João guimarães rosa ficçÃo completa volume I vq~ ume I introduçÃo geral prefacio



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JOÃO GUIMARÃES ROSA

FICÇÃO COMPLETA
Volume I

VQ~ UME I

INTRODUÇÃO GERAL
PREFACIO

Eduardo F. Coutinho

CRONOLOGIA DA VIDA E DA OBRA DIALOGO COM GUIMARAES ROSA

Günter Lorenz

FORTUNA CRITICA

Antonio Candido /Álvaro Lins /Euryalo Cannabrava


Antonio Candido /Manuel Cavalcanti Proença /Bernardo Gersen
Graciliano Ramos / Tristão deAtaíde /Benedito Nunes
Henriqueta Lisboa /Ángela Vaz Leão/ Braga Montenegro
Paulo Rónai /Rui Mourão /Fernando Py

BIBLIOGRAFIA

Paulo Roberto Dias Pereira

SAGARANA / MANUELZÃO E MIGUILIM O~ R~UBUQU NO PINHÉM

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BIBLIOTECA


LUSO-BRASILEIRA

Série Brasileira

JOÃO GUIMARÃES ROSA
FICÇÃO COMPLETA

em dois volumes

VOLUME I
INTRODUÇÃO GERAL

Prefácio / Cronologia da vida e da obra


Diálogo com Guimarães Rosa/ Fortuna crítica
Bibliografia

SAGARANA / MANUELZÃO E MIGUILIM


NO URUBUQUAQUÃ, NO PINHÉM
NOITES DO SERTÃO

VOLUME II

GRANDE SERTÃO: VEREDAS
PRIMEIRAS ESTORIAS / TUTAMÉIA
ESTAS ESTORIAS / AVE, PALAVRA

Primeira edição, 1994


Reimpressão da primeira edição, 1994

ISBN 85-21O-OO11-1

© 1994, by Vilma Gimarães Rosa, Agnes Guimarães Rosa do Amaral e
Barcelona Participações SIC Ltda.

Direitos de edição da obra em língua portuguesa em edição de luxo


adquiridos pela

EDITORA NOVA AGUILAR S.A.


Rua Bambina, 25 - Botafogo -CEP 22251-O5O
Rio de janeiro, R)

Tel.: 537-877O - Fax: 537-8275

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

Rosa, João Guimarães, 19O8-1967

H694f Ficção completa, em dois volumes 1 João Guimarães Rosa. - Rio de Janeiro : Nova Aguilar,1994.

2 v. - (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)

INTRODUÇÃO

GERAL


94-O8O6

Conteúdo: v. 1. Introdução Geral - Sagarana - Manuelzão e Miguilim - No Urubuquaquá, no Pinhém - Noites do sertão - V. 2. Grande sertão: veredas - Primeiras estórias

- Tutaméia - Estas estórias -Ave, palavra.

Inclui bibliografia.

ISBN 85.21o.oou-1
1. Ficção brasileira. 2. Rosa, João Guimarães, 19O8 1967. I. Título. II. Série.
CDD - 869.93 CDU -869.O(81)-3

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PREFÁCIO



GUIMARÃES ROSA:
UM ALQUIMISTA DA PALAVRA

Eduardo F. Coutinho

UM DOS MAIORES ourives da palavra que a literatura brasileira jamais conheceu e ao mesmo tempo um dos mais perspicazes investigadores dos matizes da alma humana

em seus rincões mais profundos, Guimarães Rosa é hoje, entre os escritores brasileiros do século XX, talvez o mais divulgado nos meios acadêmicos nacionais e estrangeiros

e o detentor de uma fortuna crítica não só numericamente significativa, como constituída pelo que de melhor se vem produzindo em termos de crítica no país. No entanto,

apesar da complexidade de sua obra, resultante em grande parte da verdadeira revolução que empreendeu da linguagem ficcional, o sucesso de Guimarães Rosa não se

restringe ao contexto intelectual. Prova-o bem a grande quantidade de edições que se sucedem de seus livros e o número expressivo de traduções que povoam cada vez

mais o mercado internacional. Prova-o também a série de leituras que ela vem recebendo por parte do teatro (Sarapalha, por exemplo), e da mídia cinematográfica e

televisiva (longametragens como A hora e vez de Augusto Matraga, Duelo, Noites do sertão, Cabaré mineiro e A terceira margem do rio, entre outros, e a série televisiva

Diadorim). A presente edição tem o mérito de reunir, pela primeira vez em volumes conjuntos, a obra completa do autor, acompanhada de cronologia, bibliografia ativa

e passiva atualizada, e uma breve seleção de sua fortuna crítica. É uma contribuição extremamente relevante que a Nova Aguilar oferece ao público, revitalizando,

como já o vem fazendo há algum tempo, a tradição iniciada por Afrânio Coutinho e consolidada nos áureos tempos da antiga Aguilar.

Desde a publicação, em 1946, de seu primeiro livro, Guimarães Rosa se tornou alvo de interesse da crítica. Efetuando um verdadeiro corte no discurso tradicional

da ficção brasileira, máxime no que concerne à linguagem e estrutura narrativa, Sagarana causou forte impacto no meio literário da

12 )()Ao GUIMARAES ROSA / FICÇAO COMPLETA

época, dividindo os críticos em duas posições extremas: de um lado aqueles que se encantaram com as inovações presentes na obra e teceram-lhe comentários altamente

estimulantes, e de outro os que, presos a uma visão de mundo mais ortodoxa e baseados no modelo ainda dominante da narrativa dos anos 3O - o chamado "romance do

engajamento social" - acusaram o livro de "excessivo formalismo". Estas posições da crítica, tanto a apologética quanto a restritiva, que apreenderam a obra através

de uma perspectiva monocular, vão sofrer séria revisão mais tarde - principalmente após o surgimento de Grande sertão: veredas - mas o registro de sua reação no

momento da publicação de Sagarana indica o sentido de ruptura que caracteriza a obra com relação à tradição literária brasileira ainda dominante, apesar dos esforços

da primeira geração modernista, e aponta o seu parentesco com outras obras também inovadoras que vinham surgindo ou já haviam surgido no seio de outras literaturas

vinculadas à nossa, como a hispano-americana e a norte-americana, ou, de maneira mais ampla, no próprio corpus da literatura ocidental como um todo.

Deixando de lado o segundo aspecto por implicar um estudo comparativo mais amplo que transcenderia o objetivo deste ensaio, e concentrandonos no primeiro, lembremo-nos

de que, no quadro da literatura brasileira, a obra de Guimarães Rosa é geralmente situada dentro da terceira geração modernista, também designada "geração do instrumentalismo",

por caracterizar-se, entre outras coisas, por acentuada preocupação com a exploração das potencialidades do discurso, com o sentido "estético" do texto, e por expressar,

na maioria dos casos, profunda consciência do caráter de ficcionalidade da obra, de sua própria literariedade. Tais elementos, presentes em quase todos os autores

que a historiografia literária normalmente inclui nessa geração, são levados a um extremo na ficção rosiana, o que explica em parte a reação mencionada da crítica.

Contudo, o que esta crítica não percebeu de imediato é que a ruptura introduzida por Guimarães Rosa, longe de constituir mera obsessão formal, uma espécie de capricho

ou moda, acarretava ao contrário uma proposta estético-política de caráter mais amplo, somente evidenciável quando confrontada com a visão de mundo dominante no

período imediatamente anterior - a da narrativa dos anos 3O - e expressa em premissas, formuladas pelo próprio autor em entrevista ã Günter Lorenz, como a de que

"o escritor deve ser um alquimista" e de que "somente renovando a língua é que se pode renovar o mundo". I
I Lorenz, Günter. Guimarães Rosa. Diálogo com a América Latina. Panorama de uma literatura do futuro. Trad. Rosemary Costhek Abílio e Fredy de Souza Rodrigues. São

Paulo: EPU, 1973, p. 315-55. Repr. com o título "Diálogo com Guimarães Rosa", em Coutinho, Eduardo F., org. Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,

1983, p. 62-97. Coleção "Fortuna Crítica", n. 6. Todas as citações desta entrevista, concedida por G. Rosa a G. Lorenz, serão feitas por esta última edição.

INTRODUÇAO GERAL / PREFACIO 13

À época em que Guimarães Rosa produziu suas primeiras narrativas - os contos enfeixados no volume Sagarana- o tipo de ficção predominante no meio intelectual brasileiro

era ainda o romance do Nordeste, com seu veio épico acentuado e um tônus marcadamente de protesto, mas calcado em uma linguagem que, por se subordinar muitas vezes

à função de denúncia, tornava-se amiúde descritivista, voltada para o aparente e convencional, não se diferençando muito, a despeito da maior ênfase sobre o coloquial,

da utilizada em finais do século XIX pelos adeptos do Real-Naturalismo. Ciente do paradoxo em que havia incorrido a ficção anterior, que expressava idéias revolucionárias,

mas através de um discurso automatizado, e baseado na convicção de que ` o melhor dos conteúdos de nada vale se a língua não lhe faz justiça", Rosa define como uma

de suas principais metas a tarefa de revitalizar a linguagem com o fim de fazê-la recobrar sua poiesis originária e atingir o leitor, induzindo-o á reflexão. Desse

modo, mergulha de corpo e alma nos meandros da linguagem, violando constantemente a norma, e substituindo o lugar-comum pelo único, ou, melhor, abandonando as formas

cristalizadas e dedicando-se à busca do inexplorado, do metal que, como ele próprio afirma, se esconde "sob montanhas de cinzas".

Os procedimentos empregados por Guimarães Rosa para revitalizar a linguagem narrativa são muitos e variados e se estendem desde o plano da língua stricto sensu ao

do discurso narrativo. No primeiro caso, citem-se, a título de amostragem, a desautomatização de palavras que haviam perdido sua energia primitiva e adquirido sentidos

fixos, associados a um contexto específico (por exemplo, palavras como "sertão" no romance regionalista); de expressões que se haviam tornado vagas e enfraquecidas,

encobertas com significações que escondiam seu viço originário; e da sintaxe como um todo que havia abandonado suas múltiplas possibilidades e se limitara a clichês

e estereótipos. E no segundo caso, mencionem-se, entre um vasto leque de recursos, a ruptura da linearidade tradicional e das relações de causa e efeito na narrativa,

que cedem lugar à simultaneidade e à multiplicidade de planos espaciais; o emprego de técnicas híbridas e a fusão dos gêneros tradicionais; e finalmente, a coexistência,

na grande maioria das narrativas, de uma linguagem-objeto e uma metalinguagem, que sinaliza a todo instante a consciência de ficcionalidade da obra. Contudo, a despeito

das diferenças assinaladas, tais procedimentos têm uma base comum, constituída de dois estágios: a eliminação de toda conotação adquirida com o tempo e desgastada

pelo uso, e a exploração das potencialidades da linguagem, da face oculta do signo, ou, para empregar as palavras do próprio Rosa, do "ileso gume do vocábulo pouco

visto e menos ainda ouvido, raramente usado, melhor fora se jamais usado"."


Rosa, João Guimarães. Sagarana. 12. ed. Rio de janeiro: José Olympio, 197O, p. 238.

Esta infração à norma, efetuada por Guimarães Rosa ao largo de toda a sua obra, e o conseqüente esmerilhamento das potencialidades do sistema não só lingüístico

em seu sentido estrito como também do discurso narrativo, é talvez a maior expressão da postura comprometida do autor, que vê a participação do leitor como elemento

indispensável em seu próprio processo criador. Para Guimarães Rosa, a linguagem é um poderoso instrumento de ação na medida em que, ao expressar idéias - "a língua

serve para expressar idéias", diz ele, em sua entrevista com Lorenz - pode atuar sobre os indivíduos, levando-os à reflexão. Mas como este poder da linguagem se

enfraquece sempre que suas formas se acham desgastadas e condicionadas a uma visão de mundo específica, é preciso renová-las constantemente, e o ato de renovação

se reveste de um sentido ético que o próprio Rosa explicita ao referir-se, com bela imagem, ao "compromisso do coração" que, conforme acredita, todo escritor deve

ter. A linguagem corrente está desgastada pelo uso e, por conseguinte, "expressa apenas clichês e não idéias"; assim, é missão do escritor explorar a originalidade

da expressão lingüística, de modo a que ela possa recuperar seu poder, tornando-se novamente apta a atuar sobre os indivíduos. É por esta razão que declara a Lorenz

que a poesia "se origina da modificação de realidades lingüísticas% e em seguida conclui que todo verdadeiro escritor é também um revolucionário, porque, ao restaurar

o poder de ação da linguagem, está ao mesmo tempo espalhando sementes de possíveis transformações.

Com a renovação do dictum poético, empreendida por Guimarães Rosa, o leitor é induzido a pensar, a refletir a todo instante, e se transforma de mero consumidor num

participante ativo do processo criador. O autor está ciente do fato, como ele mesmo afirma através das palavras do narrador de Grande sertão: veredas, de que "toda

ação principia mesmo é por uma palavra pensada. Palavra pegante, dada ou guardada, que vai rompendo rumo" assim, fornece ao leitor esta "palavra", por meio das inovações

que introduz, e, ao estimular sua reflexão e conseqüente participação na construção da própria obra, faz dele um grande questionados, um desbravador de caminhos.

O leitor, para Guimarães Rosa, como aliás todo ser humano, é sempre um perseguidor, um indivíduo inteiramente construído sob o signo da busca, e é esta indagação

que deve ser constantemente estimulada pelo escritor. A Rosa não basta, por exemplo, tecer, como haviam feito autores da geração anterior, uma crítica, por mais

veemente que seja, a determinada realidade,zzz se esta crítica não se fizer acompanhar de uma reestruturação da linguagem sobre a qual se erige. A revolução na literatura

deve partir de dentro, da própria forma literária, se se quer atingir o leitor

3 Rosa, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 2. ed. Rio de janeiro: José Olympio, 1958, p. 17O.

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de maneira mais plena, e é este o sentido último da revolução " da a cabo por Guimarães Rosa.

Exemplos de processos de revitalização da linguagem pode

dos de cada linha das narrativas de Guimarães Rosa e já foram exaustivamente listados e examinados em estudos dedicados pela crítica sobretudo aos aspectos lingüísticos

e filológicos de sua obra. Entretanto, uma breve menção a alguns deles, como a afixação e a aglutinação, faz-se, a nosso ver, necessária, se não mais pela freqüência

com que aparecem. A primeira é o que ocorre, por exemplo, com a palavra "sozinhozinho", empregada no Grande sertão: veredas. A palavra "só", basicamente referencial

em português, não contém em si mesma nenhuma conotação emocional. O poeta anônimo, ao sentir certa vez que o vocábulo era insuficiente para expressar sua solidão,

decidiu, então, acrescentar-lhe um sufixo diminutivo -inho, -zinho, bastante usado na língua com o sentido de intensidade (cf. "cedinho", "devagarzinho"). E o resultado

foi a palavra "sozinho", significando "muito só". Não obstante, com o desenvolvimento da língua, "sozinho" veio a perder seu significado poético e passou a ser usado

como um simples sinônimo de "só". Guimarães Rosa, percebendo a inexpressividade do vocábulo, procurou reavivar seu significado originário, servindo-se do mesmo processo

que acreditava tivessse sido utilizado um dia. Assim, repetiu o sufixo diminutivo no final e criou a forma "sozinhozinho".

O segundo procedimento mencionado, a aglutinação, consiste na combinação dos significantes de dois ou mais vocábulos, de tal modo que o neologismo criado contenha

os significados de todos eles. Estes neologismos, chamados palavras portmanteau, são particularmente abundantes na obra rosiana e se prestam, melhor talvez do que

qualquer outro aspecto de sua linguagem, para ilustrar o cunho das inovações estéticas introduzidas pelo autor.

É o caso de palavras como nenhão, fusão do pronome indefinido "nenhum" e do advérbio de negação "não"; fechabrir, conciliação dos opostos "fechar" e "abrir"; prostitutriz,

combinação dos sinônimos "prostituta" e "meretriz"; ou ainda as formas sussurruído e adormorrer, usadas para sugerir respectivamente o cochicho de um grupo de pessoas

num velório e a morte de um indivíduo como uma espécie de sono. Em todos esses casos, bem como nos de afixação, como o citado acima, observa-se a alteração ou criação

de um signifrcante, mas nunca a invenção de "significantes" inteiramente novos, dissociados das formas existentes no idioma. O escritor é um infrator da norma, do

uso cristalizado da língua, e o que faz é explorar as possibilidades latentes dentro do sistema de sua língua, conferindo existência concreta a algo que existia

até então em estado potencial.

Como os exemplos citados se restringem ambos ao nível vocabular, vale registrar também aqui o caso de sintagmas e às vezes sentenças intei-

JOÃO GUIMARÃES ROSA I FICÇÃO COMPLETA

16

ias tornados clichês, que são freqüentemente alterados pelo autor com o objetivo de fazê-los recobrar sua expressividade originária. Assim, construções como "nu



da cintura para cima" ou "não sabiam de coisíssima nenhuma" transformam-se em Grande sertão: veredas em "nu da cintura para os queixos" e "não sabiam de nada coisíssima".

Quando um falante de português escuta a expressão "nu da cintura para cima" ou a sentença "não sabiam de coisíssima nenhuma", não pensa sobre as diversas nuances

de significado que elas contêm. Na verdade, não chega nem a notar o uso peculiar do sufixo superlativo -issimo, próprio de um adjetivo, aplicado ao substantivo "coisa".

Estes sintagmas se acham tão bem integrados em sua língua, e foram de tal modo desgastados pelo uso, que não sugerem para ele nenhuma conotação especial. Todavia,

quando escuta a expressão "riu da cintura para os queixos" ou a sentença "não sabiam de nada coisíssima", a estranheza das construções fere sua percepção e força-o

a refletir sobre o significado delas. E, ao fazê-lo, ele é levado a enxergar além do puro aspecto denotativo da expressão.

Embora seja no campo da sintaxe, ao contrário do que se supõe normalmente, que residem as maiores inovações de Guimarães Rosa com relação à linguagem literária (trata-se

de uma sintaxe com uma lógica bastante peculiar e marcada por uma estrutura compacta, telegráfica), a extensão e complexidade do tópico impede que nos detenhamos

em uma exemplificação mais detalhada. Optamos, então, pela simples menção a alguns dos processos mais freqüentes empregados neste setor`e a enumeração de palavras

pertencentes à mesma classe gramatical e ao mesmo campo semântico, que introduz uma ruptura na estrutura sintagmática do discurso, e contribui para uma espécie de

neutralização da oposição entre prosa e poesia; a inversão da ordem tradicional dos vocábulos e sintagmas na oração, que constitui talvez o traço mais erudito do

estilo do autor e o responsável, em grande parte, pelo rótulo que diversos críticos quiseram emprestar-lhe de neobarroco; e o uso de orações justapostas e construções

elípticas, típicas da linguagem oral, que revelam uma preferência acentuada pela coordenação sobre a subordinação e por um tipo de estilo fluido, linear e direto.

No plano lato sensu do discurso narrativo, foram incontáveis as inovações introduzidas por Guimarães Rosa em sua busca de uma nova expressão. E, em todos os casos,

a atitude foi semelhante: a eliminação dos elementos gastos (excessos descritivos, abundância de pormenores irrelevantes, uso de recursos cristalizados) e a exploração

das potencialidades do discurso. Aqui, porém, devido à amplitude e complexidade do assunto, que transcendem nosso objetivo, faremos apenas uma referência à metalinguagem,

empregada abundantemente ao largo de toda a sua produção. Este recurso, que funciona como um sinalizador do caráter de frccionalidade da obra, inscrevendo Guimarães

Rosa na linhagem autoconsciente da ficção

INTRODUÇAO GERAL / PREFÁCIO 17

brasileira, tão bem representada, entre outros, por Machado de Assis, encontra expressões variadas nos textos rosianos, que se estendem desde a simples interrupção

da narrativa para dar lugar a comentários sobre a própria técnica até a inserção de toda uma reflexão teórica sobre o processo de criação artística. Neste último

caso, o corte efetuado na linearidade do discurso chega a atingir uma tal dimensão, que a reflexão introduzida adquire o sentido de verdadeira ais poetisa, como

nos episódios do desafio inserto, por um processo de mire en abyme, no conto "São Marcos" de Sagarana, nas estórias da Joana e do Grivo, nas novelas "Manuelzão"

e "Cara-de-Bronze", de Corpo de baile, e finalmente nos prefácios de Tutaméia, que, embora dotados de certa independência, formam junto com os contos um todo coerente

e harmônico.

Mas apesar do papel que a busca de uma nova expressão literária desempenha na obra de Guimarães Rosa e da importância de sua revolução da linguagem no panorama da

literatura brasileira contemporânea, não é este o único aspecto de sua narrativa que domina o interesse dos críticos. Escritor regionalista no sentido de que utiliza

como cenário de suas estórias o sertão dos Gerais, e como personagens os habitantes dessa região, o autor transcende os parâmetros do Regionalismo tradicional ao

substituir a ênfase até então atribuída à paisagem pela importância dada ao homem - pivô de seu universo frccional. Enquanto em uma narrativa regionalista tradicional,

seja ela de tipo exótico ou de natureza crítica, a paisagem ocupa o centro da obra e o homem é relegado a plano secundário como mero representante da região em foco

(ele é o gaúcho ou o sertanejo, por exemplo), na ficção rosiana ele constitui o eixo motriz e a paisagem é vista através dele. O homem não é mais retratado apenas

em seus aspectos típicos ou específicos, mas antes apresentado como um ser múltiplo e contraditório e em tantas de suas facetas quanto possível. Do mesmo modo, o

sertão, a paisagem que dá forma a suas narrativas, é não apenas a recriação literária de uma área geográfica específica, tanto em seus aspectos fisicos quanto socioculturais,

mas também, e principalmente, a representação de uma região humana, existencial, viva e presente na mente de seus personagens - uma região que só pode ser definida

como uma espécie de microcosmo.

Os personagens que integram o universo frccional de Guimarães Rosa, desde os contos de Sagarana até as narrativas densas e condensadas de Tu taméia, são figuras

extraídas do sertão mineiro, onde o autor nascera e se criara, e que constitui o cenário de suas estórias. Mas, em momento algum, eles se instituem como meros tipos

representativos dessa região. As marcas regionais estão presentes em sua configuração e se refletem o tempo todo na maneira como se relacionam com o mundo, em seu

próprio jeito de ser, mas nunca a ponto de determinar a dimensão de seu viver. A perspectiva determinista, responsável pelo cunho de unilateralidade com que se cons-

JOAO GUIMARAES ROSA / FICÇAO COMPLETA

truíram protagonistas de romances naturalistas e que ainda encontrou terreno fértil em muitas obras da geração de 193O, não tem mais lugar na narrativa rosiana.

Aqui, homem e natureza, longe de constituir duas entidades distintas, freqüentemente postas em conflito, são antes os dois lados de um todo integral que se complementam

um ao outro. Os heróis de Guimarães Rosa continuam a ser tipos no sentido de que expressam seu caráter coletivo - sua região ou sociedade e a função que desempenham

neste contexto - em cada um de seus atos, mas eles transcendem sua tipicidade pela ampla dimensão humana de que são dotados.

O protagonista rosiano, que abarca ambas as condições de tipo e de indivíduo, e cuja tipicidade se revela através de sua própria individualização no universo narrativo,

fica bastante evidente se contrastamos, por exemplo, o jagunço Riobaldo, do Grande sertão: veredas, com o "tipo jagunço", tão comum na ficção regionalista brasileira



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