Konsalik b de atalhão Mulheres



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Era difícil objetar. Stella aceitou ficar olhando paja a margem alemã do rio, durante uma semana, sem nada fazer, mas cheia de rancor.

Foi exatamente a semana na qual Peter Hesslich esperou em vão.

Não existia ninguém na frente de batalha, ou em qualquer outro lugar, que jamais tivesse considerado Foma Igorevitsch Miranski um homem extraordinário. Nem sua aparência externa, nem sua inteligência, e especialmente nem mesmo a sua masculinidade, o justificavam. E especialmente esta últi­ma lhe dava muito o que fazer, desde que a fogosa Darja Allanovna, este diabinho vermelho, fora morar com ele.

Já não é fácil tomar um diabinho de 20 anos e lhe dar o que espera e precisa. Principalmente quando a nossa alma sempre leva uma pontada quando ela mistura a seus murmúrios carinhosos palavras tão alarmantes como “tiozinho”, “papaizinho” e até “meu velhinho”. Sempre que Darja dizia, naqueles momentos em que ele próprio julgava estar tendo um excelente desempenho, com voz trêmula: “Oh, meu velhinho. . .oh... oh. . . não vá ter um infarte. . .” Miranski se sentia atingido por um raio, da cabeça até as plan­tas dos pés. Ele ofegava então como um cavalo do Nilo raivoso, desmanchava os cabelos de Darja, beliscava seus seios rígidos, a empurrava de um lado para outro, e a soterrava de epítetos, dos quais “puta fodida” ainda era o mais suave. Mas então Darja Allanovna, por sua vez, ficava realmente excitada e Miranski tinha de fazer um imenso esforço para agüentar até o final feliz.

— Preciso de um conselho — disse ele ao Tenente Ugarov. — Um conselho de homem para homem. Sei que sua Soja Valentinovna é uma caçarola de água fervendo, e ai de quem levantar a tampa. . . ferve e assobia, não? Isto é vulcânico, força vital. Uma mulher de sangue quente como essa pode aniqui­lar um homem! Mas o que acontece com você, meu caro amigo Victor Ivanovitsch? Eu o observo há meses: seja de manhã, seja de noite, o senhor abre a pesada porta do abrigo, sai, abre os braços e parece estar saindo de um banho refrescante! O senhor tem a aparência de alguém que foi purificado, e não ani­quilado, por um vulcão que cospe fogo! Meu melhor amigo, me conte o segre­do de sua força enigmática!

— As aparências enganam, meu caro Foma Igorevitsch. — Ugarov olhou para a frente, pensativo, e batucava com os dedos contra as coxas. — Eu sem­pre me sinto como um pedaço de pau ressecado pelo fogo! Penso que se al­guém me tocasse, eu me desmancharia em pedaços, com um clack. Em confiança. . .

— Totalmente em confiança, meu caro Victor.

— Na cama Soitschka é uma assassina.

— E eu não o dizia! Como é que o senhor consegue sobreviver, meu ca­ro? — Miranski suspirou fundo. Pensava que o dia estava findando e que Darja o esperava no abrigo. Já ao entrar sabia o que o esperava. Se sentisse o cheiro de ovos fritos, não havia mais piedade. Se, ao contrário, só cheirava à sopa da cozinha de campanha, ele podia ter a esperança de suportar o ardor de Darja com uma dor lancinante na coluna vertebral.

— Com um truque — murmurou Ugarov, em tom de conspirador.

Miranski assobiou.

— O senhor tem um truque? Para o diabo com o senhor, Victor Ivanovitsch!

— Nascido da necessidade! As maiores invenções russas surgiram da compulsão para a improvisação. . .

— O senhor improvisa com Soja Valentinovna? — gaguejou Miranski, abalado.

— Improviso, sim.

— E ela não o percebe? — Não, que coisa, pensou Miranski. Improvisar! E o que é que se pode improvisar numa situação destas?

— Ela só percebe que faz bem a ela. . .

— Fenomenal! O senhor é o meu melhor amigo, Ugarov! Me confie sua descoberta! Ser-lhe-ei eternamente grato. Darja me esvazia por completo...



E assim Miranski soube pelo Tenente Ugarov como domar mulheres vul­cânicas. E, como ouvimos, isto aconteceu em sigilo; não temos, pois, licença de falar a respeito! Ficou provado, porém, que Miranski sobreviveu as sema­nas seguintes bem disposto e que Darja Allanovna o chamava novamente de “meu tourinho bravo” ao invés de “meu velhinho”. Seus olhos verde-cinzentos de gata brilhavam e Miranski abraçou o Tenente Ugarov várias vezes, secre­tamente, e o beijou na face, agradecido.

Naturalmente que no batalhão cedo souberam o que estava acontecen­do na divisão feminina. Mas isto não era motivo para advertências ou medidas disciplinares. Enquanto não houvesse ciúme e dramas histéricos corresponden­tes entre as mulheres, fechavam os dois olhos, secretamente parabenizavam o favorecido Miranski e ficavam felizes quando, de tempos em tempos, algumas moças iam para a retaguarda, buscar víveres, munição, material ou ferramen­tas. Então, especialmente os oficiais tinham uma longa noite pela frente — e deles dependia, afinal de contas, se determinadas ocorrências eram notifica­das aos comandos superiores.

No fundo tudo era muito normal. Onde homens e mulheres trabalham e lutam juntos, e agora até podiam morrer juntos, não é possível proibir que também vivam juntos e se amem. Tinham até um nome para essas mulheres. “Polevaja pochodnaja schena”, abreviado PPSch ou mais simplesmente, “mulheres da campanha”. Quem abrigava uma PPSch em sua moradia era alguém a invejar mas não a advertir. A coisa só começava a ficar complicada e a dar margem a preocupações quando a marcha começava e não parava, como na época de janeiro a março de 1943. Então as PPSch iam junto com o trem e nunca se sabia se elas não se consolavam com os camaradas filhos da puta que iam na retaguarda, para aprovisionar as tropas e tinham muito tempo para olhar, por debaixo das saias.

As grandes catástrofes vêm subitamente, sem aviso prévio, como do nada, e é por isso que seu efeito é tão devastador.

A catástrofe de Foma Igorevitsch Miranski se chamava Praskovja Ivanovna.

Ela era sua esposa.

A Miranskaja era uma mulherzinha de exatamente 39 anos; estava, portanto, em uma idade na qual a pessoa já se acostumou a um certo estilo de vida e começa a se inquietar quando as circunstâncias se alteram. Miranski vol­tara de férias, pela última vez, há sete meses, se esquecermos os três dias que “abafara” de um curso político em Moscou. Mas ali só se embebedou com os amigos, falou do batalhão de mulheres e foi invejado e admirado, e não teve ouvidos nem sentimentos para as queixas da Praskovja.

As mulheres que se acham em situações como essas conseguem ter as idéias mais incríveis. A Praskovja não hesitou em escrever ao comandante do regimento do seu marido, comunicando-lhe que Foma Igorevitsch Miranski era comissário da unidade de fuzileiras e como — afinal de contas, isto se ouvia no rádio e se lia no Pravda — estava tudo tão tranqüilo na frente, que até era possível ouvir cacarejar as galinhas, ela então solicitava permissão para visitar seu querido marido. Afinal de contas ele iria ficar tão feliz que se tornaria um soldado ainda mais audacioso, do que já era. . .

Um comissário só está subordinado a um comandante militar condicionalmente, ou seja, no que se refere ao combate. A decisão sobre seu bem-estar ou não pertence à Central para Educação Política de Moscou. E lá havia cama­radas, que de nada sabiam, que realmente acreditaram que Miranski iria ficar satisfeito com uma visita de Praskovja Ivanovna. Deram-lhe um passe e ainda ficaram felizes da vida com esta travessura!

Em um belo dia de sol, em meados de junho de 1943, Praskovja Ivanov­na Miranskaja realmente chegou ao Donez! Primeiro viajou de trem, depois em um caminhão e a última etapa do caminho foi vencida em uma velha car­roça de camponês, puxada por dois cavalos velhos e cansados. Ela estava car­regada com repolho de verão, que o camponês levava para o batalhão onde, enriquecido com trigo e cevada, era transformado em um legume empapado. O vovozinho falava pouco, fumava um tabaco horrendo em um cachimbo fei­to por ele mesmo e ouviu, sem comentários, o que a Praskovja pensava fazer nos próximos dias. Só bem no final, quando pararam diante do depósito do batalhão, o velho disse:

— Todas as mulheres podem visitar seus homens na frente? Deus meu, isto dá uma corrida.

— Não sei. — Praskovja pulou da boléia e alisou a saia nova de algodão, que ela mesma costurara. — Eu tentei, vovozinho, e me deram permissão.

— O seu marido é oficial, não?

— Não. Comissário. . .

O vovozinho a fitou com os olhos semicerrados, sugando o cachimbo.

— O que é ele? Comissário? Ha, ha. . .

— Sim, Comissário Político. . . orgulhosa respondeu a Praskovja.

O velho tossiu, respirou fundo e depois cuspiu, com pontaria certeira, no ombro esquerdo da Praskovja. A Miranskaja ficou petrificada, até que o vovozinho desapareceu no depósito. Ela refletia se valia a pena gritar alto: “Ele cuspiu na mulher de um comissário, porque seu marido é um comissário!” Mas depois não sabia que efeito tal gritaria poderia ter, pegou sua sacola de linho e foi em direção a uma casa sobre cuja porta havia uma placa com os dizeres KOMMANDANTURA.

Fomascha vai ficar satisfeito, pensou ela. Eu lhe estou trazendo um grande bolo de manteiga e 300 gramas de vodca.

A infelicidade — ou a felicidade, depende do ponto de vista — de Pras­kovja Ivanovna foi o fato de que o oficial de serviço do estado-maior do bata­lhão, que conhecia exatamente o que se passava lá no batalhão de mulheres, neste momento se achava na banja e se deixava esfregar por um auxiliar de en­fermagem, sentado em uma grande cuba de madeira. Desta forma a mulherzinha amorosa e corajosa foi recebida no escritório por um subtenente, que só estava no batalhão há 14 dias; um rapazola de Camtschatka, que nem tinha idéia do que acontecia, lá na frente, nesta época de calma divina. Estava ocu­pado em registrar as novas tropas, que vinham de todos os cantos da União Soviética, para formar um novo grupo de exércitos — a frente da estepe do Coronel-General Conjev. Só na pequena divisão do Donez — de Prochorovka até Voltschansk, em uma pequena distância de 100 quilômetros —havia qua­tro exércitos soviéticos. Neste pequeno espaço marchavam tropas descansa­das, sadias, bem alimentadas e com excelentes armas, animadas pela vontade de lutar, com a firme idéia de deter a ofensiva alemã de verão, aguardada e no­ticiada pela central de espionagem “Luzy” na Suíça, e depois, em um assalto violento, aniquilá-la. Deveria ser um assalto nunca dantes visto nesta guerra cruel. . . uma marcha vitoriosa até a Polônia, até Berlim, até a derrota defini­tiva dos exércitos alemães. Em uns ridículos 100 quilômetros quatro exércitos descansados e intactos — e não só no Donez isto ocorria. Em todas as frentes, de Leningrado até o Mar Negro, o retrato era o mesmo. O Exército Vermelho marchava com 860 divisões, com 8.400 couraçados e 20.770 canhões. 5.512.000 soldados russos estavam prontos para esmagar os alemães com um trator de fogo ímpar. E se o Diabo em pessoa não ajudar o lado alemão, o propósito ti­nha de dar certo. Afinal de contas, o que os alemães tinham, para se defen­der? 2.468.500 soldados rasos cansados, estropiados, triturados por reiteiradas retiradas e lutas desesperadas, que precisavam contar sua munição e aos quais faltava o combustível para os aviões. A isto se junte ridículos 8.037 ca­nhões e 2.304 couraçados, dos quais apenas 700 estavam em perfeitas condi­ções para entrar em ação!

E isto era só a frente russa. A África já fora perdida. Rommel retornara da aventura no deserto. Na área do Mediterrâneo os Aliados preparavam o de­sembarque na Itália. O primeiro golpe deveria atingir a Sicília. Ali, melhor do que no flanco mole do sul, acreditava-se poder partir para o ataque à própria Alemanha. Se a partir da Itália os americanos e os ingleses empurrassem a frente, se a Rússia com seu trator de fogo impulsionasse os exércitos alemães para diante, então não haveria mais como deter o avanço, e a incrível coragem e perseverança das tropas alemães já não poderiam mais ajudar.

Nestes dias quentes de junho a frente ainda dormia, e ninguém adivinha­va que a terra pacífica, sobre a qual o sol brilhava, cedo se transformaria em um vasto cemitério.

Aconteceu o que tinha de acontecer! O jovem subtenente de Camtschatka, que não compreendia a grande estratégia, mas que estava ocupadíssimo com o registro das infindáveis levas de pessoas e material, recebeu Praskovja com de­sesperada falta de tempo. Deu uma rápida vista d’olhos no papel de Moscou, aquele passe, carimbou-o apressadamente, assinou-o e disse:

— Está tudo em ordem, Camarada Miranskaja. O próximo carro-correio a levará para a frente. Não existe perigo por enquanto. Tudo está calmo. Co­mo já está ciente, sua visita é um risco que a senhora mesma quis correr.

— Já me disseram. — Praskovja riu feliz, pegou a sacola de linho e se dispôs a esperar. O escritório lhe prometera avisá-la logo que um veículo fosse na direção do Grupo Bajda.

Ela se sentou em cima de uma pilha de lenha diante da parede da casa, apertou a sacola de linho cheia entre as pernas e ficou observando o aparente ir e vir insensato dos soldados, a barulhada e as ordens, as motocicletas e os caminhões e uma divisão de cossacos, que, como nos tempos d’antanho galoparam pelo povoado em cavalos pequenos, sarnentos, rápidos e imediatamente entraram em uma briga feia com o administrador do depósito. Ameaçaram enforcá-lo, amarrá-lo na cauda de um cavalo, castrá-lo e empurrar seus pró­prios testículos garganta abaixo — e aí um tenente veio ajudar o pobre, ber­rou com os cossacos desgrenhados, disse que estavam se comportando como piolhos, perguntou se eles também queriam ser tratados como piolhos!

Que vida esta a da frente! Praskovja não se cansava de observar e pensa­va incessantemente no seu Foma Igorevitsch. Coitado! Estava deitado lá na frente, na trincheira, e se afligia. O que dissera em sua última carta? “Como fi­carei satisfeito quando a guerra terminar. Esforço-me muito, sinto que as mi­nhas forças já não são suficientes...”

Bem, isto correspondia à verdade, mas a Praskovja só conseguia imaginar, em sua fantasia, as piores privações e chorou muito com essa carta. O po­bre Fomascha. . . suas forças estão acabando. . . como deve estar sofrendo! O que não se exigia de um combatente! Como um suculento bolo de manteiga da pátria irá levantar sua moral!

Foi culpa do próprio Miranski. Para que apelar para a piedade da Praskovja, se toda a sua estafa decorria de razões muito diferentes das que a sua mulher poderia fantasiar! Ele também poderia ter escrito: Eu estou bem. Aqui tudo está tranqüilo. Já engordei dois quilos, o uniforme se estica sobre a minha barriga. . . Aí a Praskovja teria dito: Ah, olhem, o cachorro preguiçoso vive em um açougue! E ela teria feito o bolo, com provisões que poupara, para si mesma.

Como a gente faz as coisas, sempre dá errado, e o próprio Diabo sempre vira as coisas de tal maneira, que a gente o pode cheirar.

Ao cair da noite um jipe doado pela ajuda americana saiu em direção do Grupo Bajda. A Praskovja pôde sentar-se atrás, encostou a sacola de linho contra os seios dignos de atenção e se jogou na grande aventura, a respeito da qual iria muitas vezes contar histórias: ela ia para a frente!

Foi vontade de Satã — uma outra explicação é dificilmente concebível — que a Praskovja, ao passar pela trincheira de comunicação, traseira, percebesse a entrada de um abrigo, onde estava escrito simplesmente COMISSA-RIADO. Antes que alguém pudesse detê-la, até antes que a Bajda a tivesse vis­to ou mesmo soubesse que chegara a visita, Praskovja abriu a porta sem bater, em uma expectativa feliz.

Fora um dia muito quente. Darja Allanovna encontrava-se em pé em uma banheira de zinco e estava muito ocupada jogando água fria sobre o corpo, por meio de um balde, para se refrescar, quando a porta rebentou e a mulher desconhecida entrou às pressas no abrigo.

Darja pousou o balde no chão, permaneceu de pé na banheira de zinco e ofereceu sua bela nudez aos olhares da Praskovja.

Quando a visita apenas ficou ofegante, excitada, e não deu um pio, Dar­ja disse amigavelmente:

— Você se enganou, com toda certeza, camarada! Este é o abrigo do Comissário Foma Igorevitsch Miranski.. .



— Aha! — respondeu a visita apenas e continuou a fitar a forma nua na ba­nheira. Depois de uma pausa curta, Praskovja Ivanovna disse novamente: — Aha!

Depois pegou a sacola de linho com o bolo de manteiga e a vodca e a atirou, com pontaria certeira e rápida como um raio, contra a cabeça de Darja Allanovna. Quando a moça nua saiu tropeçando da banheira e a virou, e a água escorreu pelo chão do abrigo, a Praskovja riu malevolamente.

Não adiantou nada a Darja ter sido treinada para uma luta de corpo a corpo e conhecer todos os truques com os quais se pode ludibriar o inimigo mesmo quando este pensa já ter vencido há muito tempo. O golpe da garrafa de vodca contra seu crânio a atordoou; durante vários segundos ela se desequi­librou, incapaz de se defender ou mesmo compreender a situação, e a sua cabeça zunia como se nela estivesse um enxame de abelhas. Esses segundos fo­ram suficientes para que a Praskovja, mesmo sem um treinamento especial, vencesse Darja Allanovna. Ela atacou com as duas mãos, deu um golpe no queixo da mulher nua e a pôs a nocaute, em uma espécie de estupor, semi-consciente.

Darja caiu na cama de Miranski e tentou desesperada sobrepujar a paralisia que a cercava, como algodão.

— Então ele mantém uma putinha, o vesgo Foma Igorevitsch! — excla­mou a Praskovja com um tom abafado na voz. — Aí a gente vem, tem uma trabalheira para chegar até a frente, para tornar feliz o seu maridinho querido, e o que a gente encontra ao invés de um homem que vive na penúria? Um bode velho, que mantém uma cabra disposta a tudo! A gente morre de sauda­de e desgosto e secretamente reza a Deus que poupe Foma da guerra; e qual é a recompensa? Ele vive com uma porcalhona, com uma égua de cabelos ver­melhos, com uma vaca depravada! A bílis que me corroa por dentro! O san­gue me sobe à cabeça. . . ou é uma tempestade de fogo?! Olhem como ela está deitada aí, com as pernas longas, mãos tremendo, seios rígidos. . . ha, que sem-vergonhice, que desgraça, que merda de diabo é esta puta fodida!

A Praskovja se entregou, sem inibições, ao seu ódio, ao seu desapontamento e á sua vingança. Novamente, golpeou Darja no queixo, pondo-a em um estado de obnubilação, mas sem que a fizesse perder os sentidos por completo. A Praskovja revelou ser um talento natural —ela triturava o adversário mas lhe permitia ver indefeso o espetáculo de sua própria derrocada.

— Escute. . . escute. . . — gaguejou Darja. — Engano. . . tudo um enga­no. . .

— Eu vejo o que vejo! — rosnou Praskovja, rangendo os dentes. — Este é o abrigo de Miranski? Então! Você, sua puta, fica nua no quarto dele. . . quer negar isto? Então estava se preparando para a noite, hem?! Bem lavadi-nha, para que depois cheire a sabão e não a cabra. . . E ele virá logo, a calça na mão, a grunhir como um garanhão e a revirar os olhos, a saliva lhe escorrendo da boca. . . é assim?

Ela pegou a cabeça de Darja com seus cabelos cor de cobre e a golpeou várias vezes contra a parede traseira do abrigo, apoiada por vigas.

— Quem. . . quem é você. . . — gaguejou Darja. Ela queria levantar os braços mas sentia que remava em uma nuvem de penas de ganso. — Me escute. . . por favor, me escute. . .

— Quem sou eu? — berrou Praskovja. A idéia do que iria acontecer neste abrigo e já ocorrera muitas vezes roubou-lhe as últimas inibições. O sangue percorria suas artérias a ferver e cozinhou-lhe a razão no cérebro. — Sou a mu­lher dele, a Miranskaja. . . Praskovja Ivanovna. . . Sim, sou ela! Sou sua esposa há 14 anos, até que venha uma como você, com uma bunda a bolinar e pernas abertas. Até que Foma Igorevitsch se transforme em um joão-ninguém, um idiota, um cego e surdo, o meu Fomascha, o meu homem, sua puta sem-vergo­nha! Um idiota, que suga os teus seios como um nenê. Em mim você nunca pensou, né? Nunca pensou que eu poderia sentir medo, medo do que poderia lhe acontecer, um medo sagrado, enquanto você aqui trepa com ele?. . . Você nunca pensou que existe alguém que chora por ele, sua mulher, sua mulher sempre fiel? Por acaso virei puta porque ele se afastou? Recebi outros homens na minha cama? Afinal de contas, ainda sou uma mulher apetitosa. . . existem homens em abundância que se transformam em touros quando levanto a saia . . . Mas não, não. . . Fui fiel a ele, rezei por ele, mesmo que tenha de rir de Deus por ser ele comissário. . . fiquei sempre sua mulher, fiel como um cão. E o que faz ele? Toma uma porca em cio do charco! Cachinhos vermelhos por todos os lados, foi isto que o tornou selvagem? Ha, então você ainda quer di­zer algo? Você quer falar comigo? Emitir um único som?! Não, que coisa!

A Praskovja golpeou no instante exato em que Darja sentia que as forças lhe retornavam. O golpe no canto do queixo jogou Darja para trás.

Pegou no canto do abrigo um bastão que Miranski usava para esmagar os gordos ratos que estavam começando a aparecer ocasionalmente, fitou a jovem nua e começou a espancá-la. O primeiro golpe rebentou a pele do ombro de Darja. Ela gemeu alto; na realidade acreditava estar berrando mas não conseguia mais fazê-lo; a paralisia dos nervos lhe roubava os sentidos.

A Praskovja batia e batia. O sangue escorria aos borbotões do corpo de Darja, mas ela já não sentia mais nada, porque um golpe contra a testa a liberara de todas as sensações e dores. Mais um golpe certeiro lhe arrebentou a laringe e acabou com a vida da fuzileira e ex-estudante de arquitetura Darja Allanovna Klujeva.

Só quando a Miranskaja acordou de sua confusão psíquica e compreendeu que estava golpeando uma morta, é que largou o bastão dos ratos e recuou, assustada com o que fizera, para a porta do abrigo. O montão sangrento diante de seus olhos agora pouco se assemelhava a um ser humano.

Neste momento Foma Igorevitsch irrompeu no abrigo.

A notícia da visita de sua mulher Praskovja o alcançara durante um jogo de cartas com o Tenente Ugarov e a Bajda no abrigo de comando. Ele sabia que Darja estava tomando banho e se preparava para uma noite tempestuosa, depois de ter ficado deitada ao sol durante todo o dia. Ela era como uma ba­teria que sempre se recarregava. Miranski, depois de reconhecer este fato hor­ripilante, fugira para Ugarov e lhe sugerira um joguinho de cartas. Talvez ele pudesse retardar a volta para o próprio abrigo até que Darja, de tanta raiva por ter de esperar, tivesse perdido a vontade de trepar.

Quando o sargento que acompanhara Praskovja enfiou a cabeça no abri­go e disse, sem nada adivinhar: “Camarada Comissário, acabei de trazer a sua querida esposa”, Miranski sentiu como se um estilhaço de granada o tivesse atingido. As cartas caíram de suas mãos, enrijeceu e gaguejou com um olhar inquieto:

— Você fez o quê?

— Olhem, ele está estatelado de tanta alegria! — o sargento riu alto, zombeteiro. — Sua mulher está aí, Camarada Comissário. Ela foi para o seu abrigo. . .

Foma Igorevitsch emitiu um som abafado; depois levantou-se rápido, quase jogou no chão o sargento parado na porta e disparou, a toda velocidade, trincheira abaixo.

— Isto é que a gente chama amor! — gritou o sargento sem perceber que Ugarov e Soja Valentinovna se entreolhavam, horrorizados. — Lá vai ele em disparada, como um carro de bombeiros ao escutar o alarme de incêndio, já com a mangueira na mão. . .

Ele riu às gargalhadas da própria piada e voltou ao depósito da companhia. A Bajda segurou Ugarov pelas calças, quando ele deu um pulo da cadeira.

— Tarde demais! — disse ela enigmaticamente. — Agora é tarde demais. O que você pretende fazer lá? Vai virar briga de casal e Darja vai ter de tomar chá de sumiço. Eu só vou me preocupar com isso, quando a mulher dele en­tregar uma queixa oficial. . .

Quem poderia adivinhar os acontecimentos horripilantes que se tinham passado no abrigo de Miranski?

Também Foma Igorevitsch estava contando com tudo, aguardava uma discussão acalorada e até bofetadas de acordar os mortos, tudo, desde um choro imenso até censuras dramáticas. Mas a visão com que se deparou, ao entrar no abrigo, fez o seu sangue literalmente estancar nas artérias. Parecia que seu coração parará de bater.



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