João guimarães rosa ficçÃo completa volume I vq~ ume I introduçÃo geral prefacio



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GL: Entretanto, às vezes tenho a impressão de que você está brincando comigo.

JGR: Mas nada disso! Raramente mantenho uma conversa tão interessante. Deve ser porque você é um interlocutor bastante brutal e tem espírito de contradição. Seria

lamentável se perdêssemos esta conversa por causa de um mal-entendido. Digamos antes que tudo isto, que quase o enfureceu, não pode nem deve ser explicado logicamente;

deve ser compreendido intuitivamente, deve ser pensado até o fim.

GL: Está bem. Entretanto, creio que não chegaremos muito longe, se gastarmos muitos paradoxos. Agora uma coisa muito concreta, sobre a qual ainda não falamos e que

é muito importante para toda a literatura brasileira e, portanto, também para a sua obra. Estou me referindo à chamada "brasilidade". Desde que me ocupo de literatura

brasileira, já tentei várias vezes esclarecer este conceito. Não tenho outra saída. Gente muito séria já me disse que esta "brasilidade" é só baboseira, e até agora

não pude ouvir uma definição que me agradasse, embora vocês, os escritores brasileiros, sempre se refiram a este conceito. Talvez de você eu possa obter uma explicação.

JGR: Sim, veja, Lorenz, quem quer que lhe tenha dito que a "brasilidade" é apenas uma baboseira deve ser um professor, um desses "lógicos" que não compreendem nada,

que só compreendem com o cérebro; e, como se sabe, o cérebro humano é uma organização muito defeituosa e debilitada. Por isso o homem possui, além do cérebro, o

sen


INTRODUÇÃO GERAL / DIALOGO COM GUIMARÃES ROSA SS

timento, o coração, como queira. Não se deixe desconcertar pelo que dizem os sabichões! Você mencionou a "brasilidade" até que com bastante correção. Também não

posso dar uma definição para algo incompreensível, mas posso tentar uma interpretação. Apenas tentar.

GL: Você nos faria um grande favor, a mim e a alguns outros que nos debatemos para esclarecer este conceito.

JGR: Sim, é certamente um assunto dificil e complicado. É lógico que existe a "brasilidade". Existe como a pedra básica de nossòs almas, de nossos pensamentos, de

nossa dignidade, de nossos livros e de toda nossa forma de viver. Mas o que é ela? Muita gente já quebrou a cabeça por causa do assunto. Nos últimos tempos também

fora do Brasil se tem meditado sobre ela, e, infelizmente, apenas porque muitas vezes não nos podem compreender. Se estou bem lembrado, foi Goethe quem disse: Poesie

ist die Sprache des Unaussprechlichen.26 Esta é a afirmação de uma sabedoria máxima, e poderia ser aplicada também à "brasilidade"; entretanto, não altera o problema

que você me propôs. Já sabe que também não se pode explicar a palavra "saudade" em seu sentido lusitano, sem remontar à mentalidade lingüística portuguesa; e esta

palavra tem um caráter fundamental semelhante àquela. Um português não precisa explicá-la; já nasce com ela, leva-a dentro de si. Conhece-a com o coração, não com

a cabeça. Assim acontece com a "brasilidade"; nós dois sabemos a importância que tem e o que quer dizèr; e também só o sabemos com o coração. Freyre27 esboçou uma

definição muito boa, mas insuficiente. Se para sua explicação-não usarmos novamente o mesmo conceito, "brasilidade", não poderemos explicá-lo fora de nossa área

lingüística e sentimental. Eu pelo menos não posso fazê-lo, embora sinta esta "brasilidade" muito intensa, constantemente dentro de mim e apesar de ser o último

a capitular ante um problema lingüístico. Se isto pode consolá-lo, digo-lhe que também fui um daqueles que quebraram a cabeça pensando sobre esta questão. Existem

elementos da língua que não são captados pela razão; para eles são necessárias outras antenas. Mas, apesar de tudo, digamos também que a "brasilidade" é a língua

de algo indizível. Duvido que outras pessoas pudessem tirar disto uma conclusão mas, aqui entre nós dois, isto não é tão importante. Ou digamos, para salientar a

importância irracional, inconcebível, intimamente poética, que a palavra em si contém uma definição que tem valor para nós, para nosso

z6 "Poesiá é a linguagem do indizível". Citado em alemão por Guimarães Rosa.

z~ Gilberto Freyre, sociólogo, em sua Interpretação do Brasil (Lisboa) e em Casa-grande ér senzala (Rio de Janeiro, 1933).

JOAO GUIMARÃES ROSA 1 FICÇÃO COMPLETA

56 JOAO GUIMARÃES ROSA / FICÇÃO COMPLETA

INTAODUÇAO GERAL ~ DIALOGO COM GUIMARÃES ROSA S]

caráter, nossa maneira de pensar, de viver e de sentir: "brasilidade" é

talvez um sentir-pensar. Sim, creio que se pode dizer isto.

GL: Com isto não progredimos muito, pois agora poderíamos perguntar,

tanto eu como os outros: "Que diabos é um sentir-pensar?"

JGR: (rindo) Não fique nervoso. É um prazer quando outras pessoas que

não me interessam se irritam com alguma coisa que sabem que eles

mesmos não poderiam fazer melhor. Mas simplesmente não se po

de explicar a "brasilidade". Pode-se apenas concretizá-la em alguns

exemplos, ou pelo menos tentar.

GL: Tentemos; pelo menos já seria alguma coisa. Por favor, dê-me alguns

exemplos que você ache que podem reduzir a "brasilidade" a metáfo

ras. Quando você mencionou a "saudade", veio-me à lembrança o

"duende" de Lorca, aquele demônio também tão inconcebível, mas

que o próprio Lorca tornou plausível com alguns exemplos.

JGR: Um exemplo magnífico; o daimon de Lorca e também o daimon de Goethe são exemplos exatos para tais coisas indizíveis. Duvida-se da existência da "brasilidade",

mas ninguém mais põe em dúvida que exista um "duende" ou a "hispanidade" de Unamuno, pois foram exemplificados pela vida. Falemos da "brasilidade": nós os brasileiros

estamos firmemente persuadidos, no fundo de nossos corações, que sobreviveremos ao fim do mundo que acontecerá um dia. Fundaremos então um reino de justiça, pois

somos o único povo da terra que pratica diariamente a lógica do ilógico, como prova nossa política. Esta maneira de pensar é conseqüência da "brasilidade". Outro

exemplo, desta vez referente a mim mesmo, para que você possa acreditar tranqüilamente - estou certo de que você fará esta pergunta durante nossa conversa, por isso

antecipo a resposta. Eu não sei o que. sou. Posso bem ser cristão de confissão sertanista, mas também pode ser que eu seja taoísta à maneira de Cordisburgo, ou um

pagão crente à la Tolstoi. No fundo, tudo isto não é importante. Como homem inteligente, às vezes pode-se sentir necessidade de se tornar um beato ou um fundador

de religiões. A religião é um assunto poético e a poesia se origina da modificação de realidades lingüísticas. Desta forma, pode acontecer que uma pessoa forme palavras

e na realidade esteja criando religiões. Cristo é um bom exemplo disso. Também isto é "brasilidade". Um terceiro exemplo: segundo nossa interpretação brasileira,

não muito cristã, mas muito crédula, o diabo é uma realidade no mundo. Está oculto na essência das coisas, e faz ali suas brincadeiras. A ciência existe para expulsar

o diabo. O homem sofre sempre o desespero metafísico, pois conhece a existência do diabo e pode assim liquidá-lo, superando-o até conseguir uma humanidade sem falsidades.

Também isto é "brasilidade". Po

deria ficar várias horas dando exemplos como esses, mas não teria sentido. Para compreender a "brasilidade" é importante antes de tudo aprender a reconhecer que

a sabedoria é algo distinto da lógica. A sabedoria é saber e prudência que nascem do coração. Minhas personagens, que são sempre um pouco de mim mesmo, um pouco

muito, não devem ser, não podem ser intelectuais, pois isso diminuiria sua humanidade.

GL: Isto precisa ser explicado. Você, intelectual cultíssimo que lê tanto,


poliglota, será por ácaso um inimigo dos escritores intelectuais?

JGR: Não, de modo algum. Mas não suporto essas figuras intelectuais, dos quais se espera que a qualquer momento lhes brotem da boca bolas de papel.ZS Inteligência,

prudência, tal como eu as interpreto, cultura elevada, tudo isso está bem, pois o escritor atual deve possuir todas estas qualidades. Mas não deve se transformar

em um computador. Não deve abandonar as zonas do irracional, ou então deixa de produzir literatura e só produz papel. Flaubert, Dostoievski eram sacerdotes da palavra;

Zola, ao contrário, foi apenas um charlatão e por isso, hoje nada significa para nós, pois a necessidade que suas palavras expressam não existe mais. Assim acontece

com todos os que ligam à necessidade do dia-a-dia o seu chamado compromisso e além disso não possuem as faculdades lingüísticas necessárias para poder fazer literatura.

GL: Você está contra a lógica e defende o irracional. Entretanto, seu próprio processo de trabalho é uma coisa totalmente intelectual e lógica. Como você se explica

esta contradição, e como a explica para mim?

JGR: Não há nenhuma contradição. Um gênio é um homem que não sabe pensar com lógica, mas apenas com a prudência. A lógica é a prudência convertida em ciência; por

isso não serve para nada. Deixa de lado componentes importantes, pois, quer se queira quer não, o homem não é composto apenas de cérebro. Eu diria mesmo que, para

a maioria das pessoas, e não me excetuo, o cérebro tem pouca importância no decorrer da vida. O contrário seria terrível: a vida ficaria limitada a uma única operação

matemática, que não necessitaria da aventura do desconhecido e inconsciente, nem do irracional. Mas cada conta, segundo as regras da matemática, tem seu resultado.

Estas regras não valem para o homem, a não ser que não se creia na sua ressurreição e no infinito. Eu creio firmemente. Por isso também espero uma literatura tão

ilógica como a minha, que transforme o cosmo num sertão no qual a única realidade seja o inacreditável. A lógica, prezado ami


ze Guimarães Rosa refere-se ã apresentação estereotipada dos heróis das histórias em quadrinhos.

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go, é a força com a qual o homem, algum dia, haverá de se matar. Apenas superando a lógica é que se pode pensar com justiça. Pense nisto: o amor é sempre ilógico,



mas cada crime é cometido segundo as leis da lógica.

GL: Em seus livros acontecem muitas coisas que se pode chamar de crimes, assassinatos, homicídios, ultrajes. São estes, então, modos lógicos de conduta dos seus

heróis, por exemplo de seu Riobaldo?

JGR: Não, não se pode dizer isto. O que ali acontece não são crimes. A gente do sertão, os homens de meus livros, você mesmo escreveu isso, vivem sem consciência

do pecado original; portanto, não sabem o que é o bem e o que é o mal. Em sua inocência, cometem tudo o que nós chamamos "crimes", mas que para eles não o são. Alguma

coisa deste modo de pensar se conservou até mesmo na justiça de muitos países civilizados. Pense na distinção entre assassinato premeditado e homicídio irrefletido,

ou no que os franceses chamam "crime passional", o assassinato por ciúmes etc. Isto marca limites. No sertão, cada homem pode se encontrar ou se perder. As duas

coisas são possíveis. Como critério, ele tem apenas sua inteligência e sua capacidade de adivinhar. Nada mais. E assim se explica também aquele provérbio sertanejo

que à primeira vista parece outro paradoxo, mas que expressa uma verdade muito simples: o diabo não existe, por isso ele é tão forte. Às vezes não se encontram as

palavras que se está sentindo dentro de si mesmo.

GL: João Guimarães Rosa, você é uma pessoa delicada: olha o relógiõ muito dissimuladamente. Realmente já é tarde, e estamos aqui juntos há horas.

JGR: Desculpe, não quis demonstrar cansaço, mas realmente esta é a conversa mais longa que já tive.

GL: E eu lhe sou muito grato. Tratemos então de chegar pouco a pouco ao final, pois nós dois ainda temos alguma coisa pela frente. Depois de havermos abordado tantos

assuntos gerais, gostaria de saber algo muito específico, algo referente a seu magnífico livro Grande sertão, que neste caso deve ser tomado como representante de

suas demais obras; também de seu Sagarana, de seus contos e de seu ciclo Corpo de baile. O romance Grande sertão teve um sucesso mundial, não imerecido, sem dúvida,

mas que de certo modo me parece inexplicável. Que significado tem este livro para você?

JGR: Eu diria que Grande sertão foi para mim o término de um desenvolvimento e, ao mesmo tempo, algo que um dia, espero, levar-me-á à meta final.

GL: É um romance autobiográfico?

JGR: É, desde que você não considere uma autobiografia como algo excessivamente lógico. É uma "autobiografia irracional", ou melhor, mi

nha auto-reflexão irracional. Naturalmente que me identifico com este livro.

GL: A figura principal deste romance tem as melhores possibilidades de ser considerada um dos maiores heróis da literatura mundial. Tentou-se muito decifrá-lo, também

na Alemanha, e formulou-se toda espécie de definições, mas todas elas revelam um certo desamparo. Talvez a culpa disso caiba à mistura de elementos realistas e daqueles

que você costuma chamar "metafísica" ou "irracionalidade".

JGR: Estou firmemente convencido disso. As dificuldades resultariam, sobretudo na Europa, do fato de se conhecer muito pouco de nosso mundo, especialmente de meu

mundo do sertão.

GL: Atrevo-me a apostar que a maioria dos seus leitores alemães, antes de ler seu livro, nem sequer sabiam que o sertão existe. Provavelmente ainda o consideram

uma invenção sua.

JGR: Também acho. Recentemente, durante minha viagem à Alemanha, me convenci disso. Um crítico que me foi apresentado como um homem famoso - prefiro não dizer seu

nome - felicitou-me por eu haver eive literarische Landschaft erfunden,29 tão "magnífico", assim entre aspas. Coisas semelhantes me aconteceram na Itália, na França

e até na Espanha. Mas é preciso aceitar essas coisas, não se pode evitálas. Quando escrevo, não posso estar constantemente acrescentando notas de rodapé para assinalar

que se trata de realidades.

GL: Naturalmente, desempenha nisto um papel muito importante o modesto nível de conhecimento que têm os europeus sobre a América Latina e o Brasil. Você mesmo já

disse isso. Livros como seu romance contribuirão sem dúvida para complementar essa imagem cheia de lacunas. Terão de se conformar, assim espero, com a idéia de que

o Brasil é um cosmo próprio.

1GR: Sem dúvida o Brasil é um cosmo, um universo em si. Portanto,

Riobaldo e todos os seus irmãos são habitantes de meu universo, e

com isso voltamos ao ponto de partida.

Este Riobaldo - conforme li em várias ocasiões - seria considera

do um Fausto, um místico, um homem do barroco, e designações

dessa espécie já lhe foram atribuídas. Como você delineia o seu

Riobaldo?

JGR: Não, Riobaldo não é Fausto, e menos ainda um místico barroco. Riobaldo é o sertão feito homem e é meu irmão. Muitos de meus intérpretes se equivocaram, exceto

você novamente. Riobaldo é mundano demais para ser místico, é místico demais para ser Fausto; o que chamam barroco é apenas a vida que toma forma na linguagem.
29 "Inventado uma nova paisagem literária". Citado em alemão por Guimarães Rosa.

GL:


GL: Sim, essa linguagem... Soube que entre você e seu tradutor alemão, Curt Meyer-Clason, houve longas discussões acerca de algumas passagens sobre cujo sentido

vocês não podiam entrar em acordo.

JGR: Não, não, não foi assim. Não é exato. Estimo muito Meyer-Clason; admiro-o como homem da língua, admiro suas qualidades. É o melhor de todos os meus tradutores,

provavelmente um dos melhores que há no mundo. Um homem que se estima tanto não pode ser considerado como um simples transportador de palavras. Com ele se discute

sabendo-se que vale a pena, que não é tempo perdido. Confesso com muito prazer que Meyer-Clason me convenceu de que uma passagem de meu romance - na realidade se

tratava de uma metáfora - era mais convincente na tradução alemã que em meu original. É claro que aceito isso, e em uma nova edição brasileira pretendo adaptar esta

passagem à versão que Meyer-Clason encontrou em alemão. A isto eu chamo cooperação, co-pensamento.

GL: E o seu Riobaldo? Acho que você ainda não acabou de caracterizá-lo.

JGR: Eu sei. Gostaria de acrescentar que Riobaldo é algo assim como Raskolnikov, mas um Raskolnikov sem culpa, e que entretanto deve expiá-la. Mas creio que Riobaldo

também não é isso; melhor: é apenas o Brasil.

GL: Ainda tenho uma última pergunta, a cuja resposta dou muita importância. Não ria, não vou lhe perguntar em que está trabalhando agora. Sei que isso não levaria

a nada. Mas gostaria que me dissesse o que pensa do futuro da América Latina.

JGR: Realmente, pensei que você estava querendo me comprometer agora, e depois me perguntar todo ano quando ficaria pronto o livro anunciado. Prefiro que não tenha

sido assim. Sou um homem que viu muitas coisas no mundo, que entende muito de literatura mundial. Não quero pecar por presunção, mas comparando quantitativa e qualitativamente

o que se escreve, por exemplo, na Europa, com o que se escreve entre nós, sinto-me um tanto orgulhoso. É claro que também entre nós se imprime muita coisa medíocre

que nada tem a ver com a literatura. Mas isso existe sempre e em toda parte. Entre nós, não só no Brasil e não só entre os escritores velhos e os de minha geração,

há muitos que justificam as maiores esperanças, e permitem que encaremos tranqüilamente o futuro. A América Latina tornou-se, no terreno literário e artístico, digamos

em alemão, Weltfáhig.3O O mundo terá de contar. Olhe, Lorenz, não seria tão errado reduzir todas as ciências a uma lei básica, como fizeram os escolásticos e cientistas

medievais. Não, eu não quis evocar a teologia. Mas quero pintar um panorama
3O "Apta para o mundo". Citado em alemão por Guimarães Rosa.

que, no fundo, delineia todos os problemas intelectuais da atualidade. Olhe o futuro da Europa e de toda a humanidade: é como uma equação com várias incógnitas.

A Europa é pequena, mas seus habitantes são ativos e, além disso, têm a seu favor uma grande tradição. E entretanto os europeus não têm qualquer influência sobre

essas incógnitas que determinam o futuro de seu continente. O "x" e o "y" desta questão decidirão o amanhã, tanto é assim que quase já se pode dizer hoje. A América

Latina talvez não seja a incógnita principal, o "x", mas provavelmente será o "y", uma incógnita secundária muito importante. Pela matemática, sabe-se que uma equação

não se resolve se uma segunda incógnita não for eliminada. Suponhamos agora que a América Latina seja a tal incógnita "y". Com isso a Europa está em um ponto culminante

para o seu futuro. E não estou falando apenas das necessidades e do potencial econômico de meu continente. Você sabe que nós, os latino-americanos, nos sentimos

muito ligados à Europa. Para mim, Cordisburgo foi sempre uma Europa em miniatura. Amamos a Europa como, por exemplo, se ama uma avó. Por isso espero que a Europa

reconheça a equação e leve em conta o "y". Isso não lhe traria nenhum prejuízo. Por nós e conosco talvez a Europa tenha um futuro não só no campo econômico, não

só no campo político, mas também como fator de poder espiritual. No final das contas, somos parentes espirituais: avó e netos. A Europa é um pedaço de nós; somos

sua neta adulta e pensamos com preocupação no destino, na enfermidade de nossa avó. Se a Europa morresse, com ela morreria um pedaço de nós. Seria triste, se em

vez de vivermos juntos, tivéssemos de dizer uma oração fúnebre pela Europa. Estou firmemente convencido, e por isso estou aqui falando com você, de que no ano 2OOO

a literatura mundial estará orientada para a América Latina; o papel que um dia desempenharam Berlim, Paris, Madrid ou Roma, também Petersburgo ou Viena, será desempenhado

pelo Rio, Bahia, Buenos Aires e México. O século do colonialismo terminou definitivamente. A América Latina inicia agora o seu futuro. Acredito que será um futuro

muito interessante, e espero que seja um futuro humano.

Gênova, janeiro de 1965. FIM DE "DIALOGO COM GUIMARÃES ROSA"

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FORTUNA CRÍTICA



SAGARANA
Antonio Condido

S. PAULO, JuLxo - O grande êxito de Sagarana, do dr. J. Guimarães Rosa, não deixa de se prender às relações do público ledor com o problema do regionalismo e do

nacionalismo literário. Há cerca de trinta anos, quando a literatura regionalista veio para a ribalta, gloriosa, avassaladora, passávamos um momento de extremo federalismo.

Na intelligentzia, portanto, o patriotismo se afirmou como reação de unidade nacional. A Pátria, com pê sempre maiúsculo, latejou descompassadamente, e os escritores

regionais eram procurados como afirmação nativista. Foi o tempo em que todo jovem promotor ou delegado, despachado para as cidadezinhas do interior, voltava com

um volume de contos ou uma novela sertaneja, quase sempre lembrança de cenas, fatos e pessoas cujo pitoresco lhes assanhava a sensibilidade litorânea de nascimento

ou educação.

A reviravolta econômica nos grandes Estados, subseqüente à crise de 1929, alterou os termos de equação política, e a descentralização federalista, depois de alguns

protestos nem sempre platônicos, foi cedendo passo à nova fase centralizadora, exigida quase pelo desenvolvimento da indústria. Processo cuja aberração foi o Estado

Novo, assim como a constituição castilhista tinha sido a aberração do processo anterior.

Para compensar - como às vezes acontece -, a intelligentzia se virou para o bairrismo. Antes, quando a palavra de ordem política e o sentimento geral eram provincianos,

foi chique ser nacionalista, e o porta-voz mais característico da tendência foi Olavo Bilac. Agora, que as forças unitárias predominam e já se vai generalizando

um certo sentimento de todo - deste todo de repente vivo e existente por meio do rádio e do aeroplano -,agora

"Todos os textos da Fortuna Crítica foram retirados do v. 6 da Coleção Fortuna Crítica da Civilização Brasileira / Pró-Memória / INL, 1963, com exceção de "Um livro

inédito", de Graciliano Ramos, retirado de Linhas tonas, Martins Editora, 1962.

a moda é ser bairrista, e o porta-voz mais autorizado da tendência é o sr. Gilberto Freyre, pai da voga atual da palavra "província". Todos falam na sua província,

nas suas tradições etc etc, embora a maioria prefira fazer como seu Rui da canção, isto é, ela lá e eu aqui. Quando chega ao Rio, o jovem intelectual não mais se

esforça por mudar a pronúncia e parecer familiarizado com a cidade; capricha o sotaque e escreve imediatamente sobre a negra velha que (diz ele) o criou, falando

dos avós da pequena terra em que nasceu etc. O maior elogio do dia é "sabor da terra", traduzindo do francês, já se vê, e a maior ofensa dizer a um escritor que

ele "não tem raízes".

Natural, em meio semelhante, o alvoroço causado pelo sr. Guimarães Rosa, cujo livro vem cheio de "terra", fazendo arregalar os olhos aos intelectuais que não tiveram

a sorte de morar ou nascer no interior (digo, na "província") ou aos que, tendo nela nascido, nunca souberam do nome da árvore grande do largo da igreja, coisa bem

brasileira. Seguro do seu feito, o sr. Guimarães Rosa despeja nomes de tudo - plantas, bichos, passarinhos, lugares, modas - enrolados em locuções e construções

de humilhar os citadinos. "Irra, que é talento demais", como o deputado português, mal comparando.

Mas Sagarana não vale apenas na medida em que nos traz um certo sabor regional, mas na medida em que constrói um certo sabor regional, isto é, em que transcende



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