Konsalik b de atalhão Mulheres



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— Isto vai ótimo, menina! O que quer que você diga... você tem razão! Ainda vou dar um jeito nisso, minha filha! Sua samsena vai ceder. . .

Sarasa. . .

Ela ficou quieta enquanto Ploetzerenke a desenfaixava. A ferida estava feia, as bordas inchadas. Schanna virou a cabeça e fitou o ferimento. Há dias seu ombro doía, latejava, ela sentia pontadas.

— Bom! — dissera Soja Valentinovna. — Isto lembrará a você que sua missão é matar 10 alemães!

— E se eu tiver febre? — perguntara Schanna.

— E então? — Bajda rira maldosamente. — Nós atiramos até sem olhos, ao farejar o inimigo. . .

O que ela poderia ainda retrucar?

Enquanto Ploetzerenke punha pó em sua ferida e a enfaixava de novo, se aproximou tanto dela, que Schanna poderia ter mordido sua garganta, bastando, para tanto, levantar rápido a cabeça. Mas ela não o fez. O pensamento — ele está me ajudando — o que Bajda consideraria um crime, a sobrepujava. Ele é um porco, me estupra; confirma e reforça em mim um ódio insaciável contra tudo que é alemão. Mas ele me ajuda! Ele quer debelar a infecção e a febre. Preocupa-se comigo como se fosse um amante, um companheiro para toda a vida. No entanto sabe que sua morte se aproxima a cada hora. . .

— Terminamos — disse Ploetzerenke satisfeito, depois que a enfaixou. — Faremos o mesmo várias vezes ao dia e cada vez o menino bonzinho ganha uma recompensa. Mas agora vamos primeiro comer o nosso bolo, sim? Um verdadeiro bolo alemão! Com pó de ovos e cor amarela. . . antes eram ovos de verdade. Uma dúzia, era costume lá em casa. Quando minha mãe fazia um bolo de cobertura de damasco, metade da cobertura já tinha sido comida, an­tes do bolo ir para o forno. Oh, você não me entende. Venha, coma. . .

Desamarrou-lhe as mãos; depois pôs o bolo no colo dela e começou a tomar a sopa de feijão que estava na caçarola. Naturalmente estava fria e grumenta mas isto não incomoda um cabo. Para ele, qualquer coisa é comestí­vel. Enquanto o homem vive, quer empanturrar-se, embebedar-se e trepar. Qualquer outra filosofia de vida é doentia. A gente fica sofrendo. A ética de Ploetzerenke só se preocupava com estas três atividades e o seu bem-estar, até o presente momento, só fortalecia sua crença de que o homem no fundo é muito simples e que o que denominamos ética só complica as coisas desneces­sariamente.

Naturalmente Ploetzerenke não expunha isso de forma tão erudita. Falou:

— Mas é tudo uma merda! Um prato de carne, uma boa cerveja e depois algo de firme no colchão. . . aí o papai não sofre de arteriosclerose!

Schanna o observou. Ele lambeu os beiços, lambeu a colher de zinco, raspou o fundo da panela e depois arrotou três vezes, satisfeito. Ela quebrou três pedacinhos pequenos de bolo, amoleceu-os com a saliva, até que pôde en­golir a papa e disse a si mesma: “Isto não significa capitulação! Você só está comendo para sobreviver e poder se vingar! É um ardil bélico. Você precisa fi­car forte, para liquidá-lo.”

Ela ainda comeu o resto do chocolate da tarde e sabia que agora viria a “sobremesa” de Ploetzerenke. A terrível humilhação de Schanna Ivanovna, que ela acreditava só poder vingar com o sangue dele. Quando Ploetzerenke tirou as calças, ela cerrou os dentes e respirou ofegante.



— Eu gostaria de lhe explicar tanta coisa — disse ele e se sentou a seu la­do. Ela constatou espantada que Ploetzerenke não a amarrara, como até então, com as pernas abertas, em um poste. — Mas você não sabe alemão e eu sou burro demais para saber russo. Sei que você quer me matar mas você não sabe que eu gosto de você, gosto mesmo! Isto não é conversa fiada, menina! Bem, eu tenho uma mulher em casa, mais robusta que você, eu lhe digo; nela tudo é redondo, a gente tem onde se agarrar. Mas alguma coisa tão tenra, jovem, como você, eu nunca tive. Você não vai acreditar, sempre só tive mulheres massudas. . . você não vai acreditar se eu lhe disser que me apaixonei por você. . . sim, por você! Idiotice, ficar caidinho por uma mulher de carabina. Mas contra isso a gente não pode lutar, fica-se impotente, o coração o faz so­zinho. . . E agora eu me pergunto: o que você vai fazer com a pequena quan­do a guerra rebentar de novo? Isto é um problema real. Seria burrice mandar você para a prisão. Aí a SD enforca você. Estão doidos para pegar uma de vocês. Fuzileira. . . menina, como é que você pôde se tornar uma coisa assim? Uma coisinha bonita como você. . . — Ele se deitou ao lado dela na palha e Schanna poderia se jogar sobre ele como uma tigresa e o matar. Mas ela não o fez. Só escutava a sua voz, e embora não entendesse uma palavra, o ouvia.

Foi sorte dele que o grupo sob o comando de Stella Antonovna se diri­giu para a direita e não para a esquerda e se movimentou em direção a um gru­po de casas, atrás de cujas janelas cobertas por pesados cobertores ela acredi­tou ver um clarão de luz. Desta forma as moças penetraram no domínio da divisão de metralhadoras, que se instalara em uma antiga fazenda, um lugar excelente, com visão plena até o rio. Se os soviéticos tivessem a idéia de assal­tar, correriam direto para dentro dos braços de um fogo concentrado.

A lassidão da guerra, que dominava há três meses, também tomara conta completamente da divisão de metralhadoras. Depois de terem bem instalado a posição, começou a grande falta de preocupação. Ela também se manteve, quando começaram a falar, aqui e ali, dos assaltos da unidade feminina situada na sua frente, dos limpíssimos tiros de cabeça, que preocupavam até o OKH. A própria inserção de dois fuzileiros da escola especial de Posen não modificava nada; em todo lugar dominava a sonolência e de boca em boca corria a opinião: O Ivan ficou cansado de tanto correr! Stalingrado realmente o deixou exangue. E depois a marcha pela estepe do Don, a ofensiva no Cáucaso, a conquista de Rostov e Crasnodar, a batalha de Cuban, isto nem um russo agüenta, por mais que tenha a Sibéria três vezes nas costas!

Isto foi um erro generalizado, cujo esclarecimento mortífero estava sendo preparado há meses, em completo silêncio.

O Sargento Hermann Busch só colocou uma sentinela, e esta se deitou lá fora, em uma escavação coberta de palha, e adormeceu pacificamente. Um russo que ataca tem sempre proteção da artilharia e vem com tanques. Geralmente só corre depois da primeira onda de tanques. Sozinho, sem proteção bélica, ele não vem. Isto era algo de que todos já se tinham convencido há muito tempo. A época em que um esquadrão de cossacos se aproximava a galope, com as lanças penduradas e sacudindo os sabres, sem se incomodar com as metralhadoras e os lançadores de granadas já se tornara uma lenda. Diante de Stalingrado e na estepe do Don ainda houve tais galopes heróicos, fadados a terminarem com a morte, dos cossacos contra os tanques Tigre alemães.

Mas agora o russo também poupava seus soldados — e no travesseiro desta convicção também dormia a sentinela, apesar de cometer o mais grave delito que um soldado poderia ser culpado. Mas aqui, no Donez, relaxado por três meses de descanso e de sol, da visão de uma estepe florescente e um doce nada fazer, muito era perdoado. Os próprios chefes de companhia chegaram a instituir um serviço formal: limpar os metais, bater continência, marchar, remendar roupas, aulas de filosofia.

Tom original do Sargento-Mor Pflaume:

— Soldado Hansemann! O que o senhor responde, quando o Fuehrer lhe pergunta: O senhor está satisfeito na Wehrmacht?

Hansemann, um tanto hesitante:

— Não digo nada. Fico pensando. . .

— O que o senhor faz? — berrou Pflaume.

— Nós aprendemos: Um soldado alemão reflete antes de responder.

— O senhor tem uma sorte desgraçada de que o Fuehrer não está conversando com a pessoa errada! Naturalmente o senhor responde: Estou orgulhoso de ser soldado! Repita, Hansemann!

— Eu estou orgulhoso de ser soldado. . .

— Uma canção! — O Sargento-Mor Pflaume levantou três dedos: núme­ro 3 na lista de canções da companhia.

É tão lindo ser soldado.

Roooosamaaariiaa...

No Donez, nestes dias, tudo era diferente: Só a morte não mudava.

O grupo de Stella Antonovna cercou o buraco da sentinela e fitava, atônito, o alemão que dormia pacificamente. Estava deitado de costas, tinha a boca entreaberta e roncava baixinho, com tons finais sibilantes.

Stella levantou o polegar. Não atirar! Senão os outros dentro da casa acordam. Fez um sinal para Tamara Fillipovna, uma moça do Ural. Tâmara acenou, pôs a mão no cinto e escorregou cuidadosamente para dentro do buraco.

A punhalada na laringe veio silenciosa, rápida como um raio, e acertou em cheio. Só houve um gemido abafado e um jato de sangue. O cabo Wilmsen não sentiu que morria. Nenhum cérebro adormecido reage tão rápido.

O Sargento Busch com seu grupo foi também surpreendido ao dormir — no recinto central da fazenda, onde estavam esticados, lado a lado, sobre pa­lha e cobertores. Stella Antonovna e suas moças se esgueiraram silenciosamen­te no edifício e ficaram na sombra. O lampião de querosene, em cima de uma mesa, fumegava um pouco. Tinham-no baixado, mas foi o seu leve clarão que chamara a atenção de Stella.

Não chegou a haver luta. O que aconteceu ali foi uma liquidação em massa. Diante das seis moças jaziam nove homens adormecidos. Entre eles, havia mais um fuzileiro treinado em Posen — o Sargento Theodoro Krahneburg. Ainda naquela tarde conversara com Peter Hesslich a respeito da mulher que Dallmann matara.

— Não sei por que elas lá do outro lado estão tão quietas — dissera Hes­slich. — Isto não me agrada. O que acontece com você, Theo?

— Suave repousa o mar. . .

— Mas isto não é normal!

— Para mim, é! Estou satisfeito da vida, quando não sou obrigado a atirar em moças. Fuzileiras ou não. . . continuam sendo moças. Aí eu teria de fazer uma força danada. . .

Neste conflito ele nem entrou. Primeiro golpes violentos de coronha tinham posto três alemães a nocaute. Theo Krahneburg estava entre os primeiros seis que foram mortos a tiros. Depois também mataram os três outros. Os tiros ecoavam pelo recinto amplo, mas as paredes ainda intactas faziam com que o barulho — similar ao estalar de um chicote — só fosse ouvido lá fora abafadamente. Apesar disso as moças saíram correndo e se jogaram na grama. Tudo aconteceu em silêncio, sem acenos nem ordens. Cada moça sa­bia direitinho como se devia comportar. Correram e formaram um semicírculo. Ninguém que caísse nessa armadilha tinha qualquer chance de sobreviver.

O ouvido de um velho porco da frente reage alergicamente a todos os ruídos que possam lembrar, vagamente, tiros. Ploetzerenke, intensivamente ocupado com Schanna, de repente levantou a cabeça e escutou. Também Schanna o ouvira. Seu coração batia selvagemente, seus músculos se retesaram. Fitava, com olhos arregalados, as vigas negras do teto.

Aí estão elas, pensou. Estão me procurando. São Stella e Lida, Marianka e as outras camaradas. Venham aqui! Rápido. . .

Depois fitou Ploetzerenke, que tinha rolado para o lado, ajoelhando-se e carregando sua metralhadora.

— Porcaria! — exclamou ele com voz profunda. — Nem foder em paz a gente pode. Ouviste, menina?! Isto foram tiros, e perto daqui. Certamente eram tiros! Quem é que está jogando balas por aí?!



O tom de sua voz, o desapontamento no rosto e a sua transparente impotência, apesar da arma que segurava na mão, fizeram com que Schanna não gritasse. Aliás, não adiantaria de nada. Ao primeiro som Ploetzerenke teria logo batido nela com a coronha, por mais que gostasse dela. E se fosse Stella, que atravessara o rio para procurar Schanna, ela não teria mais tempo para ir atrás de um único grito depois do tiroteio. Portanto, Schanna ficou deitada, apertou as mãos sobre o coração e começou a chorar, às escondidas.

Fracassei pela terceira vez, pensou. Pela terceira vez! Posso ainda sobreviver? Tenho ainda uma centelha de honra? Como é que posso, ainda, me chamar uma camarada soviética?!

Ela olhou para Ploetzerenke, que ainda estava ajoelhado a seu lado, com a metralhadora na mão, e escutava. Na sua pele brilhavam gotas de suor, seu estômago tremia, excitado. Também ele teme a morte, pensou Schanna, e repentinamente se tranqüilizou. Todos nós sentimos este medo. Quem afirmar que é possível jogar fora sua vida, sem sentir medo, mente! Nós gostamos tanto de viver. Só somos heróis quando querem fazer de nós heróis. Sim, ser herói é algo de que podemos nos orgulhar — mas a gente é mais feliz quando pode viver em paz!

— Agora tudo está quieto! — Ploetzerenke pousou a metralhadora destravada e carregada na palha. — Talvez um cachorro burro de uma sentinela tenha caçado um coelho, hein? — Olhou para seu próprio corpo, riu e se jogou de costas, ao lado de Schanna. — Agora toda a maravilha passou, está vendo? Eu também não tenho mais vontade. . . né, isto põe você feliz! — Acariciou mais uma vez o corpo e os seios de Schanna; depois se vestiu e ajeitou a faixa do ombro dela. — Tudo em ordem, menina. Durma agora.

Amarrou novamente as mãos e pés de Schanna, beijou os grandes olhos pretos, apagou a lâmpada e saiu da casa. Diante da porta ficou parado na escu­ridão e olhou para o rio.

Ploetzerenke teve sorte, uma vez mais. O grupo de Stella Antonovna rumou para o Donez, fazendo uma grande volta, que o distanciava da Quarta Companhia, e alcançou a ilha artificial, sem que ninguém o visse ou ouvisse. Só ao chegarem ao rio, pendurarem-se novamente nuas na jangada camuflada e se dirigirem para o outro lado, falaram umas com as outras.

— Foi um belo ataque — disse Stella Antonovna orgulhosa. — Até o Camarada General Conjev irá saber disso. Vocês todas receberão medalhas. Podemos nos orgulhar.

Dez alemães mortos jaziam por terra — se Schanna Ivanovna tivesse rea­lizado sozinha tal façanha, ela teria sido novamente incluída na comunidade de suas camaradas.

Nas posições de comando alemãs a excitação era enorme.

Dez mortos em uma frente totalmente calma, dentre eles nove com um limpo tiro na cabeça, o cartão de visita das fuzileiras. O mais alarmante era que esse grupo de moças, com a morte na mão, pudera atravessar o Donez, invisível e sem ser molestado, andando com segurança pelo campo fronteiro alemão. Nem mesmo os nove tiros tinham despertado alguém.

Só quando não veio ninguém buscar comida na cozinha de campanha, ninguém da divisão de metralhadoras, e o pedido matinal costumeiro do Sargento Busch, “Por favor, ao invés de pasta de salsicha, marmelada como sempre.”, não viera, tiveram a idéia de ir à fazenda e lá encontraram os cadáveres.

Ploetzerenke tomou muito cuidado e não revelou suas observações, pois isto significaria o fim de Schanna. Peter Hesslich recebeu primeiro um pito do batalhão, depois uns berros do regimento e finalmente lhe ordenaram que se apresentasse à divisão. O próprio comandante o recebeu, depois de tê-lo feito esperar durante duas horas, tomando chá de cadeira. Hesslich se apresentou em uniforme de campo completo, com capacete de aço, máscara contra gases, carabina e pá, saco de pão e garrafa térmica. O fuzil especial ficara na ante-sala.

O major-general fitou Hesslich com as sobrancelhas franzidas durante algum tempo, antes de começar a falar.

— Como é que uma coisa dessas pôde acontecer? Dez homens liquidados, sim, liquidados! De Posen nos mandam os chamados especialistas. . . e o que acontece? Embaixo de seus olhos vêm essas mulheres soviéticas atravessando o Donez e nos fazem passar vergonha, de corar até a raiz dos cabelos! Eu quero uma explicação plausível, como é que uma coisa dessas pôde acontecer?! Vocês lá na frente não fazem outra coisa senão dormir?!

— Ficou constatado que o grupo de Busch realmente dormia, ao ser ata­cado — respondeu Hesslich, com cuidado. — A sentinela foi apunhalada. Devem tê-la surpreendido.

— Mas é disso que se trata! Uma sentinela alemã não pode deixar-se sur­preender! Isto não existe!

— Sr. General, tenho permissão para lembrar a operação “seqüestrar sentinelas”, que nos levou a examinar mais de perto este batalhão de mulheres, quando operava junto ao Oitavo Exército italiano? Também nesta ocasião as sentinelas foram surpreendidas. . .

— Que história é essa, sargento? — O major-general franziu o cenho. — Não vou admitir que os meus soldados reajam a uma saia de mulher assim como os italianos.

— Estamos lidando com mulheres que são combatentes perfeitas, Sr. General. Elas conhecem todos os truques.

— Mas o senhor também, me informaram disto!

— A ação não se passou na minha divisão; o Sargento Krahneburg, que foi designado para lá, também foi vítima do ataque.

— Uma vergonha para nós. . . isto o senhor admite, não? — O major-ge­neral corria de um lado para o outro no quarto e batia nas costas com as mãos trançadas. — Eu fiz com que os chefes de companhia me descrevessem a situação. Podemos pagar a essas mulheres soviéticas na mesma moeda. Mas eu não quero sacrificar mais homens do que o necessário em tal empreendimento. Isto é problema seu, sargento. O senhor veio para cá com esta missão: comba­te isolado das fuzileiras. — O major-general se postou subitamente diante de Hesslich. — O senhor tem alguma sugestão?

— Vou tentar, Sr. General, provocar intranqüilidade do lado de lá.

— Ah! O senhor vai tentar! Que bom! Quão tranqüilizador! E o que vai resultar desta tentativa?!

— Atravessarei o rio. . .

— O senhor sozinho?

— Preciso do Suboficial Dallmann e de dois outros camaradas como pro­teção pelas costas. Eu prefiro trabalhar sozinho. . .

— Trabalhar. . . — O major-general fitou Hesslich pensativamente. — O senhor acredita que esta é a expressão mais adequada, sargento? O senhor está lutando pelo Fuehrer e pela mãe-pátria! O senhor está defendendo a sua pátria. Onde foi que o senhor recebeu a sua EK I?

— Já na primeira ofensiva, Sr. General. Também a medalha de combate corpo a corpo.

— O senhor completou os seus estudos, Hesslich. O senhor não deseja ser oficial?

— Não, Sr. General.

— Por que não?

— Eu não sou um bom soldado, general. Cumpro meu dever, mais nada. Quando a guerra findar, tirarei meu uniforme com imenso prazer. . .

— A sua sinceridade é praticamente autodestrutiva, Hesslich! Às vezes é bom ser sincero mas, na maioria das vezes, muito idiota! Pelo menos eu sei agora com quem estou lidando. Portanto, o senhor irá esgueirar-se como um lobo solitário lá junto dos soviéticos. . .

— Sim, Sr. General.

Hesslich e o comandante da divisão se entreolharam por um breve período. Tinham-se entendido.

— E se eu, apesar de tudo, recomendá-lo para oficial, Hesslich? — perguntou o major-general.

— Eu não seria aprovado na escola de guerra, Sr. General.

— O senhor simplesmente não quer. . .

— Eu não sei, Sr. General, que vantagem a Wehrmacht teria se eu me tornasse oficial. Creio que este argumento deva ser decisivo.

— Suma da minha frente, sargento! — O general fez um gesto correspondente com a mão e Hesslich bateu com os calcanhares. — E muita sorte com as fuzileiras! O diabo que os carregue se vocês se deixarem surpreender mais uma vez!

A volta da divisão, passando pelo regimento e pelo batalhão, foi uma verdadeira tortura. Em todos os lugares xingaram Peter Hesslich.

— Nós queremos ver algo! — disse o Tenente-Coronel Maltzahn, malicio­samente. — Ficar deitado no sol e se deixar queimar até a barriga, isto não foi objetivo das pessoas que o treinaram, hein?

E o Major Bernstein ironizou:

— Aparentemente o senhor também não é uma das armas secretas com a qual poderemos ganhar a guerra, Hesslich! O senhor deveria uma vez olhar pelo seu telescópio de mira, ao invés de para as nuvens. . .

Só Bauer III, que conhecia a situação de primeira mão, disse, piedosamente, quando Hesslich retornou à Quarta Companhia:

— Agora o senhor primeiro precisa tomar um banho no rio, não? Enche­ram-no de merda de cima para baixo, não é verdade?! Como é que o senhor se sente, Hesslich?

— Excelente. — Hesslich despiu o dólmã e ficou só de calça e camiseta. — Todos foram muito amistosos, praticamente doces como açúcar. Estão colados em mim como um bombom. — Engoliu um copo de conhaque que Bauer III lhe dera, e ficou degustando o álcool. — Esta noite partirei. . .

— Para o lado das moças?

— Sim. O general quer ver êxitos. . . — Bauer III encheu o copo de novo e Hesslich ainda tomou alguns goles. — Seria bom se o senhor pudesse postar alguns homens na margem do rio.

— Quantos devo enviar com o senhor?

— Enviar comigo? Pelo amor de Deus, nenhum! Eles só devem manter a margem do rio em segurança. Eu vou sozinho para o outro lado.

— Mas isto é loucura, Peter!

— As moças nos mostraram que é possível desorganizar uma divisão in­teira com ferroadas de vespas.

— Era uma tropa de choque.

— E eu tenho mais mobilidade sozinho. — Hesslich vestiu uma camisa fina, do uniforme de verão, e ajustou o bibico na cabeça. — Eu vou para casa. — Com isto queria dizer que iria para o casebre arruinado e incendiado, onde se instalara com Dallmann. — Exatamente à meia-noite necessito de 10 homens. . . somente para vigiar a margem!

— Os homens se apresentarão ao senhor. Enviarei junto três metralhado­ras leves e um lançador de granadas. Nunca se sabe o que pode acontecer.

— Nada de tiroteio! — Hesslich apertou a mão de Bauer III. — Necessito de calma absoluta. Acima de tudo, muito obrigado, Sr. Tenente.

— Meu nome é Franz. . .

— Obrigado, Franz.

— Aguce os ouvidos, Peter. . .

Deram umas palmadinhas nas costas, um do outro; sabiam que sua amizade sobreviveria à guerra, conquanto que os dois conseguissem sobreviver ao conflito.

Exatamente à meia-noite 10 homens da Quarta Companhia, chefiados pelo Sargento Plinner, se apresentaram a Peter Hesslich. Seus capacetes de aço estavam rodeados por fortes elásticos, nos quais tinham prendido pe­daços de grama e ramos, uma camuflagem simples, mas muito eficaz de noite.

Hesslich já estava vestido para o “trabalho”. Usava a boina de tricô, botas de meio cano macias com grossas solas de borracha, semelhantes às dos caçadores e pára-quedistas, um cinto de tecido de linho grosso, do qual pendiam dois sacos de municão e uma camisa manchada, de camuflagem. Dallmann estava vestido de forma idêntica, com exceção da boina de tricô. Na cabeça usava um capacete de aço pintado com uma cor que não emitia reflexos.

Quando os 10 homens chegaram, Hesslich estava ocupado em se untar com lama, para que seu rosto adquirisse a cor da terra da estepe.

— Pode ser que fique por lá uns tempos — disse ao Sargento Plinner. — Não se preocupem. . .

— O que quer dizer uns tempos, Peter?

— Dois, três dias.

— E quando devemos começar a nos preocupar? — Plinner olhou de esguelha para Hesslich.

— Digamos: depois de quatro dias. . . então algo aconteceu.

— O tenente sabe disso?

— Não.

— Saúde! — Plinner empurrou o capacete para a nuca. — Três dias de in­certeza. Ficaremos mofando. . .



— Afinal de contas vocês também devem tirar algum proveito deste joguinho! — Hesslich riu, maldosamente. Parecia agora como um homem de bar­ro da Nova Guiné. — Vamos, rapazes! Quem quiser, pode rezar. . .

Uma hora mais tarde Peter Hesslich desembarcava no lado soviético.

Que alegria, quando Stella Antonovna comunicou:

— Dez adversários liquidados!

Soja Valentinovna abraçou Stella, a apertou contra si, a beijou; depois foi de moça em moça, também as beijou e as chamou “minhas irmãzinhas corajosas”.

Ugarov disse, orgulhoso:

— Isto vai ser um comunicado! Irá correr até o Camarada General Conjev, garantido! Há muito tempo não havia um feito tão heróico! Aí esquecerão que os alemães mataram o pobre Miranski, sua querida mulher Praskovja e nossa Camarada Darja Allanovna.. . Stella, você nos devolveu a nossa honra!



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