam o informe de um sargento, que em vista de tantas autoridades elevadas, começou a gaguejar, e depois se arrastaram, ao longo da trincheira de comunicação, para as posições avançadas. Como o buraco era demasiado pequeno para abrigar todos, tinham retirado as sentinelas uma meia hora antes. O Major Halbermann fitou, quase amorosamente, a corda da posição dianteira para a trinchei­ra. O barbante terminava em uma trave de madeira com latas de conservas va­zias. Quando as latas começavam a chocalhar, isto significava: Alarme, saiam dos abrigos de terra! Ataque do Ivan!

Durante alguns momentos Halbermann pensou na época em que era chefe de companhia diante de Leningrado, antes de ter sido desligado e envia­do para a Escola de Comando e Estado-Maior e depois se tornara Major i. G. O chocalhar das latas de conservas — a gente parava de pensar, só era arma.

Estavam deitados no buraco das sentinelas avançadas e olhavam para a frente, para as posições soviéticas. Langhesi estava agachado bem à esquerda e estava aborrecido porque uma protuberância de terra lhe tapava em parte a visão; depois, em ordem, estavam o Major Schlimbach, o Tenente-Coronel von Rahden e o Major Halbermann. Tinham colocado seus binóculos noturnos sobre a borda de terra e fixavam rigidamente a estepe.

— Distância? — perguntou von Rahden. — Aproximadamente?...

— Até as pequenas colunas de fumaça dos abrigos? — Halbermann em­purrou para a frente o lábio inferior.

— Sim.


— Talvez 400 metros.

— Ou 500?

— Não creio. Isto ilude.

— Portanto, os sujeitos se arrastaram, feito focas, cerca de 400 metros pela estepe adentro, para desertar. Não podemos admitir que tenham marchado eretos, com os braços levantados. . . senão teriam sido vistos das trincheiras. Portanto, arrastam-se e chegam ao outro lado, sem ser molestados. O que o senhor deduz disto?

— Os soviéticos os estavam esperando.

— Correto! Costuma-se atirar logo em um homem que se arrasta para as linhas inimigas! Os Ivans também têm observadores bem na vanguarda. Quem sabe onde estão deitados? Talvez possamos acenar para eles!

— E foi exatamente o que fizeram os desertores e depois saíram por aí, feito focas! — disse o Major Schlimbach, convencido. — Isto explica o absolu­to silêncio da façanha.

— Devíamos experimentá-lo! — O Major Halbermann riu, cacarejando.

— O quê? — von Rahden olhou de esguelha para o lado.

— Levantar um lenço branco. Veremos como reagem.

— Negativo! Nada de provocações, Halbermann! Eu não quero provocar nenhuma salva de tiros de morteiro. Em minha opinião chegamos um pouco mais perto da verdade. Que merda! Milhares de lábios rubros te esperam em Moscou. . . Que eles com isto conseguem seduzir, para o seu lado, uma só ca­beça apenina cacheada! Meu Deus, que soldados. . .

Empurrou-se um pouco mais para cima, observou as bandeirolas de fumaça sobre os abrigos de terra e viu, feito sombras, algumas formas movimen­tarem-se de um para o outro lado. Parecia que os víveres eram trazidos para a frente. Leite congelado em pedaços, pão que depois de descongelado se trans­formava em pasta. Sopa de repolho que depois de esquentada fedia a fel.

— São uns pobres porcalhões, lá do outro lado, exatamente como nós. . . Olhe para isto, Halbermann! Chamou Von Rahden excitado. — Isto não pode ser verdade. Os meus óculos ficam embaçados! Lá. . . um pulo de polegar da coluna de fumaça da direita na nossa frente, para a esquerda, em dire­ção ao meio. Percebeu? Isto é incrível.. .

— Mulheres! — O Major Schlimbach empertigou-se um pouco mais no buraco das sentinelas. — Duas mulheres! Sem dúvida alguma!

— Podemos percebê-los pelos cabelos compridos, encaracolados! Eles re­cebem visitas femininas na posição! — von Rahden bateu com o punho na borda da terra. — Gente! Que coisa! Isto faz até um negro ficar branco!

Todos se esticaram, saindo metade do buraco e levantaram seus binóculos.

Sua roupa branca de camuflagem fazia com que fossem confundidas com a neve.

Usavam botas macias, grossas, de pele, um boné bem apertado de lã, que só deixava livre os olhos e uma nesga sobre a boca, para respirar, capuzes forrados de pele e luvas brancas, tricotadas, de lã grossa.

Estavam deitadas em um buraco de granada, duas formas esticadas, lisas. Respiravam com a boca encostada na terra, para que a respiração não as denunciassem, e fitavam, silenciosas, através dos telescópios de mira. Até suas carabinas de canos compridos estavam pintadas de branco.

O funil era suficientemente grande para três. Estavam deitadas á vontade, podiam se movimentar livremente e podiam ficar aconchegadas atrás da arma. A noite era razoavelmente escura; sobre a neve havia uma claridade difu­sa. A fraca claridade concentrava-se no telescópio de mira e circundava o obje­to visado com uma espécie de áurea. A morte tinha uma auréola de santo.

— Cada uma toma aquele que estiver à sua frente — murmurou a forma do meio. — Contarei de 10 para trás. Ao chegar a zero, atiraremos em conjunto.



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