Konsalik b de atalhão Mulheres



Baixar 2,15 Mb.
Página19/38
Encontro11.09.2017
Tamanho2,15 Mb.
1   ...   15   16   17   18   19   20   21   22   ...   38

Ele se escondeu em um monte de escombros e se sentiu muito mal. Não pense nisto, Peter Hesslich! Pare com essas auto-acusações! Da próxima vez, faça-o melhor! Atire simplesmente, sem pensar — mesmo que ela tenha ca­chos louros e uma linda covinha na face esquerda...

Ele permaneceu três dias e três noites no lado soviético.

Trocava incessantemente de esconderijo. Aparecia, qual fantasma, nos domínios do Grupo Bajda, nos lugares os mais diversos, e desaparecia tão rapi­damente quanto aparecera. Onde surgia, deixava vítimas — em três dias e três noites matou nove adversárias.

Bajda vociferava, berrava e chorava; fazia as moças correrem por todo o terreno. Foi organizada uma verdadeira caçada; examinaram, palmo por pal­mo, o povoado destruído. Ugarov solicitou apoio aéreo; assim, no terceiro dia, uma “máquina de fazer café” voava lenta e muito baixo sobre a margem soviética do Donez e examinava o terreno ondulado.

Nessas horas críticas Hesslich se agachava em um buraco estreito de gra­nada, sobre o qual colocara um arbusto. Algumas vezes tropas de choque pas­saram rente ao seu esconderijo. Ouvia as vozes das moças, o batucar de suas botas e sustava a respiração.

À hora do crepúsculo aparecia novamente e atirava, e só foi visto uma única vez. Dascha Borisovna se salvou com um pulo desesperado para dentro de um monte de tábuas chamuscadas, quando, ao seu lado, Marina Pawlovna caiu com um buraco na testa.

— É ele. . . — gaguejava depois e tremia feito vara verde. — O homem com o boné de tricô! Eu o vi nitidamente! É o diabo. . . o diabo. . . o diabo. . .

Dascha berrava e berrava, golpeava com os braços tudo que estava a seu alcance e estava perto da loucura. Galina Ruslanovna teve de lhe dar um soporífero forte.

O Tenente Ugarov corria, agitado, de um lado para o outro e proferia impropérios violentos, que de nada adiantavam. Bajda estava sentada ao la­do das nove moças mortas, as fitava com o olhar vazio e não compreendia co­mo não se conseguia descobrir um homem sozinho. Um homem que se esgueirava, entre elas, pelo seu próprio terreno.

— Onde está Stella Antonovna? — perguntou mais uma vez. — Por que ela não aparece mais?. . .

— Ela está lá fora. Há três dias e três noites. . . — respondeu Lida Dja-novna, que bebia chá frio de limão encostada na parede. O cansaço parecia pe­sar como toneladas. Também ela estava de serviço há 39 horas. — Não se pode mais nem falar com ela. . . Ela parece uma leoa. . .

Na noite seguinte Peter Hesslich voltou para a margem alemã do rio. Co­mo as moças haviam feito, camuflou sua bagagem com arbusto, que colocara em cima de uma pequena jangada de borracha. Nadou atravessando o Donez e subiu nu pela margem.

Diante dele, um pouco para o lado, estava Stella Antonovna. A essa dis­tância e com as condições desafavoráveis de iluminação ele era inalcançável com o fuzil, mas ela podia vê-lo nitidamente no telescópio. Chegara apenas al­guns minutos tarde demais. Inicialmente nem quisera ir ao rio, pois acreditava que esse diabo ainda estava se esgueirando à procura de uma nova vítima; de­pois, porém, viu subitamente como saía da água, retirava o fuzil da jangada camuflada e desdobrava o uniforme. E viu, também, como ele retirou da ca­beça a boina molhada, sacudiu-a e torceu.

Durante cinco dias Fritz Ploetzerenke conseguiu ocultar a conquista de Schanna; depois percebeu que a situação estava começando a se tornar crítica.

Apesar da mudança constante de curativos, de pó de sulfonamida e outras pomadas, o estado da ferida no ombro de Schanna piorava de dia para dia. Os cantos da ferida estavam inchados, como se estivessem recheados de fermento, o ferimento estava vermelho e cheio de pus. No quarto dia do seu aprisionamento Schanna pegou a febre temida; não era mais possível sustar a infecção.



Ploetzerenke perguntou, cautelosamente, ao enfermeiro suboficial o que podia acontecer se um ferimento, provocado por um tiro, se inflamasse. O catálogo era grosso: ‘Tudo desde simples pus de uma septicemia até tétano.” O suboficial estava atônito com o interesse demonstrado por Ploetzerenke.

— Por quê? Por acaso você pisou em um prego enferrujado?

— Estou lendo um livro que trata de um ferimento que se transformou em infecção.

— Mas, gente, onde estamos?! Irrompeu o paraíso?! Ploetzerenke lê um livro?! Na realidade? Um livro de verdade? Com muitas páginas encadernadas? Fritz, você está querendo me gozar?

— Vá tomar no cu! — Ploetzerenke respondeu aborrecido. — Só porque você tem o certificado de conclusão do 1º grau, ainda não é um Einstein! Té­tano. . . isto é a foice, não?

— Quase sempre! As perspectivas são miseráveis. Eu vi alguns casos des­ses no hospital. . . todos esticaram as canelas! O que está escrito em seu livro inteligente?

— É, um camarada levou um tiro no ombro, e agora formou-se pus e es­tá inflamado, vermelho, e febre ele também tem. . .

O enfermeiro sacudiu a cabeça várias vezes.

— Continue lendo, Fritz! — falou calmamente. — Em que página você está?

— Cerca de 150. . . — Ploetzerenke olhou o enfermeiro com os olhos ra­sos d’água.

— Se o autor for honesto e não estiver romanceando, pelo menos lá pela altura da página 200 ele estará morto. Continue lendo. . .

Esta informação deixou Fritz em estado de pânico. Os dias e noites com Schanna representavam, para ele, a coisa mais linda que já vivenciara, apesar de Schanna nunca abandonar sua atitude passiva e só se submetia, resignada, a tudo que acontecia. Ele agora também já sabia o nome de sua “moça”, a “pequenininha”. . . Apontara para si mesmo e dissera:

— Eu. . . Fritz. Poninimel Eu. . . Fritz. . .

— Schanna Ivanovna. . . — respondera ela, acenando com a cabeça.

— Schanna? Que nome! Schanna. . . é, outra coisa nem se adaptaria a você, menina. . .

Portanto, Ploetzerenke estava feliz... A grande questão, do que iria acon­tecer com Schanna, quando a ofensiva ou a retirada recomeçasse, podia ser recalcada. Mas era impossível ignorar sua ferida. Ela morre, se eu não fizer al­guma coisa, pensou. Pode pegar tétano ou uma septicemia e aí ela sucumbe de maneira horrível! O que posso fazer? Afinal de contas, não posso pô-la nas costas e levá-la para a divisão. Meu Deus, dê-me uma idéia! Me ajude! Você sabe tudo. . . afinal de contas, você vê tudo. . . Você deve se lembrar: eu fui ajudante de missa durante três anos e balancei a garrafinha com água benta. . . Sempre fui um bom cristão. . . Deus, me ajude. . .

Ele torturava o cérebro, para encontrar uma solução, mas tudo em que pensava acabava no mesmo: ele teria de entregar Schanna! Qualquer que fosse a maneira de vê-lo, o que quer que se fizesse ou deixasse de fazer, o destino de Schanna estava traçado. Ou ela morria sob dores atrozes em função da septi­cemia ou do tétano, ou no regimento a “mulher-fuzileira” seria encostada na parede. Não parecia mais haver chance de sobrevivência. Este pensamento era tão terrível que Fritz nem conseguia levá-lo a termo.

No entanto, segundo o percebia, tudo estava transcorrendo bem. Schan-na já não cuspia mais nele, quando ele lhe punha o laço no pescoço e a levava para fazer pipi ou cocô, aqueles minutos humilhantes, nos quais qualquer sen­timento de dignidade, de auto-estima queimavam em um fogo de ódio e deses­pero. Ela também não tentava mais morder-lhe o pescoço, quando estava deita­da embaixo do alemão e a ternura dele a torturava.

Ploetzerenke tentava tudo para mostrar a Schanna que ele a amava, que ela representava mais para ele do que um divertimento carnal. O fazia por mil pequenos gestos. Como não podiam se comunicar verbalmente e cada um no máximo só podia adivinhar pelo tom de voz o que o outro queria dizer, Ploetzerenke subitamente lembrou-se de utilizar um meio de expressão universalmente compreensível — a música.

Com ela possuía experiência. Três vezes já, durante os chamados pique-niques na floresta, pudera, deitados em uma ensolarada clareira de pinheiros, afastar, como um sopro, com os tons de sua gaita, os últimos restos de pudor de suas acompanhantes desejadas, mas um pouco ariscas.

Subitamente Ploetzerenke recordou-se disto com Schanna Ivanovna. Ele sabia que o cabo Rumpe possuía uma gaita velha, amassada, que o acompa­nhara durante toda a ofensiva e retirada na estepe do Don. Não era senão um instrumento barato, que Ploetzerenke antigamente nunca tocaria, por consi­derá-lo indigno de si. Rumpe também só tocava raramente o instrumento. Mas levava-o consigo por toda parte, no seu saco de chão, como um objeto de esti­mação — sua mãe lho mandara, 10 dias antes de morrer de tuberculose.

Ploetzerenke pediu a gaita emprestada e como pagamento sacrificou os seus cigarros. Rumpe aceitou os cigarros e não se preocupou em perguntar muito porque Ploetzerenke, subitamente, estava tão interessado na gaita. De noite, então, Ploetzerenke agachou-se ao lado da atônita Schanna e tocou me­lodias berlinenses: “Este é o ar de Berlim. . . ar. . . ar. . .” e : “Em Schoeneberg no mês de maio. . .” Pela primeira vez Schanna sorriu e o ódio abandonou seus grandes olhos pretos.

Foi uma noite quase artística quando Ploetzerenke, da vez seguinte, trouxe um pequeno bandolim, que pertencia ao suboficial Hammacher da oficina da companhia. Agora ele podia até tocar e cantar. . . Schanna Ivanovna fitou-o, atônita, e compreendeu então que o diabo, grande como um urso, violento, que constantemente a estuprava, realmente a amava e tudo fa­zia para alegrá-la.

Depois que Ploetzerenke mais berrou do que cantou: “Dar-te-ei de presente lindas rosas vermelhas, linda moça. . .”, virou-se para a frente e sorriu para Schanna, como se quisesse dizer: “Então, minha pequena, você gostou? Imagine que agora estivéssemos em paz, deitados em um caramanchão no La­go Wann. . .”

— Você conhece Lili Marleen? — perguntou. Tirou alguns acordes do

bandolim e fitou Schanna inquisitivamente. — Naturalmente você conhece. Preste atenção, agora vou cantar isto para você. Mas eu tenho uma outra versão, da qual gosto mais. . .

Novamente tirou alguns acordes do bandolim e começou com sua Lili Marleen especial:


Empurrei-a contra o poste:

Menina, não seja boba,

Esta velha lanterna,

Não desaba com o golpe.

Foi assim, que pela primeira vez,

Eu fodi, no poste da lanterna,

Com a Lili Marleen. . .

Na caserna,

Diante do grande portão,

Estou preso,

E isto acho engraçado.

E quando nós nos veremos

Uma vez mais,

O meu pinto não poderá

Mais se levantar

Com a Lili Marleen.




Na caserna

Diante do grande portão

Estava uma lanterna

E ainda está lá.

A luz não brilha

Por causa da ocultação.

Consegui paquerar uma moça

De nome Lili Marleen. . .

Passos duros ecoaram

Na noite escura.

Uma patrulha me levou

Para a vigia.

Pois a patrulha viu:

Alguém está transando

Na lanterna, com Lili Marleen.

Com a Lili Marleen.Ploetze


Ploetzerenke terminou sua composição com um acorde súbito. Olhou para Schanna:

— Então, não foi bonito? — perguntou.

— Muito bonito. . . — Schanna fechou os olhos, porque Ploetzerenke se abaixara e a beijara. Tenho de matá-lo, pensava. Tenho de matá-lo, mesmo que ele me ame e cuide de mim. É meu dever matá-lo, ou eu nunca mais pode­rei ser Schanna Ivanovna, condecorada com a medalha Suvorov de bronze, na luta heróica contra os fascistas alemães. E o que será de mim, se eu não puder mais ser Schanna Ivanovna Babajeva?! Fritz. . . tenho de matar você!

Sua cabeça ardia em febre, a ferida do ombro inchara perigosamente, do canal do tiro saía um pus esverdeado, fedorento. Suas forças decaiam a olhos vistos.

Ploetzerenke desistiu de seus arroubos de amor. . . Schanna estava doen­te demais, para ainda poder suportá-lo. Seu estado piorava, de hora em hora. Ploetzerenke entrou em pânico. . . limpou o pus, lavou a ferida, colocou o pó, refrescou a cabeça de Schanna e depois, vez após vez, o seu corpo em brasa, sacudido por tremores. Sabia porém que tudo isto não adiantava nada.

Certa noite, quando Ploetzerenke novamente quis ir ver Schanna e estava firmemente decidido a liberá-la do sofrimento, quando começasse a morrer, só quando realmente não houvesse mais nenhuma esperança, encontrou o médico auxiliar Helge Ursbach.

Ursbach retornava do povoado destruído, onde fora visitar Peter Hesslich. Depois do seu primeiro encontro tinham-se tornado amigos, e quando Ursbach o podia fazer, discutia no “ninho” de Hesslich, à margem do rio, os problemas do mundo. Estavam de acordo: agora estavam vivendo os anos per­didos.

Ploetzerenke fechou os olhos ao ver o médico auxiliar Ursbach caminhar pela trincheira. Nele surgiu uma última, desesperada esperança. Deus, fa­ça com que seja um homem, rezou de todo o coração. Um médico e um homem e não um soldado nazista! Faça-o pensar: aí jaz alguém morrendo — e não: bom que estique as canelas, a mulher do fuzil! Deus, por favor, faça com que só seja médico. . .

— Sr. médico auxiliar. . . — disse Ploetzerenke e se pôs em posição de sentido diante de Ursbach, como se fosse um general. Sua voz estava rouca e ele tremia. — Senhor. . . eu. . . eu tenho. . . eu quero. . . lhe pedir. . . um grande favor. . . O senhor. . . Como médico, o senhor tem de manter segredo, isto eu li.. . isto também vale na guerra?

Ursbach fitou Ploetzerenke espantado.

— O senhor está doente, Ploetzerenke? — perguntou. — Se algo o atingiu, o que pode haver de segredo nisto? Do ponto de vista militar, é uma hon­ra! E se o senhor me aparece com uma sífilis, isto também é registrado. É pre­ciso ter ordem! O que está havendo?

— Trata-se. . . trata-se de vida ou morte, senhor. . .

— Mas o senhor não parece tão doente assim, Ploetzerenke.

— Eu. . . eu tenho confiança no senhor. . . — gaguejou Ploetzerenke. O medo de perder Schanna acabou com todas as outras preocupações. — Eu. . . eu quero. . . quero lhe pedir, Sr. médico, lhe imploro. . . o senhor tem que pro­meter não dizer nada. . . por favor. . .

— Ploetzerenke!

— Por favor! O senhor é a minha única esperança, Sr. médico. . . só o se­nhor ainda pode ajudar, se é que há ajuda possível. Trata-se de uma ferida infeccionada. . .

— Maluco! — Ursbach fitou Ploetzerenke. — Onde é que está essa ferida séptica, hem? No máximo, na sua cabeça!

Ploetzerenke estendeu-lhe a mão que tremia.

— Sr. médico, por favor, me prometa: não fale com ninguém. . . O senhor pode prometer. . . Isto só afeta o senhor como médico. . . não como soldado. . .

Ursbach acenou. Ploetzerenke estava fora de si, isto qualquer um podia ver. O que havia?! Deu-lhe uma palmadinha no ombro, empurrou-o para um lugar na trincheira, como se esta fosse uma sala de consultório, particular, e ordenou:

- Então, desembuche. O que o está preocupando tanto?

Ploetzerenke novamente estendeu a mão para Ursbach.

— Palavra de honra?

— Claro. — Ursbach apertou-lhe a mão.

— Eu. . . eu ocultei. . . um ferido. . . — murmurou Ploetzerenke tão bai­xinho, que Ursbach teve dificuldade em entender o que ele estava dizendo. Mesmo que Ploetzerenke tivesse berrado, também seria difícil de compreender.

— O senhor fez o quê? — perguntou Ursbach irritado.

— Primeiro pensei que a ferida não era tão séria. Apenas um tiro no om­bro. . . a gente não morre disso. Mas agora está cheia de pus, muito vermelha e inchada. . . agora estou com medo. . .

— Ploetzerenke, o senhor está com febre? Que ferido?! E o que quer dizer, escondido? Quem é que o senhor escondeu?

— É. . . — Ploetzerenke olhou para Ursbach como um cachorro que levou um pontapé. — Sr. médico auxiliar. . . é uma mulher!

— O quê?


— Uma moça. Uma do batalhão de mulheres, lá do outro lado. Eu queria roubar um porco e aí a aprisionei. . . Eu a trouxe para este lado e a tenho mantido escondida em um celeiro. Há seis dias. . .

— Ploetzerenke!

— Eu aamo, Sr. médico. . .

— O senhor está guardando na palha uma dessas malditas fuzileiras?!

— Ferida, Sr. médico auxiliar. . . e. . . e. . . parece ser tétano. . .

— Meu Deus, que bosta o senhor arranjou, Ploetzerenke!

— Me ajude, Sr. médico, por favor, me ajude. O senhor me deu sua pala­vra de honra! O senhor prometeu só pensar como médico! Ela é uma moça doente, nada mais. Ela precisa do senhor! Senão morre. . .

— Mas se for realmente tétano, eu também não posso fazer mais nada, Ploetzerenke. Não aqui. Aí é preciso mandá-la para o hospital. . .

— Mas para lá ela nunca pode ir, como fuzileira. . .

— Isto é possível. — Ursbach fitou as ruínas do povoado, na margem do Donez, por sobre a cabeça do Ploetzerenke. Que situação, pensou assustado. Se isto chegar aos ouvidos de alguém, pode custar a cabeça de Ploetzerenke; depende muito do tipo de juiz militar. Uma das temidas fuzileiras como amante secreta. . . isto não pode ser verdade! — O que foi que o senhor pen­sou, Ploetzerenke, ao se meter nisso?

— Nada!

— É, acredito. E como é que isso vai continuar?. . .



— Não sei, Sr. médico. Ela é tão linda. . .

— E o senhor está gamado por ela. . .

— Sim. . .

— Profilaticamente a gente deveria operar o senhor, Ploetzerenke! Sim­plesmente castrá-lo!

— Que significa profilático?

— Profilático quer dizer preventivo. . .

— Tarde demais. Já aconteceu tudo. . . Por favor, ajude. . .

Ursbach deu de ombros.

— Vamos ver a moça — disse grosseiramente. — Eu lhe dei minha palavra de honra, Ploetzerenke. . .

— Obrigado. . .

— Mas eu lhe digo desde já: se for tétano, então farei exatamente o que o senhor me pede como médico: enviarei a moça para um hospital! Não posso deixá-la por mais tempo no seu esconderijo, isto a minha consciência de médi­co me proíbe!

— Existe alguma esperança com tétano?

— Muito pequena, Ploetzerenke.

— Então por que entregá-la?

— O senhor acha que devemos deixá-la morrer na palha?

— Se ninguém puder ajudar, tanto faz onde morra. Se o pior vier, eu. . . eu. . . eu posso. . . — Ploetzerenke engoliu em seco e virou a cabeça. Ursbach suspirou profundamente. — Podemos ir vê-la, Sr. médico?

— Não tenho nada comigo.

— Lá tem tudo. . . gaze, pó de sulfonamida, pomada. . . mas não ajuda.

— O caso está feio. . .

— Eu sei. . .

Saíram da trincheira e andaram, silenciosamente, pela noite. Ao atingirem as primeiras ruínas, quando estavam ocultos na sombra da parede de uma casa, Ploetzerenke disse, de repente:

— Sr. médico, há dias estou pensando. Se eu disser que se trata de uma camponesa que, secretamente, esgueirou-se para seu velho povoado, para reti­rar algumas coisas de sua casa, e eu a vi e lhe dei um tiro. . . devem acreditar nisto. . .

— Ela está de uniforme?

— Sim —Ploetzerenke torceu as mãos. — Mas em algum lugar deve ser possível arranjar roupas de civis, lá na retaguarda, na divisão ou no regimento. O senhor. . . o senhor não poderia dar um jeito?. . .

— O senhor quer me transformar em um cúmplice completo, Ploetzerenke!

— Só como médico. . .

— Com isto a gente não pode ocultar tudo! Bem, então roupas de camponesa. E depois?

— Aí ela não é mais uma fuzileira, e a SD não a enforca.

— Como é que o senhor sabe que ela também quer isto. . . usar roupas de civil?!

— Mas ela quer também continuar vivendo! — No olhar de Ploetzerenke havia um espanto ingênuo, infantil. — Todos querem continuar vivendo!

— Com esse tipo de mulher eu não tenho tanta certeza. Primeiro preciso vê-la.

Esgueiraram-se pelas ruínas do povoado como se fossem patrulheiros. Ploetzerenke fez questão disso, porque queria evitar, a todo custo, que alguma sentinela descobrisse o esconderijo. Deram algumas voltas, propositadamente, antes de entrar no celeiro. Ploetzerenke fez brilhar sua lanterna de mão, olhou radiante para Schanna e depois acendeu a lâmpada de querosene.

Schanna Ivanovna estava deitada na palha, com dois cobertores por ci­ma. Mantinha os olhos bem abertos e tremia, em um novo ataque de calafrios. Sentia pontadas no ferimento, como se alguém afundasse uma lança atrás da outra em seu ombro; a dor penetrava até a ponta dos dedos dos pés e ardia em todos os nervos. Gemeu alto, quando Ploetzerenke se ajoelhou diante dela, re­tirou os cobertores e a desamarrou. Ursbach pigarreou. A juventude e a beleza de Schanna o comoveram de forma enigmática; não se tratava de erotismo, era mais como uma empatia, que sentimos, ao ver uma criança sofrer.

— Tinha de ser assim? — perguntou com voz embargada.

— Mas se não o fosse, ela teria escapulido, Sr. médico.

— Então decididamente um amor unilateral. . .

— Por enquanto. . .

— Isto não vai se alterar, Ploetzerenke, seu sonhador idiota. — A magia desaparecera. Ursbach agora via Schanna e a situação de forma realista. A fuzileira, ferida, que caiu nas mãos de Ploetzerenke e agora é estuprada, incessan­temente. Uma merda, para não dizer coisa pior! — Teria sido realmente me­lhor deixá-la fugir. . .! A gente deveria castrá-lo, Ploetzerenke!

Ursbach sentou-se ao lado de Schanna e retirou de cima do ombro dela a blusa do uniforme. O olhar de Schanna era violento e defensivo, apesar das dores.

Njet! — disse Ursbach e sacudiu a cabeça. — Não vou lhe fazer mal. — Apontou para si e sorriu tranqüilizadoramente para Schanna Ivanovna. — Jawratsch. . . doktor. . . Ja rana prowerjat. . .

Ploetzerenke passou as mãos pelos cabelos.

— O senhor fala russo. . . — Sua voz tremia de felicidade.

— Oh, Deus, não. Isto a gente não pode chamar de russo. Junto algumas palavras e espero que ela me entenda.

O olhar de Schanna relaxou um pouco. Fitou Ursbach, interessada, e disse algumas palavras que o médico não compreendeu. As palavras pareciam saídas de um forno quente, eram sopradas como por um ar a queimar.

Ursbach retirou o curativo. O cheiro doce-podre do pus, que o atingiu, revelava o suficiente. Quando conseguiu deixar a ferida do ombro a descober­to e Ploetzerenke dirigiu a luz da lanterna para cima dela, Ursbach percebeu que ali só uma operação podia ajudar. Com medicamentos já não se podia fazer mais nada, principalmente com aqueles que havia à disposição na frente.

— Té. . . tétano. . .? — gaguejou Ploetzerenke cheio de medo.

— Ainda não. Mas se não acontecer algo bem depressa, o senhor pode esperar por ele. Ela necessita ser operada. O canal do tiro não foi bem limpo. . . aí é preciso abrir e retirar...

— E. . . e o senhor pode fazer isso, Sr. médico?

— Aqui?


— Sim!

— Não! Trata-se de uma operação verdadeira, Ploetzerenke. Com aneste­sia e tudo o mais.

— Quando estivemos atacando e depois ao bater em retirada fizeram coisas ainda mais difíceis, em pleno terreno de luta. Eu o vi, Sr. médico. Lá amputaram membros, retiraram estilhaços de granada de intestinos. . . Houve um que tinha todas as costas rasgadas e o costuraram! Isto só é uma feridinha . . . Por favor, tente. . .

Ursbach examinou cuidadosamente a ferida, sorrindo para Schanna, quando esta gemia de dor ou cerrava os dentes.

Ja xotschu pomotsch. . . (Eu quero ajudar) — disse ele. Schanna o compreendeu e acenou com a cabeça. Ele colocou novo pó na ferida e enfaixou-o novamente. Mais do que isto não podia fazer. — Saftra ja pritti. . . (Amanhã eu volto) — Mostrou as mãos esguias para Schanna e moveu os dedos. — Operazija. . .



1   ...   15   16   17   18   19   20   21   22   ...   38


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal