João guimarães rosa ficçÃo completa volume I vq~ ume I introduçÃo geral prefacio



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para ele cada rio é um oceano, um mar da sabedoria, mesmo que chegue a ter cem anos de idade. Gostaria de ser um crocodilo, porque amo os grandes rios, pois são

profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda

mais uma coisa de nossos grandes rios: sua eternidade. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade. A estas alturas, você já deve estar me considerando

um charlatão ou um louco.

GL: De modo algum. Penso que esta é a autocaracterização mais original que já escutei. Suas palavras soavam quase como um credo. Serão elas o credo de um sertanejo

de Cordisburgo?

JGR: Estou adivinhando seu pensamento! Agora, além de tudo, quer me exigir um credo. Mas eu lhe digo uma coisa: apenas alguém para quem o momento nada significa,

para quem, como eu, se sente no infinito como se estivesse em casa, o crocodilo com as duas vidas até agora, somente alguém assim pode encontrar a felicidade e,

o que é ainda mais importante, conservar para si a felicidade. Au fond, je sufis un solitaire,1O eu também digo; mas como não sou Mallarmé, isto significa para mim

a felicidade. Apenas na solidão pode-se descobrir que o dia- ~ bo não existe. E isto significa o infinito da felicidade. Esta é a minha mística.

GL: Dizendo a verdade: em seus livros você não menciona o diabo, o que sempre faz das suas, justamente para demonstrar que ele não existe, ou melhor, que pode ser

eliminado, vencido, destroçado?

JGR: Isto poderia ser absolutamente certo. Provavelmente, eu seja como meu irmão Riobaldo. Pois o diabo pode ser vencido simplesmente porque existe o homem, a travessia

para a solidão, que equivale ao infinito. Mas você, Lorenz, é muito astuto; você me faz falar e falar, e me leva pela mão exatamente onde me deseja fazer chegar.

Já sei qual será a sua próxima pergunta.

GL: Pois agora estou curioso.

"O "No fundo eu sou um homem solitário". Frase de Mallarmé, citada em francês por Guimarães Rosa.

JGR: Eu também. Você quer me comprometer com a palavra creio e por isso evocou o diabo, cuja presença, útil em meus livros, não posso negar. Você quer me seduzir

para que eu lhe faça confissões.

GL: Adivinhou. Pois então, por favor, confesse!

JGR: Absolutamente não consigo entender por que me deixo extorquir assim por você. Só agora me ocorre o seguinte: aqui estão discutindo dois vaqueiros. Você é um,

já disse por escritoll e torno a repetir agora. E quando dois vaqueiros discutem, ou há cabeças quebradas ou confissões. Os vaqueiros são assim.

GL: Felizmente sei que os vaqueiros gozam de sua simpatia e por isso estou disposto a ser vaqueiro. Mas, por favor, diga-me de uma vez, a rigor, o credo pelo qual

você escreve.

JGR: Sim, veja, penso desta forma: cada homem tem seu lugar no mundo e no tempo que lhe é concedido. Sua tarefa nunca é maior que sua capacidade para poder cumpri-la.

Ela consiste em preencher seu lugar, em servir à verdade e aos homens. Conheço meu lugar e minha tarefa; muitos homens não conhecem, ou chegam a fazê-lo quando é

demasiado tarde. Por isso, tudo é muito simples para mim, e só espero fazer justiça a esse lugar e a essa tarefa. Veja como o meu credo é simples. Mas quero ainda

ressaltar que credo e poética são uma mesma coisa. Não deve haver nenhuma diferença entre homens e escritores; esta é apenas uma maldita invenção dos cientistas,

que querem fazer deles duas pessoas totalmente distintas. Acho isso ridículo. A vida deve fazer justiça à obra, e a obra à vida. Um escritor que não se atém a esta

regra não vale nada, nem como homem nem como escritor. Ele está face a face com o infinito e é responsável perante o homem e perante a si mesmo. Para ele não existe

uma instância superior. Para que você não tenha de me interrogar a esse respeito, gostaria de explicar meu compromisso, meu compromisso do coração, e que considero

o maior compromisso possível, o mais importante, o mais humano e acima de tudo o único sincero. Outras regras que não sejam este credo, es poética e este compromisso

não existem para mim, não as reconheço. Estas são as leis de minha vida, de meu trabalho, de minha responsabilidade. A elas me sinto obrigado, por elas me guio,

para elas vivo. Mesmo com a melhor boa vontade não posso fazer mais confissões, porque tudo que possa me acontecer na vida está contido aí, ou não vale a pena ser

chamado de confissão.

GL: Depois do que você disse no início, eu francamente já não esperava essa confissão. Agradeço-lhe que a tenha feito, e creio sinceramente que esta poderia ser

uma regra básica da literatura, se o homem não se
~" Na dedicatória de seu Grande sertão: veredas.

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opusesse a ela. Mas, o que pensa de seus colegas? Atualmente fala-se tanto em compromisso, afirma-se que não existe autor sem compromisso. Mas tenho a impressão



de que principalmente na América Latina - na Europa, Sartre pôs um pouco de ordem neste assunto - muitos autores, naturalmente não todos, freqüentemente confundem

o compromisso para com o homem com o compromisso para com um partido, uma ideologia. Entre os grandes autores do continente isto é sempre compensado pela sua potência

literária, e entre os de segunda e terceira categoria você sabe como é quase sempre.

JGR: Não preciso ser diplomata de carreira para me negar redondamente a fazer declarações respondendo sua pergunta. Você me induziu a fazer confissões e agora pretende

levar-me para um terreno perigoso. Tenho de conviver com meus colegas e não me agrada guerrear por assuntos aos quais não atribuo a mínima importância. Portanto,

não espere que eu qualifique meus colegas. Ademais, e se quiser pode tranqüilamente considerar isso como um delírio de grandeza, eu me contento com o que é meu.

Não me agrada julgar meus colegas. Sim, portanto, não insista; é melhor falarmos de Dostoievski, Goethe, Tolstoi ou de Schweijik, de Flaubert e Balzac, mas não de

meus compatriotas escritores. Um autor jamais deveria falar de outros autores, mesmo que não o aprecie. Disto não resulta nada de razoável; penetra-se em mundos

estranhos, e isto não conduz a nada.

GL: Bem, esta é uma opinião que deve ser respeitada. Mas qual é, no fundo, sua opinião acerca da crítica literária em relação às suposições que você mencionou há

pouco? Deve o crítico constantemente, para conservar a sua própria terminologia, "entrar em mundos estranhos"?

JGR: A tarefa do crítico é diferente da do autor. Além disso, não tenho uma opinião muito favorável sobre a crítica, pelo menos sob esse aspecto. Esta não é uma

declaração de princípios; refere-se mais ao conceito que muitos críticos têm, ou não, de seu trabalho. No começo de minha carreira vários deles me atacaram sem absolutamente

me compreenderem, pois me lançavam ao rosto que meu estilo era exaltado, que eu permanecia no irreal, e assim toda espécie de retórica. Não é possível dialogar com

pessoas que manifestam por escrito a sua incompetência, pois lhes falta a condição básica para o diálogo: o respeito mútuo. Por isto o que essa gente escreve não

me perturba; simplesmente não leio mais jornais. E por favor, não me interprete mal: um crítico que me trate duramente mas baseado na compreensão, que apresenta

razões, pode continuar sendo meu interlocutor e amigo, por maiores que sejam as diferenças de opinião que nos separem. Mas aquele que escreve tolices é maçante.

Eu odeio a tolice.

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GL: Após este protesto em que transparece a raiva, seria lógico e conseqüente pedir-lhe sua opinião sobre como deveria ser o "crítico ideal".



JGR: Bem, um crítico que não tem o desejo nem a capacidade de completar junto com o autor um determinado livro, que não quer ser intérprete ou intermediário, que

não pode ser, porque lhe faltam condições, deveria se abster da crítica. Infelizmente a maior parte deles não faz isso, e por isso acontece que tão poucos deles,

geralmente, têm algo a ver com a literatura. O que tal crítico pretende, em resumo, é vingar-se da literatura, ou sabe Deus que motivos o impulsionam. Talvez como

passatempo. $ um palhaço, ou um assassino. A crítica literária, que deveria ser uma parte da literatura, só tem razão de ser quando aspira a complementar, a preencher,

em suma a permitir o acesso à obra. Só muito raramente é assim, e eu lamento, pois uma crítica bem entendida é muito importante para o escritor; ela o auxilia a

enfrentar sua solidão. Mas raramente é assim, quase sempre a crítica não tem valor nem interesse, é apenas uma perda de tempo. Uma crítica tal como eu a desejo deixaria

de ser crítica no sentido próprio, tanto faz se julga o autor positiva ou negativamente. Deve ser um diálogo entre o intérprete e o autor, uma conversa entre iguais

que apenas se servem de meios diferentes. Ela exerce uma função literária indispensável. Em essência, deve ser produtiva e co-produtiva, mesmo no ataque e até no

aniquilamento se fosse necessário.

GL: Após seu credo do escritor, você quis formular seu credo do crítico. E sem dúvida tem razão. Há exemplos suficientes de crítica negligen

~~~~~ te, inadmissível. Só não sei se realmente a maioria dos críticos é tão

i Ir~"~" tola como você pensa.

JGR: Tola não é a palavra exata. Quero explicar melhor: o escritor, o bom escritor, é um arquiteto da alma. O mau crítico, irresponsável ou estúpido, neste caso

é a mesma coisa, é um demolidor de escombros, dedicado a embrutecer, a falsificar as palavras e a obsc~cer a verdade, pois acha que deve servir a uma verdade só

conhecida por ele, ou então ao que se poderia chamar seus interesses. O escritor, naturalmente só o bom escritor, é um descobridor; o mau crítico é seu inimigo,

pois é inimigo dos descobridores, dos que procuram mundos desconhecidos. Colombo deve ter sido sempre ilógico, ou então não teria descoberto a América. O escritor

deve ser um Colombo. Mas o crítico malévolo e insuficientemente instruído pertence áquela camarilha que queria impedir a partida por ser contrária à sua sacrossanta

lógica. O bom crítico, ao contrário, sobe a bordo da nave como timoneiro. É assim que penso.

GL: Você exige muito. Mas o que exige de si mesmo como autor, como romancista? Falou de sua obrigação para com os homens e isto é um

pouco vago, deveria ser formulado com maior exatidão, você também não acha?

JGR: Como romancista tento o impossível. Gostaria de ser objetivo, e ao mesmo tempo me olhar a mim mesmo com olhos de estranhos. Não sei se isso é possível, mas

odeio a intimidade.

GL: Novamente um paradoxo magnífico: "eu tento o impossível". Entretanto deveríamos ser ainda mais concretos. Temos essa questão do compromisso, que talvez pudéssemos

utilizar nesse sentido. Como você definiria, por exemplo, sua concepção do dever de um autor, diferenciando-a de Asturias ou, naturalmente, de Jorge Amado?

JGR: Gosto de Asturias, porque se parece tão pouco comigo. Este homem é um vulcão genial, uma exceção, segue suas próprias leis. Nós nos entendemos e nos admiramos,

porque somos muito diferentes um do outro. Mas ele vive de um modo que gera perigo: ele pensa ideologicamente.

GL: E Jorge Amado? Você não acha que este grandioso fabulista e amigo dos homens também pensa ideologicamente?

JGR: Sem dúvida, ele também é um ideólogo; mas sua ideologia me é mais simpática que a de Asturias. Asturias tem algo do distanciamento incorruptível de um sumo-sacerdote;

sempre enuncia novos dez mandamentos. Isto é admirável, mas não encanta. As palavras de Asturias são palavras de um pai, de um patriarca que emite sentenças no sentido

do Antigo Testamento. Amado é um sonhador, e sem dúvida alguma um ideólogo, mas adota a ideologia do contó de fadas com suas normas de justiça e expiação. Amado

é um menino que ainda crê no Bem, na vitória do Bem; defende a ideologia menos ideológica e mais amável que já conheci. Asturias é a poderosa voz do juízo final.

Amado vai dando pinceladas a mais não poder, e certamente quer mandar ao diabo muitas coisas, mas o faz de forma tão encantadora,que nos convence com maior razão.

Asturias se expressa com palavras de ferro.

GL: Esta diferença não é resultado, digamos assim, de unidades de experiência de diferentes graus? Atrás dessa definição também se oculta muito de política.

JGR: É exatamente isso! A política é desumana porque dá ao homem o

mesmo valor que uma vírgula em uma conta. Eu não sou um ho

mem político, justamente porque amo o homem. Deveríamos abolir

a política.

Foi isto que em Hamburgo levou você a se arriscar perigosamente,

arrebatando judeus das mãos da Gestapo?

JGR: Foi alguma coisa assim, mas havia também algo diferente: um diplomata é um sonhador e por isso pude exercer bem essa profissão.

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O diplomata acredita que pode remediar o que os políticos arruinaram. Por isso agi daquela forma e não de outra. E também por isso mesmo gosto muito de ser diplomata.

E agora o que houve em Hamburgo é preciso acrescentar mais alguma coisa. Eu, o homem do sertão, não posso presenciar- injustiças. No sertão, num caso desses imediatamente

a gente saca o revólver, e lá isso não era possível. Precisamente por isso idealizei um estratagema diplomático, e não foi assim tão perigoso. E agora me ocupo de

problemas de limites de fronteiras e por isso vivo muito mais limitado.

GL: Não estou muito convencido de que seus colegas, neste caso seus co


legas diplomatas, aprovarão incondicionalmente esta definição.

JGR: A maioria deles, que não são verdadeiros diplomatas mas apenas políticos frustrados, vai me considerar louco. Espero que você também não me considere assim.

Mas eu jamais poderia ser político com toda essa constante charlatanice da realidade. O curioso no caso é que os políticos estão sempre falando de lógica, razão,

realidade e outras coisas no gênero e ao mesmo tempo vão praticando os atos mais irracionais que se possam imaginar. Talvez eu seja um político, mas desses que só

jogam xadrez, quando podem fazê-lo a favor do homem. Ao contrário dos "legítimos" políticos, acredito no homem e lhe desejo um futuro. Sou escritor e penso em eternidades.

O político pensa apenas em minutos. Eu penso na ressurreição do homem.

GL: Parece que estamos novamente nos afastando do nosso tema. E por outro lado creio que nos aproximamos bastante do ponto central, pois o que você disse há pouco

foi também como sertanejo, embora no fundo se referisse a qualidades de caráter. Permito-me supor que um psicólogo poderia tirar muitas conclusões disto. Em que

reconhece, ou segundo quais regras você julga uma qualidade de caráter do homem como base de seu comportamento político?

JGR: Pode-se conhecer facilmente o caráter de um homem pela relação que ele mantém com o idioma.

GL: Penso que Kari Kraus disse algo parecido.

JGR: E também Flaubert e Stendhal. São muitos os que pensaram desta forma.

GL: "O homem é seu estilo"?

JGR: Sim, mais ou menos. O caráter do homem é seu estilo, sua linguagem. Isto certamente vai parecer doutrinário; entretanto é uma simples verdade da vida. Também

não quero me referir à elegância ou seleção do estilo. Elegância demasiada é suspeita, porque encobre um vazio. Não, não, considero o idioma como uma metáfora da

sinceridade. Sinceridade e capacidade de sentir como o homem são os fundamentos de minha fé no futuro de meu país. O brasileiro, até mesmo no sentido

filosófico, fala com sinceridade. Ele ainda deve criar sua própria linguagem. Isso também o obriga a pensar com sinceridade.

GL: A sinceridade, no que se refere ao escritor, tem ainda outra face. Muitos autores que se consideram comprometidos, alguns deles comunistas, sentem-se confortáveis,

pensando que seus livros fazem crescer constantemente suas contas bancárias. Acho que esta contradição também pertence ao capítulo escritor e político, ou melhor,

ao que você colocou como escritor e deslealdade.

JGR: É verdade. Casos assim existem. Até mesmo autores famosos participam deste jogo, e vão tão longe que chegam a diminuir o êxito de seus livros para não dar a

impressão de terem ganho dinheiro com eles, como se isto fosse motivo de vergonha. Quanto a mim, ao contrário da maioria dos meus colegas, não me envergonho em admitir

que Grande sertão me rendeu um montão de dinheiro. Não me interessa o dinheiro: venho de um mundo onde ele não adianta muito; lá se necessita de pão, armas, cavalos,

e ainda se pratica o comércio de troca. Naturalmente, não fico infeliz quando tenho dinheiro suficiente para viver como quero. Mas não nego esse fato. A esse respeito,

quero dizer uma coisa: enquanto eu escrevia Grande sertão, minha mulher sofreu muito porque nessa época eu estava casado com o livro. Por isso dediquei-o a ela,

para lhe agradecer sua compreensão e paciência. Você deve saber que tenho uma mulher maravilhosa. Como sou um fanático da sinceridade lingüística, isto significou

para mim que lhe dei o livro de presente, e portanto todo o dinheiro ganho com esse romance pertence a ela, somente a ela, e pode fazer o que quiser com ele. Não

necessito dele, tenho meus vencimentos; uma verdadeira mulher sempre sabe encontrar utilidade para o dinheiro, tanto no sertão como no Rio. Pode-se achar precipitada

esta atitude, principalmente, quando depois o livro obtém grande êxito. Mas uma .dedicatória é uma promessa, e devemos cumprir nossas promessas.

GL: Sem dúvida, sua senhora será invejada por muitas esposas de escritores. Nesta ação deve ter influído também o seu caráter de sertanejo, que é generoso, liberal.

Até mesmo nós, estrangeiros, podemos notar isso em sua hospitalidade. Mas o sertanejo também é um homem sonhador. Tem muito tempo para pensar e matuta muito; freqüentemente

é a única coisa que pode fazer. Você é um pensador, um místico?

JGR: São duas perguntas. Sou místico, pelo menos acho que sou. Que seja também um pensador, noto-o constantemente durante meu trabalho, e não sei se devo lamentar

ou me alegrar com o fato. Posso permanecer imóvel durante longo tempo, pensando em algum problema e esperar. Nós sertanejos somos muito diferentes da gente temperamental

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do Rio ou Bahia, que não pode ficar quieta nem um minuto. Somos tipos especulativos, a quem o simples fato de meditar causa prazer. Gostaríamos de tornar a explicar



diariamente todos os segredos do mundo. Chocamos tudo o que falamos ou fazemos antes de falar ou fazer. É por isso que normalmente não costumo conversar se antes

não posso pensar tranqüilamente e até o final. Você conseguiu, pela primeira vez, me induzir a fazer o contrário. E também choco meus livros. Uma palavra, uma única

palavra ou frase podem me manter ocupado durante horas ou dias. Para isso, não preciso forçosamente de um escritório. Gosto de pensar cavalgando, na fazenda, no

sertão; e quando algo não me fica claro, não vou conversar com algum douto professor, e sim com algum dos velhos vaqueiros de Minas Gerais, que são todos homens

atilados. Quando volto para junto deles, sinto-me vaqueiro novamente, se é que alguém pode deixar de sê-lo. Temos de aprender outra vez a dedicar muito tempo a um

pensamento; daí seriam escritos livros melhores. Os livros nascem, quando a pessoa pensa; o ato de escrever já é a técnica e a alegria do jogo com as palavras.

GL: E assim chegamos ao capítulo que deve ser, queira ou não, o capítulo central de um diálogo com você: sua relação com a língua. Lembrome de haver lido em algum

lugar que sua linguagem apenas longinquamente tem algo a ver com as línguas vivas ou mortas. Há em seu país um professor que afirmou ter sua linguagem chegado a

tal ponto, que a futura história da literatura terá de citá-la como literatura de um único homem. Fizeram-se numerosas brincadeiras sobre isso. Uma delas: um tradutor,

para se recomendar a um editor, declara dominar certa quantidade de línguas vivas e mortas, inclusive a de Guimarães Rosa. Evidentemente, o gosto pelos paradoxos

deve haver contribuído para que se formulassem estas afirmações, mas deve haver alguma verdade nelas. Sua linguagem, sem dúvida, é algo único, algo onde se pode

cair e quebrar os dentes; mas, principalmente por causa dela, depois de ler seus livros, a gente acredita ter descoberto um mundo completamente novo. Conte-me alguma

coisa sobre sua relação com a língua, sua linguagem própria.

JGR: Esta relação não é de modo algum difícil de explicar. Olhe, não entendo por que se faz tanto barulho pelo que deram de chamar "a língua Guimarães Rosa", e que

é uma coisa completamente simples. Muitos dos que escreveram tratados geniais sobre este assunto, sustentando que abordaram tudo sempre muito "logicamente", muito

racionalmente, comportaram-se, falando de meus livros, de modo decididamente irracional. Meyer-Clason, você e alguns outros deram, com poucas palavras, muito mais

que esses doutos senhores que se desabafaram sentimentalmente. Meyer-Clason nos textos em que me

apresentava e você, com suas resenhas críticas, entenderam particularmente de que se trata, por haverem pensado comigo, pensando até o fim, puderam explicá-lo. No

fundo é muito simples. Deve-se apenas partir do princípio de que há dois componentes de igual importância em minha relação com a língua. Primeiro: considero a língua

como meu elemento metafísico, o que sem dúvida tem suas conseqüências. Depois, existem as ilimitadas singularidades filológicas, digamos, de nossas variantes latino-americanas

do português e do espanhol, nas quais também existem fundamentalmente muitos processos de origem metafísica, muitas coisas irracionais, muito que não se pode compreender

com a razão pura. (~ elemento metafísico...

GL: Não seria mais fácil e mais correto se agora conversássemos um pouco sobre o aspecto puramente filosófico, sobre as diferenças entre o português europeu e o

brasileiro, sobre as conclusões que você tirou disso? Acho que assim seria mais fácil de entender isso que você chama de aspecto metafísico.

JGR: Bem, sim, você tem razão. Temos de partir do fato de que nosso português-brasileiro é uma língua mais rica, inclusive metafisicamente, que o português falado

na Europa. E além de tudo, tem a vantagem de que seu desenvolvimento ainda não se deteve; ainda não está satura

do. Ainda é uma língua jenseits Von Gut und B~sel,lz e apesar disso, já

é incalculável o enriquecimento do português no Brasil, por razões etnológicas e antropológicas.

GL: Pelo processo de mistura com elementos indígenas e negróides com os quais se fundiu o Brasil...

JGR: Exato, este foi um enriquecimento imenso e já pode ser notado no exterior pela quantidade de diferentes dicionários europeus e americanos do mesmo idioma. Naturalmente,

tudo isto está à nossa disposição, mas não à disposição dos portugueses. Eu, como brasileiro, tenho uma escala de expressões mais vasta que os portugueses, obrigados

a pensar utilizando uma língua já saturada.

GL: Vacê, porém, não se contentou com essa escala maior de expressão - que aliás também indica um fenômeno sociológico imenso -, pois sua linguagem também difere

muito da de seus compatriotas, por exemplo, da linguagem de Jorge Amado.

JGR: Nunca me contento com alguma coisa. Como já lhe revelei, estou buscando o impossível, o infinito. E, além disso, quero escrever livros que depois de amanhã

não deixem de ser legíveis. Por isso acrescentei à síntese existente a minha própria síntese, isto é, incluí em minha lin-



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