Konsalik b de atalhão Mulheres



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— Ainda não sabemos onde está Schanna e o que fizeram com ela.

Bajda ficou novamente séria. O problema Schanna Ivanovna pesava na sua alma. Por maior que fosse o êxito da tropa de choque de Stella, enquanto o destino de Schanna não fosse esclarecido, Soja Valentinovna nunca mais sentiria uma verdadeira alegria.

Isto naturalmente não impediu que festejassem. A orquestra das moças tocou canções e músicas alegres para dançar, sobressaindo Assja Michailovna com a bajan, o acordeão de botões, e Rossija Stepanovna na bandura, o ins­trumento de cordas similar a uma cítara. Ugarov telefonara para a cozinha e encomendara um monte de culebjaki, panquecas grossas, que eram dobradas como um envelope e enchidas com uma variedade de guloseimas.

O camarada da administração da cozinha inicialmente imaginou que o Tenente Ugarov não estava “bom da bola”, ao ouvir seus desejos.

— Perfeitamente, Sua Alteza! — respondeu cheio de ironia. — Inteiramente às suas ordens. Nós também temos esturjões cozidos aqui, e, se lhe con­vier, patos de março assados em manteiga, maravilhosos pelmeni, excepcionais panquecas de carne de coelho. Ou, se preferir, posso enviar à Sua Majestade um presunto de urso defumado, garni com cogumelos. Os lacaios devem ir de libré? Talvez com perucas empoadas de branco? A Grande Catarina também gostava disso...



— Escute aí, sua garoupa esbugalhada! — respondeu o Tenente Ugarov em voz alta, sem se irritar com a história. — Nós estamos aqui festejando uma vitória que chegará até os ouvidos do Camarada General Conjev! Enquanto você trepa com as putas da aldeia, nós lutamos! Não me diga que não o tem no depósito. Eu sei, por parte do santo Comissário Miranski, tudo que vocês escondem em cantos e gavetas! Espero uma refeição de festa! Meu caro cama­rada fumaça de cozinha, também na sua posição alguém pode ser removido. . .

Desta forma, à tardinha, o veículo de provisões não trouxe apenas um recipiente com cheirosos culebjaki para a frente, mas também algumas garrafas da diabólica aguardente Samogonka, depois de cuja degustação o feliz beberrão pode ficar idiota durante alguns dias, assim como um balão de vidro com vinho de frutas e duas garrafas de licor de ameixa.

Ugarov ficou muito satisfeito, telefonou para o camarada chefe da cozinha e agradeceu.

— Nós ouvimos falar de seus feitos heróicos! — respondeu o camarada da cozinha. — Responsabilizar-me-ei por uma distribuição especial e a registrarei nos livros de saída. Parabéns às jovens heroínas, camarada tenente.

Não foi só um dos lados que cometeu um erro: também os soviéticos esqueceram nesta noite uma regra básica da guerra: O inimigo pode estar em qualquer lugar.

Soja Valentinovna colocou apenas três moças de sentinela. As outras festejavam no grande abrigo de comando, cantavam e dançavam, comiam e bebiam — um único tiro certeiro poderia ter aniquilado nesta noite toda a elite das fuzileiras soviéticas. Um pouco antes de meia-noite as moças voltaram cantando para seus abrigos e se deitaram, repletas de licor doce e da diabólica Samogonka, nos seus catres de madeira. Bajda, Ugarov e quatro das moças ainda agüentaram até depois de meia-noite. Confiavam nas sentinelas que estavam sentadas, entediadas, nas ruínas do povoado, e que logo dariam o alarme se os alemães viessem. Mas por que razão deveriam vir? Os alemães estavam felizes, quando a paz reinava. . . eram como animais caçados, que lambiam suas feridas. Assim ninguém vigiava a margem e ninguém viu Peter Hesslich atravessar o rio. Quando desembarcou, Bajda e Ugarov tinham acabado de se deitar, felizes pela ação do álcool e incapazes de dar alguns pas­sos. Tiveram de se segurar e apoiar mutuamente.

Somente a heroína do dia, Stella Antonovna, apesar de ter brindado com as outras, bebera pouco. Ela não gostava de aguardente. Suas bebidas preferidas, o vinho temperado, um tanto doce, de bétula ou o suave vodca destilado de trigo selvagem, não apareceram na festa. Ela foi sozinha para o seu abrigo. Quando seu olhar caiu sobre os contornos bizarros das ruínas, que se destacavam como sombras escuras no céu da noite, decidiu visitar as moças que estavam a serviço de sentinelas.

E aí Stella Antonovna também cometeu um erro, que nunca poderia ter ocorrido a alguém com sua experiência: esqueceu de ir primeiro buscar seu fuzil no abrigo. Foi em direção ao povoado, desarmada.

Enquanto isso Hesslich alcançara as primeiras ruínas e se deitara, em um dos jardins, atrás de um monte de tábuas velhas. Começava o jogo “caça cega” — em algum lugar, isto era certo, havia sentinelas à espreita, mas não ha­via como descobrir exatamente onde estavam. Aí só adiantava paciência, calma total e uma espreita persistente, procurando distinguir os ruídos dos menores e mais baixos. Um chocalhar, um tossir abafado, pés que rastejavam ou um espirro, logo estancado. O melhor seria observar a rendição. Aí se saberia exatamente onde estava o inimigo — desde que tivesse a sorte de estar à espreita, bem próximo, e realmente poder ver a rendição.

Hesslich primeiro descobriu Dunja Alexandrovna, uma moça de UlanBator com traços fisionômicos largos, sempre sorridentes, e lindos olhos enviesados de amêndoa. Dunja facilitou seu trabalho. Contagiada pela convicção geral de que os alemães estavam satisfeitos porque os deixavam em paz, Dunja saiu do casebre incendiado, onde se protegera, e foi passear, ingenuamente, na luz difusa da noite estrelada. A noite era quente, quase sem vento e muito calma — só do lado do rio se ouvia, em surdina, o rumor das ondas.

Dunja Alexandrovna jogara a carabina nas costas se dirigira para um to­nel, a fim de refrescar o rosto com água. Usou as duas mãos para recolher a água e a deixou correr por sua cabeça; isto refrescava e afastava o cansaço.

Hesslich empurrou silenciosamente a carabina pelo monte de madeira e visou Dunja. Viu-lhe o rosto de perfil e seu coração começou, como ocorrera na ocasião em que encontrara Schanna, a bater agitado. Respirou fundo porque a idéia de em poucos segundos matar uma moça o fazia sentir náuseas. Mas ele depois pensou que ela poderia ter sido uma das que mataram 10 camaradas seus, adormecidos, eles também pessoas jovens, que não podiam se defender e que à morte surpreendera na escuridão.

Lentamente ele curvou o dedo até o ponto de apertar. Só estava esperando uma coisa: não queria atirar de lado, não em sua têmpora. A bala deveria atingi-la entre os olhos, uma polegada acima da raiz do nariz. O tiro deveria ser uma advertência para as outras fuzileiras: aqui está alguém que consegue fazer isto tão bem quanto vocês! Agora os tempos vão mudar. . .

Dunja Alexandrovna já se refrescara e se afastava do tonel. Seu rosto asiático largo apareceu completo no reticulado. Hesslich apertou os dentes e sustou a respiração. O seu indicador se curvou.

O tiro ecoou seco no silêncio noturno. Dunja caiu para trás, sem um ai, dentro dos girassóis à meia altura. Ao mesmo tempo Hesslich fugiu calçado com as botas de grossas solas de borracha, pulou para dentro de outra casa incendiada e lá se jogou no chão, atrás de uma parede destroçada.

Stella Antonovna ficou rígida como estátua de sal, ao ouvir o tiro solitá­rio perto de si. Mas sua rigidez só durou um segundo; depois ela também se jogou por terra e esperou. Não ouvia mais nada, mas seu ouvido, treinado para o perigo iminente, lhe dizia que não se tratava de um tiro perdido, não fora uma carabina que disparara espontaneamente. Coisas assim não aconteciam entre elas.

O homem com a boina de tricô, pensou logo, e sentiu um calafrio, ao se recordar que estava desarmada, logo agora, quando o diabo estava tão próximo dela ou até se esgueirava pela vizinhança à cata de novas vítimas.

Em quem atirara? Em quem acertara?

Stella Antonovna serpenteou pelo chão, engatinhou para a frente, freqüentemente parava e procurava distinguir cada ruído. Da posição em que se encontrava, era impossível para Hesslich ver Stella. Também o lugar onde jazia Dunja estava fora do alcance do seu olhar. Em Posen, MM — o Major Molle — o treinara até que os seus ossos inflamaram. Sempre que possível, mudar de posição imediatamente após um tiro. Nunca mostrar ao adversário onde se está. Nunca ir em direção reta, sempre fugir em curva. Pensar como pensa o adversário e fazer tudo diferente. Momentos de surpresa decidem entre a vi­da e a morte. Um combate solitário é fantasia. MM tinha um arsenal de des­crições poéticas para o verbo “matar”.

Quando Stella descobriu o corpo de Dunja entre os girassóis, engatinhou lentamente para lá e se curvou sobre ela. O rosto ainda estava molha­do da água refrescante, no cabelo preto ainda cintilavam as gotas. E exata­mente sobre a raiz do nariz havia um pequeno buraco, do qual escorria um fino fio de sangue.

Stella colocou a cabeça sobre o peito de Dunja e por um instante fechou os olhos. É realmente ele, sentiu. Tem de ser ele. A boina cinzenta de tricô. Só dele espero um tiro destes — com qualquer iluminação, a qualquer distância, de qualquer posição. Aconteceu o que eu sempre profetizei: ele voltou! Vocês riram de mim. . . será que continuarão a rir, ao ver a cabeça de Dunja? Como dizia o complacente Ugarov: “Vejam como a Stella sonha com o alemão! Provavelmente gostaria de tê-lo na cama, hein? Deveríamos irradiá-lo pelo alto-falante: Vem para cá, diabinho da boina de tricô! Stella Antonovna não consegue mais dormir por sua causa. . .”

O que ele vai dizer agora, o belo Victor Ivanovitsch?!

Ela fechou as pálpebras de Dunja sobre os olhos mortos, arrancou-lhe o fuzil das costas e também retirou os cartuchos da bolsa. Agora ela tinha uma arma serviçável, não a sua própria, que conhecia como a palma da própria mão, mas pelo menos não estava mais indefesa contra a sombra mortífera, que espreitava em algum lugar nas ruínas do povoado. Stella carregou a arma rapidamente. O ruído, na calada da noite, lhe pareceu como um tiro de canhão. O adversário também deveria tê-lo escutado. Rápida como um gato ela se jogou para o lado e rolou mais para diante.

Hesslich não escutou nada mas Flora Victorovna percebeu o ruído. O tiro a sobressaltara em seu buraco de sentinela. Agora ela vinha, um pouco agachada para a frente, correndo na direção do jardim, onde sabia estar Dun­ja. Flora pulava habilmente de ruína para ruína, utilizava cada tábua chamuscada para se proteger e só passava, rápida como um raio, com um ou dois saltos, pelo terreno aberto, e mesmo isto era feito com a graça e a ligeireza de uma gazela.

Flora Victorovna era de Gorki. Alta, muito esguia, ossos e músculos de aço. Campeã juvenil de salto em altura. Ela gostava de rir e sempre contava de novo a sua primeira experiência amorosa. Fora depois de uma competição esportiva. O amante era um bom lançador de disco mas quando os dois se separaram no quarto de material esportivo do estádio e ele percebeu, como sangrava a Flora deflorada, o rapaz durão desatou a chorar e saiu correndo, em pânico. Quando Flora contava esta história, torcia-se de tanto rir.

Peter Hesslich estava ajoelhado atrás de um resto de parede. Flora ia exatamente em sua direção. Se quisesse atingir o jardim, onde estava Dunja, teria de passar rente a ele.

Stella parecia pressenti-lo. Apertou contra o peito o fuzil de Dunja e gritou tão alto quanto pôde:

— Deitar! Alarme! Alarme! Proteger-se. . .!

O grito atingiu Flora como um golpe. Estava nesse momento em um espaço descoberto. A próxima proteção, uma chaminé quebrada, distava cerca de cinco metros.



Também Hesslich estremecera com o grito lancinante de Stella mas imediatamente recuperou a calma. Era a calma do sem-saída, que lhe ensinara uma verdade: ficar frio como um pedaço de gelo é o companheiro do impossível.

Levantou rápido a arma, viu a cabeça de Flora no visor e atirou. Acertou-a no último pulo desesperado. Ela lançou os braços para o alto, como se quisesse pegar as estrelas e nelas se segurar; seus dedos se retesaram. Depois sucumbiu e caiu de rosto no chão.

Stella Antonovna acompanhou, com os olhos arregalados, a morte violenta de sua camarada. Não podia atirar, porque o alemão estava fora do seu campo de visão. Mas agora ela sabia onde procurá-lo.

Hesslich fugiu novamente, em completo silêncio, graças às grossas solas de borracha. Deu uma volta e esperou em um celeiro incendiado a moça que dera o grito de advertência. Puxou a boina de tricô mais para perto dos olhos, apesar da lama já ter escurecido seu rosto a ponto de transformá-lo em uma mancha quase imperceptível. Escolheu um canto no monte de vigas, a partir do qual tinha visão livre do terreno, e lá se encostou, à espreita.



Stella Antonovna não se preocupou com Flora Victorovna. Sabia que ali já não havia mais o que fazer e que agora estava a sós com um adversário de igual valor — o seu grande desejo secreto fora satisfeito. Devem ter ouvido os tiros, pensou, e continuou deitada. Ou os meus gritos. Mas depois lembrou-se de que tinham comemorado e bebido demais e que Soja Valentinovna e o Tenente Ugarov não tinham mais capacidade para ouvir qualquer coisa ou dar ordem alguma. Todas, exceto as camaradas que ficaram a serviço, de sen­tinela, estavam deitadas nos abrigos e dormiam. A próxima rendição devia ocorrer daí a quatro horas e enquanto isto também as moças que iriam ren­der as anteriores dormiam. Dois tiros isolados não as acordariam.

Três sentinelas estavam diante das trincheiras do Grupo Bajda e duas delas já tinham morrido. Era lógico aguardar que a terceira sentinela viesse ver o que acontecera, o que pudera levar Flora ou Dunja a atirar duas vezes. Elas não tinham dado nenhum alarme; portanto, não se podia tratar de nada especial.

Peter Hesslich realmente só podia agradecer ao acaso ter visto a sombra rápida que corria pelas ruínas do povoado. A maneira pela qual a moça se mo­vimentava, como utilizava qualquer possibilidade de proteção e qualquer som­bra escura, como desaparecia depois de cada salto e não servia mais de alvo, o fascinava. São realmente competentes, pensou. Em comparação a isto um soldado raso alemão se movimenta como um hipopótamo, que sobe para a terra. Esta rapidez, esta graça, esta adaptação completa ao terreno — fantástico!

Que pena, menina, que hoje você esteja correndo exatamente para o visor de um Peter Hesslich. Você também estava presente, quando abateram meus 10 camaradas?

Marianka Stepanovna Dudovskaja, a graciosa padeira de Caluga, ainda tinha um ar meio infantil sem o uniforme. Mas esta primeira impressão enganava; afinal de contas, fora ela que exigira Ploetzerenke para si e queria arrancar-lhe o peru a tiros, quando o encontrasse novamente. Ficou parada agora, na sombra escura da parede de um celeiro, para se proteger. O pressentimento de Hesslich fora certo: Marianka estivera presente na liquidação da divisão de metralhadoras e pudera registrar dois alemães em seu livros de tiros. Agora podia exibir 32 tiros certeiros e tinha duas medalhas por bravura.

Hesslich fitava a parede sombria, na qual a moça desaparecera. Mantinha nas mãos a arma, pronto para levantá-la imediatamente e atirar. Isto era uma especialidade sua, que ninguém conseguia imitar: conseguia fixar um alvo com o olho nu, levantar rápido a arma, a linha de visão, o entalhe e o ponto de mira coincidiam em uma fração de segundo, e já a bala assobiava, para atin­gir com pontaria mortífera.

Stella Antonovna esgueirou-se silenciosamente pelos jardins. Assim como Hesslich, fez uma volta em torno do lugar, onde acreditava estar o adversário, e se aproximou dele pelo outro lado. Mas desta vez ela se equivocava — Hesslich há muito correra para diante e agora se ajoelhava atrás de um pequeno monte de entulho, a uma distância de menos de cinco metros do cadáver de Dunja. Fizera um círculo e agora estava quase no mesmo lugar onde Stella se jogara por terra, quando ele atirara pela primeira vez. Estavam agora, sem o saber, novamente um diante do outro, entre os cadáveres de Dunja e Flora. Marianka ainda estava sob a proteção da parede do celeiro, fora desta zona de morte, e Hesslich ainda acreditava que aquela moça lá adiante era a que emitira o grito de advertência.

A espera torturava; os nervos começavam a vibrar. Marianka, que não conseguia ver nem Dunja nem Flora, buscava uma explicação para os dois tiros isolados. Não pensava que um alemão sozinho pudesse ter atravessado o Donez e agora estava matando com precisão de máquina — esta idéia era por demasiado absurda, impossível. Na realidade Schanna fracassara com um só fuzileiro, mas tanto Bajda como Ugarov, além de Marianka, riram da pro­fecia de Stella, de que o diabo com a boina de tricô voltaria. Era muito mais provável que as sentinelas tivessem visto um coelho. Poderiam tê-lo assustado em sua ronda e a idéia de vê-lo, deliciosamente assado, no abrigo, as levara a interromper a calada da noite com alguns tiros.

— Dunja. . . — chamou Marianka, baixinho, protegida pela sombra. —Dunja! Sou eu! Você atirou? Foi um coelho? Dunja. . .

Hesslich pesou o fuzil em suas mãos. Tentava furar com o olhar a parede sombria diante de si. A voz viera dali — um tom claro, jovem. Saia, pensou, e novamente seu coração bateu até o pomo-de-adão e dificultou sua respira­ção. Um só passo, um só, basta. Como foi esta história com os 10? Eles dor­miam uns ao lado dos outros dentro de casa e vocês se postaram diante de­les e atiraram em suas cabeças. Vocês também sentiram o coração a bater? Talvez. . .

Saia da sombra, menina. . .

E novamente ecoou um grito, claro e penetrante:

— Proteja-se, Marianka! Um alemão!

Como atingida por um raio, Marianka caiu no chão e se dissolveu na ter­ra. Hesslich mordia nervosamente o lábio inferior. Duas então, pensou, e le­vantou um pouco os ombros. A outra está exatamente no lugar onde eu mesmo estava há três minutos. Ela veio se esgueirando, sabia exatamente de que direção partiu o segundo tiro. Putinha esperta, a de lá!

Ele não se mexeu; esperou e observou a grande parede escondida na sombra, sob cuja proteção estava deitada Marianka; depois espreitou, esforçando-se, na direção em que jazia Stella Antonovna, esperando que o ale­mão cometesse um erro e se denunciasse.

Tentemos um truque simples, pensou Hesslich, um que já aparecia em qualquer filme de bangue-bangue, quando eu era um menino. Um truque muito antigo dos índios, mas extremamente eficaz, porque, acompanhado de uma tensão nervosa altíssima, pode provocar choque e reações erradas.

Abaixou-se silenciosamente, pegou uma pedra e a jogou, sobre o corpo de Dunja, para o outro lado do jardim. Houve um ruído metálico, de alumínio. Quanta sorte de uma vez só, pensou Hesslich satisfeito. Atingi um balde ou coisa parecida. Isto tem o mesmo efeito que um raio.

Imediatamente levantou a carabina, para atirar sem hesitar, caso em algum lugar aparecesse fogo de um cano.

Ninguém levou um choque. . . Marianka permaneceu deitada sobre a terra e só levantou um pouco a cabeça. Stella Antonovna não se mexeu. Um riso maldoso passou por seu rosto.

Isto foi um erro, diabo, pensou. Agora nós sabemos que você está perto. Jogar uma pedrinha. . . quem é que cai nessa?! Você pensa que so­mos tão idiotas? Deveria saber que nós só atiramos quando temos o alvo se­guro no reticulado. Sabemos esperar. . .

Hesslich deu de ombros. Perdão, pensou. Isto foi um erro. Vocês realmente não têm nervos. É extremamente difícil surpreendê-las. Os soldados alemães só vêem em vocês as mulheres bonitas e em pensamento até as despem. . . Realmente poucos sabem que vocês podem matar sem piedade, ninguém as conhece realmente, não sabem quão frias e sádicas vocês são, com o fuzil nas mãos.

Uma mistura de raiva e ódio surgiu nele. Deitou-se cuidadosamente por terra, atrás do seu monte de entulhos, e já se dispunha a aguardar nesta posição o nascer do sol, quando a situação se tornou muito crítica, tanto para ele como para as moças. Quem procura, também pode ser visto. E quem é visto, já está morto.

Marianka aproveitou a sombra em que estava. Esgueirou-se bem devagarzinho em volta da parede e só atrás dela se levantou. Aí meteu a mão no cinto, retirou uma pistola de cano largo e atirou uma bola branca de luz no céu noturno. Imediatamente todo o povoado destruído ficou banhado em uma luz brilhante. Hesslich se apertou contra um resto de muro e abaixou bem a cabeça. Agora sabia onde estava a moça. O cartucho luminoso, a subir pelos ares, tinha revelado sua posição.

Stella Antonovna internamente praguejou. Você é uma idiota, Marianka! Você não sabe esperar? Para que precisamos de iluminação? Você agora vê mais? Onde está o diabo alemão? Em pé na luz a acenar, hein?! Isto foi um erro. É preciso espreitar a boina de tricô como um urso. Ele não cai em nenhuma armadilha. Marianka, nossa tarefa agora será ainda mais difícil.

Depois de uma grande curva o cartucho de luz caiu novamente no chão e se apagou na grama da estepe. Depois da luz ofuscante a escuridão era especialmente impenetrável, e Stella Antonovna aproveitou os poucos segundos em que os olhos precisam se reabituar. Saiu correndo da sua posi­ção de cobertura e foi em direção ao lugar, onde acreditava estar agora o ale­mão. A pedra, que atingira o balde, só podia ter vindo dessa direção, um case­bre abandonado, para onde Stella agora deslizava com saltos largos, ágeis.

Mas Hesslich, ao mesmo tempo, mudou de esconderijo. Também ele fora movido pela idéia de que era o melhor momento para mudar de cobertura.

Novamente correram, sem o pressentir, um quase raspando no outro e se jogaram no chão. Só Marianka ficou onde estava — o seu muro protetor estava em terreno visível, em todas as direções os jardins se espraiavam e, se ela saísse correndo, seria vista.

Hesslich encontrara uma ruína cheia de entulho e vigas de madeira chamuscadas. Mal se jogara atrás de um monte de pedras, viu diante de si uma forma a pular. Com um só movimento, a arma estava em seu ombro, o teles­cópio de mira visava a cabeça. A moça estava atrás de uma carroça quebrada e se protegia. Mas a morte estava atrás dela, a uma distância de menos de 30 passos.

Stella Antonovna empurrara a cabeça um pouco para a frente e aguardava um ruído. Seus sentidos sinalizavam que o perigo estava muito perto dela. Sentia-o como uma coceira na pele. Manteve-se à espreita, atrás da carroça, com o fuzil de Dunja em ambas as mãos. Também olhou para trás duas, três vezes — e nestes segundos Hessüch via o seu rosto no reticulado, seu rosto lindo, de sorriso aberto, rodeado de cabelos louros. Ele, pela primeira vez, via sua inimiga mortal. Muitas vezes tentara imaginá-la, a fuzileira, a res­peito da qual os camaradas soviéticos presos contavam que já matara mais de 100 alemães e que se tornaria imortal. Diziam que era muito bonita, com ca­chos louros e uma covinha na face esquerda. Diziam que no jornal do Exército aparecera uma fotografia dela, ao lado de um discurso de louvor do general.

Agora Peter Hessüch via este rosto no reticulado e sabia: é ela! Cachos louros, a covinha na face esquerda. O seu dedo indicador não se curvou mais. Ele fitava Stella Antonovna e sentia uma tal admiração por ela, que por um momento ficou quase paralisado. Quando percebeu esta hesitação e quis atirar, ela já desaparecera do seu campo de visão e pulara para mais adiante. Hesslich abaixou o fuzil e se escondeu no monte de entulho.

Sua hesitação nos segundos decisivos o abalara tanto, que desistiu de qualquer ação por aquela noite. Uma coisa dessas não pode acontecer nunca mais, pensou. Ela não pode ser uma mulher para você. Você só pode vê-la co­mo uma fuzileira, que mata sem pestanejar, dura feito granito. Mais nada! A admiração lhe teria custado a vida, se ela o tivesse visto. Então ela hesitaria em apertar o gatilho? Duvido muito!

Você sabe que a sua hesitação amanhã pode ser paga com a morte de vários amigos seus?! E você então também será responsável por essas mortes.



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