João guimarães rosa ficçÃo completa volume I vq~ ume I introduçÃo geral prefacio



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~ Z Além do bem e do mal, título de um livro fundamental de Nietzsche. Citado em alemão por Guimarães Rosa.

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JOÃO GUIMARÃES ROSA ~ FICÇAO COMPLETA



IN"fROUUÇÃO GERAL ~ DIALOGO COM GUIMARÃES ROSA

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guagem muitos outros elementos, para ter ainda mais possibilidade de expressão.



GL: Poderá citar alguns desses elementos adicionais?

JGR: Naturalmente são muitos. Primeiro, há meu método que implica na utilização de cada palavra como se ela tivesse acabado de nascer, para limpá-la das impurezas

da linguagem cotidiana e reduzi-la a seu sentido original. Por isso, e este é o segundo elemento, eu incluo em minha dicção certas particularidades dialéticas de

minha região, que são linguagem literária e ainda têm sua marca original, não estão desgastadas e quase sempre são de uma grande sabedoria lingüística. Além disso,

como autor do século XX, devo me ocupar do idioma formado sob a influência das ciências modernas e que representa uma espécie de dialeto. E também está à minha disposição

esse magnífico idioma já quase esquecido: o antigo português dos sábios e poetas daquela época dos escolásticos da Idade Média, tal como se falava, por exemplo,

em Coimbra. E ainda poderia citar muitos outros, mas isso nos levaria muito longe. Seja como for, tenho de compor tudo isto, eu diria "compensar", e assim nasce

então meu idioma que, quero deixar bem claro, está fundido com elementos que não são de minha propriedade particular, que são acessíveis igualmente para todos os

outros.

GL: Você falou anteriormente do escritor como descobridor, e no seu caso isto vale também com relação à língua. Quanto à sua última frase, acho que é como todos



os descobrimentos: estão no ar, mas apenas um os encontra. Não esqueçamos o aspecto da genialidade...

JGR: Genialidade, sei... Eu diria: trabalho, trabalho e trabalho!

GL: Sim, trabalho. Mas estamos esquecendo dois importantes elementos de sua linguagem: sua genial intuição no trato com o idioma, seu gênio criativo e recreativo,

que indiscutivelmente existe e que é do mesmo modo muito importante, e também seu conhecimento de línguas estrangeiras. Quantas línguas você domina?

JGR: Dominar é muito. Sei lê-las; para isso as aprendi. Falar; só com grande dificuldade.

GL: Quantas?

JGR: Acho que oito, talvez algumas mais.13

GL: Portanto, esta condição de poliglota é também muito importante para sua própria linguagem. Você certa vez já mencionou o fato da "retradução intelectual", não

é verdade? Freqüentemente você faz ex

13 Por um artigo publicado no Brasil em 1967, após a morte de Guimarães Rosa, eu soube que ele falava português, espanhol, francês, inglês, alemão e italiano. Além

disso, possuía conhecimentos suficientes para ler livros em latim, grego clássico, grego moderno,

sueco, dinamarquês, servo-croata, russo, húngaro, persa, chinês, japonês, hindu, árabe e malaio.

periências com palavras tomadas de idiomas estrangeiros. Posso notar isso nesta nossa conversa. Você está sempre citando expressões, provérbios e particularidades

intraduzíveis de idiomas estrangeiros. Estou pensando na magnífica palavra supping,14 que você extraiu do dialeto hamburguês e para a qual não existe tradução em

seus dicionários, mas no seu livro tem tradução e lugar.

JGR: Eu a converti em uma metáfora, e assim pude descrever um estado

de alma para o qual conheço outra expressão alemã, Allerseelenstim

mung,15 creio que provém da Áustria, não é? Mas súpping16 é mais

neutro, me agrada mais, não é tão íntimo.

GL: Com todas essas condições de que dispõe, você se adianta um bocado aos demais autores.

JGR: Pode ser, mas não creio que isso seja decisivo. Repito minha opinião: o trabalho é importantíssimo! Mas ainda mais importante para mim é o outro aspecto, o

aspecto metafísico da língua, que faz com que minha linguagem antes de tudo seja minha. Também aqui pode-se determinar meu ponto de partida, que é muito simples.

Meu lema é: a linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem

também deve evoluir constantemente. Isto significa que, como escritor, devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela

ser novamente vida. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas. Daí resulta que tenha de limpá-lo, e como é a

expressão da vida, sou eu o responsável por ele, pelo que devo constantemente umsorgen." Soa a Heidegger, não? Ele construiu toda uma filosofia muito estranha, baseado

em sua sensibilidade para com a língua, mas teria feito melhor contentando-se com a lingua. Sim, com isto eu já disse todo o fundamental sobre minha relação com

a língua. É um relacionamento familiar, amoroso. A língua e eu somos um casal de amantes que juntos procriam apaixonadamente, mas a quem até hoje foi negada a bênção

eclesiástica e científica. Entretanto, como sou sertanejo, a falta de tais formalidádes não me preocupa. Minha amante é mais importante para mim.

GL: Uma vez você me disse que quando escreve quer se aproximar de

Deus, às vezes demasiadamente. Certamente, isto também se rela

ciona com a língua. Como se deve entender isso?

"~ De Suppe = sopa. Guimarães Rosa utiliza a palavra para se referir ao tempo.

~" "Estado de ânimo do dia de Finados". Na Europa Central, tempo cinzento e chuvoso. 16 Citado em alemão por Guimarães Rosa.

~" "Cuidar dele". Citado em alemão por Guimarães Rosa.

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JGR: Isto provém do que eu denomino a metafísica de minha linguagem, pois esta deve ser a língua da metafísica. No fundo é um conceito blasfemo, já que assim se

coloca o homem no papel de amo da criação. Ohomem ao dizer: eu quero, eu posso, eu devo, ao se impor isso a si mesmo, domina a realidade da criação. Eu procedo

assim, como um cientista que também não avança simplesmente com a fé e com pensamentos agradáveis a Deus. Nós, o cientista e eu, devemos encarar a Deus e o infinito,

pedir-lhes contas, e, quando necessário, corrigi-los também, se quisermos ajudar o homem. Seu método é meu método. O bem-estar do homem depende do descobrimento

do soro contra a varíola e as picadas de cobras, mas também depende de que ele devolva à palavra seu sentido original. Meditando sobre a palavra, ele se descobre

a si mesmo. Com isto repete o processo da criação. Disseram-me que isto era blasfemo, mas eu sustento o contrário. Sim! a língua dá ao escritor a possibilidade de

servir a Deus corrigindo-o, de servir ao homem e de vencer o diabo, inimigo de Deus e do homem. A impiedade e a desumanidade podem ser reconhecidas na língua. Quem

se sente responsável pela palavra ajuda o homem a vencer o mal.

GL: Então, novamente, também na língua o compromisso humanista, o "compromisso do coração", do qual você falou.

JGR: Sim, é isso. Você, meu caro Lorenz, em sua crítica ao meu livro escreveu uma frase que me causou mais alegria que tudo quanto já se disse a meu respeito. Conforme

o sentido, dizia que em Grande sertão eu havia liberado a vida, o homem, von der Last der Zeitlichkeit brefreit.ls É exatamente isso que eu queria conseguir. Queria

libertar o homem desse peso, devolver-lhe a vida em sua forma original. Legítimaliteratura deve ser vida. Não há nada mais terrível que uma literatura de papel,

pois acredito que a literatura só pode nascer da vida, que ela tem de ser a voz daquilo que eu chamo "compromisso do coração". A literatura tem de ser vida! O escritor

deve ser o que ele escreve.

GL: Na verdade você está de acordo, depois de tudo o que disse, em ser chamado de revolucionário da língua? A expressão "revolucionário" está tão desgastada, que

mal pode fazer justiça ao que você define como língua e relação para com a língua e dever desta.

JGR: Você diz justamente o certo! Não sou um revolucionário da língua. Quem afirma isto não tem qualquer sentido da língua, pois julga se

"s "Liberto do peso da temporalidade". Citado em alemão por Guimarães Rosa e extraído da resenha da edição alemã de Grande sertão (Coldnia, 1964), publicada em 17

de setembro de 1964 em Welt der Literatur ("Mundo da Literatura"), Hamburgo.

gundo as aparências. Se tem de haver uma frase feita, eu preferia que

me chamassem de reacionário da língua, pois quero voltar cada dia à

origem da língua, lá onde a palavra ainda está nas entranhas da alma,

para poder lhe dar luz segundo a minha imagem. Veja como se tor

nam insénsatas as frases feitas, tais como "revolucionário" ou "rea

cionário", quando as examinamos em função de sua utilidade, quan

do a gente as toma beim Wort nimmt,19 como dizem os alemães.

GL: Você não é nenhum revolucionário, embora ponha a língua toda de

cabeça para baixo e trabalhe para o futuro: Você recusou noções como

genialidade e intuição. Como explica seu processo de criação, aquilo

que denominou "chocar" seus livros?

JGR: Escrever é um processo químico; o escritor deve ser um alquimista.

Naturalmente, pode explodir no ar. A alquimia do escrever precisa

de sangue do coração. Não estão certos, quando me comparam com

Joyce. Ele era um homem cerebral, não um alquimista. Para poder

ser feiticeiro da palavra, para estudar a alquimia do sangue do coração humano, é preciso provir do sertão.

GL: Esta invocação do sertão me lembra muito aquele famoso pedido de Ortega y Gasset de um Goethe dentro de si...

JGR: Sim, sim, concordo imediatamente. Pedindo um sertão dentro de si.2O Levo o sertão dentro de mim e o mundo no qual vivo é também o sertão. Estes são os paradoxos

incompreensíveis, dos quais o segredo da vida irrompe como um rio descendo das montanhas. Mas esta comparação com a citação de Ortega y Gasset não foi tomada de

tão longe como à primeira vista poderia parecer. Expondo-me ao perigo de que meus leitores alemães me apedrejem, ou, o que seria pior, não leiam meus livros por

eu estar atentando contra o que eles têm de mais sagrado, eu lhe digo: Goethe nasceu no sertão, assim como Dostoievski, Tolstoi, Flaubert, Balzac; ele era, como

os outros que eu admiro, um moralista, um homem que vivia com a língua e pensava no infinito. Acho que Goethe foi, em resumo, o único grande poeta da literatura

mundial que não escrevia para o dia, mas para o infinito. Era um sertanejo. Zola, para tomar arbitrariamente um exemplo contrário, provinha apenas de São Paulo.

De cada cem escritores, um está aparentado com Goethe e noventa e nove com Zola. A tragédia de Zola consistiu em que sua linguagem não podia caminhar no ritmo de

sua consciência. Hoje em dia acontece algo semelhante. A consciência está desperta, mas falta o vigor da língua. A maldição dos costumes é

19 " almente", citado em alemão por Guimarães Rosa.

2O "Pidiendo un Sertón desde dentro", citado em espanhol por Guimarães Rosa, como variação de um ensaio de Ortega y Gasset.

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JOÀO GUIMARÃES ROSA ~ FICÇÃO COMPLETA



IN"fRODUÇÃO GERAI. ~ DIÃLOGO COM GUIMARÃES ROSA

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notada e os autores aceitam sem crítica a chamada linguagem corrente, porque querem causar sensação, e isso não pode ser.



GL: Temo, Guimarães Rosa, que os leitores interpretarão mal estes últimos conceitos seus. Vão acusá-lo de nacionalismo e talvez até de patriotismo local, por algo

que sem dúvida alguma você desejaria que fosse interpretado de maneira completamente distinta. Para possibilitar uma compreensão totalmente clara, deveríamos formular

tudo isto com maior exatidão. Devemos eliminar toda espécie de dúvidas. Seria triste se suas impressionantes idéias fossem levadas ad absurdum por interpretações

banais, e se entendessem justamente o contrário do que você postulou. Sim, sem dúvida alguma a afirmação que você acaba de fazer é um postulado.

JGR: Bem, todo escritor deve se resignar a ser interpretado de forma equivocada e malévola. Pude comprová-lo muitas e muitas vezes, tantas que isso já não consegue

mais me afetar. Quem interpreta como um nacionalismo mesquinho o fato de eu partilhar a maneira de pensar e de viver do sertão é um tolo; prova apenas que não entende

meus livros e que nem mesmo é capaz de compreender corretamente o que nós dois, com grande cuidado, tratamos de destacar aqui! Se apesar de tudo continuarem me interpretando

ao contrário, lamento muito, mas nada mais posso fazer. Não se pode argumentar com alunos deficientes, nem ter qualquer espécie de consideração para com eles. Como

escritor, não posso seguir a receita de Hollywood, segundo a qual é preciso sempre orientar-se pelo limite mais baixo do entendimento. Portanto, torno a repetir:

não do ponto de vista filológico e sim do metafísico, no sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoievski e Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade, da

solidão, onde Inneres und Ausseres sind nicht mehr zu trennen,21 segundo o West6stlicher Divan.22 No sertão, o homem é o eu que ainda não encontrou o tu: por isso

ali os anjos ou o diabo ainda manuseiam a língua. O sertanejo, você mesmo escreveu isso, "perdeu a inocência no dia da criação e não conheceu ainda a força que produz

o pecado original". Ele está ainda além do céu e do inferno. Er ist der, Mensch, der Gott verloren und den Teufel gefunden hat,23 assim você o definiu e está certo.

Estou constantemente citando o seu próprio ensaio que me impressionou muito, e realmente não posso entender


21 "O interior e o exterior já não podem ser separados". Citado em alemão por Guimarães Rosa.

zz O divã oriental-ocidental, uma das principais obras de Goethe. Citado em alemão por Guimarães Rosa.

23 "E o homem que perdeu Deus e encontrou o diabo"; da crítica ã edição alemã de Grande sertão. Citado em alemão por Guimarães Rosa.

como você pôde se aproximar tanto de minha metafísica, se naquela

época ainda não me conhecia.

GL: Isto apenas confirma sua tese de que autor e obra são uma coisa só.

Se não parecesse tão banal, eu diria que o indivíduo Guimarães Rosa

não é nenhuma surpresa, quando se conhece sua obra. De minha

parte não posso compreender bem cómo pôde penetrar de tal forma

na metafísica de outras línguas, as de Goethe, Dostoievski, Flaubert,

Balzac. Até agora sempre acreditei, baseado em minha própria expe

riência, que só se pode "pensar em uma língua" quando se vive no

país da referida língua, deixando-se influenciar pela palavra falada e

pelo "ambiente" em que vive uma língua.

JGR: Mas você também não vive permanentemente nos ambientes de outras línguas, e entretanto vive com outras línguas, está casado com elas, até mesmo fez disso sua

profissão. É também a minha. Este aparente enigma tem uma solução muito simples: amo a língua, realmente a amo como se ama uma pessoa. Isto é importante; pois sem

esse amor pessoal, por assim dizer, não funciona. Aprendi algumas línguas estrangeiras apenas para enriquecer a minha própria e porque há demasiadas coisas intraduzíveis,

pensadas em sonhos, intuitivas, cujo verdadeiro significado só pode ser encontrado no som original. Quem quiser entender corretamente Kierkegaard tem de aprender

dinamarquês; do contrário, nem a melhor tradução o ajudaria. Quem quiser entender Dostoievski tem de fazê-lo em russo, e assim em toda parte onde uma realidade idiomática

está velada diante de outra, de tal maneira que não se pode penetrar esse véu. Tive de levar isso em consideração, quando quis conhecer Unamuno, Confúcio, As mil

e uma noites, Flaubert e todos os demais. Não é esnobismo. Antes, quando O

mundo ainda era menor, parecia natural que toda pessoa instruída

dominasse dois ou três idiomas. Hoje em dia, quando de repente o

mundo é muito mais amplo, não pode ser suficiente um só idioma,

que nem sequer é dominado com exatidão. Não tem sentido. E esta é a

razão pela qual aprendi línguas. Cada língua guarda em si uma verda

de que não pode ser traduzida. Sem que eu conheça a Alemanha, a

língua alemã me mostra o que poderiam ter sido os alemães, se não

tivessem esquecido a intimidade de Goethe com a metafísica da lín

gua. Mas, quando se conhecem os alemães, o despertar é triste. Entre

tanto, esta experiência pessoal não diz nada contra a sabedoria de

Goethe, mas sim contra os alemães modernos. Com Dostoievski e a

Rússia me ocorre exatamente o mesmo. Amo a língua russa, a língua

da alma, e tampouco Dostoievski é responsável pelo atual estado da

alma r ssa. Mas minha língua brasileira é a língua do homem de ama

nhã, epois de sua purificação. Por isso devo purificar minha língua.

lOAO GUIMARÃES ROSA ~ FICÇÃO COMPLETA

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Minha língua, espero que por este sermão você tenha notado, é a arma com a qual defendo a dignidade do homem.



GL: Esta sim é que foi uma verdadeira explosão, não habitual em você. Mas suponho que foi uma explosão salutar. Agora permita-me uma pergunta imediata para fazer

a conexão. Que relação existe entre você e a literatura alemã em geral?

JGR: Conheço bastante bem a literatura alemã. Por exemplo, o Simplizissimus24 é para mim muito importante. Amo Goethe, admiro e venero Thomas Mann, Robert Musil,

Franz Kaflca, a musicalidade de pensamento de Rilke, a importância monstruosa, espantosa de Freud. Todos estes autores me impressionaram e me influenciaram muito

intensamente, sem dúvida. Entretanto, não sei o que fazer com autores mais jovens como Brecht. Todos eles perderam o sentido da metafísica da língua, todos eles

se tornaram pregoeiros e deixaram de lado a alma, considerando-a fora de moda, em desacordo com a época e acreditando que o homem seria apenas um Wolfsburg-Mensch.zs

A língua é o espelho da existência, mas também da alma. WolfsburgMensch, o conteúdo desta expressão é por si só um símbólo horrível. Eu não duvido: certamente também

na Alemanha os autores jovens querem melhorar o mundo; certamente suas intenções são honestas e boas. Mas não o conseguirão, pois todos eles juntos não terão a importância

que uma única frase de Goethe tem para o destino do homem, para seu futuro. Somente renovando a língua é que se pode renovar o mundo. Devemos conservar o sentido

da vida, devolver-lhe esse sentido, vivendo com a língua. Deus era a palavra e a palavra estava com Deus. Este é um problema demasiado sério para ser largado nas

mãos de uns poucos ignorantes com vontade de fazer experiências. O que chamamos hoje linguagem corrente é um monstro morto. A língua serve para expressar idéias,

mas a linguagem corrente expressa apenas clichês e não idéias; por isso está morta, e o que está morto não pode engendrar idéias. Não se pode fazer desta linguagem

corrente uma língua literária, como pretendem os jovens do mundo inteiro sem pensar muito.

GL: Suponho que estas manifestações não serão do agrado de muitos e

provavelmente lhe darão fama de reacionário.

JGR: Esta reputação não me desagradaria; e mesmo, já disse antes, gostaria

de ser. considerado um reacionário da línguá. Sou precisamente um

za Primeiro romance em língua alemã, de Grimmelshausen, publicado em 1663.

zs "Homem de Wolfsburg". Wolfsburg é a cidade alemã que cresceu a partir da fundação

da fábrica Wolkswagen. Símbolo da civilização técnica, como Detroit. A expressão de

Guimarães Rosa é muito significativa: "Wolfsburg-Mensch", traduzido literalmente,

quer dizer "homem do castelo do lobo".

escritor que cultiva a idéia antiga, porém sempre moderna, de que o som e o sentido de uma palavra pertencem um ao outro. Vão juntos. A música da língua deve expressar

o que a lógica da língua obriga a crer. Nesta Babel espiritual de valores em que hoje vivemos, cada autor deve criar seu próprio léxico, e não lhe sobra nenhuma

alternativa; do contrário, simplesmente não pode cumprir sua missão. Estes jovens tolos que declaram abertamente que não se trata mais da língua, que apenas o conteúdo

tem valor, são pobres coitados dignos de pena. O melhor dos conteúdos de nada vale, se a língua não lhe faz justiça. O caso de Zola prova isso. E o conteúdo mais

perigoso chega a ter uma função humana, se estiver expresso em uma linguagem poética, isto é, humana; Asturias é a prova. Esta língua, assim como o provam Asturias,

Thomas Mann e Musil, esta língua atualmente deve ser pessoal, produto do próprio autor; porque o material lingüístico existente e comum ainda basta para folhetos

de propaganda e discursos políticos, mas não para a poesia, nem para pronunciar verdades humanas. Hoje, um dicionário é ao mesmo tempo a melhor antologia lírica.

Cada palavra ë, segundo sua essência, um poema. Pense só em sua gênese. No dia em que completar cem anos, publicarei um livro, meu romance mais importante: um dicionário.

Talvez um pouco antes. E este fará as vezes de minha autobiografia.

GL: Estou pensando em como classificar esta declaração sobre o dicionário. Pertence ao capítulo de seu gosto pelos paradoxos, ou deve ser interpretada literalmente?

Poderia ser entendida de forma absolutamente literal, pois um dicionário é o mais impessoal de todos os livros, e você, como já me havia dito, é inimigo das intimidades

literárias.

JGR: Um dicionário não é tão completamente impessoal como você pensa; por isso falei dele relacionado à minha autobiografia. Pode entender literalmente o que acabo

de lhe dizer e acrescentá-lo à minha poética. A personalidade do escritor, ao escrever, é sempre seu maior obstáculo, já que deve trabalhar como um cientista e segundo

as leis da ciência; ela o faz perder seu equilíbrio, torna-o subjetivo quando deveria buscar a objetividade. A personalidade, é preciso encarcerá-la no momento de

escrever.

GL: Surpreende-me enormemente ouvir esta opinião justamente de você. O autor de uma literatura tão pessoal ataca a personalidade do escritor. Isto é incrível.

JGR: Mas eu falei muito a sério. Desta vez não foi um paradoxo. A intimidade na obra de um escritor simplesmente me parece muito real. O escritor deve se sentir

à vontade no incompreensível, deve se ocupar do infinito, e pode fazê-lo não apenas aproveitando as possibilidades

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que lhe oferece a ciência moderna, mas também agindo ele mesmo como um cientista moderno. Não se pode tratar o infinito com intimidade, nem com subjetivismo. É preciso



ser objetivo, pois o incompreensível pode, pelo menos, ser contemplado objetivamente. Não, não, o autor não pode se permitir intimidades em sua obra. A poesia é

também uma irmã tão incompreensível da magia...

GL: Estou me esforçando para segui-lo. De todos os paradoxos que você disse, este me parece o mais paradoxal: que sua interpretação da poesia desemboque agora no

"realismo mágico", não tanto o de Asturias, mas o de Carpentier. Permita-me dizer-lhe que já não estou conseguindo acompanhá-lo bem.

JGR: Você está enganado! Você mesmo disse tudo isso em seu artigo, portanto, já deve ter me entendido bem uma vez. Extraia do que eu disse o paradoxo lingüístico,

e ficará exatamente sua própria definição de meu universo poético. Talvez com a restrição de que eu não qualificaria meu conceito mágico de "realismo mágico"; eu

o chamaria antes "álgebra mágica", porque é mais indeterminada e, portanto, mais exata. Mas em essência nos entendemos perfeitamente, só que você não percebeu isso.



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