Konsalik b de atalhão Mulheres



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Hesslich olhou para o outro lado, para a “máquina de fazer café” isolada, que fazia suas curvas apesar do fogo crepitante, calma como se nada estivesse acontecendo, e fechou novamente os olhos. O sol ofuscava, a água do Donez brilhava azul.

— Imaginemos que uma moça venha para cá. E então?

— O que quer dizer: e então? — retrucou Dallmann.

— Você atiraria?

— Depende.

— Depende de quê?

— Depende da aparência da moça! Se ela for bonita, com pernas compridas e seios firmes, eu esperarei até ela chegar em terra. Depois a moça se aproxima. . . eu ainda espero. . . ela se aproxima bastante, e eu digo, suavemen­te, mas com firmeza também: “Então tire toda a roupa, Marusja, deite-se boazinha. . . eu já estou sem calças!” — Dallmann exalou um suspiro profundo. — Merda! Você é um sádico! Um tema desses, quando o sol já o está cozinhan­do. . .

— Em outra coisa você não pensa, né?

— Neste momento. . . não!

— A moça possui um livro de tiros. E cada acerto é um camarada alemão!

— E para cada acerto ela terá de trepar 10 vezes! — respondeu Dallmann, à vontade. — Isto vai se transformar numa luta corpo a corpo. . .

— Então você não atiraria logo?

— Não com uma carabina! — Dallmann deu um largo sorriso irônico. Depois ficou sério, virou-se de barriga e olhou inquisitivamente para Hesslich. — Você dispara logo, não? Tem a belezoca no reticulado. . . e dedo no gatilho! Peter, você é um cachorro frio feito gelo, hem?

— Quando eu matei a tiros o meu primeiro homem, eu chorei.

— Eu vomitei, até que o estômago me veio à boca. . . — Dallmann aper­tou o rosto contra a grama alta e quente. — Foi um tiro de merda. Arrancou o queixo dele.

— Mas você já era fuzileiro. . .

— É isso aí. — Dallmann se deitou de novo de costas. — Quando todos atiram, é diferente. Durante um ataque, ao defender-se de uma ofensiva, na tropa de choque, aí é necessário atirar para sobreviver. E foi assim que eu des­pertei a atenção. Aí veio o primeiro treinamento. Mas um alvo não é um ho­mem vivo. E depois a gente fica deitado aqui, espera e sabe, indubitavelmente: se agora vier um Ivan, você se faz ainda menor, mais pregado ao chão, mais in­visível, e a partir da invisibilidade você o mata! Na realidade, isto é um assas­sinato!

— A guerra não é nada mais do que um só assassinato. . .

— É, e se você disser isso em voz alta, enforcam-no! Então o que é que a gente faz? Assassinar também ou se deixar enforcar? Sobreviver ou ficar dependurado de uma árvore? Peter — Dallmann levantou um pouco, a cabeça e fitou Hesslich — você quer viver, não? Você quer estar de novo em casa, ter uma profissão, ganhar dinheiro, construir uma casa com um jardim em volta, ter mulher e filhos, nas férias viajar para o mar e uma vez ficar deitado, pre­guiçoso, na areia, ou então ir para as montanhas. . . Gente, a vida tem tanta coisa bonita! É nisto que penso, sabe, quando eu agora tenho uma cabeça no reticulado e imediatamente curvo o dedo no gatilho. Penso na vida, quando mato. Pirado, não? Eu penso: Uwe, você tem de dar o fora daqui. Você tem de sobreviver à Rússia! E você só irá sobreviver se curvar o dedo... assim como os de lá só sobrevivem se curvarem o dedo. A única coisa que conta nesta história toda é quem primeiro. . . é este jogo bélico de merda! Mas você é di­ferente, não? Você poderia agora, se uma moça dessas viesse da outra mar­gem, calmamente pegar a carabina, mirar e atirar. Você poderia fazê-lo, ou. . .

Peter Hesslich dobrou o joelho esquerdo e manteve os olhos fechados.

— Não sei. — respondeu lentamente. — Talvez eu esperasse até ela levan­tar a carabina. Aí vira legítima defesa. Mas poderá ser tarde demais. No caso de um fuzileiro da Sibéria eu não esperaria. Mas é esta a maldade deste mundo cão. Eles colocam moças, porque sabem que hesitar um segundo significa a morte, sabem-no muito bem. . .

Na outra margem, atrás de uma duna de areia e um arbusto, estavam deitadas Stella Antonovna, Marianka Stepanovna e Lida fljanovna. Enquanto três grupos da companhia trabalhavam nos jardins, elas mantinham seguro o rio.

Também Miranski arranjara um jardim e cuidava dele junto com sua amante Darja Allanovna. A antiga cocheira ainda era razoavelmente habitável e só tinha um estrago no teto. Em um canto, diante dos boxes vazios, onde antes grunhiam os porcos, havia um grande monte de palha. Quando Darja Allanovna se esquentava demais no trabalho braçal do jardim, às vezes tirava toda a roupa, corria nua pela cocheira e se comportava como um duende vermelho que ainda quer ajudar o velho espírito terreno a dar pulos.

Foma Igorevitsch, nesses momentos, também não hesitava muito e empurrava a puta de pele lisa na palha. Ainda dá, pensava ele, cada vez, satisfeito consigo mesmo. Quem sabe, durante quanto tempo? Quem pode adivinhar quando a febre de Darja irá se extinguir? Na realidade, para mim é um enigma, que ela transe comigo. Eu não sou tão grande e forte, com os meus 43 anos podia ser o seu papaizinho; na cama conjugal nunca fui levado a desempenhos de mestre e agora me esfalfo como um corredor de maratona. Então, o que é que ela vê em mim? Deixe a gente aproveitar a hora.

Não pensar, Foma Igorevitsch!

Um dia, repentinamente, a guerra irá despertar novamente. Então lamentaremos todas as oportunidades perdidas.

— São dois — disse Stella, enquanto mordia um ramo verde de bambu, deitada na margem do Donez.

— A posição não é favorável. . .

— Um tem ombros largos e bonitos e cabelos escuros no tronco! — Marianka riu baixinho e acariciou sua carabina. — Um sujeito como esse a gente devia aprisionar e esconder entre nós! Deveríamos alimentá-lo bem, como um javali. . . cevá-lo, até que os músculos rompessem a pele! Com ovos, carne, creme. . . — Deu um estalido com a língua e fitou, curiosa, a outra margem, com o telescópio de mira. — Cada uma de nós estaria pronta para abrir mão de uma parte de suas provisões. Que vida boa seria!

— Agora ele está puxando as pernas para perto do corpo! — disse Lida.

— Por acaso você quer rasgar-lhe a rótula com um tiro? — Stella Antonovna visou as pernas de Hesslich. Estas só ficaram um instante no reticulado, depois caíram de novo na grama. Mas uma cabeça se levantou, uma cabeça com cabelos castanhos, que o vento desarrumava. Stella mordeu o lábio infe­rior.

— Não atire! — murmurou Marianka, como se eles a pudessem escutar, lá do outro lado. — Ainda não. Ele não é um rapagão?

— Um alemão! — A voz de Stella era dura. — Existe um alemão bonito para nós?!



— Ele não nos escapa. Estará aí de novo amanhã, tenho certeza. Olhe, aí vem o outro, ele se levanta. Oh, como são louros seus cabelos! Louros como palha desbotada! Vocês já viram cabelos louros como esses? Eu não! Como é jovem! Um camaradinha para afagar e apertar! Epa, o que vejo?! Stellinka, tenho razão? Tem a calça desabotoada. . . meu Deus do céu, está à vista, exposto. . . eu o vejo nitidamente!

— Decepe-o com um tiro! — falou Stella Antonovna com raiva. — Com aquilo ele gera novos alemães, que um dia nos atacarão novamente. Eles nun­ca param. Sempre irão marchar de novo para o oeste. São como formigas: po­demos envenenar seus caminhos, e elas se arrastam sobre os cadáveres dos mortos, pelos mesmos atalhos.

Mas elas não atiraram, contentando-se em observar os dois alemães pelos telescópios. Só quando outros soldados alemães se acercaram, esgueirando-se pelas margens, a partir dos escombros dos últimos casebres dos campone­ses, as moças pegaram seus binóculos normais. Reconheceram Fritz Ploetzerenke, que tinha nadado nu no Donez sob seus olhares e que só não tinha sido morto porque Schanna gritara entusiasticamente:

— Este eu quero ter! Por favor, mo deixem! Ele não é um verdadeiro touro?! Deixem-no de presente para mim.

Elas satisfizeram, rindo, o pedido, e Ploetzerenke não morreu nesse dia porque Schanna não levara consigo sua carabina; apenas uma pá para o jardim.

— Que visão, hem? — disse Ploetzerenke. Jogou-se na grama ao lado de Hesslich e pôs as mãos na nuca. — Que bonecas entre elas! Homem, a calça lhe rebenta!

— Ou o cérebro, quando a bala bater exatamente na raiz do nariz sob a sua cabeça idiota. . .

— Eu gostaria de pegar uma assim como prisioneira! — Ploetzerenke le­vantou a cabeça, sem adivinhar que Stella Antonovna agora o tinha direto no reticulado. — Rapazes, isto daria um interrogatório! Os abrigos tremeriam. . .

— Dessas moças do lado de lá nós nunca pegaremos nenhuma — disse Hesslich, sério. — Elas sabem muito bem. Se nós virmos os seus livros de tiros, elas serão imediatamente encostadas na parede mais próxima.

— Exatamente como vocês dois, hem? — Ploetzerenke fitou Hesslich e Dallmann pensativamente. — Se elas os pegarem. . . vocês são dois tipos espe­ciais. Digam-me, vocês se sentem bem em sua pele?

— Naão. . . — Dallmann levantou a calça e abotoou-a novamente. — Mas alguém tem de fazer essa sujeira de trabalho. E se moças o conseguem. . .

Calou-se abruptamente e pestanejou ao sol. Bem de longe o vento trazia, para seus ouvidos, um trovejar rancoroso de canhões. Mais para o sul uma parte da frente se intranqüilizara. Talvez se trate novamente das tropas de propaganda, pensou Dallmann, essas investidas malucas, com as quais cada soldado raso sorri e faz um sinal na testa: “pirado”! Aí vêm alguns camaradas da propaganda, instalam, nas trincheiras dianteiras, imensos alto-falantes com amplificadores e berram, em um russo perfeito, slogans e notícias para as li­nhas soviéticas. Chamam Stalin de criminoso e assassino de massas, lembram os bons tempos da Rússia antes do bolchevismo — como se a Rússia alguma vez tivesse tido bons tempos, sob os czares ou sob Lenin, sempre era o povo que as classes dominantes subjugavam — incitam à deserção e até afirmam que a Alemanha tem pão e trabalho suficientes para todos os soldados vermelhos que largarem suas armas. Até moças russas, especialmente da Ucrânia, vêm pa­ra a frente com a tropa dos alto-falantes e contam algo a respeito dos sonhos de paz de milhares de mulheres, que só se poderão realizar se aqui e agora o soldado soviético for para as linhas alemãs, com os braços levantados, carre­gando bandeiras brancas.

A resposta era sempre a mesma: fogo de artilharia, lançadores de minas, ataques dos Flaks, granadas; o lindo silêncio do início do verão era dilacerado, havia novamente feridos e até alguns mortos, e os médicos xingavam os idio­tas nos sacos de campanha.

Também na região da Quarta Companhia aparecera uma tropa de propaganda. Transmitia, por meio de grandes alto-falantes, música popular russa ligeira, da Calinca até a patrulha dos cossacos; depois falava uma mulher e contava tudo que era possível comprar livremente nas lojas de Berlim. Deveria ser um ver­dadeiro paraíso.

Ploetzerenke, que estava deitado ao lado do chefe especial da tropa de propaganda, cutucou-o.

— E eles devem acreditar nisto tudo?

— Por que não?

— Toda a região fede com estas mentiras!

— Por acaso você sabe mais, seu fazedor de merda?

— Eu sou berlinense. Estive de férias. . .

— Mas eles não. . .

— Vocês pensam que o Ivan é tão besta?

— Sim. — A mulher terminara sua peroração e o homem da propaganda ligou novamente discos com canções melancólicas da estepe. — A pesquisa ra­cial demonstrou que um cérebro eslavo normal só possui a metade da capaci­dade de pensamento de um cérebro germânico.

— Seu buraco de cu!

— Cale a boca.

Os alto-falantes faziam rolar a música sobre o Donez. Depois novamente palavras bonitas, a citação das baixas soviéticas, a enumeração dos êxitos ale­mães. O Tenente Bauer III, prevenido, tinha dado ordens de prontidão. Não poderia demorar muito mais e a artilharia soviética começaria a atirar a qual­quer momento. Todos se esconderam nos abrigos com os grossos pisos de tábuas e terra.

— Não se pode desligar isso? — Bauer III perguntou ao batalhão pelo te­lefone.

— Não. — O comandante do batalhão, Major Schelling, estava no apare­lho, ele próprio. — Infelizmente não. Isto pertence à guerra psicológica.

— Besteira!

— Bauer, não critique uma ordem do OKH!

— Mas não adianta nada!

— A quem o senhor está dizendo isto? Mas o que podemos fazer contra essa atitude? Nada! Conheço a resposta da repartição responsável pela propaganda: os soviéticos fazem o mesmo! Um argumento irrespondível, não é? Bauer, não explique a mim que os Ivans respondem logo com granadas e que pode haver perdas! Faz parte da guerra que haja barulho e que os homens sejam estraçalhados!

— Mas aqui não é necessário, Sr. Major!

— Oh céus, Bauer! Não fale de necessidade! Afinal de contas não iremos filosofar de abrigo para abrigo por telefone! Proteja-se, se os tiros ecoarem. . . e boa sorte!

Mas não houve resposta da artilharia. Tudo permaneceu calmo do lado soviético. As moças do Grupo Bajda estavam todas nas trincheiras, ouviam a música e riam, quando a ucraniana falava a respeito de Berlim ou quando o Camarada Stalin era xingado de assassino de milhares. Só Miranski se exaltava, ficava possesso, arrancava os cabelos e corria nas trincheiras como um lobo aprisionado.

— Isto é uma infâmia! — berrou ele, bem no meio da linda música e ficou olhando a margem alemã. Ao lado dele estavam o Tenente Ugarov e Soja Valentinovna Bajda. — Uma audácia sem limites! Que piada! Correm de nós como coelhos, perdem a guerra e cospem nos olhos do Camarada Stalin! Ha, a minha raiva ainda vai me arrebentar! Escutem isso! Nós estaremos liquida­dos no fim do ano? Faz parar minha respiração, meus amigos! Por favor, me batam nas costas, para que eu não sufoque!

Depois de uma hora a ofensiva verbal terminou. O grupo de alto-falantes alemão desmontou seus aparelhos e abandonou as posições avançadas de observação. O chefe especial da unidade parou várias vezes e olhava para trás. A tranqüilidade insólita o incomodava.

— Vocês têm certeza de que do lado de lá existem russos? — perguntou a Ploetzerenke.

— Epa, se você quiser morrer a morte de um herói, venha comigo. Eu a arranjarei para você. . .

— Mas eles não reagem. . .

— Talvez tenha algo a ver com a meia capacidade de assimilação do cére­bro eslavo, hem? — Ploetzerenke riu irônico e dando a entender que o outro era um idiota. — Além disso, lá há mulheres. . .

— O quê? — O chefe especial parou, subitamente, e encolheu a cabeça.

— Alguma coisa parecida com um batalhão de mulheres.

— Fuzileiras?

— E como! Elas são capazes de lhe arrancar o bico do seio. . .

— Maldição! E só agora vocês mo dizem?! — O chefe especial correu pa­ra trás, agachado. — Eu conheço essas mulheres! Diante de Charkov tivemos quatro baixas. . . Tiros na cabeça.

— São as nossas gatinhas! — Ploetzerenke riu gostosamente. Bateu nas costas do chefe especial e depois piscou para a margem do rio. — Não fique em pânico! Até aqui elas não alcançam. É preciso que a gente esteja na margem do rio. . . ou correr para o visor delas, quando estão, de noite, à espreita, entre as ruínas do povoado. Oh, bichão, você pode levantar a cabeça sem susto!

O chefe especial desistiu de responder e só respirou aliviado quando se viu sentado no abrigo de terra do Tenente Bauer III e bebeu um conhaque que lhe incendiou as entranhas. O lado soviético continuava em silêncio. Nenhum fogo de artilharia. Calma de verão.

— Deve ser um sentimento danado de engraçado, estar diante de mulhe­res — comentou o homem da propaganda, enquanto um jovem soldado que em tempos calmos funcionava como ordenança do chefe, servia o jantar, um gostoso franguinho grelhado.

— A gente se acostuma. — Bauer III deu de ombros.

— Mas vocês devem ter vontade de vomitar de tanto ódio dessas mulhe­res de carabinas!

— Por quê? São soldados como nós. Elas usam uniforme.

— Elas os matam de emboscada!

— O que significa emboscada? — Bauer III fez um gesto largo com os braços. — A guerra está em toda parte. Não existe frente ou atrás, em cima ou embaixo. Onde e como nos encontramos. . . faz diferença? É preciso ser mais rápido, ver o outro em primeiro lugar, atirar melhor. . . ou só ter um bocadinho de sorte! Nós também temos aqui dois “especialistas” desse tipo. Vamos ver o que eles conseguem. São combatentes isolados, duros feito granito, que sabem perfeitamente, os dois, têm certeza, de que em cada instante já estão na escada que leva ao céu.

— Interessante. — O homem da propaganda mastigava, com prazer, seu franguinho. — Esses eu quero ver. Dá um lindo relatório. Onde posso falar com eles?

— Em qualquer lugar por aí. — Bauer III fez sinal para a região do Do-nez, que brilhava, vermelho-alaranjado, ao sol do crepúsculo. — Talvez no rio? Não sei. Às vezes eles ficam lá fora dias a fio. O senhor se quiser pode procu­rá-los. Não posso impedir o senhor. . . só adverti-lo. No rio o senhor está ao al­cance das moças.

De noite a coluna de propaganda despediu-se e retirou-se para o regimento, levando seus alto-falantes e toca-discos. A ucraniana, uma moça esbelta, de cabelos cor de mel e olhos azuis protuberantes, só se separou com difi­culdade da Quarta Companhia, pois entrementes conhecera o recém-chegado Oficial Lorenz von Stattstetten. Ele também era esbelto, louro, de olhos azuis, tinha um sorriso alegre e usava, colocado de lado na cabeça, audacio­samente, um boné de campo amassado. Ao receber o boné, imediatamente ti­rou o arame que lhe dava forma e amassara-o.

— Este o pessoal devia colocar como especialista junto às mulheres de lá — dissera Ploetzerenke, quando von Stattstetten se apresentara à Quarta Companhia. — Ele se posta na margem do rio e. . . bum, bum, as moçoilas jogarão longe as carabinas e levantarão as saias! Gente, ele aparece aqui como se quisesse logo colocar um pé atrevido no chão!

Mas isto enganava. O raio de sol louro da companhia já chegara à sua nova tropa com a medalha de combate corpo a corpo e duas cruzes de ferro. Agora acompanhava a ucraniana da divisão de propaganda mais um pedacinho, para a retaguarda, e quando a despedida foi inevitável, a beijou.

— Nós nunca mais nos veremos — disse ela baixinho e segurou a mão de­le sobre o peito.

— Não sei. Se você não voltar. . .

— Meu nome é Olga Fedorovna Nasarova. Eu vou lhe dar o meu endereço. Você pode me escrever.

— Farei isto. — von Stattstetten anotou o seu número de caixa postal de campanha e o seu endereço domiciliar. Ela viera de Krementschug, Dnieper, e uma vez desejara ser professora da língua alemã.

— Eu o amo — disse ela singelamente. Só se conheciam há três horas, mas para Olga Fedorovna os olhos dele já se tinham tornado inesquecíveis. A partir de agora sonharia com ele, com seus lábios, com suas mãos esguias e macias e com seu riso juvenil, que se embrenhara em seu coração.

Oh, sim, a gente pode sentir, em três horas, como uma vida se modifica. Pode-se introjetar uma pessoa em tão pouco tempo, de modo tão completo, que a gente se sente inseparavelmente ligado a ela.

— Quando a guerra terminar. . .

— Quem sabe onde estaremos.

— Nós nos encontraremos. . . nós deveremos procurar um ao outro, realmente procurar. . . eu a procurarei. . .

Beijaram-se uma vez mais; depois von Stattstetten ficou para trás e ainda acenou para Olga Fedorovna, até que o caminhão que a levava para o regimento desapareceu no terreno ondulado da estepe.

Nessa noite mesmo von Stattstetten escreveu sua primeira carta a Olga.

“Quando eu fecho os olhos, a vejo diante de mim, e quando fecho os ouvidos com as mãos, afastando todos os outros ruídos, então escuto sua voz... Como você é linda, Olitschka...”

Nessa noite Peter Hesslich atravessou o Donez. Usou uma velha canoa de ma­deira que encontrara em um celeiro e que Dallmann consertara. Fora necessá­rio remendar dois buracos e substituir uma pá do remo. Com o chegar da escuridão eles puxaram a canoa para o rio è a puseram na água. A canoa não afundou, os remendos não deixavam mais passar água.

— Deixe eu ir junto, Peter! — disse Dallmann pela centésima vez. — Quatro olhos vêem melhor que dois.

— Mas sozinho serei mais ágil. Você sabe disso!

— E exatamente o que você pretende fazer do lado de lá? — Dallmann entregou os remos a Hesslich, que já estava sentado na canoa. — Eu estou lhe dizendo, você está cometendo um erro imperdoável! E se eles tiverem coloca­do minas nas margens! Aí você voa pelos ares, por nada e mais nada. Morte de herói por idiotice! Peter, deixe as moças virem para o nosso lado. . . aqui tam­bém nós as pegaremos! E estaremos mais seguros. Aqui conhecemos cada buraco, cada monte de terra. Mas eu sei o que você quer! Você quer mostrar a elas: Cuidado! O que vocês podem fazer nós também podemos! Aqui tam­bém existe alguém que é capaz de acertar no meio da testa.

— Exato. — Hesslich pôs os remos na água, silenciosamente. — Quero fazer um arranhão na segurança delas. Elas devem sentir que também possuem nervos. . .

Acenou para Dallmann, sorriu e se afastou da margem. A canoa deslizou pela água com um ruído abafado. O bater das ondas e o vento quente da noi­te engoliam o barulho.

Dalmann ficou estirado na grama da margem e fitou Hesslich. Este deixou-se levar um pouco pela correnteza; depois remou com força contra ela e alcançou, só visível feito uma sombra, a margem soviética, perto de um grupo de arbustos.

— Que Deus o proteja — pediu Dallmann, baixinho, e voltou para os es­combros da casa campesina, onde estavam alojados há quatro dias. Retirou uma metralhadora leve de uma caixa de madeira, embrulhou um pacote com municão e voltou para o Donez. Se houvesse problemas e Peter tivesse de bater em retirada, queria lhe dar a proteção necessária.

Armou a metralhadora na margem, deitou-se ao lado e esperou. A noite estava repleta de sons, nas poças d’água rasas coaxavam sapos. Aves noturnas, cujos nomes Dallmann não conhecia, gritavam na escuridão.

Que guerra, pensou. Destrói-se a terra, os homens morrem de hemorragia mas, apesar de tudo isso, ainda há sapos que coaxam e pássaros que voam pelo ar, que geralmente pertence às granadas.

Sem o perceber, adormeceu ao lado da metralhadora. No seu cérebro o coaxar dos sapos se transformou em uma música maravilhosa. Uwe Dallmann sonhou que estava em um concerto sinfônico e pela primeira vez na vida não se sentia entediado. Tão linda era a música.

Peter Hesslich alcançara a primeira cocheira e o primeiro jardim, sem pisar em uma mina nem encontrar uma sentinela soviética.

Depois de chegar à margem russa deitara-se, inicialmente, na grama, sem se mexer, durante alguns minutos, e procurara ouvir na noite. Tinha amarrado a canoa em uma raiz velha, que saía do arvoredo da margem, com um cabo de cânhamo. Se alguém o tivesse observado, agora viria o ataque. A tática antiga, que consistia em iludir o adversário, que pensava estar em segurança, para de­pois inesperadamente atacá-lo, era algo que Peter julgava ridículo. A ele nin­guém e nada poderia surpreender. Quando Hesslich saía em campo com seu fuzil, os seus sentidos se aguçavam. Farejava como um animal, que tudo ouve, tudo cheira e tudo vê, tudo que está a seu redor.

Apertou-se contra o chão arenoso, o fuzil ao lado, o cano seguro na curva do braço. Só levava consigo a arma, duas bolsas cheias de munição e um canivete de bolso, com uma lâmina que saltava com uma simples pressão. Mais nada. Tudo que poderia fazer ruído — a espingarda de lado, a máscara de gás, a garrafa térmica, a pá — tudo que poderia atrapalhá-lo, ao esgueirar-se, ficara para trás. Também desistira de levar o capacete de aço. Os seus cabelos esta­vam cobertos por uma boina cinzento-escuro, tricotada a mão.

Por causa desta boina já tinham ocorrido algumas discussões muito violentas. Quando Hesslich aparecera com ela pela primeira vez, para desempenhar uma missão, caíra direto nos braços de um major.



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