Konsalik b de atalhão Mulheres



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— Irmãzinha, assim a coisa não vai. Você não pode engolir o Victor, por mais que seu paladar lhe agrade. O Exército Vermelho ainda precisa desse te­nente. — E depois as duas riam escancaradamente. Na realidade, se entendiam.

Hoje então, depois da volta da escolarização, Ugarov trouxe um presente para a médica: uma grande garrafa de terebintina para misturar e diluir as tintas e para cuidar dos pincéis.

— Se atentarmos para o que diz o Camarada Samsonov, de Moscou, já ganhamos a guerra. Isto ele nos demonstrou na base dos mapas. Uma conferência interessante, é preciso dar-lhe crédito. Tudo muito lógico. . . só que não sabemos se os alemães vão seguir esta lógica. — Ele olhou em direção ao Donez. O vermelho do crepúsculo brilhava sobre a terra como as cores nas pinturas românticas de Galina. — Tudo calmo do outro lado?

— Como sempre. A gente até se acostumou com este silêncio enganador. Qual é o barulho de um canhão? Qual é o som da explosão de uma granada? Todos nós levaremos um susto, quando as balas recomeçarem a uivar!

— Alguém está no povoado?

— Só Schanna. Com os carneiros.

— Ainda não voltou?

— Ela ficou o dia todo lá fora. Estava bem quente. Ela deve ter-se deitado no sol, como sempre, nua, na grama. . .

Ugarov acenou com a cabeça e esqueceu Schanna Ivanovna no mesmo instante. Ela vai voltar logo, não tinha dúvida alguma a respeito.

Mas Schanna não voltou. Depois que o céu fogoso engoliu o dia e a noi­te caiu sobre a estepe, Stella Antonovna se apresentou a Soja Valentinovna. Bajda estava sentada com Miranski e Ugarov, diante de um rádio de pilha. Escutavam a transmissão da ópera Príncipe Igor, pela rádio de Moscou. Mi­ranski pôs um dedo nos lábios, apontou para um lugar no catre e acenou para Stella. Mas esta sacudiu a cabeça e ficou de pé na porta.

— Schanna ainda não veio! — disse em voz alta, no meio de um dueto.

Bajda levantou a cabeça.

— Como? Ela não está aí?

— Está lá fora com os carneiros.

— O dia todo e também agora de noite...?

— Ela deve estar dormindo na palha! — Soja Valentinovna fitou Stella interrogativamente. — Não pode ter acontecido nada. Era um dia totalmente calmo! Com certeza ela já está dormindo! Vá lá e a acorde.

Um quarto de hora depois elas voltaram. A forte Marianka Stepanovna carregava Schanna nas costas. Lida Djanovna corria na frente e já de longe gri­tava:

— Galina! Rápido, rápido. Ela está morrendo! Galina. . . atiraram nela! Gaaaaliiina. . .

Na trincheira houve uma confusão como em um formigueiro destruído. Todos corriam de um lado para outro. Foram de encontro a Marianka, que gemia sob seu fardo, pegaram Schanna e a levaram, às pressas, para a posição. Miranski e Ugarov saíram correndo do abrigo, Bajda berrava ordens, no abri­go da Opalinskaja o cavalete e as tintas foram jogados para um canto e a pe­quena mesa de cirurgia desmontável foi armada. Puxaram a caixa de metal com os instrumentos e os medicamentos, e Galina Ruslanovna arrancou o jaleco de pintor do corpo.

Colocaram Schanna cuidadosamente na mesa. Ela estava consciente, abrira os grandes olhos pretos e fitava a luz forte do teto, que Galina havia pu­xado para mais perto. Bajda estava à cabeceira, segurava a mão de Schanna e a acariciava. Agora Stella Antonovna, carregando nas mãos uma tenda de acampamento dobrada, entrou no abrigo e deixou cair, sem dizer uma pala­vra, uma das pontas da tenda. O fuzil destroçado de Schanna caiu ruidosamente no chão.

Soja Valentinovna ficou rígida, como se de repente tivesse virado gelo.

— Todo mundo para fora! — ordenou com voz abafada. — Todos! Você, não, Stella! Mas todos os outros. . . fora!

Ela esperou até ficar sozinha com Miranski, Ugarov, Stella e a médica; largou as mãos de Schanna, abaixou-se para os destroços do fuzil e levou alguns deles para perto da luz. Enquanto isto, Galina tinha desenrolado a faixa ensangüentada e deixado a ferida livre. Tinha sido um tiro limpo, o osso estava intacto. A bala saíra por detrás e lá fizera um buraco maior, redondo. A fe­rida de Schanna não a punha em perigo de vida.

Galina curvou-se sobre Schanna, cujos olhos pretos ainda fitavam o teto, parecendo olhar para a amplidão e o céu.

— Você continuará vivendo! Ninguém morre de um negócio destes. Lo­go irei lhe dar algo para anestesiá-la, limpar o canal do tiro e enfaixar a feri­da novamente. Além disto você receberá uma infusão de cloreto de sódio na veia. Amanhã tudo parecerá mais cor-de-rosa, acredite em mim.

— Alto! — Bajda levantou a mão subitamente. — Nada de anestesia por enquanto! — Chegou-se mais para perto da mesa e se postou diante de Schanna. Miranski empurrou para a frente o lábio inferior, Ugarov coçava, nervosa­mente, o dorso do nariz. — Ela pode me ouvir, Galina?

— Naturalmente. — A médica acenou afirmativamente com a cabeça. — Não perdeu os sentidos, só está muito fraca. . .

— Mas não fraca demais para me responder! Schanna, o que aconteceu com o seu fuzil?

A cabeça da Babajeva rolou devagar para o lado. Olhou para Soja Valentinovna com ar de apelo.

— Ele. . . ele foi melhor. . . — respondeu baixinho.

— Você encontrou um alemão?

— Ele estava esperando por mim junto aos carneiros. . . no celeiro. . .

— E ele atirou logo?

Os grandes olhos de criança imploravam. A boca tremeu várias vezes.

— Não. . .

O rosto da Bajda endureceu.

— Quem atirou primeiro?

— Ele me chamou: Stoj! Atirei ainda ao saltar. . .

— E errou o tiro. . .

Schanna fechou os olhos e mexeu a cabeça, quase imperceptivelmente. Nas horas que se tinham passado ela se torturara com autocensuras: Você fracassou. Schanna Ivanovna, recomendada para a Ordem Suvorov em bronze, fracassou. Deixou que destruíssem seu fuzil, deixou que um alemão o fizesse, e ainda vive! Se a desonra fosse um ácido, estaria corroendo agora o corpo de Schanna.

— Ele foi mais rápido. . . — respondeu bem baixinho.

— O quê? Não, isto não pode ser verdade! — Bajda fitou malevolamente Schanna. — Ele atira e acerta! E ainda destrói o seu fuzil!

— Eu queria. . . queria, que ele me matasse. . . — respondeu Schanna, com dificuldade. Galina apanhou a garrafa com a infusão e os instrumentos. Todos, inclusive Schanna, os ouviram chocalhar. Ao abrir os olhos, viu Miranski e Ugarov. Foma Igorevitsch a fitava como se ela fosse um boi. Victor Ivanovitsch ainda esfregava o nariz. — Eu. . . que. . . queria dar-lhe um ponta­pé. . . nos culhões. . .

— Não! Que coisa! — murmurou Miranski abalado. Bajda o beneficiou com um olhar de censura.

— Ele teria de me matar, se eu o pisoteasse. . . mas. . . eu estava fraca. . . fraca demais. Tudo em mim. . . tremia. Acreditem. . . por favor. . . acreditem em mim. — Schanna respirou, gemendo. Galina encheu uma seringa de injeção e deu a entender que para ela agora cuidar da doente era mais importante que o interrogatório. — E depois. . . ele me enfaixou. . . não me matou. . .

Bajda rasgou, excitada, a própria blusa e se curvou sobre Schanna.

— O quê? Ele enfaixou você? Curvou-se sobre você! Estava bem perto? E por que você não o mordeu na garganta?! Não lhe arrancou o pomo-de-adão com os dentes. . .?!

— Eu. . . eu não podia. . . — Schanna fechou novamente os olhos e jogou a cabeça para o outro lado. — Ele. . . ele falou. Falou como um pai. . . Me enfaixou. . . três vezes. . . ficou sentado a meu lado durante todo o dia. . . buscou água. . . Foi embora, quando escureceu. . . Eu não podia me mexer. . .

— Qual era a aparência dele? — perguntou Bajda, impiedosamente, apesar dos acenos enérgicos de Galina: Parar!

— Ele usava. . . um uniforme alemão. . .

— Sua cabeça de vento! Então iria vir nu para atirar?!

— Usava uma boina esquisita. . . uma boina de tricô. . .

— Usava o quê! — perguntou atônito Miranski.

— Uma boina cinza-escuro. . . de lã. . . uma boina redonda. . . até os olhos. . . como. . . como posso dizer qual era a aparência dele. . .?

Soja Valentinovna abotoou a blusa, empertigou-se e olhou friamente para Schanna, para seus seios e para a ferida que sangrava. Sua voz tornou-se cortante.

— Schanna Ivanovna Babajeva! — disse ela e não se preocupou com o fa­to de que Miranski, ao lado, tossia e Ugarov queria fazê-la compreender, com o olhar, que deveria ser mais misericordiosa. — A senhora fracassou! Fracas­sou miseravelmente! Embora seja meu dever, não vou noticiar o ocorrido! Também, como poderia fazê-lo?! Todo o batalhão foi desonrado pela senho­ra, e uma coisa destas vem da minha divisão! Nós vamos esquecer que a se­nhora foi ferida! A senhora nunca recebeu um tiro! Nada irá para seus docu­mentos!



— Obrigada. . . — murmurou Schanna e começou a chorar. — Obrigada. . .

— Obrigada?! — Bajda perdeu o controle e começou a berrar: — Preste atenção, Schanna Ivanovna! A senhora só pertencerá novamente ao nosso grupo, depois de provar que é uma verdadeira combatente. Corajosa, dura e alguém que luta até a última gota de sangue. Um soldado, que só conhece sua pátria, que só vive porque defende a União Soviética. A senhora fracassou diante de um inimigo da nossa pátria querida. . . A senhora só voltará para a nossa comunidade, depois que mais 10 alemães estiverem em seu livro de tiros! Até então, viverá entre nós. . . mas ninguém lhe dará atenção! — Soja Valentinovna acenou para a médica que aguardava. — Agora você pode começar, Galina Ruslanovna. Tudo foi dito. Ponha-a em ordem como puder, para que ela possa cumprir seu dever o mais rápido possível.

Olhou mais uma vez para Schanna, fitou seus grandes olhos pretos, humildes, afastou-se bruscamente e saiu do abrigo. A Opalinskaja empurrou a agulha de injeção no antebraço de Schanna.

— Logo as dores cessarão — disse.

Schanna acenou fracamente. Chorava alto, como uma criança e ainda soluçava, quando estava prestes a desmaiar.

— Vocês ouviram isto? — perguntou Bajda lá fora na trincheira, encos­tada na parede de terra. — Aí vem um alemão, totalmente só, para o nosso la­do; pode matar Schanna mas, ao invés de fazê-lo, salva a vida dela. Fica a seu lado até de noite e depois desaparece de novo atravessando o rio. Um homem com uma boina cinzenta de tricô! Um camarada perigoso! Com ele teremos ainda trabalho. . .

— Vou cuidar dele — disse Stella Antonovna, olhando em direção do rio. A terra brilhava, como prateada, na noite clara de lua cheia. — Ele irá pagar pela desonra de Schanna. Ele me excita, esse diabo alemão!

— Sozinha, como ele, você não vai para o outro lado! — disse duramen­te Bajda. — Isto seria loucura!

— Eu o aguardarei aqui. . .

— Ele não voltará.

— Voltará, sim, Soja Valentinovna. — Stella Antonovna encostou o fuzil contra o peito, como se estivesse em uma parada militar. — Ele voltará. Um homem sempre volta! Eu sei. . . eu mesma não sou diferente!

Miranski a fitava. Neste segundo compreendeu por que Stella Antonovna era uma moça que ficava além de todas as normas habituais.

Dallmann estava inquieto, deitado na grama, ao lado de sua metralhadora, quando Peter Hesslich finalmente voltou da margem soviética do rio. A ve­lha canoa se acercava, com um barulhinho suave. Hesslich remava com força e parecia nem se preocupar com o fato de que poderiam observá-lo. Seguro morreu de velho — pensou Dallmann — e colocou municão na metralhadora, preparando-se, se fosse necessário, para dar cobertura a Hesslich.

— Então, como é? — chamou Dallmann, quando a canoa finalmente ran­geu na areia da margem e Hesslich pulou para fora. — O que foi que você des­cobriu?

— Nada! — respondeu Hesslich, casmurro.

— Nada de seios bacanas?

— Cale a boca! — Hesslich acomodou o fuzil no braço e marchou de vol­ta para as casas destruídas dos camponeses. Lá retirou a boina de tricô, enfiou-a no bolso das calças e se jogou na palha. Dallmann, com a metralhadora leve sobre os ombros, se postou diante dele.

— Que foi?. . . Então você viu uma bunda redonda de mulher e agora está puto porque não pode. . .

— Estou cansado! — Hesslich fechou os olhos. A imagem da jovem russa ferida retornara. Ele tinha estancado o sangue, que escorria do ombro dela, e molhara seus seios pequenos, e ela ficara quieta e só cuspira nele quatro vezes. Durante o decorrer do dia, Hesslich tinha refrescado a cabeça da moça, lhe trouxe água para beber e lhe contou, mesmo que ela não entendesse o que ele dizia, como a guerra era suja, insensata e imbecil, assim como a tarefa de ambos, matar um ao outro, e como a vida poderia ser bela. Ao despedir-se, à hora do crepúsculo, beijara-a na testa, nos olhos e finalmente na boca que tremia, e aí ela não cuspiu mais nele.

— Você vai voltar? — Dallmann sentou-se na palha, ao lado de Hesslich. A metralhadora caiu no solo, com fragor.

— Não sei. — E como ele o sabia! Uma coisa era certa: por enquanto, nada de idas isoladas. A divisão das fuzileiras, depois de descobrir a camarada ferida, estaria de prontidão. — Jogue-se na palha, Uwe, e agora tire uma soneca! Deus, que merda!

— O quê?


— Tudo! Tudo, meu rapazola! A gente realmente deveria parar de pensar!

Em alguns momentos, lá pela madrugada, ele sonhou com a pequena russa. Ela estava montada nua no seu colo. De seus grandes olhos negros faiscavam chamas. A sua boca cuspia fogo.

Maldito sonho!

Peter Hesslich esperou durante cinco dias e cinco noites a vingança das mulhe­res. O encontro com Schanna o convencera de que a tal divisão de fuzileiras era subestimada por todos; era mais perigosa e disposta para a luta do que acreditavam. O próprio Tenente Bauer III, quando Hesslich e Dallmann se apresentaram à companhia, somente sacudira a cabeça e dissera:

— Preocupações têm eles lá em cima no Exército! As cabeças incham por causa das mulheres de carabina. Claro, temos baixas. Mas isto é assim mes­mo quando se está diante de fuzileiros. Mas vocês não acreditam que nós tam­bém teríamos dado conta sem vocês, seus especialistas?

E Fritz Ploetzerenke disse danado de raiva:



Uma corja de covardes, são eles, covardes mesmo! Espreitar e bum!! E isto ainda é uma guerra honesta? Eu lhes digo, sou capaz de atirar tão bem quanto elas. Se ao menos eu pudesse vê-las. . .

Era isto. Não se podia vê-las. Só se viam os tiros na cabeça, que eram creditados em sua conta. Guerra honesta! Um sujeito sádico, quem tinha inventado tal conceito, um infame, quem ainda queria estilizar o matar para uma questão de ética. O que é uma guerra honesta? Corpos humanos estraçalhados, casas em ruínas, a terra arada a fogo e a espada, toda a vida queimada, a erradicação de toda uma geração? O que é honesto, quando se utilizam, com um olhar firme, de soldado, instrumentos de homicídio aperfeiçoados?



Hesslich gastou uma noite inteira para “abrir a cabeça” de Bauer III. Contou-lhe a respeito de MM, do Major Molle, de Posen, do chefe dessa esco­la especial para combatentes solitários, e relatou o que ele lhes confiara.

— O problema também está no psicológico — disse Hesslich. — A partir de observações em diversas partes da frente até o OKH tomou conhecimento de que os soviéticos implantaram batalhões de mulheres. Não unidades de saúde, não unidades auxiliares como entre nós. . . não, verdadeiros grupos de combate, infantaria, artilheiras de Flak, artilheiras de couraçados, motoristas de tanques blindados, pioneiras com lançadores de chamas e dinamite, pilotos de aviões de caça, todo um cortejo de bombardeiros, só pilotados por mulhe­res. . .

— Você está pirando! — Bauer III enrolou para si e para Hesslich um cigarro de tocos de cigarros, terceira “edição”.

— Fuzileiras especialmente. . . nesta área está a sua força especial. Não há nada que os impeça de utilizarem mulheres. Elas fazem tudo que os homens fazem. Diante de Leningrado, mantiveram as cabeças-de-ponte até o último homem. . . quero dizer, até a última mulher. No Cáucaso, no outono de 1942, um batalhão inteiro de mulheres foi dizimado. E uma unidade SS não enfrenta mais homens e sim só mulheres! E elas não se defenderam ape­nas, não, elas atacaram! Tentaram tomar de assalto as posições SS!

— Você delira! — exclamou Bauer III rindo. Deu o cigarro pronto para Hesslich e o acendeu. — Mas isto é puro latim de fuzileiro. Como conversa de caçador.

— MM tinha cifras exatas. Cada dia em Posen tínhamos aula: sete horas no terreno e atirar, três horas de teoria. Cada dia! Sr. Tenente, ali os números eram postos na mesa. Havia grandes mapas das regiões, coalhadas de pontos e círculos vermelhos. Isto significava: mulheres por toda parte! Em todos os lugares marcados a vermelho foram observados grupos de combate femininos, dizia MM. E apesar de nós também, no início, rirmos ironicamente, os nú­meros nos foram marcados a ferro e fogo. O que quer dizer isto. . . um punha­do de mulheres! Essas nós pegamos, colocamo-las de costas e as fodemos. Afinal de contas é a única coisa de que carecem e o senhor faz um alarde. . . Sr. Tenente, MM nos olhou e disse: “Seus idiotas fedorentos! Aprendam pri­meiro o que está acontecendo lá! Primeiro vocês irão decorar os fatos, como antes a tabuada na escola! E por favor, pensem nisto, quando virem uma saia de mulher cor de terra ou alguns cachos sob uma boina do Ivan! Fixem na memória, uma vez por todas: do lado de lá não os espera uma vagina dispos­ta a transar, e sim a morte certa!” Devo recitar a tabuada de MM para o se­nhor, tenente?

— Vá em frente, sargento. . .

— Por meio dos relatórios dos agentes sabemos que quase toda a defesa aérea de Moscou e Leningrado foi feita por mulheres. A escola central das artilheiras de Flak fica em Moscou. A mobilização das mulheres para o serviço no Flak se apóia nas ordens do Comitê Estadual Soviético de Defesa, de 23/3/1942 e 13/4/1942. A Moscou chegaram e foram treinados para o Flak, em poucas semanas, 2.670 moças da região de Tscheljabinsk, 4.057 moças de Suerdlovsk, 2.579 moças da região de Perm. Só o 22º Regimento de Flak recebeu 936 moças do Ural. Quando nós nos aproximamos de Moscou, no outono de 1941, Stalin ordenou concentrar todas as forças aéreas soviéticas na região de Volokalamsk, para evitar, por meio de uma mobilização maciça, um cerco alemão. Juntaram-se 762 máquinas, de aviões de caça até pesados bombardeiros, entre eles três regimentos aéreos independentes com 30 aviões cada, especialmente bombardeiros. Chefe da tropa feminina: Coronel M.M. Raskova! — Hesslich respirou fundo, tomou um gole de chá frio com substituto de limão, de uma caneca de esmalte, e fumou as últimas baforadas que o cigano feito de restos ainda permitia. — Continuemos, Sr. Tenente: A Flot lha de Bombardeio Diurno nº 125, que também foi colocada em ação diante de Stalingrado: só mulheres! Nós o sabemos porque uma das capitoas é uma aviadora: Olga Nikolajevna Jamschtschikova! Ela voa desde 1916 e tem o recorde feminino mundial de vôo a longa distância!

— Você está pirando! - repetiu Bauer III, abalado. — Sai mais alguma coisa desta caixa?

— A tabuada do Major Molle é longa! A Flotilha de Vôo Noturno nº 588, só mulheres! No mar do oeste há botes limpa-minas com tripu­lação exclusivamente feminina! Depois havia uma Jekaterina Selenko: No dia 12 de setembro de 1941 ela se jogou, com um avião de caça, sobre uma flotilha de Stukas alemães. Depois de ter esgotado toda a munição, colidiu com um Stuka e caiu com ele! E em outubro de 1941 nós atacamos a cidadezinha de Sutoki-Biakovo. Um batalhão de infantaria soviético, composto na maioria de mulheres, defendeu a cidade, literalmente, até a última mulher; mas não até o último cartucho! Só duas moças, Natascha Kovschova e Mascha Polivanova se salvaram. Elas levaram o resto da munição, granadas de mão, minas, granadas de espingarda, para a prefeitura e a transformaram em uma verdadeira bomba viva. Quando nós assaltamos a prefeitura, elas fizeram voar pelos ares a si mesmas e quase toda uma companhia alemã. E novamente Stalingrado: na marcha pela estepe combatentes isolados femininos, com car­gas de dinamite, atacaram os couraçados Tigre e os fizeram explodir. A fábri­ca de armas Barricada Vermelha, em Stalingrado, foi defendida, também, por pesada artilharia soviética. Conquistaram 37 canhões. . . todos comanda­dos por mulheres! Pergunte aos homens da Divisão Strachwitz, da 16? Divi­são de Couraçados, que foi assaltada pela artilharia feminina! E assim conti­nua, ponto por ponto, nos mapas que MM pregara na parede, para que os vís­semos. Em cada unidade mulheres. Só podemos estimar o seu número. Só na infantaria são mais de 100 mil — e diariamente chegam novas! A unidade mais perigosa é a das fuzileiras, e o grupo, que está diante de nós, é o mais famoso de todos. Pudemos traçar certinho o seu caminho. Surgiu pela primeira vez no inverno de 1942, na região do Oitavo Exército italiano, em Tschjertkovo. Lá tiveram a audácia de seqüestrar as sentinelas avançadas. Já nessa ocasião deveríamos ter cuidado desse assunto, mas veio a retirada. Hoje sabemos que essa divisão fica no Donez, lá do outro lado, Sr. Tenente, e elas não são, Deus é testemunha, mulheres insatisfeitas, que atiram feito feras porque não po­dem foder, e sim soldados maravilhosamente treinados, contra os quais até o seu Ploetzerenke não passa de um mijador nas botas! — Hesslich respirou fundo, mais uma vez, e se encostou na parede do abrigo. — Esta é a situação! Cheia de mijo até a beira, mas não desesperançada. Agora ficou claro por que nós estamos aqui?

O Tenente Bauer III entendera. A partir desse momento Hesslich e Dallmann podiam fazer o que quisessem e achassem certo e ninguém mais abria o bico. De alguma forma as mulheres de lá deveriam ter percebido que “a ma­tança” se tornara perigosa. Durante três semanas não houve mais mortos por tiros de fuzileiras: as “visitas femininas” pararam.

Portanto, Bauer III também não objetou quando Hesslich ocupou 10 homens da companhia, para vigiar dia e noite a margem do rio. Hesslich lhe dissera:

- Sinto que dentro em breve algo vai acontecer. A gente precisa ter tais sentimentos, senão não sobrevive! É preciso sentir a proximidade do perigo como uma coceira na pele! Quando as vemos, já é tarde demais. Especialmen­te com essas moças. E eu sinto algo...

Era horripilante, tal sentimento, mesmo que nada acontecesse. Fora estabelecida uma ponte de pensamentos.

No Grupo Bajda, na realidade, nestes dias se formaram dois subgrupos, com opiniões diferentes.

Stella Antonovna, Marianka, Schanna, Lida e 19 outras moças, inclusive a médica Galina Ruslanovna, queriam atravessar o rio e matar tudo que do la­do alemão lhes passasse pelo visor.

E Soja Valentinovna, Míranski, Ugarov, 36 outras moças, e, há que espantar-se, também Darja Allanovna, que agora morava no abrigo com Miranski, como se fosse sua mulher, achavam que neste momento qualquer ação era insensata.

— A raposa esperta espera na toca, até que o caçador tenha sumido —disse a Bajda no calor da discussão.

Mas Stella respondeu com sua voz clara:

— Mas o lobo corajoso ataca! E nós somos lobos! Por que deveríamos nos esconder?! Talvez por causa de um homem com uma boina cinzenta trico­tada?! Por acaso vocês estão com medo?! Mas antes de mais cada eu pergunto: como é que Schanna jamais poderá voltar ao nosso convívio, se não lhes derem oportunidade de matar 10 alemães?! Isto é ilógico e injusto! Se nós não pudermos ir para o outro lado, então pelo menos Schanna!

— De acordo. . . — disse Bajda hesitantemente. Lógica sempre a convencia. — Schanna pode ir. Mas sozinha. . . isto é besteira!

— Isto é problema da Schanna, não nosso! — Stella fitou Miranski, em busca de ajuda, mas o comissário era suficientemente esperto para não to­mar partido em uma questão tão crucial. — O que posso dizer a Schanna?

— Vamos deixar passar primeiro uma semana. — Bajda suspirou fundo. É paz, pensava muitas vezes, ao estar deitada na cama ao lado de Victor Ivanovitsch e acariciar seu corpo. Realmente paz. Quão divina! Nunca deveria ser diferente. Em tais momentos felizes ela esquecia as paredes do abrigo, apoiadas por vigas e tábuas, os bancos e as mesas toscas de madeira, a cama de campanha e as armas e os uniformes, que pendiam de pregos; esquecia o te­lefone de campanha e as caixas de munições e só via a porta maciça, que carregava para todos os lados, e pensava: estou em um castelo. Sozinha em um castelo com o meu Victor. . . — Vamos fazer com que os alemães pensem es­tar seguros, e com isto afrouxem a vigilância. Depois Schanna poderá voltar mais rápido para o nosso círculo. Vocês estão de acordo?



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