João guimarães rosa ficçÃo completa volume I vq~ ume I introduçÃo geral prefacio



Baixar 3,05 Mb.
Página54/54
Encontro12.04.2018
Tamanho3,05 Mb.
1   ...   46   47   48   49   50   51   52   53   54

do outro lado da cerca, lambendo sal no cocho, e Miguilim quis passar mão, na testa dele, alisar, fazer festas. O touro tinha só todo desentendimento naquela cabeçona

preta - deu uma levantada, espancando, Miguilim gritou de dor, parecia que tinham quebrado os ossos da mão dele. Mãe trouxe a mula de cristal, branquinho, aplicou

no lugar, aquela friúra lisinha do cristal cercava a dor para sarar, não deixava inchaço; mas Miguilim gemia e estava com raiva até dele mesmo. O Dito veio perto,

falou que o touro era burro, Miguilim achava que tinha entendido que o Dito queria era mexer - minha-nossenhora! - nem sabia por que era que estava com raiva do

Dito: pulou nele, cuspiu, bateu, o Dito bateu também, todo espantado, com raivas - "Cão!" "Cão!" - no chão que rolaram, quem viu primeiro pensava eles dois estivessem

brincando.

Quando Miguilim de repente pensou, fechou os olhos: deixava o Dito dar, o Dito podia bater o tanto que quisesse, ele ficava quieto, não podia brigar com o Dito!

Mas o Dito não batia. O Dito ia saindo embora, nem insultava, só fungava; decerto pensava que ele Miguilim estava ficando doido. Quem sabe estava? Desabria de vergonha,

até susto, medo. Carecia de não chorar, rezar a Deus o cr"em-deus-padre. Não achava coragem pronta para frentear o Dito, pedir perdão - podia que tão ligeiro o Dito

não perdoasse. E então Miguilim foi andando - a mão que o Rio-Negro machucou nem não doía mais - e Miguilim veio se sentar no tamborete, que era o de menino de-castigo.

A vergonha que sentia era assim como se ele tivesse sobrado de repente ruim leve demais, a modo que todõ esvaziado, carecia de esperar muito tempo, quieto, muito

sozinho, até o corpo, a cabeça se encher de peso firme outra vez; mais não podia. Aquele castigo dado-por-si decerto era a única coisa que valia.

Com algum tempo, mais não agüentava: ia porque ia, procurar o Dito! Mas o Dito já vinha vindo. - "Miguilim, a gente vai trepar no pé-de-fruta..." O Dito nem queria

falar na briga. Ele subia mais primeiro - o brinquedo ele tinha inventado. Antes de subir, botava a camisinha para dentro da calça, resumia o pelo-sinal, o Dito

era um irmão tão bonzinho e sério, todas as coisas certas ele fazia. Lá em cima, bem em cima, cada um numa forquilha de galhos, estavam no meio das folhagens, um

quase defronte do outro, só sozinhos. Estavam ali como escondidos, mas podiam ver o que em volta de casa se passava. O gato Sossõe que rastreava sorrateiro, capaz

de caçar alguma lagartixa: com um zapetrape ele desquebrava a lagartixa, homem de fazer assim até com calango - o calango pequeno verde que é de toda parte, que

entra em mato e vem em beira de morada, mas que vive o diário é no cerrado. Maria Pretinha lavando as vasilhas no rego,

516 JOÃO GUIMARÃES ROSA / FICÇÃO COMPL

Papaco-o-Pato cochilando no poleiro, Mãitina batendo roupa na laje lavadouro. - "Dito, você não guarda raiva de mim, que eu fiz?" - "V fez sem por querer, só por

causa da dor que estava doendo..." O Dito fu gava no nariz, ele estava sempre endefluxado. Falava: - "Mais, se v tornar a fazer, eu dou em você, de pontapé, eu jogo

pedrada!..." Migui não queria dizer que agora estava pensando no Rio-Negro: que por que que um bicho ou uma pessoa não pagavam sempre amor-com-amor, amizade de outro?

Ele tinha botado a mão no touro para agradar, e o tou tinha repontado com aquela brutalidade. - "Dito, a gente vai ser sernp amigos, os mais de todos, você quer?"

- "Demais, Miguilim. Eu já fale Com um tempo, Miguilim tornava: - "Você acha que o Rio-Negro e demônio dentro dele, feito o Patori, se disse?" - "Acho não." O que

o Di achava era custoso, ele mesmo não sabia bem. Miguilim perguntava mais da conta. Então o Dito disse que Pai ia mandar castrar o Rio-Negro qualquer jeito, porque

careciam de comprar outro garrote, ele não se mais para a criação, capava e vendia para ser boi-de-lote, boi-boiadeir iam levar nas cidades e comer a carne do Rio-Negro.

Vaqueiro Saluz fala que era bom: castravam no curral e lá mesmo faziam fogo, assavam grãos dele, punham sal, os vaqueiros comiam, com farinha.

Mas, de noite, no canto da cama, o Dito formava a resposta: - "O rui tem raiva do bom e do ruim. O bom tem pena do ruim e do bom... Ass está certo." - "E os outros,

Dito, a gente mesmo?" O Dito não sabia. "Só se quem é bronco carece de ter raiva de quem não é bronco; eles acha que é moleza, não gostam... Eles têm medo que aquilo

pegue e amole neles mesmos - com bondades..." - "E a gente, Dito? A gente?" - gente cresce, uai. O mole judiado vai ficando forte, mas muito mais for Trastempo,

o bruto vai ficando mole, mole..." Miguilim tinha trazido mula de cristal, que acertava no machucado da mão, debaixo das cobert - "Dito, você gosta de Pai, de verdade?"

- "Eu gosto de todos. Por iss que eu quero não morrer e crescer, tomar conta do Mutum, criar um dão enorme."

De madrugada, todo o mundo acordou cedo demais, a Maria Pretin tinha fugido. A Rosa relatava e xingava: - "Foi o vaqueiro Jé que seduzi corjo desgramado! Sempre

eu disse que ela era do rabo quente... Levott negrinha a cavalo, decerto devem de estar longe, ninguém não pega ma O cavalo do vaqueiro Jé se chamava Assombra-Vaca.

O vaqueiro Jé e branco, sarda!, branqueio. Como é que foi namorar completo com a Mar Pretinha? A Rosa também era branca, mas era gorda e meia-velha, não n morava

com ninguém. Quando a Rosa brabeava, desse jeito assim, Pap co-o-Pato também desatinava. Aquilo ele gritava só numa fúria: - " não bebo mais cachaça, não gosto de

promotor! Filho-da-mãe é você! É vb ouviu!? É você!..."

O Dito não devia de ter ido de manhãzinha, ao nascer do sol, espiar

N(ANUELZAO E MIGUILIM 51]

coruja em casa dela, na subida para a Laje da Ventação. Miguilim não quis ir. Era uma coruja pequena, coruja-batuqueira, que não faz ninhos, bota os ovos num cupim

velho, e gosta de ficar na porta - no buraco do cupim - quando a gente vinha ela dava um grito feio - um barulho de chiara: " Cuic-cc"-kikikik!... " e entrava no

buraco; por perto, só se viam as cascas dos besouros comidos, ossos de cobra, porcaria. E ninguém não gostava de passar ali, que é perigoso: por ter espinho de cobra,

com os venenos.

O Dito contou que a coruja eram duas, que estavam carregando bosta de vaca para dentro do buraco, e que rodavam as cabeças p"ra espiar pra ele, diziam: "Dito! Dito!"

Miguilim se assustava: - "Dito, você não devia de ter ido! Não vai mais lá não, Dito." Mas o Dito falou que não tinha ido para ver a coruja, mas porque sabia do

lugar onde o vaqueiro Jé mais a Maria Pretinha sempre em escondido se encontravam. - "Que é que tinha lá, então, Dito?" - "Nada não. Só tinha a sombra da árvore

grande e o capim do campo por debaixo."

Mas no meio do dia o mico-estrela fugiu, correu arrepulando pelas moitas de carqueja, trepou no cajueiro, pois antes de trepar ainda caçou maldade de correr atrás

da perua, queria puxar o rabo dela. Todo o mundo perseguiu ligeiro pra pegar, a cachorrada latindo, Vovó Izidra gritava que os meninos estavam severgonhados, Mãe

gritava que a gente esperasse, que a Rosa sozinha pegava, Drelina gritava que deixassem o bichinho sonhim ganhar a liberdade do mato que era dele, o Papaco-o-Pato

gritava: "Mãe, olha a Chita me beliscando! Ai, ai, ai, Pai, a Chita puxou meu cabelo!..."era copiadinho o choro de Tomezinho. A gente tinha de fazer diligência,

se não já estava em tempo d"os cachorros espatifarem o pobre do mico. Não se pegou: ele mesmo, sozinho por si, quis voltar para a cabacinha. Mas foi aí que o Dito

pisou sem ver num caco de pote, cortou o pé: na cova-do-pé, um talho enorme, descia de um lado, cortava por baixo, subia da outra banda.

- "Meu-deus-do-céu, Dito!" Miguilim ficava tonto de ver tanto sangue. - "Chama Mãe! Chama Mãe!"- o Dito pedia. A Rosa carregou o Dito, lavaram o pé dele na bacia,

a água ficava vermelha só sangue, Vovó Izidra espremia no corte talo de bálsamo da horta, depois puderam amarrar um pano em cima de outro, muitos panos, apertados;

ainda a gente sossegou, todo o mundo bebeu um gole d"água, que a Rosa trouxe, beberam num copo. O Dito pediu para não ficar na cama, armaram a rede para ele no alpendre.

Miguilim queria ficar sempre perto, mas o Dito mandava ele fosse saber todas as coisas que estavam acontecendo. - "Vai ver como é que o mico está." O mico estava

em pé na cabacinha, comendo arroz, que a Rosa dava. - "Quando o vaqueiro Saluz chegar, pergunta se é hoje que a vaca Bigorna vai dar cria." - "Miguilim, escuta o

que Vovó Izidra conversar com a Rosa, do vaqueiro Jé mais a Maria Pretinha." O Dito gostava de ter notícia de todas as vacas, de todos os camaradas que estavam trabalhando

nas outras

51$ JOÃO GUIMARÃES RoSA / FICÇÃO COMPLE

roças, enxadeiros que meavam. Requeria se algum bicho tinha vindo estr gar as plantações, de que altura era que o milho estava crescendo. - "Vo Izidra, a senhora

já vai fazer o presépio?" - "Daqui a três dias, Dito, e começo." O Dito não podia caminhar, só podia pulando num pé só, m doía, porque o corte tinha apostemado muito,

criando matéria. Chaman do, o Gigão vinha, vigiava a rede, olhava, olhava, sacudia as orelhas. "Você está danado, Dito, por causa?" - "Estou não, seo Luisaltino,

costu mei muito com essas coisas..." - "Depressa que sare!" - "Uê, p"ra se sarai basta se estar doente."

Meu-deus-do-céu, e o Dito já estava mesmo quase bom, só que torno outra vez a endefluxar, e de repente ele mais adoeceu muito, começou chorar - estava sentindo dor

nas costas e dor na cabeça tão forte, dizia qu estavam enfiando um ferro na cabecinha dele. Tanto gemia e exclamava enchia a casa de sofrimento. Aí Luisaltino montou

a cavalo, ia daí a mal de um dia de viagem, aonde tinha um fazendeiro que vendia, buscar rem dio para tanta dor. Vovó lzidra fez um pano molhado, com folhas-santas

amassadas, amarrou na cabeça dele. - "Vamos rezar, vamos rezar!" -À Vovó Izidra chamava, nunca ela tinha estado tão sem sossego assim. Decl diram dar ao Dito um

gole d"água com cachaça. Mas ele tinha febre muita quente, vomitava tudo, nem sabia quando estava vomitando. Vovó Izidr veio dormir no quarto, levaram a caminha

do Tomezinho para o quarto Luisaltino. Mas Miguilim pediu que queria ficar, puseram uma esteira n chão, para ele, porque o Dito tinha de caber sozinho no catre.

O Dito ge mia, e a gente ouvia o barulhinho de Vovó Izidra repassando as contas d terço.

No outro dia, o Dito estava melhorando. Só que tinha soluço, quem beber água-com-açúcar. Miguilim ficava sentado no chão, perto dele. Vód vó lzidra tinha de principiar

o presépio, o Dito não podia ver quando ela" tirar os bichos do guardado na canastra - boi, leão, elefante, águia, urso, camelo, pavão - toda qualidade de bichos

que nem tinha deles ali no M tum nem nos Gerais, e Nossa Senhora, São José, os Três Reis e os Pastore os soldados, o tem-de-ferro, a Estrela, o Menino Jesus. Vovó

Izidra vez e quando trazia uma coisa ou outra para mostrar ao Dito: os panos, que el endurecia com grude - moía carvão e vidro, e malacacheta, polvilhava n grude.

Mas Dito queria tanto poder ver quando ela estava armando o pie sépio, forrando os tocos e caixotes com aqueles panos - fazia as serras; formava a Gruta. Os panos

pintados com anil e tinta amarela de pacarb misturados davam um verde bonito, produzido manchado, como todos d matos no rebroto. E tinha umas bolas grandes, brilhantes

de muitas cores, e o arroz plantado numa lata e deixado nascer no escuro, para não ser vei de e crescer todo amarelo descorado. Tinha a lagoa, de água num prato"

fundo, com os patinhos e peixes, o urso-branco, uma rã de todo tamanho o cágado, a foquinha bicuda. Quase a maior parte daquelas coisas Vov

~IANLELZÃO E MIGUILIM 519

lzidra possuía e carregava aonde ia, desde os tempos de sua mocidade. Depois de pronto, era só pôr o Menino Jesus na Lapinha, na manjedoura, com a mãe e o pai dele

e o boizinho e o burro. E punha um abacaxi-maçã, que fazia o presépio todo cheirar bonito. Todos os anos, o presépio era a coisa mais enriquecida, vinha gente estranha

dos Gerais, para ver, de muitos redores. Mas agora o Dito não podia ir ajudar a arrumação, e então Miguilim gostava de não ir também, ficar sentado no chão, perto

da cama, mesmo quando o Dito tinha sono, o Dito agora queria dormir quase todo o tempo.

A Chica e Tomezinho podiam espiar armar o presépio o prazo que quisessem, mas eram tão bobinhos que pegavam inveja de Miguilim e o Dito não estarem vendo também.

E então vinham, ficavam da porta do quarto, os dois mais o Bustica - aquele filho pequeno do vaqueiro Saluz. - "Vocês não podem ir ver presepe, vocês então vão para

o inferno!" - isso a Chica tinha ensinado Tomezinho a dizer. E tinha ensinado o Bustica a fazer caretas. O Dito não se importava, até achava engraçado. Mas então

Miguilim fez de conta que estava contando ao Dito uma estória - do Leão, do Tatu e da Foca. Aí Tomezinho, a Chica e aquele menino o Bustica também vinham escutar,

se esqueciam do presépio. E o Dito mesmo gostava, pedia: - "Conta mais, conta mais..." Miguilim contava, sem carecer de esforço, estórias compridas, que ninguém

nunca tinha sabido, não esbarrava de contar, estava tão alegre nervoso, aquilo para ele era o entendimento maior. Se lembrava de seo Aristeu. Fazer estórias, tudo

com um viver limpo, novo, de consolo. Mesmo ele sabia, sabia: Deus mesmo era quem estava mandando! - "Dito, um dia eu vou tirar a estória mais linda, mais minha

de todas: que é a com a Cuca Pingo-de-Ouro!..." O Dito tinha alegrias nos olhos; depois, dormia, rindo simples, parecia que tinha de dormir a vida inteira.

A Pinta-Amarela tirou os pintinhos, todos vivos, e no meio as três perdizinhas. A Rosa trouxe as três, em cima de uma peneira, para o Dito conhecer. Mas o Dito mandava

Miguilim ir espiar, no quintal, e depois dizer para ele como era que elas viviam de verdade. A dor-de-cabeça do Dito tinha voltado forte, mas agora Luisaltino tinha

trazido as pastilhazinhas, ele engolia, com gole d"água, melhorava. - "Dito, as três perdizinhas são diabinhas! A galinha pensa que elas são filhas dela, mas parece

que elas sabem que não são. Todo o tempo se assanham de querer correr para o bamburral, fogem do meio dos pintinhos irmãos. Mas a galinha larga os pintinhos, sai

atrás delas, chamando, chamando, cisca para elas comerem os bichinhos da terra..." A febre era mais muita, testa do Dito quente que pelava. - "Miguilim, vou falar

uma coisa, para segredo. Nem p"ra mim você não torna a falar." O Dito sentava na cama, mas não podia ficar sentado com as pernas esticadas direito, as pernas só

teimavam em ficar dobradas nos joelhos. Tudo endurecia, no corpo dele. - "Miguilim, espera, eu

52O JOAO GUIMARÃES ROSA / FICÇÃO COMPLET

estou com a nuca tesa, não tenho cabeça pra abaixar..." De estar pior, Dito quase não se queixava.

- "Miguilim, Vovó Izidra toda hora está xingando Mãe, quando el estão sem mais ninguém perto?" Miguilim não sabia, Miguilim quase nu ca sabia as coisas das pessoas



grandes. Mas o Dito, de repente, pegava fazer caretas sem querer, parecia que ia dar ataque. Miguilim chamava Vo vó Izidra. Não era nada. Era só a cara da doença

na varinha dele.

1   ...   46   47   48   49   50   51   52   53   54


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal