Jornalismo mórbido



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Encontro19.08.2017
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JORNALISMO MÓRBIDO
Marcos Fabrício Lopes da Silva*
Em Iogurte com farinha (1977), o poeta Nicolas Behr se alia a um conjunto de vozes que procuram, à luz do humanismo ético, criticar os efeitos mórbidos promovidos pelo jornalismo sensacionalista: “ninguém precisou/abrir os jornais/para saber/que ele foi morto/a notícia estava na primeira página”. Reza o critério editorial preponderante na imprensa que uma ocorrência necessita aliar sua atualidade e pregnância para se transformar em um acontecimento jornalístico: a atualidade, no sentido de que a ocorrência seja de fato nova; e a pregnância, na medida em que provoque uma ruptura em nosso quadro de vida por ser algo inesperado. É fato que a morte da personagem do poema de Behr constituiu-se em uma ocorrência que rompeu com o cotidiano - porque a morte é em si um fato inesperado, porém a maneira como a mídia trabalhou essa ocorrência enquanto acontecimento traz à tona características da produção jornalística dos acontecimentos, por vezes deixando marcas de uma narrativa pré-produzida sobre a morte – ao tom de antecipação da própria ocorrência.

Busca explicar Nelson Traquina, em Teorias do jornalismo (2005), os motivos da tendência midiática dirigida à valorização de tragédias ou fatos tristes: “a morte é um valor-notícia fundamental para essa comunidade interpretativa e uma razão que explica o negativismo do mundo jornalístico que é apresentado diariamente nas páginas do jornal ou nos écrans da televisão”. Aliada a isso, a importância hierárquica do personagem noticiado, a sua visualidade frente ao mundo e a comoção que sua ausência irá gerar tendem a motivar as redações a fazer da morte e da tragédia destaques nos veículos de comunicação.

Como se costuma dizer, a única certeza da humanidade é a morte. Por mais certa que seja, o tema é o assunto mais delicado e controverso da nossa história cultural. Edgar Morin, em Cultura de massa no século XX: neurose (1997), salienta que a sociedade só se institui como organização através da morte, tendo em vista que a consciência da morte é uma espécie de motor que orienta a necessidade de transmissão e partilhamento dos signos que mantém a nossa cultura existente. Por isso, a morte é levada ao público pelos mais diversos veículos e formatos, fazendo parte do agendamento midiático, principalmente por meio do jornalismo. “E como uma das notícias mais interessantes é a morte, chegamos à triste e reveladora conclusão: a grande mídia vende a morte. E pior é que nós compramos o produto”, alerta Marcelo Salles, no artigo “A espetacularização da morte”, publicado no site do Observatório da Imprensa, em 28/09/2012.

A morte como produto midiático vem se consolidando como um dos pilares mais importantes do “discurso publijornalístico”, conforme termo cunhado por Emerson Ike Coan, autor da dissertação de mestrado, intitulada A relação entre os discursos publicitário e jornalístico no domínio do entretenimento (Faculdade Casper Líbero, 2010). A estetização da notícia embala o noticiário da morte muito mais pela dimensão do “máximo valor de aparência atrativa” do que pelo princípio do “valor de informação/esclarecimento”, considerando o contexto cultural regido sob a tutela da sociedade do espetáculo. Ao processar fatos trágicos em forma de notícia, o jornal sensacionalista elegeu o entretenimento como paradigma de seu discurso e, nele, a comoção como efeito de sentido.

Historicamente, o jornalismo sensacionalista se funda na crença de que os seus leitores apreciam mais o entretenimento que a informação, seja ele baseado na realidade ou não. Na análise de Neal Gabler, expressa em Vida, o filme: como o entretenimento conquistou a realidade (1999), um periódico sério tem uma preocupação com a formação do intelecto de seus leitores, visando a criar cidadãos informados, ao passo que um jornal sensacionalista, no mais das vezes, possui artigos estampados em página inteira e alardeados com manchetes escandalosas, além de apelar para os instintos mais baixos do homem e funcionar como combustível para as paixões.

É difícil separar o joio do trigo nessas horas. De acordo com o personagem machadiano da crônica “A Semana”, publicada na Gazeta de Notícias, de 16/09/1894, as tragédias apresentam um efeito catártico, indo ao fundo da morte, com a lógica irreparável da fatalidade, ao mesmo tempo em que estão integradas à vida cotidiana, sendo consumidas não como rito criminal, mas “como assunto fértil para três dias! [...] Nós precisamos de comoções públicas, são os banhos elétricos da cidade. Como duram pouco, devem ser fortes”. Ironicamente, ao apresentar a razão cínica e a falência da crítica que movimentam o certame sensacionalista, Machado de Assis apresenta nessa crônica em particular uma comparação que simboliza bem “a banalidade do mal” provocada pela notícia trágica: mais vale “o espetáculo de uma perna alanhada, quebrada, ensanguentada” do que “o da simples calça que a veste”, conforme confessa sem titubear o narrador para depois dar-nos o motivo: “as calças, esses simples e banais canudos de pano, não dão comoção”.



Comoção significa abalo de certa gravidade na ordem pública, sacudidela, choque resultante de descarga elétrica. Estes sentidos fazem da comoção a palavra-chave que movimenta o fazer jornalístico de viés sensacionalista. Na contramão deste transtorno ético e editorial, Machado de Assis, no artigo O jornal e o livro (1859), defendeu outro tipo de razão comunicativa. Enquanto agente promotor de reflexões sensíveis, plurais e arejadas, tendo em vista o desenvolvimento da educação dos seus leitores, o jornal deve atuar como “a verdadeira forma da república do pensamento”, “a locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos” e “a literatura comum, universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das idéias e o fogo das convicções”.
* Professor das Faculdades Ascensão e JK, no Distrito Federal. Jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da UFMG.



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