Karl Popper versus Theodor Adorno: lições de um confronto histórico



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Karl Popper versus Theodor Adorno: lições de um confronto histórico.
Angela Ganem

Resumo

Em 1961 no Congresso da Sociedade de Sociologia Alemã duas grandes referências teóricas do séc XX enfrentaram-se num debate histórico em torno da lógica das ciências sociais. Além de questões metodológicas stricto sensu o confronto ficou conhecido como o debate entre o positivismo e a dialética. O primeiro movimento do artigo trata das trajetórias teóricas de Popper e de Adorno e a relação que suas teorias guardam com as suas convicções político-ideológicas. Examina-se de um lado a trajetória epistemológica popperiana, suas contribuições e as críticas contundentes a Marx no que ele denominou de “miséria do historicismo” e falso mundo profético marxista e, de outro, o papel de Adorno na Escola de Frankfurt, suas críticas ao totalitarismo e a defesa de uma razão crítica emancipatória. Em seguida trata do confronto em si, da exposição das vinte e sete teses de Popper que culminam com a lógica situacional e o método da economia como exemplar para as ciências sociais e da perspectiva crítica da sociologia e da sociedade como objetos indissociáveis para Adorno. Na conclusão mostramos como a articulação da teoria com a visão de mundo de cada autor ajuda a esclarecer os termos do debate e como o confronto contribuiu de forma inequívoca para a dinâmica do progresso científico e para a história crítica das idéias.



Abstract

In 1961 during the Congress of the German Society of Sociology, two great theoretical references of the XXth century faced in a historical debate about the logic of the social sciences. In addition to methodological issues strict sense, the confrontation became known as a debate between positivism and dialectic. The article first deals with the theoretical trajectories of Popper and Adorno and the relation of their theories with their political and ideological certainties. On one hand, the trajectory of the Popperian epistemology is examined, its contributions and vigorous attacks on Marx in what he called ‘poverty of historicism” and false predictive Marxist world, and, on the other hand, the role of Adorno in the Frankfurt School, his criticism of totalitarianism and the defense of a critical emancipatory reason. The article also deals with the confrontation itself, the exposure of Popper’s twenty-seven theses that culminate with the situation logic and the method of the economy as exemplary for the social sciences and Adorno’s critical perspective of sociology and society as non-separable objects. In conclusion we show how the articulation of theory with the weltanschauung of each author helps to clarify the terms of the debate and how the confrontation contributed unequivocally to the dynamics of scientific progress and for the critical history of the ideas.


Palavras chaves: debate Popper e Adorno, dialética, positivismo, método popperiano.

Key –words: Popper and Adorno’ debate, dialects, positivism, popperian’s method.

JEL: B40, Schools of Economic Thought and Methodology, Economic Methodology, General.

Área ANPEC: Área I – Escolas do Pensamento Econômico, Metodologia e Economia Política.
Karl Popper versus Theodor Adorno: lições de um confronto histórico.
Em 1961 no Congresso da Sociedade de Sociologia Alemã duas grandes referências teóricas do séc XX enfrentaram-se num debate histórico em torno da lógica das ciências sociais. Além de questões metodológicas stricto sensu o confronto ficou conhecido como o debate entre o positivismo e a dialética. O enfrentamento entre Popper e Adorno o autor consagrado como o maior epistemólogo do século XX e um dos mais influentes autores da Escola de Frankfurt, guarda uma grande distancia da possibilidade da boa conversação de MacCloskey. Entretanto, é exatamente na reafirmação da absoluta impossibilidade de convergência, de consenso, que reside o grande interesse desse debate.
O século vinte foi rico em debates polarizados, em confrontos teóricos, políticos e ideológicos, reflexo, entre muitas outras ocorrências, a da instigante e problemática experiência do socialismo real e do horror irracional do holocausto. Do ponto de vista filosófico, severas críticas às limitações e aos descaminhos do projeto emancipador iluminista partiam das mais variadas vertentes. É nesse contexto que o artigo se move. Na primeira seção pretende-se revelar quem são os dois autores/atores desse debate, suas trajetórias teóricas e a relação que suas teorias guardam com suas convicções político-ideológicas. Para tanto, examinaremos a trajetória epistemológica popperiana, suas contribuições, bem como as críticas contundentes que fez a Marx, identificadas na “miséria do historicismo” e no que denominou de falso mundo profético marxista. Em seguida, examinaremos o papel de Adorno na Escola de Frankfurt, suas críticas ao totalitarismo e sua defesa de uma razão crítica emancipatória. A segunda seção trata do debate em si. De um lado, as vinte e sete teses de Popper que culminam com a lógica situacional e o método da economia, como exemplar para as ciências sociais. De outro, a perspectiva crítica da sociologia e da sociedade como objetos indissociáveis para Adorno. Finalmente, nas conclusões mostramos como a articulação da teoria com a visão de mundo de cada autor é um importante elemento esclarecedor dos termos do debate. A maior lição que retiramos desse episódio é que o confronto, o debate corajoso das idéias, para além de deixar um lastro de interesse pelas obras e pela história dos autores, contribuiu de forma inequívoca para a dinâmica do progresso científico e para a história crítica das idéias.
1. Os dois atores e suas trajetórias no conturbado séc XX.

O século em que viveram nossos dois atores, Karl Popper e Theodor Adorno, foi marcado pelo desencantamento das possibilidades da razão humana na construção de um mundo novo cujas evidências mais contundentes foram o holocausto e o totalitarismo stalinista. Vozes democráticas dissonantes marcaram sua posição contra uma razão totalitária, entre elas a de Hannah Arendt, uma filósofa sensível às agruras do século XX e que não passou ao largo do desastre político produzido pelo totalitarismo, seja ele fascista ou stalinista, retirando dele lições e conseqüências que marcaram profundamente a sua teoria. De nada valeram as nuanças e defesas de Marx contidas em suas obras, tão pouco a sua crítica à degradação cultural das sociedades capitalistas ou a posição clara que assumiu com relação a uma ação política emancipatória. Arendt pagou um preço alto por ter criticado o stalinismo e a idéia de uma ordem socialista fruto de uma razão fabricada.


Dentro da filiação marxista, a Escola de Frankfurt conseguiu construir uma visão crítica da crise teórica e política do século XX consolidando a Teoria Crítica, termo que acabou designando a maior contribuição teórica da Escola. Adorno, um dos seus baluartes, situa-se entre os grandes autores que sustentaram o revigoramento do marxismo na Alemanha, munido de novas perspectivas teóricas e afinado com a discussão imposta pelos rumos do capitalismo no século XX. Construiu uma arguta crítica às expressões contemporâneas do totalitarismo, além de ter percebido as novas formas de dominação e de resistência. Constatou a existência de uma consciência manipulada por uma industria cultural nociva e observou que a arte e a filosofia poderiam ser antídotos frente a uma experiência humana destituída de sentido.
Numa posição diametralmente oposta, dois autores de peso definiram-se como intelectuais discordantes do socialismo como projeto de sociedade - Friedrich A. Hayek, um dos mais importantes teóricos e ideólogos do neoliberalismo e Karl Popper, a maior referencia entre os epistemólogos do séc XX. Ambos foram duros com a idéia de um fim da história associada ao profético mundo socialista marxista. Guardadas as diferenças de método, a Miséria do Historicismo de 1944/1945 e A Sociedade Aberta e seus Inimigos de 1945, ambos de Popper, e o Caminho da Servidão, de Hayek, publicado em 1946 tem o mesmo alvo: desmontar cientificamente o argumento da possibilidade de uma leitura da história e derrubar a visão profética do socialismo decorrente de supostas leis imanentes. No lugar do socialismo, temos a apologia do mercado para Hayek, e em Popper, a crença na eficiência de reformas institucionais. A repaginação dessa perspectiva expressou-se na visão extremada de Hayek, uma forma caricaturada da idéia de inexorabilidade, desta feita do mercado. Este, com suas leis imanentes (as regras necessárias da concorrência), determinaria um processo sem sujeito que culminaria na democracia liberal, a face política da vitória da lógica do mercado e da globalização.
Na década de 60 do último século, trinta anos antes da ascensão do discurso do mercado assentado na inexorabilidade, debatiam-se nos círculos acadêmicos teorias e métodos que dessem conta da lógica das ciências sociais. Com perspectivas diferentes, os dois autores aqui tratados confrontaram-se num debate histórico. Para entender as nuanças teóricas de ambos e os termos do debate, voltaremos no tempo da história de nossos personagens centrais e analisaremos suas trajetórias no conturbado século XX.
1. 1. Karl Popper: trajetória teórica e visão de mundo.

É interessante a trajetória teórica de Popper entre a primeira publicação da Lógica da Descoberta Científica em 1934 (publicada em inglês em 1959, quando adquire notoriedade) e a Lógica das Ciências Sociais de 1961, onde estão as suas vinte e sete teses e a apresentação do ‘’método das ciências sociais’’ ou o ‘’método da analise situacional”. É possível identificar três questões que percorrem aquela trajetória e que fornecem boas pistas para o entendimento do autor: a) a novidade do método falibilista aplicado às chamadas ciências experimentais (sem distinção), b) as diversas tentativas em toda a sua obra de marcar uma posição antipositivista, c) uma perspectiva teórico/ideológica crítica ao historicismo (leia-se marxismo) e ao psicologismo e, finalmente, d) o método da lógica situacional que revela o esforço teórico de levar em conta a especificidade das ciências sociais e que pode ser lido como o resultado desse longo percurso teórico e crítico.


Popper se considera um racionalista crítico. Mas a que racionalismo ele dirige a sua crítica? Antes de tudo, Popper identifica-se com Heidegger na crítica ao homem moderno que supostamente vê a verdade. O homem da revolução cientifica moderna pretende descobrir a verdade e projetá-la para a eternidade tal qual o demônio do matemático Laplace. Para ele é preciso superar pela crítica o indutivismo baconiano ingênuo (a idéia de uma ciência ditada pelo império das observações) e o desvario de uma razão onipotente que através do raciocínio dedutivo lógico descobre a verdade. Através de sua razão critica estaria superando Descartes, Bacon e ainda a tentativa de síntese kantiana nos juízos sintéticos a priori. Consoante com o seu tempo, em que a razão moderna sofre abalos sísmicos, Popper através do seu método dedutivo a priori acena com a provisoriedade do conhecimento, posto que limitado por nossa ignorância latente. Seu compromisso é com proposições constantemente renovadas por novas conjeturas, fruto da correção constante de erros. Tateando entre erros e acertos, o critério que dá substancia ao seu método é o da falseabilidade, ou o confronto rigoroso e impiedoso das teorias com a observação e a experiência. Em ultima instancia, trata-se da eliminação das teorias incapazes de resistir aos testes e da substituição por outras conjecturas especulativas mais promissoras. O critério de falseabilidade, termômetro do método, define o que é objeto significativo para as ciências experimentais e que nos permite deduzir, com o auxílio de condições iniciais, os efeitos que se pretende explicar. Mas ele é também um critério demarcatório que separa as ciências empíricas, a matemática e a lógica dos sistemas metafísicos. (Popper, [1934], 1974). Entretanto, Popper alerta que seu objetivo não é o de provocar a derrocada da Metafísica como pretendem os positivistas desqualificando-a e jogando-a no campo da não significação, da conversa vazia. Ao contrário, ele considera que esse movimento asséptico, expurgado de todos os valores, cientificamente neutro dos positivistas, fez com que se aprisionasse a própria ciência no reino da metafísica. Nas suas palavras: Os positivistas ao tentarem aniquilar com a metafísica aniquilam com a ciência natural e, em vez de afastar a metafísica das ciências empíricas levam à invasão do reino cientifico da metafísica. (Popper [1934] 1974).

É marcante a preocupação de Popper em se distanciar do positivismo. Se conseguiu ou não o seu intento é algo absolutamente controverso, sobretudo, se analisarmos à luz da perspectiva dialética, como Adorno o fez. Entretanto, mesmo Adorno sugere que a teoria de Popper se diferencia dos positivistas tradicionais. Ele afirma: A teoria de Popper é mais ágil do que o positivismo usual. Ela não insiste tão irrefletidamente na neutralidade dos valores. (Adorno, [1974]1975). Ainda que se identifique Popper com o positivismo não podemos desconsiderar as nuanças de sua teoria, sob pena de empobrecer o debate e dificultar a compreensão do autor. Voltaremos a esse ponto quando do embate entre ele e Adorno.


Popper também se posiciona contra o pensamento dogmático. Este pode ser entendido pela perseguição de uma verdade absoluta ditada pela observação ou pela lógica (positivismo), mas, também na preocupação da descoberta de leis imanentes e inexoráveis da história (historicismo). O antídoto que encontra contra a onipotência da razão é o relativismo, ou a idéia de que uma teoria jamais atinge a verdade, mesmo que ela tenha superado vitoriosamente os testes rigorosos. Para ele o máximo que se pode afirmar é que a teoria atual é superior às que a precederam, ou a melhor disponível. Ela jamais será a verdadeira. O pensamento dogmático ele o identifica, sobretudo, no marxismo, alvo de suas mais severas criticas, mas também de contundentes elogios. Uma relação de distanciamento e de admiração teórica. É o que trataremos a seguir.
Dez anos após a Lógica da Descoberta Científica de 1934, Popper publica duas obras que fizeram sucesso e o alçaram ao palco dos debates mais importantes do século XX. Esses debates tratavam das agruras do socialismo real e das dificuldades teóricas do socialismo cientifico, bem como da abertura de possibilidades de reformas pelo próprio capitalismo. A Miséria do Historicismo de 1944 e A Sociedade Aberta e seus Inimigos de 1945 tinham como objetivo, como já adiantamos, desmontar a possibilidade de encontrar leis gerais unívocas para a história, desacreditar a profecia socialista e substituir a utopia socialista por um reformismo, ideal que ele considerara mais modesto e mais viável numa sociedade democrática liberal.

Na Miséria do Historicismo, ([1944,1945], 1956) Popper define o objeto de sua análise como uma crítica ao historicismo identificado na missão de estabelecer leis, modelos, ritmos ou tendências gerais dos desenvolvimentos da história com objetivo de prever o seu fim. O principal historicista para Popper é Marx e o fim escatológico que ele propala é o de uma sociedade sem classes, socialista. Contra essa tese Popper advoga três posições explicitadas de antemão e que desenvolve em argumentos ao longo do livro: 1) é impossível predizer o curso futuro da história e as ciências sociais não têm a missão de estabelecer leis do desenvolvimento da história; 2) o método das ciências sociais não é tão distante das ciências naturais, ao contrário, existe uma unidade metodológica; 3) é importante substituir o ideal utópico do plano da reconstrução socialista por um ideal mais modesto expresso num reformismo fragmentário.1



Nesse texto Popper discorre sobre os pontos controversos e críticos, tanto das teses naturalistas como das chamadas teses antinaturalistas do historicismo. Ele ataca a crença central do historicismo de que a função das ciências sociais seria desvendar a lei da evolução da sociedade e predizer seu futuro. Contra uma ordem invariável na evolução biológica ou sociológica, Popper afirma a idéia de um processo que se efetua de acordo com leis causais em que elas mesmas e/ou as suas conseqüências devem ser testadas. O método hipotético da prova, seu método aplicável a todas as ciências experimentais, oferece explicações causais dedutivas e ainda a possibilidade de testá-las. Nisso residiria a sua novidade teórica, seu racionalismo crítico e a diferença entre o seu método e o de Marx - uma abertura para múltiplas possibilidades, e não algo pré-determinado e previsível (Popper,[1944,1945], 1956).
Embora ele tenha explorado a crítica ao materialismo histórico na Miséria será na Sociedade Aberta e seus Inimigos (Popper ([1945], 1979) que seus estudos se aprofundam, tomam força e consistência, dando lugar não apenas a críticas, como a elogios à contribuição de Marx. Em primeiro lugar ele reconhece a importância e a grandeza da teoria humanista de Marx e afirma textualmente que a contribuição do marxismo foi de tal ordem que retornar às teorias sociais anteriores seria um grande atraso. Ele afirma que Marx foi um dos melhores adversários da hipocrisia e do farisaísmo e que consagrou todas as suas forças a forjar armas que ele considerava científicas destinadas a melhorar a sorte dos oprimidos. Em outro trecho afirma que contrariamente aos hegelianos de direita, Marx se esforçou para resolver pelos métodos racionais os problemas mais agudos de seu tempo. Que ele não tenha conseguido não lhe tira o mérito. A ciência só progride graças `a experiência (....) Apesar de todas essas qualidades ele foi um falso profeta. E finaliza, afirmando que não somente as profecias relacionadas ao curso da historia não foram realizadas como ele induziu ao erro aqueles que acreditaram que a profecia histórica era um método cientifico que permitia resolver os problemas sociais. (tradução livre da edição francesa),(Popper, [1945], 1979).
Analisando o método de Marx, Popper desenvolve seu argumento-crítico central que é atacar o determinismo sociológico e defender a idéia de uma sociedade aberta às reformas. Quando a sociedade pensa que descobriu a pista da lei natural que preside o seu movimento, ela não poderá superar de um salto, nem abolir as fases do seu desenvolvimento natural, nos diz Popper. Neste quadro de previsibilidade não há engenharia social que possa reformar ou corrigir ou, dito em outros termos, melhorar a sociedade pela razão ou pelas instituições. É interessante como esta perspectiva se diferencia da de Hayek, seu conterrâneo, que considera Marx um racional-construtivista que concebia a ordem socialista como fruto do plano ou do desígnio de uma classe operária consciente. 2 São dignas de nota as diferenças teórico-politicas entre Hayek e Popper, ambos severos críticos do que chamaram de profecia marxista. Popper ao contrário de Hayek, acredita na engenharia social, na capacidade de reformar as instituições e com isso aperfeiçoar a democracia liberal. Já Hayek um fundamentalista do mercado é avesso a toda e qualquer intervenção, a qualquer engenharia social.
Para Popper, um dos problemas do socialismo cientifico é o de não ser uma tecnologia social. Sua tarefa seria, nos seus termos, ‘’a de anunciar messianicamente a chegada do socialismo e de acelerá-lo advertindo aos homens o papel que terão de jogar no desenvolvimento da historia’’. Os personagens seriam para Popper, marionetes movidos pelos fios da economia, por forças históricas. Um dia, ele afirma de forma irônica, essas marionetes destruirão o sistema e nós viveremos no reino da liberdade. Consoante, portanto, com o materialismo histórico, as classes sociais desempenhariam um papel central, pois a história de toda sociedade é a historia de luta de classes. No materialismo histórico é o sistema que nos obriga a agir de acordo com os interesses de classe crendo que são nossos interesses. Nesse quadro, afirma Popper, levantando o ponto que ele considera critico, toda engenharia social é impossível, toda tecnologia social inútil. Uma outra critica é que a chave da história e da história das idéias se encontra na relação do homem com o mundo material que o cerca (fundamento da teoria de classes). Isto faria toda a diferença, pois seria na evolução da realidade econômica e na sua capacidade de produzir uma modificação real que residiriam às potencialidades da revolução. Esta começaria quando as forças produtivas materiais da sociedade entrassem em colisão com as relações de produção. Ora, isso definiria para Popper, um viés economicista da teoria de Marx que absolutiza a economia e não confere às idéias um papel determinante, uma critica que apenas engrossa o que no interior do próprio marxismo já tinha sido apontado como uma leitura empobrecedora e adulterada da teoria de Marx. Nada de novo.
Na Sociedade Aberta, de 1945, observamos em Popper o primeiro esforço para romper com a idéia um método unívoco para as ciências experimentais e os indícios de querer trabalhar a especificidade das ciências sociais, o que só vai adquirir seus contornos definitivos na Lógica das Ciências Sociais em 1961. É interessante observar como a critica ao psicologismo e a perspectiva de uma autonomia para a sociologia, partes integrantes de sua teoria, têm pontos de confluência com a critica marxista, seu alvo preferido.
Popper revela simpatia pelo antipsicologismo de Marx definido pela máxima: não é a consciência dos homens que determina a sua existência, mas é a sua existência social que determina a sua consciência. A autonomia da sociologia, conforme ele a define, se dá por que os atos humanos não podem ser explicados por motivos e desejos psíquicos e dependem para a sua real compreensão da consideração das condições gerais, do entorno social, das instituições. Popper concorda com Marx na crítica que ele faz aos psicologistas em que a instituição mercado seria determinada pela psicologia do homem econômico e seu interesse pessoal na perseguição da riqueza. Alem de equivocada, a teoria alimentaria a tese do complô. Mas, embora Popper sublinhe que os aspectos psicológicos têm um papel secundário em relação à lógica da situação3 e que a sociologia tem a sua autonomia e importância para a compreensão de uma lógica dos fenômenos sociais, ele fez questão de marcar uma diferença importante com relação ao método marxista. Seu método não é holista, mas, individualista e baseado no principio da racionalidade. Examinaremos oportunamente esse delicado e importante ponto no confronto entre ele e Adorno.
Em várias outras passagens elogiosas a Marx, Popper afirma que ele faz uma boa leitura da lógica da situação de classe para o capitalismo sem entraves do século XIX4. Popper vai utilizar a mesma expressão lógica da situação (sem a palavra classe) para desenvolver mais adiante suas teses sobre o método das ciências sociais e da economia, em particular, rompendo com o ideal de uma ciência unificada. Popper reconhece o mérito de Marx ao ter explicado o fenômeno da exploração e ter demonstrado a importância social dos ciclos econômicos, “complexos e mal conhecidos até então”. Entretanto, o erro da tese marxista apontado por Popper, como já assinalamos na Miséria, é o determinismo ditado pela lei do antagonismo da luta de classes sociais e a profecia da revolução (agora mais qualificada pelas referencias ao O Capital), de que a situação se agravaria através da lei do empobrecimento. A tendência à queda na taxa de lucro ameaça de ruína os empresários que se defendem aumentando a jornada de trabalho. Essa constatação de Marx soa correta para Popper, mas ele ressalta que na história do capitalismo a situação dos operários ao invés de piorar, melhorou graças às negociações. Popper rebate teoricamente as teses marxistas e advoga que para o campo político-normativo o melhor é a negociação para a obtenção de melhoras progressivas do capitalismo, o que significa uma diminuição do antagonismo entre as classes sociais.
No plano epistemológico Popper construirá o método da análise situacional para as ciências sociais, elegendo a economia como modelo exemplar. Veremos que esse método pode ser lido como uma correção crítica ao método dedutivo, em ultima análise, um reformismo epistemológico. O método, suas potencialidades e limitações, e ainda, a natureza do racionalismo crítico popperiano serão examinados na apresentação e nos comentários ao debate. A seguir, passemos à trajetória teórica do nosso segundo autor/ator, Theodor Adorno.


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