João guimarães rosa ficçÃo completa volume I vq~ ume I introduçÃo geral prefacio



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"Montante, o mais supro, mais sério - foi Medeiro Vaz. Que um homem antigo... seu Joãozinho Bem-Bem, o mais bravo de todos, ninguém nunca pôde decifrar como ele

por dentro consistia. Joca Ramiro - grande homem príncipe! - era político. Zé Bebelo quis ser político, mas teve e não teve sorte: raposa que demorou. Só Candelário

se endiabrou, por pensar que estava com doença má. Titão Passos era o pelo preço de amigos: só por via deles, de suas mesmas amizades, foi que tão alto se ajagunçou.

Antônio Dó - severo bandido. Mas por metade; grande maior metade que seja. Andalécio, no fundo, um bom homem-de-bem, estouvado raivoso em sua toda justiça. Ricardão,

mesmo, queria ser rico em paz: para isso guerreava. Só o Hermógenes foi que nasceu formado tigre, e assassim."

Nesta classificação perpassa a gama dos motivos que formam o valentão sertanejo. Caso mais puro, no sentido em que estamos falando, foi o de Medeiro Vaz, "o rei

dos Gerais": concluindo que no sertão a justiça depende de cada um, pôs fogo à fazenda dos avós e saiu a chefiar bandos. Marcelino Pampa, este "era ouro", e "não

se vê outro assim, com tão legítimo valor, capaz de ser e valer, sem querer parecer (...) de certo dava para grande homem-de-bem, caso se tivesse nascido em grande

cidade."

Assim, o sertão faz o homem.

Mas o jagunço de Guimarães Rosa não é salteador; é um tipo híbrido entre capanga e homem-de-gueixa. O verbo que os personagens empregam para descrever a sua atividade

é "guerrear", qualificando-se a si mesmos de "guerreiros" e opondo-se, na força do arrojo, às artes, sedativas da paz, como vêm encarnadas, por exemplo, no curioso

personagem do fazendeiro Seô Habão, contra cuja esperteza e diligência amolece a inteireza do jagunço. ("O que me dava a qual inquietação, que era de ver: conheci

que fazendeiro-mor é sujeito da terra definitivo, mas que jagunço não passa de ser homem muito provisório."). No código deste, roubar é crime, mas cabe a coleta

de tributos - extorsões em dinheiro e requisições de gado, para manter o bando.

Se houve no Norte de Minas bandos permanentes tão vultosos quanto os que aqui aparecem, a sua ética e a sua organização não teriam talvez o

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caráter elaborado que o romancista lhes dá. De fato, percebemos que assim como acontece em relação ao meio, há um homem fantástico a recobrir ou entremear o sertanejo

real; há duas humanidades que se comunicam livremente, pois os jagunços são e não são reais. Sobre o fato concreto e verificável da jagunçagem, elabora-se um romance

de cavalaria, e a unidade profunda do livro se realiza quando a ação lendária se articula com o espaço mágico.

Nos dias em que foi lançado Grande sertão: veredas, José Geraldo Vieira, com a habitual acuidade, me chamou a atenção para essa genealogia medieval; de fato ela

ajuda a esclarecer a lógica do livro e leva a investigar os elementos utilizados para transcender a realidade do banditismo político, que aparece então como avatar

sertanejo da cavalaria. 2

Há mais de uma afinidade entre as duas esferas, pois também o paladino foi a única possibilidade de "consertar" um mundo sem lei. Daí possuírem ambos uma ética peculiar,

corporativa, que obriga em relação ao grupo, mas liberta em relação à sociedade geral. Os jagunços deste livro se regem por um código bastante estrito, um verdadeiro

bushidô, que regula a admissão e a saída, os casos de punição, os limites da violência, as relações com a população, a hierarquia, a seleção do chefe. E da jagunçagem

remontam à lenda.

Isso posto, explicam-se as batalhas e os duelos, os ritos e práticas, a dama inspiradora, Otacília, no seu retiro, e até o travestimento de Maria Deodorina de Fé

Bettancourt Marins no guerreiro Reinaldo (nome cavaleiresco entre todos), filha que era de um paladino sem filhos, como a do romance incluído por Garrett no Romanceiro:

Dai-me armas e cavalo E eu serei filho varão

Do mesmo modo por que, no Orlando furioso, a guerreira Bradamante pena de ciúme por Rogério e abate o feroz Rodomonte, Deodorina (que para Riobaldo tem um nome ambíguo,

Diadorim) sofre com o bem-querer do narrador por Otacília e vence o traidor Hermógenes. Mas, semelhante nisso à Clorinda, da Jerusalém libertada, morre em combate

e a sua identidade é descoberta.

O comportamento dos jagunços não segue o padrão ideal dos poemas e romances de cavalaria, mas obedece à sua norma fundamental, a lealdade; e não há dúvida que também

para eles a carreira das armas tem significado algo transcendente, de obediência a uma espécie de dever. No melhor dos casos, o senso de serviço, que é o próprio

fundamento da cavalaria.
z Cavalcanti Proença estudou este aspecto com minúcia e brilho no citado Trilhas do Grande sertão, cap. II: "Dom Riobaldo do Urucuia, cavaleiro dos campos gerais".

Em compensação, a conduta real os aproxima bastante do cavaleiro como realmente existiu, e que foi, afinal de contas, um jagunço ao seu modo, desempenhando função

parecida numa sociedade sem poder central forte, baseada, como a do sertão, na competição dos grupos rurais. Os castelões praticavam normalmente a extorsão e o saque,

tendo também como critério não a qualidade do ato, mas a distinção entre amigo e inimigo. Cavaleiros salteadores não faltaram, chegando em certos casos, como o dos

Raubritter alemães, a constituir problema social dos mais graves. Nem é de espantar que um velho jagunço aposentado, no livro, lembre com saudosa volúpia a esfola

dos soldados presos, com faca cega, depois de castrados. Uma das "flores da cavalaria", Ricardo Coração de Leão mandou certa vez a Felipe Augusto, com quem estava

em luta, quinze cavaleiros franceses prisioneiros, amarrados em fila, de olhos vasados, e o guia apenas caolho. O rei de França respondeu mandando quatorze cavaleiros

ingleses nas mesmas condições, mas conduzidos por uma mulher- o que foi reputado "boa traça", golpe de finura e superioridade.

Sinal interessante de contaminação dos padrões medievais é a carreira do narrador Riobaldo, de nascimento ilegítimo como tantos grandes paladinos, a começar por

Roldão e Tristão. A princípio é uma espécie de escudeiro, adido a Hermógenes, a quem serve no combate; em seguida, após as provas de fogo, é armado cavaleiro, no

gesto simbólico em que Joca Ramiro lhe dá o rifle; mais tarde alcança a chefia, após um ritual de iniciação e em conseqüência do sacrifício de outros chefes, como

se verá daqui a pouco. Aliás, com este último traço nos encontramos em presença não apenas de elementos medievais, mas de certas constantes mais profundas, que estão

por baixo das lendas e práticas da cavalaria e vão tocar no lençol do mito e do rito.

Embora apontado como sucessor pelo moribundo Medeiro Vaz, Rio~ baldo não aceita; mas vai, aos poucos, amadurecendo para o comando, à medida que cultiva o alvo supremo

de Diadorim (matar Hermógenes para vingar o o assassínio de Joca Ramiro) e adquire a força íntima que permite as grandes decisões. Neste ponto, sente, como todo

chefe legítimo, que tais decisões não cabem nem estão ao alcance dos que não possuem as mesmas virtudes de mando. O modo pelo qual adquire, todavia, certeza da própria

capacidade vem simbolizado no pacto com o diabo. Conforme a ordem de idéias que estamos discutindo, este ato (provido de outros sentidos, como veremos) parece corresponder

a um rito iniciatório equivalente ao de certos romances de cavalaria, e até certo ponto da própria regra da cavalaria militante.

Como a prece, a vigília d"armas, as provações, o pacto significa, neste livro, caminho para adquirir poderes interiores necessários à realização da tarefa. No entanto,

à primeira vista seria a negação da cavalaria, que era

voltada para valores cristãos, para a apropriação carismática de virtudes emanadas da própria divindade, como é notório, por exemplo, no ciclo da Távola Redonda.

Consideremos, todavia, que estamos no sertão, fantástico e real, onde a brutalidade impõe técnicas brutais de viver, onde os fenômenos de possessão religiosa, gerando

beatos e fanáticos, diferem pouco, na sua natureza e conseqüência, dos que poderíamos atribuir à possessão demoníaca.

Para vencer Hermógenes, que encarna o aspecto tenebroso da cavalaria sertaneja - cavaleiro felão, traidor do preito e da devoção tributadas ao suzerano -, é necessário

ao paladino penetrar e dominar o reino das forças turvas. O diabo surge então, na consciência de Riobaldo, como dispensados de poderes que se devem obter; e como

encarnação das forças terríveis que cultiva e represa na alma, a fim de couraçá-la na dureza que permitirá realizar a tarefa em que malograram os outros chefes.

Aceito este modo de ver, a cena do pacto, na encruzilhada das VeredasMortas, representa um tipo especial de provação iniciatória, um ritual de sentido mágico-religioso,

parecido com a prova da Capela Perigosa, nas lendas do Graal? Como se trata para Riobaldo, nessa iniciação às avessas, de assimilar as potências demoníacas que abrem

caminho a todas as ousadias, a situação é necessariamente marcada por uma certa atmosfera de opressivo terror, parte, aliás, de muitos ritos de passagem. E o ambiente

noturno das Veredas-Mortas equivale ao da Capela Perigosa, como vem, por exemplo, sintetizado na parte final de The Waste Land, de Eliot:


In this decayed hole among the mountains

In the faint moonlight, the grass in singing Oves the tumbled graves, about the chapei

There is the empty chapei, only the wind"s honre. It has no windows, and the door swings, Dry bones can harm no one. Only a cock stood on the rooftree Co co rico

co co rico

In a flash of lightning.
Cumprido o rito, o narrador aparece marcado pelo sinal básico da teoria iniciatória: a mudança do ser. O iniciado, pela virtude das provas a que se submeteu, renasce

praticamente, havendo um grande número de sociedades que fazem a iniciação consistir na simulação da morte seguida de ressurreição. Em Grande sertão: veredas, Riobaldo

sai transformado - en

s Sobre a Capela Perigosa e o seu provável caráter iniciatório, ver: Jessie L. Weston, From Ritual to Romance, Doubleday, New York, 1957, cap. XIII: " The Perilous

Chapei".

durecido, arbitrário, roçando a crueldade, na prepotência das funções de mando que logo assume, em contraste com a situação anterior, em que as tinha rejeitado.

Mesmo o seu sentimento por Diadorim, que apesar da revelação na Guararavacã do Guaicuí, tinha permanecido nos limites da dúvida, ou pelo menos da severa repressão,

desponta com certa agressividade, como se os impulsos estranhos (dada a ignorância do verdadeiro sexo do amigo) tendessem agora a manifestar-se, com a sanção do

pacto. É Diadorim, aliás, quem nota imediatamente a mudança, chegando a perguntar "se alguém te botou malefício".

Esta transformação, este ingresso numa certa ordem de ferocidade adequada à vitória, que pretende e obtém sobre o mal (Hermógenes), através do mal (o pacto), é completada

por outros sinais de caráter mágico, como a adoção do nome de guerra que Zé Bebelo lhe pusera vagamente, e quase por pilhéria, mas que agora é assumido no significado

pleno: Urutu Branco. Como sabemos, os ritos de passagem comportam muitas vezes a atribuição ou acréscimo de um nome, ou revelação do nome verdadeiro, conservado

secreto. Em nossos costumes, é o que se pode verificar no batismo e na crisma. Por último, num traço típico dos livros de cavalaria, ele adquire o animal de exceção,

o Cavalo Siruiz, fogoso, belo, inteligente, infatigável, lembrando a família mágica dos corcéis encantados, que com as armas encantadas completam o equipamento do

cavaleiro e permitem operar prodígios.

Além destes, há outros aspectos de caráter mágico ou ritual que ponteiam a sua carreira. Num plano profundo, a sucessão de chefes que morrem ou se afastam, mas em

todo caso cedem lugar, poderia ser comparada a uma série de imolações, mediante as quais a energia vai se conservando no grupo até concentrar-se no Riobaldo, herdeiro

que encarna significativamente um pouco de cada predecessor.

No bando que ocupava o vértice da narrativa, a sucessão de Joca Ramiro cabe a Medeiro Vaz; morto este, passa brevemente a Marcelino Pampa, e logo a Zé Bebelo, do

qual é arrebatado pelo narrador. Ao ritual da Capela Perigosa, junta-se esse vislumbre de simbolismo sacrificial para compor o plano profundo do livro, acentuando

o revestimento mágico do jagunço paladino. Com efeito, a maneira da imolação do rei para garantir a força vital, e em última análise, a fertilidade da terra - que

constitui a mola duma quantidade de práticas e mitos, de ficções e rituais, e aparece estudada exaustivamente na grande obra de Frazer;4 à maneira daquela imolação,

pois, a sucessão dos chefes garante a perpetuação da energia guerreira, que

" Sobre o sacrificio dos reis, seu significado e sua função, ver: Sir James George Franzes,

The Golden Bough, A Study in Magic and Religion, Third Edition, 13 v., Maemillan, New York, 1951, 3a parte (v. III), "The Dying God".

JOAO GUIMARAES ROSA / Fu:ÇAO COMPLETA

INTROUUÇAO GERAL / FORTUNA CRITICA

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se encarna finalmente em Riobaldo, cognominado primeiro Tatarana, depois Urutu Branco. Produto do sertão, a força do jagunço paladino depende da força da terra;



por sua vez ele é a lei desta terra, e para o ser com eficácia necessita viver uma seqüência de atos e padecimentos cuja raiz, de tão funda, escapa à nossa atenção,

mergulhando nas relações primordiais do homem com a terra, que deve ser propiciada para viver e dar vida, como nos ritos agrários.

Estas considerações sobre o poder recíproco da terra e do homem nos levam à idéia de que há em Grande sertão: veredas uma espécie de grande princípio geral de reversibilidade,

dando-lhe um caráter fluido e uma misteriosa eficácia. A ela se prendem as diversas ambigüidades que revistamos, e as que revistaremos daqui por diante. Ambigüidade

da geografia, que desliza para o espaço lendário; ambigüidade dos tipos sociais, que participam da cavalaria e do banditismo; ambigüidade afetiva, que faz o narrador

oscilar, não apenas entre o amor sagrado de Otacília e o amor profano da encantadora "militriz" Nhorinhá, mas entre a face permitida e a face interdita do amor,

simbolizada na suprema ambigüidade da mulher-homem que é Diadorim; ambigüidade metafísica, que balança Riobaldo entre Deus e o Diabo, entre a realidade e a dúvida

do pacto, dando-lhe o caráter de iniciado no mal para chegar ao bem. Estes diversos planos da ambigüidade compõem um deslizamento entre os pólos, uma fusão de contrários,

uma dialética extremamente viva - que nos suspende entre o ser e o não ser para sugerir formas mais ricas de integração do ser. E todos se exprimem na ambigüidade

inicial e final do estilo, a grande matriz, que é popular e erudito, arcaico e moderno, claro e obscuro, artificial e espontâneo.

Assim, vemos misturarem-se em todos os níveis o real e o irreal, o aparente e o oculto, o dado e o suposto. A soberania do romancista, colocado na sua posição-chave,

a partir da qual são possíveis todos os desenvolvimentos virtuais, nos faz passar livremente duma esfera à outra. A coerência do livro vem da reunião de ambas, fundindo

o homem e a terra e manifestando o caráter uno, total, do Sertão-enquanto-Mundo.

O problema

É claro que essas interpretações são arbitrárias; além disso iluminam apenas um dos muitos lados da obra, visando a contribuir para que o leitor esqueça ao menos

provisoriamente os pendores naturalistas a fim de penetrar nessa atmosfera reversível, onde se cortam o mágico e o lógico, o lendário e o real. Só assim poderá sondar

o seu fundo e entrever o intuito fundamental, isto é, o angustiado debate sobre a conduta e os valores que a escoltam.

Dir-se-á que todo livro de vulto acaba neste problema; mas em literatura o que interessa é a maneira escolhida para abordá-lo. Aqui, além do que ficou indicado,

o tonus é devido à crispação incessante do narrador em face dos atos e sentimentos vividos, traduzidos pela recorrência dos torneios de expressão, elaborados e reelaborados

a cada página em torno das obsessões fundamentais. Deve-se ainda ao símbolo escolhido para dinamizar a recorrência (o pacto com o demônio), e que representa as caudalosas

águas turvas da personalidade. Esse é o princípio, a idéia que enforma Grande sertão: veredas, e em relação a ele o demônio adquire significado algo diferente do

que vimos. Quando se tratava da inserção de Riobaldo na sua tarefa (ou missão), importou ressaltar o aspecto de instrumento iniciatório; mas se encararmos a individualidade

de Riobaldo, a sua condição singular de homem, o demônio volta a simbolizar, como para Fausto ou Peter Schlemilh, a tentação e o mal.

O grande problema, para o narrador, é a existência dele: existe ou não? Em princípio, sente que é um nome atribuído à parte torva da alma: "Explico ao senhor: o

diabo vige dentro do homem, os crespos do homem - ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! - é

o que digo." Mas uma dúvida sempre fica: "Eu, pessoalmente, quase que já perdi nele a crença, mercês a Deus; é o que ao senhor lhe digo, à puridade."

Invocou-o nas Veredas-Mortas e ele não apareceu fisicamente; isto lhe serve para tentar se convencer de que realmente não houve pacto. Por outro lado, não pode fugir

à evidência da própria mudança, após a noite em que desejou vê-lo; depois dela é que foi capaz de realizar coisas prodigiosas, inclusive a referida travessia do

Suçuarão, fechado ao comum dos homens e docilmente aberto ao seu mando. Daí a palavra que o autor inventou, no texto citado mais alto, para sugerir, conforme os

seus processos lexicogênicos, a operação de um sortilégio sobrenatural: "Sobrelégio?" E como tem consciência de que a manifestação concreta não é necessária para

demonstrar a existência do Cujo - mais princípio do que ente -, permanece, no fundo, amarrado a ele, que se torna de certo modo o grande personagem, tanto mais obsedante

quanto menos palpável. No Spleen de Paris, disse Baudelaire que "a mais bela artimanha do diabo é persuadir que não existe"; em Riobaldo ela produziu pleno efeito

("Quem muito se evita se convive").

Mas por que o demônio em tudo isso? Porque nada encarnaria melhor as tensões da alma, nesse mundo fantástico, nem explicaria mais logicamente certo mistério inexplicável

do sertão. A amizade ambígua por Diadorim aparece como primeiro e decisivo elemento que desloca o narrador do seu centro de gravidade. Levado a ele (ou a ela) por

um instinto poderoso que reluta em confessar a si próprio, e ao mesmo tempo tolhido pela

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Jorro GUIMARAEs ROSA / FICÇAO COMPLETA



INTRODUçAO GERAL / FORTUNA CRÍTICA

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aparência masculina -Riobaldo tergiversa e admite na personalidade um fator de desnorteio, que facilita a eclosão de sentimentos e comportamentos estranhos, cuja



possibilidade se insinua pela narrativa e o vão lentamente preparando para as ações excepcionais, ao obliterar as fronteiras entre lícito e ilícito.

"... Diadorim é a minha neblina..."

"Que vontade era de pôr meus dedos, de leve, o leve, nos meigos olhos dele, ocultando, para não ter de tolerar de ver assim o chamado, até que ponto esses olhos,

sempre havendo, aquela beleza verde, me adoecido, tão impossível."

"... eu dele era louco amigo, e concebia por ele a vexável afeição que me estragava, feito um mau amor oculto..."

"Ele fosse uma mulher, e à-alta e desprezadora que sendo, eu me encorajava: no dizer paixão e no fazer-pegava, diminuía: ela no meio de meus braços! Mas, dois guerreiros,

como é, como iam poder se gostar, mesmo em singela conversação, por detrás de tantos brios e armas? Mais em antes se matar, em luta, um o outro. E tudo impossível.

Três-tantos impossível, que eu descuidei, e falei Meu bem, estivesse dia claro, e eu pudesse espiar a cor de seus olhos... , o disse, vagável num esquecimento,

assim como estivesse pensando somente, modo se diz um verso."

O demônio surge, então, como acicate permanente, estímulo para viver além do bem e do mal; e bem pesadas as coisas, o homem no sertão, o homem no mundo, não pode

existir doutro modo a partir duma certa altura dos problemas. "Viver é muito perigoso" - repete Riobaldo a cada passo; não só pelos acidentes da vida, mas pelas

dificuldades em saber como vivê-la.

"O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso. O senhor avista meus cabelos brancos... Viver - não é? - é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver

é que é o viver, mesmo. O sertão me produz, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca..."

"Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e se abaixa."

"Afirmo ao senhor, do que vivi: o mais difícil não é um ser bom e proceder honesto; dificultoso, mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até no

rabo da palavra."

Daí o esforço para abrir caminho, arriscando perder a alma, por vezes, mas conservando a integridade do ser como de algo que se sente existir no próprio lanço da

cartada. A ação serve para confirmar o pensamento, para dar certeza da liberdade.

"Ao que, naquele tempo, eu não sabia pensar com poder. Aprendendo eu estava? Não sabia pensar com poder - por isso matava."

"Mas liberdade - aposto - ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões. Tem uma verdade que se

carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina: o beco para a liberdade se fazer."

A vida perigosa força a viver perigosamente, tendendo às posições extremas a que podem levar a coragem, a ambição, o dever. Pelo menos duas vezes ocorre na fala

do narrador um conceito que exprime este movimento, fundamental na ética do livro e na estrutura dos seus acontecimentos, e que encontramos, quase com as mesmas

palavras, nas "Considerações sobre o pecado, a dor, a esperança e o verdadeiro caminho", de Kafka, onde vem formulado assim: "A partir de um certo ponto não há mais

retorno. Esse é o ponto que se precisa atingir." Riobaldo caminha para ele e o alcança através do pacto, que é ao mesmo tempo ascese (sob o aspecto iniciatório)

e compromisso (sob o aspecto moral), confirmando a sua qualidade de jagunço.

O jagunço, sendo o homem adequado à terra ("O Sertão é o jagunço"), não poderia deixar de ser como é; mas ao manipular o mal, como condição para atingir o bem possível

no sertão, transcende o estado de bandido. Bandido e não-bandido, portanto, é um ser ambivalente, que necessita revestirse de certos poderes para definir a si mesmo.

O pacto desempenha esta função na vida do narrador, cujo Eu, a partir desse momento, é de certo modo alienado em beneficio do Nós, do grupo a que o indivíduo adere

para ser livre no sertão, e que ele consegue levar ao cumprimento da tarefa de aniquilar os traidores, "os Judas". Graças a isto é vencida, pelo menos na duração

do ato, a ambigüidade do jagunço, que se fez integralmente paladino. Tanto que Riobaldo não prossegue nas armas e se retira, acompanhado por grande parte dos seus

fiéis. Os seus feitos tenderam, mesmo, a aniquilar a condição de jagunço-bandido, e ele se justifica aos próprios olhos nessa negação do ser de exceção, em beneficio

da existência comum, na fazenda que

herdou ddih (i) ld d Ol

o parnoe pa, aoaoetacíia, prêmio das andanças. "... o



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