Konsalik b de atalhão Mulheres



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Encontro11.09.2017
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— Bem mijados estamos aqui! — disse estalando os beiços. — Diante do nosso nariz. . . dois tiros de cabeça, limpos!

— Eu as pegarei! — Peter Hesslich cerrou os punhos e respirou fundo. — Esta agora é a tarefa da minha vida: pegarei esta canalha. . .

Era como um juramento.

Quando a guerra adormece, nem que seja por poucas horas; quando o sadismo e a destruição param para respirar, preparando-se para novas mortes, a huma­nidade acorda em uma saudade de paz, que a sacode fundo.

Uma pausa no combate durante o cerco de Leningrado. Dos buracos na terra, das ruínas nos subúrbios, dos porões e trincheiras saem enfermeiros, se levantam, acenam uns para os outros e se encontram. Do lado soviético moças em uniformes cor de terra correm, entre elas as que carregam maças — enfer­meiras, auxiliares, médicas, que durante semanas, sob granadas que explo­diam, suportaram a morte uivante dos Stukas e das metralhadoras alemãs, pensavam as feridas dos atingidos nos porões, operavam e amputavam membros sobre portas tiradas das dobradiças ou sobre mesas oscilantes, retiravam estilhaços de corpos arrebentados e de noite, sob tiroteio direto, levavam os sobreviventes para trás, para a cidade — em carroças ou trenós, muitas vezes em barracas de acampamento, metro após metro, fugindo da linha de fogo para o lugar de acolhimento dos feridos, mais ou menos seguro. Lá recebiam chá quente, respiravam fundo e depois corriam de volta para a frente.

Vinham agora de todos os lados e recolhiam os feridos entre as posições — os enfermeiros alemães com a cruz vermelha na bandeira branca, em braçadeiras e até em tiras em redor dos capacetes de aço; os russos sem sinais, apenas com sacolas de enfermagem, sem capacetes, com quepes ou boinas de pele.

Aí estão os dois jovens médicos que se encontram na terra de ninguém, um russo e um alemão. O russo se ajoelha ao lado de uma ruína, junto a um ferido, e segura-lhe a cabeça. O ferido ofega audivelmente e todo seu corpo treme; seus dedos se enterram no chão, se agarram a pedras e pó. Com os olhos bem abertos, arregalados, fita o céu; seu olhar já deixou esta presença.

— Posso ajudá-lo? — pergunta o médico alemão. Passa por cima de um pedaço de parede rachada e se aproxima do russo.

— Obrigado. Não adianta mais nada — o médico soviético responde em um alemão impecável. — Mas talvez você tenha algo que possa combater as dores. Nós não temos mais nada na cidade. Só nos resta ranger os dentes.

O médico alemão se ajoelha ao lado do russo ferido, abre a camisa sangrenta do uniforme e depois a fecha novamente. Um estilhaço de granada lhe estraçalhara o peito; da ferida saem tecidos do pulmão. Abre a bolsa sem dizer uma palavra, retira uma agulha de injeção, quebra a ponta de uma ampola e injeta morfina no russo moribundo. Os dois médicos esperam juntos até que o corpo em convulsões se relaxe. Depois o russo coloca a cabeça do ferido, cuidadosamente, sobre um grande tijolo e se levanta.

— Depois o transportaremos — diz ele e olha em redor. Em todos os cantos mortos e feridos são transportados. Em maças ou panos de barracas, nas costas ou a dois, em trenós planos, puxados por dois homens — ou duas moças, no caso dos soviéticos. — Nós também queremos levar os mortos.

— Nós também.

— Desejamos que repousem em sua terra natal.

— Então nisto vocês levam vantagem.

— Estamos em casa aqui e vocês vieram para nos matar. — O médico rus­so enxuga o rosto. — Quando um dia chegarmos â Alemanha, os seus mortos também estarão em casa! Como é o seu nome?

— Felix Baumann.

— Eu sou Sergei Ivanovitsch Losskovski. Quantos anos você tem?

— Vinte e três.

— Eu também. Moro em Rybinsk no Volga.

— Eu venho de Detmold.

— Será que nos veremos novamente?

— Se sobrevivermos ao conflito. . . Eu me lembrarei. Sergei Losskovski de Rybinsk.

— Felix Baumann de Detmold. O que você quer ser depois da guerra terminar?

— Cirurgião.

— Eu, neurologista. — Losskovski sorriu amargamente. — Isto não é um bom treinamento para tal objetivo. Você tem um cigarro, Felix?

— Claro. — Baumann põe a mão no bolso do uniforme e retira o maço. Está amassado, cheio de pregas e sujo. Sergei retira um cigarro com as pontas dos dedos.

— Um R6 — diz ele e sorri novamente. — Na cidade fumamos folhas secas.

— Estes cigarros minha mãe nos mandou.

— Uma boa mãe. — Losskovski deu alguns tragos profundos e olhou para o campo de batalha. Sobre a ruína de uma casa treme a bandeira da Cruz Vermelha. — Mande-lhe um abraço meu, quando você voltar de novo para ca­sa. Agora tenho de partir, Felix. Em uma hora termina o cessar-fogo. Lá já es­tão acenando. — Ele inala mais uma vez, uma tragada profunda, e depois atira o cigarro no chão. — Até logo, Felix.

— Até logo, Sergei.

Eles nunca mais se viram.



Stalingrado. Um parlamentar soviético conseguiu ir, pulando sobre as ruínas e balançando uma bandeira branca, para o pavilhão de luta do batalhão dos ale­mães, e pediu, em nome de seu comandante, duas horas de cessar-fogo. Agora os russos e os alemães evacuam seus mortos, procuram entre ruínas e nos po­rões, nos buracos de granada e nos montes de escombros os caídos e os feridos.

O suboficial do Serviço de Saúde, Pavel Ignatevitsch Taganjev está agachado na beira de um porão rebentado e espera um grupo de carregadores. À procura de feridos encontrou esta casa e nela nove camaradas soviéticos, que um acerto total de uma mina alemã estraçalhara no porão. A confusão de pe­daços de membros e corpos, cabeças e restos de pano oferece um espetáculo dantesco. Só contando as cabeças é que Taganjev soube que neste porão estão deitados nove membros do Exército Vermelho.

Pavel Ignatevisch se sentiu nauseado. Agora fuma um cigarro de palha, um Papirossa, encosta-se contra a parede da casa estraçalhada e só olha para o lado rapidamente, ao ver um vulto cair nos escombros, a dois metros de distância. Levanta a mão com o cigarro e saúda mudamente.

O sargento do Serviço de Saúde Hermann Brosser acena para Pavel Igna­tevitsch, senta-se a seu lado sobre os restos da parede, passeia o olhar pelo po­rão e diz rouco:

— Que merda, hem? Todo um porão cheio! E este frio de rachar os ossos. Como é que você quer transportar esta gente? Mas eles já viraram pico­lés! Não me diga que você ainda quer separá-los a golpes de machado! O me­lhor: jogar terra em cima e basta! — Ele bate com os braços em seu tórax, sopra nas palmas das mãos e olha desconsolado para Pavel. — Mas você não sabe alemão! Também pudera. . . de onde? Você é um pastor da estepe, não? É, e agora está sentado diante de um monte de mortos e fica de vigília e não sabe o que fazer com eles. É, meu caro, isto acontece quando se ataca com tantos homens. Uma coisa como essa não ocorre conosco; o nosso batalhão só tem agora 68 homens! Em três dias tivemos só quatro baixas. . .

— Cedo. . . todos mortos! — disse Pavel Ignatevitsch duramente.

— Ô cara! Você massacra o alemão? — Hermann Brosser empurra o ca­pacete para a nuca. — Onde o aprendeu?

— Escola. . .

— Na estepe?

— Em Blagoveschtsch.

— Onde fica isso?

— No Amur. . .

— E por onde corre ele?

— Ásia. . . Grande China, fronteira. . . Sibéria. . . rio grande. . . muito longe. . .

— É, nós nunca chegaremos lá, não é?

— Nunca!


— E lá, por todos esse lugares, há russos?

— Mais longe ainda. . .

— E aí nós queremos ganhar a guerra?

— Vocês é que devem saber. . .

— Eu o sei! Mas se o nosso Fuehrer o sabe, hem? Tudo isto é merda, pu­ra merda, Ivan!

— Merda de primeira! — Taganjev põe a mão no bolso do casaco ragado, mostra a Hermann Brosser um pedaço de papel de jornal e umas migalhas de Machorka e junta as pontas dos dedos. — Papirossa?

— Claro! Você é um sujeito legal, Ivan! Me enrole um. . . mas lamber quero eu!

A dois enrolam o cigarro. Pavel enrola o tabaco no papel de jornal, Her­mann lambe as bordas esfarrapadas. Pavel até tem um fósforo, destes de cai­xinhas de papelão. Brosser dá quatro tragos, depois devolve a Papirossa a Pavel.

— Casado? — pergunta ele.

— Nyet...

— Mas eu sou! — Brosser tirou um retrato da bolsa. Uma mulher loura, bochechuda e um bebê. Ela sorri para a câmara; a criança boceja. — Ela se chama Erna. Erna-Maria. E a pequena é Magda. Erna o quis assim. Admira a Magda Goebbels. Você conhece a Magda Goebbels? Não? Bem, não importa! Só porque a Magda Goebbels é loura como ela. . . ou ao contrário, a Erna é tão loura como a. . . não dou bola, não, então, a nossa filha teve de ser chama­da Magda! O retrato tem cinco meses! Bati a foto nas minhas últimas férias. Aí, meti o pau. Talvez um Hermann agora esteja a caminho. A Erna também o admira, o gordo, com um monte de lata no peito. Você sabe o que é um monte de lata? Não? Não importa. . .

— Bonita mulher! — diz Pavel, olhando a foto com satisfação.

— E se é bonita, Ivan! Eu preferiria estar deitado lá, ao invés de ficar aqui agachado ao seu lado. — Tira novamente a foto das mãos de Pavel e a guarda. — Você não tem nenhum retrato?

— Só Mamitschka...

— Mostra.

Pavel retira uma fotografia do casaco. Uma mulher pequena, gorducha, com o rosto largo, calçando botas de feltro, calças sujas de lama e um casaco pespontado. Em volta dos cabelos um lenço desbotado. No braço curvado está pendurado um cesto de vime cheio de cebolas grandes.

— Em jardim. . . — diz Pavel com a voz trêmula.

— Homem, que cebolas! Como cabeças de crianças! Você se parece com sua mãe. . .

Depois de uma hora se abraçam, se beijam na face e voltam para suas posições, correndo através das ruínas. O cessar-fogo terminou. Um grupo de choque alemão é visado por um Pak soviético. Eles têm suficiente munição — com canhões de defesa blindados atiram em soldados alemães isolados.

É, isto existe. Quando a guerra dá um cochilo, a humanidade sai dos escombros. Aconteceu mil vezes em todas as frentes — um dava a mão ao outro, mostravam retratos, fumavam juntos, contavam histórias da família — e de­pois corriam de volta para as posições — e continuavam a assassinar.

Quem jamais poderá compreender os homens.

Peter Hesslich tinha ficado à espreita durante nove dias.

O que não tinha conseguido fazer como rapaz e depois como aluno de florestagem — ficar à espreita de um animal e depois abatê-lo — agora ele con­siderava uma tarefa inevitável, com um ser humano. Diante dele estava um ad­versário, que não conhecia outra coisa senão matar, matar com toda habilida­de e astúcia, uma máquina de destruição perfeita, com carabina, telescópio de mira, olhos e cérebro, que só era dominado por um único pensamento: Morte. . . Morte. . . Morte. . . Com cada curvatura do dedo indicador: Morte!

Mas a frente dormia.

Nenhum bote de borracha atravessava mais o Donez de noite para desembarcar fuzileiras. A artilharia soviética, que de vez em quando abrira um fogo para atrapalhar, emudecera. A terra ampla estava quieta, em uma paz ilu­sória, sob um céu primaveril azulado; o sol pálido ficava cada vez mais doura­do e quando se olhava para a imensidão, ninguém se espantaria de ver campo­neses e mulheres que iam para o campo, guiavam o gado ou que ficavam sen­tados nos bancos diante das casas; depois de um longo inverno, limpavam as ferramentas, cuidavam dos jardins e das hortas ou pescavam no rio. Mesmo se, em algum lugar, soasse um sino de igreja e os homens fossem para a prece do­minical, pelos atalhos campestres, isto seria aceito. Tão calmo estava o Donez, tão pacífica a primavera sobre a estepe e o rio.

Fritz Ploetzerenke gozava a paz cheia de sol: banhava-se nu, de dia, no rio. As posições soviéticas estavam afastadas a cerca de 800 metros da outra margem do Donez. Entre eles havia alguns sítios destruídos com jardins aban­donados e cerejeiras em flor. Até os pequenos salgueiros e choupos brilhavam, era um prazer fitá-los.

Fritz Ploetzerenke tomou um banho completo, nadou para longe no rio, submergiu, fingiu-se de morto, depois subiu de novo na beira do rio e cor­reu algumas vezes, de braços curvados, como se estivesse em um campo de desportes.

Não aconteceu nada. Ploetzerenke deixou-se secar ao sol e voltou orgulhoso para a sua companhia. Lá o Tenente Bauer III já o aguardava. Contudo, primeiro foi recebido pelo alabarda da Quarta Companhia, o sargento-mor Richard Pflaume.

Alguém se chamar Pflaume* já é suficientemente trágico. No Exército, especialmente no caso de um oficial comandante, um nome desses significa um combate incessante contra risos sardônicos e chistes bobos. Usualmente surge a expressão tão querida dos subalternos: “Oh, sua Pflaume triste!”, o que realmente inibe muito as possibilidades de expressão. O sargento-mor Pflaume, portanto, sempre ficava cuidadosamente a observar se nos rostos do pessoal que vinha da reserva — especialmente no caso de rapazolas que tinham recebido apenas uma formação básica de seis semanas — se estampava um riso irônico ou uma muda alegria, quando ele se apresentava polidamente.

— Vou apagar este sorriso idiota da sua cara, seu safado! — berrava ele cada vez que isso acontecia. — Deitar-se! Beijar a Mãe Terra! Você verá, daqui a pouco vai sair fumaça do seu eu!

No entanto isso não impedia a Quarta Companhia de enfurecer Richard Pflaume, a ponto de ele parecer uma panela com água em ebulição, em qualquer ocasião propícia. Começando com um cartaz anônimo na parede da cozi­nha de campanha: “Receita para bolo de ameixa! Tome-se: uma ameixa especialmente grande, madura, antes que comece a feder de podre. . .”, até aquele acontecimento em que toda a companhia, em posição de descanso, com o co­mando: “Uma canção!”, ao invés de começar a cantar: “Oh, a linda floresta de leste. . .”, entoou: “Oh, a linda ameixeira. . .” não transcorria um só dia no qual Richard Pflaume não sofria por causa do seu nome.



Hoje o sargento-mor aguardava na trincheira dianteira. Com o estado geral de tranqüilidade na frente, também a tropa da companhia, que costumava ficar mais atrás, veio para a frente — os dois escrivães, o suboficial para armas e ferramentas, o intendente, o sargento do trem, os dois motociclistas. Fica­vam deitados ao sol, jogavam baralho, escreviam cartas, liam revistas ou livros de bolso, zanzavam pela região ou xingavam a guerra. Richard Pflaume acabara de discutir com o Tenente Bauer III os pedidos de férias. Ainda não se sa­bia que o comando-mor do Exército mandara sustar até segunda ordem todos os pedidos de folga e que o Marechal-de-Campo von Manstein e o seu colega Marechal-de-Campo von Kluge, o chefe do Grupo do Exército do Meio, várias
vezes tinham apelado, pessoalmente, para Hitler, tentando obter um fortalecimento de suas divisões ou a chegada de novas divisões.

Na Quarta Companhia havia 19 solicitações de férias a serem passadas em casa, entre elas também uma de Fritz Ploetzerenke. Justificativa: Há nove meses não volto para casa. Meu pai tem 74 anos, minha mãe sofre de reumatismo e minha mulher deseja um garoto sadio para a Grande Alemanha. . .

— Apresentar-se ao chefe de uniforme completo! — disse Richard Pflau­me satisfeito, quando Ploetzerenke voltou do Donez. — As férias foram para o brejo! Você está pirado? Como é que foi tomar banho no rio de dia?

— Mas está um lindo dia, Sr. sargento-mor! — Ploetzerenke olhou para o céu azul-claro, sem uma única nuvem. - Nos jardins do outro lado até as ameixeiras estão em flor. . . — Parou, fitou Pflaume, viu, como este respirava fundo, e acrescentou rápido: — e as cerejeiras também. . .



— Apresentar-se pronto para a marcha! — berrou Pflaume. — Em 10 mi­nutos, apresentar-se ao chefe! E depois nós nos falaremos ainda, Ploetzerenke!

O Tenente Bauer III estava sentado em uma mesa desconjuntada e tomava café, quando Ploetzerenke se apresentou. Ele entrou ruidosamente no abrigo, bateu com os calcanhares e puxou, esticando-a, a corda da carabina. A lata com a máscara contra gases batia contra a pá que também carregava.

Bauer III pousou a caneca esmaltada na mesa, observou Ploetzerenke como se este fosse um pobre-diabo e depois sacudiu lentamente a cabeça. Não adianta berrar com um cabo. Isto é uma velha sabedoria de tropa. Quem a ignora só se toma ridículo. Abalar um cabo é mais difícil do que coçar as so­las dos pés de um elefante.

— O que foi que o senhor pensou ao nadar como alvo vivo no Donez? — perguntou o Tenente Bauer III, suavemente.

Ploetzerenke olhou para a parede do abrigo, fugindo ao olhar do chefe. Epa! O velho vem com luvas de pelica. Então agora está começando a ser peri­goso. Ele sempre dizia: o velho, apesar de, com seus 26 anos, ser dois anos mais velho do que Bauer III.

— Nada, Sr. Tenente.

— Isto imaginei! O senhor por acaso sabe o que é pensar?

— Não tenho certeza...

— Pensar é aquilo que termina quando alguém nos sapeca um pequeno buraco redondo na testa! Ficou claro?

— Mas lá nos Ivans está tudo calmo!

— Seu idiota chapado, lá do outro lado estão mulheres à espreita. Um batalhão de fuzileiras! Mas isto não lhe interessa, né? E o senhor pula por aí nu como nasceu.

— Talvez a minha aparência tenha impedido que as mulheres atirassem em mim.



— Ploetzerenke. . . — falou o Tenente Bauer III, em tom de advertência.

— Lisbeth, a minha mulher, sempre diz: “Fritz, quando você tira as calças. . . mete medo!”

— Pra fora! — Bauer III fez um sinal em direção à porta. — Três noites de sentinela!

— Sim senhor, Tenente! — Ploetzerenke estava de pé, reto como um nú­mero um. — Ainda tenho um relatório. . .

— O quê? Alguém o fotografou?

— No povoado entre o Donez e as posições russas os Ivans cuidam, com toda tranqüilidade, de seus jardins. Até porcos andam por lá. Porcos, Sr. Te­nente. . . — O rosto de Ploetzerenke se iluminou. — E dois porquinhos. . .

— Cabo. . . — disse Bauer III, novamente em tom de advertência.

— Sr. Tenente. . .

— Olhe, se nos próximos dias houver um assado de porco aqui, eu darei parte do senhor, está claro?

— Pode se tratar de desertores, Sr. Tenente.

— Sobre o Donez?

— Porcos sabem nadar.

— Para fora! — Bauer III fez novo sinal para a porta. Ploetzerenke deu meia-volta, ruidosamente, e saiu do abrigo.

Lá fora aguardava-o o sargento-mor, como uma águia que espreita um rato. Ele sorria, e isto era perigoso.

— O senhor não tem nada para me dizer? — o sargento-mor atiçou Ploe­tzerenke, quando este pretendeu ir marchando sem parar.

— Três noites de sentinela, Sr. Mor! — Ploetzerenke parou e riu ironicamente.

— E. . .?

— Devo perguntar ao cozinheiro se ele pode defumar presunto e toucinho e preparar molotschnij porosjonok para o Senhor Tenente. . .

— Que é isso? — Pflaume arregalou os olhos.

— Uma especialidade russa: leitão assado com ameixas secas. . .

O sargento-mor Pflaume lembrou-se do antigo ditado: a vingança só amadurece com o tempo, e desistiu de berrar sem sentido.

— Quando o senhor morrer a morte de um herói — disse apenas — eu proferirei a oração fúnebre. Isto ninguém me tirará! E depois tomarei um porre. Suma, Ploetzerenke!

Todas as observações se juntavam nas mios de Hesslich e Dallmann. Viviam no abrigo do chefe da companhia, como “comandados”, ou esgueiravam-se, juntos ou isoladamente, pela terra de ninguém. Às vezes davam notícia e ficavam lá fora dois dias e duas noites. Abrigavam-se nas casas e nos celeiros destruídos ou ficavam deitados na margem do Donez e esperavam nova vinda das fuzileiras.

Às vezes viam, através de fortes binóculos de campo, no povoado em sua frente, algumas formas cor de terra, que trabalhavam, com toda tranqüilidade, nos jardins. Os casebres tinham sido incendiados e estavam em escombros; muitas vezes tudo que restava eram algumas paredes, das quais saíam al­gumas ripas pretas como carvão. Mas entre as ruínas as plantas cresciam e flo­resciam como se nunca um trator de fogo tivesse passado por aquela terra. A vida eterna, que jazia na terra, irrompia com força indômita fazendo com que brotassem as plantas. O que a mão do homem destruíra, a natureza reconquis­tou e cobriu com uma magia de verde e flores coloridas.

— Chegaram a plantar girassóis! — exclamou Dallmann, atônito. — Você o compreende?

— O que seria a Rússia sem girassóis?

— Mas eles nunca vingarão! O nosso próximo fogo de artilharia os elimi­nará!

— Não sei. — Hesslich olhou para o lado dos russos. Via nitidamente cin­co moças que trabalhavam em um jardim. Estavam com os cabelos soltos ao vento quente e tinham desabotoado as blusas. A partir da cintura usavam cal­ças militares e botas toscas. — Parece que acham impossível que nós jamais possamos ultrapassar de novo o Donez. Elas se plantam diante de nossos olha­res. . . tão seguras se sentem. Devíamos refletir acerca disso, Uwe. Os de lá nos crêem inermes, vencidos. Eles sabem mais do que nós.

— Ou só nos querem excitar. Isto é pura provocação. ..

— Não creio. — Hesslich continuava a observar as moças no jardim. Lá estão elas, pensou. Agora cuidam de flores. . . mais tarde curvam o dedo no gatilho e matam. Frias como gelo, precisas. Um tiro na cabeça. Como é possí­vel que moças sejam tão destituídas de sentimentos? Que possam ficar à es­preita, reconhecer um rosto, grande, no reticulado, e depois atirar, sem que o seu coração estremeça e o estômago se rebele?! O que fizeram com essas mo­ças? Como mataram suas almas? Como destruíram seus sentimentos?

Estavam deitados, protegidos por arbustos, ao sol, e tinham tirado toda a roupa, exceto as calças. Dallmann desabotoara a sua e a fizera cair até os quadris.

— Tudo sente saudade do ar primaveril! — Riu sardonicamente. — Por que eu deveria aprisioná-lo?

Depois estendeu os braços e se dedicou todo ao sol quente.

Hesslich deixou de lado o binóculo, deixou-se cair na grama e fechou os olhos. Não era de se esperar que logo agora alguém, do lado dos soviéticos, ultrapassasse o rio. Bem longe deles, na região da Primeira Companhia, um avião de reconhecimento russo dava voltas em torno do Donez, uma dessas máquinas lentas, barulhentas, que faziam, tranqüilamente, curvas sobre as po­sições alemãs; deixavam-se ser alvos para as metralhadoras e para as carabinas e sempre voltavam para casa, ilesas, graças a sua grossa couraça. Sabiam exa­tamente onde estavam estacionados os Flaks — e lá não apareciam. Não precisavam temer os aviões de caça alemães; a Força Aérea alemã ficava feliz quando não se exigia demais dela. Havia falta de máquinas e especialmente de combustível. Só levantavam vôo para missões muito importantes e o combate às “máquinas de fazer café”, como apelidavam os perturbadores soviéticos da paz, não era considerado uma missão importante. Afinal de contas, o que os observadores russos fotografavam não era nada de especial — o novo sistema de trincheiras alemão, que cada dia era melhorado, de vez em quando alguns tanques camuflados e posições de artilharia, colunas de reserva e trens de transporte. Muito mais exatas eram as notícias da Suíça, onde números preci­sos eram colecionados e enviados, por rádio, para Moscou. O círculo de espionagem secreto “Luzy” sabia de tudo! Conferências a respeito de datas de ata­que no Quartel-General do Fuehrer — Moscou sabia disso dois dias depois! Os planos de von Manstein e de von Kluge — “Luzy” dava notícias exatas. A con­ferência do Coronel-General Model, feita para Hitler, a respeito da posição de seu Nono Exército na curva de Cursk, a construção da muito discutida Linha de Hagen na região do Exército do Meio, onde os exércitos alemães, depois das manobras de recuo da frente poderiam se recolher como em uma fortaleza — “Luzy”, na Suíça, sabia de tudo.



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