Konsalik b de atalhão Mulheres



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— Ei, segundo-sargento, venha cá! — o major berrara com disposição. — O senhor está pirado, hein? O que é isso que o senhor está usando na cabe­ça?! Uma touca para dormir?! Por acaso vai para a caminha? Homem! Tire essa coisa ridícula! Eu darei parte do senhor; o senhor está zombando do uni­forme! Pensa que é palhaço, né?! Tire essa coisa!

— A boina pertence ao meu equipamento, Sr. Major! — Hesslich tentara explicar polidamente. — Minha tia Erna a tricotou pessoalmente. Em Wuppertal-Elberfeld.

— O senhor está querendo me lamber no cu? — berrara o major, com o rosto afogueado. Fitara, estarrecido, a boina redonda cinzenta de tricô e respirara fundo. — Nome. . .

— Sra. Erna Villrath, Wuppertal-Hberfeld. . .

— O seu nome, palhaço! Mas eu o curarei destas gracinhas. . . Tropa!

— Comando especial E/I. Fuzileiro. . .

— O quê?

— Eu sou fuzileiro, Sr. Major. — Peter Hesslich fizera um enorme esforço para não rir ironicamente. Logo que a palavra fuzileiro era pronunciada, experimentara isso várias vezes, os seus parceiros de diálogo mudavam de ati­tude, tanto fazia se se tratava de simples soldados rasos ou generais. Era como se de repente ele estivesse rodeado do fedor de cadáveres, como se o outro su­bitamente sentisse frio, um frio mortífero. Fuzileiro significava um buraco na cabeça. Diante das pessoas estava uma máquina, com corpo de homem. Uma máquina de matar. — A boina pertence ao meu equipamento.

— Como assim? — isto já soara mais brando. O homem se dignava escutá-lo.

— Esta boina é algo como camuflagem. Ela é leve, não chacoalha como um capacete de aço, não cintila à luz da lua, cobre a testa se eu a puxar até os olhos. Esta boina é uma espécie de seguro de vida, Sr. Major.

— Mas ela não é oficial, é?

— Não compreendo, Sr. Major.

— Homem, esta boina pertence ao uniforme do Exército?

— Não. Ela foi feita pela minha tia Erna. Nas nossas missões podemos usar o que quisermos para nos camuflar. Eu prefiro a boina da tia Erna. . .

— Dispensado! — dissera o major, acidamente. Depois, sacudindo a ca­beça, olhara para o sargento que se retirava, que andava por aí, completamen­te fora das normas militares, com uma boina de tricô na cabeça.

Desde esse encontro Hesslich só colocava sua “boina de camuflagem” imediatamente antes de iniciar uma missão. Mesmo assim havia questionamen­to por parte dos chefes de companhia, empossados naquelas ocasiões, apesar de não no tom de voz do major do Estado-Maior. Só o Tenente Bauer III não se preocupava com isso. Quando Hesslich apareceu pela primeira vez com a boina da sua tia Erna, Bauer III só lhe dispensou um breve olhar.

Mais tarde, quando Hesslich lhe perguntou por que não ficara surpreso, Bauer III retrucou:

— Eu me desacostumei, não faço mais perguntas. Especialmente com tipos como você, Hesslich. Por mim o senhor pode andar por aí com um chapéu tirolês com uma enorme pena. . . isto é problema seu! Na realidade, que merda de diferença faz como nós esticamos as canelas?

Para um homem de 24 anos era uma filosofia espantosamente simples.

Hesslich só prosseguiu depois de se convencer de que ninguém observara seu passeio de canoa pelo Donez. Silenciosamente se esgueirou para junto daquele complexo de casas que tinha sempre observado com o binóculo. Era o povoa­do destruído com os novos jardins. Se as moças também ficavam lá durante a noite, isto ele não sabia. Levou meia hora até o primeiro celeiro incendiado. Engatinhou, para a esquerda e para a direita, para a frente e para trás, rodean­do as tábuas encarvoadas e sentiu-se, então, já que escapara do terreno aberto e plano, um pouco mais protegido.

Toda a margem do rio estava livre de minas. Eles estão se sentindo dema­siado seguros, se não tomam nem esta simples precaução. Nem pensam mais que possamos um dia atravessar de novo o Donez. Só acreditam no êxito do Exército Vermelho. E diante de nossos olhos reconstroem a terra, ao alcance das nossas armas, sob a bola de fogo com que nossa artilharia poderia. . . Poderia. . . se tivéssemos suficiente munição! Se não tivéssemos que contar cada granada!

Eles devem sabê-lo. Senão, como poderiam sentir-se tão seguros?

Hesslich decidiu não retornar naquela noite e sim passar o dia na margem russa do rio. Andou cuidadosamente pelo povoado destruído e viu, com espanto, tudo que os inimigos já tinham conseguido. Os jardins estavam cuidados; em quatro estábulos grunhiam os leitões; em um celeiro grande, razoavel­mente intacto, se apertavam 10 carneiros. De dia pastavam em um declive que não podia ser visto do lado alemão. Cercas de arame impediam que os carnei­ros debandassem.

Se Ploetzerenke soubesse disso, pensou Hesslich e sorriu. Ninguém con­seguiria impedi-lo de “organizar” um carneiro. O perigo de vida não contava. Gente, aqui as provisões passeiam na nossa cara — é caso de honra, não ficar só olhando sem nada fazer.

Descobriu um esconderijo perfeito no grande celeiro, sob o teto ainda metade intacto. As vigas formavam lá, com as tralhas jogadas, enferrujadas, uma confusão indiscernível, que ninguém iria examinar, Ele subiu por um poste, se balançou sobre uma viga livre e alcançou o sótão. Lá, sempre à espreita, arrumou um esconderijo. Empurrou para a frente um telão metade enferrujado, metade apodrecido, fez um local seguro, do qual podia observar o que se passava em volta, com palha, sacos, cestas rasgadas, uma capota abaulada de um motor e um pneu mofado e depois se sentou atrás no recinto apertado entre o chão e o teto.

Embaixo dele os carneiros faziam barulho e pisavam forte. Sentiam a presença de um estranho e só se tranqüilizaram lentamente. Hesslich se esticou. “Burro como um carneiro!”, isto é algo completamente errado. Os animais são mais inteligentes do que pensamos. Se eu agora entrasse no celeiro, teria de me esconder logo. Os carneiros me delatariam: aqui há algo de errado!

As horas da noite são eternas quando é necessário esperar que findem. Hesslich olhava de vez em quando para o seu relógio de pulso. Antes que uma hora tivesse transcorrido, suspeitou que o relógio havia parado de funcionar. Hesslich o levou algumas vezes ao ouvido; ele realmente fazia tique-taque mas os segundos pingavam, os ponteiros andavam lentos feito tartarugas pelo mostrador. He realmente sentia que a noite nunca terminaria.

De madrugada Hesslich esfregou o rosto com as duas mãos e depois se sentiu refrescado. A ativação da circulação sangüínea o despertara completamente. Deitou-se de barriga, empurrou-se para a frente; podia assim observar quase todo o celeiro. Os carneiros estavam muito próximos uns dos outros, como um só colosso peludo, branco-acinzentado.

Cerca de 7:00 chegou Schanna Ivanovna. Usava saia e blusa e escondera o cabelo preto sob um lenço, como uma camponesa. Só duas coisas faziam lembrar que era um soldado: as botas militares e o fuzil com o telescópio de mira, que segurava na mão esquerda. Naquele dia Schanna tinha como missão cuidar dos animais. Os outros membros do Grupo Bajda se tinham reunido — com exceção de três sentinelas — na terceira trincheira lá atrás e estavam sen­tados em bancos toscos de madeira na antiga stolovaja, a sala comunitária do povoado Burjenkova.

Escolarização política. Um camarada de Moscou chegara para explicar, com o auxílio de grandes mapas, como iriam se desenrolar os anos de 1943 e 1944. Foma Igorevitsch Miranski, que entrementes recebera a notícia de que realmente seria admitido como oficial com todos os direitos, tinha saudado o caro amigo da Central com emoção, lhe dera dois beijos estalados e depois fizera um discurso inflamado. Agora estava ofegante. Sentou-se, sentindo falta de ar, no seu banco, e gratificou-se com os aplausos.

Um tal dia escolar tem seu lado bom, meus queridos. Não, que depois a gente saiba mais sobre o que irá ocorrer ou se torne mais inteligente — não, a gente recebe também provisões da cozinha do batalhão! No Grupo Bajda, não obstante, isto se assemelhava mais a uma punição, já que ele vivia melhor lá na frente do que aqui atrás no batalhão. Mas isto não era comentado. Afi­nal de contas quem é que tinha alguma coisa a ver com o fato de que Miranski e Ugarov, auxiliados pela imponente Soja Valentinovna, tinham, no prazo de dois meses, juntado todo um rebanho de carneiros e criado, no Donez, uma minúscula kolchose? Os inspetores, que apareciam de vez em quando, para vi­sitar a unidade feminina, nunca eram levados para as ruínas do povoado e sim apenas até a margem das trincheiras.

— Lá os alemães nos espionam! — diziam sempre. — Camaradas, não de­safiem o destino, fiquem protegidos!

Os inspetores se apressavam em seguir tal conselho, muito satisfeitos.

Schanna empurrou o trinco do celeiro para trás e entrou. Lá em cima, junto ao teto, Peter Hesslich colocou, lenta e silenciosamente, o polegar no dispo­sitivo de segurança de seu fuzil, destravando-o. Pela primeira vez via de perto uma das moças lendárias. . . Estava tão perto que quase podia tocá-la. . . ele podia contar as flores no lenço de cabeça, flores de verão e panículas. . . As cores estavam muito desbotadas. O lenço tinha manchas.

Aí está ela, pensou Hesslich. Uma moça educada para matar. Realmente uma moça bonita, que esquece as batidas do seu coração, ao ver o adversário no reticulado. Ele respirou fracamente e viu quando Schanna Ivanovna se acercou dos carneiros e revolveu a lã.

— Já vamos para o pasto. Um pouco de paciência, queridinhos! — disse, ela. Sua voz era clara e infantil. Movia-se graciosamente, quase dançando. Agora retirava de um canto dois baldes e um tronco de madeira, no qual iria pendurar os baldes.

Ah, pensou Hesslich, primeiro ela busca água e dá de beber aos carneiros. Onde eles pastam, não há água. Ele esperou até que Schanna se afastou novamente do celeiro, aparentemente para tirar água de um poço próximo. Uma idéia louca germinara em sua cabeça: eu a levarei comigo. Eu a dominarei e a levarei para lá como prisioneira.

A primeira prisioneira do misterioso batalhão de mulheres!

Um segundo de surpresa deveria ser suficiente. Um choque, como um raio, quando ele a chamasse. Só não sabia ainda como iria levá-la até a canoa no Donez. E antes de mais nada: ela estava sozinha? Ou no jardim lá fora trabalhavam outras moças?

Hesslich saiu de seu esconderijo, foi até a porta e espreitou. O sol matutino, ainda fraco, brilhava sobre tranqüilidade e solidão. Ele viu a moça voltar com os baldes de água cheios. Estava sozinha. Nada se movia no povoado semidestruído.

Ele pulou silenciosamente de volta, escondeu-se atrás de uma viga quebrada e esperou até que Schanna entrasse de novo no celeiro. Admirou o seu andar gracioso, apesar das pesadas botas militares, e pela primeira vez viu o seu rosto por completo. Olhos pretos, grandes, maravilhosos; uma boca estrei­ta, maxilares salientes. Sob o lenço de cabeça apareciam alguns fios de cabelos pretos, caindo-lhe na testa. A pastora Schanna Ivanovna do Lago Baikal, a moça com o segundo melhor livro de tiros do Grupo Bajda. Ela havia sido re­comendada para receber a Medalha Sudorov em bronze, uma das mais impor­tantes condecorações soviéticas para recompensar a bravura.

Hesslich respirou profundamente. Schanna tinha pousado os baldes no chão, jogado o tronco de madeira no feno e agora retirava o lenço dos cabelos.

Agora, pensou Hesslich. Tem de ser agora. . . neste segundo ela pensa em qualquer coisa, menos na possibilidade de que um alemão possa estar atrás dela. Ela está sentindo calor. Irá sacudir os cabelos, talvez até desabotoar a blusa. . . Minha menina, em um segundo a sua vida se terá transformado!

Ele levantou o fuzil até a altura do peito, respirou fundo e gritou alto, rompendo o silêncio:

Stoj!

O raio que deveria atingir Schanna a paralisá-la não ocorreu. Ela não estava nem paralisada nem incapaz de usar sua vontade. Reagiu à exclamação sem pensar, de forma reflexa, e isto com a agilidade de um animal selvagem. Seu corpo esguio estirou-se, virou-se, caiu ao lado dos carneiros, sobre um monte de entulho. Foi Hesslich que ficou paralisado por um instante por essa reação. Não podia compreender, simplesmente, como uma pessoa podia fazer, com tal rapidez, o contrário daquilo que realmente dela se esperava. Mal se recuperara do choque, já ouviu o primeiro tiro, e agora era ele que se jogava para o lado, escorregando para um canto, e esperou.

Schanna Ivanovna mordeu o lábio inferior. Só ao sentir o sangue quente, que escorria pelo seu queixo, abriu os dentes. Errara! Pela primeira vez na vida errada um tiro! Dos seus olhos escorreram lágrimas de raiva, os lábios tremiam e as mãos se fecharam convulsivamente em volta do fuzil. Tudo funcio­nara — nenhum segundo de susto, ainda no pulo puxar o fuzil, virar-se ao cair e visar e atirar logo que seu corpo tocasse o chão. Mas ela não acertara. Isto para ela era incrível, seu desapontamento era infinito. Engoliu em seco, bai­xinho, e de repente não era mais do que uma moça jovem, de 18 anos, que não quer fazer outra coisa a não ser chorar alto.

Este instante de tempo, infinitesimal, representava a oportunidade para Hesslich. Ele não sabia exatamente onde a moça estava deitada; só via o mon­te de escombros ao lado dos carneiros, que agora baliam alto e se empurra­vam. E neste monte ele atirou, sem escolha, danado, porque o tinham blo­queado.

Sua suja, seu urubu, pensou. Você é uma profissional, isto você acabou de demonstrar. Você é uma das que mataram meus camaradas com precisão e sangue-frio. Quantos você tem no seu livro de tiros, hein? 10 ou 20 ou até mais? Mas agora eu estou aqui, e você pode jogar fora seu livro de tiros, pois não precisa mais dele! Você não escapa de um Peter Hesslich.

Ele esperou. Lá de fora não vinha reação alguma. As paredes do celeiro e os carneiros barulhentos abafavam tanto os tiros, que já nos jardins quase não se podia ouvir nada. Será que ele realmente estava a sós com esta moça? Será que hoje ninguém mais trabalhava no povoado?

Ele atirou mais uma vez no monte de entulho.

Atrás de uma caixa Schanna Ivanovna estremeceu e caiu para trás. Um balde virou e revelou seu esconderijo. Seu ombro esquerdo ardia e pulsava co­mo se estivesse recebendo choques elétricos. Ela sentiu o calor do sangue a jorrar e sabia que fora atingida. Desesperada procurava se levantar, pegar de novo o fuzil que escapara de suas mãos, para se matar a tiros. Mas repentinamente não tinha mais forças para se mexer.

Ser prisioneira, não!, pensava Schanna. Nunca! Isto aprendemos com a Coronel Olga Petrovna Rabutina: É sempre possível evitar cair nas mãos dos alemães. A última possibilidade é dar um violento pontapé nos culhões do ini­migo. Aí ele irá abatê-la. Mas melhor ainda é nem vê-lo mais. Vocês precisam morrer, antes de fraquejar durante o interrogatório! Vocês nunca podem ser prisioneiras! Vocês, não!

Ela não conseguiu mais alcançar o fuzil. O alemão já estava diante dela e se curvou para vê-la.

Schanna Ivanovna queria dar um chute nos culhões de Hesslich mas suas pernas fracassaram. Ela tremia. O tiro devia ter acertado em um nervo que excitava o corpo todo. Ela fechou os olhos, para não ver o rosto odiado do alemão.

— Atire! — disse ela. — Atire finalmente, seu cachorro!



Hesslich não a compreendeu. Viu o sangue, que saía do ombro esquerdo e empapava a blusa, que ele arrancou-lhe do corpo. Ela não estava usando na­da por baixo. Seus seios pequenos, firmes, achegaram-se às suas mãos, quando ele apertou-lhe o peito. Ela se defendeu contra o toque e o seu corpo se em­pertigou. Quando a empurrou contra o chão, ela chegou a cuspir-lhe no rosto.

— Agora preste atenção, sua gata! — disse Hesslich ofegante. De repente a pessoa embaixo dele não era mais um inimigo, um assassino de camaradas, um ser que era necessário matar para salvar a vida dos outros, mas uma moça jovem, sangrando, que procurava bater nele mas que precisava ser ajudada apesar de tudo. — Você não entende o que eu falo e eu não entendo o que você fala. Ferida assim como você está, não posso levá-la comigo. Mas eu também não posso simplesmente deixá-la aí para morrer miseravelmente. Você é demasiado jovem e bonita; aliás, eu não consigo fazer isto. Como guarda-florestal aprendi o que é um tiro de misericórdia. Se você fosse um animal, eu lho daria. Mas você é um ser humano. Eu poderia matá-la porque vocês fazem a mesma coisa. Nada de prisioneiros! Mas nem isto é possível, minha filha! Eu não posso abater uma moça indefesa! Que situação idiota! Pena que você não me entenda. Se eu pelo menos soubesse o que está acontecendo lá fora. . .

— Cachorro! — gritou Schanna Ivanovna e rangeu violentamente os dentes. — Seu filho da puta, seu merda de alemão! Me mate!

Hesslich levantou os ombros.



— Se eu pudesse entender isso. Não soa como uma declaração de amor. O que faremos agora? Primeiro pensar a ferida? Não, primeiro segurança!

Ele largou Schanna, pegou o fuzil dela e bateu com ele com toda a força possível contra uma viga velha. Na terceira batida a coronha se partiu, na quinta o fecho estalou e o cano se partiu. Schanna o mirava com os olhos arregalados de horror.

Meu fuzil, pensava ela, meu querido fuzil! Oh, este porco. Se ele me tivesse matado, seria uma liberação. Mas ele mata meu fuzil. . . ele rebenta. . . eu o escuto gritar. . . meu fuzil grita. . . como grita feio o meu fuzil. . .

Novamente ela tentou se erguer mas quase não se levantou do chão. Ao cair de volta, o sangue jorrou de novo da ferida do ombro, e ela recomeçou a tremer. Viu o alemão voltar: suas mãos estavam sujas de sangue. Mas ela não pensou: é meu sangue; um só pensamento a dominava: meu fuzil san­grou. . . sangrou e gritou. . .

— Agora faremos um curativo — disse Hesslich e ajoelhou-se ao lado de Schanna, no entulho, — E se cuspir mais uma vez em mim, menina, você rece­be uma bofetada! Isto você ainda agüenta, apesar do seu ombro estraçalhado. Seja razoável, pequena. . .

Tirou as faixas de gaze do bolso, desenrolou-as e mostrou-as a Schanna Ivanovna.

Ela o fitou atônita, como se não pudesse compreender que ele não ia matá-la e sim, ao contrário, até ia salvá-la.

E realmente não o compreendeu. “É preciso matar um inimigo”, esta frase ela compreendera. A frase “Também se pode salvar a vida de um inimigo” estava além da sua capacidade de compreensão.

Ela enrijeceu o corpo quando Hesslich a levantou e começou a enfaixá-la. A cabeça dele agora estava bem perto da dela. Eu poderia arrancar-lhe a orelha a dentadas, pensou ela e gemeu, quando ele encostou a gaze na feri­da. Eu podia arrancar com os dentes um pedaço de sua bochecha. Se eu fizer isso, será que ele me mata?! Se eu morder o pescoço dele, posso até estraçalhar sua carótida.

Mas ela não fez nada disso, não se lançou para a frente, em um ímpeto, só para morder, mas ficou deitada no seu braço protetor, deixou-se enfaixar e depois que ele terminou, disse com voz frágil e lamurienta:

— Obrigada. . . Seu cachorro imundo!

Alguns minutos após desmaiou. A perda de sangue a enfraquecera demasiado.

Hesslich acomodou Schanna na palha, sentou-se ao lado dela e colocou o fuzil sobre os joelhos. Ele sabia que só poderia voltar quando escurecesse. Tinha todo um dia pela frente.

Ninguém sentiu falta de Schanna — afinal de contas, ela estava cuidando dos carneiros.

A escolarização política do Grupo Bajda terminou com canções alegres. Enquanto as moças faziam música na stolovaja, Miranski fez uma ronda de inspeção com Gulnara Petrovna, terminando no depósito do batalhão. Miranski levara Gulnara consigo por motivos bem razoáveis. Ela nascera na Geórgia, tinha olhos de fogo, e quando respirava fundo, as pessoas presentes a observavam, em grande expectativa, para ver se seus seios fariam voar os botões da blusa. A maneira pela qual fitava os homens era realmente diabólica. Seus cílios caíam parcialmente sobre os olhos e, por detrás desta cortina, raios atingiam os homens indefesos. Mesmo oficiais superiores, a quem se cre­ditariam um autocontrole absoluto, utilizavam todos seus truques, depois de um tal olhar de Gulnara Petrovna, para convencer esse cavalinho fogoso a sair da cocheira. Um rapaz especialmente esperto, o Major Schelsky, do Estado-Maior de Moscou, chegou a comandar um exercício noturno extraordinário, cujo único objetivo era declarar Gulnara ferida na batalha simulada e ele pró­prio enfaixar-lhe o peito atingido por uma bala.

Miranski logo percebera as possibilidades oferecidas pela irradiação sexual e pela permissibilidade de Gulnara. Quando havia algum problema com camaradas especialmente obtusos, que se escondiam atrás de seus regulamentos, Miranski aparecia em companhia de Gulnara, deixava que ela atirasse um de seus olhares cobertos por um véu e depois apresentava suas solicitações. Mesmo os camaradas mais fechados em pouco tempo estavam tão abertos a seus pedidos como portas de celeiros.

Portanto, Miranski apareceu no depósito do batalhão e apresentou ao administrador, um homem casmurro, ossudo, com um bigode caído e olhos tristes de bassê, uma lista de seus desejos. Em primeiro lugar estava uma garrafa de vodca.

— Esta é Gulnara Petrovna — falou Miranski com ingenuidade fingida, dando uma palmadinha na bunda firme de sua companheira. Gulnara riu, um riso abafado, disparou o seu primeiro olhar destrutivo e distendeu a blusa, ao respirar profundamente. As pontas do bigode do administrador começaram a tremer. — Ela lhe irá explicar, caro camarada e irmão, tudo que nós precisa­mos lá fora, nas trincheiras. Não é, Gulinka, minha pombinha. . . você lho ex­plicará? Bem, eu agora deixarei vocês a sós e cuidarei de que ninguém os per­turbe.

Uma hora depois Miranski carregava um carrinho de mão cheio até a borda de guloseimas. O administrador do depósito e Gulnara beijaram-se afetuosamente, abraçaram-se uma vez mais e acenaram um para o outro, até que Miranski estivesse a salvo com seu saque, tendo já virado a esquina.

Todos esses acontecimentos contribuíram para que o Grupo Bajda só retornasse de noite para suas posições — cacarejando alegremente como um bando de galinhas e carregadas com as guloseimas que Miranski “organizara” e Gulnara pagara, em uma espécie de troca de mercadorias.

— Este foi um dia lindo! — exclamou o Tenente Ugarov, cumprimentando Galina Ruslanovna. A médica ficara nas trincheiras, a pintar. Era seu passatempo favorito, sentar-se diante de uma tela e pintá-la, com flores ou paisagens de sonho ou simplesmente com uma orgia de cores, em que todas as formas eram separadas umas das outras por um ritmo interno.

O amor que nascera entre ela e Ugarov esfriara. Soja Valentinovna ven­cera.

— Você tem a opção — dissera ela a Opalinskaja, quando Ugarov, o que não era segredo para ninguém, começara a correr atrás da médica como um cachorrinho. — Ou você se deixa transferir para outra unidade ou alguém irá despedaçar o crânio de Victor Ivanovitsch e o seu também! Ele me pertence, eu não o dou a mais ninguém, e quem quiser tirá-lo de mim, pode ir tratan­do de escolher seu túmulo. E também não quero compartilhá-lo com nin­guém, mesmo sem considerar o fato de que ele nem agüentaria isso! O que ele tem só é suficiente para mim mesma. Ou preciso me expressar com maior cla­reza ainda?

A Opalinskaja, durante duas semanas, andou furtivamente por aí, como um assassino que não consegue chegar perto de sua vítima. Mas depois a razão sobrepujou a saudade. Ela saiu de férias durante uma semana e, ao voltar, trouxera um cavalete de viagem, lápis de cera, aquarelas e tubos de tinta a óleo, pincéis de todas as larguras e tamanhos e uma grande palheta de mão, assim como giz e guache; em suma: o seu abrigo se transformou em um atelier de pintura. E a primeira que serviu de modelo para um lindo retrato feito por Galina Ruslanovna foi exatamente Soja Valentinovna.

Com isto o caso Ugarov terminara para a Opalinskaja. Victor Ivanovitsch permaneceu seu bom amigo, que até ia buscar com ela creme para abrandar suas feridas, quando Bajda, uma vez mais, em seu amor e êxtase lhe mordia todo o corpo. Então a Opalinskaja refrescava as inúmeras peque­nas hemorragias subcutâneas e depois se apresentava a Bajda no abrigo de comando e dizia:



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