Konsalik b de atalhão Mulheres



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Stella Antonovna estava deitada na outra margem do rio, equipada com uma paciência inesgotável. Ela só estava esperando que alguém aparecesse do lado de lá. E agora o viu. . . pela primeira vez.

É ele, pensou e seu coração bateu até a laringe. Tem de ser ele! Na realidade não está usando a boina tricotada, esta ele só põe na cabeça quando se esgueira por aí feito fera. Mas não pode haver dúvida. . . é ele! Então é assim que se parece, este grande adversário. Ele é mais rápido que Schanna. . . nem se acreditaria nisso, só de olhá-lo. Mas que ombros largos!

Hesslich desapareceu nas ruínas. Stella Antonovna baixou o binóculo. Esgueirou-se de volta, até não mais poder ser vista e depois foi para o povoado. Lá a Praskovja estava deitada em cima de uma tela, ao lado da cova aberta, e as moças estavam prestes a costurar o pano com pontos largos e barbante fino.

— Olhe para isto! — exclamou Ugarov com voz trêmula. — Exatamente na testa. A partir dessa distância. . . é incrível!

— Eu o vi. — Stella estava convencida de que o homem que observara também fora o atirador. Curvou-se sobre Praskovja e observou a ferida. — Eu serei melhor que ele! É preciso lidar com ele como se Lida com um lobo cin­zento. . .

Dois dias depois Miranski, Darja Allanovna e até Praskovja Ivanovna, apesar de ser civil e ter vindo somente visitar o marido, foram citados, elogiosamente, no relatório do Exército. Tinham dado suas vidas pela pátria.

Mas o próprio General Conjev, o comandante da frente da estepe, deu ordens ao Grupo de Fuzileiras da Bajda: Liquidar os adversários alemães.

Isto significava simplesmente: Vocês têm liberdade incondicional! Tudo que fizerem para liquidar o inimigo é permitido.

— A calma passou... — disse Soja Valentinovna em um pequeno discur­so para as moças. — O Camarada General Conjev agora quer ação! Nós iremos elaborar os planos em conjunto.

Muitas vezes a vida é assim: quando impera a satisfação e as pessoas se sentem bem no dia-a-dia tranqüilo, sempre há um grande Puff! em algum lugar, e tu­do desmorona novamente. Segundo um velho ditado popular, o destino cuida para que as árvores não cresçam até o céu, e parece que há algo de verdade nisto, mesmo que os homens poucas vezes o tomem a sério, pois é demasiado profético e incômodo.

Até mesmo o cabo Ploetzerenke não pensava nisso. Pode-se transformar um touro bravo em um animal domesticado, se o amarrarem por meio de um anel, antes colocado em seu nariz. Mas ninguém até hoje conseguiu amarrar um cabo alemão que descobriu um leitão lindo, rosado, de aproximadamente 150 quilos de peso!

E exatamente isto Ploetzerenke observara: do lado soviético, em um ter­reno com uma clareira na floresta, um casebre de camponês e ondulações cheias de arbustos, caminhava grunhindo um lindo porco — na realidade uma obra de mestre. Um porco modelo! Se houvesse um concurso de beleza para porcos — aquela porca teria ganho!

Não foi mais possível segurar Ploetzerenke. Naturalmente ele deixou de relatar sua descoberta a Bauer III. Já sabia, de antemão, como ele iria reagir: uma ordem — esquecer a porca. Também não compartilhou seu segredo com o sargento-mor Pflaume, aliás com ninguém, exceção feita de um suboficial da divisão dos guerilheiros, que estava ao lado da Quarta Companhia. Quando a ofensiva alemã disparasse era tarefa desta tropa proteger o rio e construir uma ponte. Além disso supervisionavam os vários botes infláveis, que estavam prontos para levar as tropas de assalto alemãs para a outra margem.

Ploetzerenke pediu emprestado a esse fiel amigo um pequeno bote e ne­gociou em troca um assado de porco, de um quilo e meio, juntamente com um pernil e metade de uma cabeça para fazer gelatina. O suboficial era um franco da região de Culmbach, e há muito sonhava com gelatina de cabeça de porco.

Sozinho, carregado com quatro granadas de mão e sua carabina, Ploetzerenke atravessou o Donez em uma noite quente e escura, para buscar o lindo porquinho. Seu pequeno bote inflável foi observado com agrado. . . Schanna Ivanovna e quatro camaradas foram para a margem e se jogaram na grama alta, quando Ploetzerenke de repente atracou e pulou para a margem do rio.

Ele esperou, aguçou os ouvidos na escuridão, mas não escutou outra coisa que não o coaxar dos sapos e o leve bater das ondas na margem do rio. Contente, prosseguiu em direção ao terreno ondulado, onde descobrira o porco.

A cerca de 100 metros da margem as moças o deixaram entrar na armadilha. Subitamente Schanna e uma camarada de nome Vanda estavam diante dele; atrás dele apareceram mais duas moças; de lado, à direita, surgiu uma quinta sombra. Uma voz clara gritou, duramente:

Stoj!

Ploetzerenke só hesitou um segundo, depois caiu para o lado com um verdadeiro pulo de gato. Novamente Schanna chegara tarde demais. . . Ela estava com o fuzil pronto, mas não pôde atirar porque o adversário sumira.

Em compensação Ploetzerenke atirou logo que caiu na grama. Viu como a sombra isolada caiu. Ele rolou logo para longe e puxou uma granada de mão. Começou o contar em silêncio os segundos de espera até jogar a grana- da. . . 21. . . 22. . . 23. . . para longe com a coisa! A granada de mão voou pela noite. . . Ploetzerenke empurrou a cabeça contra a terra.

A explosão foi um espocar abafado, combinado com uma pequena nuvem de fumaça.

Seguiu-se um grito estridente; depois se ouviram gemidos terríveis e gritos trêmulos.

Ploetzerenke levantou a cabeça. Viu como duas sombras corriam para o lugar da explosão e atirou novamente. A sombra dianteira vacilou um pouco, levantou os braços e depois desmoronou. Então foi, pensou Ploetzerenke satisfeito. Não necessito de um Peter Hesslich. . . isto eu sei fazer sozinho!

Esgueírou-se cuidadosamente para a frente, alcançou o primeiro cadáver e viu com horror que se tratava de uma moça. Oh merda, pensou Ploetzerenke assustado; compreendeu que o lindo porquinho fora uma armadilha, um engo­do. Simplesmente tentaram e especularam que um porco à solta não deixaria um soldado impassível. Certamente esperavam mais do que um único alemão, daí a tropa de cinco — só que com um Ploetzerenke não contaram.

Ele não teve muito tempo para refletir. Do lado alguém pulou e se jogou sobre ele. Quando Vanda foi morta, ao seu lado, Schanna deixara cair o fuzil. Não longe dela se queixavam as duas camaradas, que tinham sido estraçalhadas pela granada de mão, mas os seus lamentos cessaram rápido. Depois viu o alemão diante de si; sacou da faca, feito punhal, e se jogou sobre ele — como se exercitara muitas vezes no treinamento para o combate corpo a cor­po — matar em silêncio, apunhalar ainda no vôo. Colocar toda a força do corpo no golpe!

Ploetzerenke teve uma sorte descarada. Schanna caiu sobre ele, mas a sua punhalada acertou o chão ao lado da cabeça dele e o golpe foi tão forte, que ela não conseguiu retirar imediatamente a arma da terra.

A lâmina penetrara no chão da estepe até o punho.



Ploetzerenke agiu movido por puro instinto. Agarrou o pescoço de Schanna com as duas mãos e apertou. Ela o golpeou com os joelhos, no cor­po, e fez força para se levantar, mas ele a mantinha presa e a sufocava; depois de uma defesa curta, desesperada, o corpo de Schanna ficou mole nas suas mãos e ela perdeu os sentidos.

Ele ficou deitado na grama alta, quieto, durante alguns minutos. Segura­va Schanna junto ao corpo e estava preparado para utilizá-la como escudo vi­vo, caso alguém atirasse de novo. Depois levantou cuidadosamente a cabeça, apertou mais uma vez, de leve, a laringe de Schanna e a arrastou pela grama, puxando-a pelas pernas. Ao se aproximar da beira do rio, colocou-a sobre os ombros e correu, com sua carga, para o bote inflável.

Ploetzerenke remou tão rápido quanto possível para o outro lado do Donez, pôs Schanna de novo nas costas e a levou para uma das casas campesinas destruídas, que ficavam já na divisão dos guerrilheiros. Lá a jogou na pa­lha, amarrou-a pelos pés e pelas mãos e correu para fora.

Naturalmente tinham ouvido os tiros e o espocar da granada de mão. Mas as sentinelas estavam irritadas — a barulhada vinha do outro lado, dos soviéti­cos. Diante das linhas alemãs tudo estava tranqüilo. Portanto, também não dispararam bolas de fogo. O que poderiam ver, afinal? Quem sabia o tipo de festa que os Ivans celebravam lá e por que disparavam para o ar?

Ploetzerenke voltou para o casebre, ligou a lanterna de mão e iluminou o rosto de Schanna. Ela recobrara os sentidos; fechou os olhos e abaixou a cabeça.

— Gente — disse Ploetzerenke — você é uma doce pombinha, Lastotsch-ka. . . entende? Queria me liquidar, hem? Que foi que você pensou? Agora vo­cê é que vai ser liquidada, mas não como está pensando. — Sentou-se ao lado de Schanna, pegou nos seus seios, e quando ela cuspiu nele, presa de uma rai­va impotente, ele riu alto. — Ninguém sabe o que eu consegui pegar. . . isto é legal, não? Você vai ficar aqui, vai ser alimentada, vai ter o que beber, e eu vi­rei todos os dias vê-la. E depois nós dois montaremos, e eu digo, depois da pri­meira vez você não vai mais agüentar esperar. . . A guerra agora será linda pa­ra nós, hem, Madka? Me entende? Guerra para nós acabada. . . você e eu... só fode, fode, fode... merda, como é que vocês chamam isso! Bem, isto você vai entender rápido. . . — Ele rasgou a blusa de Schanna, assobiou entre dentes de admiração e viu seu ombro enfaixado. — Aha. Também está ferida! Uma com­batente corajosa?! — Riu sardonicamente e acariciou-lhe os seios nus. — Va­mos ver o que você sabe fazer na luta corpo a corpo; o melhor é uma defesa feroz. . .

Deu um golpe em Schanna, ela caiu para trás, na palha, e encolheu as pernas. Ploetzerenke riu abafado. Deitou a lanterna de mão no chão e desabotou as calças.

— Então preste atenção ao que vamos jogar agora. — Fitou, rindo, os seios jovens. — O lindo conto de fadas Tischlein deck dich, Esel streck dich, Knueppel aus dem Sack. . .! * A partir de amanhã você não vai querer ouvir outra coisa.

Schanna não conseguiu mordê-lo na laringe quando ele se deitou sobre ela. Mas arrancou a dentadas um pedaço do pescoço. Ploetzerenke gemeu alto e revirou os olhos.

— Eta gata brava! — gaguejou. — Merda. . . oh merda. . . você quer me devorar?!


Colocou a mão espalmada por baixo do queixo de Schanna, fazendo com que ela ficasse totalmente indefesa. Schanna começou a chorar, seu corpo relaxou e ela se rendeu a seu destino, pensando: Também assim se pode morrer! Isto também é uma morte! Não precisa sempre ser uma bala. . .

Jamais alguém vira a Bajda ter um ataque de fúria igual ao dessa manhã. Ela perdera totalmente o controle, seu corpo todo tremia; corria de lá para cá com o rosto arreganhado. Quem podia, saía do seu caminho, mas isto só poucas conseguiram. Soja Valentinovna ordenou o comparecimento de toda a divisão. Vociferava tanto, que as artérias do pescoço inchavam como em um peru em época de cio.

Um grupo de procura, que Ugarov mandara sair, ao ver que de manhã Schanna e suas quatro companheiras ainda não tinham retornado, encontrara quatro cadáveres que foram transportados de volta. Realmente tinham escutado, lá longe, alguns tiros e uma explosão, mas ninguém acreditou que o tiro­teio visava à tropa de observação de Schanna. Além disso, tudo ficou calmo em seguida as sentinelas nem puderam determinar direito de que direção viera o barulho. Podia até ter-se originado das linhas alemãs.

Agora o sabiam — as quatro mortas jaziam lado a lado na trincheira, duas mortas a tiros, duas por uma granada de mão. E Schanna desaparecera, isto era o inacreditável! Deram uma busca completa em toda a região, na espe­rança de que ela se tivesse escondido, gravemente ferida, à espera de ajuda, pa­ra que lhe salvassem a vida. Mas não a acharam em lugar nenhum. Não deixara rastro. Só havia uma explicação para isto: o alemão, que liquidara a tropa de espreita, conseguira aprisionar Schanna.



E era isto que quase roubava a lucidez da Bajda. Pela segunda vez Schan­na, uma das melhores fuzileiras do Exército Vermelho, fracassara miseravel­mente. Da primeira vez o homem misterioso com a boina de tricô a deixara fi­car. Já isto Soja Valentinovna sentira como uma tremenda provocação, que só podia significar: levem-na de volta, é apenas uma mulher! Hoje então a vergo­nha era total: Schanna não estava deitada na estepe, como quinto cadáver, mas se deixara raptar.

— Com isto a tranqüilidade desapareceu definitivamente! — berrou Soja Valentinovna, feito uma fúria, sacudindo violentamente os braços. — Em qualquer canto onde se possa encontrar agora os alemães, vocês estarão a pos­tos! Olhem para elas, suas camaradas, sujas de sangue, seus corpos estraçalha­dos. . . e pensem nisso, que uma vez houve entre vocês uma Schanna Ivanovna, que teve a oportunidade de se tornar um dia Heroína da União Soviética. Agora ela está nas mãos dos fascistas! Eles a enforcarão, isto vocês sabem. Se­rá submetida a inquérito, torturada, atormentada até lhe arrancarem sangue — e depois: uma corda no pescoço! Mantenham este quadro sempre diante de seus olhos! A partir de hoje, noite e dia, só há uma coisa: Morte ao inimigo! Não esperaremos mais que eles venham, nós iremos para o outro lado e busca­remos os alemães! O camarada General Conjev me deu liberdade total para agir!

Enterraram os quatro cadáveres e uma salva de honra ecoou sobre as co­vas. Stella Antonovna recitou uma poesia de Maxim Gorki e muitas das moças choravam baixinho ou soluçavam alto. Depois a Bajda dividiu os novos grupos de combate. . . a margem do Donez foi ocupada; as moças ficavam deitadas, camufladas com tufos de grama e arbustos amarrados nas costas, na areia da margem do rio. Depois do cair da noite cavavam buracos estreitos, nos quais mal conseguiam se mexer. Alcançá-las com uma granada, seria um acerto de sorte — se começassem os tiros, elas se agachavam nos buracos estreitos, colo­cavam sobre suas cabeças uma tampa de madeira grossa e esperavam tranqüi­las. À esquerda e à direita havia olhos suficientes para observar o adversário, e não servir de alvo a tiros. Se os alemães realmente fossem suficientemente ma­lucos para querer atravessar o Donez, então o alarme soaria logo.

Já na noite seguinte Stella Antonovna, Marianka Stepanovna e Lida Iljanovna se deixaram flutuar para a outra margem do rio. Tinham construído, pa­ra esta façanha, uma jangada, em cuja superfície pregaram arbustos. Na água parecia uma pequena ilha flutuante, que a correnteza arrancara de algum lugar da margem e agora boiava, lentamente, Donez abaixo. Entre os arbustos es­conderam as carabinas e a munição, os uniformes e as botas. Depois agarra­ram-se nuas na beirada da jangada e empurraram, invisíveis para todos, a “ilha” para a frente, para o lado alemão, nadando. Lá ficaram na água, durante al­guns minutos, com a atenção concentrada, espreitavam e avaliavam cada som que ouviam, e só saíram do rio, inaudivelmente, quando tiveram certeza de que ninguém percebera sua jangada. Vestiram-se, encostaram os fuzis no peito e esgueiraram-se pela terra como grandes lagartas verde-marrons.

Em outras posições outros grupos de moças atravessavam o Donez, depois de terem observado o lado inimigo durante todo o dia. Lá os alemães tinham afrouxado a vigilância. Quase três meses de tranqüilidade e agora uma espécie de frescor veranil levavam a uma euforia quase maluca. Perderam o sentido da realidade. . . viam as flores a vicejar, cheiravam a grama e se estica­vam ao sol. O rio, cintilante, de um azul prateado, seduzia, o gorgorejar dos pássaros soava como o canto de um mundo que parou para respirar. E as noites do Donez eram quentes, a intendência distribuíra licor e agora até vinho, e só faltavam na realidade, algumas mulheres bonitas, meigas, para que a harmo­nia fosse completa.

As sentinelas ficavam deitadas durante longos intervalos e fitavam a área, casmurros. O Ivan pode vir agora! De repente, bem quieto e inaudível, talvez de meias? Besteira! Se o Ivan vier, ele o fará com os tubos abertos! Isto a gen­te percebe em tempo. Então a terra treme e todos o percebem.

Naturalmente Fritz Ploetzerenke visitou novamente nessa noite sua linda prisioneira. De dia viera duas vezes ver Schanna Ivanovna, lhe trouxera ca­fé de malte frio, biscoitos e carne de lata. Entretanto, ela cuspira tudo em seu rosto e o xingara. Ploetzerenke não compreendia suas palavras, mas quando alguém cospe na gente, certamente não o sentimos como uma expressão de simpatia.

— Nós ainda nos acostumaremos um ao outro — disse ele, rindo satisfeito. — Da última vez foi bom, não? E lhe garanto, será sempre melhor. . .

Fez um laço com um cabo longo, colocou-o no pescoço de Schanna e a levou para fora da casa, como um cachorro que deve fazer pipi. E exata­mente disto se tratava.

— Não se envergonhe — aconselhou Ploetzerenke e se virou polidamente para o lado. — Isto é humano, e tudo que é humano é normal. Agache-se! Eu já caguei há quatro anos pendurado numa tábua. Dá, basta entortar bastante as pernas e esticar a bunda. Então, menina, vamos! Na minha calça já começa a martelar. . .

Schanna se conformou. Se ela não quisesse se molhar de urina, não tinha outra escolha. Ploetzerenke lhe deu tempo. Ela pôde se lavar em uma cuba de água, e ao se fitar no espelho do líquido, sentiu nojo de si mesma. Além disso, o laço continuava no seu pescoço. Tentara três vezes retirá-lo, mas Ploetzerenke sempre o percebera, apertara mais o laço e dissera, tranqüilamente:

— Menina, deixe de besteira! Para onde você quer ir? Eles estão aí, você não vai andar nem cinco metros. ..

Depois de tais passeios Schanna ficava novamente deitada na palha, com os braços amarrados, e suportava, com os olhos fechados, Ploetzerenke a grunhir. Mordia os lábios até sangrar, mas não gritava e ficava deitada embaixo dele como um pedaço de tábua de madeira. Ploetzerenke pouco se importa­va com sua passividade. Possuir seu corpo jovem lhe dava prazer, e ao sair, deixou um tablete inteiro de chocolate ao lado da moça. E Schanna comeu o chocolate. Mesmo com as mãos amarradas conseguia pegar o tablete e levá-lo à boca. Por mais ágil que fosse, não conseguia alcançar as cordas que atavam suas pernas. Sua única esperança era atingir com os dentes a laringe dele, mas depois da mordida que lhe dera no pescoço, Ploetzerenke ficara mais precavi­do e conseguia afastar-se em tempo. Quando ela levantava a cabeça, sapecava-lhe uma bofetada.

— Uma vez só e nunca mais, sua patife selvagem! — dizia, satisfeito con­sigo mesmo. — Todas vocês fazem isto na Sibéria?

Agora era noite. Ploetzerenke viera, trouxera uma caçarola cheia de sopa de feijão e um pedaço de torta de passas, que o Suboficial Senkler lhe dera de presente. Ele próprio a recebera de casa. Três sacos com pacotes e cartas tinham chegado. Os soldados estavam sentados em todos os cantos, liam as cartas, mostravam fotografias, comiam os bolos feitos pelas mães e seus olhos estavam marejados de lágrimas, de tanta saudade.

A pátria. Eles estão bem. Todos nos esperam — de férias, de volta, na época da paz.

Lá fora, no Donez, as fuzileiras atracaram e saltaram em terra.

Ploetzerenke não tinha pressentimento algum de que a morte estava se aproximando dele, pela grama da estepe. Pôs a mesa. Tinha trazido consigo um holofote mais forte, movido a bateria; colocou-o na palha, para que a luz fosse mais suave; depois retirou o casaco do uniforme e sentou-se junto de Schanna, vestido só de camiseta e calças. Ela o olhava de soslaio, procurando decidir qual a melhor maneira de dominá-lo. O que viria depois da comida, ela o sabia, e sentia-se aflita só em pensar. Defender-se era impossível...

Mas Ploetzerenke também cuidava de Schanna. Enfaixara novamente sua ferida, logo de manhã cedo, depois de tê-la escondido na casa incendiada.

Galina Ruslanovna tinha desinfetado o canal do tiro o melhor possível, mas era provável que alguns fiapos tivessem permanecido na ferida. Esta começou a se inflamar, inchou, a carne ficou avermelhada; brilhava e ameaçava formar pus. Apesar disto Bajda tinha recusado veementemente enviar Schan­na para o hospital de campanha, onde havia meios e remédios para evitar que a infecção se alastrasse.

— Aqui não existe nenhuma Schanna Ivanovna ferida! — exclamou ela, veementemente. — Ou algum de nós viu ou ouviu que Schanna encontrou um alemão que conseguiu sobreviver a este encontro?! Existe no nosso círculo al­guma Schanna que foi aprisionada pelos alemães e que os fascistas, piedosos, liberaram, hein?! Então, quem pode tê-la ferido? Onde está a pessoa aqui que tenha a audácia de declarar que Schanna está ferida?!

Até Galina Ruslanovna calou-se, apesar de, como médica, dever protestar. Mas ela conhecia o conceito de honra das divisões femininas. Sua primeira posição como médica fora em um campo de prisioneiros, onde os alemães des­filavam nus diante dela e ela dizia, com voz tranqüila, sempre igual: “Apto para trabalhar! Apto para trabalhar!” Para muitos isto era uma condenação à morte — caíam aos pedaços nas brigadas de cortar lenha e nas pedreiras. De­pois ela cuidou de uma companhia de treinamento de infantaria e lá conheceu pela primeira vez o código de honra do batalhão de mulheres: Ser melhor do que os homens! Mais corajosas, mais audazes, mais resistentes e mais ágeis. . . e morrer sem se queixar! Nada mais vale em sua vida: apenas a mãe-pátria, a terra de origem!

Desta forma Galina veio preparada para as fuzileiras da frente. Aqui, com Soja Valentinovna, tudo era muito mais duro, mais fanático, mas, diante da perspectiva de morte, também mais humano. Bajda, então, embora destituída de razões de ordem pessoal, fazia vista grossa aos casos amorosos de suas moças com os oficiais.

Só quando se tratava da disciplina e da honra das combatentes, Bajda não aceitava tergiversações. Para Schanna Ivanovna só havia uma possibilida­de de se tornar de novo um ser respeitado: 10 acertos em testas alemãs. . . A ferida nem preocupava Bajda.

— Mas o que tem ela? — perguntou uma vez a Opalinskaja? — Ela se ar­ranhou em uma ponta de um muro? Por que vocês estão fazendo tanto barulho em torno disto?!

Ploetzerenke logo reconhecera, ao enfaixar a ferida pela primeira vez, a seriedade da infecção. Desta vez trouxera, além da sopa de feijão e do bo­lo de passas, um tubo de pó de sulfonamida, que pedira ao enfermeiro da companhia.

— Para quê? — perguntara o cabo. Havia escassez de pó contra infecções. A farmácia do batalhão só o fornecia mediante a apresentação de uma receita devidamente examinada e assinada, no âmbito da Quarta Companhia, pelo médico auxiliar Helge Ursbach.

— Para quê?! — berrara Ploetzerenke subitamente. — Decerto que não é para pés fedorentos!

— Aí, no seu caso, só resolve uma amputação. . .

— Tá bem, preciso por causa de uma gonorréia!

— Jogar pó em cima? Estamos em um bordel?! Vamos, tire o peru, vou lhe dar uma injeção...

Finalmente Ploetzerenke conseguiu o tubo de sulfonamida. Se o pó ajudaria, isto ele não sabia. Mas diziam que aquele remédio era útil contra todas as infecções; então, umas aplicações no ombro de Schanna não podiam fazer mal.

— Venha cá, minha fofura, e não me olhe como se quisesse me comer — disse Ploetzerenke, afastando a blusa de Schanna. Resistiu à tentação de colo­car as mãos em seus seios jovens, firmes; pôs as faixas e o tubo com o pó a seu lado e sorriu para Schanna. — Eu só quero ajudá-la, menina. Esta ferida está feia. Deve doer, não? Que pena, que a gente não pode entender o que o outro fala. . . Você neca ponnimei germanski, né? — Levantou o tubo e o mostrou a Schanna. — Isto é pó, pó para feridas, entendeu?

Pudra. . . - respondeu Schanna hesitantemente. — Pudrenitsa. . .?



— Exato! — berrou Ploetzerenke e aplaudiu, de tanta alegria. — É isso! Pudra! Bom para ferida! — Tocou levemente o ombro machucado de Schanna.

Rana. . . — disse Schanna.

— Tudo bem, para mim também pode serrana. Contra infecção. . .

Schanna acenou com a cabeça e olhou atônita para Ploetzerenke. — Sarasa. . . Lichoradka. . . (Febre infecciosa.)



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