João guimarães rosa ficçÃo completa volume I vq~ ume I introduçÃo geral prefacio



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não são livros onde expressem idéias seínelhantes às expostas aqui. Noto a falta de coerência entre suas obras e suas opiniões.

GL: Você quer dizer então que aprova que um escritor discuta sobre política, apenas quando também às suas obras der um acento político, e não quando se mostrar politicamente

neutro em suas obras?

JGR: Sim, é verdade que, embora eu ache que um escritor de maneira geral deveria se abster de política, peço-lhe que interprete isto mais no sentido da não participação

nas ninharias do dia-a-dia político. As grandes responsabilidades que um escritor assume são, sem dúvida, outra coisa...

GL: Bem, João Guimarãés Rosa, creio que neste círculo você é o único a pensar desta forma, já que Borges não está presente para nos dar seu testemunho de apolítico.

JGR: Acho que você me entendeu mal. Aparentemente está se referindo ao

que aconteceu em Berlim.2 Acerca disto queria dizer que estou do

lado de Asturias e não de Borges. Embora não aprove tudo o que Asturias disse no calor do debate, não aprovo nada do que disse Borges. As palavras de Borges revelaram

uma totál falta de consciência da responsabilidade, e eu estou sempre do lado daqueles que arcam com a responsabilidade e não dos que a negam.

GL: Eu não queria que dedicássemos a tais assuntos as poucas horas que temos para conversar durante este caótico congresso; não obstante, creio que eles nos conduzem

ao nosso tema.
z Durante o Colóquio de escritores latinoamericanos y alemanes, realizado em 1964 em Berlim Ocidental, travou-se veemente polêmica entre Asturias e Borges, quando

este atacou os escritores comprometidos e negou existirem condições dignas para uma literatura de compromisso na América Latina. Guimarães Rosa está se referindo

à afir

mação de Borges de que o compromisso é uma traição à arte, por ser apenas documentação e não literatura.



JGR: Certo, já estamos nele. Só quis dizer há pouco que a maioria dos que aqui expressam suas opiniões não examinam o verdadeiro sentido de suas palavras antes de

pronunciá-las, e por isso não prestam aos demais, que já citei, nenhum bom serviço.

GL: Penso que, para encaminharmos nosso diálogo a uma certa direção, seria melhor estabelecermos uma espécie de itinerário. Você está de acordo?

JGR: Estou. Deixo que você determine a direção.

GL: Pois bem, estes assuntos políticos que abordamos há pouco não estavam em meu itinerário. Cheguei a eles porque as circunstâncias os trouxeram. Há outros temas

que me interessam muito mais, uma vez que tenho a extraordinária ocasião, a sensacional oportunidade, por assim dizer, de haver conseguido uma entrevista com o inimigo

de toda a espécie de entrevistas e terror dos repórteres: Guimarães Rosa...

)GR: Devo fazer duas objeções. Primeiro, e já disse isso, agrada-me conversar com você, pois escreveu a meu respeito coisas tão encantadoras e interessantes que

gostaria de tratar delas novamente, ainda que fosse unicamente por razões de egoísmo. Em segundo lugar, peço-lhe que não use essa horrível expressão "entrevista".

Eu certamente não teria aceito seu convite se esperasse uma entrevista. As entrevistas são trocas de palavras em que um formula ao outro perguntas cujas respostas

já conhece de antemão. Vim, como combinamos, porque desejávamos conversar. Nossa conversa, e isto é o importante, .desejamos fazê-la em conjunto.

GL: Considero isto uma honra, e esteja certo de que sinto uma grande alegria por podermos estar aqui juntos e conversar. Isto não é nada coanum e, no que se refere

a você...

]GR: hega. Só me oponho a matar o tempo com insignificâncias e com

nte que não sabe nada de nada. Pelo jeito desfruto de uma estranha reputação e, entretanto, sou brasileiro.

GL: Certo, goza dessa fama e provavelmente não sem razão. No Brasil também. Mas vamos nos dar por satisfeitos. Os motivos de nosso encontro ficam assim esclarecidos,

e voltemos ao nosso "itinerário". Gostaria de falar com você sobre o escritor Guimarães Rosa,. o romancista, o mágico do idioma, baseando-nos em seus livros que

fazem parte, penso eu, do tema "o homem do sertão".

IGR: Sim, acho que se quiséssemos dizer sobre estes três ou quatro pontos tudo o que temos de dizer, daqui a um ano ainda estaríamos conversando. E nem você nem

eu temos tanto tempo. Suponho que esta enumeração das coisas que lhe interessam a meu respeito não tem uma seqüência estrita...

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INTRODUÇAO GERAL ~ DIALOGO COM GUIMARÃES ROSA



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GL: Apenas uma seqüência improvisada, intercambiável.

JGR: Precisamente, e por isso gostaria que começássemos pelo que você mencionou como tema final. Chamou-me "o homem do sertão". Nada tenho em contrário, pois sou

um sertanejo e acho maravilhoso que você deduzisse isso lendo meus livros, porque significa que você os entendeu. Se você me chama de "o homem do sertão" (e eu realmente

me considero como tal), e queremos conversar sobre este homem, já estão tocados no fundo os outros pontos. É que eu sou antes de mais nada este "homem do sertão";

e isto não é apenas uma afirmação biográfica, mas também, e nisto pelo menos eu acredito tão firmemente como você, que ele, esse "homem do sertão", está presente

como ponto de partida mais do que qualquer outra coisa.

GL: Fixemos este ponto de partida; e para encaminhar nossa conversa, queria propor-lhe um início convencional: o biográfico, embora ele já não seja tão convencional,

se minhas conclusões sobre o que disse há pouco estiverem certas. Nasceu no sertão, aquela estepe quase mística do interior de seu país, encarnada como um mito de

consciência brasileira...

JGR: Sim, mas para sermos exatos,. devo dizer-lhe que nasci em Cordisburgo, uma cidadezinha não muito interessante, mas para mim sim, de muita importância. Além

disso, em Minas Gerais; sou mineiro. E isto sim é o importante, pois quando escrevo, sempre me sinto transportado para esse mundo. Cordisburgo. Não acha que soa

como algo muito distante? Sabe também que uma parte de minha família é, pelo sobrenome, de origem portuguesa, as na realidade é um sobrenome suevo que na época das

migr ões era Guimaranes,3 nome que também designava a capital de um estado suevo na Lusitânia? Portanto, pela minha origem, estou voltado para o remoto, o estranho.

Você certamente conhece a história dos suevos. Foi um povo que, como os celtãs, emigrou para todos os lugares sem poder lançar raízes em nenhum. Este destino, que

foi tão intensamente transmitido a Portugal, talvez tenha sido o culpado por meus antepassados se apegarem com tanto desespero àquele pedaço de terra que se chama

o sertão. E eu também estou apegado a ele...

GL: Você está se referindo ao seu "caráter literário" que o inclui no importante grupo de literatos brasileiros denominados regionalistas?

s Esta cidade do norte de Portugal atualmente se chama Guimarães. Situa-se na província do Minho, perto de Braga, antiga cidade real e de peregrinação.

JGR: Sim e não. É necessário salientar pelo menos que entre nós o "regionalismo" tem um significado diferente do europeu, e por isso a referência que você fez a

esse respeito em sua resenha de Grande sertão é muito importante. Naturalmente não gostaria que na Alemanha me considerassem um Heimatschriftsteller.4 Seria horrível,

uma vez que é para você o que corresponderia ao conceito de "regionalista". Ah, a dualidade das palavras! Naturalmente não se deve supor que quase toda a literatura

brasileira esteja orientada para o "regionalismo", ou seja, para o sertão ou para a Bahia. Portanto, èstou plenamente de acordo, quando você me situa como representante

da literatura regionalista; e aqui começa o que eu já havia dito antes: é impossível separar minha biografia de minha obra. Veja, sou regionalista porque o pequeno

mundo do sertão...

GL: Pequeno talvez para o Brasil, não para os europeus...

JGR: Para a Europa, é sem dúvida um mundo muito grande, para nós, apenas um mundo pequeno, medido segundo nossos conceitos geográficos. E este pequeno mundo do sertão,

este mundo original e cheio de contrastes, é para mim o símbolo, diria mesmo o modelo de meu universo. Assim, o Cordisburgo germânico, fundado por alemães, é o coração

do meu império suevo-latino. Creio que esta genealogia haverá de lhe agradar.

GL: O que importa é que além disso ela é exata. Mas voltemos à sua biografia...

JGR: Creio que minha biografia não é muito rica em acontecimentos. Uma vida completamente normal.

GL: Acho que não é bem assim. Em sua vida você passou por uma série de etapas muito interessantes, até mesmo instrutivas. Estudou medicina e foi médico, participou

de uma guerra civil, chegou a ser oficial, depois diplomata. Deve haver ainda outros fatos, pois estou apenas citando de memória.

JGR: Chegamos novamente ao ponto que indica o momento em que o homem e sua biografia resultam em algo completamente novo. Sim, fui médico, rebelde, soldado. Foram

etapas importantes de minha vida, e, a rigor, esta sucessão constitui um paradoxo. Como médico conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência;

como soldado, o valor da proximidade da morte...

GL: Deve-se considerar isto como uma escala de valores?

JGR: Exato, é uma escala de valores.

GL: E estes conhecimentos não constituíram, no fundo, a espinha dorsal de seu romance Grande sertão?
a Citado em alemão por Guimarães Rosa.

INTRODUÇÃO GERAL ~ DIALOGO COM GUIMARAES ROSA

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JGR: E são; mas devemos acrescentar alguns outros sobre os quais ainda temos de falar. Mas estas três experiências formáram até agora meu mundo interior; e, para



que isto não pareça demasiadamente simples, queria acrescentar que também configuram meu mundo a diplomacia, o trato com cavalos, vacas, religiões e idiomas.

GL: Parece uma sucessão e uma combinação um tanto curiosa de motivos.

JGR: Bem, tudo isto é curioso, mas o que não é curioso na vida? Não devemos examinar a vida do mesmo modo que um colecionador de insetos contempla os seus escaravelhos.

GL: Gostaria de concluir que todos esses assuntos enumerados tiveram grande importância em sua vida: a diplomacia, os cavalos, as religiões, os idiomas. Você goza

também de uma fama legendária: dizem que você domina muitos idiomas, e que aprendeu alguns deles apenas para poder ler um determinado autor em sua versão original.

Sabe-se também que como diplomata e exercendo as funções de cônsul geral do Brasil em Hamburgo, você provocou Hitler fora das normas da diplomacia, e salvou a vida

de muitos judéus...

JGR: Tudo isso é verdade, mas não se esqueça de meus cavalos e de minhas vacas. As vacas e os cavalos são seres maravilhosos. Minha casa é um museu de quadros de

vacas e cavalos. Quem lida com eles aprende muito para sua vida e a vida dos outros. Isto pode surpreendê-lo, mas sou meio vaqueiro, e como você também é algo parecido

com isto, compreenderá certamente o que quero dizer. Quando alguém narra algum acontecimento trágico, digo-lhe apenas isto: "Se olhares nos olhos de um cavalo, verás

muito da tristeza do mundo!" Eu queria que o mundo fosse habitado apenas por vaqueiros. Então tudo andaria melhor.

GL: Desculpe, mas relacionado com sua biografia isto não parece um tanto paradoxal?

JGR: E não apenas isto, mas tudo: a vida, a morte, tudo é, no fundo, paradoxo. Os paradoxos existem para que ainda se possa exprimir algo para o qual não existem

palavras. Por isso acho que um paradoxo bem formulado é mais importante que toda a matemática, pois ela própria é um paradoxo, porque cada fórmula que o homem pode

empregar é um paradoxo.

GL: Sinto-me tentado a chamá-lo o Unamuno da estepe, o Unamuno do sertão...

JGR: E teria razão; Unamuno, sim! Unamuno poderia ter sido meu avô. Dele herdei minha fortuna: meu descontentamento. Unamuno era um filósofo; sempre se equivocam,

referindo-se a ele nesse sentido. Unamuno foi um poeta da alma; criou da linguagem a sua própria

metafísica pessoal. É uma importante diferença com relação aos chamados filósofos. Além disso, Unamuno inventou também a nivolas e o nadaísmo; e são invenções próprias

de um sertanejo.

GL: Você tem alguma coisa contra os filósofos?

JGR: Tenho. A filosofia é a maldição do idioma. Mata a poesia, desde que


não venha de Kierkegaard ou Unamuno, mas então é metafísica.

GL: Mas adiante vamos ter que considerar com mais calma os seus conceitos filosóficos, isso que você chama de metafísica em seus romances e contos, pois me parece

que está muito ligàda ao "homem do sertão", e com uma parte, pelo menos, do que há de inédito em suas obras. Mas ainda queria lhe perguntar alguma coisa de sua biografia.

Portanto, vamos ficar um pouco mais com ela, com sua pessoa, já que tudo isto é muito importante para a compreensão de seus livros. Depois de haver sido médico,

você participou de uma rebelião, e, depois de se tornar novamente legalista, participou da repressão a essa mesma rebelião; em seguida foi soldado, diplomata e finalmente

chefe da seção para problemas de fronteira do Ministério das Relações Exteriores, algo parecido com um secretário de Estado. Depois destes antecedentes nada literários,

começou a escrever relativamente tarde. O que o levou a se tornar escritor? Em resumo, como chegou a escrever, já não muito jovem, Sagarana, seu primeiro livro de

contos e que se tornou imediatamente um sucesso sensacional? Conte-me alguma coisa sobre este processo de sua vida.

JGR: Bem, antes devo dizer que sua suposição não é totalmente certa. Comecei a escrever quando ainda era bastante jovem; mas publiquei muito mais tarde. Veja você,

Lorenz, nós, os homens do sertão, somos fabulistas por natureza. Está no nosso sangue narrar estórias; já no berço recebemos esse dom para toda a vida. Desde pequenos,

estamos constantemente escutando as narrativas multicoloridas dos velhos, os contos e lendas, e também nos criamos em um mundo que ãs vezes pode se assemelhar a

uma lenda cruel. Deste modo a gente se habitua, e narra estórias que correm por nossas veias e penetra em nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão é a alma de

seus homens. Assim, não é de estranhar que a gente comece desde muito jovem. Deus meu! No sertão, o que pode uma pessoa fazer do seu tempo livre a não ser contar

estórias? A única diferença é simplesmente que eu, em vez de contá-las, escrevia. Com isso pude impressionar, mas ainda sem perseguir ambições literárias. Já naquela

época, eu queria ser diferente dos demais, e eles não souberam deixar escritas suas estórias. Isto, é

s Argumentando que o conceito usual de "novela" (romance em português) não era sufi


ciente, Unamuno "inventou" o conceito anagramático "nivola", escrevendo Niebla.

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INTRODUÇÃO GERAL ~ DIALOGO COM GUIMARÀES ROSA



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claro, impressiona e dá reputação. É lógico que, sendo criança, a gente se sente então muito orgulhoso disso. Eu trazia sempre os ouvidos atentos, escutava tudo

o que podia e comecei a transformar em lenda o ambiente que me rodeava, porque este, em sua essência, era e continua sendo uma lenda. Instintivamente, fiz então

o que era justo, o mesmo que mais tarde eu faria deliberada e conscientemente: disse a mim mesmo que sobre o sertão não se podia fazer "literatura" do tipo corrente,

mas apenas escrever, lendas, contos, confissões. Não é necessário se aproximar da literatura incondicionalmente pelo lado intelectual. Isto vem por si só, com o

tempo, quando o homem chega à sua maturidade, quando tudo nele se ámalgama em uma personalidade própria. Quem cresce em um mundo que é literatura pura, bela, verdadeira,

real, deve algum dia começar a escrever, se tiver uma centelha de talento para as letras. É uma lei natural, e não é necessário que atrás disto haja ambições literárias.

Tive certa vez um professor que fazia tudo menos literatura; entretanto, escrevia contos magníficos. Assim são as coisas. e assim comecei eu também. Quando mais

tarde chegou o tempo em que eu não quis continuar escrevendo, instintivamente, eu que quis ser "poeta", comecei a fazê-lo conscientemente. A princí

- pio foram poemas...

GL: Isto quer dizer que começou sua carreira como lírico?

JGR: Não, tão mal não foi. Entretanto, escrevi um livro não muito pequeno de poemas,b que até foi elogiado. Mas logo, e eu quase diria que por sorte, minha carreira

profissional começou a ocupar meu tempo. Viajei pelo mundo, conheci muita coisa, aprendi idiomas, recebi tudo isso em mim; mas de escrever simplesmente não me ocupava

mais. Assim se passaram quase dez anos, até eu poder me dedicar novamente à literatura. E revisando meus exercícios líricos, não os achei totalmente maus, mas tampouco

muito convincentes. Principalmente, descobri que a poesia profissional, tal como se deve manejá-la na elaboração de poemas, pode ser a morte da poesia verdadeira.

Por isso, retornei à "saga", à lenda, ao conto simples, pois quem escreve estes assuntos é a vida e não a lei das regras chamadas poéticas. Então comecei a- escrever

Sagarana. Nesse meio tempo haviam transcorrido dez anos, como já lhe disse; e desde então não me interesso pelas minhas poesias, e raramente pelas dos outros. Naturalmente

digo isso, porque é um dado biográfico, pois não aconteceu que, um belo dia, eu simplesmente decidisse me tornar escritor; isto

F Magma, premiado em 1936 pela Academia Brasileira de Letras. Os jurados consideraram este livro tão importante, que desistiram de atribuir um segundo prêmio, alegando

que não era possível uma comparação, nem mesmo aproximada, com Magma.

só fazem certos políticos. Não, veio por si mesmo; cresceu em mim o

sentimento, a necessidade de escrever e, tempos depois, convenci

me de que era possuidor de uma receita para fazer verdadeira poesia.

- GL: No meu entender, o que é extraordinário é a interrupção. É velho e

conhecido o fato de que o caminho da lírica conduz ao romance. Mas

você sugeriu que esses dez anos de intervalo foram seus anos de pere

grinação e aprendizagem, que o Wilhelm Meister~ do sertão reunia

nessa época as ferramentas que mais tarde o capacitáram, lingüística e

tematicamente, a converter-se no maior romancista do Brasil.

JGR: Não, não sou romancista; sou um contista de contos críticos. Meus romances e ciclos de romances são na realidade contos nos quais se unem a ficção poética e

a realidade. Sei que daí pode facilmente nascer um filho ilegítimo, mas justamente o autor deve ter um aparelho de controle: sua cabeça. Escrevo, e creio que este

é o meu aparelho de controle: o idioma português, tal como o usamos no Brasil; entretanto, no fundo, enquanto vou escrevendo, eu traduzo, extraio de muitos outros

idiomas. Disso resultam meus livros, escritos em um idioma próprio, meu, e pode-se deduzir daí que não me submeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros.

A gramática e a chamada filologia, ciência lingüística, foram inventadas pelos inimigos da poesia.

Quem escreve livros como os seus deve permitir que lhe perguntem como se consegue isso. Qual é a origem de seus livros? Existe em princípio uma gag temática que

depois você elabora, prepara, ou tem, e isto em seu caso é muito importante, uma idéia lingüística à qual depois é acrescentada uma ação? Ou simplesmente você inventa

uma estória que depois vai pouco a pouco vestindo com sua própria roupagem lingüística?

JGR: Acho que não há nada disso. Não preciso inventar contos, eles vêm a mim, me obrigam a escrevê-los. Acontece-me algo assim como vocês dizem em alemão: Mich reitet

auf einmal der Teufels que neste caso se chama precisamente inspiração. Isto me acontece de forma tão conseqüente e inevitável, que às vezes quase acredito que eu

mesmo, João, sou um conto contado por mim mesmo. É tão imperativo... Você quer dizer que há uma força interior que o impulsiona para o trabalho. Você tem fama de

ser um autor terrivelmente trabalhador, cuja aplicação é superada apenas por seu tradutor alemão...

JGR: (rindo) Meyer-Clason, se estivesse aqui para nos escutar! Pretende

sempre que tudo seja feito com muita exatidão. Para ele a literatura é

GL:


GL:

Wilhelm Meitser, título de um romance didático de Goethe.

" "De repente o diabo me cavalga". Citado em alemão por Guimarães Rosa.

36 JOÃO GUIMARÃES ROSA I F[CÇÃO COMPLETA

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uma religião. Verdade mesmo, ele é um diabo de homem, um gênio da tradução, o melhor tradutor que eu conheço.



GL: Meyer-Clason certamente se alegrará muitíssimo quando conhecer sua opinião sobre ele. Mas não nos desviemos do tema. Sobre tradutores e traduções e a possibilidade

de traduzir, sobre esse tema em geral teremos de falar mais detalhadamente. E saiba que nunca um autor conseguiu me deixar tão nervoso durante uma conversa. Você

é mesmo um fabulista; mal seu interlocutor se descuida, você se afasta do tema se este não lhe agrada. Mas eu ainda não o vou libertar de sua biografia e de suas

obras, embora pelo jeito você não goste de falar nisso. Por favor, continue a nos explicar o seu processo de trabalho, pois é interessantíssimo.

JGR: Você, Günter, parece um professorzinho de escola, invejoso do meu prazerem falar sobre o que eu queria. Continuemos, pois, falando do que não me parece importante!

Se depois me considerarem um charlatão, você será o responsável.

GL: Não vejo nenhum perigo disso, mas assumo plena responsabilidade.

JGR: Veja, nós, ós escritores, somos uma raça realmente estranha, e eu sou certamente o mais estranho deles todos. Tem razão; não estou me elogiando, quando digo

que trabalho duro e aplicadamente. Mas lamento que, apesar de todo meu empenho, trabalhe muito lentamente. Sem dúvida, comecei a escrever no tempo certo, mas demasiado

tarde. Apesar de ser verdade, isto também é um paradoxo. Não me posso permitir uma morte prematura, pois ainda trago,dentro de mim muitas, muitíssimas estórias.

Mas nasci em Cordisburgo, e lá às vezes as pessoas chegam a ficar muito velhas. O mineiro é secado por seu país e seu sol, fica resistente como carne-seca. Conheci

pessoas de oitenta e até noventa anos. Portanto, simplesmente tenho de ficar velho, pois esse tempo talvez me baste para eu contar tudo o que que ia contar. Você

afirmará certamente que sou um seltsamer VogeL9 Est expressão também aprendi na Alemanha.

GL: Agora, falando como leitor de seus livros, digo-lhe que não acho suas observações assim tão estranhas. Tenho certeza de que você poderá contar ainda muitas estórias,

mas também espero que continue nos falando de sua vida, embora isto não lhe seja tão agradável. Talvez .não fosse de pouca importância dizer-nos algumas datas.

JGR: Que nasci no ano de 19O8, você já sabe. Você não deveria me pedir mais dados numéricos. Minha biografia, sobretudo minha biografia literária, não deveria ser

crucificada em anos. As aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras; para
9 "Ave rara". Citado em alemão por Guimarães Rosa.

mim, são minha maior aventura. Escrevendo, descubro sempre um novo pedaço de infinito. Vivo no infinito; o momento não conta. Vou lhe revelar um segredo: creio já

ter vivido uma vez. Nesta vida, também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa. Quando escrevo, repito o que vivi antes. E para estas duas vidas um lia apenas

não me é suficiente. Em outras palavras: gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. O crocodilo vem ao mundo como um magister da metafísica, pois



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