João guimarães rosa ficçÃo completa volume I vq~ ume I introduçÃo geral prefacio



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a região. A província do sr. Guimarães Rosa - no caso, Minas - é menos uma região do Brasil do que uma região da arte, com detalhes e locuções e vocabulário e geografia

cosidos de maneira por vezes irreal, tamanha é a concentração com que trabalha o autor: Assim, veremos, numa conversa, os interlocutores gastarem meia dúzia de provérbios

e outras tantas parábolas como se alguém falasse no mundo deste jeito. Ou, de outra vez, paisagens tão cheias de plantas, flores e passarinhos cujo nome o autor

colecionou, que somos mesmo capazes de pensar que na região do sr. Guimarães Rosa o sistema fito-zoológico obedece ao critério da Arca de Noé. Por isso, sustento,

e sustentarei mesmo que provem o meu erro, que Sagarana não é um livro regional como os outros, porque não existe região alguma igual à sua, criada livremente pelo

autor com elementos caçados analiticamente e, depois, sintetizados na ecologia belíssima das suas histórias.

Transcendendo o critério regional por meio de uma condensação do material observado (condensação mais forte do que qualquer outra em nossa literatura da "terra"),

o sr. Guimarães Rosa como que iluminou, de repente, todo o caminho feito pelos antecessores. Sagarana significa, entre outras coisas, a volta triunfal do regionalismo

do Centro. Volta o coroamento. De Bernardo Guimarães a ele, passando por Afonso Arinos, Valdomiro Silveira, Monteiro Lobato, Amadeu de Queirós, Hugo de Carvalho

Ramos, assistimos a um longo movimento de tomada de consciência, através da exploração do meio humano e geográfico. É a fase do pitoresco e do narrativo, do regionalismo

"entre aspas", se dão licença de citar uma expressão minha em artigo recente. Fase ultrapassada, cujos produtos envelheceram rapidamente, talvez à força de copiados

e dessorados pelos minores. Fase, precisamente, em que os escritores trouxeram a região até o leitor, conservando, eles próprios, atitude de sujeito e objeto. O

sr. Guimarães Rosa construiu um regionalismo muito mais autêntico e duradouro, porque criou uma experiência total em que o pitoresco e ò exótico são animados pela

graça de um movimento interior em que se desfazem as relações de sujeito e objeto pára ficar a obra de arte como integração total de experiência.

Sagarana nasceu universal pelo alcance e pela coesão da fatura. A língua parece finalmente ter atingido o ideal da expressão literária regionalista. Densa, vigorosa,

foi talhada no veio da linguagem popular e disciplinada dentro das tradições clássicas. Mário de Andrade, se fosse vivo, leria comovido este resultado esplêndido

da libertação lingüística, para que ele contribuiu com a libertinagem heróica da sua.

Além das convenções literárias, Sagarana se caracteriza por um soberano desdém das convenções. O sr. Guimarães Rosa - cuja vocação de virtuose é inegável - parece

ter querido mostrar a possibilidade de chegar à vitória partindo de uma série de condições que conduzem, geralmente, ao fracasso. Ou melhor: todos os fracassos dos

seus predecessores se transformaram, em suas mãos, noutros fatores de vitória.

Para começar, a própria temática, batida e aparentemente esgotada. Em matéria de regionalismo, só aceitamos, de uns vinte anos para cá, o nordestino, transformado,

por sua vez e por força do uso, em arrabalde pacífico e já sem surpresas da nossa sensibilidade literária. Em seguida, o exotismo do léxico, recurso geralmente fácil,

abusado pelos escritores gaúchos. Depois, a tendência descritiva, quase de composição escolar, familiar a quem vive em contato com os pequenos jornais do interior

e, em literatura, relegada a segundo plano pelas exigências tanto de ação quanto de introspecção do romance moderno. Finalmente, o capricho meio oratório do estilo,

que há muito consideramos privativo da subliteratura.

Pois o sr. Guimarães Rosa partiu de todas estas condições, algumas das quais bastaram para fazer naufragar escritores de maior talento, como Monteiro Lobato, ou

reduzir às devidas proporções outros indevidamente valorizados, como o velho Afonso Arinos; não rejeitou nenhuma delas e chegou a verdadeiras obras-primas, como

são alguns dos contos de Sagarana.

Passando a setor de ordem mais pessoal, talvez possamos dizer que a qualidade básica do autor escapa à crítica, porque só pode ser sugerida por

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meio de imprecisões como "capacidade de contar", "vigor narrativo" e outras coisas que, tudo exprimindo, nada dizem de positivo. O meu mestre e amigo Giuseppe Ungaretti

usaria expressão mais direta, invocando razões de ordem hormonal em calão pitoresco, que eu não me atrevo a trazer para este bem comportado rodapé e que, segundo

ele, são as únicas a exprimir a força criadora dos artistas poderosos como é o sr. Guimarães Rosa.

Sagarana se caracteriza pela paixão de contar. O autor chega a condescendência excessiva para com ela, a ponto de quebrar a espinha das suas histórias a fim de dar

relevo a narrativas secundárias, terciárias, cujo conjunto resulta mais importante do que a narrativa central. Deixa-se ir ao sabor dos casos, não perdendo vasa

para contá-los, acumulando detalhes, minuciando com pachorra, como quem dá a entender que, em arte, o fim não tem a mínima importância, porque o que importa são

os meios. Todos os meios e até a ampliação retórica são bons, desde que nos arrebatem da vida, transportando-nos para a vida mais intensa da arte.

Já se vê por aí que o sr. Guimarães Rosa retorna, em grande estilo, à concepção do contista-contador, para o qual a verdade está na narração e na descrição, para

o qual as facadas, os casos de amor, os estouros de boiada e os crepúsculos têm valor eterno, acima de quaisquer outros. Por outro lado, como ficou sugerido, a região,

deixando de ser, para ele, simples localização da história, com funções de pitoresco e anedótico, passa a verdadeira personagem (se assim me posso exprimir), tanta

é a persistência e a profundidade com que vêm invocados a sua flora, a sua fauna, o seu relevo. Há, mesmo, certos contos, como "São Marcos", em que só ela redime

o anedótico e garante o toque literário autêntico. Em "A hora e vez de Augusto Matraga" há uma certa entrada de primavera - verdadeiro Sacre du Printemps- em que

a natureza nos comunica sentimento quase inefável, germinal e religioso.

Como padrão de arte objetiva e elaborada, perfeito na suficiência admirável dos meios, gostaria de indicar o conto "Duelo", das maiores peças de atmosfera da nossa

atual novelística. Uma tensão envolvente, quase alucinante, alimentada sorrateiramente pelo autor com um ominoso vaivém cheio de detalhes geográficos e pequenos

casos laterais.

Não é aí, todavia, que devemos procurar a obra-prima do livro mas no citado "Augusto Matraga", onde o autor, deixando de certo modo a objetividade da arte-pela-arte,

entra em região quase épica de humanidade e cria um dos grandes tipos da nossa literatura, dentro do conto que será, daqui por diante, contado entre os dez ou doze

mais perfeitos da língua.

Não penso que Sagarana seja um bloco unido, nem que o sr. Guimarães Rosa tenha sabido, sempre, escapar a certo pendor verboso, a certa difusão de escrita e composição.

Sei, porém, que, construindo em termos brasileiros certas experiências de uma altura encontrada geralmente apenas nas

grandes literaturas estrangeiras, criando uma vivência poderosamente nossa e ao mesmo tempo universal, que valoriza e eleva a nossa arte, escrevendo contos como

"Duelo", "Lalino Salãthiel", "O burrinho pedrês" e, sobre todos (muito sobre todos), "Augusto Matraga" - sei que por tudo isso o sr. Guimarães Rosa vai reto para

a linha dos nossos grandes escritores.

UMA GRANDE ESTRÉIA

Álvaro Lins
PARA AQUELE que tem a obrigação profissional da crítica literária, sentindo muitas vezes esse gosto morno da rotina que vem do contato com figuras já muito conhecidas

ou com obras de estréia sem qualquer novidade, nenhuma outra sensação - porque ela vale como um despertar, como um estímulo, como motivo para que se mantenha a fé

nas faculdades criadoras de sua época intelectual - poderá ser comparada a esta de comunicar ao público a presença de um livro inconfundível na literatura e de um

autor de autêntica personalidade na vida literária. E isto sem qualquer dúvida ou temor de errar, antes com a certeza de que nos achamos completamente fora do terreno

oscilante da mediania e dos mais ou menos, colocados em face de um excepcional acontecimento. Tudo se processa, aliás, bem rapidamente. Não se conhece até certo

dia um determinado autor, pois que ele nada então publicou de sua obra; não se espera o seu livro, pois o destino de um livro de estréia, como de resto o de qualquer

livro, nunca pode ser esperado ou previsto. De repente chega-nos o volume, e é uma grande obra que amplia o território cultural de uma literatura, que lhe acrescenta

alguma coisa de novo e insubstituível, ao mesmo tempo que um nome de escritor, até ontem ignorado do público, penetra ruidosamente na vida literária para ocupar

desde logo um dos seus primeiros lugares. O livro é Sagarana e o escritor é o sr. J. Guimarães Rosal

O escritor apresenta uma autêntica personalidade de artista e o seu livro tem a verdadeira estrutura da criação ficcionista. Nada existe aqui a expor vacilações,

deficiências, incertezas ou puerilidades de estreante. Nem o autor é um inquieto adolescente, nem a sua obra é uma improvisação ou o resultado de algum entusiasmo

momentâneo. Estamos diante de uma vocação de escritor que se experimentou em meditação e aprendizado técnico, de uma obra intensamente sentida e longamente trabalhada.

Pelos assuntos e pelo material da construção ficcionista, pela abundância documental, pelo estilo de artista, pela riqueza e pela ciência do vocabulá
~ I. Rosa,Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: Editora Universal, 1946.

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rio, pela capacidade descritiva e pela densidade das situações dramáticas, seria impossível classificar Sagarana como obra de principiante, e do seu autor, com efeito,

ela transmite a impressão de alguém que já se encontra no completo domínio dos recursos literários e com uma requintada experiência pessoal da arte de ficção.

Não quis o sr. Guimarães Rosa classificar Sagarana como um grupo de novelas ou de contos. Antes, um conjunto de histórias - formalmente novelas - com uma tal unidade,

com tal ligação subterrânea e substancial entre elas, que logo compreendemos por que preferiu apresentá-las como um livro apenas dividido em nove capítulos. Cada

um deles constitui sem dúvida uma novela independente, com um enredo particular, mas se articulam em bloco como se simbolizassem o panorama de uma região. E Sagarana

vem a ser precisamente isto: o retrato físico, psicológico e sociológico de uma região do interior de Minas Gerais, através de histórias, personagens, costumes e

paisagens, vistos ou recriados sob a forma da arte da ficção. Aliás, não será fundamental saber-se com rigor o que nestas páginas é realidade objetiva e o que é

realidade imaginada. A parte documental encontra-se nas descrições, no registro dos costumes, na fidelidade à linguagem popular fixada através dos diálogos; a imaginação,

na capacidade poética de animar artisticamente o real, no poder de criar personagens e crises dramáticas no desenvolvimento do enredo, dando uma configuração estética

ao que era antes tosco e bárbaro. As nove histórias de Sagarana são como faces distintas, ajuntadas rigorosamente para a composição de uma fisionomia coletiva, que

é a de uma região de Minas Gerais, mas também representativa, em grande parte de todo o Brasil do interior, tão diferente do litoral e tão desconhecido como se fosse

um país estrangeiro. Sabe-se que o sr. Guimarães Rosa nasceu e viveu durante muitos anos nessa região, inclusive como médico da roça, e pelo seu livro verificamos

com que intensidade de sentimento e imaginação ele se fundiu com o espírito da sua terra, com que sensível poder de comunicação ele trouxe para dentro de si mesmo

o mundo de gentes, de bichos, de natureza física, ao qual se ligou profundamente na juventude. Mas o valor dessa obra provém principalmente da circunstância de não

ter o seu autor ficado prisioneiro do regionalismo, o que o teria conduzido ao convencional regionalismo literário, a estreita literatura das reproduções fotográficas,

ao elementar caipirismo do pitoresco exterior e do simplesmente descritivo. Ele apresenta o mundo regional com um espírito universal de autor que tem a experiência

da cultura altamente requintada e intelectualizada, transfigurando o material da memória com as potências criadoras e artísticas da imaginação, trabalhando com um

ágil, seguro, elegante e nobre instrumento de estilo. Em Sagarana temos assim um regionalismo com o processo da estilização, que se coloca portanto na linha do que,

a meu ver, deveria ser o ideal da literatura brasi

leira na feição regionalista: a temática nacional numa expressão universal, o mundo ainda bárbaro e informe do interior valorizado por uma técnica aristocrática

de representação estética.

Não tendo, por outro lado, qualquer preocupação política ou ideológica, o sr. Guimarães Rosa permaneceu a igual distância do otimismo e do pessimismo, observando

as situações humanas com natural disponibilidade, com uma espécie de virgindade de espírito, que lhe amplia a visão em profundidade. Visão que não está deformada

por nenhum preconceito ou partipris, nem mesmo por qualquer sentimento apaixonado. A sua participação sentimental na arte da criação literária só se opera através

de uma generalizada simpatia, de uma indulgente e às vezes irônica compreensão, formada na base do ceticismo e da experiência humana. E estes movimentos sentimentais

do sr. Guimarães Rosa aproveitam ainda mais aos bichos do que aos homens. São bichos os personagens mais comoventes, mais simpáticos e mais bem tratados de Sagarana.

Há duas novelas especialmente de bichos, "O burrinho pedrês" e "Conversa de bois", mas também em todas as outras, misturados com as pessoas e às vezes influindo

no destino delas, aparecem bois, cavalos, burros, cachorros e aves. E nesse dom de tratar os bichos como personagens, de dar-lhes vitalidade e verossimilhança na

representação literária, está uma das faculdades mais originais e poderosas da arte do sr. Guimarães Rosa. Não vamos dizer que ele transmite humanidade aos bichos,

pois isso seria descaracterizá-los pelo artifício, seria torná-los seres híbridos e absurdos. Os animais dessas admiráveis histórias de Sagarana, os bois como o

burrinho pedrês, agem, pensam e falam, não como os homens na maneira das fábulas e histórias da carochinha, mas como podemos imaginar, com o recurso da intuição,

que eles o fariam se realmente pensassem e agissem racionalmente. Era como se o autor se transportasse para dentro dos bichos, não para lhes transmitir a sua própria

personalidade, mas para interpretar e exprimir a imaginada vida interior deles.

História de um bicho, aliás, é a novela da minha preferência neste livro, "O burrinho pedrês", que me parece uma autêntica obra-prima, não sendo embora a única obra-prima,

no sentido de obra completa e perfeita em si mesma, que se encontra em Sagarana, onde indicaria, com a mesma categoria, peças como "Duelo", "Conversa de bois", e

"A hora e vez de Augusto Matraga". E o que valoriza "O burrinho pedrês", é menos o enredo do que a construção literária, a estrutura da concepção e a amplitude da

realização. Verifica-se nestas páginas, como em tantas outras, que o feitio de autor do sr. Guimarães Rosa é ainda máis o do romancista do que o do contista ou mesmo

do novelista. Nesta novela, com que se abre Sagarana, ele está operando evidentemente com a técnica do romance, ampliando os quadros e inserindo várias pequenas

histórias no desenvolvimento da his-

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tória geral. Há aqui páginas de um surpreendente relevo, que se podem destacar para uma leitura independente, como a marcha da boiada, o episódio do touro que mata



inesperadamente o seu dono, a patética narração da tristeza do negrinho e dos bois transportados do seu solo, além da descrição das paisagens, dos elementos da natureza,

plantas e águas que parecem ao alcance dos nossos olhos tal o vigor, o colorido, o intenso realismo com que são apresentados. Com a mão segura e hábil, o sr. Guimarães

Rosa propositadamente retarda o desfecho, opera uma espécie de cruzamento ou desdobramento de linhas, com alguns episódios isolados a levarem o leitor a ângulos

diferentes, e tudo com o fim de colocá-los de repente em face da grande cena final, a do afogamento dos vaqueiros no rio, quando a novela encontra o seu desfecho

"porque a história de um burrinho, como a história de um homem, é bem dada no resumo de um só dia de sua vida". Em "Conversa de bois" - igualmente perfeito como

concepção ficcionista e como arte literária - cruzam-se os bois e os homens como num contraste que se prolonga até o fim, apresentando o autor alternadamente os

diálogos dos homens e os diálogos dos bois. Revela-se aqui uma espécie de filosofia dos bois, uma síntese do que pensam da vida e dos homens. Eles não se movimentam

nestas páginas como elementos acessórios ou completivos, mas como verdadeiros personagens, aos quais o seu criador amplamente concedeu vibração vital e direção autônoma.

"A hora e vez de Augusto Matraga" destaca-se principalmente pela arte da ficção. Como novela em si mesma, como elaboração e construção novelística, representa sem

dúvida a peça melhor realizada do livro, a que tem uma vida mais completa e independente em si mesma. Dela, sob este aspecto, só se aproxima "Duelo", em que a um

enredo sugestivo e apaixonante se junta a revelação do caráter de uma região, com a indicação de costumes e diálogos realmente definidores. E isto acontece apenas

no juízo dos que têm o gosto da análise e da discriminação, pois será difícil e até arbitrário estabelecer qualquer hierarquia diante da unidade de condições com

que se apresentam as quatro principais histórias de Sagarana, precisamente aquelas que foram acima citadas.

Há outras novelas, porém, que não são da mesma significação, nem estão na mesma altura. Embora menos afirmativas como ficção por uma certa fragilidade na ação novelística

- "Sarapalha", "Minha gente", "São Marcos" e "Corpo fechado" - ficam valorizadas, no entanto, através de algumas páginas descritivas, ou caracterizadoras como fixação

de costumes e episódios isolados, ou, em cada uma delas, através de algum aspecto marcante da vida regional. Em "Sarapalha", por exemplo, é a doença da maleita,

com a espantosa miséria física e psicológica em que ela transforma os seres humanos; em "Corpo fechado" é a crônica dos valentões do interior, a superioridade bárbara

dos que dominam pelo terror, com absoluta

indiferença às autoridades e às leis; em "São Marcos" é o fenômeno primitivo da feitiçaria, com uma descrição da natureza, tão monumental nas proporções e tão orquestral

no jogo dos vocábulos, que logo faz lembrar, involuntariamente, a maneira euclidiana. O capítulo mais frágil do livro é "Minha gente", com um caso de amor colocado

em termos de precário e pouco convincente sentimentalismo. Bastante diferente das outras, com um espírito particular, é a novela "A volta do marido pródigo", construída

num tom mais leve, exprimindo o espírito de malandragem do curioso personagem Lalino Salãthiel, com a oportunidade para o àutor de empregar alguns dos seus dons

de ironia e malícia, que são tipicamente mineiros.

Contos, novelas, histórias, estes capítulos de Sagarana? Antes de tudo, são rapsódias, cantos em grande forma que trazem no seu seio a representação poética do espírito

e da realidade de uma região. Os homens e os seus dramas, os bichos e os seus movimentos, a natureza e as suas cores - é um pequeno mundo que se levanta diante de

nós, em todo o seu esplendor de vida e circulação, depois de recriado pelas forças da memória e da imaginação de um artista não só generosamente dotado pela inspiração

involuntária, mas igualmente consciente do seu papel. Por isso, ao lado das realizações propriamente poéticas de criação, Sagarana apresenta um vasto material documentário,

folclórico e sociológico, já agora imprescindível para o conhecimento, mesmo científico, do interior de Minas Gerais. E isto acontece porque a faculdade de escritor

mais aguda e mais desenvolvida no sr. Guimarães Rosa é a visualidade. Do que viu, ele soube conservar pela memória e conseguiu transfigurar pela imaginação, não

só os aspectos de maior relevo, mas também os detalhes, as nuanças, os segredos, as pequenas coisas, às vezes mais definidoras e caracterizadoras do que as grandes,

aquelas que escapam em geral aos que não têm o dom da visão sensível e penetrante, especialmente destinada a um fim estético. E a arte da ficção se completa em Sagarana

com a arte estilística do escritor. O estilo tenso do sr. Guimarães Rosa, e em certas ocasiões até de sabor arcaico ou pouco brasileiro na sintaxe, tem, em geral,

flexibilidade, elegância e bom gosto, tanto na parte direta do autor quanto na parte indireta dos diálogos de personagens.

Sinto que, depois de me exprimir dessa maneira tão entusiasta e por mim bem pouco utilizada, deveria citar alguns trechos como documentação, mas não desejo, por

outro lado, deixar o leitor sem o gosto de percorrer as páginas de Sagarana, da primeira à última, com uma sensação de surpresa e descobrimento, prazer de leitura

que não se compara com qualquer outro. É possível que mais tarde, com as impressões já revistas e ordenadas, volte a me ocupar desta obra com mais espírito crítico,

isto é: com maiores recursos de análise e interpretação. Agora, a propósito da estréia do sr. Guimarães Rosa, o que desejo principalmente é anunciar ao público a

presença, na literatura brasileira, de um novo grande livro, e saudar, no

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autor de Sagarana, o companheiro que entra na vida literária com o valor de um mestre na arte de ficção.



GUIMARÃES ROSA E A LINGUAGEM LITERÁRIA
Euryalo Cannabrava
t
O nuTOx de Corpo de baile parece sofrer, como James Joyce, a doença do gigantismo verbal. Ele foi buscar o dialeto brabo no interior do sertão mineiro, desarticulou-o

em suas partes componentes, submetendo-o a extensas manipulações lingüísticas. A frase sai pura, solta, como se viesse do fundo de sua infância livre, desembestada

pelos campos gerais.

O ritmo da prosa é curto e sincopado, com paradas bruscas e espraiamentos longos como a água rolando pelo leito dos rios. O estilo é desconvencional por excelência,

não admite modelos, nem imita ninguém, abeberando-se nas fontes puras da inspiração. Freqüentemente, lendo Corpo de baile, tem-se a impressão de que o autor reproduz

lendas do nosso folclore, sem deformá-las em sua essência primitiva, tais como brotaram na mente popular.

Trata-se de autêntica redescoberta do sentido original das palavras, no momento em que elas foram forjadas pelo povo. Não há artifício algum nessa linguagem primeva,

cujas raízes se metem pela terra dura dos campos gerais. Tudo sai como se fosse criado aqui e agora, surpreendido ao vivo, no instante preciso em que as forças irrompem

do inconsciente coletivo, plasmando a expressão.



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