Konsalik b de atalhão Mulheres



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Heinz G.

KONSALIK

B
de
atalhão


Mulheres

Tradução de EVA NICK

Digitalização: argo_3_nauta

Bem amado, aproxime-se de mim!

Que o nosso amor continue,

significa, para nós,

em luta sagrada

apenas — vencer ou sucumbir!

Que a ternura nunca nos enfraqueça!

O combate necessita do

homem por inteiro

para que o inimigo mortal

não nos assuste

e a nossa ira nunca se dissipe.
Andrej Upits

(do poema "Die Kommunardin ")

OS PERSONAGENS PRINCIPAIS:

Stella Antonovna Salnikova Tecelã

Marianka Stepanovna

Dudovskaja Padeira

Schanna Ivaiiovna Babajeva Pastora de Ovelhas

Lida Iljanovna Selenko Estudante de Odontologia

Darja Allanovna Clujeva Estudante de Arquitetura

Soja Valentinovna Bajda Capitã, comandante da unidade

Galina Ruslanovna

Opalinskaja Médica da unidade

Victor Ivanovitsch Ugarov Tenente

Foma Igorevitsch Miranski Comissário Político

Bairam Vadimovitsch Sibirzev Sargento, artilheiro

Ivan Rasulovitsch Kitajev General do Exército Vermelho

Olga Petrovna Rabutina Coronel, Comandante da Escola Especial

Dr. Viljam Matvejevitsch

Semaschko Médico em Novo Calga

Peter Hesslich (Piotr

Herrmannovitsch Salnikov) Primeiro-sargento

Uwe Dallmann Suboficial

Lorenz v. Stattstetten Guarda-marinha

Richard Molle (MM) Major de uma unidade especial

Franz Bauer III Tenente, 4ª Companhia.

Fritz Ploetzerenke Segundo-cabo

Helge Ursbach Médico auxiliar

entre outros

O enredo se desenrola nas localidades de Novo Calga, Charkov e, a partir de novembro de 1942 até agosto de 1943, na frente sul entre Orel-Charkov-Rostov.

PARTE

UM

Ele não a vira chegar, nem mesmo a ouvira. A fera maldita aproximara-se dele furtivamente, silenciosa, pérfida e insidiosa, como se suas patas estivessem dentro de sacos repletos de plumas de ganso. Somente quando ela se ergueu, pôs a cabeça gorda e redonda na nuca, deu um berro abafado, rancoroso, e o seu hálito quente atingiu o pescoço dele — somente então ele compreendeu que perdera a batalha a dois, que durara várias horas.

Ninguém jamais poderia afirmar que Piotr Herrmannovitsch Salnikov fora um homem medroso. Quando ele apareceu em Novo Calga, no ano de 1946, com sua jovem mulher Stella Antonovna, um rapaz alegre, que cuspia nas mãos e dizia: “Só agora a vida começa realmente!”, quando começou a construir uma casa e se preparou para arar um pedaço da taiga, pretendendo trabalhar sozinho com a meta de garantir o seu pão de cada dia, as pessoas do pequeno povoado logo souberam: este é um camarada que não se deixa derrubar pelos nossos invernos, como algumas árvores, arrebentadas com fragor pela geada.

E assim era mesmo. Piotr Herrmannovitsch, naquela época um homem de 28 anos com atentos olhos azuis, músculos fortes e temperamento alegre, construiu para si mesmo uma bela casa na fronteira de Novo Calga, empregou-se como caçador estadual, percorria a taiga, atirava em coelhos de neve e martas, zibelinas e raposas, ursos e lobos, iniciou uma cultura de castores e até foi votado membro do soviete daquela jurisdição. Neste cargo conseguiu, graças à sua capacidade de persuasão, obter, para Novo Calga, incessantemente, apropriações especiais de têxteis, sapatos e aparelhos elétricos, e nos feriados governamentais — por exemplo no aniversário de Lenin ou no dia da Revolução de Outubro — destacava-se como responsável por desfiles e paradas dos operá­rios e dos camponeses e pela decoração da sede do partido.



Piotr e Stella Antonovna formavam um belo e esforçado par. A mulherzinha não se contentava, de forma alguma, cuidando do jardim, curtindo as peles caçadas e parindo dois filhos — um menino e uma menina. Construiu um aposento extra na casa e começou uma tecelagem. Inicialmente, trabalhava apenas para os vizinhos de Novo Calga; mais tarde chegou a fornecer até para Sjuddjukar, a localidade maior mais próxima, sita à beira do Rio Viljui, onde os iacutas residentes admiravam os modelos russos antigos, que lhes eram desconhecidos. O negócio ia tão bem, que Stella Antonovna empregou mais cinco mulheres, encomendou três teares de Jakutsk e abriu uma espécie de fábrica. Isto já era uma iniciativa de risco. Somente o transporte dos teares de Ja­kutsk para Novo Calga já fora uma aventura; afinal de contas, não era possível dirigir-se para lá com um caminhão e entregar as encomendas como em Moscou ou Leningrado. Novo Calga se situa ao norte do Viljui, na área fértil, cheia de florestas, muitas vezes pantanosas, do rio não explorado Yayetta. No oeste, no leste e no norte começa a imensa solidão, a floresta sem fim, que é limitada pela tundra plana e pelos rochedos sempiternos das montanhas de Viljuisskij. Quando perguntamos aos habitantes de Novo Calga por que motivo ainda residem pessoas neste local, obtemos respostas espantosas. O povoado já se iniciara em 1825, época na qual o Levante dos Dekabristas em São Petersburgo fora derrotado e o Czar Nicolau I não apenas ordenara enforcar ou exilar para a Sibéria os chefes da revolta, mas também enviara para a selva muitas pessoas simples, especialmente burgueses que tinham visto com agrado a rebelião. A polícia secreta do Czar fez uma limpeza em regra, e desta forma também Pantelej Maximovitsch Rubalki chegou à área de Yayetta, fundou um po­voado e o denominou Novo Calga, em homenagem à sua terra natal, Calga, no Lago Peipus. Com Rubalki outras seis famílias também se deslocaram para a amplitude ilimitada do Viljui, fizeram amizade com os iacutas e vivenciaram uma liberdade absoluta, como se fossem os únicos habitantes desta terra.

Hoje Novo Calga possui exatamente 1.014 pessoas lá domiciliadas, uma serraria, a fábrica de tecelagem de Stella Antonovna, um armazém estadual, uma kolchose (a cooperativa agrícola com o nome Progresso), uma pequena igreja de madeira, uma casa sede do partido, um local de pesquisas geológicas, duas escolas, uma casa de cultura com um teatro e um pequeno hospital diri­gido pelo Dr. Viljam Matvejevitsch Semaschko.

Era maravilhoso observar o casal Salnikov, admirar sua diligência, encantar-se com a maneira pela qual Piotr arava seu campo, como compreendia a caçada, como florescia o jardim e a casa aumentava cada vez mais. E como Piotr ficava mais forte, de ano para ano, forte como um pinheiro da taiga, cuja madeira endurece de inverno para inverno, até que o aço do machado ricocheteia nela sem causar nenhum efeito.

Não, este Piotr não era um fraco, não! Nem agora com seus 54 anos! Os cabelos e a barba encaneceram um pouco e em seu rosto curtido pelo sol, pelo vento e pela friagem as rugas deixaram suas marcas; eram marcas do destino, cicatrizes de uma vida dura, mas ele ainda provocava o efeito de uma inflexibilidade idêntica à da própria taiga.

Neste momento Piotr estava de pé, rígido, imóvel, com os braços abaixados e as mãos vazias, e sabia perfeitamente que nem a sua coragem nem qualquer prece poderiam salvá-lo.

A seis metros de distância o fogo baixo do acampamento ainda.fumegava. A pequena panela de chá e uma caçarola com sopa de repolho pendiam de um cavalete de varas de vime. Ao lado, sobre uma folha de jornal, estava um pedaço de carne de rena, esperando para ser colocado em uma vara de vime e assado ao fogo. E imediatamente ao lado ele via a sua boa carabina de cano curto, uma Moisin-Nagant M-54 com telescópio de mira e aumento quádruplo, a sua velha amiga, bem-amada, que até o presente momento nunca lhe falhara. Era capaz de montá-la e desmontá-la de olhos fechados. Adaptara-se tão bem a ela que só precisava visar o alvo com o olhar. Sempre acertava. O homem e a carabina formavam uma unidade.

Agora, porém, seis metros o separavam da Moisin-Nagant e isso era mais longe do que o caminho para as estrelas. Não se tratava apenas dos três grandes pulos necessários para alcançar a arma, não, ainda precisava do tempo para se abaixar, levantá-la, destravá-la e mirar diretamente no olho. O primeiro tiro disparado teria de ser mortal. Não duvidava de que pudesse consegui-lo . . . mas não dispunha de meios para chegar até a carabina. Os seis metros representavam seis eternidades.

Quanta coisa um homem pode pensar em dois segundos!

Piotr Herrmannovitsch se virou, simultaneamente arremessou os punhos para a frente e se abaixou.

Isto sim é que era um urso!

Tratava-se do urso mais largo, maior, de pêlo mais denso, mais forte e mais belo da sua vida. Chegava a paralisar a respiração. . . como se tivesse vindo de outro mundo, um monstro, oriundo da proto-história. Seu pêlo era marrom-escuro, quase preto, e pontilhado de muitos fios brancos. O peito arqueava como um timbal, a cabeça poderosa, redonda como um círculo, só era interrompida pelo focinho terminando em ponta e pela bola úmida do nariz, sobre a qual os olhos frios e imóveis jaziam como botões de vidro, pretos e polidos. O urso escancarara as patas dianteiras, alto, em postura reta, e impedia Piotr Herrmannovitsch Salnikov de olhar para o céu. Era arrebatadoramente belo, tão poderoso em sua força, tão invencível neste instante, que Piotr respirava, audivelmente, e depois segurava, paralisando-a, a respiração.



Ele já sabia que deveria tratar-se de um espécime extremamente lindo. Descobrira-o de madrugada, lá embaixo, no lago selvagem repleto de pedras. . . O urso estava sentado n’água e aguardava os peixes, que pulariam pelas correntezas. Meu Deus, pensara Piotr, escondendo-se atrás de uma árvore, este é um animal! Ninguém sabe que tal urso vive nestas florestas, nem eu mesmo o vi em todos estes anos. E deve ser velho — um solitário, um excêntrico, pois os que aqui costumam vagar com as ursas eu conheço. Ou será ele um tirano? Um dos poderosos dominantes, que não se preocupa com família e clã, que, ao querer se acasalar, afugenta todos os outros ursos e toma as fêmeas, como em épocas pregressas os senhores sacanas, que se compraziam com as moças dos escravos. Sim, deveria ser um deles! E quando o urso saiu do rio, a trotar, Piotr deixara escapar a oportunidade de caçá-lo, nele atirando com sua carabina; só o observara com uma admiração irrestrita e se deliciara com sua beleza.

Fora um erro, que não poderia ser reparado e que agora custaria a vida a Piotr. Mal o urso deixara o rio, percebera o faro do homem, olhara para Piotr, virara-se e correra floresta adentro. Começara a luta entre o homem e o animal; esta luta a dois.

Piotr seguiu o urso, sorrateiramente se aproximou, contra o vento, andou ao redor dele, em círculos, correu por florestas de lanços e bambus espessos; deitou-se atrás de arbustos de bagos, à espreita; arrastou-se, como na guer­ra, a carabina na curva do braço, por pântanos e abismos rochosos. Mas sem­pre que acreditava ter o urso no visor, quando levantava a arma e tinha o brutamontes preto-marrom no reticulado, o urso era mais rápido, jogava-se para o lado, desaparecia entre as pedras, afundava na floresta virgem espessa.

Há 30 anos não fora diferente. Também naquela época era importante tornar-se invisível e com isso manter o adversário no reticulado e disparar sus­pendendo a respiração. E sempre soubera, antes de sentir o retrocesso da ar­ma: eu acertei. Uma marca no livro de tiros. Cada vez lhe custara sobrepujar uma resistência interna registrar tal marca, mesmo dizendo a si próprio: é guerra! O inimigo lá do outro lado não age de outra forma, e hoje você foi, sem dúvida, mais ligeiro e mais ardiloso do que ele. Amanha ele poderá ser melhor e aí é você mesmo que estará deitado na terra esburacada pelas granadas, com um buraco redondo e limpo na testa. O gosto de fel, que sentia, ao registrar tal marca, permanecia: este foi um homem.

Aqui era um urso. E esse urso um camarada danado de esperto. O combate a dois durara nove horas, por nove horas seguidas os dois se evadiam, se espreitavam, brincavam de esconder, até que Piotr se resignou e desistiu da lu­ta. Esta é a sua pátria, pensou. Aqui você conhece o terreno. Mas eu também conheço você agora, meu ursinho! Você não escapará de mim para sempre. Amanhã estarei aqui de novo, e depois de amanhã, e na próxima semana, e, se for necessário, também durante todo o próximo mês. Estarei neste local tan­tas vezes quantas for preciso, até que o vença. Não se trata da sua linda pele, meu urso, não; agora é questão de honra, compreende? Ninguém que Piotr Herrmannovitsch uma vez conseguiu pegar no visor lhe escapou.

Mas isto não era verdade. Houve um momento, sim, em que vira o seu adversário clara e nitidamente no telescópio de mira, em que o ponto médio das linhas reticuladas estava exatamente sobre a testa e teria sido suficiente um simples curvar do dedo, para enriquecer o livro de tiros com outra marca a mais. Mas ele não disparara. Sentia, então, como se um peso lhe tivesse caído sobre o coração — e abaixara a carabina.

Foi assim que tudo começara, tudo que agora, 30 anos após, terminaria. Outrora, no dia 1º de julho de 1943, ao sul de Belgorod, no Donez situado ao norte. Ele vacilara. E com esta hesitação jogara fora sua vida antiga e ganhara uma vida nova.

Piotr se ocupava com estas recordações ao atiçar o fogo, soprar as chamas, pendurar a chaleira e a caçarola de sopa, afiar a vara de vime para a carne e tomar providências para uma refeição substancial. Era uma bela tarde de início de verão, e a taiga brilhava azul ao sol. Os fios de lariços reluziam no verde-azul saturado, como se o céu tivesse por eles escorrido; a terra exalava um perfume acre e uma revoada de pássaros trinava e flutuava nas copas. No recôncavo a água do riacho selvagem borbulhava sobre as pedras lisas polidas.

A natureza canta, dissera Stella certo dia. Estavam deitados na floresta, os dois, e faziam amor entre fetos, vergônteas de pinheiros bravos e arbustos de bagos. Isto ocorrera há 20 anos. O primeiro filho já havia nascido, muito tempo transcorrera desde que viera ao mundo; eles possuíam uma linda casa, um imenso fogão de tijolos e uma larga cama de madeira, mas, quando iam juntos para a taiga, caçar, era como se a embriaguez os assaltasse, e então faziam amor sob o imenso céu ou sob as árvores altas como torres e eram felizes como jamais o tinham sido antes. Assim também geraram Nani, seu Segundo filho, uma menina. . . em um riacho selvagem como este, 11 verstas* mais adiante, ao sul. A manhã estava tão quente, que a floresta atrás do casal parecia estar em ebulição e névoas de vapor passaram por eles, no momento em que Stella mordia o ombro nu de Piotr e o acolhia.

Piotr ainda se recordava nitidamente desse episódio.

Afastou-se do fogo, deixou a carabina rolar pela grama e deu alguns passos em direção aos arbustos de morangos silvestres, baixos, nos quais conseguira vislumbrar os primeiros frutos vermelhos. Não era, de modo algum, característico de Piotr recusar tal alimento oferecido pela natureza. Abaixou-se, colheu a mão cheia, experimentou os frutos, percebeu que ainda estavam muito duros e amargos; mesmo com toda essa atividade, continuava pensando, incessantemente, em Stella — o que fez com que esquecesse o urso.

Contudo, o urso não esquecera Piotr. Faz parte das artimanhas dos ursos fugir do inimigo, esconder-se e depois de dar uma volta imensa retornar, para finalmente surgir da retaguarda. Piotr só pensou nesta antiga sabedoria quando um rugir abafado ecoou atrás dele, o que fez com que deixasse cair todos os morangos e se virasse.

Ficaram então os dois a se observar. O urso era muito maior que Piotr, em altura o excedia de duas cabeças, seus ombros tinham o dobro da largura dos de seu adversário, as pernas se assemelhavam a dois troncos de árvores, grossos e cheios de folhagens, e as garras pretas e recurvadas em suas patas erguidas eram tão compridas como as escadas de ferro utilizadas pelos eletricistas para subir até o topo dos postes com fios. O urso emitiu mais um rugjdo. O seu hálito cheirava a algo podre, em decomposição, e o vento fazia com que atingisse Piotr em cheio no rosto. Os olhos frios e pequenos da fera observavam o homem rigidamente e sem piedade.

Não devo me mexer, pensava Piotr. Fugir era algo fora de cogitação. O que você fizer, nesta situação, ele será sempre mais rápido! Fale com ele, dirija-lhe a palavra, converse com ele como se fosse um bom amigo. . . ele nunca ouviu uma voz humana, talvez a sua o deixe perplexo. Com a voz já consegui tantas coisas. . . tranqüilizei cachorros raivosos, atraí javalis que tinham escapado, até consegui levar na conversa um lobo, que se assustou tanto com isso que me permitiu levantar rápido a arma e matá-lo. E hoje? Só seis metros me separam da carabina, e bastam três segundos para atirar. . .

Piotr, fale com ele. . .

Isto foi muita esperteza de sua parte, meu ursinho disse Salnikov com voz rouca e áspera. Tenho medo, percebeu. Na realidade, é o medo que me faz falar assim, com uma voz tão inibida. O medo nu do impotente. Segure-se, Piotr Herrmannovitsch! Você não pode esconder seu medo deste adversário. Muito esperto — repetiu ele. Você vem simplesmente, de modo sorrateiro, saindo do esconderijo e agora está aqui. Sei perfeitamente o que você irá fazer se eu me mexer. Vejo suas garras. Elas me arrebentarão, de cima para baixo, como se eu fosse uma boneca de papel de seda colorido. São cinco ganchos de aço, que me estraçalharão. Confesso, sinceramente, meu lindo urso: você venceu! Mas agora podemos negociar, o que acha? Você me deixa retroceder, passo a passo, e em troca lhe prometo não matá-lo hoje. De acordo, ursinho?

Piotr fitou rigidamente os olhos gélidos do urso. Estes o observavam sem pestanejar. Assemelhavam-se, realmente, a dois botões de vidro costurados no rosto. Depois o urso respirou, inspirou profundamente, o peito alargou-se, de mais um terço, e Piotr ouviu, espantado, o imenso animal emitir um suspiro quase humano. Em seguida o corpo do urso curvou-se para a frente e duas patas se apoiaram nos ombros de Piotr.

Os joelhos de Salnikov amoleceram, suas pernas tremiam, o peso o fazia afundar, sangue jorrava dos dois ombros, cobrindo-lhe o peito e as costas; só então sentiu a dor, ouviu o horrível ranger das garras nas suas omoplatas e deu um berro tão terrível, como ele próprio jamais o escutara sair da boca de um ser humano.

O urso quedou estupefato. Suas garras desvencilharam-se de sua vítima. Recuou, olhou para Piotr, pensativamente, com a cabeça virada para o lado e levantou o nariz, farejando.

Salnikov ajoelhou-se. Todo o seu corpo tremia, seus nervos cederam. Ele não queria chorar, mas as lágrimas irromperam, incontroláveis, dos seus olhos e escorreram pela face em convulsão. O vulto marrom-preto peludo pareceu crescer, atingir o céu, tomou conta da floresta e das nuvens, perdeu todos seus contornos e se misturou com os raios do sol. . . Piotr caiu na grama, de frente, mordeu a terra quente e fofa e soluçou.

O urso deixou-se cair sobre as patas dianteiras, trotou em sua direção, empurrou-o quatro vezes com o nariz, lambeu-o na nuca e depois afastou-se, com um rugido profundo, cheio de ódio.

Piotr levantou a cabeça, cuspiu fora um punhado de grama e depois caiu novamente por terra.

— Você é um filho da puta desgraçado, urso. . . — praguejou com uma respiração ofegante. — Você não me mata. . . me deixa morrer feito uma cria­tura qualquer!

Estirou-se e esperou pela morte. Morrer pela perda de sangue é uma morte suave, dizem, pensou. A vida escorre da gente, ficamos cansados e a escuridão grande e eterna nos invade como um sono esperado. Você verá, Piotr Herrmannovitsch — não demorará muito.

Depois pensou em sua mulher, Stella Antonovna, e pediu-lhe descul­pas pela vida em comum durante 30 anos, uma vida difícil, na qual as horas belas tinham sido tão raras quanto passas em um bolo caseiro.

Quando as pálpebras se tornaram pesadas, Piotr sorriu triste. Nada mais lhe doía, nas costas sentia apenas uma leve queimadura. A falta de peso come­çara.

Constatou espantado como era lindo morrer.

De noite o encontraram, e ele ainda vivia.

Stella Antonovna esperara até escurecer; então, inquieta, foi â janela, olhou para a taiga lá fora; várias vezes saiu e ficou na frente da porta e depois perto da cerca de vime, como se assim pudesse atrair Piotr, para que ele saísse da floresta. Quanto mais a escuridão descia sobre a terra, mais se intensificava seu temor, mais certa ficava de que lá fora, na selva, algo de terrível havia acontecido.

Tratava-se de umas destas noites pretas de lua nova que tornavam opaca a taiga. Stella Antonovna pôs um lenço sobre os cabelos e correu para a casa de Fedja Alexandrovitsch Stupka, o Prefeito de Novo Calga e chefe local do partido.

Stupka era um homem gordo e tranqüilo. Vivia de acordo com uma filosofia muito determinada, cheia de sentido, que se fundamentava no se­guinte fato simples: Aqui estamos em Novo Calga e Moscou está a léguas de distância! É verdade que podemos escutar Moscou, mas Moscou não nos vê. Desta forma Novo Calga se transformara em um povoado tranqüilo, que paga­va seus impostos obrigatórios e no qual os controladores da capital do município se embebedavam, até caírem desacordados, com licores de bagos destilados pela própria população local. Já que estava situada nas fronteiras longín­quas do mundo civilizado, Novo Calga ficava a salvo de todos os abalos da grande política.

Fedja Alexandrovitsch estava sentado diante de seu rádio e escutava uma ópera transmitida de Jakutsk. Ouvia-se, neste momento, o Coro dos Marinheiros, do Fliegendem Holíànder (0 Navio Fantasma), de Wagner, quando Stella bateu na porta, abriu-a no mesmo instante, entrou às pressas no quarto e gritou:

— Piotr ficou na floresta! Fedja. . . ele não voltou. . . e agora está escuro como breu. . . Fedja, aconteceu algo terrível, sinto que deve ser alguma coisa horrível! Sinto-o na alma! Atravessa impetuosamente as minhas artérias com cada batida do meu coração. . . Nunca ele ficou sozinho de noite na floresta, nunca. . . Vocês precisam procurá-lo, todos devem procurá-lo.. .

Ela se apoiou na parede, juntou as mãos e com o olhar procurou o lindo canto onde costumeiramente arde a luz eterna diante de uma imagem de santo. Na casa de Stupka já não havia mais uma imagem como essa. Na qualidade de chefe local do partido ele não podia mais se dar a tal luxo. Ao invés de Jesus Cristo, agora Lenin estava no lindo canto. Stella não conseguia se conso­lar com aqueles olhos.

O Coro dos Marinheiros começara a dança retumbante, era a parte favo­rita de Stupka. No entanto, desligou o rádio, cocou o nariz gordo e vermelho que se assemelhava a uma batata e mirou Stella com perplexidade.

— Como é que Piotr não está aí? — perguntou.

— Porque está na floresta, seu idiota chapado! — berrou Stella. — Ele se perdeu na floresta.

— Não podemos dizer nada enquanto não tivermos certeza de que Piotr realmente sumiu, sem deixar rastro. E por que deveria desaparecer? Para onde pode ter ido?

— É possível. . . é possível que o tenham assassinado — gaguejou Stella, torcendo as mãos.

— Quem? Ele só tinha amigos!

— Nômades de Jakutsk, que não o conhecem...

— Impossível. Em qualquer Aul iacuto Piotr Herrmannovitsch é conhecido. E qualquer forasteiro que chegue a esta área ouve falar logo de Piotr. E se realmente o mataram, então não desapareceu, mas está em qualquer can­to da floresta.

Stella fechou os olhos e encostou a cabeça na parede. Seu corpo tremia desde a ponta dos pés até os fios do lenço que usava na cabeça. A maneira pérfida de Stupka, que observava todas as coisas com uma tranqüilidade desarvorante, quase a fazia desesperar-se.



— Procurem-no. . . — pediu em voz baixa. — Por favor, procurem-no. . . Eu sei, aproximadamente, onde pode estar. Ele me disse em que região pretendia caçar. . . Não podemos deixar de encontrá-lo. . . nós. . . nós o encontraremos. . .

Sua voz se quebrou. Puxou o lenço de cabeça, cobrindo o rosto e soluçou. Stupka a fitou em silêncio durante algum tempo, mordeu o grosso lábio inferior e ficou semelhante a um peixe gordo, com os olhos arregalados. Depois vestiu o casaco e novamente cocou o nariz.

— Vamos, vamos — chamou, procurando tranqüilizar Stella. — Ele ainda não está no caixão. Provavelmente está lá fora agachado junto do fogo, sadio como um touro, e tem em mente fazer algo de especial.

— Ele nunca ficou uma noite fora de casa, sem avisar antes — choramin­gou Stella. — Por que deveria estar agachado junto do fogo?

— E eu lá sei? — Talvez tenha descoberto um animal raro.

— Durante a noite? Quem é que vai caçar no meio da noite?!

— É, isto faz sentido! — Stupka arfava alto. — Fique tranqüila, Stellan-ka. Nós o procuraremos. E se o encontrarmos vivinho da silva, festejaremos! E isto sairá caro, asseguro-lhe!

Uma hora mais tarde todo mundo estava de pe, todos em Novo Calga que podiam se locomover. Apenas as crianças e os muito velhos ficaram em casa. Como de hábito, Stupka era meticuloso. Não fez apenas com que soasse o alarma de incêndio, mas também deu ordem para que tocassem os sinos das igrejas. O carro de bombeiros partiu, e em sete caminhões dirigiram-se to­dos para a taiga, com tochas, lâmpadas de acetileno, holofotes movidos a ba­terias, lâmpadas de mão e lanternas de construção com mechas de querosene.

Era um verdadeiro fogo de artifício, que percorria a floresta e os coros falados sempre ecoavam pela noite: “Piotr! Piotr Herrmannovitsch!” Se Salnikov não tivesse ficado repentinamente cego e surdo, teria de ouvir de longe essa barulhada e responder.

Mas Piotr Herrmannovitsch Salnikov não se apresentava. Stella, que cor­ria pela floresta, com Stupka e o Dr. Semaschko, na vanguarda das colunas em marcha, a cada vez levantava os braços em desespero, ao constatar que depois de um grito só reinava silêncio impregnado de expectativa e a resposta espe­rada não ocorria. Apenas animais assustados fugiam das colunas de fogo, em pânico selvagem, e irrompiam através das árvores.

Contudo, acabaram encontrando-o. Ele havia-se arrastado até o fogo, já baixo, pusera o casaco de linho sobre os ombros feridos e jazia agora, com o rosto virado para a esquerda, de bruços. Estava inconsciente e respirava fraca­mente. Seus lábios tremiam, estavam incolores, quase cinza, á luz das tochas e das lâmpadas de mão.

Stella agachou-se rígida ao lado de Piotr e colocou ambas as mãos sobre sua cabeça. O Dr. Semaschko levantou o casaco de linho. Um murmúrio horrorizado escapou das bocas dos espectadores e alguém disse com voz rouca:

— Irmãos, rezemos. . .

Stupka ajoelhou-se ao lado de Stella.

— Ele ainda está vivo - falou o Dr. Semaschko, com voz entrecortada. — Isto é um verdadeiro milagre. E um segundo milagre haverá se ele continuar vivo.

Já no retorno, dentro do carro de bombeiros, Salnikov recebeu uma infusão de sal de cozinha. Stella segurava-lhe a cabeça, Semaschko tomava cuidado para que a agulha de injeção não saísse da veia com o sacolejar do carro e Stupka, ao lado do bombeiro que guiava o carro, o xingava de idiota, mes­mo sabendo que era impossível passar por tais trilhas da floresta sem sola­vancos.

— Ele viverá? — perguntou Stella, pouco depois que alcançaram a rua pavimentada para Novo Calga. —Diga-me a verdade, Viljam Matvejevitsch. Toda a verdade. É possível sobreviver com tais ferimentos?

— Os ferimentos não são o problema. — O Dr. Semaschko trocou o fras­co com a infusão. Controlava os batimentos cardíacos e o pulso. Curvou-se sobre a cabeça de Piotr e observou-o demoradamente. Mais um milagre, meu amigo, pensou, deixe que ocorra um segundo milagre. Sobreviva! Você tem um coração forte, sempre foi um homem duro feito árvore. Aceite a infusão, deixe que a sua bomba, vazia de sangue, volte a bater. Eu não posso fazer ou­tra coisa senão deixar, incessantemente, que líquido e mais líquido entre no seu corpo.

— A perda de sangue. . . — disse Stella Antonovna com os lábios compri­midos.

— Sim. É isso.

— Mas ele ainda vive.

— É exatamente o que não consigo compreender. Ele não tem mais san­gue algum nas artérias mas ainda respira. . . Não posso explicar tal fato clini­camente. Mas a minha esperança agarra-se a isto.

— Piotr continuará vivendo?

— Só Deus pode decidir.

— Não acredito em Deus, Viljam Matvejevitsch. — Ela o fitou com os olhos arregalados. Em seu olhar havia consternação, espanto, não-compreen-são. — O quê? Você acredita Nele?

— Um médico muitas vezes vê Deus perto de si. Mas eu não posso lhe explicar isto. Você nunca o entenderia.

— Talvez o pudesse. — Ela acariciou a cabeça de Piotr e beijou-lhe os olhos fechados. —Agora mais do que nunca. Gostaria de falar com você a esse respeito mais freqüentemente, Viljam Matvejevitsch.

Ela o fitou e sorriu, fracamente. É um homem idoso. Seus cabelos brancos ficam de pé, como cerdas de vassoura. Dizem que já passou dos 70; por ocasião da Revolução de Outubro já era estudante. E algum tempo depois lutou como subtenente ao lado dos Brancos, perto de Denikin, em um regi­mento de cossacos no Don e em Rostov. Foi aprisionado pelos Vermelhos que o condenaram à morte. Mas, quando aguardava a execução, operou o General Chamkassky de uma hérnia. Foi escolhido para fazer a operação porque encontraram nos papéis de Viljam um relatório segundo o qual ele era o me­lhor cirurgião de sua turma. A cirurgia foi um sucesso. Chamkassky perdoou Semaschko e não deixou que o enforcassem, exilando-o para a Sibéria, onde praticou a medicina em Jakutsk. Não se sabe ao certo como foi parar em Novo Calga, onde ele descobriu que o homem ainda poderia viver livre, sob o amplo céu. A partir deste momento pertencia à comunidade como a terra sobre a qual ela fora erigida. Envelhecia, certo, mas em Novo Calga era consi­derado imortal. Ninguém conseguia admitir que algum dia não poderia mais ver seus cabelos brancos ondulados e nem ouvir mais como ordenava a seus pacientes:

— Baixa as calças, mesmo que não tenha tomado banho. A injeção não vai te fazer mal; estás imunizado contra a sujeira!

Ele acredita em Deus, pensava Stella, devaneando, e continuava a acari­ciar a cabeça branca como cera, exangue, de Piotr. Veja, isto se salvou dos tempos dantanho. Quem o acreditaria? Nunca foi à igreja; se o tivesse feito, as pessoas teriam comentado. Ele deve ter uma idéia de Deus diferente da do Pope*. Preciso conversar com ele a respeito. . . quando Piotr se curar. . .

No pequeno hospital de Novo Calga o Dr. Semaschko fez o que pôde. Aplicou, intracardialmente, um remédio forte para reavivar o coração de Piotr, injetou sangue fresco nas suas veias, fez-lhe massagens no tórax; mas, com tudo isto, não ousava olhar para Stella Antonovna. Ela permanecia de pé, do outro lado da mesa de cirurgia, com as mãos em volta da cabeça de Piotr e esperava que o peito dele se abrisse para uma respiração genuína.

Tão logo o sangue novo fora ligado, ela disse, hesitantemente:

— Mas tudo sai de novo pelas costas...

— Estou percebendo! — Semaschko comprimiu os lábios. Os grossos lençóis empapavam-se de sangue. Era como naquela tola anedota antiga, em que um camponês bombeia água em um balde e se espanta quanta água o seu balde pode conter, e nunca se encher, até que vem alguém e lhe diz: “Seu bur­ro! Você não está vendo que o balde não tem fundo!”

Viraram Piotr. Os terríveis ferimentos estavam à vista, na luz ofuscante dos focos de luz. A carne dilacerada pendia, em pequenos punhados, da pele e dos nervos. O que alguém poderia ainda remendar e costurar ali? Fal­tavam pedaços enormes. Nacos de terra e tufos de capim, agulhas secas de la­nços e morangos silvestres amassados estavam colados no sangue coagulado.


— Ele o atingiu até os ossos — disse Viljam Matvejevistcsh, abalado. — Foi um urso. Aqui em cima, nos ombros, ainda se vêem as marcas das ganas. Enigmático. Na realidade, muito enigmático. Como é que Piotr se deixou sur­preender por um urso?

Retirou a sujeira mais grossa das feridas, com uma pinça, e depois tentou fazer parar as hemorragias mais intensas por meio de grampos. Repentinamente o corpo de Salnikov foi sacudido por um leve tremor, os músculos se distenderam completamente e sua respiração parou.

Semaschko pousou a pinça na mesa, fechou a pequena torneirinha da transfusão de sangue e apoiou-se, pesadamente, na mesa de cirurgia. Em frente dele Stella Antonovna levantou a cabeça e fitou-o calada, com olhos que nada viam.

— Sim. . . — falou baixinho Viljam Matvejevitsch. — Sim. Não existem dois milagres sucessivos. A coisa é assim, Stella Antonovna. É preciso aceitá-lo. . . não podemos fazer mais nada.

Ela acenou com a cabeça, curvou-se sobre Piotr, virou o rosto dele para o lado e beijou-o na face. Suas mãos ficaram sujas de sangue, ela as levantou em direção à luz e as olhou.

— Eu gostaria de levar um pouco do sangue de Piotr comigo — pediu, repentinamente.

Semaschko sobressaltou-se, como se lhe tivessem dado um golpe baixo. Sua boca abriu-se.

— O que é que você quer? — gaguejou atônito.

— Quero levar comigo o sangue dele. . . você acabou de me ouvir.

— O sangue dele? — O médico engoliu a saliva convulsivamente. — Para quê?

— Quero tê-lo.

— Quanto?

Ela baixou as mãos sujas de sangue e com elas acariciou as costas arrebentadas de Piotr..

— Uma garrafinha cheia.

— Irá coagular logo, formar grumos...

— Você tem recursos para fazer com que permaneça líquido.

— Stellinka...

— Por favor, Viljam Matvejevitsch...

— Mas não é mais o sangue dele! —O Dr. Semaschko cobriu o corpo arrebentado com um pano. Suas mãos tremiam, como se estivesse nu, lá fora, na geada. — Trata-se de sangue injetado. . .

— Mas vem de seu corpo! Passou por ele, o seu coração ainda o bombeou pelas artérias. Então é sangue dele! Basta uma garrafinha, Viljam Matve­jevitsch.

Ela cariciou mais uma vez o corpo coberto, e o fez com tanta ternura que Semaschko rangeu os dentes. Depois ela saiu da sala de cirurgia, não como uma viúva alquebrada mas de cabeça erguida e passos firmes. Parecia que ela recebera de Piotr Herrmannovitsch uma missão importante, que agora deveria executar.

O enterro se transformou em uma festa.

Só agora percebiam quão querido era Salnikov e quão bem o conheciam, muito além das fronteiras de Novo Calga. Ninguém disse uma única palavra má a seu respeito. Stella só escutou elogios e manifestações de luto sincero. Sem derramar uma só lágrima, ela aceitou os pêsames oferecidos. Todos a abraçaram, a apertaram contra o peito, beijaram-na na face ou na testa; as mulheres lamentavam-se em voz alta, os homens expressavam seus pêsames com rostos sérios. Armou-se uma tenda atrás da casa. Dez vizinhas cozi­nhavam e assavam bolos, as mesas de madeira estavam repletas de coisas gos­tosas para comer. Havia seis tipos diferentes de carne assada, batatas cozidas, legumes, saladas de cogumelos e panquecas recheadas com galinha. De sobre­mesa havia bolos com bagos cristalizados, tortas com creme de Chantilly e pudins coloridos. Para beber havia cerveja, vinho de morangos, vinho de bétula, vodca e uma aguardente que Stupka preparara pessoalmente, a partir de uma mistura de amoras e bagos silvestres e álcool de batata.

Quão importante fora Piotr para o partido depreendia-se do fato de que o camarada secretário viera pessoalmente, usando um helicóptero laqueado de vermelho, de Mirny, cidade sede da administração municipal Viljui Superior, para Novo Calga, a fim de participar das soknidades. Ele próprio disse as palavras solenes para encomendar o morto:

— Ele morreu como um homem da Sibéria poderia desejar morrer: lá fora, na taiga, em combate com a selva. A maioria de nós morre na cama, isto é normal, isto todos podemos fazer. . . mas ser vencido honrosamente em combate com um urso. . . uma tal partida deste mundo é digna de um Piotr Herrmannovitsch!

Depois foram todos ao túmulo enfeitado. A bandeira vermelha esvoaçava na frente, Stupka e o secretário do partido carregavam o caixão aberto, com outros quatro homens, a capela de Novo Calga tocou uma marcha fúnebre. Jamais se viram tantas pessoas em um enterro; as crianças foram liberadas das aulas e os jovens pioneiros cantavam, à medida que o cortejo se aproximava do cemitério.

Stella Antonovna caminhava atrás do caixão aberto, abraçada pelo Dr. Semaschko. Ela não necessitava de apoio mas Viljam Matvejevitsch julgou cor­reto que no último passeio ela fosse acompanhada por um homem.

Chegando ao túmulo, Stella Antonovna aproximou-se do caixão aberto, olhou para o rosto sério, enrugado, de Piotr e acenou com a cabeça, assim como o fizera durante quase 30 anos, quando ele lhe fazia alguma pergunta ou quando ela desejava acentuar alguma coisa que lhe parecia muito importante.

— Eu o amo — falou ela com voz calma. — Como fomos felizes, durante metade da vida que é concedida aos seres humanos. Você e eu, um amor como o nosso jamais existirá neste mundo. — Recuou, olhou para o atônito Stupka, que não compreendia estas palavras de despedida, e levantou a mão. — Fechem o caixão! — ordenou em voz alta. — Deixem-no repousar.. .

Abaixaram o caixão na cova, jogaram terra por cima e voltaram para a cidade, para a ceia fúnebre. Apenas Stella e o Dr. Semaschko permaneceram junto ao túmulo. . . as pessoas acreditaram que se tratava de uma despedida silenciosa, uma última, e não os perturbaram. Apenas Semaschko deveria ter compreendido melhor o que acontecia, mas na realidade também de nada sabia.

— Por que não vamos embora? — murmurou ele, quando os últimos convidados tinham deixado o cemitério.

— Ainda estou esperando por alguma coisa.

O Dr. Semaschko entrelaçou os dedos e estalou as articulações. Sempre fazia isso, quando estava excitado, e não sabia o que fazer ou dizer.

— Levantar o caixão e sair novamente ele certamente não o fará — rosnou. — O que você está esperando?



— Aguardo ele. . . — Fez um movimento de cabeça em direção à esquer­da. Do outro lado do cemitério aproximava-se, em vestes pretas, o Pope de Novo Calga. Na frente dele, vinha um menino carregando a cruz. Tinham esperado, ocultos atrás dos arbustos, até que terminasse o enterro do partido e ninguém mais se encontrasse na vizinhança. O Dr. Semaschko passou as duas mãos pelo seu cabelo branco eriçado. Incrível, pensou. Isto é realmente incrível.

— Você lhe pediu que viesse?

— Sim. — Stella cruzou as mãos sobre- o peito e fitou a cruz que lentamente dela se aproximava, oscilante.

— Mas você não crê em Deus! - Semaschko tossia abalado, quando o Pope começou a cantar com voz profunda. — E Piotr Herrmannovitsch tam­bém era ateu. . .

— Tem certeza?

— Ele o proclamava aos quatro ventos.

— Falar é fácil.

— Mas ele nunca freqüentou a igreja.

— Não, ele nunca foi à igreja. Você também não. E você acredita em Deus. — Ela fitava o Pope, enquanto ele se aproximava do túmulo e abria as mãos em sinal de bênção, sobre o caixão já coberto de terra. — Sabemos se Piotr não desejaria um Pope? Não quero fazer nada errado. Sempre soubemos o que o outro queria. Apenas na morte nunca pensamos. Esquisito, não? Eu nunca pensei se Piotr talvez acreditasse em Deus e só era inimigo da igreja por minha causa. Nunca falamos a respeito disso. E de repente me vejo pensando: o que foi que ele fez quando percebeu que iria morrer?! Em que pensou? Ele disse alguma coisa? Exclamou algo? Praguejou ou rezou? Ninguém jamais poderá me responder estas questões. E se ele tivesse gritado: Deus! Deus, me ajude! Deus, deixe-me continuar vivendo! Isto é possível, não? Por que um homem forte como Piotr não poderia gritar em busca de auxílio, quando a vida se lhe escorria pelas costas? E por que não poderia apelar para Deus? Isto não seria covardia, Viljam Matvejevtisch! E se ele cha­mou por Deus, eu seria uma má esposa se o deixasse ser enterrado sem Deus. . . mesmo que eu mesma não acreditasse neste Deus.

Segurou o braço do Dr. Semaschko, quando o Pope cantou com voz profunda a prece fúnebre e fez a cruz oscilar sobre a tumba.

— Não lhe parece igual a um teatro? — murmurou Stella.

— E por acaso Stupka fez coisa diferente com a bandeira vermelha?

Ela o fitou, estupefacta. Quando o Pope também a abençoou, levantou a cabeça, ao invés de abaixá-la, e esperou, até que os dois estivessem de novo sós diante da cova.

— O que farei sem você, Piotr? — exclamou e repentinamente começou a chorar, derramando lágrimas amargas. Viljam Matvejevitsch a segurou por detrás e deu-lhe apoio, pois temia que ela pudesse jogar-se na tumba.

— Não existe mais nada para mim sem você. . . Mais nada.

De noitinha, quando todos se embebedavam e se empanturravam, dançavam e faziam algazarra, e o toldo por detrás da casa oscilava e balouçava, Stella Antonovna estava, sentada no canto mais escondido do banco do fogão e fitava o horizonte com olhos vazios.

Viljam Matvejevtisch ficou perto dela, mas evitava permanecer de frente, para que o olhar dela não o alcançasse. Em que pensa ela agora, refletiu ele. Meu Deus, que vida teve! Veio para Novo Calga em 1946, sem nada, a não ser a própria força. Construíram a casa, criaram um pequeno reino, geraram dois filhos, Gamsat, o menino, e Nani, a menina. Com 10 anos Ggmsat morreu de uma septicemia idiota, depois de ter pisado em um prego enferrujado. E Nani foi vítima dos chifres de uma rena raivosa, quando tentava colocá-la no trenó. Tinha 19 anos e desejava ir para a Academia de Jakutsk, para ser pintora. E agora um urso leva Piotr Herrmannovitsch. Que vida, Stella Antonovna!

Em algum momento desta noite, os bêbados a fazerem algazarra sob o toldo, Stella lembrou ao Dr. Semaschko:

— Você não esqueceu a garrafinha com o sangue de Piotr?

— Está lá na minha casa. Você acredita que eu iria carregá-la comigo, como uma garrafa de vodca?

— Está coagulado?

Semaschko novamente estalou as articulações dos dedos.

— Coloquei um aditivo. Está líquido. Exatamente como você queria.

— Obrigada, Viljam Matvejevitsch. Irei buscá-la amanhã de manhã cedo.

De madrugada, às 4:00, ela dançou um bailado folclórico com o secretá­rio do partido de Mirny, pois o camarada, inchado de vinho e de vodca, afir­mava aos berros que uma viúva em idade ainda respeitável deveria ficar alegre, e que sua vida não deveria limitar-se a regar as flores do túmulo.

Todos batiam palmas e cantavam juntos, enquanto Stella dançava. Apenas Viljam Matvejevtisch a observava, pensativo, e procurava interpretar seu olhar. Admirava-se de que ninguém além dele mesmo percebesse quão afasta­da ela estava, apesar de suas pernas se moverem ao ritmo da música e de sua boca sorrir .. .

Na manhã seguinte Stella Antonovna vestiu calças e um casaco de pele macia de rena e botas compridas, feitas a mão, que iam até os joelhos. Depois em­purrou o cabelo louro, já com alguns fios grisalhos, por baixo de um boné de couro redondo com uma aba ampla. Em um tamborete perto da porta estava uma mochila repleta de coisas. Compassadas tranqüilas ela foi a um armário, abriu-o e dele retirou uma carabina. Tratava-se de uma arma bem-cuidada e visivelmente untada de óleo, um modelo que hoje em dia quase ninguém conhece, a não ser que visite um museu da Grande Guerra Patriótica. Lá estão penduradas carabinas, do mesmo tipo, em vitrines de vidro, e um veterano explica à juventude como os heróis as usaram, naquela época, para lutar contra os alemães e vencê-los.

Stella levantou a carabina, de modo que ficasse iluminada pelos raios do sol matutino que passavam pela janela, experimentou o fecho de segurança, olhou pelo telescópio de mira montado, abriu uma caixa com cartuchos enfileirados, de cinco em cinco, e carregou a arma. Arrumou 10 tiras de cinco cartuchos em uma sacola de couro, que lhe pendia dos ombros, fechou o armário novamente e pôs a carabina nos ombros, presa por uma corda.

Diante da casa uma das tecelãs aguardava com um cavalo já selado, uma égua forte, vermelho-cobre, de 10 anos, com pêlo luzidio, olhos atentos e na­rinas largas. Stella deu a volta ao redor da égua, controlou as cilhas da sela, ba­teu levemente com a mão no pescoço do animal e acariciou as narinas moles, alargadas.

— Conseguiremos, Almas — disse Stella com voz decidida. — Não preci­samos mais contar as horas e os dias.

Amarrou a mochila atrás da sela e acenou, animando-a, para a moça que segurava as rédeas. Como se tivesse crescido em cima de um cavalo, jogou-se sobre a sela, segurou as rédeas e cavalgou, em trote leve, saindo do jardim para a rua.

O Dr. Semaschko, no hospital, já tomara conhecimento de tudo isto, quando Stella bateu à sua porta. A viúva Salnikov cavalga pela cidade, diziam, com uma carabina às costas. Um verdadeiro diabo, essa mulher. Está sentada na sela como um cossaco, vestida de couro. Provavelmente quer curtir sua tris­teza e dor na taiga.

— Que aparência você tem! — berrou o Dr. Semaschko, apontando com a mão estendida para a velha carabina pendurada nas costas de Stella, e sacu­diu a cabeça.

— Não se incomode com isso — respondeu ela, duramente. — Onde está a garrafa com o sangue de Piotr?

— Para onde você quer ir?

— Perguntas. Sempre perguntas! Será que eu não posso fazer mais nada, sem que me perguntem o motivo? E é da sua conta, para onde quero ir? Me dê a garrafa.

— Você quer ir ao encontro do urso — falou Viljam Matvejevitsch com voz fúnebre e cheia de pressentimentos. — Você quer vingar-se dele, não é?

Ela ficou em silêncio, esticou a mão direita e estalou os dedos. Se­maschko retirou a garrafinha da geladeira e a colocou na mão de Stella. Ela pôs os dedos em volta do vidro frio. Seu corpo tremia. Mas rapidamente se recuperou e guardou a garrafa junto com a munição na sacola.

— Você é amigo de verdade, Viljam Matvejevitsch — falou, com voz em­bargada. Visivelmente, tinha dificuldade em falar.

— Informarei Stupka — respondeu Semaschko. — Você não pode ir sozi­nha enfrentar o urso.

— Esqueça que sabe disso, Viljam. . . — Semaschko percebeu um luzir estranho nos olhos dela, como jamais vira. — Ou você tem de esquecer que jamais nos conhecemos.

— Você sozinha com o urso! Você! Nunca permitirei que isso aconteça! — berrou Viljam Matvejevitsch. — Não é suficiente que ele tenha matado Piotr?! Você quer ser mais esperta que ele? O urso o ludibriou. . . veio sorrateiramen­te pelas costas e Piotr não ouviu nada. É uma fera! Mas você quer ser mais esperta. . .

— Eu poderia lhe contar muitas coisas. . . — Olhou-o longamente, percebeu intensa preocupação em seu olhar e sorriu tristemente. Nós já nos conhecemos há 26 anos, pensou ela. Primeiro o chamamos de Paizinho, porque éramos tão jovens e você já tinha cabelos brancos. Mas então você disse: “Pai­zinho é uma palavra boa. Mas me deixe ser amigo de vocês. Aqui na taiga isso tem mais importância.” Mas na realidade você sempre permaneceu nosso paizinho, Viljam Matvejevitsch. Agora também é a preocupação de um pai que o incomoda, mas eu não posso ajudar você. Preciso ir para a floresta. Eu prometi a Piotr enquanto segurava sua cabeça, quando ele estava morrendo. — Mais tarde — concluiu ela enquanto ajeitava a arma sobre os ombros.

— O que significa mais tarde?

— Há muito que contar, Viljam Matvejevitsch.

— Você não vai poder contar mais nada, quando o urso a tiver pegado! — gritou Semaschko, cheio de dor.

— Ele não me ludibriará — respondeu Stella, sacudindo a cabeça.

A segurança de sua voz quase enlouqueceu Viljam. Como é que ela pode estar tão segura, uma voz dentro dele gritava. Ela empunha uma carabina e pensa que isto basta! Por acaso ela jamais deu um tiro? Quem é que jamais a viu lidar com uma arma? Piotr quase sempre caçava sozinho; quando ela ia junto, somente ficava sentada ao lado e se preocupava apenas com a comida. Por acaso ela sabe o que é um telescópio de mira? Para que está montado na arma? Ela morreria de susto ao olhar por ele e ver o urso fitando-a, como se estivesse diretamente na sua frente.

— Por acaso você sabe atirar? — gritou para Stella. — Você sabe como se segura uma carabina?

Ela o fitou quase assustada, tão estupefacta ficou com esta pergunta; depois sacudiu a cabeça várias vezes e pôs a mão na coronha da arma.

— Quero ficar só — respondeu séria. — Sozinha na floresta, você me en­tende, Viljam Matvejevitsch. Não mande ninguém atrás de mim! Estou adver­tindo-o. Quem matar meu urso é meu inimigo. . .

— Você está doida, Stellanka. Totalmente maluca! A morte de Piotr virou sua cabeça! O seu lugar é na cama, amarrada com cintos de couro!

O Dr. Semaschko ficou parado, impotente, ao ver que Stella Antonovna lhe virava as costas e ia para a porta. Ela parecia muito bélica em sua vestimenta de couro, com as botas longas e a velha carabina de cano comprido às costas.

— Por acaso ela ainda atira. . . ainda atira. . . essa bisavó de uma carabi­na? — gritou Viljam Matvejevitsch desesperado, quando Stella já estava na so-leira da porta. — Ou será que você pretende estraçalhar a cabeça do urso com a coronha? A calota craniana de um urso é dura feito aço. . .

— A bisavó. . .? — Stella virou-se e pôs o polegar esquerdo por baixo da correia da carabina. A expressão do seu rosto era muito séria, quase solene. — Contar-lhe-ei a respeito dela, Paizinho. . . depois do meu regresso.

Ela abriu a porta à força e saiu do hospital apressadamente. Semaschko viu, pela janela, como ela pulou, como se fosse uma jovem, na sela e cavalgou rua abaixo, e de repente percebeu que vivera 26 anos com e ao lado dos Salnikovs, como pai substituto e amigo, e que esta bela mulher sempre represen­tara para ele um enigma, um enigma que agora, depois da morte de Piotr, parecia mais insolúvel que nunca.

Ela está totalmente diferente, sentiu Viljam Matvejevitsch com um assombro ilimitado. Totalmente diferente do que vimos até hoje. Naturalmen­te ela sabe atirar, naturalmente ela sabe como se segura uma carabina, não há dúvida de que sabe mirar com o telescópio. E certamente irá acertar no urso. Ele não irá ludibriá-la. Ela o deixará aproximar-se, fria até a alma, gélida como a neve de janeiro, e depois curvará o dedo no gatilho. E quando ele cair e se debater no estertor da morte, ela dirá: “Piotr, meu querido, agora você pode seguir tranqüilo para a eternidade...”

— Meu Deus — falou baixinho o Dr. Semaschko e pôs as mãos em posi­ção de prece. — Como podemos ser tão cegos. Eu sou realmente um idiota.

Stella Antonovna ficou quatro dias e quatro noites sozinha na floresta. Mal se afastava do lugar onde Piotr tinha feito o seu foguinho, para assar a carne. A terra ainda estava empapada de sangue no local onde o urso o atingira. Só chovera uma vez durante os últimos dias, não o suficiente para diluir o sangue e fazê-lo desaparecer na terra da floresta. Stella se sentara no chão, diante da grande mancha vermelha-escura e colocara as mãos espalmadas sobre a grama pegajosa. Internamente, dialogava com Piotr. Ela sabia que ele a ouvia. Ele estava perto dela, ao seu redor, estava sentado a seu lado, ela o sentia nitida­mente e estava feliz, até alegre, e acreditava, repentinamente convicta, que não existe morte definitiva, apenas uma transformação da matéria. . . do corpóreo que se pode segurar, ao espiritual sentido. Eternidade. . . Agora com­preendia este conceito, ao tocar com as mãos o sangue de Piotr e sentir sua proximidade.

O urso retornaria, disso tinha certeza. Cada animal tem seu território, no qual vagueia, dentro dos seus limites. O território de um urso é largo; es­tende-se por muitos verst, mas apesar disso tem fronteiras. E assim um certo dia ela retornará também para este lugar, onde estraçalhou um homem. Será que ele se recorda disso? Um urso possui memória? Como quer que seja. . . ele voltará e verá Stella Antonovna. Irá mirá-la, como está agora, sentada junto ao fogo, com a carabina velha, de cano comprido, sobre os joelhos. . . a viúva Salnikova, que espera por ele e deseja vingar-se.

Ele a sentirá? Sairá da floresta espessa e se apresentará? Ou irá também espreitar essa pessoa, acercar-se silenciosamente, furtivamente, e enganá-la?

Stella esperava pacientemente. Não se deu ao trabalho de percorrer a taiga, procurar a pista do urso e segui-lo. Tinha-se posto á vontade no local onde Piotr morrera, recolhido bastante lenha para o fogo noturno, construí­do um teto protetor de troncos de lanços e grossos ramos de pinheiros, ali­mentando-se das conservas que trouxera na mochila. Conseguiu resistir à ten­tação de atirar em um coelho, que corria sem temor pela clareira em direção ao riacho selvagem e se sentou ao sol, sobre uma pedra polida.

Fique quieta, completamente quieta, pensava. Qualquer ruído pode assustar o urso, pode adverti-lo e afastá-lo daqui. Raramente deixava seu acampamento e só ia para o rio borbulhante para se lavar, na deliciosa água fria. Perto do meio-dia, quando o calor do verão precoce estancava sob as árvores, ela se deitava nua na correnteza ondulante; mas também nesses momentos permanecia perto da margem, com a carabina ao alcance das mãos, de modo que um só pulo fosse o suficiente para levantar, rápido, a arma sempre pronta para atirar, sempre destravada. Era impossível surpreender Stella Antonovna.

Deixava Almas correr livremente. Ela representava a melhor advertência. Se o urso se aproximasse sorrateiramente, a égua sentiria seu faro e correria, com os flancos a tremer, para perto de sua dona.

No quinto dia apareceu o Dr. Semaschko. Veio de motocicleta, uma coisa que fazia um barulho horrível e deixava escapar tanta fumaça, que Stella ouviu e viu de longe, o que a levou a praguejar de modo totalmente não femi­nino. Semaschko penetrou no silêncio como uma tempestade. Vestia um vellho terno de caçada com botas de amarrar, um traje no qual as pessoas iam à taiga talvez há 50 anos. O cabelo branco estava coberto por um boné de tricô azul. Ao descer da sela daquele monstrengo ruidoso de duas rodas, balançava pelos ares uma nova carabina militar.

— Quatro dias desperdiçados! — disse Stella zangada, ao ver Semaschko radiante diante dela. — Viljam Matvejevitsch, você estragou tudo! Se ele esta­va pelas redondezas, decerto já se mandou!

— Foi a única maneira de evitar que Stupka e 10 de seus homens viessem às escondidas para a floresta e fazer um cerco a este local. Realmente, era esse o seu propósito. Depois discutimos e Stupka perguntou: “Há muito o que fazer no hospital?” “Não”, respondi. “Apenas duas camas estão ocupadas.” “Com quem?”, perguntou Stupka. Eu redargüi: “Uma perna em gesso e um aborto espontâneo.” E Stupka berrou: “Inacreditável! Então uma perna en­gessada e um aborto espontâneo povoam o hospital. É difícil aceitar isso! Oh tempos decadentes, de gente mimada! Ponha-os na rua, Viljam Matvejevitsch, feche a porta e tire uns dias de férias na floresta.” Eu me defendi. “Como pos­so fazer isto, Fedja Alexandrovitsch? Um hospital de portas fechadas. . . não se pode agir assim! Temos compromissos éticos, humanos e médicos. . . E se ocorrer alguma emergência aguda. . .?” E o que respondeu Stupka? “Não ocorrerá nenhuma emergência médica em Novo Calga, enquanto você estiver de férias na floresta, Viljam Matvejevitsch. Disso cuido eu!” — O médico sus­pirou, sentou-se sob o toldo protetor e tirou o boné de tricô da cabeça encanecida. — Só assim me foi possível vir sozinho, sem Stupka e seus 10 homens. Tive de jurar que não voltaria antes que você também encontrasse a paz! Isto é um problema, Stellanka. Não podemos deixar o hospital fechado até o Dia de São Nunca. Ordens não impedem as pessoas de adoecerem.

— E então você agora quer ficar aqui? - perguntou Stella, excitada. Suas faces ardiam de ira. Fez a volta pelo fogo baixo, deu um forte chute na motocicleta deitada de lado e se controlou com dificuldade para não prague­jar como o fizera antes, ao ouvir a barulhada pela primeira vez. — De onde veio essa carabina?

— Pertence a Stupka. Esta é a nova arma militar. Uma Simonow-SKS. Alcance de mira até 1.000 metros. . . — Semaschko lhe apresentou a arma. — Com isso você pode atirar melhor do que com seu velho mastodonte. . .

— A minha vovozinha, como você a denomina, tem um alcance de mira de 2.000 metros. . .— respondeu Stella, como se não estivesse dando muita importância ao que falava. — Com um cartucho M-30, tipo B-30, quebro qual­quer couraça. O projétil possui uma velocidade inicial de 850 metros por se­gundo. . . Isto nenhum outro cartucho consegue. . .

Semaschko arregalou os olhos, sem fala, e cocou a cabeça com os cabelos brancos esvoaçando ao vento. Depois estalou as juntas dos dedos e apoiou-se na linda e moderna carabina militar como se fosse uma bengala.

— As palavras me fogem — falou ele finalmente. — Então você andou re­presentando um papel para nós durante 26 anos?

— Você não precisa cuidar de mim como um cachorro domesticado, só porque agora sou viúva! — redargüiu ela grosseiramente. — Volte para os lei­tos do seu hospital. Não estou doente. Sinto-me sadia como nunca me senti antes. Nem pensar que isto possa continuar! A pobre viuvazinha. . . tão só. . . é preciso infundir-lhe coragem. . . não devemos deixar que ela se sinta abando­nada. . . ela poderia tropeçar, a almazinha. . . machucar-se ao levantar um bal­de. . . afinal de contas, já não é mais um broto, a mulherzinha. . . formem uma comissão, vocês vizinhos queridos, discutam entre si e elaborem um calendário: quem deve estar a postos amanhã e depois de amanhã e no dia 17 de agosto. . .? A pobre Stella Antonovna. . . precisamos nos ocupar dela. . . — Deu outro chute irado na motocicleta e empertigou-se diante do Dr. Semaschko. Como uma feirante, cujos tomates tivessem sido amassados, ela fincou os braços contra o tronco. — Dê o fora, Viljam Matvejevitsch! — praguejou com olhos a faiscar de raiva. — Quando eu precisar de você, então o chamarei!

O Dr. Semaschko, com seus setenta e tantos anos, tinha experiência em lidar com mulheres. Jamais casara, mas no decorrer do tempo tivera algumas amantes, que sempre despedira sem causar grande escândalo, o que decididamente demonstrava sua capacidade de tato. Além disso, um médico é sempre um confessor de seus pacientes. Dessa forma coleciona uma verdadeira monta­nha de experiências e obtém variados discernimentos da vida do dia-a-dia. Assim, após meio século, pode dizer sem exagerar: o homem, queridos irmãos, este eu conheço!

O médico pestanejou para a mulher enraivecida; depois, apoiado na linda carabina Simonov, foi para perto do fogo, sentou-se no chão e esticou as pernas.

— Gostaria de uma xicarizinha de chá — pediu calmamente.

— Que o diabo o prepare para você! — rosnou Stella.

— Também pode ser um diabinho. — Viljam Matvejevitsch riu, cacarejando. — Não faça fita, Stellanka. Por que você está tão enfurecida? Se Piotr pudesse nos ver agora, me abraçaria e diria: Bem feito, meu amigo! Não deixe minha mulherzinha só.

Tratava-se de uma argumentação ardilosa, para a qual Stella não encontrou resposta. Se Piotr nos pudesse ver. . . esta frase a tornava indefesa, Pois ela sentia a presença de Piotr neste lugar, já que conversara com ele durante quatro dias e quatro noites.

Na madrugada do sétimo dia veio o urso.

Da baixada subiam véus de névoa, penduravam-se como lenços esfarrapados nas copas das árvores e arrastavam-se pela clareira. Havia um cheiro agridoce de decomposição, de madeira mofada e musgo úmido. Almas, a égua cor de cobre reluzente, o farejou primeiro. Ela se levantou, jogou as patas dianteiras para o alto, em direção ao ar úmido da manhã; depois ficou parada, ao lado do toldo de proteção, com os flancos a tremer e as narinas dilatadas, fitando com grandes olhos redondos a orla da floresta; lá, onde começava o suave declive para o riacho selvagem.

Semaschko ajoelhou-se detrás de sua motocicleta como atrás de um tan­que blindado e ajeitou a arma sobre a sela. A voz lhe faltou, de tanto medo. Dormira enrolado em um cobertor e protegido contra a umidade por um saco plástico que puxara até a altura do pescoço. O rosnar ameaçador de Lebjotka o despertara, e ainda antes de avistar o urso sabia que a hora da decisão chega­ra. Desvencilhara-se do cobertor e do saco e pegara a carabina. Só então perce­beu que Stella não estava debaixo do toldo protetor.

Oh céus!, pensou. Meu Deus! Será que o drama vai se repetir? Olhou apreensivo em torno de si e descobriu Stella Antonovna lá embaixo, no rio. Ela tomara banho, estava vestindo a blusa de algodão e espremia a última umi­dade dos cabelos. Como sempre, a carabina estava a seus pés, ao alcance da mão. Isto tranqüilizou um pouco o médico, mas o perigo que ameaçava Stella, este ainda não fora domado.

Devo gritar?, pensou Viljam Matvejevitsch. Se eu berrar agora, o urso foge e Stella irá me despachar como um cão vagabundo. Se eu não gritar, o urso irá rodeá-la, ardilosamente, e tentar o mesmo jogo mortal que fez com Piotr Herrmannovitsch. Deus do céu, pela minha alma, o que devo fazer?

Pôs a sua linda e nova Simonov em posição de atirar e mirou pelo telescópio. Mas o urso era um canalha refinado. Ficou sob a sombra dos troncos, não entrou na clareira; dissolvia-se entre o verde das folhas, o marrom dos ra­mos e o nevoeiro ondulante. Só de vez em quando aparecia, como um fantas­ma, ao trotar silenciosamente de uma árvore para outra.

Sem de nada suspeitar, como parecia, surgiu Stella, refrescada pelo banho, subindo a pequena encosta, a arma quase solta na mão direita. Acenou para o Dr. Semaschko, deu uma palmadinha nas costas de Lebotjka, que se acercara dela com as pernas trêmulas, e agachou-se para atiçar o fogo. Depois pendurou a caçarola na armação e nela despejou água fresca retirada de um balde plástico. O Dr. Semaschko sentia uma fraqueza decididamente não mas­culina nos joelhos.

— O urso está aí. . . — falou em voz baixa.

— Cale a boca! — respondeu ela calma. — Eu sei.

— Agora está saindo. . . Está olhando para nós.

— Não lhe dê atenção, Viljam Matvejevitsch.

— Meu Deus, que camarada. Nunca vi um urso assim. Nem mesmo em fotografias!

— Qualquer outro não teria vencido Piotr.. .

Ela deu meia-volta, ficou tranqüila ao lado do fogo e olhou para o urso.

Aí está você, pensou. Então é assim que você é, seu assassino! Você ma­tou Piotr, mas só o conseguiu porque veio por trás. Que você seja ardiloso, isto não levo a mal, meu amigo. . .. é preciso vencer o inimigo com todos os meios de que dispomos. Isto nós treinamos, e houve uma época em que muitas vezes uma fração de segundo decidia se morreríamos ou sobreviveríamos. Nunca pensei que eu necessitaria disto de novo. . . este frio até o coração, a necessidade absoluta de que cada músculo de meu corpo reaja de forma adequada no próximo segundo, esta clareza no cérebro, na qual todo o nosso pensamento se concentra em uma só linha: a linha pelo telescópio de mira enroscado, sobre o ponto de mira até a encruzilhada da cruz reticulada, na qual se vislumbra a cabeça do adversário, sua testa, a raiz do nariz, seus olhos. . . sua morte.

Quanto tempo faz. . . mas isso a gente não desaprende. Mas é que eu nunca mais queria fazer uso dessa habilidade. Nunca mais! Deveria estar enter­rado sob os anos, sua lembrança eliminada. Mas você, urso, assassino de Piotr, você me faz esquecer decênios. Estou tão fria como dantes, tão calma, tão concentrada. . . e agora paro de pensar. . . só resta a linha, a linha diante dos olhos, da cruz reticulada para você...

O urso desconfiou do perigo. Ficou parado na orla da floresta, cercado pela névoa. Ele agora se sentia seguro, protegido por árvores e arbustos. Silen­ciosamente andava sobre as patas endurecidas na direção do rio. A água o se­duzia, tinha sede e pensava em um peixe suculento.

Bem devagar, evitando qualquer movimento apressado, Stella levantou a carabina. O Dr. Semaschko, que estava deitado atrás da motocicleta, quase arrancava os cabelos brancos.

— Mas você não vê nada... — murmurou veementemente.

— Vejo o suficiente. — Stella levantou a carabina à altura dos ombros. A coronha bateu nas axilas, como se quisesse lá acampar.

— Mas ele está longe demais! — rosnou Semaschko. — Como é que vo­cê quer acertar nele assim?!

A sua cabeça é mais gorda, três vezes mais gorda que um capacete de ferro com um rosto pálido como alvo por debaixo, pensava Stella. Viljam Matvejevitsch, agora cale a boca. Você nem tem idéia. Ele está tão perto para mim, que poderia acariciá-lo.

O dedo no gatilho curvava-se para o ponto de disparar. Na cruz reticulada estava a cabeça do urso, uma juba peluda grossa, marrom-preta, com ore­lhas pequenas, que se viravam para todos os lados. Vire-se, assassino, pensava Stella. De lado é ruim. Preciso ser capaz de encarar você nos olhos. . . neste ângulo o cartucho irá bater na sua cabeça, esmigalhar seu cérebro, é um cartu­cho B-30 com ponta preta, por assim dizer uma bala pesada, que também fura um tanque blindado. . . entrará na sua cabeça como se ela fosse uma esponja . . . mas você ainda não está na posição certa! Eu sempre só atirei quando via os olhos. . . este último olhar, indefeso, sem nada suspeitar, na cruz reticulada da minha arma.

O urso levantou a cabeça, farejou na direção do Dr. Semaschko. . . para Viljam Matvejevitsch não era mais do que uma mancha indistinta na névoa matutina.

O tiro foi seco, não muito alto. Ficou sem eco na floresta molhada e não rolou pelas árvores, mas foi absorvido como por algodão. Semaschko estremeceu, olhou para Stella e percebeu que ela tinha deixado cair novamente a carabina. Depois mirou pelo seu telescópio, examinou a orla da floresta sem êxito e saiu de detrás da motocicleta.

— Agora ele sumiu! — disse cheio de admoestações.

— É, foi embora.

— É impossível atirar de uma distância como essa! Mas convença-se uma mulher! Terminou a caçada!

— É, terminou.

— Voltemos para Novo Calga. Não tem mais jeito. O urso não volta mais.

— Não. . . ele não volta mais. . .

Alguma coisa na voz de Stella irritava o Dr. Semaschko. Ficou parado, olhou para a beira da floresta e novamente arrepiou os cabelos com ambas as mãos.

— Venha. . . — ela chamou.

Pegou a sacola, deixou a carabina ao lado do fogo e dirigiu-se lentamen­te para a encosta. Viljam Matvejevitsch agarrou sua arma e correu atrás dela. Isto não é possível! Pensamentos incríveis lhe passavam pela cabeça. Isto é to­talmente impossível! Isto é feitiçaria. Com esta distância, com este nevoeiro, somente era possível ver uma sombra. . . quem me acreditará, se eu o contar? Eu mesmo não o acreditaria e chamaria qualquer um, que afirmasse tal coisa, de fanfarrão. Mas agora eu mesmo o vivenciei! Agora, há cinco minutos, na taiga ao norte de Novo Calga.

O urso estava deitado de lado, como se estivesse dormindo. A morte o surpreendera tão rápido, que nem poderia ter sentido dor, quando o cartucho B-30 estraçalhou-lhe o cérebro. Semaschko, mobilizado, abaixou-se na direção do urso, emocionado, antes de mais nada, pelo imenso tamanho e força do animal, e o fitou nos olhos. Mas agora só existia um único olho brilhando rai­vosamente. . . no lugar do olho esquerdo havia um buraco redondo como um círculo, do qual apenas escorria um fino fio rubro, de sangue.

Stella Antonovna não deu atenção a Semaschko, que fitava atônito o tiro e sua vítima. Ela se sentou na grama, ao lado da cabeça do urso, abriu a bolsa e retirou a garrafa com o sangue de Piotr. Depois agarrou o focinho do animal, abriu-lhe os dentes com uma força que novamente deixou Semaschko desconcertado, quebrou a garrafa nas presas brancas e deixou o sangue de Piotr escorrer pela goela fedorenta.

— Meu Deus — balbuciou o Dr. Semaschko torcendo as mãos. — Oh, meu Deus. . . Como você consegue odiar tanto, Stellinka.

Chegaram de volta a Novo Calga de noite. Foi uma verdadeira sensação. Na frente ia o Dr. Semaschko, com sua motocicleta barulhenta; depois seguia Stella montada na sua Almas. Ela estava muito séria, não reagia aos acenos amistosos da multidão. Atrás da égua, amarrado por uma corda forte, o urso era puxado; a robusta égua o arrastara assim pela taiga. Agora ele ia pela rua, aos solavancos, com forte ruído, as patas imensas esticadas, com a goela suja de sangue, uma corda em volta do gordo pescoço. Em priscas eras Hector arrastou assim o vencido Patroclos pelas muralhas de Tróia, em seu carro de combate, um vencedor que usava o horror como se fosse um lauréu.

— Ele deve ser preparado. . . — falou Stella mais tarde, na sua casa. — Preparado e empalhado. Quero tê-lo sempre na minha frente. Quero cuspir na sua cara, bater nele, rogar-lhe uma praga! E não se deve substituir o seu olho . . . quero ver o buraco!

— Sim, o olho. — O Dr. SemascbJco estava sentado no banco ao lado do fogão, perto de Stella, e de novo fazia estalar as juntas dos dedos. O que o preocupava por dentro era difícil expressar por meio de palavras. Aí só ajudava torcer as mãos e estalar as juntas. Bebeu dois goles de vinho de bétula en­quanto observava Stella, que se levantara, fora a uma cômoda, abrira uma ga­veta e retirara um gordo maço de papéis, envolto em papelão. Ela o colocou na mesa e voltou ao banco. — Você queria dizer alguma coisa? — perguntou o médico.

Ela acenou com a cabeça, tomou um gole de vinho e encostou a cabeça bem para trás, no fogão frio, de tijolos. Em uma moldura, sobre a qual fora amarrado um véu preto, na parede defronte, havia uma fotografia de Piotr Herrmannovitsch. Ainda jovem neste retrato, que fora feito há quase 20 anos pelo fotógrafo Schemelnik, que falecera há muito, Piotr era um homem bonito. Nesta época Gamsat, seu filho, ainda vivia. Sim, o jovem Salnikov fora um ho­mem belo, assim como a jovem Stella também fora linda. Ainda hoje se podia perceber. . . ela possuía algo da maturidade dourada de um outono abençoado.

— Como me chamo? — perguntou ela repentinamente. O Dr. Semaschko pestanejou, fitando-a abobalhado.

— Stella Antonovna Salnikova. O que quer dizer isto?

— Salnikov. Sim. . . Este nome nós o inventamos. Ou melhor: nós o rou­bamos.

— Vocês o roubaram?! — Os dedos do médico rangiam perigosamente. — Não faça brincadeiras tolas, Stellanka.

— Foi em 1943, perto de Charkov. Piotr. . . ele então não se chamava ainda Piotr. . . necessitava de documentos. . . era um homem sem nome, um nada, na realidade ele não existia, e eu também não existia. . . não mais. . . apesar de toda a Rússia me conhecer. — Olhou para Semaschko e sorriu apaziguadoramente. — Você vai entender logo, Viljam Matvejevitsch. Vivíamos em Charkov, era tempo de guerra, e estávamos abrigados pior que ratos, e tam­bém éramos caçados como ratos. Ao retirar soldados feridos de um caminhão, operação esta na qual Piotr estava ajudando, um camarada morreu nos seus braços. Esse homem se chamava Piotr Herrmannovitsch Salnikov. O meu Piotr tomou os documentos para si e a partir daquele momento se chamou assim. O morto foi enterrado sem nome. Nós choramos de alegria. Agora éramos nova­mente gente, tínhamos um nome, podíamos sair do porão de ratos à luz do sol, podíamos viver. . . — ela voltou a tomar um gole de vinho de bétula, olhou para a fotografia de Piotr e acenou para ele, como se lhe tivesse dito: Está bem assim, Stellinka. . . conte para ele. Viljam Matvejevistch é um bom amigo. . .

— Você conhece Korolenkaja? — ela perguntou de sopetão.

O Dr. Semaschko, que estava empenhado em assimilar, com muito es­forço, o que acabara de ouvir, estremeceu novamente.

— Trata-se de um lugar?

— Ora, envergonhe-se, Viljam Matvejevitsch! E diz que é um patriota?! Korolenkaja é um nome...

— Que devemos conhecer?

— Este nome está esculpido em pedra em um monumento de Moscou. Pode ser lido nos livros escolares. Milhares de rapazes e moças conhecem a his­tória. . . a história da Korolenkaja, “Heroína da União Soviética”.

— Agora, parece que me vem algo à mente — respondeu o Dr. Semasch­ko, pausadamente. — Oh, céus, há quanto tempo! Quantos nomes foram cita­dos nessa época!

— Na Grande Guerra Patriótica só houve 91 mulheres que se tornaram Heroínas da União Soviética. Moças que combatiam nas frentes de batalha, as mais próximas das unhas inimigas. Mais da metade dessas heroínas eram artilheiras. . . Korolenkaja também. Ela caiu, foi morta a tiros pelos alemães e en­terrada. Está escrito em todos os livros escolares: Perto de Casatschja-Lopan, na via férrea entre Charkov e Cursk, a Korolenkaja deu sua vida pela Rússia.

— Você a conheceu? — O Dr. Semaschko segurou o copo de vinho e não sabia mais o que devia pensar, acreditar e dizer. O tiro no olho do urso, aquele tiro de mestre, certeiro, com nevoeiro e distância imensa. . . Deus do Céu, aonde chegaremos?

— Leia aqueles documentos, redigidos por Piotr. — Ela apontou para a mesa e para o grosso maço de papéis, envolto em papelão. — Temos algo a re­cuperar. . . — Encostou-se de novo no fogão frio, olhou para a fotografia de Piotr na parede e lhe sorriu. — Você ainda não sabe o nome e o patronímico da Korolenkaja?

— Nem tenho idéia. . . — respondeu o Dr. Semaschko, abafadamente. Tinha a sensação de cair em um abismo profundo, escuro e macio.

— Stella Antonovna.

Nenhum dos dois proferiu mais uma só palavra. Na vizinhança um cachorro latia miseravelmente.

Viljam Matvejevitsch levantou-se do banco perto do fogão, arrastou-se pesadamente para a mesa, tomou os papéis nas mãos e se sentou na janela, aos raios vermelhos do sol do crepúsculo.

O que seria da Rússia sem a Sibéria, pensou, quase respeitosamente. Ela absorve destinos como uma esponja a água.





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