João guimarães rosa ficçÃo completa volume I vq~ ume I introduçÃo geral prefacio



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a desarmonia irrompem. A beleza do peru, avistado pelo menino, no centro do terreiro, é só um instante de deslumbramento. Tanta imponência - "ríspida grandeza tonitruante",

"colorida empáfia" - não dura senão um átimo. O belo e imperial peru cai sob a faca da cozinha, sacrificado à trivial ocorrência do dia-de-anos do doutor. Então

o menino descobre que "entre o contentamento e a desilusão, na balança infidelíssima, quase nada medeia". Descobre também algo hostil, que escapa à sua compreensão,

e que lhe traz a presença do mal e da crueldade. Pois outro peru, de nenhuma beleza, bicava a cabeça da vítima imponente da véspera. "O Menino não entendia. A mata,

as mais negras árvores, eram um montão demais; o mundo." Ao menino aturde, por um momento, a negrura em que o mundo parece mergulhar. Mas já do outro lado da tristeza

e da ferocidade, no reverso da mesma vida que enegrecera, esplende a luzinha verde do primeiro vagalume - devolução da claridade, da alegria triunfante, recuperação

da beleza superando a fealdade, mas a ela unida, como a luz às trevas e o contentamento ao pesar.

Em Grande sertão: veredas, Riobaldo, o jagunço, reclama uma justa separação entre o bem e o mal: que esses opostos se excluíssem e que um deles" nada permanecesse

no outro. "Ao que - concluía ele vendo que pedia o impossível - este mundo é muito misturado". No menino os opostos se conciliam, e deles, por uma espécie de transubstanciação

alquímica da alma, ao cabo da qual a vida se renova, ganhando inéditos esplendores, nasce a harmonia superlativa de que falava Heráclito. O Menino é uma criança

qualquer a brincar com o seu macaquinho e é uma espécie de criança mítica, através de quem tudo se ordena, tudo sei corresponde, tudo se completa.

Em "Os cimos", última estória do volume, a iniciação se completa. É segunda viagem. Mais sábio, passando por uma provação (afastaram-ri da mãe enferma que ficara

na outra cidade), o Menino assume o que há d passageiro, de efêmero, de contrastante, na existência. Plana acima d mundo, acima do tempo, vendo-os fluírem juntos,

qual rio em crescimen to, onde vogam, de companhia, coisas boas e coisas más, coisas que ain não se completaram, e outras que "a gente sabia que elas já estavam

cama nhando, para se acabar, roídas pelas horas, desmanchadas...". A unidad

de tudo, a bondade natural das coisas, no sentido que lhes deu Plotino, revela-se no trabalho matinal de um pássaro - o tucano - que visita a árvore fronteira à

casa, em horário certo, conseguindo afugentar a mágoa que ele sentia pela mãe enferma, distante. O sol, o dia, a luz, se unificam no pássaro. É impossível separar,

tão grande é o poder poético da linguagem ajustada à visão mística do mundo, o vôo do tucano ao despontar do dia, e a aurora se funde com a emoção do menino, com

as saudades do lar materno e com a renovação que nele se opera ao saber que a mãe estava curada. O final dessa narrativa-poema é uma glorificação das coisas e dos

seres, um acesso repentino à plenitude do mundo, um êxtase, um rapto da alma. "E era o inesquecível de repente, de que podia trespassar-se a calma, inclusa. Durou

um nem-nada, como a palha se desfaz, e no comum, na gente não cabe: paisagem, e tudo, fora das molduras. Como se ele estivesse com a Mãe, sã, salva, sorridente,

e todos, e o Macaquinho com uma bonita gravata verde - no alpendre do terreirinho das altas árvores... e no jeep aos bons solavancos... e em toda-a-parte... nomesmo

instante só... o primeiro ponto do dia... donde assistiam, em tempo-sobre-tempo, ao sol no renascer e ao vôo, ainda muito mais vivo, estoante e existente - parado

que não se acabava - do tucano, que vem comer frutinhas na dourada copa, nos altos vales da aurora, ali junto de casa."

Em Grande sertão: veredas, é Diadorim menino quem introduz Riobaldo no mundo maravilhoso e áspero do sertão, que o Rio simboliza. Menino diferente, tem a estatura

de um ser mítico, fabuloso, que parecia igualar-se ao próprio Rio em sua força e em seus segredos. Possui o conhecimento das coisas e mostra a Riobaldo a beleza

das flores e dos pássaros. "Foi o menino quem me mostrou. E chamou minha atenção para o mato da beira, em pé, paredão, feito a régua regulado. -"As flores..."- ele

prezou. No alto, eram muitas flores, subitamente vermelhas, de olho-de-boi e de outras trepadeiras, e as roxas, do mucunã, que é um feijão bravo (...) Um pássaro

cantou. Nhambu? E periquitos, bandos, passavam voando por cima de nós. Não me esqueci de nada, o senhor vê. Aquele menino, como eu ia poder deslembrar? (...) Ele

o menino, era dessemelhante, já disse, não dava minúcia de pessoa outra nenhuma. Comparável um suave de ser, mas asseado e forte - assim se fosse um cheiro bom sem

cheiro nenhum sensível - o senhor represente (...) Se via que estava apreciando o ar do tempo, calado e sabido, e tudo nele era segurança em si.""

Diadorim, ambíguo, menino que é também menina, desperta a alma de Riobaldo, infunde-lhe o desassossego, toque de Eros, que mais tarde, nos longes do sertão, se converterá

em amor.

Z Vide também o vaqueiro legendário, Menino, que consegue amansar o boi indomável, na estória contada por seu Camilo. "Uma estória de amor (A festa de Manuelzão).11

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Irreonuçno GERAL / FORTUNA CRíTICA 127



Na estória de "Nenhum, nenhuma", vamos encontrar um terceiro personagem menino. Esse novo exemplar prende-se a uma vaga reminiscência de um passado longínquo, ao

desejo de romper a obscuridade, de clarear o que há de enigmático no começo de ser individual, quando impressões indeléveis gravam-se na memória, formando uma primeira

versão das coisas vividas, que o tempo dilui e afunda na irrealidade. A infância, aqui, é mais do que a etapa inicial da vida; é também uma tentativa de retorno

à origem. O menino encontra-se numa casa de fazenda, descrita nebulosamente - mansão estranha em lugar incerto, em "indescoberto rumo". E tenta recordar-se, despertar

reminiscências; lembra-se de lembrar uma infância ignota, mas longínqua, princípio em que se agita a "porção escura de nós mes-" mos". "Se eu conseguir recordar,

ganharei calma, se conseguisse religar-me: adivinhar o verdadeiro e real, já havido. Infância é coisa, coisa?"

O menino de "Nenhum, nenhuma" vive em companhia de um Moço,,, de uma Moça e de um homem triste. Num dos quartos da casa está uma "velhinha (...) velhíssima" da qual

a Moça não pode separar-se. É o espectro da morte interposto entre ela e o Moço que a ama. O menino compreende o amor, que deverá perpetuar-se na memória dos namorados,

também a Morte, que só aparentemente se opõe ao amor. Ele é a frágil união dos extremos que deveriam tocar-se. "Atordoado, o Menino, torna do quase incônscio, como

se não fosse ninguém, ou se todos uma pessoa só, uma só vida fossem: ele, a Moça, o Moço, o Homem velho e a Nhenha, velhinha, em quem trouxe os olhos."

Só o menino consegue vislumbrar a unidade, conciliar os opostos, apagar as diferenças transitórias. Nhenha, na sua extrema velhice, regride a estado de infância.

O fim assinala um novo começo. Da morte sai a vida como na dialética da geração recíproca dos contrários. Ele não esquece que os pais já esqueceram; detém a sabedoria

que eles perderam, jazente n memória. Ao voltar da casa estranha, entrevista em sonho ou reminiscên cia, na companhia do Moço apaixonado, que obteve o amor da Moça

somente para efeito de recordá-lo, volta como se fosse uma alma desgarrad do cortejo dos espíritos puros da alegoria platônica de Fedro, que não ti vesse de todo

perdido suas asas. Encontra o Pai e a Mãe, e os desconhec

"Vocês já se esqueceram de tudo o que, algum dia, sabiam!..."De súbito sen

te-se entre estranhos, entre corpos divididos, prisioneiros do tempo, 1 embotados para sentir o apelo uníssono de Eros e Tanatos. "Por que e desconheci meus Pais

- eram-me tão estranhos, jamais poderia verdadeiramente conhecê-los, eu; eu?" O menino sente-se outro, um estrangeir também, que pertence a si mesmo e ao mundo ilimitado,

não preso a um topologia terrestre, mas viajor que percorre estações de passagem - desci do à terra por descuido ou desígnio insondável. Destino semelhante é o d

rapaz enigmático, de "Um Moço Muito Branco", que veio não se sabe d

onde, aparecendo na comarca do Serro Frio após um terremoto que se deu na noite de novembro de 1872, em Minas Gerais. Comparável a um anjo, o Moço cândido e distante,

que em todos acende confiança e afeição repentinas, impõe-se como ser superior em relação ao qual "nós todos, comuns, temos os semblantes duros e o aspecto de má

fadiga constante." Depois de operar prodígios, o Moço desaparece. "Com a primeira luz do sol, o moço se fora, tidas asas."

Pelos seus dons divinatórios e encantatórios, a esquisita Nhinhinha, de "A Menina de lá", pode ser filiada à estirpe de que estamos tratando. Quieta, de olhar vago,

de palavras poucas e extravagantes, desligada deste mundo, contemplativa, meio imbecil, fala com as estrelas, o vento, o sabiá, em resumidas frases, sempre reticente.

Adivinhou o seu dia de morrer, pediu "um caixãozinho cor-de-rosa, com enfeites verdes", como se pedisse um brinquedo. Nhinhinha era milagreira, e dessa capacidade

a família guardava silêncio, prevenindo escândalos da vizinhança. "O que ela queria, que falava, súbito acontecia. Só que queria muito pouco e sempre as coisas levianas

e descuidosas, o que não põe nem quita."

Esses personagens - o Menino, a Menina, o jovem - dados a encantamento e sortilégios, munidos de dons extraordinários, e que podem ter das coisas uma visão mais

completa do que a comum, pertencem a uma só família mítica. A infância ou a juventude é neles um estado de receptividade, de sabedoria inata, e tem duplo sentido:

por um lado, remoto e nebuloso passado, que se confunde com as origens, e, por outro, prenúncio de um novo ser, ainda em esboço, que advirá do que é humano e terrenal.

Sob o primeiro aspecto, essa infância simboliza a alma que nasceu da Unidade primordial e que, por isso, ainda participa da indistinção caótica anterior à separação

dos elementos e ao conflito dos princípios opostos do mundo sensível. É, por esse lado, potência obscura, indefinida, cuja natureza oscila entre o divino e o diabólico.

Mas se assim é em seu aspecto noturno, ancestral, o símbolo da infância, desentranhável dos personagens a que nos reportamos, exprime, em sua face luminosa, a idéia

de um novo nascimento, da reintegração da alma dividida, a qual deverá recuperar a sua unidade congênita e ingressar num estado de plena harmonia consigo mesma,

harmonia que superará os contrários - o masculino e o feminino - que a dividem no estágio terreno de sua peregrinação.

O infante de Guimarães Rosa, pelos seus atributos míticos, pelo seu caráter peregrino, abrange simbolicamente esses dois nascimentos. Por isso é que a estirpe do

Menino, com seus muitos avatares, da Menina encant da e do Rapaz alado, é espécie representativa de um padrão mitológico de uma essência arquetípica, inserta nas

formas religiosas arcanas, e qu tem servido de conduto à imaginação poética: a Criança Primordial.

A Criança Primordial ou Criança Divina, ocupa, segundo Jung, u campo mitológico versátil. 12 Apesar de corresponder a certas formas sig frcativas, arquetípicas,

as suas manifestações fenomênicas variam: men algumas vezes, menino de ouro outras e, ainda, jovem, efebo alado, se lhante à representação pictória do divino Eros,

tal como o rapaz da estór "Um moço muito branco", que se retira desse mundo movido só pela for de suas próprias asas renascentes. Natureza protéica, ambivalente

quan ao sexo, é, mitologicamente, idêntico ao andrógino. E é devido a essa ide tidade que se constitui em teofania primitiva, uma vez que a androgt caracteriza a

divindade nas religiões arcaicas.` Como explica Eliade, androginia divina, fenômeno religioso complexo, "é uma fórmula arcai universal para exprimir a totalidade,

a coincidência dos contrário coincidentia oppositorum.24 Liga-se ao mito da origem divina da alma e seu final retorno à Unidade da qual foi desapossada.

O andrógino, a que se refere Platão em O banquete, é a espécie prr tiva da humanidade, que se teria dividido em dois seres incompletos q se buscam, movidos pela

força original de Eros, cada qual ativado por u princípio complementar do outro. Da união deles resultaria a coincidem oppositorum.

A Criança Primordial ou Divina pertence, pois, a um domínio qu comum à simbologia erótica e mística, porque representa a final restit ção do homem à divindade ou,

numa interpretação mais condizente co ensino das correntes ocultistas, que admitem a androginia, da final cone são do ser humano ao divino. 25

O andrógino, desse modo, comporta os mesmos aspectos retrospecti. e prospectivos do infante mítico, da Criança Divina, que Guimarães R recriou poeticamente com seus

Meninos sábios e extremamente seus - um dos quais devassa o passado imemorial, chegando ao domínio fu

22 Essas formas são também peculiares à simbologia onírica. Vide Jung, Psicologia Transferencia, p. 45-46.

23 " Encontramos traços de androginia (diz Eliade) tanto nos deuses - como Atis, A mis, Dioniso- quanto nas deusas, como Cibele. E se compreende por quê: a vida

j de uma plenitude, de uma totalidade." Mircea Eliade, Mythes, réves et mystères, 2

Gallimard, 1957.

24 "Mais do que uma situação de plenitude e de autarquia sexual, a androginia simbo a projeção de um estado primordial, não condicionado. É por essa razão que a

andr mia não é limitada aos seres supremos." Idem, 233. São andróginos os gigantes cós COSI e Adão é considerado hermaphroditus.

27 Nesse sentido é que Jorge de Sena assinala a presença do mito da Divina Criança, drógina, na obra de Fernando Pessoa, manifestada por três figuras que compõem

verdadeiro ciclo: Menino Jesus, Antínoo, Dom Sebastião. O Menino Jesus, no 8o poema "O guardador de rebanhos", é, para Alberto Caeiro, "a Eterna Criança, o deus

que


tava"... Jorge de Sena, "Nietzsche, Pessoa e outras coisas mais", in O Poeta é um dor, 41 e 59 (nota 47), Lisboa, Ática, 1961.

INTRODUÇAO GERAL / FORTUNA CRITICA 129

dio das reminiscências - como seu jovem alado, prenúncio de um novo ser, tal como aquele que, na operação alquímica, destinada a produzir a pedra filosofal, resultaria

da conjunção dos opostos, encarnando a própria natureza da alma purificada.` Reminiscência de um estado originário que foi perdido, a Criança Divina é também a superior

excelência de um estado ideal a conquistar.` Além dessa ambivalência no tempo, ela possui o caráter ambíguo das teofanias primitivas, peculiar à dialética do sagrado,

do numinoso.28 Seduz e fascina, aterroriza e inquieta. Força ambígua, seus efeitos ora são benéficos ora maléficos, podendo ser fonte do Bem ou causa do Mal. Possui

um pólo luminoso, amável e propício, e outro sombrio, repelente e hostil - um pólo divino e um pólo demoníaco, reversível, pois que o diabo fascina e Deus é, por

vezes, sombrio e tortuoso. 29

Diadorim, ser andrógino, é, ao mesmo tempo, divino e diabólico. É ele quem, ainda menino, ensina Riobaldo a ver a beleza que vai pelo mundo. Mas no instante em que

ilumina a alma do companheiro, marca-lhe sombriamente o destino. Na amizade com Diadorim-menino estaria a antecipação daquele pacto com o demônio, que Riobaldo se

decidiu a firmar. Pois na infância já se emaranham fios de incerta origem, que tecem a vida de um homem, em seu direito e avesso.

Diadorim é um outro modo de amor, incomparável com o de Otacília e Nhorinhá - amor que tinha um quê de paradisíaco, de idílico, e algo de ameaçador, escondendo o

encanto noturno e proibido de uma felicidade enganosa, que se esfumaçou, em meio ao sangue das guerras de vingança,

2`A Teosofia encara o hermafroditismo dos deuses e heróis como a plenitude de um estado espiritual efetivo do qual a humanidade foi desapossada. A perda da androginia

significa a perda da espiritualidade. H.P. Blavatsky, La Doctrina Secreta, Buenos Aires,

vol. 364. Kier, sd. Esse ensinamento deita raízes na tradição neoplatônica e hermética. Para a Teosofia, o centro, o interior daquilo que comumente se chama alma,

é a própria divindade (Espírito, Atmã). "Para nós-sentenciava Blavatsky-o homem inte

rior é o único Deus que podemos conhecer." La clave de la teosofia, 6O, Buenos Aires, Saros, sd. A conquista da essência íntegra da alma é o momento da identificação

do hOrnem com o princípio divino que nele reside e que é o seu verdadeiro, antigo e novo

ser, origem e fim do humano.

O andrógino inclui simbolicamente esses dois aspectos, retrospectivo e prospectivo. Enraíza-se no "remoto passado platônico" e projeta-se no futuro. Cirlot, Diccionario

de símbolos, 83. Igualmente Jung, em sua Psicologia de Ia transferencia, 8O: "É o homem redondo, isto é, perfeito dos tempos primigéneos e últimos, princípio e fim

do homem"

"& Roger Caillois, L"Homme et le sacré, 43. Paris, Gallimard, 195O.

Dessa polarização é que nos fala Roger Caillois. O pólo demoníaco sintetiza os aspectos "terríveis e perigosos" do sagrado, mas que são atraentes, tentadores. "O

diabp, por exemplo, não é só aquele que castiga cruelmente os condenados ao inferno; é t bém aquele cuja voz tentadora oferece ao anacoreta as doçuras dos bens da

terra" Roger Caillois, L"Homme et le sacré, 43. Gallimard, 195O.

13O


INrROUUÇAO GERAI, / FORTUNA CRITICA 131

como se evaporam as simulações do Maligno. Nele o divino e o diabólic são permutáveis e simbolizam dois momentos da aventura que se reali no homem - o momento ancestral,

do velho ser humano dividido, qu permanece presa das forças elementares, materiais e sensíveis, e o momen to por vir, que lentamente se prepara, da transformação

do humano e divino, e em relação ao qual a vida constitui uma iniciação e uma aprendizagem.

O problema da existência de Deus e do Demônio e o das relações entre Bem e o Mal, plano de fundo de Grande sertão: veredas, pode ser enquadrado nessa perspectiva

que nos foi possível traçar, arrimados à simbolog erótica e mística da obra de Guimarães Rosa. É a perspectiva alquímica d transubstanciação do humano em divino,

uma vez libertado aquele centr incomovível da alma, partícipe da Unidade. Em abono dessa conclusão, nada melhor do que as últimas reflexões de Riobaldo, terminando

o relato da epopéia do sertão. "Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for.. Existe é homem humano. Travessia." Ao dizer que o que existe é honre humano, Riobaldo

não somente estaria dando ênfase ao seu pensamento por essa feliz redundância poética, mas talvez lhe passasse no espírito a sus peita de que o humano contém só

um dos lados da natureza do homem, que a vida é uma tentativa de travessia - para o outro lado, divino.


N
Diadorim, que pertence à família do infante mítico, representa a fas caótica, ambígua de eros. Mas eros é extremamente versátil e suas encarna ções são múltiplas.

A galeria dos tipos femininos criados por Guimarãe Rosa estaria incompleta, se não colocássemos ao lado de Nhorinhá, Jin Otacília, a figura ímpar dessa velhinha

extremamente sábia, Dona Rosalina, de "A estória de Lélio e Lina", velha-moça, que é muito mais do que o símbolo da eterna fluência da vida, renascendo das cinzas

da velhice. Pois s trata da última encarnação de eros, culminãoncia de sua trajetória, limite e tremo de suas metamorfoses.

A singularidade de Dona Rosalina, quanto ao físico, reside no apelo res guardado, que nela não se extinguiu, da juventude, ainda viva no "aces rideiro dos olhos"

e nos gestos, por onde se traduz "uma vontade medid de movimentos". "Velhinha como-uma-flor. O rastro de alguma belez que ainda se podia vislumbrar." Logo entre

ela e o vaqueiro Lélio, jovem de "coração lavradio e pastoso" , se estabelece firme entendimento recíproco como se há muito se conhecessem e apenas estivessem renovando

antig laço de amizade ou amor. Ele é, para Dona Rosalina, desde o primeiro íris tante, "Meu Mocinho". Em torno dela reinava uma quietude, um sosseg remansoso que

nada podia perturbar, a modo de atmosfera familiar qu

nos protege. "Tão à vontade, Lélio achava estúrdio que o conhecimento dela tivesse sido só daquela mesma hora, parecia poder puxar lembrança comprida." Encontrou-a

por acaso, numa volta do caminho: "E, vai, a solto, sem espera, seu coração se resumiu: vestida de claro, ali perto, de costas para ele, uma moça se curvava, por

pegar alguma coisa no chão. Uma mocinha."

Assim a velhinha aparece, vez primeira, como mocinha, e só essa pura visão, que logo se desfaria, toca a alma de Lélio, levando-o a um estado de súbito encantamento:

"Era um estado - sem surpresa, s.em repente - durou como um rio vai passando." Como se estivesse passando por um transe, Lélio é arrebatado pela repentina visão.

"A gente pode levar um bote de paz, transpassado de tranqüilo por um tiro de raio." Findo o êxtase, a mocinha desaparece. Surpreso, Lélio distingue a vera forma

da pessoa que recolhia gravetos no mato: "Mas: era uma velhinha! Uma velha... Uma senhora." De pronto ele se esquece da esquisita sensação que o dominara. Mas ao

carregar os gravetos que ela tinha juntado, ouve-lhe a voz, e lembra-se da velhinha lendária, fraca e desamparada do conto infantil, na qual Nossa Senhora se disfarça

para experimentar a caridade dos passantes. "Porque aquela voz acordava nele a idéia - próprio se ele fosse o rapazinho da estória: que encontrava uma velhinha na

estrada e ajudava-a a pôr o atilho de lenha às costas, e nem sabia quem ela era, nem que tinha poderes..."

O encontro de Lélio e Lina tem, assim, um contorno folclórico e mágico. Dona Rosalina (Mãe Lina ou simplesmente Lina) é, de fato, dona de muitos poderes, os quais

se manifestam menos por efeitos visíveis do que pela generosidade maternal que ela irradia. "Às vezes, olhado por aqueles olhos, homem destremia da banzeira da vida,

se livrava de qualquer arrocho e ria de si mesmo um pouco, respirando mais." Maternal, ela se doa a Lélio e dele recebe filial dedicação: "Assim Dona Rosalina tinha

gostado dele como mãe gosta de um filho: orvalho de resflor, valia que não se mede nem se pede - se recebe."

De seu passado, a velhinha fala, sem aversão ou desmedida saudade. Havia amado muito, no mundo; e em sua velhice não renega a mulher cortejada que tinha sido. O

tempo de amor que se fora, lhe pertencia, integrado em uma outra espécie de vida e de amor. "Já fui mesmo rosa [dizia ela]). Não pude ser mais tempo. Ninguém pode...

Estou na desflor. Mas estas mãos já foram muito beijadas. De seda... Depois, fui vendo que o tempo mudava, não estive querendo ser como a coruja - de tardinha, não

se voa..."

Dessa experiência evocativa de Dona Rosalina sobressai o seu grande onheclmento do amor - do amor realizado que ela podia r ver, como quem recapitula as fases de

uma trajetória. Poderia ter amado élio. Noutra vertente do tempo a singular amizade que tem por ele cria ligação

1:," rROiwçAO GERAL / FORTUNA CRITICA

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amorosa. "Agora é que você vem vindo, [diz-lhe Dona Rosalina] e eu já vou-m"bora. A gente contraverte. Direito e avesso... Ou fui eu que nasci demais cedo ou você



nasceu tarde demais. Deus pune só por meio de pesadelo. Quem sabe foi mesmo por um castigo?..."

Na verdade, Dona Rosalina dá ao seu Mocinho uma forma de amo mais completa, mais ampla, que sumariza os seus passados amores, e qu tem o poder de sublimar o impulso



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